Por fim, Anik falará do envolvimento de menores em ações criminosas na cidade (confira aqui, aqui, aqui e aqui). Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Carla Machado, Wladimir Garotinho, Ricardo Lewandowski e Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União (CNPG)
Vacinação infantil e volta às aulas
Vacinação infantil contra a Covid-19 na expansão rápida da pandemia com a nova variante Ômicron, o negacionismo da prefeita sanjoanense Carla Machado (PP) contra a vida das crianças e o recuo do governo Wladimir Garotinho (PSD) em Campos na cobrança do passaporte vacinal dos alunos, na volta às aulas anunciada para 7 de fevereiro, cuja preparação é alvo de críticas do Conselho Tutelar do município. Estes foram, em resumo, os fatos que mais atraíram a atenção da região nas duas últimas semanas. Que, no caso dos delírios de Carla, chegaram a alcançar a mídia e o repúdio nacional.
Repercussão do negacionismo de Carla Machado contra a vacinação infantil ganhou a mídia nacional
Um dos memes que viralizou nas redes sociais: a “garrafada” de SJB
Na entrevista à Folha FM, Wladimir só confirmou as palavras do médico Charbell Kury, subsecretário de Atenção Básica. Que, no Folha no Ar do dia anterior (16/12), já havia batido o martelo do retorno às aulas em fevereiro e da exigência da vacinação contra Covid dos alunos da rede pública municipal. Depois, no Folha no Ar de 6 de janeiro, a mesma promessa de volta às aulas e cobrança do passaporte vacinal foi feito pelo médico Paulo Hirano, secretário de Saúde. Que sofreu ataque na sessão extraordinária do dia 11 na Câmara pelo vereador e pastor da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), Anderson de Matos (Republicanos).
Anderson de Matos, vereador e pastor da Iurd
Púlpito da Cloroquina
Bola da vez no rodízio da cadeira cativa da Iurd no Legislativo goitacá, Anderson é o protótipo do negacionista. No Folha no Ar de 10 de maio de 2021, não corou a face ao defender o uso da Cloroquina no “tratamento” da Covid. Que tantas vidas tirou no Brasil, como evidenciou o escabroso caso Prevent Senior. Em 11 de janeiro, o dublê de edil e pastor usou a tribuna da Câmara para chamar a cobrança vacinal de “ditadura sanitária”. Se ninguém medianamente informado levou a estultice mais a sério do que a “garrafada de Carla”, pode ter achado eco em parcela evangélica do eleitorado campista, que Wladimir herdou do seu pai.
Marcelo Feres, professor e secretário de Educação de Campos
Professores sem vacina?
A pregação negacionista parece ter causado efeito — com consequência não muito diferente do que teve a Cloroquina na abertura de jazigos. Após anunciar a volta às aulas em 7 de fevereiro, a superintendência de Comunicação (Supcom) foi cobrada diversas, pela reportagem da Folha, das promessas de Wladimir, Charbell e Hirano pela exigência da vacinação das crianças. Não só a resposta oficial foi que não seria mais bem assim, como, no Folha no Ar da quarta (26), o professor Marcelo Feres, secretário de Educação, revelou coisa pior. A cobrança vacinal não seria feita sequer aos professores e demais servidores do ensino municipal.
A nota do Ministério Público brasileiro completou: “o descumprimento desse dever familiar (vacinar suas crianças) deve ensejar a notificação aos órgãos competentes, em especial o Conselho Tutelar”. Não por coincidência, a entrevistada do Folha no Ar de sexta (28) foi a conselheira tutelar de Campos Geovana Almeida. Além de criticar o tempo perdido pelo governo na recuperação das 234 unidades de ensino do município, denunciado o abandono em muitas delas, a conselheira deu um sábio conselho: “Precisamos unir forças para convencer esses pais, que ainda estão em dúvida, a vacinar nossas crianças. Vacina é vida, pai!”.
A partir das 7h da manhã desta sexta (28), quem encerra a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é a conselheira tutelar de Campos Geovana Almeida. Ela analisará a preparação do município para a volta às aulas no próximo dia 7 de fevereiro. Também falará sobre a alternativa, aventada pelo secretário municipal de Educação, professor Marcelo Feres, entre retorno presencial e ensino híbrido.
Por fim, Geovana falará sobre a não exigência de imunização contra a Covid a professores e demais servidores do ensino público municipal, assim como o papel do Conselho Tutelar sobre a vacinação infantil. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Deputada federal Clarissa Garotinho e presidente Jair Bolsonaro (Foto: Divulgação)
O presidente Jair Bolsonaro (PL) virá a Campos nesta segunda-feira (31). Sua chegada de avião está prevista no aeroporto Bartholomeu Lyzandro às 8h30, de onde seguirá de helicóptero para o Porto do Açu. Lá, o capitão lançará a pedra fundamental da unidade da térmica GNA 2, anunciará obras do DNIT na BR 101 dentro da zona urbana de Campos, R$ 14 milhões em verbas federais para a construção de um novo prédio do Hemocentro da cidade, além da EF 118, ferrovia considerada fundamental para o escoamento da produção nacional pelo Porto do Açu, poupando as rodovias da região.
Quem anunciou a visita e a agenda presidencial foi a deputada federal campista Clarissa Garotinho (Pros), que irá acompanhar Bolsonaro. Assim como seu irmão Wladimir Garotinho (PSD), prefeito de Campos, mais o governador Cláudio Castro (PL) e os ministros da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas; e das Minas e Energia, Bento Albuquerque, além de outras autoridades federais, estaduais e regionais.
Depois da visita e anúncio de obras em Campos e São João da Barra, Bolsonaro e sua comitiva seguem viagem a Itaboraí, município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
“Faz parte de um pacote, um pacote que leva à morte das pessoas”. Em entrevista ao Folha no Ar do início da manhã de ontem, na Folha FM 98,3, foi como a médica pediatra Vera Marques se referiu à postura da prefeita sanjoanense Carla Machado (PP), que gerou ganhou a mídia e o repúdio nacional ao afirmar em live na quarta passada: “Se eu tivesse um filho, não o vacinaria (contra a Covid)”. A vacinação infantil iniciada no último dia 13 no Brasil, mas só ontem (25) em SJB, assim como a volta às aulas em Campos no próximo dia 7, com a promessa de cobrança aos pais do passaporte vacinal dos alunos, mais a perspectiva de punição em todo o território nacional a quem interferir na imunização das crianças, foram pontos também analisados, além de Vera, pela professora Angélica Mendes, das redes pública e privada de ensino, e pela jurista e socióloga Sana Gimenes. “Vejo até como um crime estimular a população a não vacinar as crianças. E eu penso, sim, que deveria ter alguma forma de punir não só a figura pública, mas também os pais que resolverem não vacinar os alunos”, cobrou Angélica. “Estando a vacinação disponível para aquela faixa etária, tendo sido uma opção de os pais não fazer a vacinação dos filhos, na mesma hora isso deve ser comunicado aos conselhos tutelares ou então ao próprio Ministério Público”, explicou Sana.
