Ética, democracia e política — Porque ser otimisma com o Brasil
Em meio a tanto discurso descerebrado e raivoso de um lado e do outro também, a análise do Brasil de hoje pelos filósofos Mário Sérgio Cortella e Luiz Felipe Pondé, o historiador Leandro Karnal e o jornalista Gilberto Dilmenstein, é um bálsamo. Para começar a semana bem, com esperança crítica no futuro do país, não deixe de assistir essa conversa sobre ética, democracia e política:
Imprensa internacional não vê golpe no impeachment de Dilma
Depois que os vice-líderes do governo no Senado, Hélio José ( PMDB-DF) e Wellington Fagundes (PR-MT), revelaram que votarão favoráveis ao entendimento das “pedaladas” fiscais de Dilma Rousseff (PT) como crime de responsabilidade, parece haver pouca dúvida de que o afastamento da presidente se consumará, provavelmente, ainda na primeira quinzena de maio. Assim como, à luz do sol real, não pode haver dúvida sobre a legalidade do processo de impeachment, depois que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Carmem Lúcia, Celso de Melo, Gilmar Mendes e até Dias Toffoli, ex-advogado do PT, endossaram a constitucionalidade do rito.
Então, por que a imprensa estrangeira estaria ecoando a versão do “golpe” em andamento no Brasil? A resposta é simples: Não está! Na verdade, se trata de falácia travestida de veraz pela repetição preconizada por Joseph Goebbels (1895/1945), ministro da propaganda nazista, permeando a opinião de quem a forma apenas na guerra de contrainformação das redes sociais. Nestas quem vem desempenhando (aqui) um trabalho fantástico é o jornalista Pedro Doria, espargindo as sombras do achismo passional com a luz da informação e do equilíbrio.
Para quem sabe discernir dentro da mídia o que é noticiário (narração impessoal do fato) e o que é opinião (análise do fato) e, dentro desta, é capaz de distinguir entre a opinião do veículo e uma opinião individual do opinador, o artigo do Doria transcrito abaixo é definitivo. Tanto mais se o leitor conseguir sê-lo em inglês, castelhano, alemão e francês, para conferir em cada link, por conta própria, como o processo de impeachment de Dilma tem, de fato, repercutido no mundo que enxerga uma crise profunda do Brasil, não “golpe” — com as aspas devidas dadas pela revista inglesa The Economist e os jornais estadunidenses Washington Post e New York Times.
Leia:


