“Eu quero que meu canto torto, feito faca, corte a carne de vocês”
(Belchior)
É pouco o que faço, mas é o que posso. Sou um passivo cronista do caos, numa formosa vila plana, que já viveu da cana e hoje cata os tesouros dos abismos do pré-sal.
Vontade era de escrever com punhais e todas as variações de armas brancas, aos invés do teclado do computador. O ideal era molhar a ponta da faca, no sangue sujo das jugulares dos mais debochados algozes das Américas e decretar seu degredo para os vazios, a perder de vista, da geográfica solidão que termina nas geleiras do Ártico. Incluindo Trump, naturalmente.
Mas, ao invés da jornada heroica, me contento por expurgar as falanges de demônios que redemoinham em minha raiva civil, com a fidalguia literária que, dizem, caracteriza meus escritos, o meu hereditário bom-mocismo, que me atrai para as margens do Paraíba, onde acabo as tardes, na nostalgia da bossa nova, enquanto o “barquinho vai, a tardinha cai” e mesmo avisado por John Lennon que “o sonho já acabou faz tempo”, espero que um novo band líder de uma nova jovem guarda me resgate do porão da depressão imposta pelo tempo presente e restaure os embalos do “Iê-Iê-Iê”. Isso é o que me resta neste fim de festa.
Quando os dias eram de chumbo, o estado era opressor e homicida; agora é cínico, porque se autoproclama democrático, e pratica o latrocínio institucional; rouba e mata com armas diferentes: epidemias, que já estavam banidas há décadas, doenças intratáveis por falta de equipamentos basilares em hospitais violados e tiros a esmo nas guerrilhas urbanas contra o crime, cada vez mais organizado e economicamente global.
O que me deixa assim, nesse estado, é o licor que, às vezes, bebo além das medidas e uma amargura nesse coração provinciano, que sonhou ser o que não será jamais. A compreensão que minha valentia não me leva pelas vielas deste país saqueado, sob a noite que disfarça a miséria entre homens, mulheres, velhos e crianças, tramando um levante contra o Poder déspota e ladrão. Por mais que isso pareça détraqué.
Mas que nada, depois da notícia crua e cruel que flagra o deputado correndo, pateticamente, entre os carros de um bairro elegante de São Paulo, com a mesada semanal do presidente da República, tudo exposto, como uma fratura, na tela da TV, a indignação passageira dá lugar a comoção que a novela provoca e faz chorar. Roteiro da indefectível indústria cultural. “É esse o povo que temos”, teria dito Prestes sobre a índole passiva do brasileiro “profissão: esperança”
Darcy Ribeiro e Gilberto Freyre já decodificaram o DNA do brasileiro, que, diferente do “negro norte, americano forte com o brinco de ouro na orelha”, reza por seu patrão, quando ainda nem estão, definitivamente, cicatrizadas as vergastadas nas suas costas.
Há muito tempo, que o dramaturgo “pernambucano” que nasceu na Paraíba, mestre Ariano Suassuna fala que existe o Brasil real e o Brasil oficial. Cada vez mais divorciados, mais distantes. O Brasil real é o seu povo pacífico, resignado, generoso e trabalhador explorado. O Brasil oficial é o país do Temer atemporal, da máquina paquidérmica, perdulária, escandalosa, irremediável, herdeira do Primeiro Império, adúltero, patrão de mercenários.
Continuamos assim: elite e plebe. Nesse contexto histórico que alternou personagens, mas não mudou suas origens, não cabe discussões ideológicas ou posições políticas. Não percamos tempo e energia com esta pendenga inútil. A contenda, senhores, é entre quem rouba mais e quem rouba menos. E só.
Versos de um poema de Maiakóvski iluminam, a história de nossas dores: “(…)Nestes últimos vinte anos nada de novo há no rugir das tempestades”.
Quem tenha tido a árdua experiência de me ler, em post anteriores, já sabe que comungo com os valores do chamado ‘liberalismo’. Isto é, acredito no capitalismo dentro de um contexto econômico e político onde a liberdade, a livre competência e a valorização do individuo predominem. Ao contrário do que muitos pensam, não sou a favor da inexistência do estado, já que nenhuma sociedade perdura sem ele — apenas sou contra do estado paternalista, paquidérmico e bandido que temos nas nossas nações sul americanas.
Acredito na democracia liberal por uma razão simplória: ela funciona. Tenho exemplos concretos para dar. São aqueles países que atingiram uma qualidade de vida como nunca antes se viu na história da humanidade, aqueles aonde muitos brasileiros sonham emigrar. Em contrapartida, os que detestam o capitalismo só tem a propor aquilo que não existe, e nunca existiu: a utopia — um conceito romântico, certamente, mas que não enche a barriga nem detém as balas perdidas.
Exposta assim minha preferência política, tenho que reconhecer que, a cada dia, mais me convenço que antes do posicionamento ideológico é o posicionamento ético o que determina o sucesso ou o fracasso de uma sociedade. Noutras palavras, é o bom ou o mau-caratismo social.
Afinal, o que nos diferencia, no aspecto institucional, de países nórdicos como a Suécia ou a Noruega? Temos uma estrutura legal muito similar, começando pela nossa Constituição, que claramente é pro ‘welfare-state’; temos uma carga tributária tão elevada quanto a deles; um direito penal garantista que trata criminosos com mão tão leve quanto a Noruega (que condenou o assassino de 77 crianças e adolescentes a cumprir apenas 21 anos de cadeia). Aqui e lá se compartilha a ideia de que a saúde e a educação devem ser fornecidas pelo estado. No entanto, as daqui são uma porcaria, e as deles são modelo para o mundo.
Por que, então, apesar das semelhanças na concepção do estado, os países nórdicos são inclusivos, pacíficos e prósperos, e o Brasil é exatamente o inverso?
É o caráter.
É o caráter de seus cidadãos, logo, é o caráter de seus governantes. É ter (ou não ter) uma postura ética que entenda que comportamentos individuais repercutem nos comportamentos gerais. É não jogar lixo na rua. É não passar o sinal vermelho. É não receber propina e não comprar deputados, ainda que seja para o mais altruísta dos objetivos. É, também, achar imoral um juiz ou um legislador ganhar 30, 50 ou 100 vezes o salário mínimo. É não tentar furar fila para ser atendido antes no posto de saúde, mas é também ter um posto de saúde onde o médico não simule o ponto para trabalhar menos horas.
A desculpa comum para cometer um ato reprovável é dizer que comportar-se de forma ‘correta’ não compensa, ou até é prejudicial. Em muitos casos isto é verdade, e por isso é necessário entender que essa corrente de desvios éticos pode ser quebrada com maior facilidade de cima pra baixo — se talvez não é a única forma de quebrá-la. Não apenas porque aquele que está ‘lá encima’ predica com o exemplo, mas também porque ele tem o poder de fazer com que a lei se cumpra de forma honesta — há, sim, maneiras de cumprir a lei de forma desonesta.
Antes que algum apressado possa entender errado, esclareço que não atribuo ao brasileiro (ou ao latino americano em geral) um ‘máu-caratismo’ inato, ou racial. Nenhum comportamento é congênito. Mas o máu-caratismo social existe, se adquire vivendo, e é utilizado muitas vezes como instrumento de supervivência, quando toda uma sociedade fica subordinada a um sistema que é, ele próprio, dominado por safados.
Portanto, antes de discutirmos se Marx ou Adam Smith (aqui), falemos primeiro de decência — para que depois eu possa te demonstrar que Adam Smith estava certo.
No dia 28 de junho, o desembargador federal Marcelo Pereira da Silva derrubou a liminar proferida pelo juiz Julio Abranches Mansur, que impedia a Caixa Econômica Federal reter mais do que 10% dos Royalties e Participações Especiais (PE) percebidos pelo município de Campos, como pagamento à operação de crédito combinada pelos Garotinho com a instituição.
Com a decisão, e até que ela seja eventualmente modificada, haverá de se cumprir os termos do contrato assinado em maio de 2016, que determina que a CEF retire até 175 milhões por ano do que o município receber, até 2020, e 215 milhões entre 2021 e 2026.
Só para lembrar: a administração Garotinho pegou antecipado 562 milhões, combinando a devolução de 1,34 bilhão durante dez anos. Acontece que, do valor recebido, o próprio contrato determinou o abatimento imediato de 195 milhões para cancelar o empréstimo anterior com a CEF, de dezembro de 2015. Assim, o dinheiro que efetivamente entrou nos cofres do município foi somente 367 milhões.
Quando Garotinho tentava convencer a população campista sobre a necessidade de obter a antecipação dos royalties (‘sem presente, não há futuro’, lembram?), assegurava que ela era extremamente benéfica para a cidade, pois não comprometeria mais do que 10% do que fosse entrar das regalias do petróleo. “Menos de 1% ao mês!” chegou a dizer no seu programa ‘Entrevista Coletiva’, em 17 de outubro de 2015.
Desconheço se foi proposital a confusão que Garotinho fez aquele dia, entre o percentual de desconto e a taxa de juros, mas uma coisa restou evidente: a limitação de 10% foi ignorada na hora de assinar o contrato. E olhem que, três dias antes, em 6 de maio de 2016, o procurador do município Matheus da Silva José, no parecer emitido à consulta efetuada pela Secretaria de Fazenda, opinava que “diante a informação trazida pela Superintendência de Petróleo, Energias alternativas e Inovação Tecnológica, é necessária cláusula que limite a quantia anual a ser despendida pelo Município, em razão da limitação de 10% estabelecida pelo parágrafo quarto transcrito acima”.
Não existe no contrato a cláusula ‘necessária’.
A informação da Superintendência de Petróleo a que se refere o procurador está no oficio 40/2016, onde o órgão informa que o que se esperava receber em 2016, ao todo, era pouco mais do que R$ 412 milhões de reais – entrou até menos: 390 milhões.
10% de 412 milhões são 41,2 milhões. Isso deveria ser o máximo que poderia ser devolvido por ano à CEF, se a cláusula estivesse no contrato. No entanto, como já se disse, o que os Garotinho acertaram foi pagar 175 milhões nos primeiros 4 anos (43% do que se espera receber em 2017), como se Campos ganhasse anualmente 1.75 bi de Royalties e PE. Nem nos anos de maior prosperidade o município recebeu tanto.