Professora Angélica Mendes, jurista Sana Gimenes e médica pediatra Vera Marques (montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Folha no Ar – Qual a importância da vacinação infantil contra a Covid e como reagir a quem trabalha contra?
Angélica Mendes – Vejo até como um crime estimular a população a não vacinar as crianças. E eu penso, sim, que deveria ter alguma forma de punir não só a figura pública, mas também os pais que resolverem não vacinar os alunos. Porque, com certeza, nós estamos colhendo os frutos dos erros que a gente está cometendo. O que eu não gostaria de ver é que os pequenos fossem penalizados em relação a isso. Acho que a gente precisa agir em cima de quem provoca isso, e não dos pequenos, que não têm escolha. Eu não gostaria, por exemplo, de ver uma criança que não pudesse frequentar escola. Eu acho que o pai, o político, o responsável precisa ser punido. A gente está vendo, a estatística está aí: o Brasil demorou basicamente um mês para iniciar um processo, porque foi se fazer ainda uma audiência pública em relação a isso. Não vi necessidade. Então, o meu posicionamento é de que deveria haver uma maneira de a gente reverter essa situação e, se possível, até tentar acelerar. Nós estamos vendo municípios próximos, como São João da Barra, que ainda nem começou a campanha de vacinação. Isso é um crime. Eu lido com muita criança, trabalho nas redes públicas estadual e municipal, e na particular, eu trabalho com crianças de todas as idades. Eu vejo aquelas crianças e fico pensando: elas não podem decidir, não têm como tomar essa decisão. Então, se os responsáveis não fazem alguma coisa, algo precisa ser feito em relação a essas pessoas.
Sana Gimenes – Infelizmente, esse cenário que se refere à vacinação e imunização de crianças não é uma novidade. Nós sabemos que milhares e milhares de vidas poderiam ter sido poupadas, se a gente observar a média mundial de mortalidade por Covid comparando com o que aconteceu no Brasil. Então, para mim, é muito clara a responsabilidade do Governo Federal em relação a essas mortes, às pessoas que adoeceram também desnecessariamente. Em relação às crianças, como Angélica ponderou, de fato isso é muito mais grave, porque a legislação é clara no sentido de que os direitos das crianças e dos adolescentes têm precedência sobre os demais direitos da sociedade. Então, não é dever apenas da família, mas também da comunidade e, claro, do poder público fazer com que as políticas públicas em geral, especialmente as de saúde, cheguem às crianças e aos adolescentes, inclusive com disponibilização prioritária de recursos. Isso está claro no Estatuto da Criança e do Adolescente. Não há dúvidas de que houve de que houve uma grave omissão e, consequentemente, como apontam as estatísticas, crianças perderam a vida. Crianças estão morrendo. Como eu disse, não é apenas um sentimento humanitário, pessoal, da família e das pessoas que convivem com essas crianças que estão adoecendo e vindo a falecer. É um dever legal, é um dever jurídico, que o Governo Federal, especialmente, mas não só o Governo Federal, porque, infelizmente, nós vemos esse discurso de uma tentativa de dificultar a vacinação de crianças também no âmbito regional.
Vera Marques – Eu acho que a gente tem que trabalhar com números, porque os números são um indicador objetivo da gravidade do que estamos vivendo e da gravidade de mortes infantis. Até janeiro de 2022, nós tínhamos 2.625 crianças que morreram nesses dois anos, o que significa uma criança a cada dois dias. Dessas crianças, as menores de um ano de idade que não deveriam morrer, nós tivemos 791 óbitos por Covid. Estou falando especificamente por Covid. E, da faixa etária de um a cinco anos, 397 óbitos, o que é um número extremamente elevado. Nós tivemos uma mortalidade de crianças e adolescentes por Covid no Brasil de 41 por 1 milhão, o que é bem superior a outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, nós temos 11 crianças e adolescentes para 1 milhão de habitantes, e no Reino Unido, de 4 a 5 crianças para 1 milhão de habitantes. O que eu estou dizendo é que essas crianças muitas vezes adoecem e morrem na fase aguda, que é a síndrome respiratória aguda, mas elas também podem morrer de complicação, que ocorre até de 12 a 18 semanas depois da Covid, ou por miocardite, outra complicação pela Covid. Em Israel, começou a vacinação das crianças e adolescentes, inicialmente dos adolescentes acima de 16 anos, em dezembro de 2020. Nos Estados Unidos, em agosto de 2021. Então, nós estamos atrasados, sim. Uma morte na criança a gente fala que é um evento sentinela. Quando uma criança morre, uma morte, ela representa muito mais do que 400 mortes de adultos que têm as suas doenças. Então, elas, tanto pegam essa doença, que pode evoluir para uma morte que poderia ser evitada, como elas também são fatores de transmissão para outras pessoas.
Folha – Como vê o retorno às aulas em 07 de fevereiro, com exigência do cartão vacinal em Campos?