A imprensa estrangeira não vê Golpe
Por Pedro Doria
Há uma imensa confusão rondando as redes sociais a respeito do que dizem ou não os jornais estrangeiros a respeito da crise brasileira. Tornou-se comum, por algum motivo misterioso, afirmar que lá fora há um movimento condenando o que a presidente Dilma Rousseff chama de “golpe”. Não é verdade.
Qualquer jornal ocidental divide o que publica em dois grupos. Há notícia e há opinião. Notícias são matérias (mais curtas) ou reportagens (longas, em geral com apuração de fôlego) que saem do trabalho de um ou mais repórteres que tentam relatar os fatos e como as opiniões se dividem a seu respeito. Opinião é outra coisa. Há editoriais (a opinião do jornal), colunas (pessoas que o jornal contrata para manifestar sua opinião com frequência) e artigos avulsos, para quando alguém tem uma opinião para manifestar. Por fim, ali no meio do caminho entre a notícia e a opinião, estão as análises, que sem manifestar uma preferência pessoal tentam ajudar o leitor a compreender o contexto no qual um fato se dá.
É assim que se organizam jornais brasileiros, do resto das Américas e da Europa.
Um dos textos que mais vem circulando é The Real Reason Dilma Roussef’s Enemies Want Her Impeached (aqui), publicado pelo Guardian. É um artigo de opinião avulso, assinado por um cidadão brasileiro, David Miranda. Não é a opinião do jornal. É a opinião de um brasileiro.
O Guardian manifestou sua opinião em editorial: A Tragedy and a Scandal (aqui). Nele, o jornal aponta aqueles que considera responsáveis pela crise em que nos encontramos: “transformações da economia global, a personalidade da presidente, o PT ter abraçado um sistema de financiamento partidário baseado em corrupção, o escândalo que estourou após as revelações e uma relação disfuncional entre Executivo e Legislativo”. Sem poupar a Câmara ou Eduardo Cunha, em nenhum momento o jornal britânico sequer cita o termo “Golpe”.
Outros dois órgãos de imprensa importantes se manifestaram em editoriais.
O do Washington Post (aqui) começa assim: “A presidente brasileira Dilma Rousseff insiste que o impeachment levantado contra ela é um ‘golpe contra a democracia’. Certamente não o é.” A partir daí, desanca tanto o governo Dilma quanto o Congresso Nacional. O único elogio que os editorialistas do Post conseguem fazer ao Brasil é que, no fundo, “este é um preço alto a pagar pela manutenção da lei — e, até agora, esta é a única área na qual o Brasil tem ficado mais forte.”
A revista The Economist (aqui) também se manifesta a respeito do impeachment. “Em manifestações diárias, a presidente brasileira Dilma Rousseff e seus aliados chamam a tentativa de impeachment de Golpe de Estado. É uma afirmação emotiva que move pessoas além de seu Partido dos Trabalhadores e mesmo além do Brasil.” Seguem os editorialistas: “A denúncia de Golpes tem sido parte do kit de propaganda da esquerda.” O tom é este. O título: When a “coup” is not a coup. Aspas da revista. Para a Economist, o problema é que Dilma perdeu a capacidade de governar e, em regimes presidencialistas, quando isso ocorre a crise é sempre grave.
O principal jornal espanhol, El País, não publicou editorial a respeito do Brasil. Mas seu antigo correspondente e ainda colaborador, Juan Arias, escreveu (aqui) uma análise. “Aquilo que para o governo e seus seguidores no PT é visto como um Golpe, para a oposição parece uma oportunidade de mudança de rumo político após 13 anos de poder.” Arias ressalta que Eduardo Cunha está envolvido em escândalos de corrupção, observa que há polarização política cada vez mais aguda mas, em momento algum, endossa a versão do Governo. Esta é a opinião do PT e pronto, não que a oposição seja inocente. Juan Arias, aliás, além de muito simpático está naquele time A de correspondentes estrangeiros, que conhece o Brasil profundamente.
A cobertura estrangeira é boa, é detalhista, com muita frequência põe o dedo em nossas feridas mais abertas. Nenhum dos editoriais de grandes veículos é superficial. E nenhum compra a ideia de que há um Golpe em curso. Basta lê-los.
Atualização em 24 de abril:
Desde que este texto foi publicado, comentaristas trouxeram algumas outras menções na imprensa estrangeira como contra-argumento. As mais relevantes envolvem um “pedido de desculpas” do francês Le Monde, um artigo na revista alemã Spiegel e a entrevista que Glenn Greenwald concedeu a Christiane Amanpour, da CNN.
A CNN não publica editoriais, não manifesta opinião formal. Amanpour, nascida na Inglaterra de família iraniana, é uma de suas principais estrelas e tem, como de praxe, autonomia editorial. Ninguém dá pitaco no que aparece em seu programa. Sua experiência de cobertura se concentra em leste europeu e, principalmente, mundo islâmico, na faixa entre norte da África e Ásia Central. O relevante, na entrevista (aqui), não é sua opinião (que, aliás, ela não dá). É a opinião de Glenn Greenwald, um jornalista americano premiado e que mora no Brasil.
Greenwald tornou-se conhecido após dar valor e trazer a público as revelações de Edward Snowden a respeito da espionagem digital da NSA americana. O Prêmio Pulitzer, mais do que merecido, não é o único de sua carreira. Seu tipo de jornalismo vem de uma longa e importante tradição americana, a dos muckrakers, de militância não raro solitária de reportagem investigativa. Em geral, seu lema é speak truth to power. Correm risco pessoal para desafiar o poder instituído, principalmente governos. Sua especialidade jornalística está no encontro entre liberdades civis e tecnologia.
Glenn vive no Brasil, conhece o país e fala português com bastante fluência. Seu marido, David Miranda, é quem assina o artigo no Guardian. Quase todas as menções que se posicionam ao lado do governo brasileiro no endosso do termo ‘golpe’ na imprensa estrangeira vêm de ambos. Não é a opinião da imprensa. É a opinião de Greenwald e Miranda, que são simpáticos aos governos de Lula e Dilma e concordam com a leitura que o PT faz do Brasil. Eles não veem uma briga entre bandidos. O que veem é uma briga em que há mocinhos e bandidos. Seu direito, mas opinião minoritária na imprensa.
A revista Der Spiegel é o mais influente órgão de imprensa em língua alemã. Seu correspondente no Brasil também vê um Golpe de Estado e a revista abriu espaço, em seu site, para que ele publicasse um artigo de opinião (aqui) a este respeito. Aqui vou com bastante cautela: não há nenhum indício de que a revista tenha publicado o artigo, não há editorial com posição formal do Spiegel — mas não falo alemão e, portanto, posso estar errado. Ao que parece, é a opinião pessoal do correspondente. Tem peso, ele é o jornalista escolhido para compreender o Brasil. Mas segue sendo uma opinião pessoal.
Frank Nouchi, editor responsável por intervir em nome dos leitores no francês Le Monde critica (aqui) o segundo editorial (aqui) publicado pelo jornal a respeito do Brasil, Brésil: ceci n’est pas um coup d’Etat, que afirma não haver um Golpe em curso no país. Nouchi considera a cobertura boa mas o editorial pouco equilibrado. Suas críticas, porém, não questionam a conclusão. Sugerem o jornalisticamente óbvio: os editorialistas não levaram em conta o outro lado e passaram batidos pelo envolvimento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, em escândalos seus. Nouchi não pede desculpas, como sugerem alguns. Tampouco o Monde mudou de opinião. O que o ombudsman cobra é um editorial mais parecido com o dos outros veículos, capaz de mostrar por inteiro a cara do fundo do poço brasileiro.
O New York Times, em nota dos editorialistas (aqui) aqui, limita-se a informar que Dilma considera seu impeachment um “golpe”, aspas do jornal.
A opinião da imprensa internacional segue sendo a mesma: o Brasil está no fundo do poço, mas não há golpe em curso.
Artigo do domingo — Bela, recatada e do lar


