Carol Poesia — A hora grave

Todo fim de ano me traz pensamentos de morte. Não são pensamentos pessimistas, são reflexões sobre a vida, vontade de perdão, de reparos, de acertos. Vontades vindas da impressão de que o próximo ano pode ser o último ano da minha vida. E se for?
Há poucas semanas uma grande amiga perdeu o único irmão. Com apenas vinte e sete anos, ele enfartou. Fulminante, em casa. Sem explicação. E existe explicação para alguma morte? Nos olhos dela, serenidade. A certeza de que o irmão partiu no momento em que tinha que ir. Era a sua hora grave.
A paz de Nathália me comove de um jeito único. O seu discurso é de certezas, equilíbrio e resiliência. De onde vem isso? Lucas, pouco antes de morrer, olhava o céu com as mesmas certezas, conta a mãe.
Lembro-me do meu pai me esclarecendo de que o céu, na verdade, não é azul, essa cor é uma ilusão de ótica. Depois disso eu nunca mais olhei o céu da mesma maneira. Parece que estou sendo enganada. Céu não tem cheiro de nada… Preciso confiar na visão.
— Que diferença faz saber que o céu não é azul?
— A diferença é que essa é a verdade.
— Verdade pra quem?
— Para todos.
— Então o azul não é verdade?
— Não. É só o que você pode ver.
Nesse momento a surpresa de que a verdade não é necessariamente aquilo que a gente vê, ou aquilo que a gente vê não é necessariamente verdade foi impactante. Quando crianças, somos fiéis a nós mesmos, por isso a dificuldade de aceitar que a ciência tem muito mais credibilidade do que os nossos sentidos. Enfim, o mundo nunca mais foi o mesmo rs.
Lucas olhou para o céu na véspera de sua hora grave. O que ele via? Provavelmente o que todo mundo via naquele dia ensolarado — o céu azul. A pergunta certa não é o que ele via. A pergunta certa é o que ele via além do que os olhos podem ver. Eu não sei o que ele via para além do que os olhos podem ver, mas eu sei que ele tinha certeza.
Num mundo de meias verdades, quem tem certeza é rei. E, de fato, eles são nobres. Cada gesto de Nathália é gesto de compreensão. Cada palavra é de serenidade. Junto a sua percepção de mundo e de gente existe uma sincera e rara tolerância. É sem esforço. É de verdade.
Ela me disse que sentiu muito pelos chapecoenses. Disse isso no meio do luto por seu irmão. “Lucas está no céu, Carol. Ele não era daqui. Nunca foi. Ele sabia. A gente sabia.”, ela diz com voz doce, sorriso calmo e olhar sereno. Ela diz com a tranquilidade de quem tem certeza e não quer e não precisa provar nada pra ninguém.
Eu não sei de que cor é o céu. Soube, desde pequena, que azul ele não é. E desde então evito olhá-lo, ora por preguiça de entendê-lo, ora pra desviar de ilusão. Eu não sei se 2017 será minha hora grave, pode ser que sim, pode ser que não…
Percebo agora que pouco importa de que cor realmente é o céu… Importa o que vejo para além do que se pode enxergar. Importa olhar pra cima e enxergar o que se QUER ver. Só assim haverá certeza sobre a sua cor. Só assim há certezas.
[Acabo que criar uma meta para o ano novo!]
O calmo adeus (Vilmar Rangel)
Por ser irrevogável, simplesmente
a ideia de morte não me assusta.
Sequer me aflige o que ela representa
— a certeza da minha finitude.
Sinto-a presente toda vez que fito
minha imagem no espelho de mim mesmo,
fugindo, insidiosa, cada dia,
entre ponteiros de um relógio exangue
na mesa imponderável de Dali.
Busco aceitá-la como o réu confesso
ouve a sentença já imaginada.
Entrevejo-a e tento decifrá-la
nos desvãos da matéria que recobre
um pobre espírito que busca a luz.
Ela se instala mansa e habilmente
e transforma vestígios em sinais
que desalinham todos os sentidos.
Ela se veste de ilusória paz,
mas desnuda sem dó os meus enigmas,
como quem cobra da fugas memória
inventários de perdas e de ganhos,
– relatórios de perdas e de saltos -,
confluência de auroras e crepúsculos.
Reexamina os ritos de passagem,
revisita caminhos sem atalhos,
o trajeto trilhado em luta e sonho,
o sonho tantas vezes revivido
em partilha de crenças e renúncias.
Sei que virá, envolta em sombras, muda,
os braços em convite, a face oculta.
Mesmo que venha lenta ou num só golpe,
preparo-me sem medo, sem angústia,
sem nada por fazer ou repesar.
Lanhos na pele pálida, sem viço,
mas aço dentre os ossos e na alma,
sinto a vida insistir, e por inteiro
espero a hora grave, a grande noite
para exprimir, liberto, o calmo adeus.



