Angélica – O cartão vacinal já é exigido nas escolas, principalmente para os pequenos, por outras vacinas. O que eu sempre questionei é que nunca houve, pelos órgãos públicos, uma preparação para quem está fazendo aquela matrícula ler aquele cartão de vacina e saber se está correto. Sempre foi colocado como exigência, mas nunca foi dada uma preparação para isso. Então, independentemente da Covid. Eu trabalho no Estado e no município. Para alunos maiores, a partir de 12 anos, não há essa exigência. Mas, para os pequenos, até os 6 anos, sempre foi exigido como algo obrigatório. O sarampo, por exemplo, está voltando no cenário. Agora, quanto à sanção, eu continuo defendendo a criança. Eu penso que a criança não deve ser punida. O que vai se fazer eu não sei, porque acho isso tudo muito complexo. Acho que deveria haver um estudo, colocar pessoas de todas as áreas para discutirem isso e verem o que se pode fazer. Quem vai aplicar uma sanção para esses pais? Isso tem que vir dos órgãos superiores. Eu penso que deve haver uma punição, sim. Só não concordo que a criança seja punida. Não concordo que uma criança seja proibida de entrar na escola. Eu acho que isso pode gerar, inclusive, um trauma para ela, outros tipos de problema por ela ser responsabilizada por algo em que não teve decisão. Uma coisa é você proibir um adulto de frequentar o espaço público porque ele está sem o cartão de vacina, e eu acho que tem que proibir mesmo. Se não vacinou, você é o responsável pelos seus atos e não vai entrar. Agora, quanto às crianças, acho mais complexo. Como professora, como gestora em escola, não posso defender que uma criança seja penalizada. Sou totalmente a favor da sanção aos responsáveis. E deixo aqui um pedido aos órgãos públicos: é preciso ensinar a quem está à frente da matrícula nas escolas a ler o cartão de vacina. Não adianta simplesmente chegar e apresentar aquele cartão, se quem estiver ali não entender o que está lendo. Não falo só da Covid, mas de todas as vacinas obrigatórias no Plano Nacional de Imunização.
Sana – Eu concordo com a Angélica num ponto. Acho que, se os direitos das crianças e dos adolescentes são prioridades, a gente tem que pensar também no direito à educação, que é um direito fundamental. Impedir a criança e o adolescente de frequentarem o colégio porque ele não está vacinado por decisão dos seus pais e responsáveis, acho que seria ferir um direito fundamental das crianças e dos adolescentes. Então, não acho que deve ser um impeditivo da frequência. Mas, acho que deveria ser obrigatória, sim, a apresentação do cartão vacinal, como a própria Angélica pontuou que já é. Claro que ninguém pode ser punido por uma ineficácia do poder público. Estando a vacinação disponível para aquela faixa etária, tendo sido uma opção de os pais não fazer a vacinação dos filhos, na mesma hora isso deve ser comunicado aos conselhos tutelares ou então ao próprio Ministério Público, que é um órgão de fiscalização também, para que sejam tomadas as devidas medidas em relação aos pais. Isso está claramente previsto também no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Medidas que vão desde a imposição de multa, até mesmo, num caso mais extremo, muito mais extremo, à perda do poder familiar. É possível que haja essa destituição, considerando que a criança está numa situação de risco à sua saúde. É importante dizer que o STF ele já julgou essa questão em relação à vacinação. E decidiu que as convicções pessoais, filosóficas, morais, religiosas dos pais, não podem se sobrepor, nesse caso, a um direito à saúde, que é um direito da criança, e também à saúde pública, porque, obviamente, todas as outras pessoas ficam expostas quando alguém se recusa a fornecer a vacina para os seus filhos. Então, é possível fazer essa responsabilização nos termos do que o ECA já prevê. Claro que, considerando que a perda do poder familiar é uma situação muito mais gravosa em termos das punições que podem ser aplicadas, o ideal seria que, com a aplicação de uma advertência, multa, que esses pais e responsáveis se conscientizassem. Mas, infelizmente, em caso de isso não acontecer, seria possível, pensando numa situação hipotética, suspender o poder familiar temporariamente, para que um guardião levasse a criança ou adolescente para que a vacina fosse tomada, e depois retornasse essa criança ou adolescente ao convívio familiar. Porque o poder familiar não é um direito apenas que os pais têm, ele é um poder e dever.
Vera – Muita coisa foi falada sobre essa questão, sobre direito da criança, saúde coletiva, e a criança também como vetor de transmissibilidade. Concordo com a Angélica que o cartão de vacina deveria ser mais instrumentalizado. Todo mundo deveria saber esse cartão de vacina, que é complicado, realmente, principalmente porque é uma mistura daquelas vacinas que são uma exigência do Programa Nacional de Imunização e outras vacinas do setor privado. Então, mais do que o setor público, entrando também as escolas privadas, todos os que trabalham com matrícula deveriam ser capacitadas para ler esse cartão. Estou falando daquelas vacinas mais simples, que já estão no dia a dia do Programa Nacional de Imunização. Realmente, a criança não pode ser punida. Mas, há de se chamar esses pais às escolas, de cada bairro, conversar sobre isso. Porque eles têm muitas dúvidas, que aumentaram, principalmente, com fake news e com os nossos gestores públicos fazendo toda uma campanha contra a vacinação, que é gravíssima. (Esses gestores) deveriam, sim, ser punidos. Os pais, normalmente, eles são muitas vezes vítimas desse processo. Então, eu penso que é fundamental também a educação desses pais: chamando os profissionais de saúde, o que a gente fala da intersetorialidade, unir o setor educação com o da saúde; fazendo com que algumas pessoas do setor saúde vão para a escola com os pais, façam reunião na primeira semana, mostrem a importância disso.
Folha – Como viu atitude da prefeita de São João da Barra, Carla Machado, que virou notícia nacional ao afirmar publicamente: “Se eu tivesse um filho, não o vacinaria”?
Angélica – Eu não consigo ver a postura da prefeita de São João da Barra como uma postura pessoal. No meu ponto de vista, se fosse uma postura pessoal, ela não tomaria a vacina, teria a opinião dela e ficaria quietinha. A partir do momento em que ela expõe, que ela vai para uma live, que ela convoca às pessoas, ela está sendo uma pessoa política. Então, eu acredito, sim, que ela tenha aí alguns outros interesses políticos para ter feito o que fez. O que eu fico mais pasma, não só com ela, mas com muitas outras pessoas, é o seguinte: eu, por exemplo, sou uma pessoa leiga para argumentar que essa vacina foi feita muito rápido, que não tem segurança, que as outras vacinas demoraram 10 anos. Eu sou leiga para falar isso. Mas sei também que esse processo já está muito adiantado. Ninguém pegou do zero para fazer a vacina da Covid. Então, não tinha que demorar 10 anos mesmo. É fruto de muita pesquisa, de trabalhos em conjunto. O tipo de argumento dela é totalmente fútil, falho, que não vai convencer. Quem sou eu para questionar a vacina? Quem sou eu perante as pessoas que estudaram, que pesquisam anos a fio? Eu acho que a gente também não tem que colocar panos quentes. Ela deve ter noção do que está fazendo e ela deve ter noção de onde ela quer chegar com isso tudo. Isso é muito sério. Quando ela faz o que fez, ela está influenciando pessoas. No meio disso tudo, tem gente que vai acreditar simplesmente no que ela está falando. Eu só consigo pensar que ela não calculou o risco do que ela fez. Não o risco político, mas o risco em relação à saúde pública.