Temos, assim, que os Garotinho sabiam, por informações fornecidas pela mesma prefeitura, que a arrecadação de royalties ia sofrer uma drástica redução a partir de 2016, e que não era recomendável comprometer mais do que um décimo do que as projeções indicavam. Apesar disso, o próprio Garotinho ‘vendeu’ para os campistas a ideia de que o negócio que estava realizando era mais uma obra de mestre de sua genialidade política.
E foi mesmo uma genialidade, só que apenas para o casal. Os Garotinho perderam a eleição, sim, mas terminaram o mandato sem que a bomba explodisse no seu governo. Para isso, convenceram o Senado, mediante o seu aliado Crivella, e a Câmara Municipal, a emitirem normas que permitissem contrair empréstimos. Normas que, agora, a justiça entende ser irrelevantes, no que diz respeito aos limites máximos de pagamento*. Assim, a bomba está prestes a detonar no colo de Diniz, e de todos os campistas. Se porventura a decisão do desembargador for modificada, parte da explosão atingirá também a Caixa Econômica Federal.
Mas há luz no fim do túnel: o ex-secretário de governo de Rosinha já se prontificou a aconselhar o prefeito, para lhe dizer o que deveria fazer, caso este tenha a ‘humildade’ de ouvi-lo.
Os limites dos Garotinho não são, evidentemente, os que eles nos informaram.
*Segundo o desembargador Pereira da Silva, a operação foi uma ‘cessão de crédito’ e não um empréstimo. Portanto, não cabe a limitação de 10% que a Resolução 02/2015 do Senado e a Lei Municipal 8673/15 tentaram garantir. Trata-se de uma discussão técnico/jurídica de uma complexidade que beira o absurdo, ao se deter em minúcias que se afastam da realidade e das consequências, e que são tão comuns no Direito.
Um ruído de comunicação sobre horário fez com que um dos dois jornalistas fosse sem pauta à entrevista do bispo de Campos, o uruguaio Dom Roberto Ferrería Paz. E talvez tenha sido melhor assim. Com os assuntos fluindo naturalmente, o clérigo mapeou o Ocidente entre duas crises: uma civilizacional, pela falta de Deus, e outra econômica, pela predominância do capital financeiro. Sem rodeios, ele abordou temas polêmicos como direitos LGBT, maconha e aborto. Em âmbito mais local, falou também sobre Lava Jato, Chequinho, Rafael Diniz, casal Garotinho e possibilidade de caos com a “venda do futuro”. Além do presente, o bispo analisou erros e acertos da Igreja Católica e outras religiões ao longo dos tempos.
(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)
Folha da Manhã – Estamos vivendo momentos conturbados em Campos, no Estado do Rio, no Brasil e no mundo. Como o senhor analisa esses contextos?
Dom Roberto Ferrería Paz – Se entrecruzam duas crises, uma estrutural civilizatória, que é muito maior e abrangente. Estamos numa crise do nosso modo de viver, que não dá mais. E uma crise mais particular, específica da economia, a partir de 2008, que ainda não foi totalmente resolvida.
Folha – A partir da bolha imobiliária dos EUA.
Dom Roberto – A crise do capital financeiro, da bolha, de uma economia fictícia, de valores que não existem. São valores especulativos. Hoje, quem domina o mundo é o capital financeiro. A financeirização da economia, essa hegemonia do capital financeiro, leva certamente a uma globalização que tem efeitos perversos. Nesse aspecto de crise civilizatória, em todo o mundo, com um impacto negativo, que vai nos levar a outro estilo de vida, outros valores, e a necessidade de um diálogo entre a economia e a política, porque a política ficou subordinada a ser balcão de negócios da economia. Com isso, o estado está cada vez mais reduzido, recuando, deixando espaço ao mercado. Há uma tentativa na Europa, ou mais no que se chama Eurasianismo, China e Rússia, de trabalhar mais o estado como indutor, um terceiro desenvolvimentismo industrial. Bresser Pereira, no livro “A Construção Política do Brasil”, fala de um terceiro desenvolvimentismo, que trata de articular estado e mercado. Com projetos de infraestrutura de peso, digamos assim, está cada vez crescendo mais essa influência no mundo da China e da Rússia.
Folha – China e Rússia são exemplos de alternativa? Não são nem democracias.
Dom Roberto – São países grandes, primeiro. A China não é uma democracia. A Rússia se aproximou, mas frustrou.
Folha – Ex-chefe da KGB (polícia secreta da extinta União Soviética), Putin é o presidente vitalício da Rússia.
Dom Roberto – Temos que ver, na história da humanidade, não só a questão da democracia, que é modelo. China e Rússia se assemelham ao que são os regimes mais orientais, que tratam de trabalhar o coletivo. Por isso mesmo, podem ser totalitários. Têm uma tendência ao totalitarismo. Mas, têm uma tendência também a uma visão mais coletiva.
Folha – Os alemães têm senso coletivista, mas há muito tempo são democráticos.
Dom Roberto – O alemão é mais comunitário, não coletivista. Não chega a ser totalitário, apesar de ter passado pela experiência nazista, um dos totalitarismos de raça.
Folha – Depois tiveram a experiência stalinista também, na Alemanha Oriental.
Dom Roberto – Sim, o stalinismo também, este de classe. Mas não se esqueça que foi o vitorioso na II Guerra Mundial. Se não fosse por Stálin (líder soviético na II Guerra), esses 50 milhões que morreram, especialmente na Europa Oriental…
Folha – Sim, na Europa a II Guerra foi definida entre dois genocidas: Stálin e Hitler.
Dom Roberto – Exatamente. Primeiro de tudo, a guerra é fatal para a humanidade. Não nos faz progredir em nada, pelo contrário. Mas estou falando sobre se podemos aprender alguma coisa com a China e a Rússia. Na China, há uma aproximação entre o mercado e o estado.
Folha – É o capitalismo de estado.
Dom Roberto – É o capitalismo de estado. E um estado pouco aberto. Agora, a Rússia tem voltado a uma identidade espiritual, um renascimento cristão, a valores culturais…
Folha – O renascimento da Igreja Católica Ortodoxa Russa, com o fim da União Soviética.
Dom Roberto – O Patriarca de Moscou (líder dos católicos ortodoxos russos), que esteve aqui nos visitando no ano passado, ele tem assinado com o Papa Francisco cerca de 20 itens para a concessão de uma civilização mundial que possa sobreviver, dando ênfase ao aspecto da integridade do planeta, da abertura aos pobres, a justiça social. Não me lembro bem do acordo, mas há uma carta de declaração de princípios.
Folha – O senhor falou inicialmente em duas crises: civilizatória e econômica. Inegavelmente, nosso modelo de civilização é greco-romano-judaico-cristão. Tem valores humanos greco-romanos e o cristianismo, que é a moral judaica romanizada. Esse modelo chegou ao ocaso?
Dom Roberto – A partir do século XVIII, com o Iluminismo, há uma ruptura da razão com a fé. A razão se tornou, cada vez mais, absoluta. Esse desvario da razão, que não está na civilização judaico-cristã, foi eliminando a Deus. Deus se tornou uma hipótese desnecessária. Então, nos parece que a crise civilizatória tem a ver com o esquecimento, com o secularismo, com uma civilização sem Deus. Porque, sem Deus, como dizia muito bem o Papa Bento XVI, a gente pode construir uma cidade, mas a cidade será menos humana, menos equilibrada. A razão e a fé são duas asas que nos elevam.
Folha – É preciso “compreender para crer e crer para compreender”, como queria Agostinho?
Dom Roberto – Exatamente. Essa citação de Santo Agostinho é precisa: “crer para entender, entender para crer”. Agora, é uma crise de razão tecnocrática. Uma razão que só vê coisas, só vê mercadoria, só vê matéria. É incapaz de ver a natureza ou a terra como algo vivo. Por isso há uma crise organizatória. Se perdeu o olhar judaico-cristão. Claro que não é só da civilização judaico-cristão a capacidade de olhar para a terra como organismo vivo. Mas, eu diria que há o esquecimento das sabedorias espirituais. O esquecimento de um humanismo aberto a Deus.
Folha – Em relação à predominância do capital, o senhor acha mesmo que é um fenômeno novo? Ela não começou já nos sécs. XVII e XVIII, com a Revolução Liberal Inglesa e a Revolução Industrial?
Bispo – Agora, com a terceira revolução industrial, principalmente com as novas tecnologias, a transferência de capital, as bolsas, operam 24 horas por dia. Então, criam um mundo de investimentos que não existe, que é papel, que são ordens de compra, mas não existem na realidade. Isso leva a uma economia que não tem escala humana, não tem controle humano.
Folha – Essa questão da transferência de capital também não começa um pouco antes, na Idade Média, com os Templários (ordem católica e guerreira) nas Cruzadas?
Bispo – Sim, claro. E com os judeus também, porque, como eles não podiam ter acesso a outras profissões, se dedicaram à profissão banqueira.
Folha – Como o judeu Shylock em “O mercador de Veneza”, de Shakespeare?
Dom Roberto – Exatamente.
Folha – Falando sobre Campos, como o senhor avalia o cenário local, com a venda dos royalties?
Dom Roberto – O petróleo traz coisas interessantes, mas não desenvolve a economia de forma orgânica. Cria dependências e, digamos assim, não distribui bem a riqueza. Uma economia centrada só nos royalties está fadada ao fracasso. O problema é que faltou se preparar para o fim do petróleo, dos royalties. Acredito que não aconteceu, e estamos vivendo isso tudo. Pensávamos que ia durar. Era uma economia movida a royalties. Ninguém previu. Se fez pouco para adaptarmos a uma situação desse tipo.
Folha – Os recursos são finitos.
Dom Roberto – Os recursos são finitos. O petróleo também faz parte da nossa crise civilizatória. É danoso, uma energia que suja.