Por Marcelo Amoy (*)
“Bela, recatada e do lar”: uma expressão que mais desvela quem reage do que define a retratada (por mais que o faça bem).
Pelas minhas “investigações”, a (vice?)-primeira dama parece caber na definição. E qual o problema? O que há de errado com o fato dela ser bela, recatada e do lar? Pelas reações mais frequentes, o “problema” estaria no fato de que as mulheres, hoje em dia, não se vêem mais nesse papel — e que tal definição remete àquelas propagandas publicitárias dos anos 50, 60 e 70, quando a alegria suprema e o sonho mais vibrante de qualquer mulher seria ganhar, no dia das mães, um liquidificador potente ou uma batedeira turbinada. Quem sabe um fogão novinho em folha? Por isso, a reportagem estaria “enaltecendo um retrocesso” no papel que a sociedade espera das mulheres. Gente… isso é uma grande bobagem!
Acho fantástico que as mulheres tenham conquistado novos horizontes e torço para que conquistem, cada dia mais, novas maneiras de serem “muito mais” do que mães e donas de casa sempre que desejem. A luta pelos direitos das mulheres é justa e digna — e sempre poderá contar comigo! Só não contem comigo para condenar as mulheres que prefiram “se limitar” a ser mães e donas de casa. Eu defendo a liberdade individual e, por isso: que cada uma leve sua vida como desejar. Se a História é um rolo compressor que segue sempre em frente, apesar de tantas vontades por aí, porque temer (trocadilho involuntário, rsrsrs) uma reportagem? Alguém realmente acredita que muitas mulheres executivas deixarão seus postos de trabalho para voltarem a pilotar fogão só porque a Marcela assim decidiu?
Em segundo lugar, vi críticas cujo foco estaria mais no uso do termo “recatada”, como se seu emprego determinasse consciência de valor sobre alguma “virtude” inerente às mulheres assim descritas em detrimento das outras, “não-recatadas”. Para esses críticos, o “problema” estaria ligado mais à liberdade sexual das mulheres do que àquele entendimento do termo que significa, apenas, timidez, reclusão ou desejo de não sobressair, de não aparecer ou de se comportar de acordo com a ocasião.
Por mais que nossa sociedade ainda seja sexista (e, lamento constatar: ainda o será por muitas e muitas décadas), nós, pessoas esclarecidas, sabemos que as mulheres conquistaram, já faz tempo!, o direito de exercerem sua sexualidade como melhor lhes aprouver — e as valorizamos por isso também! Sempre haverá sexistas buscando “mulheres recatadas pra casar”, mas sempre haverá Homens que buscam Mulheres independentes, seguras de si, que sabem quem são e pra onde vão e Livres de qualquer escravidão sexual. Fora isso… recato não devia ser palavrão num país cuja sociedade desconhece quando deve parar de rebolar até o chão na boquinha da garrafa. Para homens e mulheres, recato deveria ser um Norte, um Valor — o que nem de longe nem de perto significa submissão.
Além disso, em grande parte, o que vi foram críticas cujo foco não estava em nada disso… São críticas “transferidas” para a Marcela por aqueles que desejam atingir Michel. Por que ninguém chama de sexistas essas pessoas que, para atingir o marido, alvejam a esposa? Não faltaram críticas e gozações a essa mulher por parte dos inconformados com o fato do marido dela ser quem vai suceder Dilma após o impeachment. O ranço e o cheiro da mágoa, do despeito e do ódio empesteiam essas críticas. Esse contingente não merece considerações.
Por fim, houve quem entrasse na brincadeira como eu mesmo: que o fiz sem qualquer crítica; só pelo prazer de brincar também. No final das contas… a brincadeira foi ótima!
Mas foi triste constatar que o que mais tinha era gente criticando a Marcela porque queria criticar:
1) a Veja;
2) o Temer;
3) o impeachment;
4) a beleza da Marcela;
5) o fato dela ter escolhido ser “do lar”; e
6) o fato dela preferir não aparecer nem sobressair do que houve gente verdadeiramente comprometida em respeitar o fato de que as mulheres já conquistaram o direito de serem aceitas e admiradas de acordo com as escolhas que fizeram para suas próprias vidas — o que inclui o direito de Marcela ser “bela, recatada e do lar”.
(*) Marcelo Amoy é tradutor
Publicado hoje (24/04) na Folha da Manhã
Lava Jato caminha no Supremo e em CPI na Câmara de Campos

Por Aluysio Abreu Barbosa
A Lava Jato é só uma questão federal? Foi o que alegaram os vereadores governistas de Campos no último dia 12, para negarem o requerimento da oposição pelos contatos firmados entre o governo Rosinha Garotinho (PR) e a empreiteira Odebchecht, que construiu as 6,5 mil casas do “Morar Feliz”, no valor total de quase R$ 1 bilhão dos cofres públicos municipais, e fez doações tanto a Rosinha, quanto ao seu marido e atual secretário de Governo, Anthony Garotinho (PR), e à sua filha e deputada federal, Clarissa Garotinho (PR). Apreendidas pela Polícia Federal (PF) em 22 de fevereiro, na 23ª fase da operação Lava Jato, as planilhas com as doações da Odebrecht aos Garotinho e cerca de 300 políticos brasileiros de 22 partidos, com e sem foro privilegiado, foram encaminhadas pelo juiz federal Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba (PR), ao Supremo Tribunal Federal (STF). Lá, o ministro Teori Zavascki encaminhou as listas à apuração preliminar e devolveu a Moro as investigações relativas à primeira instância, segundo informou ontem o portal de notícias G1. Enquanto isso, na Câmara de Campos, a oposição já conta com as nove assinaturas necessárias à instalação da CPI da Lava Jato.
Em Brasília, o material será agora analisado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que decidirá se pede ou não a abertura de inquéritos sobre os políticos com foro privilegiado mencionados na lista. Do Planalto Central à planície goitacá, depois de derrotada em mais um pedido de informação ao governo Rosinha, a oposição coletou as nove assinaturas para abrir a CPI da Lava Jato. Ela será endossada pelos vereadores Nildo Cardoso (DEM), Rafael Diniz (PPS), Gil Vianna (PSB), Alexandre Tô Contigo (PRB), Fred Machado (PPS), Zé Carlos (PSDC), Dayvison Miranda (PSDC), Genásio (PSC) e Marcão (Rede), que pediu os contratos do governo Rosinha com a Odebrecht, negado pela situação, e agora vai propor a CPI. Por sua vez, em Curitiba, Sérgio Moro deve se aprofundar na investigação do “Setor de Operações Estruturadas”, um departamento exclusivo dentro da Odebrecht para o gerenciamento e pagamento de propina.
Se não se sabe ainda quais caminhos a investigação das planilhas apreendidas na Lava Jato seguirá entre o STF, a Procuradoria Geral da República (PGR) e a temida Vara Federal de Curitiba, na Câmara de Campos já se conhece o obstáculo que a CPI da Lava Jato deverá encontrar por parte dos governistas. Em 23 de junho de 2015, o vereador Marcão quis aprovar a CPI do Rombo, relativa à “não existência física” de R$ 109.819.539,37 nos cofres da Prefeitura, segundo auditoria feita pelo próprio governo Rosinha sobre seu primeiro mandato (2009/12). No entanto, numa tumultuada sessão, os governistas entraram com um projeto de última hora para mudar o regimento interno da Casa, limitando as CPIs em duas por vez, jogando a investigação do rombo rosáceo para o fim da fila.
Assim, na próxima sessão da Câmara de Campos, os vereadores governistas devem manobrar para evitar a CPI da Lava Jato, inventando outras duas e colocando-as à frente. Até que tenham definido como farão isso, é possível que impeçam a realização de novas sessões, como chegaram a fazer depois que as planilhas da Obebrecht, com os nomes de Rosinha, Anthony e Clarissa Garotinho foram divulgadas pela mídia nacional em 23 de março. Dali em diante, para tentar esfriar o assunto e armar uma estratégia de enfrentamento, os rosáceos manobraram para impedir o quórum das quatro sessões seguintes, até 12 de abril, quando finalmente negaram o acesso aos contratos entre a Prefeitura de Campos e a Odebrecht.
Planilhas com quem assinou “Morar Feliz”
As planilhas com as doações da Odebrecht a políticos agora destinadas pelo ministro Teori Zavascki à apuração do STF, encaminhadas à PGR e devolvidas em parte a Sérgio Moro, foram apreendidas pela PF na cidade do Rio, na residência do então presidente da empreiteira, Benedicto Barbosa da Silva Júnior. Foi ele quem assinou, junto com a prefeita Rosinha, o contrato da primeira etapa do “Morar Feliz”, em 1º de outubro de 2009, para construção de 3,5 mil casas, no valor de R$ 357.963.677,57.
A publicação do resultado da licitação em Diário Oficial só se deu em 23 de setembro de 2009, tendo sofrido vários adiamentos depois que a coluna de opinião “Ponto final”, da Folha da Manhã, antecipou desde 29 de maio que a Obebrecht seria a ganhadora, quase quatro meses antes da divulgação oficial. A coluna revelou ainda que o ex-secretário municipal de Obras e então coordenador da mesma secretaria, Antonio José Petrucci Terra, o Tom Zé, havia trabalhado na Odebrecht antes de ingressar no governo Rosinha.
Essa primeira etapa depois receberia aditivos da Prefeitura, entre janeiro de 2011 e março de 2012, no valor total de R$ 96,4 milhões. Em 28 de fevereiro de 2013, bem no começo segundo mandato de Rosinha, a segunda etapa do “Morar Feliz” foi assinada novamente com a Odebrecht, para a construção de 4,5 mil casas, no valor de R$ 476.519.379,31, mas foi abandonado pela construtora por falta de pagamento da Prefeitura. A empreiteira levou no total R$ 996.434. 912,43 dos cofres públicos de Campos.
No inquérito assinado pelo delegado da PF Filipe Hille Pace, fica claro o papel de Benedicto como elo do dinheiro que circula entre a Odebrecht e os políticos: “É possível verificar que Benedicto é pessoa acionada por Marcelo (Bahia Odebrecht) para tratar de assuntos referentes ao meio político, inclusive a obtenção de apoio financeiro”. Após a apreensão das planilhas em sua casa, Benedicto cumpriu os cinco dias de prisão temporária em Curitiba, sendo liberado ao final por Moro, em 26 de fevereiro, com a condição de não deixar o país ou mudar de endereço.

Publicado hoje (24/04) na Folha da Manhã
“Homenagem ao Jean Wyllis” — Zé de Abreu cospe na cara de homem e mulher

Ontem, após ver em nota do jornalista Lauro Jardim a maneira agressiva e desrespeitosa com que o ator José de Abreu usou o Twitter para tratar o educador e senador Cristóvam Buarque (PPS), ex-governador de Brasília pelo PT e um dos pouco homens de bem que restou na política deste país, escrevi uma postagem aqui. Ainda não sabia que o xará e grande amigo do ex-ministro e hoje prisioneiro da Justiça José Dirceu (PT), havia discutido num restaurante com um casal em São Paulo, também na noite de ontem.
No vídeo que viralizou na internet, já iniciada a discussão, Abreu canta o hino nacional em tom irônico, antes de se dirigir de pé à mesa do casal. Ao ser chamado de “safado” pela mulher, ele cuspiu na cara dela e depois na do acompanhante, enquanto ambos estavam sentados. O homem, que seria um advogado carioca, se levantou revoltado e teve que ser contido pelos seguranças do estabelecimento, enquanto trocava provocações e xingamentos com o ator.
Em várias postagens no Twitter (aqui) sobre o assunto, José de Abreu se referiu ao casal como “fascistas” e se vangloriou por ter cuspido tanto na cara do homem, quanto na da mulher. Ao dizer que ambos “merecem cusparada na cara”, ele ofereceu o ato “em homenagem (ao deputado federal) Jean Wyllis” (Psol).
Fez alusão ao cuspe de Wyllis sobre o colega Jair Bolsonoro (PSC), no último dia 17, durante a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) na Câmara Federal. Bolsonaro havia feito provocações verbais homofóbicas ao parlamentar do Psol, que revidou com a cusparada, sendo alvo da mesma reação por parte do também deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSC), filho de Jair.
Um pouco antes, ao votar a favor do impeachment de Dilma, Bolsonaro pai disse tê-lo feito “pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra”, comandante do DOI-Codi de São Paulo entre 1971 e 74, no auge da repressão da Ditadura Militar (1964/85), reconhecido por várias vítimas e declarado pela Justiça paulista como torturador. Por sua vez, em seu voto contrário ao impeachment , Wyllis se referiu àqueles que o aprovavam como “canalhas”.
Em relação ao ocorrido de na noite de ontem entre o casal e Zé de Abreu, a maioria das reações, na própria conta de Twitter do ator, foram de condenação, com ofensas e até ameaças físicas. Na certeza da ultrapassagem dos limites de civilidade de lado a lado, a preocupante dúvida sobre onde isso tudo pode terminar, com o país em grave crise econômica e passionalmente dividido por um impeachment presidencial que parece não ter volta.
Confira abaixo alguns dos twetes do ator se ufanando por ter cuspido na cara do homem e da mulher com quem discutiu, bem como de alguns dos comentários feitos, a maioria pouco amistosos, além do vídeo da confusão:




Fabio Bottrel — Minha homenagem aos senhores dessa terra
Sugestão para escutar enquanto lê (Youtube): Oração aos Orixás – José Siqueira
https://www.youtube.com/watch?v=w9X_6Pn2RB0

“Se todos os insetos desaparecessem da Terra, dentro de cinquenta anos toda a vida desapareceria. Se todos os humanos desaparecessem da Terra, dentro de cinquenta anos toda a vida floresceria.”
(Jonas Salk, 1914/1995)
Vi a mão de minha mãe cortar o vento apontando ao longe o rio banhando a terra até onde meus olhos não podiam alcançar. Os pássaros cantavam e dançavam sob o sol escaldante enquanto eu brincava e corria me afundar nas imensas águas límpidas. No caminho ia cumprimentando as árvores que mais gostava, colocando apelidos como fazia com os bichos, mas havia tantas árvores quanto grãos de areia e nem sabia se as que cumprimentava eram as apelidadas. Sentia as pedrinhas bem pequeninas beliscando meus pés a cada passada forte dada em direção ao rio.
Perto de mim, numa trilha da floresta, ouvia os rapazes vangloriando Pedra do Sol por ter deixado na beira da praia um enorme tubarão pego no braço, enfiando tão forte um pedaço de pau boca adentro do bicho e arrancando com a mão suas entranhas. Havia tanta fartura de comida, pois nem se importaram em levar o belo tubarão para casa, arrancaram-lhe os dentes lá mesmo e amarraram bem forte na madeira de suas flechas com tiras de couro bovino. No caminho de volta pra casa colheram ervas venenosas e caminhavam passando o veneno nas pontas das flechas, como sempre faziam.
Na tribo, vi o alvoroço que foi quando os garotos chegaram carregando um objeto estranho, até então nunca visto. Era um pedaço macio, aparentando couro, mas era suave como algodão e tinha alguns buraquinhos como se tirinhas bem fininhas de algum tecido fossem se enrolando uma na outra até resultar naquele objeto. Era avermelhado e tinha quatro buracos grandes, sendo um maior embaixo, um menor em cima, e um em cada lado de tamanhos iguais. Os meninos haviam achado no caminho de volta para a tribo e vinham animado com a nova descoberta, enfiando o corpo dentro, que ficava todo tapado. Logo começou a correria com outros querendo enfiar o corpo naquele pedaço de coisa esquisita. Quando olhei para o cacique de nossa tribo, meu sorriso saiu sem perceber, enquanto a fogueira soltava fiascos de madeira acendendo a noite cacique olhava preocupado, provavelmente imaginando quem trouxe aquela peça para tão perto de nossa aldeia.
Durante todos os dias seguintes as rugas do rosto de cacique estiveram intactas, sem expressão, o que angustiou aos mais velhos da tribo, enquanto os mais novos continuavam brincando com o objeto desconhecido. Não demorou para a preocupação se materializar, após doze luas todos os rapazes começaram a pipocar. Suas peles criaram tantos caroços cheios de uma coisa amarela que se punham a sangrar enquanto eles coçavam sem parar, era feio de ver, ficavam tão quentes que era possível sentir o calor quando se aproximava deles. Logo todas as suas famílias começaram a ficar do mesmo jeito e cacique teve certeza do demônio que fora trazido com aquela peça. Fizemos uma fogueira, queimamos até o último fio e depois enterramos o local para que não sobrasse nada. Cacique também proibiu todos nós de aproximarmos dos mordidos pelo espírito ruim. Eles ficavam afastados, numa área delimitada pelos mais velhos da aldeia. A maioria de nossos guerreiros estavam possuídos, logo começaram a morrer, morte muito feia, como se a pele quisesse fugir do corpo.
Não demorou para que os demônios se personificassem, no amanhecer de um dia triste colocamos nossos ouvidos na terra para sentir um batuque tão forte que nunca ouvíramos, até o vento estava diferente, tinha cheiro esquisito. Cacique mandou todos os guerreiros se juntarem, mas haviam muitos possuídos, que o demônio não deixava guerrear. Logo o fim da vista ficou todo borrado de tanto cavalo e gente esquisita montada, todos com o peito tapado de peça que trouxe os espíritos ruins e bradando uma vara pontiaguda de metal. Estávamos muito doentes para lutar contra os espíritos ruins, mas não arredamos pé, éramos conhecidos pela bravura, erguemos o peito e avançamos.
Oh Tupã, quanta tristeza. De pele estourando, nossos guerreiros chorando, nossa honra foi degolada antes que os demônios chegassem até nós.
Oh Tupã, quanta tristeza. Ver meu pai, sinhô, com uma lança atravessada no pescoço. Quanta tristeza, quanta tristeza, chorar a minha mãe menina com buraco nas costas da explosão de vida finda.
Sentada ao lado da minha mãe menina eu vi todo o meu povo morrer, os mais fortes e que não foram possuídos, eram acorrentados. Eu gritava até acabarem as lágrimas, até a voz ir tão longe pra Tupã escutar, fui a única criança a sobreviver. Me acorrentaram junto dos moços, e chorei mais quando deixei os corpos ainda quentes dos meus pais e de meus amigos com um olhar indiferente pra mim. Caminhamos muito, e quando não aguentei um dos guerreiros me carregou no colo.
Quando paramos de caminhar vimos uma enorme construção de barro branco nunca visto, com cercados de madeiras que não entendíamos pra que, mas era bonito de ver, e vários buracos também com madeira nos seus entornos. Lá de dentro saiu um casal com peças grandes do espírito ruim, a pele era clarinha tanto quanto o barro branco e tinha mais um monte de pele bem escura e cabeça baixa. Somente os espíritos ruins riam, os que ficavam próximos entristeciam. Todos da minha tribo sabiam que estávamos defronte ao monstro para qual sempre pedíamos a Tupã nos afastar, mas Tupã deve estar com a pele pocando também ou deixou de gostar d’a gente.
Sentimos medo quando os demônios desceram da construção e vieram até nós com os tristes carregando uma coisa circular fazendo sombra pra pele doente. Apertou a gente nos braços, abriu a boca pra ver os dentes e quando chegou a mim, parou, abaixou, acariciou meus longos cabelos lisos. Eu tentava me esconder atrás da perna do guerreiro e ficava brava d’eles não guerrearem, não entendia que estavam cansados e lhe foram roubada a dignidade. O espírito ruim me puxou e apertou meu corpo, não entendia por que ele me apertava naqueles lugares enquanto a mulher com a boca tão vermelha e viva, que parecia carne sangrenta em vez de beiço, me olhava com tanto ódio que teria qualquer bicho com o beiço sangrando.
Os moços da minha tribo foram para uma oca quadrada grande de madeira muito feia e suja, vi quando eles foram jogados com chutes ainda acorrentados e percebi que espírito ruim não tem honra. Queria ficar junto da minha tribo, mas fui a única a ser separada. Gritei muito antes que me pusessem num cômodo frio, sem buraco de madeira, todo escuro e ali eu me agachei e esperei Tupã, montado no trovão, vir buscar seu chão. Mas quando tudo escureceu, quem apareceu foi o demônio carregando o fogo na mão, que saía de uma vareta branca.
Todas as noites com o dente rente eu gritava
Sou Filha da Natureza
Tire de mim essa corrente
Meu corpo é goitacá
E não crescerá sua semente!
Nunca cheguei a conhecer minha beleza, desde pequena fora usurpada, agora tantos anos sem ver o sol, ainda grito enquanto o demônio aperta minha cabeça contra o barro branco todas as noites:
Sou Filha da Natureza…
Grito enquanto minhas lágrimas mancham as mãos que me apertam
Tire de mim essa corrente…
Grito enquanto me falta o ar pelas batidas na minha barriga
Meu corpo é goitacá…
Grito enquanto sou preenchida de veneno
E não crescerá sua semente…
E quando o espírito ruim vai embora carregando a luz na mão, deixando a escuridão, meu corpo escorre no barro até meus joelhos dobrarem encharcados das sementes do pele doente, e meu desejo de ver o sol grita com as minhas unhas grandes cortando a pele da palma da mão AHHHHH com os punhos cerrados AHHHHHHHH com os seios machucados AHHHHHHHHHH com as lágrimas em cascatas AHHHHHHHHHHHHH até meus cabelos saírem nas mãos AHHHHHHHHHHHHH.
Quando o último brilho da minha pele foi ofuscado, quando restaram apenas as cicatrizes e as rugas, quando toda a minha beleza se esvaiu, fui posta ao campo para trabalho, já moça. Ao ver o sol e toda a paisagem minha vista virou apenas um borrão, havia esquecido de como era e logo depois podia ver os detalhes a distância, me encantava com cada curva do mato, com as carícias do capim no meu corpo tão maltratado. Percebi meu rosto molhar, eram as lágrimas vindo olhar também. Ainda podia reconhecer alguns dos guerreiros da minha tribo, já velhos, puxando cana junto com os burros. Eram poucos, muitos morreram.
Como meu corpo estava fraco, me colocaram para colher algodão, mas o sol era quente e havia desacostumado, minha pele estava tão sem cor que cheguei a pensar se já não estava morta também. Os primeiros dias foram duros, mas logo meu corpo se acostumou a toda aquela luz. Os pés de algodão ficavam ao lado d’onde fiquei tanto tempo trancada, o que me fazia tremer sempre ao chegar os pés de algodão mais próximos. O espírito ruim que sangra pelo beiço sempre fica a me olhar que parece o sangue subir para os olhos. Depois olha para o demônio da mesma maneira enquanto ele também me olha. Eu tentei por vários dias compreender aquele sentimento, mas não consegui entender, é tudo tão diferente, tentei falar com um dos tristes, moço por que essa gente é tão demente, mas das nossas bocas saem sons diferentes e ninguém me entende, só os da minha tribo.
No dia seguinte, enquanto colhia os algodões, o espírito que sangra pela boca desceu e veio até mim, me rodou, me olhou, e foi-se falar com o outro espírito de couro na cabeça protegendo a pele doente do sol e um chicote pra bater no meu povo quando estivermos cansados. Eu não entendia o que diziam, tampouco eles me entendiam. O espírito de couro na cabeça não parava de me olhar enquanto ela falava, todos me olhavam com raiva e eu não entendia. Oh, Tupã, quanto ódio nasce nesse povo!
Naquela noite o espírito de couro na cabeça me levou para a construção de madeira que eu passara a dormir desde então, apoiou o fogo da mão num toco ao lado e me empurrou para a parede, tirou uma faca, apertou em meu pescoço, e enquanto meu sangue jorrava eu disse minhas últimas palavras, feliz por voltar pra minha terra:
— Meu sangue cai onde é meu lar.
Vá se embora d’aqui moço, não é seu lugar.
Logo após a minha morte, foi tanta dor, tanta dor, tanta dor, meu sinhô, que os antigos guerreiros da minha tribo junto com os tristes não suportaram tanta dor, de peito exposto enfrentaram todos da construção de barro branco e conseguiram sua honra de volta. O casal de espírito ruim foi encurralado e morreram antes de medo, Pedra do Sol enfiou-lhe um pedaço de pau tão forte boca’dentro e arrancou-lhe as entranhas com a mão. Muitos dos tristes e da tribo morreram no confronto, os poucos que restaram morreram logo depois de doença diferente. Anos depois, seus corpos adubaram o solo e deles nasceram lindas flores que harmonizaram o barulho dos rios límpidos, dos pássaros livres… a paz… jaz… az… z… .:.
No caso de dúvida, fica a certeza sobre o Abreu xará do Dirceu