Sana – Eu acho que é muito difícil a gente julgar as motivações pessoais dos indivíduos. Carla já teve uma postura antibolsonarista em um momento anterior, é uma gestora experimentada. A gente tem visto, por exemplo, que esse movimento negacionista em relação à vacina se dá tanto de setores extremamente conservadores, que falam sobre o direito individual e a interferência do Estado, quanto também em setores supostamente progressistas, que vão nessa linha do veganismo ou de uma visão mais holística de cura. Inclusive, uma das ações que levaram o STF a se manifestar sobre a questão da vacinação obrigatória de crianças foi motivada por pais veganos, que não necessariamente se enquadram nessa lógica tradicional que a gente espera do eleitor de Bolsonaro. Então, a gente tem visto que esse negacionismo se coloca nessas duas esferas. Eu tendo a querer acreditar que se trata realmente de uma convicção pessoal. Porque, na live, se eu não me engano, ela fala que nenhuma vacina pode ser aprovada com menos de 10 anos de testes, e a gente sabe que o desenvolvimento da ciência no processo de imunização, hoje, é completamente diferente do que a gente tinha no passado. Ela sabe que haveria consequências em relação a essa fala. Ela já havia dito antes que não tomou a vacina por causas pessoais, o que para mim já era grave. Mas, desaconselhar a população a vacinar seus filhos, aí foi um tiro no pé que me parece imperdoável, a não ser que ela se retrate, diga que fez uma fala sem pensar.
Vera – Eu não acredito, ao contrário de Sana, só em convicção pessoal. Eu acho que sempre há interesses ideológicos por trás, interesses escusos. Tento pensar que ela pode se retratar, porque foi um tiro no pé. Eu moro praticamente em Atafona e, apesar de ser um local em que as pessoas têm usado máscara, eu tenho conversado com algumas pessoas que não estão aderindo a essa questão da vacinação contra a Covid na faixa etária pediátrica, porque não estão vendo essas crianças morrendo, justamente porque não trabalham com dados. É muito importante a sua proteção individual, mas há que mudar isso e falar em saúde coletiva, que é muito além da saúde pública. É a interdependência de todos nós. Se eu vacino, eu me protejo, mas protejo o outro também. E é preciso que a gente faça esse discurso cada vez mais. Eu trabalhei em serviço público e sempre falo que é uma pirâmide numa articulação muito grande entre a decisão política e a decisão técnica, e a única coisa que pode segurar essas decisões é a questão ética. Então, uma perfeita que fala em seu nome, ela já está errando. Uma prefeita que não ouve a sua assessoria técnica, ela já está errando. E errando de forma ética extremamente grave, porque ela está levando à morte da população. Resumindo, eu não acredito que seja convicção muito pessoal. Apesar de que alguns falam que ela passou por momentos drásticos na sua vida individual. Mas o homem público e a mulher pública têm que estar acima dessas questões e trabalhar com evidências científicas. É imperdoável para mim que o homem ou a mulher pública negue evidências científicas. E reafirmo: sempre, por trás disso, tem outros interesses. Faz parte de um pacote, um pacote que leva à morte das pessoas.
Por fim, Feres explicará como tentará recuperar, para 55 mil crianças e adolescentes de Campos, os quase dois anos de paralisação física no ensino público fundamental, por conta da pandemia. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
A partir das 7h desta terça, as convidadas do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, em ordem alfabética, serão a professora Angélica Mendes, das redes pública e privada, a jurista e socióloga Sana Gimenes e a médica pediatra Vera Marques. Elas falarão sobre a importância da vacinação infantil contra a Covid-19 e da volta às aulas das crianças. Também analisarão os estragos provocados pelo negacionismo de governantes como o presidente Jair Bolsonaro (PL), no plano nacional, e a prefeita sanjoanense Carla Machado (PP), no regional.
Por fim, Angélica, Sana e Vera falarão sobre a responsabilização cível e criminal de quem negar a vacinação das crianças brasileiras, tarefa que decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), atribuiu ao Ministério Público dos estados. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Ciro Gomes lançou ontem sua pré-candidatura a presidente para outubro (Foto: Poder360)
Hamilton Garcia, cientista político e professor da Uenf, maior legado a Campos e Norte Fluminense do ex-governador Leonel Brizola, que hoje completaria 100 anos
Ciro, a Rebeldia da Esperança e o tempo da crise
Por Hamilton Garcia
Ciro é uma candidatura que nos traz esperança. Não só porque nos apresenta um Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), que tem feito muita falta nestes 41 anos de semi-estagnação, que nos colocou no patamar de decadência e crise onde hoje nos encontramos. Mas porque tem a coragem de indicar os culpados por este resultado: o pacto político-econômico (democraticamente) instituído desde Collor, passando por FHC e Lula, até Bolsonaro, calcado no desmonte da indústria nacional em proveito do aumento do consumo das famílias, por meio de um câmbio distorcido (pró-importação) que prejudica as condições de competitividade dos produtos brasileiros e destrói nossos melhores empregos.
A perversa mágica funcionou graças ao êxito do Plano Real, que conteve a inflação, junto às políticas de amparo aos miseráveis, à valorização do salário mínimo – sem contrapartida no aumento da eficiência do trabalho. O exponencial aumento do crédito privado também teve papel relevante, não obstante o endividamento dos cidadãos, que Lula alavancou, via crédito consignado à juros altos, denunciado por Ciro em 2018.
Iludida a maioria da população, que nunca pôde consumir tanto, viajando até para o exterior, o que chancelou as seguidas vitórias eleitorais de PSDB e PT, o modelo tratou de agravar nossas disparidades de renda, não obstante as “bondades” aos pobres. O empresariado brasileiro também teve seu quinhão com isenções tributárias bilionárias, ineficazes e prejudiciais ao Tesouro Nacional. Fechando o pacote, ainda tivemos as regalias da aristocracia burocrática dos Judiciários, Ministérios Públicos, Legislativos e setores do Executivo, sem esquecer os privilégios da elite política — da União ao Município – e os trilhões do Orçamento Nacional entregues aos grandes grupos financeiros credores da dívida pública.
A resultante disto tudo foi representada pelo candidato ao comparar o PIB per capita do Brasil e da China nos anos 1980, quinze vezes ao nosso favor, com o resultado de hoje, abaixo de 80% do nível alcançado pelos chineses. Transcorridas quatro décadas, a China, em parte inspirada em nossa trajetória passada, quando éramos campeões em crescimento econômico, não só se transformou numa nação próspera, por meio do trabalho e da educação, no lugar da mera compensação de renda e oportunidades, como despontou como potência econômica, já superando os EUA.