Folha – O Albert Hourani escreveu o livro “Um estudo sobre os povos árabes”. Analisando desde o advento do Islã, no séc. VII, ele fala como depois os árabes foram dominados pelos turcos. E quando enfim se libertaram desse domínio, ao final da I Guerra Mundial, descobriram que estavam sentados em cima de uma riqueza enorme: o petróleo. E como essa riqueza pela qual não trabalharam, em vez de proporcionar a retomada deles aos seus tempos de glória da Idade Média, serviu à manutenção de uma liderança tribal e atrasada sobre os demais, como acontece até hoje. O paralelo se aplica a Campos?
Dom Roberto – É fascinante. Leva, não diria um caudilhismo, mas gera, não uma democracia participativa, mas lideranças que podem ser tribais. Eu acredito que o populismo é um pouco mais evoluído.
Folha – O que o senhor chama de populismo?
Dom Roberto – Populismo é um governo que trata de governar para o povo, sem o povo. Uma espécie de despotismo iluminado. Lembra dos déspotas dos séculos XVIII e XIX, como czarina Catarina, a Grande, da Rússia. Houve vários. Eles acreditam que são lideranças que a gente deve seguir. Agora, o populismo tem duas fases: uma paternal, com Getúlio, o “Pai dos Pobres”; e, depois dos anos 1980, 1990, conhecemos um populismo que já não trabalha mais com a classe operária, mas com lumpemploretário, isto é, o trabalhador informal.
Folha – O senhor chamou o Getúlio Vargas de “Pai dos Pobres”. Esse termo também foi e é usado para adjetivar Lula. Concorda com esse paralelo entre os dois?
Dom Roberto – Há uma aproximação, mas não podemos dar a envergadura de Getúlio ao Lula. Há uma aproximação, especialmente no Nordeste. Já o Getúlio teve um impacto civilizatório para todo o Brasil, nacional.
Folha – Recentemente, foi veiculada a notícia de um bebê do Canadá que será registrado sem a identificação do sexo, para decidir seu gênero no futuro. Como a Igreja vê esse assunto, bem como os relacionamentos homoafetivos?
Dom Roberto – As religiões têm suas doutrinas reveladas, que não são negociáveis. Todas regulam a família, a vida. E todas, digamos, de uma forma ou outra, questionam a sério a ideologia de gênero, de que o gênero se constrói. Nenhuma religião, nenhuma igreja aderiu a isso. Posso dizer que nem o marxismo aderiu a isso. A ideologia de gênero não tem base científica, porque todas as nossas células são sexuadas. Você não escolhe o sexo, já nasce com ele. A ideologia de gênero possibilita que você seja José hoje e Maria, amanhã. Depois, não sei o que vai ser. Isso me parece que também é algo da crise civilizatória e também uma crise de identidade. Mas, em relação às pessoas, a Igreja as respeita. A Igreja sempre será aliada para combater qualquer discurso de ódio ou de intolerância. Isso é muito claro com o Papa Francisco. As pessoas têm seus direitos. Mas a questão de gênero é muito mais complicada do que a homossexualidade, porque destrói o vínculo familiar. Se você não sabe o que é, como vai construir uma família? Que tipo de família? Quem é pai e quem é mãe? Tudo vai ser como você se define. E também fica em aberto, porque não são identidades permanentes. Quando não há uma identidade, a família também perde sem sua identidade. E sem família, nós não temos a possibilidade de construir uma sociedade permanente. Na América Latina, houve na OEA uma discussão sobre os direitos dos homossexuais. A delegação cubana, que não tem nada a ver com a Igreja Católica, queria direitos sociais da família. A delegação brasileira disse que não pode aderir a isso, porque segue um padrão dos direitos LGBT, não podendo definir o que é família. Foi em uma das últimas reuniões da OEA. Na Rússia, a Duma (parlamento russo) proibiu a ideologia de gênero.
Folha – A Duma faz o que Putin quer que faça.
Dom Roberto – Mas também a China, a Índia também, sem falar nos irmãos muçulmanos.
Folha – Embora, no mundo, o muçulmano Irã só perca para a Tailândia no número de operações de troca de sexo. Eles evocam uma base teológica do Corão de que pode existir uma alma feminina presa num corpo masculino.
Dom Roberto – Eles são xiitas (segundo maior ramo do Islã, oposto ao primeiro: o sunitas), os que mais se aproximam aos cristãos. Sempre lutaram conosco. Dos países islâmicos, o Irã é o que mais protege os cristãos. Nas Cruzadas, tanto São Luís da França (rei da França), como Ricardo Coração de Leão (rei da Inglaterra), lutaram tendo como aliados os xiitas.
Folha – Embora Ricardo Coração de Leão não fosse nenhum exemplo a ser seguido. Bem diferente do muçulmano Saladino (sultão do Egito e da Síria).
Dom Roberto – Saladino era amigo de Ricardo Coração de Leão, se respeitavam muito.
Folha – Mas Ricardo passava os prisioneiros, incluindo mulheres e crianças, a fio de faca. Saladino retomou Jerusalém para o Islã e liberou todos os cristãos.
Dom Roberto – Sim, é verdade. Saladino era um cavaleiro exemplar.
(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)
Folha – Voltando à questão política, como o senhor vê, hoje, a crise do Estado do Rio de Janeiro?
Bispo – É uma falência. Como o livro de Gabriel García Márquez, “Crônica de uma morte anunciada”. O desfalque do Estado, a falta de responsabilidade, os partidos que mais ou menos estavam na frente. Aí, sim, se aplicaria a palava tribalismo. Partidos fisiológicos, lamentavelmente. Tudo isso levou a uma falta de responsabilidade política e social em relação ao Estado do Rio de Janeiro, a ponto de ser um dos estados de pior situação.
Folha – Como o senhor vê a Lava Jato?
Dom Roberto – Nos parece que, do ponto de vista dos procedimentos, essa força-tarefa foi algo exemplar, que nunca aconteceu. É uma experiência nova de combate à criminalidade econômica, financeira e política. Agora, também vale dizer que, em certos momentos, tornou-se seletiva. Embora agora esteja atingindo também ao Aécio, você vê que, ao mesmo tempo…
Folha – Chegou ao Aécio (PSDB), prendeu o Eduardo Cunha (PMDB), prendeu parte da cúpula do PT e do PP, ajudou a derrubar a ex-presidente Dilma e agora coloca em risco a permanência de Temer no cargo. Seletiva em quê?
Dom Roberto – Em etapas. Ultimamente, atingiu ao PSDB. Antes não estava sendo atingido. Não se atingiu a todos os partidos de imediato. E está claro que a criminalidade econômica-financeira não começa com o PT.
Folha – Não começa, mas se torna institucionalizada.
Dom Roberto – Também não.
Folha – É o que já afirmaram os procuradores federais à frente da Lava Jato.
Dom Roberto – A possibilidade da compra da reeleição não foi o PT.
Folha – Corrupção no Brasil existe desde a carta de Caminha. Mas sempre foram ações individuais. Como linha de montagem, não começou com a ascensão do PT ao poder?
Dom Roberto – Eu não nego isso. Quero dizer que havia raízes. Há um sistema a partir da Constituição de 1988, que nasceu híbrida. Tinha sido pensada para um parlamentarismo.
Folha – E venceu o presidencialismo na época do plebiscito de 1993.
Dom Roberto – A partir daí, se deu o que se chama o modelo de presidencialismo…
Folha – Presidencialismo de coalizão, ou cooptação.
Dom Roberto – De coalizão, que virou coaptação. Você, para ter governabilidade, tem o procedimento do orçamento, o leiloamento da máquina pública, cargos, ou finalmente o Mensalão. Todos os meios levam à mesma coisa: tornar a política um balcão de negócios. Claro, isso foi se avolumando, mas, digamos, a classe política se tornou eleitoreira…
Folha – O senhor citou a compra da reeleição do ex-presidente Fernando Henrique (PSDB). Não há dúvida que houve compra de votos ali. Mas uma coisa é comprar deputados individualmente. Outra coisa é todos os deputados da base receberem o mesmo valor todo mês. Deixa de ser um acúmulo de ações individuais e passa a ser uma instituição. Isso não se deu com o PT?
Dom Roberto – Sim. Virou uma linha de montagem. Mas a origem está nesse sistema. Teríamos que evoluir, impedir essa alianças. O fato de ter segundo turno leva a isso, necessariamente. Impede um governo de princípios. Também o fato desses partidos nanicos, legendas de aluguel.
Folha – A política brasileira está desmoralizada. Como o senhor vê o fato de líderes religiosos, não só da Igreja Católica, como de outras religiões, se candidatando a cargos públicos?
Dom Roberto – Líderes religiosos, chefes de igreja, eu vejo mal. Eles têm outra finalidade. Estão para inspirar, não para governar. Inspirar pessoas e formá-las bem. Agora, é muito difícil não cair no que se chama uma hierocracia, hierarquia sagrada. Tivemos aspectos que a Igreja fez isso e fez mal. Teocracias. Vemos isso no Islã. O que nós temos, talvez diminua a corrupção, mas a liberdade também diminui muito. Ou também, sem chegar a tanto, o aparelhamento do estado. As igrejas se tornam distribuidoras de privilégios. Cheque Cidadão e outras coisas. E aparelhamento também, por exemplo. Se uma Igreja não gosta de Carnaval, ignora isso, sem levar em conta o desejo da população.
Folha – Qualquer generalização é perigosa, mas há denominações, como a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), que claramente trabalham para a formação de uma bancada.
Dom Roberto – Há um projeto de poder. Inclusive, penso que o Edir Macedo, ele ou o Marcelo Crivella (PRB), serão presidentes dentro desse plano. Querem ser. Se vão ser, é muito difícil que sejam. Mas o Crivella é bem diferente do Macedo. Eu o conheço, inclusive ele ia nas reuniões da Pastoral dos Católicos e Cristãos na Política. É uma pessoa aberta ao social. Foi um dos inspiradores da Fazenda Canaã. É interessante ver o imaginário da IURD, que trabalha muito com Israel, com os kibutz. Agora, ele é um homem que me parece ter valores bons. Mas, a igreja em si, a IURD, tem um raciocínio um pouco bitolado, de não abertura. Na eleição ao Governo do Estado, não nessa que ganhou para prefeito, ele nos passou isso, que ele pensava diferente, não tinha esse viés sectário em nível religioso. No entanto, agora, como prefeito do Rio, nomeou bispos…
Folha – Historicamente falando, não chega a ser irônico que Lutero tenha rompido com a Igreja pela venda de indulgências, e agora, como resultado desta ruptura, há denominações protestantes que vivem de vender indulgências?