carlinhos j.Carioca
11 DE DEZEMBRO DE 2016 AT 9:54
Otimo texto! Sabemos q a situação do Rafael será difícil na Gestão da nossa cidade(q agora será nossa mesmo),devido as condições q ELE irá pegar.Porém,teremos um cara com uma mente sadia,com caráter e acima de tudo um cidadão e verdadeiro campista.Nasceu,foi muito bem criado,com formação escolar superior(afinal na sua familia todos estudaram e trabalharam apesar de ter um avô pai e avô politico),de formas q esperamos muito dele,principalmente pelo seu caráter.
11 DE DEZEMBRO DE 2016 AT 15:49
Caro Carlinhos,
Endosso seu juízo sobre o caráter do prefeito eleito e o quadro de caos que ele herdará do governo Rosinha.
Abç e grato pela generosidade!
Aluysio
11 DE DEZEMBRO DE 2016 AT 13:30
Não acho que isso tenha denegrido a imagem de Rafael.
11 DE DEZEMBRO DE 2016 AT 15:51
Cara Renata,
Não diria denegrir. Mas, como dito no texto, poderia servir para enxergar a luz amarela. Até pelas decisões muito mais difíceis que virão pela frente.
Abç e grato pela chance do reforço!
Aluysio
11 DE DEZEMBRO DE 2016 AT 13:53
Parabéns ao Rafael Diniz, por sua coragem intrépida, em subir a tribuna da Câmara Municipal e, defender aquilo que acreditas. Mesmo sabendo que desagradaria grande parcela da população campista.
11 DE DEZEMBRO DE 2016 AT 15:57
Caro Edimar,
Com todo o respeito, parabenizar um político recentemente eleito por “grande parcela da população campista” pela “coragem intrépida” de desagradar esta mesma “grande parcela da população campista”, pode não ser conselho dos mais sábios.
Abç e grato pela chance da ressalva!
Aluysio
Savio
11 DE DEZEMBRO DE 2016 AT 14:08
Eu não teria uma única vírgula para acrescentar a este texto, o mesmo está perfeito.
Pode ser que o nosso novo Prefeito esteja ávido para mostrar serviço, pode ser, e é provável que tenha sido, que adotou uma atitude impensada, embora o açodamento quase sempre conduz ao pior dos resultados!
É melhor que ele analise que estamos num período de crise geral no país, e Campos dos Goytacazes está em plena “pane seca”, sem instrumentos de navegação e com uma torre incomunicável, seus “operadores” gozam suas felicidades particulares após 8 anos mamando na teta do desgoverno irresponsável.
É necessário que o novo Prefeito se lembre que deve sempre atender ao desejo da maioria, caso contrário se torna novamente candidato mas ao nefasto posto de “Comandante”, que nós, eleitores campistas, não queremos nunca mais!
11 DE DEZEMBRO DE 2016 AT 16:00
Caro Savio,
Também não tenho nenhuma vírgula a acrescentar aos dois primeiros parágrafos do seu comentário. Mas, com todo o respeito, acho o terceiro exagerado.
Abç e grato pela chance do debate!
Aluysio
11 DE DEZEMBRO DE 2016 AT 14:17
Quanto ao STF no caso Renan, é só lembrar que Luis Inácio falou, Luis Inácio avisou: “Temos um STF acovardado”
Quanto ao Juizeco Moro, não é de hoje que é denunciado como instrumento da oposição para golpear a democracia.
Quanto aos Garotinho, já era esperado seus nomes envolvidos em denúncias desse tipo.
Quanto ao prefeito eleito, imagino estar buscando apoios para a governabilidade, e isso exige postura as vezes obtusa. Espero que consiga sucesso na empreitada sem comprometer sua integridade.
11 DE DEZEMBRO DE 2016 AT 16:08
Caro Elton,
Quanto ao que “Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou”, bom lembrar que só soubemos da sua opinião de um “STF acovardado” porque ele teve essa conversa grampeada e divulgada pela Lava Jato, sob comando de Sérgio Moro. Tanto ele, quanto o STF (pelo menos antes da decisão inconstitucional para beneficiar Renan), quanto Rafael, representam esperança à maioria. E por isso mesmo têm que estar mais atentos do que nós, meros mortais, aos reflexos dos seus atos.
Abç e grato pela chance do debate!
Aluysio
P.S. Concordamos em gênero, número e grau qt aos Garotinho.
11 DE DEZEMBRO DE 2016 AT 16:13
Fico pensando que solução os comentaristas teriam pra dar se prefeito eleito fossem….Em política, se agrada uns e desagrada outros. Nem Jesus agradou a todos, embora devessem todos ficar satisfeitos…Parabéns prefeito eleito!!!.
11 DE DEZEMBRO DE 2016 AT 16:29
Caro Samuel,
Uma das coisas que deveriam ter sido sepultadas pela vitória acachapante do prefeito eleito, são essas infelizes analogias da política goitacá com Jesus, indesejadas igualmente por crentes e laicos responsáveis.
Abç e grato pela chance da lembrança!
Aluysio