Ciro, com sua candidatura, nos presta um grande serviço, embora ainda pague o preço por ter se mantido por tanto tempo próximo ao lulopetismo e seu projeto de distribuição de renda populista, sem trabalho e sem educação. Talvez pudesse diminuir o tempo/espaço perdido e aumentar suas chances com a classe média, se reconhecesse os méritos da operação Lava-Jato – não obstante os inevitáveis erros cometidos no contexto de um país campeão em impunidade e privilégios.
A política, porém, é assim mesmo: feita de maneira aleatória e anárquica, quase sempre separando aquilo que deveria andar junto, para se obter melhor resultado. Em nosso caso, uma política de desenvolvimento articulada à libertação do Estado, aprisionado por parasitas e demagogos que se alimentam da corrupção institucionalizada.
A grave crise brasileira, que Ciro teve a honestidade de colocar no centro do palco eleitoral, como outrora fizera Brizola, todavia, tende a forçar a convergência que as consciências teimam em renegar pelos efeitos da condição humana. É só uma questão de tempo para que a Rebeldia da Esperança encontre seu verdadeiro caminho.
Fake news da prefeita Carla Machado contra a vida das crianças de São João da Barra ganharam a mídia nacional (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Em 2021, o descolamento de Carla da realidade foi tema de todas as rodas de conversa de SJB. Mas foi neste início de 2022 que revelou sua pior face: a infanticida! Jornalista sanjoanense e editor-geral da Folha, Arnaldo Neto registrou as reações imediatas da ciência aos delírios da prefeita. “Os estudos demonstram a segurança e a eficácia da Pfizer para crianças. Na vida real, são mais de 10 milhões de crianças vacinadas só nos EUA”, chamou à razão o médico infectologista Nélio Artiles. “Temerária essa afirmação, porque a prefeita não é profissional da saúde, nem especialista em vacinação”, alertou o pediatra e infectologista Charbell Kury.
Médicos infectologistas Nélio Artiles e Charbell Kury desmentiram a prefeita Carla Machado (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Ministro do STF Ricardo Lewandowski e presidente governista da Câmara de SJB, vereador Elísio Rodrigues, pela vacinação das crianças contra a Covid (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Danilo Barreto, administrador público e candidato a vereador mais votado na “pedra” de SJB em 2020
Piada de mau gosto?
“Achei que a prefeita fosse falar na live do desastre ambiental da abertura da barra da Lagoa de Iquipari, ou apresentar um plano de controle das cheias. Pensei que fosse falar da arrecadação municipal recorde de quase R$ 600 milhões em 2021, e explicar o porquê de tanto buraco nas ruas e falta de iluminação. Mas ela usou a live para influenciar os sanjoanenses a não se vacinarem. Parece piada de mau gosto, mas não é. Programa Cidade Integrada? Só se for com três pilares: sem infraestrutura, sem governo e sem futuro”, analisou o administrador público Danilo Barreto (Patri), candidato a vereador de SJB mais votado na “pedra” em 2020.
Márcio Nogueira, empresário de Atafona e 2º colocado na eleição a prefeito de SJB em 2020
Crença na ciência
“A prefeita falou na live de temas como Covid, suspensão do carnaval e alagamento em Barcelos. Reconheceu a vulnerabilidade de SJB às enchentes, mas tirou a sua responsabilidade para tentar transferir ao Estado. Faz propaganda do êxito da vacinação, apesar de não ter se vacinado e ainda induzir as mães a não vacinarem seus filhos. Gastou muito tempo falando de autoajuda e saúde ‘alternativa’, ignorando o necessário para enfrentar a pandemia. Nós só vamos vencer se acreditarmos na ciência, imunizando a população”, pregou o empresário Márcio Nogueira (PDT), segundo colocado na eleição a prefeito de SJB em 2020.
Renato da Matta, biólogo e professor da Uenf
Palavra da ciência
“Infelizmente, a prefeita de SJB não se vacinou contra a Covid-19. E, para piorar, se declarou contra a vacinação de crianças de 5 a 10 anos. É mais um exemplo de políticos que negam as evidências. O que é nefasto, pois muitas pessoas não têm formação crítica para entender como as doenças acontecem, e acabam influenciadas negativamente contra novas tecnologias que salvam, gerando mais mortes e sofrimento. As vacinas para as crianças seguiram os protocolos e são seguras. Portanto, se é você é mãe, pai ou responsável por alguma criança, vacine-a”, finalizou o biólogo Renato da Matta, professor da Uenf.
“O governo (Jair) Bolsonaro (PL) é um sucesso relativo na política e um fracasso econômico e social”. Foi como o jornalista Luiz Carlos Azedo, articulista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, avaliou na manhã de ontem, em entrevista ao vivo no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3. Apesar de identificar o “sucesso relativo” do capitão, no caso de um eventual segundo turno dele contra o líder isolado em todas as pesquisas presidenciais, o analista da política nacional não demonstrou muita dúvida: “O Bolsonaro nunca vai convencer de que é melhor do que o Lula (PT)”. O risco maior ao petista seria uma mudança no segundo lugar da corrida: “o que pode mudar esse cenário eleitoral é o Bolsonaro ser ultrapassado por outro candidato. Aí, sim. Aí você tem uma ameaça a ele (Lula). Hoje, essa ameaça é o (Sergio) Moro (Podemos). E pode ser o (João) Doria (PSDB)”. Sobre a eleição a governador do Estado do Rio, onde foi criado, Azedo cravou de Brasília, onde reside e conhece os bastidores: “acho Cláudio Castro (PL) um candidato fortíssimo”. Mas também apostou, pela necessidade de Lula de ter um palanque fluminense forte, numa alternativa até aqui pouco cogitada na disputa ao Palácio Guanabara: o presidente da Alerj, André Ceciliano (PT).