Dom Roberto – Lutero estava certo em relação à venda de indulgências, mas não quanto ao que eram indulgências. Hoje, há venda de escrituras de lote no céu. A causa de Lutero, que nós chamamos da causa da Reforma, é católica e luterana ao mesmo tempo, e continua com Francisco. Essas igrejas pentecostais de terceira geração não têm identidade de reforma, não querem reformar nada. Não têm uma proposta de mudar a sociedade, nem de mudar a Igreja. São agências de salvação, de troca. Há igrejas pentecostais muito sérias. Por exemplo, a Assembleia de Deus tem sido a que mais cresceu. É muito mais numerosa que a IURD. A Igreja Batista também é muito séria. O grande problema da Assembleia de Deus é que não é uma igreja, mas uma federação.
Folha – É inegável que as igrejas evangélicas cresceram muito nos últimos anos. Em contrapartida, a Igreja Católica, que tinha perdido um pouco de força, está se recuperando desde a chegada do Papa Francisco. Como o senhor vê essa renovação da Igreja Católica?
Dom Roberto – Creio que a recuperação começou com o Papa João Paulo II, em termos de presença pública. Embora, quem reduziu um pouco a presença protestante foi a Renovação Carismática católica. Não em termos de combater, não é isso, mas de dar devida importância aos leigos, à oração, a um tipo de culto, à música; atualizar a evangelização, como foi a proposta de João Paulo II. Agora, Francisco traz de volta aquele que nós nunca deveríamos ter perdido: a periferia. O pentecostalismo cresceu onde não há estado, nas periferias. Onde há estado, não crescem tanto, começam a diminuir. Por exemplo, em Campos, o Crivella só ganhou nas duas zonas eleitorais de Guarus (76ª e 129ª). É onde temos essa problemática, a parte que está mais abandonada pelo estado. Não tem saneamento básico. É onde há mais violência. Onde nós tratamos, como bispo diocesano, de ter uma presença maior.
Folha – O senhor falou da Renovação Carismática. Na América Latina, nas últimas décadas do século XX, houve o fenômeno e Teologia da Libertação, que os críticos acusavam de ser marxismo com cristianismo. Embora tenha conquistado apoios no meio intelectual, a Teologia da Libertação nunca foi popular. A Renovação Carismática, em contrapartida, não tem a mesma pretensão salvacionista na Terra, mas com certeza é mais popular. Como o senhor analisa e com qual simpatiza mais?
Dom Roberto – Eu simpatizo com as duas na medida que elas respeitam a doutrina cristã. Eu diria que a Teologia da Libertação é necessária. Mas devemos definir qual delas: a Teologia da Libertação que diz que devemos vencer a miséria, empoderar os pobres, lutar pela justiça. Essa me parece não só justa, como necessária e cristã. Por sua parte, a Renovação Carismática católica, nas suas melhores expressões, tem um ministério ao qual eu acompanho. Pessoas que são da Renovação como o Molon (deputado federal do Rede). Tem o Márcio Pacheco (deputado estadual do Paraná), que também é da Renovação e está no PSC, embora que não eu não saiba por quanto tempo, porque o PSC é do nosso “amigo” Bolsonaro… (risos)
Folha – O Deltan Dallagnol (procurador à frente da Lava Jato) e Marcelo Bretas (juiz à frente da Lava Jato no Rio) são evangélicos.
Dom Roberto – O Dallagnol é batista. Mas, sim, é verdade, é protestante. Inclusive o Dallagnol sempre começava suas palestras fazendo uma invocação. Ele considerava a Lava Jato uma Cruzada, às vezes. Mas acho um rapaz muito bom. Li um livro dele, achei muito bem intencionado.
Folha – E o Moro? O que o senhor acha dele?
Dom Roberto – O Moro é católico (risos). Estudou nos Estados Unidos. É um homem de pureza, de ideal republicano, que está muito convicto. Vejo neles, Dallgnol e Moro, uma espécie de intocáveis (força tarefa dos EUA que prendeu o mafioso Al Capone nos anos 1930).
Folha – E quem é o Al Capone?
Dom Roberto – (Risos) Aqui não temos só um. Se o Al Capone vivesse aqui, não teria sobrevivido (risos).
Folha – Falando de Campos. Como o senhor vê os seis primeiros meses do governo Rafael Diniz?
Dom Roberto – Bom, pensamos que o Diniz foi uma novidade boa para o cenário. Boa também pelo pai, que eu conheci: um homem idealista, íntegro. Penso que o Rafael bebeu disso. Agora, é certo que ele não tinha nenhuma experiência administrativa. Foi tribuno uma vez e, de vereador, passou para prefeito. É muito católico, como o pai também era, e a mãe. Talvez, se ele tivesse tido outro mandato como vereador… Agora, pelo menos, ele está tratando de sanear, equilibrar, ter uma gestão técnica. Mas vejo também, inclusive perguntei a ele, se ele não via nada de positivo da gestão anterior.
Folha – Ele falou disso em entrevista à Folha (aqui) no domingo passado (02).
Dom Roberto – Então, até que foram inteligentes as minhas perguntas.
Folha – E as respostas, foram inteligentes?
Dom Roberto – Eu teria sido mais generoso. Eles (os Garotinho) também levaram um certo progresso aos bairros mais periféricos.
Folha – O senhor é cidadão uruguaio, não vota aqui. Mas se votasse, na última eleição a prefeito de Campos, teria votado em quem?
Dom Roberto – Em Rafael, claro que sim. Ele é a expressão da nossa Igreja, mas não só por isso. Era necessária a mudança, a alternância. A mudança de paradigma, uma gestão mais participativa. Não basta só a gestão tecnocrática. É uma mudança que também deve promover a cidadania e continuar respeitando especialmente as camadas mais populares, os pobres.
Folha – E essas medidas que ele tomou recentemente sob muitas críticas, como fechar o Restaurante Popular e aumentar a passagem de ônibus?
Dom Roberto – Me parece que não foram devidamente ponderadas, foram um pouco precipitadas, especialmente o fechamento do Restaurante Popular. Sabemos porque vemos, todos os dias, uma fila interminável na casa das irmãs, que atendem com muito amor e dão quentinhas. O problema do Restaurante Popular, embora não solucione a fome, mitiga. Num momento de crise, é uma medida que não deveria ter sido tomada sem dar outra possibilidade.
Folha – Não foram ponderadas, mas foram necessárias?
Dom Roberto – Eu diria necessárias se não tem dinheiro, mas é preciso priorizar. E para nós, Igreja, a prioridade sempre serão os pobres. É a opção de Cristo. Com a fome, você não pode brincar. A fome é uma questão imediata. É verdade que o Restaurante Popular não vai resolver isso. Não é política estruturante, não transforma, mas atenua.
Folha – E o que o senhor acha da “venda do futuro”? Se passar o que os Garotinho acordaram com a Caixa, que é o que está vigorando, com a queda da liminar, o próprio Rafael admitiu que será o caos. O que o senhor acha disso? Como a Igreja vê a possibilidade do colapso em uma cidade de 500 mil habitantes?
Dom Roberto – A mesma explicação para a venda do futuro é que, se não a fizesse, o colapso seria naquele momento. Foi a escolha do momento de colapso.
Folha – Aquele momento era num ano eleitoral. Colapsos em anos eleitorais são sempre suspeitos.
Dom Roberto – Sim. E inclusive há toda uma legislação para que não aconteça esse tipo de créditos grandes. Mas, o que deve se julgar, a Igreja proporciona, não diagnósticos, mas elementos de juizo. Se houve improbidade, se houve respeito às leis, é isso que a gente tem que ver. Me parece que, tanto um como o outro caso, se devem à falta de planejamento e desperdício. Isso, sim, deve ser observado. Por que chegamos a esse momento? Faltaram políticas de transparência há muito tempo, não só com os Garotinho.
Folha – Durante todo o período dos royalties, de 1989 a 2016, Campos só foi administrada pelos Garotinho ou pessoas egressas do grupo deles. Nos últimos 30 anos, Rafael é o primeiro prefeito da cidade que não veio desse grupo.
Dom Roberto – É verdade. Agora, o voto ao Rafael não foi um voto de adesão, mas um voto de protesto.
Folha – Falamos da Lava Jato. Qual a sua opinião sobre a Chequinho?
Dom Roberto – É um expediente de corrupção eleitoral. Tenho dúvidas sobre a intenção, mas materialmente configura corrupção. Não posso julgar o que queriam fazer com isso, se havia intenção. Não julgo as pessoas, julgo os atos.
Folha – Até junho, havia 18 mil pessoas cadastradas no Cheque Cidadão. De junho a agosto do ano eleitoral, em três meses, passou para 35 mil. A denúncia foi feita pelas próprias assistentes sociais da Prefeitura que faziam o cadastro.
Dom Roberto – Não se sabiam os números, mas todo mundo sabia que estavam fazendo isso. Não há como negar. Me parece que é um expediente muito ruim. Mas também, e aí que está o que eu gostaria de que fosse o legado do Rafael: fazer crescer a sociedade civil campista, fazer crescer os movimentos sociais, e, de alguma forma, romper com essa porqueira. Houve o lado dos Garotinho, mas também os cidadãos se venderam.
Folha – E como a Igreja vê a possibilidade do colapso, se vingar a “venda do futuro” nos termos dos Garotinho?
Dom Roberto – Isso vem acontecendo no Estado do Rio. Acredito que o Rafael está fazendo o possível. Agora (na quarta, dia 5, quando a entrevista foi feita) está em Brasília. Acho que não vamos chegar a isso. Mas, se chegar, vamos somas esforços para sair do colapso e conseguir recursos emergenciais que possam evitar essa catástrofe social. Imagina o caos. Meio milhão de pessoas! A Igreja vai tratar de colaborar na busca de soluções imediadas. Aí todos os campistas deverão se ajudar, não existe mais governo e oposição.
Folha – É comprovado que, em situações de crise as pessoas se prendem à fé, à religião. Qual o papel da Igreja nesse cenário de crise brasileira, estadual e municipal?
Dom Roberto – Nós estamos fazendo um mutirão pela paz. O Estado é um dos estados mais violentos, e Campos, uma das cidades mais violentas do mundo. Temos que trabalhar a paz social. É o que nos recomenda o Papa Francisco. A Igreja está para dar a verdadeira esperança. Temos que manter a esperança em soluções, no diálogo, e oferecer sempre a nossa Igreja para facilitar o diálogo. A Igreja está para servir a humanidade, não para servir-se dela. Não somos máfias espirituais que, quanto pior a situação, melhor para nós. Ao contrário: acreditamos em um Deus que é bom e misericordioso. Não trabalhamos com o terror e o medo. O mal trabalha com o medo.
Folha – Há igrejas cristãs que falam mais do Diabo do que de Deus.
Dom Roberto – Quem fala mais no Diabo do que em Deus, é máfia. Quem, em um culto, fala que se você não pagar o dízimo… (risos) é óbvio que é uma máfia. E nós não somos máfia, queremos ser a Igreja de Jesus, que veio para libertar as pessoas. O Evangelho é a boa nova.
Folha – Embora, nas Cruzadas, a Igreja tenha matado bastante.
Dom Roberto – As Cruzadas foram guerras defensivas. Os cristãos não podiam ir mais à Terra Santa, eram hostilizados. Não estou de acordo com o método. Se eu tivesse na Idade Média, seria como São Francisco, que foi abençoar. Mas as Cruzadas foram respostas, não foram guerras para conquistar território. Me parece muito pior o que fizeram os países europeus no colonialismo do que as Cruzadas, que foram uma guerra de reação para os santos lugares.
Folha – Com todo o respeito, mas também a escravidão contou com a aprovação da Igreja. Portugal começa a fazer tráfico de escravos da África após a aprovação do Papa.
Dom Roberto – Sim, inclusive o nosso querido Antônio Vieira recomenda, como saída, trazerem negros que aguentam mais o trabalho. Por isso nós temos que pedir perdão. Os islâmicos prendiam os escravos. Os portuguesas não os aprisionavam.
Folha – Não é melhor ficar com Gandhi (líder pacifista indiano): “Nessa história de olho por olho, acaba todo mundo cego”?
Dom Roberto – Sim. Agora, Gandhi dizia que, diante de Hittler, por exemplo, teríamos que pegar em armas. Ou mesmo Chomsky (intelectual estadunidense). Eu não acredito na violência, não acredito nas guerras. Penso que tivemos um papa, João Paulo II, que, em 2000, foi o único a pedir perdão. Pediu perdão às mulheres, perdão pelas Cruzadas, perdão pelos regimes autoritários que defendemos na América Latina. Pediu perdão por muitas coisas. Não vejo de nenhuma outra religião a mesma honestidade. E também as outras religiões foram tão bárbaras, agressivas e violentas também. Você fala do Gandhi, mas o hinduísmo está matando cristãos em quantidade hoje. Hoje!
Folha – O islamismo e o hinduísmo são históricos opositores em conflagrações violentíssimas. Tiveram que separar o Paquistão da Índia para não matarem um ao outro.
Dom Roberto – Sim. Acredito que o Evangelho questiona todas as religiões. Jesus questiona a todos. Agora, não vamos dizer que só a Igreja agiu mal. Por exemplo, os ateus estão resolvendo reconsiderar. Havia um ateu que dizia que o cristianismo era o pior. Agora que estão se aproximando os terroristas islâmicos, diz que ainda preferiria morar em um país cristão (risos).
Folha – Os piores crimes cometidos pela humanidade foram cometidos por religião.
Dom Roberto – Sim, sim. Ou contra a religião também. A corrupção do ótimo vira péssimo.
Folha – O senhor é uruguaio. Seu país teve como exemplo o ex-presidente José Mujica. Fazendo uma análise da ascensão das esquerdas ao poder na América do Sul, neste início do séc. XXI, um dos poucos lugares onde deixou saudades foi justamente no Uruguai. Foi exemplo?
Dom Roberto – Centro-esquerda, não uma esquerda radical. E se dá dentro de um país pequeno, que era chamado de Suíça da América, com uma tradição progressista. O Uruguai sempre foi um país muito equilibrado nesse aspecto. Sempre tratou de fazer crescer a democracia. A luta armada foi um fracasso.
Folha – O Uruguai já foi Brasil: Cisplatina. Acredita que o Mujica daria certo no Brasil?
Dom Roberto – Eu diria que o Mujica expressou apoio à presidenta Dilma várias vezes. Pensou que, de alguma forma, ela estaria fazendo o que ele faria. Agora, a política do Mujica, não. Não, porque, por exemplo, essa liberação da maconha que ele fez, aqui seria um desastre.
Folha – O senhor é contra a legalização da maconha?
Dom Roberto – Eu sou contra. Apesar de que o Fernando Henrique e vários pensadores da América Central (apoiam a descriminação), o argumento do Mujica não é evidentemente o argumento de que consumir a maconha é certo ou errado, mas o grande problema é diminuir a violência do tráfico.
Folha – É contra aborto também?
Dom Roberto – Lógico.
Folha – Até em caso de estupro?
Dom Roberto – Eu sou a favor da vida.
Folha – Mesmo gerada por um estupro?
Dom Roberto – É a vida. Existe pena de morte aqui?
Folha – Só em casos de guerra declarada. E anencéfalo?
Dom Roberto – Também sou contra. Sou a favor da vida. E, na verdade, não é descerebrado. Ele sente. Não vejo nenhum motivo para que não nasça. Nascer e viver um minuto já é grande diferença.
A Ponte da Integração sobre o rio Paraíba do Sul, entre São João da Barra (SJB) e São Francisco de Itabapoana (SFI), terá as obras retomadas em setembro e concluídas até o fim de 2018. É o que aposta o deputado estadual João Peixoto (PSDC), a partir do saneamento das finanças do Estado do Rio com a ajuda da União. Com o presidente da Câmara sanjoanense, vereador Aluizio Siqueira (PP), Peixoto esteve no final de junho no Palácio Guanabara. Do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), os dois parlamentares ouviram: “Não vou começar nenhuma obra nova, mas terminarei todas as iniciadas, incluindo a Ponte da Integração”.
Retrospecto das promessas
Considerada de vital importância não são para SJB e SFI, como também para Campos, a Ponte da Integração não tem, no entanto, um retrospecto de promessas cumpridas pelo governo fluminense. Após dois processos licitatórios complicados, as obras só foram iniciadas em fevereiro de 2014, ano em que Pezão se elegeria governador. Mas ela foi paralisada em janeiro de 2016 e até agora não voltou. Ademais, sobre as promessas do governador de colocar os salários do próprio funcionalismo em dia, basta perguntar aos servidores estaduais de SJB, SFI e Campos, que ontem teve novo protesto na Uenf pela falta de pagamento.
Portas abertas no PSDC
Sobre PSDC, do qual é o presidente estadual, Peixoto talvez possa falar com mais segurança do que do cumprimento das promessas de Pezão. Ainda que seja louvável o esforço do deputado pela retomada das obras da Ponte da Integração. João disse que seu partido trabalha para lançar candidatos próprios em Campos a deputado federal e estadual. Embora ele próprio assuma sua pré-candidatura à reeleição pela Alerj, disse que já convidou os dois vereadores da legenda no município a tentarem a sorte nas urnas em 2018: José Carlos e Cláudio Andrade. “As portas estão abertas a quem quiser se lançar”, disse o experiente deputado.
Rodada de negócios
Em meio a tantas notícias ruins no setor econômico, o agronegócio de Campos e da região tem uma ótima oportunidade de movimentar o setor. Acontece na próxima quarta-feira, das 15h às 17h, no auditório da Fundação Rural de Campos, a Rodada de Negócios, com o objetivo de incentivar investimentos e fomentar parcerias no setor primário. A realização é do Grupo Barcelos em parceria com a GR Agrárite.
Dilema tucano
O PSDB enfrenta uma dúvida cruel se sai ou não do governo Michel Temer (PMDB). O dilema está relacionado a um pragmatismo eleitoral de médio prazo. O partido foi um dos instrumentos e força no impeachment de Dilma Rousseff (PT). Tem muita responsabilidade pelo atual governo. Simplesmente não pode sair à francesa. Temer bate recordes de impopularidade. A campanha eleitoral estará em andamento dentro de um ano e um mês, e quem estiver a ele vinculado terá de arcar com o desgaste.
Reunião
“É isso ou nada”. Foi assim que o presidente da Coagro, Frederico Paes, resumiu a reunião na última quinta-feira, na sede regional da Firjan, quando representantes de três indústrias do setor sucroenergético — que conta com duas usinas de açúcar (a Coagro e a Paraíso) e de álcool (Canabrava) — pela primeira vez estiveram juntos numa entrevista coletiva para anunciar projetos de integração na busca de objetivos comuns. É a crise que mais uma vez aparece como parteira de grandes soluções.
Violência
Volta a Campos o flagelo da violência nos estádios com todos os seus aspectos sombrios e irracionais. Logo, merecem toda repulsa as práticas de banditismo que cercaram o jogo entre Goytacaz x Americano, na última quarta-feira, nas imediações do Aryzão. Triste, em um momento excepcional em que se apostava na retomada da força e pujança do futebol campista com a volta do público a prestigiar o centenário clássico.
Com a colaboração dos jornalistas Aldir Sales e Paulo Renato Porto
Imagine você, leitor, caminhando em direção a um platô em uma serra, na hora do por do sol. Crianças brincam de bicicleta no horizonte. E tem um banco, daqueles de praça, para que possa se sentar. Ninguém além das crianças, parece mais um quadro só feito para que aprecie em silêncio. Faz calor, mas nada absurdo. Absurdas são as cores do céu, a paz, os meninos que se chamam ao fundo. E assim alguém te aborda, mesmo tão absorta nas imagens da natureza. Pergunta se pode conversar com você. Claro. Mas se oferece para sentar na pedra abaixo da linha do banco. Mas de jeito nenhum. A justificativa é ter um cálice no banco com água do outro lado do banco. A percepção foi desse senhor cuidadoso que chegou. Portanto, sente ao meu lado. Por favor.
— Qual é sua graça?
— Manuela.
— A senhora vai me desculpar a pergunta inconveniente. Mas a senhora é pesquisadora?
— [sorrindo, imaginei ser a pergunta inconveniente meu status marital, por assim dizer]. Sim, sou sim.
— É porque eu não concordo. Essa coisa de vir aqui e colocar bicho em formol. Ainda fazem isso?
— Não saberia dizer… Não pesquiso animal. [erro crasso meu, mas passou] E qual é o nome do senhor?
— Fânio. Epifânio.
— Pois não, prazer, Epifânio. [oferecendo a minha mão]
— A senhora falou sua graça agorinha. Me esqueci.
— Manuela.
— Sim, senhora Manuela, eu queria te perguntar, a senhora não é daqui né?
— Não, sou não.
— Eu sou daqui. Mas chegou uma hora que tive que pedir baixa do exército. Servi na época da guerrilha, na serra das Andorinhas. Depois voltei pra mais perto. Tinha pouso de avião em Ponta Negra… Mas eu estou cansado disso tudo. [passa a mão nos olhos] E eu gostava da vida lá. Não era ruim.
— É mesmo?
— É… Mas eu vou te falar. A gente tem que saber quando dizer para parar. Porque aqui, acaba que estou mais na sobrevivência mesmo, mas estou tranquilo.
— Sei que não é tudo na vida o que a gente quer, mas só esse por do sol…
— Já foi mais bonito. Se tirarmos uma foto por detrás do platô, outra coisa.
— Imagino [realmente tentando imaginar em minha mente, como seria]
*Silêncio dos dois por alguns minutos
— Mas a senhora está só de passagem, né?
— [Olhos nas crianças, platô, céu] E quem nessa vida não está?
— Ah sim. Mas pelo menos tire uma foto.
Caros leitores,
Uma pequena incursão de um dia feliz da minha vida que passei na serra do Tepequem em Amajari Roraima.
Seu Epifânio me confirmou a inevitável necessidade de, por vezes, pedirmos baixa na vida. Isso por razões maiores do que a nossa vã filosofia ou mesmo emoção. E assim, entre a vida universitária de prazos e compromissos para ontem, uma saudade tremenda da minha terra natal e um coração descompassado, eu me despeço desse espaço.
Não sem antes expressar minha gratidão. E sigam o conselho do seu Epifânio. Segue a foto.
Eleições em Campos 2004: Os peemedebistas, Renan Calheiros, Michel Temer, Geraldo Pudim e Garotinho. Fotografia impensável 13 anos depois (Foto: Antônio Leudo)
É fato histórico que Joseph Stalin (1878-1953) mandava apagar das fotografias ex-aliados que se tornaram inconvenientes ou que foram expurgados por ele mesmo da vida física e política da então União Soviética. O meio utilizado deveria ser algo rudimentar, numa época em que fotografia digital e photoshop eram inimagináveis, mas os efeitos eram alcançados até mesmo nos livros de história que eram recolhidos, queimados, e outros eram editados retratando a nova “realidade” que convinha ao “guia genial dos povos”.
No mundo atual da comunicação instantânea e evasão espontânea de privacidade, os meios de manipulação de fatos históricos se sofisticaram e dão sustentação para as fake news que inundam as redes sociais e culminam no fenômeno da pós-verdade. Com o celular na mão, uma ou nenhuma ideia na cabeça, hoje qualquer um registra fatos que podem entrar para a história ou desaparecer em postagens efêmeras e superadas por outras tão ou sem nenhuma importância. O tudo e nada se encontram muito, muito antes das paralelas.
Por outro lado, com a disseminação ilimitada de imagens e textos, nem Stalin conseguiria neste início de século XXI apagar de forma definitiva as provas de suas alianças de ocasião e conchavos de conveniência. Por sua exposição natural e inerente à atividade pública, os políticos são os que mais se incomodam com encontros, hoje indesejados, mas frutíferos em passado recente, que teimam em ressurgir como um fantasma a cobrar um mínimo de coerência. Neste ocaso do presidente Michel Temer já se começa a ver políticos que ostentavam em suas páginas nas redes sociais fotos com Chefe da Nação, hoje já deletam postagens na mesma velocidade em que auxiliares mais próximos do presidente se transformam em réus ou presidiários.
Quem ainda dá o beneplácito de alguma credibilidade ao ex-governador Garotinho e ao Blog que mantém na Internet, acompanha o seu “copiar/colar” das reportagens publicadas em jornais, revistas e sites sobre o desfile de acusações contra Temer. Procede como se por ocasião do impeachment não tivesse mantido um pé em cada canoa: impediu filha Clarissa (que era deputada federal) votasse contra Dilma (ela faltou à sessão) e, ao mesmo tempo foi ao Jaburu, onde o então vice-presidente comandava a conspiração, para prometer outros votos da bancada, estes pelo afastamento da presidente.
O mesmo Temer que, em 2004, então presidente da Câmara dos Deputados, acompanhado do senador Renan Calheiros, veio a Campos para dar apoio à candidatura de Geraldo Pudim, patrocinada por Garotinho, que era o governador de fato. Todos eram do PMDB. Passados 13 anos, Renan odeia Temer; Pudim repudia Garotinho e a fotografia acima, de autoria do fotógrafo Antônio Leudo, deveria, se dependesse dos quatro, passar pelo método stalinista de rever a história e desaparecer.
Na saída de uma das sessões do Cineclube Goitacá, conversava com o Gustavo Alejadro Oviedo e o Tonico Baldan sobre as dívidas que tínhamos ainda em aberto com alguns grandes mestres do cinema. Pois uma delas será paga hoje, quando “Em busca do ouro” (1925), dirigido e estrelado por Charlie Chaplin, será exibido a partir das 19h30, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio.
Autor de vários obras primas, a maioria protagonizadas pelo vagabundo Carlitos, criado e interpretado por Chaplin, sua própria figura passou a ser imediatamente associada, em qualquer parte do mundo, à do seu mais famoso personagem. Desajeitado, ingênuo, com boa índole, mas nenhum respeito à ordem social, o vagabundo quase sempre deseja a mulher bela e aparentemente inalcançável. E “Em busca do ouro” não é exceção à regra, quando Carlitos se mete na corrida pelo metal precioso, no gélido e inóspito Alasca, porção mais ao norte dos EUA, que existou de fato no final do século 19.
Algumas das cenas do filme ficariam imortalizadas no imaginário popular. Como quando, no isolamento de uma nevasca, a fome faz um companheiro (Mack Swain) imaginar Carlitos como uma galinha gigante. Ou a cena seguinte, na qual o vagabundo cozinha para os dois a botina de couro que saboreia, com cardaços e tudo, como fina iguaria.
Mas se o filme tivesse que ser representado por uma única cena, certamente seria a dança dos pãezinhos. Numa comemoração sonhada de ano novo, uma câmera fechado no enquadramento do busto sobre uma mesa à meia luz. Dois garfos, dois pães, o gênio de Chaplin e mais nada! É a cena definitiva da história do cinema!
Dos seus filmes, “Em busca do ouro” era o preferido do próprio Chaplin. E é também o meu. Para conferir por conta própria e assistir à sessão, seguida de debate aberto, é só aparecer mais tarde.
Brasil à deriva. Quem autorizou o naufrágio, não preparou coletes salva-vidas para todos. A primeira classe, como sempre, tem mais chance de sobreviver. Roubaram tudo, desde Cabral Pedro Álvares até depois de Cabral Sérgio Filho. Fizeram um pacto “satânico” todos os homens e mulheres de poder. O presidente do país, os ex-governantes do Rio de Janeiro e da cidade de Campos. Levaram tudo e mais um pouco. Mentiram sempre, até todas as mentiras se converterem em alguma verdade. Acreditamos.
Procura-se gente honesta. Para que tantos impostos e como pagá-los? A conta nunca fecha. A economia próspera não nos salva, nem a bancarrota. Ladrões roubando ladrões. Tem pessoas à espera para levarem vantagens e se darem bem desviando dinheiro público. País de propinas e desvios. Os inconformados resmungam agora pelas redes sociais. Alguns vão para a rua, mas se cansam fácil de protestos. Os homens e mulheres dos poderes executivo, legislativo e judiciário sabem que o povo é vencido pelo cansaço. Quem acredita em mudanças com uma população tão corrupta e corrompida à semelhança de seus representantes políticos? Cansaram-se.
O Rio de Janeiro à deriva. Dizem que milagre não virá com o governo que aí está. Calotes à prestação nos servidores e fornecedores. Fernanda Torres descreve bem em sua crônica, o abismo pós-ressaca olímpica na cidade maravilhosa e no resto do estado fluminense. Faliram o Rio de norte a sul. E por aqui, em Campos dos Goytacazes também à deriva, o governo vai tentando se agarrar a alguma coisa no mar furioso de dívidas e incompetências suspeitas. O mundo jaz no maligno? Hum, tem demônio se divertindo com a corrupção nossa de cada dia que nos dá hoje, até a hora de nossa morte. Amém? Melhor não.
Alguém disse “bendita seja a crise”. Com a guerra iminente, o caos seria o gatilho para o restabelecimento da ordem. A autofagia tem também limites como tudo na vida: começo, meio e fim. O que pode resolver uma eleição antes de 2018? Haverá saída para o país se livrar de gente como Temer, Garotinho, Lula, Dilma, Aécio, Maia, Renan, seus delatores e afins? Nenhuma prisão ou guilhotina estancam o mal enraizado, é o que parece. Refundar o Brasil, redescobri-lo, recuperá-lo, reformá-lo, reanimá-lo… são muitas sugestões e poucas soluções críveis. Para quem tem Gilmar Mendes, Marco Aurélio de Mello e Alexandre de Moraes na Suprema Corte ou STF, depender de justiça parece tão incrível.
Depois que impérios ruíram e desapareceram, a gente compreende melhor como o Brasil, país de futuro, tem tudo para ser como a Viúva Porcina: foi sem nunca ter sido. Restam-nos alguma piada a fazer? Quem ri por último é burro, mas dizem, ri melhor. “Para que tanto pessimismo?”, alguém questiona. Li um dia que todo pessimista é um idiota, pois nem tudo vai dar errado. Também li que todo otimista é um idiota, pois nem tudo dará certo.
O país dos golpistas e da malandragem deve se espelhar em quem? Talvez, o excesso de informação nas nossas time lines tenha nos roubado algumas ilusões e sonhos com uma vida mais próspera e tranquila. Com sorte, se os ladrões e malfeitores nos pouparem por mais um tempinho, talvez, tenhamos mais uns dias românticos com caos adiado. O fim sempre vem. Sendo assim, como se dar bem com o apocalipse anunciado? Hum, o amor esfriou. Utopias também têm limite.
Refletindo após a leitura da crônica da atriz Fernanda Torres para a Folha de São Paulo de 30 de junho último, fiquei assim, um pouco mais, “suspirando apatia e incredulidade, com mortalha estendida”. No Brasil desgovernado, e agora, o que faremos além do nada?
Ex-presidente municipal do PR, Wladimir Garotinho está proibido de manter contatos com os envolvidos nas investigações da Chequinho, à exceção do seu pai, o ex-governador Anthony Garotinho (PR). Ele também não pode se ausentar da comarca de Campos por mais de oito dias, nem frequentar a Câmara Municipal. As proibições decorrem da imposição ao filho do casal Garotinho de uma série de medidas cautelares, pelo juiz Ralph Manhães, titular da 100ª Zona Eleitoral do município. Essas medidas substituíram o pedido de prisão de Wladimir, feito pelo Ministério Público Eleitoral, no desenrolar das investigações da troca de Cheque Eleitoral por voto, na eleição municipal de 2016.
“Isso é uma aberração. Recebo a decisão com muita surpresa, pois em momento nenhum fiz parte do inquérito (da Chequinho). Estou no Rio, para o velório do avô da minha esposa e só agora, através de vocês, da imprensa, soube dessa denúncia do MPE, me parece que do dia 29 de junho, e da decisão do juiz. Respeito, mas vou recorrer. Ser filho de dois ex-gestores do município não quer dizer que você tem que responder por qualquer coisa”, disse Wladimir ao blog, agora há pouco, por telefone.
Atualizado às 16h45, para incluir a reação de Wladimir
Leia a matéria completa na edição desta quarta (05) da Folha
Chegamos, então, à marca de 6 meses de governo. Nunca entendi muito bem o porquê da mística dos 100 dias de um governo. Por que não 180? Convenhamos que 100 dias não são suficientes para mudar o rumo de uma cidade do tamanho e complexidade de Campos. Mas 180 dias são mais que suficientes para impor uma marca, um estilo. Talvez possamos afirmar que 100 é pouco para administrar, mas 180 é muito para comunicar. Num país que fabrica uma crise política a cada semana, tanto os 100 dias quanto os 180 passaram voando para a administração Diniz.
Receber a Prefeitura em estado pré-falimentar num ambiente de crise política e econômica a nível nacional e estadual não é um fato a ser desconsiderado. A restrição de recursos financeiros não esteve presente na realidade brasileira (em todas as esferas) nos últimos 15 anos. Por muito tempo, foi relativamente fácil sustentar o aumento ininterrupto de gastos e a torneira parecia jorrar dinheiro para qualquer que fosse o destino: obras, transferências de renda, subsídios aos amigos do poder e planos megalomaníacos. Da Transposição do Rio São Francisco, passando pelo Comperj e chegando ao Cepop e à Cidade da Criança, não havia má ideia que não encontrasse algum dinheiro do povo disponível para ser desperdiçado. E, obviamente, não nos esqueçamos da corrupção avassaladora.
A conta chegou para todos os governos. Seja pela limitação orçamentária, seja pelo entendimento de que as finanças públicas devem ser, antes de tudo, sustentáveis — e o Prefeito parece encaixar-se no segundo grupo — não iremos encontrar nos próximos quatro anos nada parecido com a loucura de gastos que pautou os governos populistas dos últimos anos. O gasto público precisará passar por uma onda de racionalidade, que invade terras tupiniquins, aparentemente, a cada ciclo de 20 anos. Que, dessa vez, possamos entronizar esta prática mesmo em momentos de bonança.
A escolha de um corpo técnico foi importante. Mais importante ainda é o corpo técnico assimilar que as engrenagens do poder público têm vida própria e reagem a qualquer tentativa de mexer nos incentivos que culminam num alto custo para o pagador de impostos e um retorno sofrível para a população. As mudanças não ocorrem da noite para o dia e é necessária bastante competência (política e técnica) para que a própria tentativa de alterar o estado das coisas não gere ainda mais paralisia pela reação do status quo.
Uma vez que falta tempo para que alterações mais substanciais em práticas de gestão possam frutificar, convenhamos que a administração atual vem falhando na comunicação de suas ações. Até agora, as mudanças de maior repercussão foram o fechamento do Restaurante Popular, a alteração da Passagem Social e o congelamento do Cheque Cidadão. Particularmente, acho ótimo que a administração esteja preocupada com a sustentabilidade de políticas sociais e com seus resultados efetivos. O grande problema é que outras ações impopulares, mas necessárias dificilmente serão tomadas se a administração continuar falhando ao comunicar-se com a população. E não nos enganemos: as más notícias ainda virão às pencas, dado o caótico estado fiscal do governo federal, estadual e municipal.
A eleição em primeiro turno e a inegável herança maldita ainda conferem ao Prefeito bastante força. Porém, dizer que a a “venda do futuro” compromete o orçamento, embora seja verdade, não ajudará muito mais a partir de agora. A narrativa não é nova e já sustentou a paciência da população até o momento. Esticar demais esta corda pode jogar Diniz no mesmo limbo do seu antecessor e aumentar a descrença da população em relação à capacidade da política de tornar sua vida melhor.
Como nos 100 primeiros dias do governo Rafael Diniz (PPS), ao ser pedida mais recentemente uma análise dos seis mesesda nova administração municipal, o sociólogo e professor da Univesidade Federal Fluminense (UFF) George Gomes Coutinho excedeu em muito à referência de 10 linhas de word, dada a todos os depoentes, produzindo um texto de fôlego mais longo.
Como o blog publicou antes (aqui) a íntegra a análise do George sobre os 100 dias, confira abaixo tudo que o sociólogo pensa sobre os seis meses do novo governo de Campos:
Página 6 da edição de ontem (02) da Folha
Diniz, Gramsci e o Interregno
O governo Rafael Diniz atingiu a marca de seis meses na Prefeitura de Campos. Nos encontramos em situação diversa daquela quando fomos convidados a analisar o governo em seus primeiros 100 dias. Acredito que hoje temos uma rotina mais consolidada que não precisará ser aquela que irá moldar toda a gestão Diniz. Porém, olhando pelo retrovisor, é possível detectar traços marcantes que ao menos dizem algo sobre a conjuntura que já foi vivida.
Antes de prosseguir, registro aqui uma sensação um tanto incômoda de minha parte. Antonio Gramsci (1891-1937), o comunista sardo preso no período fascista e um dos alvos prediletos de parte da direita brasileira contemporânea, apresentou uma síntese de pensamento sobre os períodos de crise em um dos seus “Cadernos do Cárcere”: o velho se recusa a morrer e o novo simplesmente não nasceu. Gramsci chamava estes períodos da História de “tempos de interregno”, momentos particularmente difíceis de crise de hegemonia onde perspectivas ideológicas mórbidas, falseadoras ou simplesmente danosas são apresentadas aos borbotões. Em tempos de interregno as auto-interpretações políticas, sociais e culturais de uma dada sociedade tornam-se perigosamente gelatinosas. Portanto, é natural a sensação de relativa desorientação dos tempos que correm. E é neste espírito do tempo, ou o bom e velho zeitgeist como diriam os alemães, que insiro estes seis meses do governo Diniz. Não podemos afirmar, até agora, que tudo está a transcorrer de vento em popa.
Cabe dizer que Campos dos Goytacazes não está descolada do seu entorno. Aqui há reverberações das práticas e da conjuntura política nacional em âmbito local. Contudo, Campos, enquanto realidade particular, não reproduz meramente as tendências que lhe chegam. A esfera política e o espaço público daqui terão suas versões singulares e em “miniatura” do que transcorre em escala nacional. Irei destacar quatro tendências encontradas nacionalmente e “traduzidas” localmente nestes 6 meses de governo Diniz: a) a polarização; b) facebookização da política; c) judicialização; d) a solução elitista para conflitos redistributivos.
I – Polarização
Venho argumentando em diversas ocasiões que a polarização política, seguida do discurso irracional que é inerente ao ódio, produz patologias no espaço público. O maniqueísmo vulgar em dualidades como “coxinha X mortadela”, “petistas X tucanos”, e etc. tem redundado na inviabilidade do diálogo. O problema é que a asfixia do diálogo envenena a democracia em uma sociedade que é em si mesma complexa e plural. Na verdade, abdicarmos do diálogo implica darmos asas para projetos totalitários ainda mais danosos que o vilipendiado modelo democrático de convivência coletiva. Afinal, quando falamos em democracia, estamos pressupondo algo mais do que um mero método de seleção de governantes.
Nestes termos, a polarização “Garotinho X Diniz”, o que redunda na formação de grupos onde a diferenciação se dá pela adesão quase irrestrita a um personagem ou outro, não produz igualmente bons resultados.
