Das pesquisas à urna, aos apoios a Bolsonaro e Lula

 

Bolsonaro recebeu ontem o apoio dos governadores reeleitos de Minas Gerais, Romeu Zema; do Rio, Cláudio Castro; e do atual de São Paulo, Rodrigo Garcia, ao lado do líder bolsonarista no 2º turno do estado, Tarcísio de Freitas (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Pesquisas acertam Lula, Castro e Romário

Na última quarta (28), a quatro dias das urnas de 2 de outubro, esta coluna escreveu: “Como fez em várias outras eleições, a Folha tentou retratar esta da maneira objetiva: pelos números das pesquisas. Que não são infalíveis, mas apontam tendências. Baseado nelas, não na torcida, é possível afirmar que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o governador Cláudio Castro (PL) e o senador Romário (PL) chegam na final como franco-favoritos em suas disputas”. Essas três projeções se cumpriram no voto na urna. Castro, no 1º turno, e Romário se se reelegeram. E Lula ficou a apenas 1,5 ponto de definir a eleição em turno único.

 

Pesquisas erram Bolsonaro

Na véspera da eleição, a pesquisa Datafolha deu Bolsonaro com 36% de intenções dos votos válidos, 37% na Ipec (antigo Ibope). Como o presidente passaria ao 2º turno com 43,20% dos votos válidos, entre 6 e 7 pontos a mais do que o projetado nas duas pesquisas, estas passaram a sofrer ataques do presidente e seus eleitores. Que já sofriam antes da urna, por projetarem a liderança confirmada de Lula. Assim como de Castro e Romário. Segundo os responsáveis por Datafolha e Ipec, como de todos os outros institutos de pesquisa do país, o que houve foi a migração do “voto útil” nas últimas 24h a Bolsonaro.

 

O erro do “voto útil”

Diretor do instituto Quaest Pesquisa e Consultoria, o cientista político Felipe Nunes afirmou na quarta (28), quatro dias antes do pleito de domingo, que o “voto útil” ainda não tinha sido registrado pelas pesquisas. E que, se tivesse que acontecer, seria nas 48h ou 24h antes da urna. Como de fato ocorreu. Só que, no lugar de ir para Lula, como queria a campanha petista pelo “voto útil”, foi para Bolsonaro. Como Lula confirmou na urna a mesma liderança das pesquisas, de onde saíram os votos de última hora ao capitão? É só buscar quem mais desidratou entre pesquisas e urnas para saber: saíram do ex-ministro Ciro Gomes (PDT).

 

“A maior burrada eleitoral”

As pesquisas erraram a projeção dos votos de Bolsonaro. E acertaram a liderança de Lula, Castro e Romário. Três acertos são mais que um erro. Justificado pela mesma diferença entre pesquisa e votos de Ciro. Quem criticava antes as pesquisas, só pela torcida contrariada pela liderança de Lula confirmada na urna, ganhou com ela números mais favoráveis a Bolsonaro para justificar seus questionamentos. Como o PT deveria questionar o tiro pela culatra que foi sua pregação pelo “voto útil”. Como escreveu na segunda (3) a jornalista Madeleine Lacsko, em artigo no UOL: “campanha pelo voto útil em Lula é a maior burrada eleitoral que já vimos”.

 

Após urnas, Paulista com… Dilma

Atacar Ciro e seus eleitores, como fazem os lulopetistas que deles precisam mais que nunca, reflete a arrogância de quem não nada aprendeu com o impeachment do desastroso governo Dilma Rousseff em 2016. Ou com a prisão de Lula por corrupção em 2018. Em 2022, a soberba petista endossa os eleitores que, nas 24h antes da urna, saíram de Ciro a Bolsonaro. Após a apuração, ainda na noite de domingo, pressionado por não concluir a eleição no 1º turno, como pela curta vantagem de 5 pontos (48,43% dos votos válidos a 43,20% de Bolsonaro) que levou ao 2º turno, Lula discursou na avenida Paulista. E, quem foi para ouvi-lo, ouviu… Dilma.

 

Romeu Zema

Em contraste com Lula, um Bolsonaro aliviado também falou na noite de domingo. Em Brasília, atacou o Datafolha, como o voto na urna lhe deu direito de fazer. E acenou com compreensão nele incomum com o eleitor pobre que deu confirmou na urna a liderança de Lula mostrada nas pesquisas. Acenou também ao governador mineiro Romeu Zema (Novo), reeleito em 1º turno. Que respondeu já na tarde de segunda, quando em entrevista ao vivo declarou seu apoio ao capitão. E, como empresário, narrou o que qualquer outro empreendedor do Brasil lembra bem: a dor que foi ser obrigado a demitir funcionários pela recessão do governo Dilma.

 

MG, RJ e SP x Ciro

Ontem, na terça, Bolsonaro saiu bem na foto ao receber formalmente o apoio de Zema e Castro, favoritos nas pesquisas confirmados pela urna. E do atual governador paulista Rodrigo Garcia (PSDB). Que, como também mostraram as pesquisas, ficou fora do 2º turno entre o bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos), a quem apoiará, e o petista Fernando Haddad. Se o ex-governador tucano Geraldo Alckmin, hoje no PSB e vice de Lula, não fizer milagre no interior paulista, a tampa do caixão do Sudeste, com 42% do eleitorado do país, pode pesar sobre o PT. E Ciro? Com os 3,04% dos votos que lhe restaram na urna, declarou apoio a Lula.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Reeleito à Alerj, Bruno Dauaire no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Deputado estadual reeleito no domingo (2), Bruno Dauaire (União) é o convidado desta quarta (5) do Folha no Ar, ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele falará sobre a sua reeleição e suas disputas eleitorais particulares com o também deputado estadual reeleito Rodrigo Bacellar (PL) em Campos, e com a ex-prefeita e deputada estadual eleita Carla Machado (PT) em São João da Barra, além de analisar a proposta de bandeira branca do prefeito de Campos e seu aliado, Wladimir Garotinho (sem partido), respondida hoje pelo ex-vereador Marcos Bacellar (SD).

Bruno também analisará as reeleições do governador Cláudio Castro (PL), ainda no 1º turno, e de Romário (PL) ao Senado, no estado do Rio. Por fim, tentará projetar a eleição ao Palácio do Planalto, das urnas do 1º ao 2º turno de 30 de outubro, entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL).

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Bacellar: “Dá para levar a sério bandeira branca de Wladimir?”

 

Marcos Bacellar e Wladimir Garotinho (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Hasteada ontem (3), pelo prefeito Wladimir Garotinho (sem partido), no dia seguinte às urnas de domingo (2), sua bandeira branca com os quatro deputados estaduais eleitos por Campos, sobretudo Rodrigo Bacellar (SD), líder da maioria da oposição na Câmara Municipal, não foi considerada pelo grupo dos Bacellar. Quem disse não foi Rodrigo, que, procurado desde ontem por meio da sua assessoria, preferiu não comentar. Mas seu pai, o ex-vereador Marcos Bacellar (SD) deu a resposta:

— Dá para levar a sério a “bandeira branca” de quem joga vídeo nas redes sociais, fazendo provocação barata na véspera da eleição e, dois dias depois, quer posar de bom moço? A “paz” dos Garotinho é sempre essa: batem num dia, mesmo sem ser provocados, e depois vêm com essa bravata de “bandeira branca”. Wladimir repete a tática manjada do morde e assopra do seu pai. Nunca funcionou comigo, não funciona com nosso grupo político. Falo por mim, não por Rodrigo, com quem só conversei no domingo, após a eleição. E de quem tenho muito orgulho pela sua votação e por tudo que ele tem feito por Campos e região, no governo Cláudio Castro (PL) — disse Bacellar, que ligou para dar sua posição após a “bandeira branca” de Wladimir ser analisada no programa Folha no Ar da manhã de hoje, na Folha FM 98,3.