Luiz Carlos Azedo, jornalist e articulista político do Correio Braziliense e Estado de Minas
Castro “fortíssimo” a governador do RJ – Eu acho Cláudio Castro um candidato fortíssimo, por duas razões: por causa do peso do Governo do Estado na vida das cidades, principalmente do interior, está fazendo um governo “jeitoso”, e ele não tem rejeição pessoal alta. Ele passa a ser muito competitivo, por causa das alianças que ele vai tecendo com os prefeitos, com os parlamentares e tal. Então, isso é uma é uma coisa que para mim está clara. A dificuldade maior dele é no Rio, porque no Rio a estrutura do Governo do Estado é mais distante da sociedade do que em outras regiões, em termos de peso político, até pela irreverência do carioca também com relação a autoridades. Então, não o vejo com muita força na capital, não. O vejo com mais força no interior, na Baixada, por causa das alianças política e do jeito dele de o governo estar funcionando. Agora, se o André Ceciliano for candidato, aí bagunça esse coreto, porque ele tem relações políticas no interior, por causa da relação da Assembleia. E ele vai ter muita força na capital, em função da influência do Lula, da base eleitoral do Lula na capital, que sempre foi muito forte.
Ceciliano a governador? – Eu tenho amigos do PT, e eu sei que esses amigos torcem o nariz para o (Marcelo) Freixo (PSB), gostariam que o André Ceciliano fosse candidato. O que dificulta isso? O Lula, a política de alianças do Lula. Ele quer ampliar, ele quer ter o apoio do Psol (ex-partido de Freixo), ele quer ter o apoio do Eduardo Paes (PSD, prefeito do Rio). Então, o Lula tem um peso nisso. Mas, se o Eduardo Paes resolver apoiar o André Ceciliano, ele será candidato, não tenha dúvida. E esse acordo pode acontecer, porque ele não pode disputar reeleição. Anota aí no teu caderninho. Se ele virar candidato, aí você me diz assim: “Pô, você estava certo”. Não se pode descartar a candidatura dele, porque: primeiro, na minha avaliação, o governador não vai apoiar o Lula. Se ele não vai apoiar o Lula, o Lula precisa ter um palanque no Rio que amplie. O voto do Freixo já é do Lula, ele não precisa do apoio do Freixo; o voto do Freixo, por gravidade, é do Lula. Se houver um acordo do Eduardo Paes com ele (Ceciliano), e o Lula liberar, ele vira candidato. E um candidato fortíssimo.
Bolsonaro entre o “sucesso relativo” e o fracasso – Eu acho que o governo Bolsonaro é um sucesso relativo na política e um fracasso econômico e social. Estou falando de sucesso relativo na política por duas razões: porque ele conseguiu neutralizar completamente a possibilidade do impeachment, que era real, e construiu uma aliança com o Centrão, que ele acabou de consolidar e que deu a ele o apoio quase que incondicional da maioria do Congresso à sua reeleição. Então, isso é uma coisa que, politicamente, tem que ser considerada. É o que garante a ele uma certa estabilidade, governabilidade. Entretanto, a capacidade de governança dele é muito precária. E há um fracasso econômico, a situação da economia está aí: recessão, inflação de mais de 10%, desemprego em massa.
“Desastre” – Do ponto de vista social, Bolsonaro é um desastre. Ele liquidou as políticas públicas. Nessa crise sanitária, ele cometeu todos os erros possíveis e imagináveis, mais até os inimagináveis. Está pagando o preço disso em termos de popularidade. O impacto que isso teve na economia e o impacto que teve em outras áreas da vida social, como no caso da educação, por exemplo, foi muito grande. Então, é um governo com péssimos indicadores em todas as áreas: saúde, educação, segurança.
Bolsonaro garantido ao segundo turno? – Ele conseguiu manter um grupo de apoio suficiente, até agora, para garantir a ele um lugar no segundo turno. Eu não sei se esse quadro se mantém, mas, em princípio, ele continua garantindo lugar no segundo turno das eleições. Quem pode alterar esse quadro? Um dos candidatos que se consolidarem até as eleições e ameaçá-lo. Na pesquisa de hoje (ontem, da Exame/Ideia, que deu Lula com 41% e Bolsonaro, com 24%), ficou evidente que o Moro está se tornando realmente uma ameaça, porque já está com 11%. Numa largada para eleição, 11% não é mau. O Ciro (Gomes, PDT) refluiu. O Ciro já esteve nessa posição de ter 11% dos votos, nessa pesquisa de hoje (ontem) está com 7%. O Doria, com 4%, e o Pacheco, com 1%, são os grandes partidos da disputa. O PSD do Pacheco, o PSDB do Doria, o PDT do Ciro e o Moro, com o Podemos, que não é um grande partido, mas tem uma grande bancada no Senado e uma bancada expressiva na Câmara. Pode ser que esse quadro tenha alteração, mas eu diria que, hoje, o Moro já ameaça Bolsonaro.
Três momentos da corrida eleitoral – A gente sabe que, numa campanha eleitoral, há três grandes momentos: um é a fase da pré-campanha, em que as candidaturas se consolidam ou não; o segundo momento é quando as alianças se estratificam, que é o período em que se formam as coligações, os blocos partidários, agora federações partidárias; e o terceiro momento é a campanha propriamente dita. A reta final da campanha é uma loucura, a gente tem muita movimentação em termo dos eleitores. Quando o povão entra na campanha eleitoral, você tem muita alteração, é como se fosse uma outra conjuntura. Então, eu não acho que a eleição está decidida.
Lula no primeiro turno? – O Lula tem chance de ganhar a eleição no primeiro turno? Tem. Mas, isso não se resolve de véspera. Você vê que uma pesquisa o mostra ganhando no primeiro turno (Lula teria 51,4% dos votos válidos na pesquisa Genial/Quaest, divulgada na quarta), logo depois vem outra (Exame/Ideia, divulgada na sexta) que mostra que não é bem assim. Então, nós vamos ficar nessa situação daqui para frente. Acho que as candidaturas que estão consolidadas até agora são Lula, Bolsonaro e Moro. O Ciro está sofrendo um ataque especulativo da própria bancada do PDT. E o Doria, aparentemente, é candidato a qualquer preço, já disputou a convenção do PSDB, mas ele está com muita dificuldade. Não vejo o Rodrigo Pacheco como uma candidatura consolidada. Acho que a tendência do PSD vai ser fazer uma aliança e indicar ele, talvez o próprio (Gilberto) Kassab (ex-prefeito de São Paulo e presidente nacional do PSD). Eu acho que o Rodrigo Pacheco, por exemplo, seria um excelente vice para o Lula: é de Minas, é um político moderado, tem um grande partido. Então, o Kassab conversa com o Lula. Essas coisas estão ainda por se definir.