Noto de forma assistemática que alguns atores dotados de capacidade de formulação política, seja entre o empresariado, profissionais liberais e outros grupos políticos e sociais, sentem-se alijados por considerarem que há fraca interlocução do governo para além de seus muros. Seria um governo ensimesmado. Voltando aos efeitos deletérios da polarização, dado que esta interlocução necessita da crítica para ser bem sucedida dado que os atores notam erros de condução do executivo local, o risco da serem simplesmente carimbados de “pró-Garotinho” por inércia é inevitável. Por outro lado, apontar acertos por caminhos tortos na gestão Rosinha não indica igualmente a adesão acéfala e subserviente à família que governou a cidade até 2016.
Serei relativamente ingênuo. A única solução que vejo neste momento é a maturidade política como via para superação da polarização e da miséria discursiva e propositiva decorrentes. Abdicar da polarização nos dias atuais indica a necessidade de abrir mão de determinados dividendos eleitorais em futuras eleições. Porém, os malefícios da polarização têm se mostrado infinitamente maiores para a sociedade do que os benefícios obtidos por qualquer grupo político específico.
II – Facebookização da política
Eu estou utilizando o nome do “facebook” para utilizar o neologismo “facebookização” por uma razão muito simples: trata-se da rede social de maior alcance no Brasil neste momento. Porém, eu poderia utilizar outras redes sociais para o neologismo. Basta lembrarmos do uso obsessivo de Donald Trump com o “twitter” por exemplo.
Antes, cabe um alerta histórico bastante simples: a comunicação entre lideranças políticas e sociedade sempre ocorreu de forma ou de outra. Na modernidade temos os manifestos partidários e no século XX vivenciamos a utilização dos meios de comunicação de massa (rádio, jornal e televisão). Há incontáveis exemplos factuais que não pretendo apresentar aqui para não ser enfadonho.
O que surge de novo, e os estudiosos das redes sociais apontam isso, é a mudança das interações sociais, a agilidade da informação e, por outro lado, certo déficit de reflexividade. Não por acaso o momento da alta utilização das redes sociais convive com a era da “Pós-Verdade” e as “fake news” produzidas em escala industrial. Resumo da seguinte maneira o quadro: muita informação e pouco conhecimento.
O sistema político certamente iria reagir a este novo tipo de interação que se intensificou nos agentes políticos formais após as eleições municipais no Brasil ano passado. João Doria Jr. em São Paulo é um dos exemplos para o bem ou para o mal. Afinal, como avaliou FHC, Doria tem se mostrado muito mais hábil em utilizar seu smartphone do que em propriamente enfrentar os desafios da maior metrópole da América do Sul.
Em nosso caso local, parte do êxito da campanha de Rafael Diniz se explica pela capilaridade alcançada justamente pelas redes sociais. Esta forma de se comunicar com o eleitorado prosseguiu. O problema é quando a ferramenta não é bem utilizada.
Se as redes sociais produzem a sensação de diminuição da distância entre governantes e governados, algo salientado pelos próprios usuários das redes sociais, a utilização da linguagem das redes pode esvaziar o conteúdo político propositivo e se tornar um reflexo explosivo das patologias do espaço público contemporâneo. Não por acaso o vídeo inflamado de Diniz em resposta à transcrição de um suposto áudio que teria falas comprometedoras do staff de seu governo não escapou das armadilhas do Fla X Flu político. Tampouco indicou qualquer encaminhamento construtivo ao reforçar o maniqueísmo. O prefeito, imagino, sentiu-se aviltado. Não o condeno. Somos todos humanos afinal. Contudo, episódios deste quilate deveriam soar como alerta amarelo. A comunicação política não deve ser refém das redes sociais, de seus símbolos, caprichos e etc.. A fatura pode ser exorbitante e o retorno exíguo.
III – Judicialização
A relação entre os sistemas jurídico e político no Brasil adquiriu feições que só compreenderemos em sua totalidade após essa conjuntura de interregno se assentar. Só não sabemos quando acontecerá.
Neste momento podemos assinalar que há problemas severos em termos um Judiciário hipertrofiado e radicalmente politizado, onde as normativas do Estado Democrático de Direito são atropeladas em diversas ocasiões. Não são raras as ocasiões onde a sensação de arbítrio puro e simples se apresenta.
Por outro lado, o Judiciário, também em não poucos momentos, tem feito correções que não podem ser desconsideradas nas relações entre poder econômico, democracia representativa e eleições. Se estas correções irão produzir efeitos em termos de práticas sociais paira o desconforto do mistério. A única lição histórica que arrisco neste momento é a de que boa lei não produz por encanto boa sociedade.
Voltemos para a realidade campista. O que a judicialização tem produzido entre nós nestes seis meses do governo Diniz de efeito mais evidente é a inviabilidade de consolidação das feições políticas, programáticas e ideológicas do legislativo. A chamada “dança de cadeiras” inviabilizou a consolidação da díade “situação/oposição” e o perfil do próprio legislativo nos últimos seis meses. Os mais pragmáticos apontam para prejuízos no orçamento do legislativo em virtude destas recomposições. Em termos políticos, dada a tradicional maior proximidade da relação da população com seus vereadores, o eleitor simplesmente não obtém clareza necessária para realizar as cobranças necessárias.
Ressalto apenas que não estou advogando em defesa dos que se utilizaram das “más práticas”. O que estou ressaltando são os efeitos negativos que um legislativo enevoado tem produzido no curto prazo. No médio prazo a instabilidade pode trazer repercussões óbvias na produção legislativa em si mesma e aqui não discutirei sobre a qualidade da mesma em versões anteriores do legislativo menos afeitas aos efeitos da judicialização.
IV – A solução elitista para conflitos redistributivos
O Brasil após a pujança da “Era das Commodities” vivencia um momento melancólico de alto endividamento de pessoas físicas e jurídicas. Os recursos existentes, pacificamente drenados pelo setor financeiro, tornam-se escassos em um cenário francamente recessivo onde tanto o setor produtivo quanto o de serviços encontram-se combalidos. Nesta seara surge fulminante o problema do financiamento das políticas públicas. Não ocorrendo a entrada do capital das commodities e sem incomodar os lucros e dividendos do setor financeiro, a opção foi se atirar de maneira selvagem sobre os setores subalternos da população e em parte também sobre a classe média que vive do seu trabalho. Não há mágica. Trata-se de uma opção política.
O mantra repetido exaustivamente de que o problema do Estado é meramente “gerencial” gerou o discurso ideológico dos administradores e técnicos que salvariam a pátria. No mesmo tom, a simplória analogia das contas do Estado com a da dona de casa dotada de um orçamento apertado segue nesta narrativa em uma simbiose. Na verdade o discurso oculta a preferência por manter uma das sociedades mais desiguais do continente americano em termos de redistribuição de riquezas. Esta foi a opção do Governo Federal e de parte dos Estados ao enveredarem pelas práticas de “austericídio”: cortes de gastos que derivam na destruição lenta de serviços imprescindíveis para a população. Os frequentadores dos serviços públicos de saúde em vários estados ou, aqui perto de nós, os colegas da Uenf e de outras instituições podem fornecer relatos dramáticos do que esta opção política tem produzido.
Fica o paradoxo de Giuseppe di Lampedusa (1896-1957): tudo deve mudar para que tudo permaneça como está.
No discurso de que não há um plano B se esconde uma sociedade injusta em termos tributários, que não regulariza a propriedade da habitação dos moradores das periferias, que oferta volumes de recursos e isenções fiscais para o empresariado sem que existam contra-partidas efetivas para a sociedade, onde o setor financeiro se banqueteia com as taxas de juros das mais altas do planeta, etc..
Entre nós campistas ocorreu o impacto da queda, que creio ser conjuntural, do preço do barril petróleo no sistema internacional. É nacionalmente conhecida a dependência do orçamento municipal do recurso dos royalties. Porém, mesmo sendo fato notoriamente conhecido, todas as outras gestões municipais que se utilizaram destes vultuosos recursos pouco ou nada fizeram para superar a dependência dos mesmos. Em termos produtivos, Campos dos Goytacazes é uma cidade anêmica.
Voltando para o governo Diniz, as decisões que envolveram o Restaurante Popular e o aumento do preço das passagens urbanas parecem caminhar na mesma direção das opções adotadas por parte dos Estados e do Governo Federal na atual conjuntura. Há nuances de austericídio, tecnificação do discurso político e ideologia gerencial. Da mesma maneira, por outro lado, a revisão da tarifação do IPTU até o presente momento não foi colocada em prática, algo que poderia financiar políticas públicas e sociais que poderiam tornar a sociedade menos desigual em termos de acesso a serviços.
Finalizando nesta conjuntura
Não obstante todos os desafios acima listados, que indicam a máxima gramsciana de que o “velho ainda não morreu”, mesmo tenha adquirido embalagens novas e atualizações, há também “o novo que ainda não nasceu”.
Cabe citar a iniciativa da consulta popular em formulário eletrônico que circulou entre os munícipes onde estes deveriam apontar as necessidades de seus bairros. Eis uma tentativa que considero absolutamente louvável da diminuição da distância entre governantes e governados sem dúvida. O problema é o alcance: cabe a própria prefeitura disponibilizar aos cidadãos quantos afinal foram atingidos pelo formulário, quantos responderam e, no médio prazo, apontar as medidas que foram efetivadas. Não é panacéia evidentemente. Mas, é um avanço.
Da mesma maneira é notória a tentativa de oxigenar os setores culturais do município abrindo frentes de interlocução com a classe artística local e apoiando, seja com o Teatro de Bolso ou em eventos que se utilizam de parcerias entre setor público e privado, eventos com entrada franca nos espaços públicos de Campos.
Ainda, é inegável também a tentativa de diálogo com os setores propriamente acadêmicos e intelectuais profissionais promovida pelo Governo Diniz. Podem surgir boas formulações, desde que sistemáticas e robustas, amparadas por uma perspectiva de gestão da coisa pública que fuja da miséria do mero gerenciamento.
Em suma: as boas novidades se apresentam ainda tímidas. O que não quer dizer que não existam, embora ainda sejam inegavelmente diminutas diante dos desafios de Campos. Aguardemos de forma propositiva os próximos seis meses.