Ocupa TB: em reunião curta e sem diálogo, impasse entre Garotinho e artistas

Uma reunião curta e sem diálogo. Assim foi aquela que, iniciada alguns minutos antes, se encerrou pouco depois das 11h da noite de ontem, entre o secretário de governo de Campos, Anthony Garotinho (PR), e os artistas de Campos que ocupam o Teatro de Bolso Procópio Ferreira desde o último dia 9 (relembre aqui).
Mais uma vez acompanhado do líder rosáceo na Câmara Municipal, vereador Mauro Silva (PSDB), e do vice-prefeito Dr. Chicão (PR), além de todo o estafe da cultura do governo Rosinha Garotinho (PR) — à exceção da presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patrícia Cordeiro, mais uma vez ausente —, Garotinho perguntou aos artistas qual era a pauta. Foi respondido pelo advogado Alexis Sardinha (PT), que a pauta era aquela protocolada na Prefeitura de Campos, divulgada pelo blog aqui.
Garotinho propôs, então, que se discutisse a pauta. Alexis respondeu que não estava autorizado a lê-la, mas que a ocupação do Teatro permaneceria enquanto seus 11 itens não fossem atendidos integralmente, com a publicação de cada um em Diário Oficial (DO). O secretário de Governo disse que, se era assim, não tinha porque estar ali para o debate, levantando-se e se retirando com seus acompanhantes.
Por telefone, após a reunião, o vereador Mauro Silva lamentou ao blog que, “por intransigência, se tenha perdido uma chance ao debate e chegado ao impasse”.
Com informações do jornalista Celso Cordeiro Filho
Ocupa TB estabelece a pauta da reunião às 22h com Garotinho
“Cadê a pauta?”. Feita e repetida várias vezes, em provocação aos artistas de Campos que ocupam o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, na segunda reunião (aqui) com o Governo Anthony Garotinho (PR), este teve hoje sua resposta por escrito e protocolada junto à Prefeitura de Campos.
Em cima dos 11 pontos estabelecidos pelos artistas, o debate se dará para daqui a pouco, a partir das 22h, no Teatro de Bolso (TB). Quem acabou de confirmar o encontro foi o líder rosáceo na Câmara Municipal, vereador Mauro Silva (PSDB). Além dele e Garotinho, deve participar mais uma vez o vice-prefeito Dr. Chicão (PR), pré-candidato governista a prefeito como Mauro.
Aqui, na página do Ocupa TB e abaixo, a pauta da classe artística ao governo Rosinha Garotinho (PR):

1 – Administração compartilhada, ficando a cargo da Associação#OcupaTeatroDeBolso a administração artística do Teatro, como pautas, projetos internos e divulgação, através de um contrato de concessão de direito real de uso do espaço. E a cargo da Prefeitura, os serviços de manutenção, limpeza, alvarás de licença, técnicos de luz e som, etc.
2 – Criação de um Fundo do Teatro de Bolso Procópio Ferreira para destinar 1% do IPTU e do ISS para fomentar atividades artísticas do teatro a ser administrado democraticamente pelos artistas.
3 – Até que este fundo seja criado por lei, solicitamos repasse de verba fixa para despesas oriundas da gestão artística do teatro via crédito adicional no Orçamento Público (LOA 2016), no valor de (trinta mil reais)R$ 30.000,00 /mês, conforme contrato que será proposto pelo Coletivo #OcupaTeatroDeBolso.
4 – Que todos anteprojetos de lei apresentados pelos artistas sejam encaminhados à Câmara pelo Gabinete da Prefeita em regime de Urgência.
5 – Destinação 2% do IPTU e ISS para o Fundo Municipal de Cultura (Fundo Geral)
6 – Destinação de 50% da receita dos aluguéis dos equipamentos culturais do município para Fundo Municipal de Cultura — Cepop, Trianon
7 – Reforma e manutenção da parte técnica e estrutura física do teatro permanentemente.
8 – Reativação dos demais aparelhos culturais do Município que encontram-se fechados: Museu Olavo Cardoso, Palácio da Cultura, Solar do Colégio e Casas de Cultura.
9 – Apresentação, no prazo previsto pela Lei Federal de Acesso a Informação do contrato celebrado entre a Prefeitura de Campos e a empresa responsável pela reforma do teatro, já devidamente protocolado no Gabinete da Prefeita.
10 – Presidência Integral do Conselho Municipal de Cultura por um membro da Sociedade Civil.
11 – Criação de uma pasta exclusiva para a Cultura (secretaria de Cultura).
Venâncio pede calma a Pudim em caso de irmãs mortas após HGG

Aqui, por meio da sua assessoria, o deputado estadual Gerado Pudim (PMDB), também pré-candidato a prefeito de Campos, divulgou que ontem solicitou a investigação do caso da morte das irmãs Ana Vitória Cândido Silva e Joyci Cândido da Silva, respectivamente de 1 e 6 anos de idade, após serem atendidas e liberadas no Hospital Geral de Guarus (HGG) — relembre o caso aqui. O deputado encaminhou pedido de intervenção na Saúde Pública de Campos à Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro, à Chefia de Polícia Civil e à comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
Pois, hoje, a resposta a Pudim por parte do secretário de Saúde de Campos, Geraldo Venâncio, chegou ao blog. Em nome do contraditório, ao qual este “Opiniões” está sempre aberto, sobretudo num caso tão grave, confira abaixo:

— Mais uma vez o deputado Pudim, pré-candidato declarado, que não tem programa de governo nem proposta, tenta fazer críticas à Saúde Pública de Campos. Esse caso das irmãs que faleceram foi uma tragédia. O diagnóstico presuntivo é de meningococcemia. Uma doença extremamente grave, infecciosa e devastadora. Estamos apenas aguardando os laudos da perícia que foi feita para que possamos dar a posição oficial da secretaria de Saúde. Sugiro ao deputado Pudim que se acalme um pouco e aguarde — recomendou Geraldo.
Rede de solidariedade ao Ocupa TB cresce no Rio e nos EUA
Cresce a rede de solidariedade à ocupação do Teatro de Bolso Procópio Ferreira pela classe artística de Campos. Após já ter colhido (aqui e aqui) o apoio de nomes de peso no cenário nacional, como Tonico Pereira e Milton Gonçalves, agora é a vez dos artistas campistas que integram o coletivo cultural Errante, no Rio de Janeiro, e do cantor e bailarino Pericles Emmanuel, radicado há anos nos EUA, também se manifestarem.
Aqui e aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, ou em suas reproduções abaixo, confira o eco do Ocupa TB na voz da galera do Errante e no canto do Pericles:
Cíntia Cristina — Da narração à opinião, a indignação
Não conheci Cíntia Cristina Ribeiro Alcino, 45 anos, professora e bacharel em Direito, que peregrinou 7 horas pela rede de Sáude Pública, municipal e estadual, e privada de Campos, sem conseguir atendimento devido, até morrer na tarde do último domingo (15). E não preciso!
Aqui, na narração do jornalista da Folha Marcus Pinheiro, o fato. Aqui e abaixo, na opinião do jornalista e blogueiro Fernando Leite, a indignação que, em nome de uma humanidade comum, também tem de ser minha e sua, leitor:

Que a morte de Cíntia não seja em vão
Por Fernando Leite
Chorei enquanto colhia as informações sobre a morte de Cíntia Cristina Ribeiro Alcino, bacharel em Direito, integrante da Ong Orquestrando a Vida, uma pessoa do bem, daquelas que é fácil a gente gostar, amada por sua família e por seus amigos.
Não, não vou chafurdar na lama da demagogia. Ela não merece isso, sua família e seus amigos ainda a estão velando. Mas não posso me limitar ao texto frio, jornalístico, fático, porque nele não cabem o sonho e os planos de alguém que mantinha acesa a crença de uma vida longa e feliz.