Embora o tenha na conta de bom ator, confesso que há algum tempo passei a nutrir asco à figura pessoal de José de Abreu, não pelo ideário, mas pela maneira acrítica (de si) e odienta (do outro) com que milita politicamente. Amigo fiel do seu homônimo José Dirceu (PT), ora hospedado no sistema prisional de Curitiba, que mês passado teve seu registro de advogado cassado pelo Conselho Federal da OAB, o Abreu resolveu encarnar o vilão na vida real contra o educador e senador Cristóvam Buarque (PPS), ex-governador do PT em Brasília, onde foi um dos criadores do Bolsa-Família.
Cristóvam usou sua conta no Twitter para aconselhar Dilma Rousseff (PT) a parar de insistir no discurso de golpe, que a (ainda) presidente voltou a usar hoje com jornalistas em Nova York, ameaçando seu próprio país (aqui) com sanções econômicas do Mercosul e da Unasul, caso o Senado confirme a clara tendência de considerar crime de responsabilidade as “pedaladas” fiscais com as quais o governo federal quebrou o Brasil e tentou maquiar. Pois, em resposta ao senador, o ator xará do Dirceu usou também o Twitter para mostrar o lado mais canastrão da sua cidadania:
— O @Sen_Cristovam deveria parar com esse discurso de querer calar a Dilma. Censura rima com ditadura. Que velhinho babaca!
Se há dúvida sobre quem é o babaca nessa história, uma certeza: José de Abreu tem 69 anos.
Abaixo as duas postagens:

Fonte: Lauro Jardim
Tomou susto com a Câmara Federal? Bem vindo ao Brasil!
E se você é um daqueles que se surpreendeu, em 17 de abril de 2016, com o nível de uma Câmara Federal empossada desde 1º de janeiro de 2015, o desabamento ontem (21/04) de parte da ciclovia Tim Maia, na cidade do Rio de Janeiro, provocando a morte de duas pessoas cujos corpos foram dar na praia de São Conrado, diante de banhistas impassíveis que continuaram a bater sua bolinha no feriado de Tiradentes, é mais uma chance para finalmente apresentá-lo, caro leitor:
— Bem vindo ao Brasil!

Pela engenharia da História, onde foi que nos perdemos?

Na democracia irrefreável das redes sociais, não demorou para que fosse feita a associação entre o viaduto Rei Alberto, construído em 1920, e a ciclovia Tim Maia, inaugurada em 17 de janeiro deste ano da Graça de 2016. O primeiro, erguido em homenagem ao rei da Bélgica que visitava o país naquele início o século 20, teve sua estrutura exposta depois que caiu parte da passarela da ciclovia, ontem, matando duas pessoas e expondo a diferença na qualidade de duas obras separadas por 96 anos.
Se impressiona quantas ressacas já suportou o viaduto de quase um século, diante da fragilidade fatal demonstrada pela ciclovia em pouco mais de três meses, a elegância dos três arcos romanos desnudos da primeira construção remetem a outra, muito mais antiga e também ainda de pé contra a força das águas. Erguida no século I d.C., a Ponte Romana da belíssima cidade de Córdoba, no sul da Espanha, oferece passagem segura há dois mil anos entre as duas margens do rio Guadalquivir.

Com seus 16 arcos na mesma sensualidade das curvas do viaduto carioca, a Ponte Romana de Córdoba tem 247 metros, quase a mesma extensão da Barcelos Martins (270 m), sobre o rio Paraíba do Sul. Construída em 1847, a ponte campista também vai muito bem, obrigado.

Desde o tempos dos antigos romanos, cruzando sobre as águas os séculos 19 e 20 até este início do 21, mesmo para quem não conheça nada de engenharia ou História, a pergunta que parece óbvia é: onde foi que nos perdemos? E em nome de quê?
A cara da aliança PT/PMDB na cidade das Olimpíadas
Depois do Alemanha 7 a 1 Brasil (relembre aqui), a cara da aliança PT/PMDB na cidade das Olimpíadas, ao custo de duas vidas humanas:

Guilherme Carvalhal — Moedas douradas

Para cada golpe dado, Ezequiel guardou uma moeda. Depositou a primeira aos dezesseis anos quando embarcava como punguista e deu continuidade quando na mocidade enveredou para o contrabando. Apesar da longa data passando incólume pela lei, mudou de área aos 40 e fez maior sucesso atuando nos bastidores da política.
Reinaldo vacilou antes de quebrar a porca guardada a vida inteira pelo pai. Primeiro, pela natureza escusa de seus atos. A mãe o afastou de sua influência e a lembrança do velho pilantra não passava de memória remota. Segundo, se ele depositou moedas ao longo da vida, provavelmente não havia ali nada de significativo, apenas um punhado metálico sem valor após tantas mudanças de planos econômicos. No máximo amealharia alguns trocados em algum antiquário.
Diante da insistência da esposa, rachou o porco e se surpreendeu. Ao invés de guardar moedas correntes, o velho colecionou pequenas peças douradas cunhadas com suas iniciais, todas em formas bastante semelhantes, seguindo um molde único durante seus 60 anos de atividade. Aí sim ele viu algo de valor.
Após vender o conjunto de moedas em uma casa de penhores, trocou de carro, comprou uma bela casa e ainda aplicou uma quantia em um investimento financeiro, contando em futuramente enviar os dois filhos para a faculdade de medicina. Se o velho não marcou presença durante a vida, pelo menos na morte cumpriu um pouco seu papel de pai.
Quando recebeu o telefonema de Humberto, dono da casa de penhores, não compreendeu ao certo seu questionamento. Explicou que quatro compradores das moedas faleceram poucas semanas após e isso rendeu perguntas por parte da polícia. Nada demais, tendo em vista limitarem-se a casos fortuitos: uma picada de cobra durante uma pescaria no Mato Grosso, uma falha de freio na estrada, um ataque cardíaco e uma queda no banheiro. Não havia correlação alguma, mas mesmo assim o caso chamava atenção pela morte de quatro colecionadores de relíquias em prazo pouco largo:
— Estão amaldiçoadas — disse em tom crente e assustado de quem perdeu bons clientes. O dono chegou a sugerir o destrato desejando retornar a maldição ao antigo dono, mas Reinaldo não estava disposto a abrir mão do seu novo padrão de vida.
Mal esperava pelas consequências. Poucos meses depois, enquanto saía do trabalho para seu horário de almoço, Reinaldo recebeu uma ligação da esposa avisando sobre o desespero de Humberto segurando uma bolsa ameaçando se jogar de cima de um prédio. Correu para as imediações e encontrou os bombeiros tentando convencê-lo a desistir e a multidão em polvorosa gritando “Pula! Pula!”. Ao longe ele lançava seus gritos, porém Reinaldo não conseguia captar suas palavras, essas abafadas pelo clamor da multidão. Então Humberto abriu sua bolsa e começou a jogar as moedas, iniciando uma forte confusão entre as pessoas, essas caindo ao chão e se digladiando para catá-las. Lançou-se e se acabou em meio àquele tumulto.
As palavras da viúva após o velório soando a desabafo lânguido provocaram uma atmosfera perturbadora em torno dos ânimos. Ela relatou detalhadamente o infortúnio do marido, cada vez mais apegado àquelas moedas e acompanhando a morte de outras pessoas que as compraram. Então decidiu parar de vendê-las e, nesse ato de loucura, jogou-as e se matou.
A partir daí, Reinaldo estabeleceu a meta de prestar contínua atenção nas páginas policiais e no obituário. Cada acidente de carro, homicídio, doenças fatais súbitas e situações congêneres ele tentava associar a algum dos novos donos das moedas.
Envolveu-se tão ferrenhamente em acompanhar obituários que se aproximou mais da morte e se afastou da vida. Converteu-se em um vulto estranho à própria esposa, sempre envolto em associações e conjecturas estapafúrdias. Apenas após bastante tempo imerso em suas suposições ele conseguiu lembrar claramente do sorriso cínico do pai e sentiu-se mais uma mera peça em seu jogo sórdido do qual o velho não se cansou nem após a morte.

