Depois de convencer como dramaturgo num universo do qual é íntimo, entre as desventuras das salas de aula, o professor e poeta Adriano Moura tem ambientado suas últimas peças fora dos muros escolares. Talvez o equilíbrio da comédia dando fluidez à tragédia do sistema educacional (e manicomial) brasileiro, em peças como “Diário de classe” e “Meu querido diário”, não tenha se repetido em “O julgamento de Lúcifer”, entre o céu e o inferno superficiais de um talk show.
Por isso mesmo, importante conferir o novo trabalho desse talentoso e múltiplo artista das letras campistas, cuja nova peça, “A Matrioska ou o jogo da verdade”, premiada no Festival Nacional de Dramaturgia da Federação de Teatro do Estado do Rio de Janeiro (Faterj), tem pré-estreia marcada para esta sexta (22/05), às 20h, no Sesc-Campos. No palco, nas palavras de Adriano: “Já imaginou um médico que pensa como Jair Bolsonaro, recebendo em sua casa uma atriz decadente usuária de drogas e um advogado gay e seu namorado, para beber, comer e assistir a um jogo do Brasil enquanto as ruas estão tomadas por pessoas protestando contra a taxa de iluminação? As coisas às vezes são o que não parecem”.
Com direção de Fernando Rossi, o elenco traz Caio Paes de Freitas, Daniel Azeredo, Katiana Rodrigues, Liana Velasco e Mayko Gente Boa. Pelo autor, diretor e atores, naquilo que o segundo definiu como “uma comédia corrosiva”, vale a pena a conferida.
Em meio do exercício fútil de vaidades, dos “pastores” de auto-ajuda e demais baboseiras que pululam diuturnamente na democracia irrefreável das redes sociais, felizmente existem aqueles que utilizam a valiosa ferramenta com inteligência na taba goitacá. Um deles é o economista e analista político Ranulfo Vidigal, que divulgou aqui uma correlação interessante, colhida junto aos cariocas pelo instituto de pesquisas GPP, entre a percepção da inflação e a erosão na popularidade da presidente Dilma Rousseff (PT) e do seu antecessor (e criador), Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Como sentenciou James Carville, estrategista eleitoral de Bill Clinton, na campanha vitoriosa deste à presidência dos EUA em 1992: “É a economia, estúpido!”. Na dúvida, confira:
Ranulfo Vidigal
Pesquisa GPP na cidade do Rio de Janeiro – 1200 entrevistados entre 9 e 10 de maio.
1. A avaliação geral de Dilma: ótimo+bom 7,6%, e ruim+péssimo 71,6%.
2. Quando é feito o cruzamento com a Percepção da Inflação os resultados mudam. Os que acham que a inflação anual é superior a 10% dão a Dilma 4,8% de ótimo + bom e 78% de ruim+péssimo. Os que acham que a inflação está perto de 10% dão a Dilma 6,5% do ótimo+bom e 72,2% de ruim+péssimo.
3. Porém, os que acham que a inflação está em 5% ou menos dão a Dilma 23% de ótimo+bom e 46% de ruim+péssimo.
4. Ou seja: elas por elas, a inflação no Rio está tirando uns 30 pontos da avaliação de Dilma.
5. De forma geral, o crescimento da inflação tem impactado negativamente em Dilma e Lula. Ou seja, a inflação é um componente significativo da impopularidade de Dilma e Lula.
Mad Max: estrada da fúria — Depois de três filmes da série “Mad Max” (1979, 1981, 1985), George Miller, aos 70 anos de idade, retorna dirigindo “Mad Max: estrada da fúria”. Sua volta às telas com o personagem que o projetou e a Mel Gibson lhe permitiu se valer de toda a tecnologia que a arte cinematográfica desenvolveu nos últimos 30 anos. O novo “Mad Max” foi filmado em 3D. Nele, as correrias, as perseguições, as lutas são tantas que, confesso, senti falta de um pouco de calma para refletir melhor. É preciso, por um momento, suspender a ação em 3D para pensar mais sobre o roteiro coescrito pelo próprio Miller.
Como os anteriores, “Mad Max” é uma distopia, ou seja, uma concepção pessimista de futuro. Distopia é o oposto de utopia, concepção otimista de futuro. As utopias foram muito frequentes na Europa dos séculos XVI e XVII, mas a tecnologia, que prometeu dias melhores à humanidade, está estimulando distopias, principalmente depois das duas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos sobre o Japão em 1945, encerrando a Segunda Guerra Mundial. Vários são os motivos para a germinação de distopias, no mundo atual, e uma guerra nuclear não é tanto um deles. A superpopulação do planeta, as pandemias e a crise ambiental são campos mais férteis para elas.
“Mad Max” é uma distopia ambientada num futuro em que a humanidade, ou o que restou dela, vive em situação de extrema escassez de terras férteis, de água, de Estado, de governo, de leis e de tudo aquilo que nós ainda denominamos civilização. “Mad Max” é fruto da destruição da civilização pela civilização, que vem, de fato, provocando a esterilidade do solo e a escassez de água. A civilização ocidental globalizada fabrica desertos e esgota as águas. “Mad Max” pode advertir o Oriente Médio e a Rússia, onde os desertos se ampliam, ou o Sudeste Brasileiro, onde a água, outrora abundante, torna-se cada vez mais rara.
Em 1981, o escritor brasileiro Ignácio de Loyola Brandão publicou a distopia “Não verás país nenhum” sobre o Brasil do futuro. Na minha opinião, trata-se do melhor romance futurologista que conheço. E, neste terreno infértil, tenho lido quase tudo que sai no Brasil e no exterior. O romance de Brandão é mais detalhista que “Mad Max”. Na minha avaliação, ele só peca por mostrar que este futuro sombrio está restrito ao Brasil. Nos Estados Unidos, ele já teria se convertido em filme.
Embora distopia, “Mad Max” abriga uma utopia chamada Vale Verde. O herói solitário, sem querer, acaba se juntando a um grupo de mulheres liderado pela imperatriz que persegue este paraíso no meio do caos. Contudo, o herói convence as mulheres que o futuro promissor está no passado, no lugar de onde eles partiram. O filme é também um manifesto feminista que não convence muito num mundo dominado por homens rudes minimamente organizados em classes sociais constituídas por pessoas estropiadas, por guerreiros criados como formigas e por uma elite formada por figuras teratológicas e violentas, sob a égide de fanatismo religioso. Invocando as fábulas fabulosas de Millôr Fernandes, num mundo assim, não há lugar para os bons sentimentos. Todos são seres vivos lutando pela sobrevivência. No máximo, são reconhecidos mulher e homem como seres para os quais o sexo é uma necessidade básica. Mas não há cenas de sexo no filme.
Aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, o professor, poeta e dramaturgo Adriano Moura deu seu testemunho do sucesso do Dia Municipal do Rock Goytacá, em homenagem ao falecido guitarrista Luizz Ribeiro e promovido no último sábado, embaixo da ponte Leonel Brizola (ex-Rosinha), rigorosamente sem nenhum apoio da Prefeitura de Campos, apesar da própria prefeita ter oficializado a data no calendário cultural do município. Um dos organizadores do evento, o Kiko Anderson publicou em comentário a cópia da oficialização do Dia do Rock Goytacá por Rosinha, que na prática não serviu de nada para quem ela mantém à frente da cultura pública do município. Abaixo, o desabafo do Adriano:
Tive ontem (16/05) o privilégio de estar no “Dia do rock goytacá” em homenagem ao músico e compositor Luiz Ribeiro, embaixo do viaduto Leonel Brizola. Tive o privilégio de ouvir bandas como Cântarus, Vibrato, Tubarão Martelo, Eixo Nacional; dentre tantas outras de altíssima qualidade. Evento feito, segundo os organizadores, sem patrocínio público ou privado. Que a presidente da Fundação Cultural de Campos e o “secretário de Cultura” dessa cidade aprendam alguma coisa com esses organizadores, que provaram que pra fazer um evento cultural de qualidade não são necessárias fortunas em cachês pagos a artistas que protagonizam programas de televisão. Basta vontade política e consciência do compromisso com o desenvolvimento cultural do município . Desculpa! Esqueci-me de que consciência e compromisso não é bem o forte de quem se diz gestor dessa Campos “formosa”, “intrépida” e que “ama zona”. Parabéns aos organizadores do evento. Vocês têm muito a ensinar.
Na política pública da cultura de Campos não vale nem o que está escrito e assinado pela prefeita
Divã a 2 — Na última sexta-feira (15/05) participei da III Conferência Municipal de Educação de Campos dos Goytacazes, no Eixo I – garantia do Direito à Educação de qualidade. Debatíamos sobre o cumprimento da lei 13.006/14 que obriga a utilização de, no mínimo, 2h/mês de produção audiovisual nacional, como ferramenta pedagógica nas escolas de educação básica, quando uma participante se manifestou contra e me perguntou se realmente eu teria coragem (?) de exibir filmes nacionais para meus alunos.
Até hoje o cinema nacional é vitima desses preconceitos, apesar de hoje, já não ser mais o mesmo que fora na década de 70, quando apostava no erotismo das pornochanchadas como modo de conseguir público e não tinha técnicos e nem equipamentos de qualidade. Fora que, se a referida moça for campista, sua geração passou infância e juventude com poucas e péssimas opções de salas de exibição e produções cinematográficas — Cine Capitólio com filmes pornôs e de kung fu e as duas salas minúsculas do Turf Centro com seu lendário porteiro antipático e sem isolamento de som —, contribuindo para a falta de informação e desinteresse pela produção nacional.
Contribuição recente para esse desinteresse dá a Total Entertainment quando lança a comédia dramática “Divã a 2”, dirigido por Paulo Fontenelle — de “Se eu fosse você” (2013) e “Se puder…dirija”(2012) — que força a barra e tenta pegar carona no sucesso de “Divã” (2009), que com texto original de Martha Medeiros, autora do livro homônimo e estrelado por Lilia Cabral, levou cerca de 1,8 milhão de espectadores aos cinemas para conferir as desventuras de Mercedes, uma quarentona, com a vida estabilizada, resolve ir ao analista.
Até a identidade visual do cartaz é uma quase cópia do filme original , visando claramente a levar o público ao erro.
No elenco da produção atores globais como a linda morena Vanessa Giácomo — “Jean Charles” (2009) e “Solidões”(2013) — como Eduarda. Rafael Infante — “Muita calma nesta hora 2”(2013), “Viral” e “Refém”(2014) — é Marcos. Marcelo Serrado — “Crô – O filme”(2013), “Rio eu te amo”(2013), “Gabriela”(2012) — como Léo, Totia Meirelles como Cristina, a mãe protetora, além de Fernanda Paes Leme — “O Homem que Desafiou o Diabo”(2007) — que, em excelente forma, convence como Isabel, ensandecida sexual e melhor amiga da protagonista. O que falar sobre as participações especiais (?) de Fiuk e Maurício Mattar? Vergonha alheia.
A trama lotada de clichês e, fórmulas batidas, piadas fracas e situações cômicas mal trabalhadas fica devendo como comédia. Nem o talento de Vanessa Giácomo consegue salvar o casal de protagonistas, já que Rafael Infante não chega a ter cacoete para drama.
O destaque positivo é a qualidade de imagem e som que confirma a melhora de nossas produções nos últimos anos.
Não é filme para ser lembrado ou indicado. Que a companheira da conferência fique tranquila.
De cima para baixo, os economistas e analistas políticos Wilson Diniz e Ranulfo Vidigal
Por Wilson Diniz e Ranulfo Vidigal
As manchetes do jornal Folha da Manhã ilustram uma série de reportagens sobre os desmandos financeiros da Prefeitura de Campos. Prisões na área da Saúde (aqui), perda em aplicações no mercado financeiro de R$ 110 milhões (aqui, aqui, aqui e aqui), queda de popularidade do governo local nas pesquisas (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) e muita retórica, com pouca ação concreta escondendo as verdadeiras justificativas que explicam (aqui) o declínio da receita de R$ 106 milhões no caixa da Prefeitura e que, neste ano, já chega a R$ 268 milhões, decorrente da crise do preço do barril do petróleo.
A titular do mandato eletivo — coadjuvante do seu marido e secretário de Governo Garotinho — deveria ir à imprensa e admitir que durante seu governo, desde 2009, recebeu mais de R$ 17 bilhões de repasses dos royalties do petróleo e aplicou injustificadamente em programas populistas, de baixo grau de resolutividade, ou seja, sem gerar desenvolvimento e emprego formal na indústria e agricultura, além de pouco priorizar a Saúde e a Educação do Ensino Básico no município.
Com jeito dócil e interpretando scripts fragmentados de uma peça estafante escrita por seu marido, disfarça e simula números pouco críveis, que não explicam a incompetência da gestão, em administrar receitas anuais de mais de R$ 2,5 bilhões por ano — uma das 20 dotações mais elevadas entre as 5.550 prefeituras brasileiras.
Sabe ela que prefeituras de cidades com a mesma população têm receitas muito menores, mas apresentam indicadores socioeconômicos muito elevado comparado com o município campista que importou as políticas de Hugo Chaves e de Nicolás Maduro.
Para esclarecer ao grupo desta oligarquia provinciana, que comanda Campos há 30 anos, administrando o caixa da Prefeitura como trampolim para projetos pessoais ambiciosos do secretário de Governo, escolhemos cinco outros municípios para fazermos comparações de como, com receitas muito menores, a cidade poderia ser administrada. Vejamos o rol elencado que optamos para comparações:
O quadro acima serve de lente de aumento para a prefeita e seu marido enxerguem as discrepâncias dos números entre cidades com população, quase semelhantes e com receitas muito menores possuem indicadores da Educação que colocam alguns municípios no ranking entre os melhores do país, enquanto Campos está na posição vergonhosa fotografada na 1.427º colocação.
A cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, destaca-se entre as elencadas. Com a receita de R$ 1.1 bilhões — menos da metade de Campos —, gasta 22% de sua receita na pasta da Educação e ocupa no ranking a 50º posição. E aí, prefeita, como se explica que a cidade governada pelo seu marido, com receita de R$ 2,5 bilhões/ano, está entre as piores cidades do país, comparada a dos grotões do Nordeste?
Como se explica que São José dos Campos gasta R$ 494 milhões na Educação, representando 26% da receita e o seu governo, com tanto dinheiro no caixa, investe apenas 14%?
Quando comparamos Campos com Niterói e Santos, o quadro é mais dramático. As duas cidades estão entre dez melhores no ranking do IDH, enquanto Campos, no IDH da Educação, tem a classificação de 0,61, índice considerado baixo até para cidades do interior do Maranhão governada pela família Sarney.
A nossa elite política governista da capital do açúcar e dos royalties tem que dar satisfação ao povo campista sem falsa retórica, para disfarçar e simular números fictícios na tentativa de justificar tantos desmandos.
Nós assinamos este artigo, com a convicção de estamos dando uma pequena contribuição, ao acalorado debate que se instala na cidade onde a sociedade campista aos poucos, desmascara esta peça de teatro de ópera bufa, interpretada por uma brilhante atriz coadjuvante, mas escrita pelo seu marido secretário de governo.
A fotografia da última pesquisa publicada (aqui) pela Folha da Manhã, prova que o atual modelo de governo de Campos se esgotou. A oposição unida pode ser algoz desse reinado.
Quando atuou para salvar o prédio do antigo Cine São José, como mostra a Folha de 1999, Soffiati contou com a ajuda do Ministério Público Estadual de Campos para preservar o patrimônio arquitetônico e cultural do município. O que mudou de lá para cá?
Historiador, professor, escritor, crítico de cinema e ambientalista Arthur Soffiati
É possível salvar o Mercado?
Por Artur Soffiati
No longínquo ano de 1999, ante o anúncio de demolição do Cine São José, ingressei com representação no Ministério Público Estadual pedindo o cumprimento dos artigos 51 e 52 da Lei Municipal n.º 5.251/91, que instituiu o primeiro Plano Diretor de Campos segundo os ditames da Constituição Federal de 1988. O Plano Diretor não tombou nenhum imóvel, mas arrolou no Artigo 52, para fins de tombamento, vários imóveis, entre eles o prédio do Cine São José.
Foi o quanto bastou para que o Ministério Público Estadual instaurasse um Inquérito Civil que recebeu o número 162/2001, no âmbito da 2ª Promotoria de Justiça da Tutela Coletiva do Núcleo Campos. Graças às diversas audiências públicas promovidas pelo promotor titular, a Prefeitura de Campos criou o Conselho de Preservação do Patrimônio Municipal (Coppam) e tombou os bens imóveis arrolados no atual Plano Diretor, instituído pela Lei nº 7.972, de 31 de março de 2008, além de outros, pela Resolução Nº 005/2013. O imóvel que abriga o Mercado Municipal está incluído na lista promulgada pela Resolução.
A partir de então, as celeumas começaram. A Prefeitura transferiu o camelódromo para o Parque Alberto Sampaio para construir um novo conjunto de boxes. No âmbito do Coppam, os defensores do Mercado propuseram a transferência do Camelódromo para outro local com a revitalização do antigo Mercado e a proteção do seu entorno. A Prefeitura mostrou-se irredutível quanto ao retorno do Camelódromo porque, sempre que contestada, ela entende que está sendo desafiada. Os defensores do Mercado ingressaram com um pedido de tombamento do imóvel pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e, ao mesmo tempo, com uma Notícia no Ministério Público. O Inepac enviou correspondência à Prefeitura e ao MPE solicitando que a primeira não executasse as obras de reforma do Camelódromo e que o segundo aguardasse e decisão do Inepac.
Enfim, o Ministério Público promoveu o arquivamento do inquérito alegando (aqui) que o Inepac não tombou o prédio do Mercado, que o referido prédio já se encontra empachado, mesmo sem o Camelódromo funcionando no lugar em que funcionava, e que a questão deve ser considerada numa perspectiva macro.
Entendo que o Ministério Público ganhou grande autonomia com a Constituição Republicana de 1988, mas é uma instituição cuja função é fiscalizar o cumprimento das leis. Parece não haver pegada indiscutível para a criação de uma área de tutela no entorno do Mercado, mas há. O dispositivo está no Plano Diretor vigente, que foi invocado pelo ato de tombamento dos bens imóveis, mas não especificado.
No artigo 317, lemos: “São instrumentos básicos para a implementação da política de proteção do patrimônio cultural I- Tombamento e a instituição da Área de Entorno do Bem Tombado”. O artigo 321 explicita: “Para a proteção da integridade, ambiência e visibilidade dos bens tombados serão estabelecidas Áreas de Entorno do Bem Tombado, quando couber”. Prossegue o artigo 322: “Entende-se por Área de Entorno de Bem Tombado, aquela área, de domínio público ou privado, que integra e compõe a ambiência dos bens imóveis tombados, que estabelece restrições para garantir a visibilidade do bem e para preservar as construções que guardam, com o bem tombado e entre si, afinidade cultural ou urbanística relevantes para a sua valorização. Parágrafo único – Todos os imóveis incluídos numa Área de Entorno de Bem Tombado serão tutelados pelo órgão executivo do Patrimônio Cultural”.
Concluindo para nosso propósito, o artigo 323 estabelece: “No caso de tombamento provisório de bens imóveis fica instituída, automaticamente, a área de influência do bem tombado, correspondente a um imóvel lateral direito, um imóvel lateral esquerdo e um imóvel de fundos, limitada à dimensão da testada do bem tombado, para proteção cautelar do seu entorno”.
Em resumo, cabe a criação de uma área de entorno no prédio do Mercado. Na verdade, Ministério Público e Prefeitura não foram até o final no processo de tombamento. Cabe agora uma segunda etapa, que consiste na definição da área de entorno dos bens tombados sempre que couber.
Quanto à questão social, lembro que o ex-prefeito Arnaldo Vianna contratou os serviços da Sérgio Moreira Dias, Engenharia, Projetos e Consultorias para projetar e executar várias intervenções urbanísticas. Para o camelódromo, a alternativa encontrada pela firma foram os altos do prédio da Rodoviária Roberto da Silveira devidamente reformados e adaptados à atividade comercial. Apenas a Praça do Santíssimo Salvador foi reformada. Mas a empresa recebeu muito dinheiro pelos projetos.
Não sei se estes dispositivos do atual Plano Diretor foram invocados pelos autores da representação ao MPE ou se o promotor titular (aqui) os levou em consideração. Sei apenas que, em face deles, um novo inquérito deve ser instaurado e debates públicos devem ser promovidos em busca de uma solução que possa atender aos defensores do patrimônio cultural e aos comerciantes do Camelódromo. Afinal, o prédio do mercado é tombado e tem espaço para a proteção do entorno ou área de tutela. Além do mais, ele se situa às margens do Canal Campos-Macaé, tombado pelo Inepac mas coberto no trecho entre a rua Formosa e o Rio Paraíba do Sul. Este trecho deveria ser descoberto. Mas aí já é outra questão.
Após o promotor Marcelo Lessa desconsiderar o apelo do Inepac para aguardar, as polêmicas obras no Mercado Municipal foram imediatamente retomadas pelo governo Rosinha (foto de Valmir Oliveira – Folha da Manhã)
Já tive minhas diferenças, algumas até públicas, com o Fernando Leite. Todavia, isso para mim nunca nublou o fato de se tratar de um grande poeta, dono de capacidade imagética talvez sem par entre os versejadores viventes nesta planície cortada pelo Paraíba do Sul. Sobre o passado conflituoso, à parte a admiração inevitável entre escribas dotados de algum talento, penso que felizmente acabou por prevalecer, para um e o outro também, o juízo dos versos de Lamartine Babo (1904/63) em “Serra da Boa Esperança”, pérola do cancioneiro nacional muito menos conhecida do que merecia: “Sei que Jesus não castiga/ Um poeta que erra”.
Abaixo, a mais nova cria do Fernando, escorrida entre as pernas de um rio fêmea que o poeta fidelense descido a Campos um dia escreveu correr castanho em seus olhos:
Estava agora há pouco editando a Folha Online por telefone junto à jornalista Lohaynne Gregório, quando esbarrei na notícia da morte do B.B. King na madrugada desta sexta, aos 89 anos, vítima de complicações da diabetes. Li seu obituário no primeiro plano da tela do lap top, antes de esticar a vista ainda aturdida à parede da sala ao fundo, onde fica um óleo sobre tela em branco e preto do artista plástico gaúcho Oswaldir, comprado na campista Vox Music, no qual o mestre blueseiro contraí a face e cerra os olhos, num típico transe de solo de blues, enquanto desamarra emoções das cordas da Gibson 335 chamada por ele Lucille, como apelidava qualquer guitarra que tocasse.
King compôs e executou parte da trilha sonora da minha vida, sobretudo no período formativo de adolescência e juventude. Com sua voz e guitarra ao fundo, conferindo profundidade shakespeariana a cada nota, cometi excessos, embalei reflexões, vivi passional como um blues meus amores e desilusões. Nesse processo, no cruzamento dentro d’alma entre o Paraíba do Sul e o Mississipi, ele se tornou alguém próximo, um amigo, um cúmplice, um confidente, um irmão.
Lembro-me de um documentário de Jimi Hendrix (1942/70), quando ele disse que, na sua visão sempre à frente do tempo, o blues dos EUA, onde nascera, tivera em B.B. King seu último grande passo em solo nativo, sendo seguido na pisada seguinte, do outro lado do Atlântico Norte, por um inglês branco com a alma tão crioula quanto a que teve abaixo do Equador nosso Vinicius de Moraes (1913/80): Eric Clapton.
Da música “Ridding wtih the King” (“Andando com o Rei”), que batiza o belo álbum gravado pelos dois em 2000, é com os versos de Clapton feitos não pelo “Deus” da guitarra, mas pelo garoto que como eu e outros tantos, crescemos e viramos homens ouvindo o “Rei”, que deste me despeço com o coração despedaçado, impotente diante aos ditames da vida, como numa letra de blues:
“He’s on a mission of mercy on a new frontier
He’s gonna check us all out of here
Up to the mansion on the hill
Where you can get your prescription filled
Any kind of pills, folks
“We’re on a TWA to the promised land
Everybody clap your hands
Don’t you girls love the way that it seems?
Don’t you know you’re ridin’ with King?
Ridin’ with the King
Don’t you know you’re ridin’ with King?
“Tuxedo and a shiny three thirty five
(That’s me)
You can see it in his face
The blues never lie
Tonight everybody’s getting their angel wings
Don’t you know you’re ridin’ with King?”
“Ele está numa missão de misericórdia para a nova fronteira