Alguém que cumpriu um calvário, lutando pela vida, num Município com orçamento bilionário, encravado numa planície, matriz da maior bacia petrolífera do continente e a menos de 300 quilômetros da cidade maravilhosa, São Sebastião do Rio de Janeiro, capital de um dos estados mais importantes e desenvolvidos do País.
A morte gratuita de Cíntia nos adverte sobre uma verdade cruel: hoje, foi ela e amanhã, pode ser qualquer um de nós.
Sobre nossa fragilidade paira um modelo de atendimento de Saúde necrosado, seletivo, aviltado e que presta-se a dar números à estatísticas eleitorais.
Quando deveria ser universal, racional, detalhista, inclusivo e, sobretudo e sobre todos, MAIS HUMANO.
Mais não demora e assistiremos, pela TV, um Rio do primeiro mundo, com trens pontuais, segurança sob os blindados do Exército, tudo no padrão Olimpíadas. Quando eles querem, eles fazem.
Quanto a nós, bem, podemos continuar a chorar nossos mortos ou erguer a bandeira da indignação civil e construir uma nova forma de cuidar do que é nosso, do que é de todos, como uma Saúde pública decente.
Até, Cíntia.
Atualização à 0h48: Aqui, a jornalista Suzy Monteiro foi a primeira na blogosfera goitacá a denunciar o caso.
Vida e obra de Cauby por Savio e Chico
Há pouco, o radialista Savio Gomes enviou seu testemunho da vida e da obra de Cauby Peixoto (1931/2016), morto hoje aos 85 anos, a quem meu pai, ele próprio dotado de afinada voz de baixo, dizia ser o maior cantor do Brasil. Orgulhoso de uma das fonotecas mais completas da planície goitacá, sobretudo do período conhecido como Era do Rádio (no Brasil, entre as décadas de 40 e 50 do século 20), na qual Cauby despontou para o sucesso, segue abaixo o texto sentido do Savio, acompanhado da música que Chico Buarque escreveu ao grande crooner:

Por Savio Gomes
Fiquei sentido com a morte de Cauby Peixoto.
Estou sentido com a morte de Cauby Peixoto.
Ídolo e ícone da Música Popular Brasileira de várias gerações.
Cauby nasceu para a Música com a qual viveu durante 70 anos, sem jamais traí-la, sem jamais haver sido desleal, desigual.
Meus pais o admiravam, minha mãe o conheceu pessoalmente no tempo em que ele iniciava a sua carreira e era conhecido por poucas pessoas. Ele sempre foi amável e parava para conversar com quem o abordasse.
Na matéria da TV que anunciou a sua morte, as pessoas entrevistadas disseram que nestes 8 dias em que esteve internado, mesmo respirando mal, ainda assim cantava para as pessoas no hospital.
Foi para outras paragens o nosso rouxinol Cauby Peixoto, foi juntar-se à Dalva de Oliveira, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Nelson Gonçalves, Elis Regina, Ary Barroso, e tantos outros!
Para o mundo, apagam-se as luzes do cantor Cauby Peixoto, mas renascerá, sempre, em nossos corações.
Morte de irmãs liberadas do HGG — Pudim aciona MP, Polícia Civil e Alerj

O deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB), primeiro-secretário da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), protocolou hje (16) três pedidos de providência ao procurador-geral de Justiça, Marfan Martins Vieira, à presidente da comissão de Segurança da Alerj, Martha Rocha, e ao Chefe de Polícia Civil, Fernando Veloso, respectivamente. Os pedidos solicitam intervenção das autoridades e investigação rigorosa no caso da morte das irmãs Ana Vitória Cândido Silva e Joyci Cândido da Silva, após serem atendidas no Hospital Geral de Guarus (HGG), em Campos.
O caso gerou grande comoção na cidade e levantou suspeitas sobre a malversação de medicamentos por agentes de Saúde. “Embora não seja nossa intenção acusar ninguém levianamente, é necessário que todas as suspeitas sejam apuradas com a mais absoluta isenção, seja pelo esclarecimento acerca das reais causas dos óbitos, seja pela identificação do responsável por esta tragédia, caso haja um. A família e a sociedade cobram celeridade e muita correção na elucidação das causas destes trágicos acontecimentos. Eu, como pai de 6 filhos e avô de 4 netos não podia ficar calado diante de um caso desse”, afirmou o parlamentar.
O caso
Na última quarta-feira (11/05), quando a mãe de Ana Vitória e Joice levou as filhas ao Hospital Geral de Guarus (HGG), as duas com apresentando caso de febre.
A mais nova, Ana Vitória, foi atendida primeira. Após avaliar Ana Vitória a pediatra prescreveu uma injeção de Dipirona e receitou Amoxicilina. Enquanto a mãe, Marinês, estava saindo com o bebê, recebeu uma ligação da escola de Joyci, avisando que a mesma apresentava quadro de febre. A diretora da escola levou Joyci até o HGG, ao encontro da mãe e da irmã, onde ela foi atendida pela mesma pediatra e tomou mesma injeção que a irmã mais nova. As duas foram liberadas.
No final da tarde, o pai percebeu que Ana estava sem apetite e prostrada, ele e a mãe decidiram levá-la à Unidade de Pronto Atendimento (UPA), no caminho Ana vomitou e deu entrada na unidade com parada cardiorrespiratória. Na UPA, os médicos tentaram reanimar a criança, mas ela veio a óbito.
Enquanto os familiares estavam ainda chocados com a morte de Ana Vitória, receberam a notícia que Joice também estava vomitando e a levaram para a UPA. Apesar dos esforços da equipe médica para reverter o quadro, a criança só piorou, morrendo na madrugada desta quinta-feira (12/05).
Fonte: Assessoria do deputado Geraldo Pudim
Artigo do domingo — A espetacular ocupação do Teatro de Bolso de Campos

Por Ocinei Trindade (*)
Brasília pegando fogo com a votação no Senado Federal pela saída de Dilma Rousseff da Presidência da República, o cacete verbal baixando sobre ela, Lula e o PT na tribuna, e em Campos, um grupo de artistas tenta escrever uma página na história política do município também. Desde o dia 9 de maio (aqui), o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, fechado há quase três anos por conta de um ar-condicionado sem reparos, foi ocupado por atores, estudantes, ativistas e artistas em geral. O governo e seus gestores que andam com a popularidade em baixa são confrontados e desafiados. A arte do diálogo pode mesmo revolucionar e transformar atitudes ruins ou equivocadas de um governo?
Entro pela porta lateral do Teatro, converso com alguns ocupantes para saber do movimento. De repente, sai de lá Adeilson Trindade, legendário ator que virou funcionário do TB. Se despede com aquela agitação de sempre para uma reunião no Trianon. Quando entro, um grupo de artistas muito jovens, desconhecidos por mim em sua maioria, monitoram as redes sociais com postagens sobre a ocupação, uma espécie de relatório em tempo real do que acontece. Elis Regina toca em algum rádio de fundo. Entre os rostos conhecidos, estão os atores Adriana Medeiros, Rosângela Queiroz, Pedro Fagundes e a produtora cultural e ativista Livia Amorim. O clima é tenso, mas duas jovens se revezam ao violão e na percussão na beira do palco, oferecendo uma certa descontração.
Lembrei da primeira vez que entrei no Teatro de Bolso, em 1990. O prédio caía aos pedaços. O lugar não tinha boa fama à época, território de subversivos, marginais, intelectuais e jovens artistas sonhadores desde o regime militar. Fui para entrevistar João Vicente Alvarenga, diretor lendário de espetáculos na casa, e que futuramente iria assumir cargos de confiança nos governos Garotinho, para mais tarde romper com este, tornando-se um desafeto e crítico. Penso: “o artista e o político são quase sempre incompreendidos, por que será?”. Dizem que Campos é uma cidade de opressão e perseguição. Liberdade de expressão aqui tem seu preço. Todavia, políticos e artistas têm tanto em comum (interpretam papeis, assumem outras personalidades, ocupam o lugar do outro ficcionalmente, têm como objetivo atingir e convencer o público), que me surpreende quando não há diálogo entre eles.
Faz tanto calor que eu abri os botões da camisa e deixei o peito à mostra. Alguém achou sexy e eu respondo que fui obrigado a ser. Alexandre Ferram, ator, me cumprimenta. O artista plástico e estudante universitário Victor Santana me convida para uma oficina de arte na parte de cima do prédio. Agradeço, mas estou bem ali sentado na quarta fileira, na cadeira 12, assistindo ao que acontece e puxando pela memória as tantas vezes que entrei naquele teatro. A segunda vez foi em 1991 ou 1992 quando o lugar foi reaberto ao público após uma reforma. Garotinho ou Anthony Matheus era o prefeito. Foi uma era brilhante, entusiasmada e jovial aquele seu primeiro governo. Todos depositavam nele muitas expectativas. Hoje nem tanto, creio. Na reinauguração, o espetáculo de Gianfrancesco Guarnieri, Um grito parado no ar. Diversos grupos teatrais se revezavam nos mesmos papeis a cada cena. Foi lindo.
Pessoas curiosas com a ocupação entram no Teatro vigiado por alguns guardas municipais e se surpreendem. Acham que o prédio está mal-conservado, sujo e extremamente quente, apesar de alguns ventiladores improvisados e portas e janelas abertas. É bonito ver os artistas, sobretudo os adolescentes e jovens, fazendo algo que acreditam para mudar uma realidade para melhor. Apesar de tantas crises morais e éticas na política brasileira, eu achava que em um município tão rico como Campos dos Goytacazes merecia estar com sua auto-estima mais elevada com o patrimônio que possui, além de poder contar com pessoas dispostas a colaborar e a realizar projetos nas áreas educacional e cultural. Mas todos se queixam. Se sentem desprestigiados e banidos. Um teatro fechado há três anos tirou o espaço de vários artistas locais, preteridos pelos atores globais que vez ou outra se apresentam no ainda nobre Trianon.
Quem acabou de chegar foi o pintor e artista plástico João de Oliveira, acompanhado da esposa. Lívia Amorim explica sobre a ocupação e as atividades exercidas pelo grupo. Alguns estão se revezando na faxina e retirada de sacos de lixo. Fico pensando quantos talentos Campos possui na literatura, dramaturgia, música, dança, poesia, artes de rua e circo, mas muitos estão escondidos ou desagregados. Fechar o teatro é uma sabotagem, uma afronta, convenhamos. E o dinheiro público previsto para a manutenção desse patrimônio? Em 1999, o Teatro de Bolso passou por outra reforma. A grande dama Tônia Carrero fez a reinauguração com casa vazia numa noite chuvosa e fria. Outros espetáculos com nomes de expressão nacional foram realizados com a participação do cantor Danilo Caymmi, dos atores Cristina Pereira, Leonardo Vieira, entre outros. Há uns dez anos, entrevistei o genial, icônico e emblemático diretor Amir Haddad que realizou uma oficina para atores no TB. Áureos tempos aqueles. Dizem que a cultura morreu em Campos, mesmo com tanto dinheiro no orçamento bilionário proveniente dos royalties do petróleo (que agora vale cada vez menos). O diretor teatral Fernando Rossi e a pianista e educadora Beth Rocha entram no espaço e cumprimentam os presentes que se espalham na coxia e no palco.
Agora quem chegou foi o vereador Mauro Silva (aqui), além de um representante fardado da Guarda Municipal. Eles escutam dos ocupantes reclamações sobre o tratamento hostil que teriam recebido por parte de alguns guardas que cumpriam a ordem de retirar todos os ativistas do teatro no primeiro dia de ocupação. O chefe da Guarda reage com humor e diplomacia e faz um aceno de desculpas. Mauro Silva traz a mensagem de Garotinho que quer conversar com uma comissão em seu gabinete. Há um pequeno atrito na conversa com integrantes que rejeitam conversa em gabinete fechado. Atrás deles, os atores Thiago Eugênio e Pedro Fagundes passam um texto de uma cena teatral que vão exibir mais tarde. Um deles exclama na interpretação: “canalhas, canalhas, todos são uns canalhas…talvez eles estejam de saco cheio…”. É o teatro. Tudo isto acontece no palco e eu ali assistindo tudo em silêncio. Parece ficção, mas é real. É real, mas parece ficção. Há um intervalo e Mauro Silva me cumprimenta. Peço desculpas por estar de camisa aberta devido ao calor. O gentil vereador não se ofende e comenta: “esse ar-condicionado vai ser consertado, vamos resolver isso…”
Em conversa com Mauro Silva, os ocupantes dizem ter uma pauta para tratar com a prefeita Rosinha ou com o secretário de governo, Garotinho. Lívia Amorim fala que os artistas têm uma série de insatisfações e reivindicações, a começar pela apropriação e utilização do espaço coletivo do teatro. Mauro Silva diz estar disposto a promover a interlocução. Adriana Medeiros disse que a ocupação não é brincadeira e que todos os representantes políticos são bem-vindos para dialogar com os artistas. Ela cita a visita na noite anterior da vereadora Auxiliadora Freitas. Mas todos se queixam da falta de diálogo com a presidente da Fundação Cultural, Patrícia Cordeiro, desaprovam sua gestão e alguns afirmam que ela não têm competência, mas que mesmo assim é mantida no cargo por Rosinha e Garotinho, ex-atores e ex-integrantes de grupos teatrais da cidade. “Cadê Rosinha? Cadê Patrícia?”, perguntam.
As frases vão sendo proferidas e o tom de voz aumenta por parte dos manifestantes: “Este é um ato político sim, mas sem arranjos partidários”; “As pessoas estão se empoderando”; “O governo criou uma barreira com quem é opositor ao governo”; “A arrogância e a elitização prevalecem nos espaços públicos como o Trianon e o Cepop onde são cobrados ingressos caríssimos”; “Carnaval em Campos não acontece há dois anos”; “O projeto cultural de Campos é vergonhoso”; “As pessoas que assumiram o poder se tornaram duras, insensíveis, por quê?”; “Não queremos conversar com os gestores fechados em gabinetes, mas aqui no teatro publicamente”; “Queremos o teatro funcionando a todo vapor”; “Patricia é uma covarde, Rosinha é covarde, Garotinho é covarde”. Os ânimos se exaltam e um impasse se instala. Como resolver?
Em assembleia, os artistas ocupantes reiteram a decisão de não saírem do teatro para conversar com Garotinho em seu gabinete. Telefonemas, discussão interna, nervosismo, algum choro descontrolado acontece devido à pressão das autoridades, mas a palavra é mantida: “Que venha Garotinho, mas que seja de preferência o artista e não o político Garotinho”. Daí, eu penso: mas não são coisas sinônimas?
Tenho fome. Lembro de um chocolate dentro da bolsa. Na embalagem do bombom está escrito; “Surreal”.
Sarau e performances foram programados. Fui embora para casa. Quando chego, tarde da noite, pelas redes sociais fico sabendo que Garotinho apareceu (aqui, aqui e aqui) para negociar com os artistas e ouvir suas considerações e reivindicações. Parece ficção, mas é real. Ou melhor, surreal. A vida e arte se imitam e tentam não se limitar. Meu senso crítico está ocupado.
(*) Jornalista e poeta
Artigo publicado aqui, no blog “Ocinei escreve”, republicado aqui, neste “Opiniões”, e hoje (15) na edição impressa da Folha da Manhã
Rede de apoio à ocupação do Teatro de Bolso cresce fora de Campos
Não foi só o ator campista Tonico Pereira que se solidarizou (aqui) com a ocupação e reabertura do Teatro de Bolso Procópio Ferreira pelos artistas de Campos. A partir da mobilização do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão (Sated), nomes como o diretor José Cisneiro, velho conhecido do TB, além dos atores Milton Gonçalves e Jorge Coutinho também gravaram depoimentos em apoio ao movimento.
Confira abaixo:



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