Fraqueza e força de Bolsonaro – Eu acho que, no embate com os adversários, o Bolsonaro está muito fragilizado, porque ele não consegue reverter a situação da economia, apesar do Auxílio Brasil. Ele está muito sustentado nesse eleitor mais ideológico, na narrativa dos costumes e nessa base corporativa que ele tem, além das alianças que ele faz usando a máquina do governo. Então, ele é um candidato que tem muita força, muita resiliência, porque, em qualquer circunstância, o governo é a forma mais concentrada de poder. Mesmo um mau governo, porque o mau governo, arrecada, normatiza e coage. O Bolsonaro faz isso sem nenhuma crise de consciência. A gente vê as medidas que ele toma, o tempo todo ele faz isso para beneficiar os seus aliados.
Lula x Bolsonaro, Moro e Ciro – O Lula, no confronto dos governos dos governos dele com o do Bolsonaro, ele ganha todas, menos na questão ética, porque ele tem lá o passivo dos escândalos, o passivo da Lava Jato. Só que essa vantagem o Bolsonaro perde, está perdendo, por causa da aliança dele com o Centrão e porque a candidatura do Moro está caldeando esse eleitor antipetista e preocupado com a ética na política. O Moro está seduzindo esse eleitor e tentando se colocar como um cara com proposta para enfrentar os problemas do país, especialmente na economia. Moro está tentando construir uma candidatura propositiva, uma narrativa com um projeto para o país, porque essa coisa da ética já vem para o colo dele naturalmente. Isso é dele, ninguém tasca, e foi o que fez com que ele ultrapassasse o Ciro. O Ciro foi do governo Lula, tem um passivo também, foi ministro (da Integração Regional). No passivo de ter sido ministro (da Justiça), o Moro fez do limão uma limonada, porque ele rompeu com o Bolsonaro. Ele faz uma campanha em que ataca o Bolsonaro. É uma coisa que ele diz que errou, que se enganou. Você tem que levar em conta o seguinte: o Bolsonaro ganhou a eleição. Então, o Moro tem na bandeja o eleitor antipetista que votou no Bolsonaro e se arrependeu. Está no colo dele já, e não é pouca gente. Se você comparar a votação que o Bolsonaro teve com o que ele tem hoje nas pesquisas, você tem a dimensão do eleitor que votou nele e se decepcionou com ele. Esse eleitor se identifica com o Moro, porque o Moro é a expressão do apoio e da decepção ao mesmo tempo. Eu acho que o Moro tem muita dificuldade no mundo político, que tem urticária quando ouve falar em Lava Jato. Ele tem dois pontos fracos: um é a falta de experiência administrativa, e o outro é essa coisa de ele ter incompatibilidade com os políticos tradicionais. Só que, se você for observar o comportamento do eleitorado, essas candidaturas antissistema têm ainda um apelo eleitoral.
“Comparação é no carrinho de compra” – Você imagina o Bolsa Família num contexto de pleno emprego, de aumento de salário real, das aposentadorias, e vê o Auxílio Brasil num contexto de inflação de 10%, recessão, desemprego em massas nas famílias. É uma conjuntura completamente diferente. Então, eu acho que comparação é no carrinho do supermercado: “O que eu colocava no carrinho do supermercado com o Bolsa Família, no governo Lula, e o que eu coloco agora?”. Essa comparação é feita na boca do caixa do supermercado, todo dia, quando o sujeito vai fazer compra. E aí, está explicado o resultado dessa pesquisa com relação ao Auxílio Brasil (a Genial/Quaest registrou que, entre os brasileiros que moram junto de pelo menos uma pessoa que recebe o Auxílio Brasil, 53% consideram o governo Bolsonaro ruim, regular para 28% e positivo para apenas 17%). Uma coisa é você ter um sujeito que está recebendo Bolsa Família porque ficou desempregado, num ambiente familiar em que ele tem um filho que trabalha, que a mulher consegue fazer algum trabalho, vender alguma coisa, que ele consegue ter algum negócio, vai vender coxinha de galinha, alguma coisa. Imagina num contexto em que está todo mundo desempregado, em que você não tem atividade econômica? A atividade econômica informal está muito baixa, porque não houve só um apagão de empregos. Com a pandemia, houve um apagão de capital. As pessoas queimaram o que tinham, venderam o que tinham ou gastaram o que tinham para poderem comer. E sem capacidade de gerar renda, de ter uma atividade produtiva que gerasse renda. Então, esse impacto está visível nas ruas da cidade: morador de rua, gente pedindo dinheiro, pedindo comida. Isso é generalizado. E o Lula, quando saiu do governo, o país estava crescendo 8%, era um regime de pleno emprego. Então, essa coisa é comparada. A força do Lula nessa eleição vem daí: do contraste com a situação da economia do governo Bolsonaro.
Como seria Lula nas vacas magras? – O Lula foi beneficiado pela expansão da economia mundial e um crescimento da China comprando muito no Brasil. Isso beneficiou o governo Lula, foi um momento de expansão. Quando vem a crise econômica (de 2008) e ele envereda pela chamada política anticíclica no segundo mandato, num primeiro momento o país reage bem a isso, mas depois essa política é mantida pela Dilma, e aí a gente começa a ter problema. E acaba colapsando a economia no segundo mandato da Dilma. E o Lula agora, como é que fica? As contingências são outras, não são as mesmas. Não dá para fazer o mesmo governo. Eu, pessoalmente, acho que o projeto do PT, muito calcado no nacional-desenvolvimentismo, é regressista, não tem muito espaço para dar certo. O projeto nacional-desenvolvimentista depende de capital para investir. Nós não temos esse capital internamente. O Estado tem capital e já não tem mais como resolver o problema privatizando uma área para investir em outra. Petrobras, Banco do Brasil, Caixa, isso o PT não vai fazer. Então, não vai ter capital. E você não tem, no setor privado, acumulação suficiente para fazer esses investimentos também. A capacidade de financiamento teria que vir do exterior. Para isso, você não pode ter uma política anti-imperialista, hostil à integração à economia mundial. Eu tenho muitas dúvidas com relação à forma como essa coisa poderia se resolver. Mas, isso não é um problema só do Lula, não. É um problema de todos os candidatos.