O vídeo com a provocação velada do prefeito de Campos foi veiculado por ele na tarde do último sábado (1º). Nele, com um adesivo colado na testa, com as candidaturas dos seus aliados Juninho Virgílio (União) a deputado federal, de Bruno Dauaire (PL) a estadual e de Clarissa Garotinho (PL), a senadora, colado na testa, Wlaidmir disse logo no início:

— Tem candidato fazendo de tudo para chamar sua atenção (do eleitor). Teve candidato hoje que trouxe até cantor de pagode para fazer carreata na rua com ele — provocou o prefeito, enquanto Rodrigo ainda fazia sua carreata em Campos, ao lado do cantor de pagode Belo.

Confira abaixo a foto da carreata de Rodrigo com Belo, mais o ex-candidato a deputado federal Caio Vianna (PSD) e o vereador Marquinho Bacellar (SD). E, enquanto ela ainda acontecia nas ruas de Campos, o vídeo postado no Instagram por Wladimir:

 

Cantor de pagode Belo entre Caio Vianna, Marquinho e Rodrigo Bacellar, na carreata deste nas ruas de Campos, no sábado (Foto: Divulgação)

 

 

Urnas do NF, RJ e Brasil sob análise no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Os cientistas políticos George Gomes Coutinho e Hamilton Garcia de Lima, professores, respectivamente, da UFF-Campos e da Uenf, serão os convidados desta terça (4) do Folha no Ar, ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Eles analisarão a eleição de seis deputados estaduais da região, que não fez nenhum federal nas urnas de domingo, assim como o consequente aceno de paz do prefeito Wladimir Garotinho (sem partido) ao deputado Rodrigo Bacellar (PL), líder da maioria de oposição na Câmara Municipal de Campos.

Os dois também analisarão as reeleições do governador Cláudio Castro (PL), ainda no 1º turno, e de Romário (PL) ao Senado. Por fim, tentarão projetar a eleição ao Palácio do Planalto, das urnas do 1º ao 2º turno de 30 de outubro, entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL).

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Após eleição, Wladimir hasteia bandeira branca a Bacellar

 

Wladimir Garotinho e Rodrigo Bacellar (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Após a eleição do domingo de quatro deputados estaduais de Campos, Rodrigo Bacellar (PL), Bruno Dauaire e Thiago Rangel (Podemos), e uma de São João da Barra, Carla Machado (PT), o prefeito Wladimir Garotinho (sem partido) hoje usou o Twitter para cumprimentar aliados e acenar com paz ao seu principal opositor:

— Parabéns a todos os deputados estaduais eleitos pela nossa cidade e região: Bruno Dauaire, Thiago Rangel, Rodrigo Bacelar e Carla Machado. A disputa ficou pra trás, é hora de trabalharmos em conjunto. Não importa as diferenças, o povo sempre em primeiro lugar.

 

 

O esforço do prefeito pela pacificação em nome da cidade e da região é válido. Resta saber como Rodrigo Bacellar e a bancada de oposição na Câmara Municipal de Campos que ele lidera vão encarar a bandeira branca. Tudo passará pela eleição da nova Mesa Diretora do Legislativo goitacá, que tem até dezembro para ser marcada.

 

Hamilton Garcia — Por que o bolsonarismo está vivo e forte?

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Hamilton Garcia, cientista político e professor da Uenf

A festa da democracia e o revés do feiticeiro

Por Hamilton Garcia de Lima

 

O Brasil acaba de realizar sua 9ª eleição presidencial direta desde a redemocratização. A “festa da democracia”, todavia, desde 2006, foi lentamente deixando de ser comemorada para ser experimentada como angústia em meio a um sistema político ensimesmado. O ponto mais crítico deste plano inclinado foi alcançado, até agora, com Bolsonaro, mas nada indica que este seja seu piso.

O caldo de cultura deste descenso está não só no encontro pouco virtuoso das forças democráticas com a realidade do poder (Mensalão, Petrolão, Orçamento Secreto, etc.), como também no desencontro da Constituição de 1988, e seu projeto de bem-estar social, com a realidade econômica de 42 anos de semi-estagnação. As expectativas de melhoria de vida, sobretudo das camadas médias, da qual as democracias se nutrem, foram revertidas e as classes médias caíram nos braços da direita radical.

Este é o contexto da apertada vitória de Lula sobre Bolsonaro neste primeiro turno, que demonstrou uma resiliência no poder só comparável a de Lula em 2006; não obstante a discrepância entre os desempenhos governamentais, o que faz a performance conservadora ainda mais significativa.

A razão imediata para a reação bolsonarista no atual pleito, contra a previsão de várias sondagens de opinião, pode ter sido a audaciosa tática lulopetista de tentar ganhar no primeiro turno atropelando o rito democrático dos dois turnos. A arrogância da esquerda e seus novos aliados do centro progressista, ao reeditar o “nós contra eles”, parece ter despertado no eleitorado conservador seus “piores instintos” antipetistas.

A tática lulopetista de fidelização popular, colocando o pobre no orçamento, na universidade e nos aeroportos, parece ter encontrado seu antípoda de direita na farta distribuição de recursos públicos, levada a cabo pelo Governo Bolsonaro, ao eleitorado pobre e remediado fragilizado pela pandemia. Isto para não falar do paradoxo da denúncia petista sobre o assistencialismo como “moeda de troca eleitoral”, fórmula também aplicada por eles, onde a política de amparo à pobreza não encontra porta de saída. Bolsonaro promete abri-la pela via da diminuição dos impostos e do gigantismo do Estado, apesar da aliança com o Centrão.

O projeto político-econômico do petismo, que o bolsonarismo critica, centrado no aumento do consumo das famílias e na ampliação dos direitos sociais – sem lastro na produtividade social e com manutenção de privilégios burocráticos e financeiros –, tendente a deprimir ainda mais o investimento público e privado, e, portanto, mantendo ou aprofundando a estagnação econômica, também foi bem explorado pelas redes de direita, que o acusam de  aprofundar a desigualdade histórica ao contrário de combatê-la.

A frente de esquerda que sustenta o lulismo, embora consciente destas contradições, acredita que a crise do Estado de bem-estar social da Nova República pode vir a abrir caminho para “transformações mais profundas na ordem social brasileira”, a depender da “correlação de forças” pós-eleitoral. E da mobilização do povo nos “comitês populares” que Lula prometeu abrir depois de eleito.

A arrogância estratégica do petismo, agravada pelo fantasma do “exército do Stédile”, e a soberba tática do lulismo, resgatando os náufragos do campo democrático em sua “frente ampla” de esquerda – sem negociação ou acordos programáticos efetivos –, apostando no atropelamento de Bolsonaro no primeiro turno, não surtiu o efeito esperado; e a culpa, evidentemente, não é dos democratas que não aderiram à manobra.

Tal como em 2018, o maior combustível do bolsonarismo parece continuar sendo o programa lulopetista, que combina identitarismo e luta de classes na esperança de ampliar a participação social de negros e mulheres, sem aumentar a oferta geral de oportunidades, alimentando assim sua narrativa anticapitalista.

A estratégia petista, reiterada mesmo após a derrota de 2018, continua sendo de altíssimo risco. Pois, ao invés de buscar reverter o modelo de economia primarizada com exportação de grãos, minérios e carnes, pretende apenas explicitar seus limites – inclusive denunciando a ponderação do aumento do salário mínimo à produtividade social como “elitismo escravista” – mesmo que ao preço do ressentimento das camadas médias em dificuldade.

O segundo turno, sobre este aspecto, deve ser comemorado, pois nos oferece a possibilidade do petismo e do lulismo dialogar efetivamente em torno de um programa de reformas efetivo, que eles recusaram entregar ao eleitorado antes do pleito.

Quer seja o programa desenvolvimentista de Ciro, quer o liberal-social de Tebet, ou um mix de ambos, o fato é que ele vai ser necessário para solidificar uma verdadeira frente democrática no lugar do cheque em branco reivindicado pelo PT e recusado pelo eleitorado.

Parece ter ficado claro que, na era Bolsonaro, não há mais espaço para manipulações ideológicas da esquerda, que agora são neutralizadas pela direita – ao contrário do que ocorria com os tucanos.

A percepção do “mercado” de que o “Lula de sempre” está “precificado” e que seu vice está ao alcance das mãos numa eventualidade, para colocar as coisas no eixo, é pura ilusão e grave equívoco. É preciso pensar no país e abandonar o egoísmo de partido, que é a marca registrada do petismo, se se quer, realmente, o “bem geral da nação” e da democracia. Porque o bolsonarismo está vivo e forte.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

Arthur Soffiati — Democracia sob o teste das urnas

 

 

Arthur Soffiati, historiador, professor e escritor

Democracia sob teste

Por Arthur Soffiati

 

A democracia não um regime político criado nas estrelas e descoberto pela humanidade. Ela é fruto de um longo processo de construção situado na Europa ocidental. O Estado Moderno, também chamado de Absolutista, permitiu que seus súditos contassem com algumas instâncias  a que podiam recorrer para assegurar seus direitos.

No final do século XVII, aparecem as primeiras propostas de limitação do poder absoluto do rei por meio de documentos. Consolida-se o constitucionalismo combinado com monarquia e república. Combina-se monarquia e república com limitação do Poder Executivo. Desenvolvem-se monarquias constitucionais e parlamentaristas e repúblicas presidencialistas e parlamentaristas. A democracia pode permear todos esses sistemas políticos. Ela não se resume a uma constituição e ao direito de voto, seja ainda bastante confundida com essas duas prerrogativas.

Democracia é mais. Pode não ser sinônimo de direito a uma sociedade igualitária, mas pressupõe direitos sociais. O estágio mais completo de democracia combina liberdade, direitos civis, direitos políticos e direitos sociais. O Brasil ainda está longe disso. A democracia é um regime frágil. Que se observe o governo de Bolsonaro, aproveitando o direito de voto para chegar ao governo e ameaçar o próprio direito que o elegeu. Que se veja a ascensão do neofascismo na Itália.

As eleições de 2022 não podem ser limitadas a uma disputa entre candidatos. Ela é mais que isso. É a escolha entre um governo que ameaça um golpe de Estado permanentemente, que funciona abaixo da linha democrática o tempo todo, e um governo que assegure minimamente a democracia. Não se trata agora de escolher o melhor projeto, mas de expelir um corpo estranho.  No entanto, esse corpo estranho criou alicerces e ergue seu edifício sobre eles. Esse corpo estranho se fortalece com a eleição de deputados estaduais e federais, senadores e governadores. No Rio de Janeiro, Cláudio Castro se elegeu, mesmo sendo um desconhecido até a cassação de Witzel.

A decisão entre democracia representativa e ameaça permanente de autoritarismo e golpismo fica adiada por mais um mês. As pesquisas parecem ter minimizado a força do bolsonarismo e de ter maximizado a força de Lula. As pesquisas erraram. Teremos de aguardar o desfecho final roendo as unhas. Mas o Brasil acorda com um nove perfil: a nova face do brasileiro é bastante conservadora.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

Do 1º ao 2º turno, pesquisas acertam Lula e erram Bolsonaro

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Todos os principais institutos de pesquisa do Brasil acertaram. Com 48,43% dos votos válidos nas urnas de domingo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou muito próximo, a apenas 1,47% + um voto, de definir a eleição no primeiro turno. Mas todos os principais institutos de pesquisa também erraram com o seu principal concorrente. Com 43,20% dos votos válidos, o presidente Jair Bolsonaro (PL) teve, além da margem de erro, bem mais do que era apontado em todas as projeções. Os dois candidatos agora disputarão o segundo turno em 30 de outubro, com diferença de um pouco maior que 5 pontos. Que é 9 pontos inferior à vantagem de 14 que, na véspera do pleito, as pesquisas Datafolha e Ipec (antigo Ibope) deram a Lula.

VOTO ÚTIL? — Vários são os fatores que podem ter contribuído para o resultado da urna do primeiro turno. Entre eles, a chamada migração do “voto útil” ainda no 1º turno. Não dos eleitores do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) para Lula, como pregava o PT, ecoado por artistas como Caetano Veloso. Se houve voto útil neste primeiro turno, independentemente de onde saiu, ele foi para Bolsonaro.

SÃO PAULO — O que contrariou com mais peso as pesquisas foram os votos na urna da região Sudeste, que concentra 42% dos eleitores brasileiros. Na Ipec de sábado, Lula superaria Bolsonaro por 9 pontos (48% a 39%) em São Paulo, maior colégio eleitoral do país. Mas, na urna de domingo em São Paulo, Bolsonaro superou Lula por quase 7 pontos (47,41% a 40,89%).

Como o ex-ministro do capitão, Tarcísio de Freitas (Republicanos) também passou o favorito petista Fernando Haddad nas urnas paulistas do primeiro turno, pelos mesmos quase 7 pontos (42,32% a 35,70%). Agora os dois disputarão o segundo turno ao Governo do Estado de São Paulo, na eleição que pode definir a presidencial. E na qual, diferente das pesquisas, o PT sai atrás a governador e presidente.

RIO DE JANEIRO — Na mesma Ipec de sábado, Lula superaria Bolsonaro por 4 pontos (46% a 42%) no estado do Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país. Mas, no voto dos fluminenses de domingo, Bolsonaro superou Lula por quase 11 pontos (51,09% a 40,68%).

Não por coincidência, o governador bolsonarista Cláudio Castro (PL) também superou todas as pesquisas. E se reelegeu ainda no primeiro turno ao Governo do Estado do Rio, contra o deputado federal lulista Marcelo Freixo (PSB). Campeão de rejeição entre os fluminenses em todas as pesquisas, o ex-psolista fica sem cargo a partir de 1º de janeiro de 2023.

MINAS GERAIS — Só em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, a vantagem de Lula sobre Bolsonaro se confirmou. Mas bem abaixo dos 21 pontos (55% a 34%) projetados pela Ipec de sábado, Lula ficou na frente das urnas mineiras de domingo por menos de 5 pontos (48,29% a 43,60%).

Se continuar valendo a escrita de que só se elege presidente quem ganha em Minas, este é hoje o único dos três principais estados do Sudeste onde Lula tem vantagem. E onde o bolsonarista até aqui acanhado Romeu Zema (Novo) se reelegeu governador também no primeiro turno, por 56,18% a 35,08% do lulista Alexandre Kalil (PSB)

RIO GRANDE DO SUL — Outros estados brasileiros de grande densidade eleitoral contrariaram as pesquisas, em favor não só de Bolsonaro, como de seus aliados. No Rio Grande do Sul, principal colégio eleitoral da Região Sul, o ex-ministro bolsonarista Onyx Lorenzoni (PL) superou todos os levantamentos que apontavam o ex-governador Eduardo Leite (PSDB) como favorito. E agora sai quase 11 pontos à frente (37,50% a 26,81%) dele para disputar o segundo turno ao Palácio Piratini.

BOLSONARISTAS NO SENADO E CÂMARA — Não foi só em aliados a cargos executivos que a expressiva votação do presidente influenciou. Sete ex-ministros do governo Bolsonaro foram eleitos no domingo. Quatro deles ganharam uma cadeira no Senado: Damares Alves (Rep/DF), Marcos Pontes (PL/SP), Tereza Cristina (PP/MS), Rogério Marinho (PL/RN) e o ex-aliado em reaproximação recente Sergio Moro (União/PR). Outros dois conquistaram uma vaga na Câmara Federal: Ricardo Salles (PL-SP) e Eduardo Pazuello (PL), deputado mais votado no estado do Rio.

LULA APÓS A URNA — Depois de concluída a apuração, ainda na noite de ontem, ciente de que precisa virar a eleição no berço do PT de São Paulo, para assegurar sua reeleição em 30 de outubro, Lula foi discursar com Haddad na tradicional Avenida Paulista. E, para atrair os eleitores de centro que não teve no primeiro turno, mas precisa para voltar ao Palácio do Planalto, uma das oradoras destacadas em seu palanque foi… a ex-presidente Dilma Rousseff.

BOLSONARO APÓS A URNA — Bolsonaro falou em Brasília. Atacou a Datafolha, como os votos que teve na urna lhe deram o direito de fazer. Mas acenou com uma compreensão nele incomum ao eleitor pobre que confirmou a liderança de Lula no primeiro turno. Como acenou a Zema, reeleito governador nas Minas Gerais cujo último presidente eleito, sem ganhar lá, foi Getúlio Vargas, em 1950. Logo após a urna, o capitão parecia continuar a tirar a diferença que ainda o separa do petista.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

No dia em que luta pela democracia, Brasil perde Éder Jofre

 

Morto nesta madrugada de pneumonia e campeão mundial de boxe profissional dos pesos galo e pena, Éder Jofre foi considerado pela revista The Ring como o melhor lutador do mundo, peso a peso, dos anos 1960. Em segundo lugar ficou um tal de Muhammad Ali

 

No dia em que o Brasil luta por sua democracia nas urnas, morreu na madrugada de hoje o maior lutador da história do boxe profissional no país. Aos 86 anos, numa clínica em Embu das Artes, na Grande São Paulo, o “Galinho de Ouro”, lendário campeão mundial peso-galo entre 1960 e 1965, e campeão mundial também na categoria acima do peso pena, em 1973, o paulistano Éder Jofre foi finalmente nocauteado por uma pneumonia. A doença fez o que nenhum outro pugilista conseguiu. Com o cartel profissional de 81 lutas, 75 vitórias (52 por nocaute), quatro empates e apenas duas derrotas, por pontos. Até morrer, Jofre nunca caiu.

Nascido em 1972, nunca vi Éder Jofre lutar ao vivo. Mas, desde que me entendo por gente, ouvia sobe suas façanhas no ringue por um seu fã, meu pai, o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa, morto em 2012. Frutos de uma brilhante geração marcada na infância pela II Guerra (1939/1945), ambos nasceram no mesmo ano de 1936, em que Adolf Hitler quis prostituir o esporte pela política. Foi ao tentar bancar a suposta supremacia branca nas Olimpíadas de Berlim, para ser desbancado diante do mundo pelas quatro medalhas de ouro do negro estadunidense Jesse Owens. Mas isso é uma outra história.

Antes de se tornar uma lenda do boxe profissional, Jofre também testou sua sorte como amador nas Olimpíadas de Melbourne, na Austrália, em 1956. Invicto, chegou como um dos favoritos ao pódio. Mas perdeu numa controvertida decisão por pontos logo na sua segunda luta, diante do chileno Claudio Barrientos. Na forra em 1960, já como profissionais, o chileno foi derrotado por nocaute técnico, determinado pelo árbitro, após amargar nada menos que oito knock downs (quedas) impostos pelo brasileiro.

Como profissional, estreou no ano seguinte, em 1957, na categoria peso galo. Derrotou por nocaute o argentino Raul Lopes, no estádio do Pacaembu. Em 1958, ano da conquista da primeira Copa do Mundo de futebol pelo Brasil, Jofre se sagrou campeão sul-americano, derrotando por pontos outro argentino, Ernesto Miranda, no ginásio do Ibirapuera. Em 1960, foi morar nos Estados Unidos, onde se sagrou campeão mundial pela Associação Mundial de Boxe (WBA), batendo por nocaute o mexicano Eloy Sanchez, em Los Angeles. Em 1962, unificou os títulos da categoria peso galo diante do seu público no Ibirapuera. Onde venceu por nocaute técnico o irlandês Johnny Caldwell, campeão da versão europeia.

Entre 1962 e 1964, Jofre defendeu seu cinturão de campeão mundial peso galo cinco vezes, vencendo todas as lutas por nocaute, em ringues dos EUA, Brasil, Japão, Filipinas e Colômbia. Até que, em 1965, veio a grande controvérsia da carreira profissional do campeão brasileiro. Em uma controvertida decisão por pontos dos jurados, após 15 assaltos, ele perdeu o título para o japonês Fighting Harada, na casa deste, em Nagoya. Após um empate por pontos contra o estadunidense Manny Elias, no Ibirapuera, ainda em 1965, ele fez a revanche contra Harada em 1966. Novamente no quintal do adversário, desta vez em Tóquio, após outros 15 assaltos, veio a mesma questionada decisão por pontos a favor do lutador da casa.

A decepção foi tanta que Jofre anunciou sua primeira aposentadoria, passando a fazer apenas lutas de exibição. Voltaria aos ringues profissionais só em 1969, na categoria acima do peso pena, para derrotar por nocaute o mexicano Rudy Corona. Mas, “vacinado” pelas duas controvertidas derrotas por pontos para o japonês Harada no Japão, só lutaria na segunda fase da sua carreira no Brasil. Após mais 13 lutas, com 13 vitórias e sete nocautes, conquistou o título mundial dos penas em 1973, contra o cubano naturalizado espanhol José Legra, em luta interrompida por decisão médica. Defendeu o novo título três vezes, com três novas vitórias e mais dois nocautes, inclusive o que impôs em Salvador, no 4º assalto, ao mexicano Vicente Saldivar, considerado um dos grandes do seu país.

Em 1974, com a morte do seu pai e até então único treinador, o também lendário Kid Jofre, Éder anunciou sua segunda aposentadoria. Da qual voltaria para fazer mais sete lutas profissionais como peso pena, entre 1975 e 1976, todas no Brasil. E nelas mais sete vitórias e três nocautes ao cartel brilhante. Que só encontraria paralelo dentro do boxe profissional brasileiro em outro grande campeão, o baiano Acelino Freitas, mais conhecido como Popó, que conquistou quatro cinturões mundiais, nas categorias peso super-pena e leve, entre 1999 e 2006.

Jofre também teria uma carreira política. Em 1982, foi eleito vereador de São Paulo a primeira vez, pelo antigo PDS (atual União). Em 1989, filiou-se ao PSDB, no qual foi ativo até 2000. Como edil da cidade mais populosa das Américas, foi autor de 25 leis, a maioria relacionada à saúde e à educação. E é um dos signatários da Lei Orgânica do Município de São Paulo, que entrou em vigor em 1990.

Só a partir de 2007, quando o YouTube foi lançado no Brasil e eu tinha 35 anos, pude ver suas lutas. Por seu estilo técnico e franco, sempre caminhando para cima, baseado na confiança em seu queixo, na sua grande variedade de golpes, incluídos os inclementes ganchos de canhota no fígado do adversário, sua temida pegada com as duas mãos, como de um homem 10 kg mais forte, Éder Jofre me lembrava outro grande campeão do meu tempo, o mexicano Julio César Chávez. Que brilhou nos anos 1980 e 1990, quando conquistou seis títulos nas categorias pena, leve e meio-médios.

Pelo que Jofre fez dentro do boxe, o que mais trago vivo dele na memória foi uma entrevista do então fulgurante e invencível campeão peso pesado profissional Myke Tyson, em seu auge, no final dos anos 1980. Perguntado por uma rede de TV brasileira o que era o Brasil para ele, o mito citou outro: “Éder Jofra!” (sic). Viciado em vídeos do boxe antes do seu tempo, Tyson complementou: “Great fighter, great fighter; one of the best of all time” (“Grande lutador, grande lutador; um dos melhores de todos os tempos”).

Éder Jofre está em cinco Halls da Fama do boxe nos EUA. Incluído o olímpico Hall da Fama Internacional de Nova York, onde é o único brasileiro. Hoje centenária, a revista estadunidense The Ring é também conhecida como a “Bíblia do Boxe”. E, na sua concorrida edição de 90 anos, ela elegeu Jofre como o melhor pugilista do mundo, peso a peso, nos anos 1960. Abaixo do “Galinho de Ouro”, em segundo lugar, ficou um tal de Muhammad Ali.

A vida do campeão brasileiro não foi só de glórias. Nos últimos anos, ela foi marcada pela encefalopatia traumática crônica (ETC), vulgarmente conhecida como “demência pugilística”. Que se marca pelos tremores, perda de coordenação motora, de fala e memória, causada pelos muitos golpes na cabeça. A sua relação com o pai e treinador rendeu um bom filme brasileiro, “10 Segundos para Vencer” (2018), de José Alvarenga Júnior. O campeão foi interpretado pelo ator Daniel Oliveira, enquanto Osmar Padro levou o Kikito de melhor ator, no Festival de Gramado, por sua interpretação de Kid Jofre.

Mas a cena de outro filme, considerado o melhor já feito sobre boxe, ou qualquer temática nos anos 1980, talvez defina melhor a virtude real do campeão brasileiro. Na interpretação que lhe valeu o Oscar como protagonista, em “Touro Indomável” (1981), do mestre Martin Scorsese, Robert De Niro vive o campeão peso médio Jake La Motta. Que teve como grande rival o lendário campeão Sugar Ray Robinson, com quem fez seis lutas memoráveis entre os anos 1940 e 1950, entre as maiores rixas na história da nobre arte.

Após o juiz interromper o último combate entre eles, o La Motta de De Niro caminha no ringue e grita ao seu maior oponente o que só Jofre poderia dizer, em seus 86 anos de vida, a qualquer outro homem da Terra: “Você nunca conseguiu me derrubar!”

 

Lula e Bolsonaro hoje na urna e na dúvida: 1º ou 2º turno?

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

“Sem que se faça um presente, não pode haver um futuro”, advertia em verso o poeta João Cabral de Melo Neto. Hoje, a decisão sobre o futuro do Brasil é pessoal e intransferível, entre você e a urna. Mas as tendências do presente na definição do futuro são coletivas. E foram reveladas pelas últimas pesquisas eleitorais de ontem, nas quais ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega hoje à urna com 50% contra os 36% do presidente Jair Bolsonaro (PL) nas intenções de votos válidos (sem contar os brancos e nulos) na Datafolha, com 51% a 37% na Ipec (antigo Ibope), com 48% a 40% na MDA, e com 49% a 35% na Ipespe.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

NO 1º OU 2º TURNO? — Na margem de erro de 2 pontos a mais ou menos dos três primeiros institutos, ou de 3 pontos do quarto, a grande dúvida hoje é: Lula pode ou não alcançar o mínimo de 50% + 1 dos votos já em turno único? Ou disputará o 2º turno, marcado para 30 de outubro, contra Bolsonaro? Nenhuma das pesquisas da véspera deu resposta definitiva na véspera da urna. Só sua apuração, fruto da decisão soberana dos 156,4 milhões de brasileiros aptos hoje a votar, como você, poderá dizer.

UMA DÚVIDA, DUAS CERTEZAS — Na dúvida sobre o prolongamento desta eleição presidencial para além da apuração das urnas de hoje, as pesquisas presidenciais só permitem duas certezas. A primeira é a liderança isolada de Lula na corrida, que se manteve durante todo este ano eleitoral em todas as pesquisas. A despeito dos bolsonaristas que as questionam, exatamente como os lulopetistas questionaram todas as que em 2018 projetaram a eleição de Bolsonaro a presidente. A segunda certeza sobre 2022? Haja ou não 2º turno, será por muito pouco.

TENDÊNCIAS — Para tentar responder à principal questão desta eleição presidencial, fundamental saber as tendências dos principais candidatos. Após bater boca com o “padre” Kelmon (PTB) no debate presidencial da Globo na madrugada de sexta (30), Lula apresentou estabilidade na Datafolha (manteve 50% das intenções de votos válidos), na MDA (em 48%) e na Ipespe (em 49%); e viés de queda, dentro da margem de erro, na Ipec (caiu de 52% a 51%). Por sua vez, após evitar o confronto direto com Lula no debate da Globo, Bolsonaro apresentou crescimento fora da margem de erro na Ipec (de 34% a 37% dos votos válidos), viés de alta dentro da margem de erro na MDA (de 39% a 40%), e estabilidade na Datafolha (em 36%) e na Ipespe (em 35%).

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

HISTÓRICO DO 2º TURNO — Fruto da Constituição de 1988, o 2º turno passou a valer a partir da eleição presidencial do Brasil de 1989. E, de lá para cá, só Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se elegeu presidente em turno único, em 1994 e 1998. Mas foi com a eleição ainda em cédulas de papel, quando a facilidade para anular o voto era muito maior. O que reduzia a quantidade de votos válidos necessários para se vencer no 1º turno. Em 2006, com a eleição já integralmente em urna eletrônica, o PT achava que reelegeria Lula presidente no 1º turno. Que tiveram que disputar o 2º turno contra Geraldo Alckmin, hoje no PSB e vice na chapa do petista. Na dúvida aberta pelas pesquisas do presente, o histórico eleitoral brasileiro indica a existência do 2º turno.

VANTAGEM NO 1º TURNO E HISTÓRICO — Se a maior esperança real bolsonarista hoje é chegar ao 2º turno com Lula, várias fontes dentro da campanha do capitão admitem que, se a vantagem do petista sobre ele sair das urnas do 1º turno como algo em torno dos 10 pontos, a toalha será jogada. Sobretudo pelo sempre pragmático Centrão, que já iniciou esta semana a debandada. Enquanto isso, Lula chega hoje à urna do 1º turno com 14 pontos de vantagem sobre Bolsonaro na Datafolha (50% a 36%), na Ipec (51% a 37%) e na Ipespe (49% a 35%); e 8 pontos na MDA (48% a 40%). Mas, novamente no histórico eleitoral brasileiro, nunca um candidato a que passou atrás ao 2º turno conseguiu virar a desvantagem para se eleger presidente.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

2º TURNO E REJEIÇÃO — Na projeção ao 2º turno programado para 28 dias depois de hoje, Lula bateria Bolsonaro por 59% a 41% (18 pontos) na Ipespe, por 54% a 38% (16 pontos) na Datafolha, por 52% a 37% (15 pontos) na Ipec, por 50% a 41% (9 pontos) na MDA. Índice negativo e considerado fundamental à definição do 2º turno, a rejeição chega hoje sendo liderada por Bolsonaro, como foi em todo este ano eleitoral em todas as pesquisas. Os brasileiros que não votariam nele de jeito nenhum são 56% contra 43% de Lula (13 pontos a menos) na Ipespe, 52% a 40% (12 pontos a menos) na Datafolha, 59% a 48% (11 pontos a menos) na MDA, e 46% a 38% (8 pontos a menos) na Ipec.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

CIRO, TEBET E “VOTO ÚTIL” — Sem chance real de alcançar os dois líderes da corrida presidencial, há outra questão da eleição ainda aberta dentro da margem de erro das pesquisas: quem será o terceiro colocado, o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) ou a senadora Simone Tebet (MDB)? Nos votos válidos para hoje, Tebet passou Ciro por 6% a 5% na Datafolha, empatou em 5% na Ipec e na MDA, e está numericamente atrás apenas na Ipespe, 7% a 8% do pedetista. Em geral, a oscilação para baixo de Ciro e para cima de Tebet se equivalem. E não sugeriam até ontem a migração do “voto útil” em que a campanha de Lula apostava para definir a eleição ainda no 1º turno.

ABSTENÇÃO E TRANSPORTE PÚBLICO — Outra questão que pode definir a eleição em turno único, ou não, é a abstenção. Sobretudo na população mais pobre, com renda familiar mensal até 2 salários mínimos, onde Lula sempre teve sua maior vantagem eleitoral. E que precisa mais do transporte público para chegar hoje ao local de votação. Ontem, o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Benedito Gonçalves classificou de “absurdo” e negou um pedido da campanha de Bolsonaro para limitar a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que determinou que municípios mantenham a oferta de transporte público nas eleições. O índice de abstenção em 2018 foi de 20%. Se for mais em 2022, favorecerá a Bolsonaro. Se for menos, a Lula, quem tem convocado a população a votar.

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em Estatística no IBGE

ANÁLISE DO ESPECIALISTA — “As pesquisas de intenção de voto não buscam adivinhar o resultado eleitoral, apenas a intenção manifestada pela preferência dos eleitores. Apesar disso, a favor dos institutos, pesa o histórico do confronto com as urnas, em especial do Datafolha, que acertou o resultado das eleições de 1998, 2002, 2006 e 2010, 2014 e 2018. Além das entrevistas presenciais, olhando nos olhos do eleitor, os institutos costumam trabalhar com as pesquisas por telefone, que captam melhor o ‘voto envergonhado’ do eleitor. Por isso, é importante destacar que todas as metodologias são confiáveis e que cada medição tem vantagens e desvantagens. Todas trabalham com margens de erro, que variam a depender da amostra, que funciona como uma colher de sopa. Para conhecer o voto dos eleitores não há a necessidade de entrevistar todos os habilitados a votar, assim como não há necessidade de tomar a sopa inteira para conhecer seu gosto, seu cheiro e sua temperatura”, analisou William Passos, geógrafo com especialização doutoral em Estatística do Setor Público, da População e do Território na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do IBGE.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Lula bate boca e direito de resposta vence o debate da Globo

 

Bolsonaro e Lula observados por Tebet, que voltou a ser o destaque no debate da Globo, entre a noite de quinta e madrugada desta sexta, último antes da urna de domingo

 

 

Após sua postura passiva no debate presidencial da Band, quando não contra-atacou às acusações de corrupção feitas pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) devolveu na mesma moeda seu principal antagonista no esperado debate da Globo, encerrado esta madrugada. Mas acabou perdendo a linha com um desqualificado escudeiro do capitão, o Kelman (PTB) autoproclamado padre da Igreja Sirian Ortodoxia de Antioquia no Brasil. Esta já tinha informado em nota oficial que o suposto sacerdote “nunca foi seminarista ou membro do clero da Igreja em nenhum dos três graus da ordem, quer no Brasil ou em outro país”. Definido como “padre de festa junina” pela senadora Soraya Thronicke (União), o fato é que o presidenciável do PTB de Roberto Jefferson conseguiu tirar Lula do sério em bate-boca no terceiro bloco do debate, nivelando este por baixo. Entre os candidatos, a melhor voltou a ser a senadora Simone Tebet (MDB). Mas o grande vencedor foi o direito de resposta. Foram 10 durante o evento.

CIRO x LULA — Líder em todas as pesquisas, com possibilidade em algumas de fechar o pleito já no 1º turno de 2 de outubro, daqui a apenas dois dias, Lula foi o alvo preferencial do debate da Globo. Com tema livre, coube a ele abrir o evento, escolhendo Lula para falar sobre as contradições econômicas dos 13 anos do PT do poder. O ex-presidente respondeu lembrando os feitos do seu governo na área. O ex-ministro de Lula lembrou que os desacertos criaram Bolsonaro. Ao que o ex-presidente respondeu que o governo que antecedeu o atual não foi de Dilma, mas o de “um golpista”. Referiu-se claramente ao ex-presidente Michel Temer, o que não deve ajudar à aliança do PT com o MDB em caso de 2º turno.

BOLSONARO, KELMAN E DIREITOS DE RESPOSTA — Por sorteio, coube a Kelman escolher logo depois, abrindo sua tabela com Bolsonaro. Que, na sua última resposta, chamou Lula de “chefe de uma grande quadrilha”, criando ainda uma nova fake news: que o petista “defendia que se roubassem celulares para se tomar uma cervejinha”. Com seu primeiro direito de resposta concedido na Globo para abrir a caixa de ferramentas fechada no debate da Band. E citou a “quadrilha das rachadinhas da família dele, a quadrilha do ministério da Educação com barras de ouro, a quadrilha da compra de vacina”. Bolsonaro também ganhou direito de resposta, chamou Lula de “ex-presidiário”, disse que “a CPI da Covid não provou nada” e bradou: “tenha vergonha na cara, Lula”. Este, em novo direito de resposta, apostou: “É por isso que o povo em 2 de outubro vai te mandar para casa”. E ameaçou: “Vou fazer um decreto para acabar com os seus sigilos de 100 anos”.

TEBET AO CAPITÃO: “COVARDE” — Na vez de Bolsonaro escolher seu interlocutor, teva chutada a escada que pretendeu fazer com Tebet. A quem perguntou sobre as menções da sua vice, a senadora Mara Gabrilli (PSDB), teria feito sobre um suposto envolvimento de Lula no assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel (PT), morto a tiros por assaltantes que o sequestraram para roubar, em 2002. A candidata do MDB respondeu que Bolsonaro deveria perguntar isso a Lula, que estava ali. E que preferia falar do problema da fome no Brasil, que seu presidente fala que não existe. Bolsonaro insistiu e Tebet também: “Deveria perguntar a Lula, que está aqui, mas não o faz porque é covarde. Assim como atrasou 45 dias para comprar a vacina (contra a Covid)”.

MAIS DIREITOS DE RESPOSTA — Lula ganhou um novo direito de resposta, disse que Celso Daniel era seu amigo, lembrou que o TSE suspendeu as ilações sobre a morte do ex-prefeito das páginas bolsonaristas e advertiu Bolsonaro: “Você tem uma filha de 10 anos que está assistindo”. Em novo direito de resposta, o capitão voltou a chamar Lula de “ex-presidiário”, o desafiou a dizer qual sigilo de 100 anos tinha decretado sobre sua família, disse que atuou para comprar a vacina contra a Covid e que seu adversário “foi condenado em três instâncias (do Judiciário), mas se livrou por um amiguinho seu no Supremo (o ministro Edson Fachin, nomeado pela presidente Dilma)”.

SORAYA x KELMAN I — Após Soraya Thronicke escolher Kelman para perguntar se ele, como suposto padre, tinha dado a extrema-unção para alguma das mais de 686 mil vítimas fatais da Covid no Brasil, ou se não tinha medo de ir para o inferno por conta do descaso com elas e suas famílias, coube a Lula outro direito de resposta. Que usou para dizer o que tinha feito no governo para combater a corrupção, antes de falar das denúncias que pesam sobre a família de Bolsonaro na compra de imóveis com dinheiro vivo, mas acabou perdendo o tempo para completar o raciocínio.

TEBET x BOLSONARO II — No segundo bloco, onde os candidatos poderiam escolher o adversário para perguntar, mas a partir de um tema sorteador pelo mediador William Bonner, Tebet escolheu Bolsonaro para falar sobre mudança climática. E perguntou sobre o que seria diferente em um novo governo seu, com o atual marcado pelo maior desmatamento em 15 anos no país. No lugar de responder, o presidente provocou a interlocutora. Disse que Tereza Cristina (PP), sua ex-ministra da Agricultura, teria tirado a vaga de senadora de Tebet no Mato Grosso do Sul. A presidenciável do MDB respondeu dizendo que Bolsonaro “mente tanto que acredita na própria mentira”.

“PADRE DE FESTA JUNINA” — Quando o tema sorteado foi o combate ao racismo, Soraya pediu que Kelman comentasse o fato de Bolsonaro ter tido na presidência da Fundação Zumbi um negro, Sérgio Camargo, contra a luta antirracismo. Após Kelman ter relatado sua experiência atendendo a refugiados da Venezuela, a senadora o ironizou: “agora perdeu o emprego de cabo eleitoral”. E depois chamou o suposto clérigo de “padre de festa junina”. Depois, quando ganhou o sétimo direito de resposta do debate, Kelman disse que nele não estava sendo respeitado “o valor de um sacerdote”.

BOLSONARO FOGE DE LULA — No terceiro bloco, aberto por Bolsonaro, quando poderia escolher qualquer adversário para perguntar o que quisesse, ele preferiu fugir de Lula para falar da recuperação econômica do país numa dobradinha com o cientista político Felipe D’Avila (Novo). Que endossou o presidente: “Seria um desastre se a esquerda voltasse a governar o Brasil”.

KELMAN x LULA II — A tarefa de confrontar Lula no bloco sobre corrupção foi terceirizada a Kelman, que leu uma pergunta acusando o ex-presidente de ser o “chefe do esquema” dos escândalos de corrupção dos governos petistas. Interrompido seguidas vezes em sua resposta, Lula demonstrou pouca inteligência emocional ao cair no bate-boca com o suposto sacerdote. Bonner teve que intervir. Com seu direito à fala restituído, Lula disse: “Sou cristão, casado na Igreja. Não estou vendo um padre, estou vendo um impostor”. Ao anunciar a negativa a um pedido de direito de resposta de Bolsonaro, Bonner o lembrou que ser nome sequer tinha sido citado.

CIRO x BOLSONARO — Coube a Ciro perguntar a Bolsonaro, que falou sobre a queda do PIB no governo Dilma e a corrupção generalizada nos governos do PT, que continuava com Bolsonaro, nos escândalos da sua família. O capitão disse que o PIB caiu em seu governo, foi lembrado pelo pedetista que este tinha se referido ao período Dilma, mas insistiu em ato talvez involuntário de sincericídio: “mas caiu no meu também”. Ciro respondeu lembrando de casos de vendas subfaturadas do atual governo no setor petrolífero e do Orçamento Secreto. Bolsonaro creditou as vendas ao Conselho da Petrobras e disse que “o Orçamento Secreto é do Parlamento”.

TEBET, SORAYA E BOLSONARO — Após ter citado criticamente no debate entre Tebet e Soraya sobre educação, quando a presidenciável do União lembrou que “tem gente que se lambuza com leite condensado enquanto nossas crianças (na merenda das escolas públicas) comem bolacha com suco em pó”, Bolsonaro ganhou mais um direito de resposta. Quando voltou a creditar a responsabilidade pelo Orçamento Secreto ao Parlamento.

BOLSONARO BATE, SORAYA SENTE — Na abertura do quarto bloco, novamente com tema sorteado por Bonner, Soraya escolheu Bolsonaro quando tinha que perguntar sobre segurança pública. E forçou o tema ao perguntar ao presidente se, caso perdesse a eleição, ele tentaria dar um golpe de estado. O capitão partiu para cima da ex-aliada, dizendo que ela só se elegeu senadora com o apoio dele, e só teria passado à opositora após ter uma lista de cargos no Governo Federal não atendida. A senadora, visivelmente, sentiu o golpe.

CABO ELEITORAL NO MS E SP — No direito de resposta, o 9º do evento, Soraya disse ao presidente: “Não sou candidata laranja. Me respeite! Não respondeu se vai ou não tentar dar um golpe (se perder a eleição). Saí do governo porque ele abandonou as bandeiras que o elegeram: a liberal na economia e o combate à corrupção”. Como consequência gerou o 10º direito de resposta do debate da Globo, em que o presidente pediu que o eleitor de Mato Grosso do Sul, estado de Soraya, votassem no deputado estadual Capitão Contar (PTRB) a governador, disputa em que está em 5º lugar nas pesquisas. Depois, com o tema política cultural, Bolsonaro trocou figurinha com Kelman. E voltou a fazer papel de cabo eleitoral regional no debate presidencial, ao pedir voto a Mário Frias (PL), seu ex-secretário de Cultura e candidato a deputado federal em São Paulo.

CABO ELEITORAL II — Com o tema privatização, Ciro escolheu Soraya para indagar sobre a Petrobras. Antes de responder, a senadora voltou a se referir à sua refrega com o capitão. Disse que indicou três cargos ao Governo Federal, foi atendida em dois, mas estes teriam preferido sair “porque não quiseram fazer rachadinha”. Refeita, voltou à forma de melhor frasista desta campanha presidencial, ao criticar Paulo Guedes, ministro da Economia de Bolsonaro: “Falou-se muito do Posto Ipiranga, mas esse é de gasolina adulterada”. Depois, Soraya sentenciou: “O maior cabo eleitoral de Lula e do PT é Jair Bolsonaro”. Ao que Ciro completou: “Estou de pleno acordo”.

MAIS DO MESMO? — O 5º e último bloco foi dedicado às considerações finais sete dos candidatos. Nada que parecesse capaz de fazer o eleitor dar outro fim ao seu voto, daqui a apenas dois dias, do que já pretendia antes do debate da Globo.

 

Quaest: Bolsonaro cai, Lula cresce e pode vencer no 1º turno

 

(Montagem: Eliabe de Souza)

Hoje, faltam apenas quatro dias para a urna da eleição de domingo, 2 de outubro. Feita de sábado (24) à terça (27), com 2.000 eleitores entrevistados presencialmente, e divulgada nesta manhã, a nova Genial/Quaest confirma a tendência de todas as principais pesquisas das três semanas anteriores: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) continua a crescer. Na consulta estimulada ao 1º turno, ele passou dos 42% de 14 de setembro, aos 44% de 21 de setembro e tem hoje, sete dias depois, 46% das intenções de voto. Outra má notícia para o presidente Jair Bolsonaro (PL) é que ele, que vinha patinando nos 34% das intenções de voto nas duas semanas anteriores, começou a cair e tem 33% na Genial/Quest de hoje, 13 pontos atrás do líder. Com 50,5% dos votos válidos (sem os brancos e nulos), contra 36,3% do capitão, o petista confirma a possibilidade de atingir o mínimo de 50% +1 dos votos válidos e concluir a eleição já no 1º turno. Mas ainda dentro da margem de erro de 2 pontos para mais ou menos da pesquisa.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

2º TURNO E REJEIÇÃO — Caso haja o 2º turno presidencial, marcado para 30 de outubro, Lula confirmou sua tendência de crescimento e aumentou sua vantagem sobre Bolsonaro. A quem venceria por 50% a 40% (10 pontos) na Genial/Quaest de 21 de setembro e hoje, sete dias depois, bateria por 52% a 38% (14 pontos de vantagem). O movimento favorável ao ex-presidente é fruto do ocorrido no índice negativo que define o 2º turno: a rejeição. Na qual Bolsonaro aumentou, na última semana, de 54% aos atuais 55% dos brasileiros que não votariam nele de maneira nenhuma. No mesmo período, Lula caiu de 46% aos atuais 44% de rejeição. Entre os dois, o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) tem hoje 53% no índice negativo. Já na consulta estimulada ao 1º turno, Ciro tem 6% de intenções de voto, com 5% da senadora Simone Tebet (MDB) e 1% da também senadora Soraya Thronicke (União).

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

VOTO DOS POBRES, CLASSE MÉDIA E RICOS — Nas faixas de renda do eleitorado, Lula cresceu entre a maioria que tem até 2 salários mínimos de renda familiar mensal: de 51% a 56% (5 pontos) das intenções de voto só nos últimos sete dias, período em que Bolsonaro oscilou negativamente de 26% a 24% (2 pontos). Na classe média baixa, com renda mensal de 2 a 5 salários mínimos, o petista também cresceu, de 38% a 42% (4 pontos) e inverteu a vantagem que na semana passada era do capitão, em queda de 40% a 36% (os mesmos 4 pontos). O único crescimento de Bolsonaro nas faixas de renda foi na minoria da classe média alta e alta, com renda acima de 5 salários mínimos: de 45% a 50% (5 pontos) das intenções de voto, em que Lula oscilou negativamente de 33% a 31% (2 pontos) nos últimos sete dias.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

“BALA DE PRATA” OU TIRO NO PÉ? — Projetado como “bala de prata” eleitoral de Bolsonaro, municiada pelos R$ 41,3 bilhões da PEC Kamikaze aprovada no Congresso Nacional, o novo Auxílio Brasil de R$ 600,00, pago a partir de agosto, se revelou até aqui um tiro no pé. Entre os eleitores pobres que recebem o benefício federal, Lula cresceu de 54% a 57% (3 pontos) das intenções de voto na última semana, período em que seu principal adversário caiu de 29% a 23% (os mesmos 3 pontos). Considerada uma “Chequinho” em nível nacional, o novo Auxílio Brasil foi um incremento de programa assistencial que era vedado pela Legislação em ano eleitoral. Mas, a quatro dias da urna, ainda não obteve sucesso na intenção do Governo Federal, apontada por muitos analistas, de comprar o voto do eleitor pobre.

 

(infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em Estatística no IBGE

ANÁLISE DO ESTATÍSTICO — “A Quaest, que utiliza a mesma metodologia da Ipec, baseada em entrevistas individuais domiciliares, a exemplo daquele instituto, aponta estagnação de Bolsonaro e crescimento de Lula dentro da margem de erro. Os dois institutos também indicam, neste momento, Lula numericamente vencendo no primeiro turno: na Ipec de segunda, por 52%; e na Quaest, de hoje, por 51% dos votos válidos. Com a margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, Lula poderia tanto ir a 53% quanto a 49%, o que levaria a decisão da corrida presidencial para 30 de outubro. Na consulta estimulada, a diferença de Lula para Bolsonaro subiu para 13 pontos, já que o atual presidente oscilou 1 ponto para baixo, de 34% para 33% das intenções. Um dado que chama a atenção é que Lula disparou entre os eleitores mais pobres, com até 2 salários mínimos, crescendo de 40% a 45% em uma semana. Entre os que recebem Auxílio Brasil, o ex-presidente cresceu 7 pontos, de 40% a 47%. Bolsonaro vem segurando sua intenção ao ampliar a diferença entre os eleitores com mais de 5 salários mínimos, em que subiu de 41% a 44%, vantagem de 12 pontos sobre Lula na faixa, onde oscilou para baixo, de 29% a 27%”, analisou William Passos, geógrafo com especialização doutoral em Estatística do Setor Público, da População e do Território na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do IBGE.

George Gomes Coutinho, cientista político e professor da UFF-Campos

ANÁLISE DO CIENTISTA POLÍTICO — “Acho que agora é aguardar as próximas pesquisas. O cientista político Felipe Nunes, diretor do instituto Quaest Pesquisa e Consultoria, que realizou a pesquisa, recomenda total atenção ao que vai nos chegar das pesquisas de boca de urna no domingo. De resto é o resultado propriamente, com os votos apurados. Até lá, temos mais dúvidas que certeza. Se eu fosse conselheiro dos eleitores petistas que estão no clima de ‘já ganhou’, acho interessante moderar essas expectativas. As abstenções factuais, que pode definir a existência do 2º turno, não são detectadas pelas pesquisas — concluiu George Gomes Coutinho, cientista político, sociólogo e professor da UFF-Campos.