Como Bolsonaro poderia superar Lula? – A única alternativa que o Bolsonaro teria para derrotar o Lula no segundo turno seria convencer o eleitor de que ele é menos pior. E isso vai ser muito difícil para ele, na minha modesta opinião, porque convencer o eleitor de que ele é melhor do que o Lula é difícil. Ele não tem desempenho. Ele tem que criar um fantasma, ele tem que recrudescer nesse discurso do comunismo, na coisa da corrupção. Ele tem que ir para cima e caracterizar o Lula como um cara tipo o Maduro, entendeu? Ele vai ter que fazer um discurso muito reacionário e convencer. Eu acho difícil ele convencer o eleitor médio, o eleitor popular, porque as pessoas já foram governadas pelo Lula duas vezes e têm saudade, né? Tem saudade da picanha, do iogurte, da viagem de avião. O Lula conseguiu melhorar a vida das pessoas da porta para dentro. Ele fez uma política econômica que se baseava na expansão do consumo. Então, hoje, o impacto maior que as pessoas estão sentindo em termos de qualidade de vida é perda de qualidade de vida da porta para dentro. Essa comparação é muito forte. Você pode questionar o Lula da porta para fora: saúde, educação, transporte, situação urbana. Aí você pode, porque ele focalizou gasto social na camada mais pobre da população, no consumo. Mas, mesmo assim, ele ganha do Bolsonaro na comparação. Acho muito difícil. O Bolsonaro nunca vai convencer de que é melhor do que o Lula.
O que pode mudar até outubro? – Agora, o que pode mudar esse cenário eleitoral é o Bolsonaro ser ultrapassado por outro candidato. Aí, sim. Aí você tem uma ameaça a ele (Lula). Hoje, essa ameaça é o Moro. E pode ser o Doria. O Doria tem uma característica que o Moro não tem. Eles fazem um discurso muito parecido, só que o Doria é mais qualificado em termos administrativos, tem um portfólio de realizações, de entrega que ele está fazendo no Governo de São Paulo, no combate à Covid. Não tenha dúvida que ele vai usar.
Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã
Confira abaixo, em três blocos, a íntegra da entrevista do jornalista Luiz Carlos Azedo ao Folha no Ar na manhã de ontem, na Folha FM 98,3:
O poeta e tradutor amazonense Thiago de Mello morreu hoje, em Manaus (AM), aos 95 anos, de parada cardíaca. Era um dos mais conhecidos e reconhecidos poetas brasileiros, em seu próprio país e no exterior, onde serviu anos como adido cultural. Ícone da literatura regional, como foram o poeta pantaneiro Manoel de Barros ou o prosista goitacá José Cândido de Carvalho, Thiago marcou sua obra pelo humanismo, a crítica social, a defesa da Floresta Amazônica e seus povos originais, que conheceu e cantou tão bem.
O poeta do Amazônia e homem do mundo fincou raízes também na planície goitacá. Entre 1977 — logo após voltar do exílio imposto por nossa última ditadura militar (1964/1985) — e 1986, ele foi casado com a jornalista campista Ana Helena Ribeiro Gomes. Radicada há muitos anos na cidade do Rio de Janeiro, ela morou durante sua união com Thiago na cidade natal deste, em Barreirinha, numa casa projetada pelo arquiteto Lúcio Costa, que projetou junto com Oscar Niemayer a capital Brasília.
Ana Helena e Thiago tiveram um filho, Thiago Thiago, filósofo, sociólogo e compositor, hoje com 40 anos. Numa dessas coincidências que não há, ele estava no Amazonas neste período da morte do pai, cuja terceira e última residência em Barreirinha projetada por Lúcio Costa, à beira do rio Andirá, está sendo reformada para ser transformada em Casa da Poesia.
A jornalista campista Ana Helena Gomes e o poeta amazonense Thiago de Mello com a neta Sophia (Foto: Arquivo de Família)
— Thiago voltou do exílio, em 1977, e estava na casa da irmã em Copacabana, para responder a um inquérito militar da ditadura. Eu era repórter de O Globo e fui enviada para entrevistá-lo. Thiago era conhecido do jornal, onde escreveu como cronista nos anos 1950. Como era um poeta e fiquei com receio de perder algum verso, levei um gravador. Fizemos a entrevista e, no final, ele pediu meu nome e telefone. Fui para casa, para tirar a matéria, onde percebi que não tinha gravado nada. Resolvi escrever de memória e deu um texto de oito laudas. No dia seguinte, com a publicação da matéria, ele ligou para mim e contei a história do gravador. Depois, apareceu na minha casa com um violão. Nós casamos ali, naquele processo. Depois, junto com o cantor e compositor Sérgio Ricardo, Thiago correu o Brasil com “Faz escuro, mas eu canto”, espetáculo de protesto contra a ditadura. Quando acabou, me mudei com ele para Barreirinha. Mesmo depois da separação, continuamos grandes amigos. Sempre que ele vinha ao Rio, se hospedava na minha casa. Fomos grandes amigos a vida toda. Somos! Ainda não consigo falar dele no passado. Perdemos um grande humanista; um homem que foi, em vida e obra, um belo resumo do século 20 — testemunhou Ana Helena ao blog.
Verso do poema “Madrugada Camponesa” e título do seu livro de 1965, considerado pelo autor como o mais querido, “Faz escuro, mas eu canto” seria também o tema da 54ª Bienal do Livro de São Paulo, em 2021. Na qual Thiago, ainda em vida, foi o grande homenageado.
Por conta do seu casamento com Ana Helena, amiga dos meus pais, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Thiago de Mello na minha infância, em algumas das suas vindas a Campos. Num desses encontros, ele chegou a escrever para mim um poema, que está, espero, guardado com a minha mãe. Segundo ela, o poema começava assim: “Aluysinho, companheiro, foi muito bom te encontrar”.
Caras aos poetas, entre as figuras de linguagem que mais aprecio, está o oxímoro, uso de expressões antagônicas para reforçar uma ideia. Desde a sua fundamentação, a língua portuguesa já era marcada a “fogo que arde sem se ver” pelo oxímoro. Como Luís de Camões, em soneto homônimo ao primeiro verso: “Amor é fogo que arde sem se ver,/ é ferida que dói, e não se sente;/ é um contentamento descontente,/ é dor que desatina sem doer”.
De Camões para cá, o Brasil também pariu grandes escritores que se destacaram pelo uso do oxímoro. Entre eles, o mais marcante talvez seja Euclides da Cunha. Que, na prosa da sua obra prima sobre a Guerra de Canudos (1896/1897), em “Os Sertões”, imortalizou alguns: “grande homem pelo avesso”, “Hércules-Quasímodo”, “a caatinga o afoga”.
É, no entanto, Thiago de Mello quem, na minha opinião, escreveu o oxímoro defintivo da língua portuguesa — ou de qualquer outra. E com ele batizou o poema e o livro homônimo de 1952: