Ricardo André Vasconcelos — O Tambor da Quarta-Feira de Cinzas

 

David Bennet no filme “O Tambor”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1980. O pequeno Oskar decide parar de crescer ao descobrir uma relação extraconjugal da mãe. Com seu tambor inseparável, acompanha e interage com a ascensão do nazismo (Reprodução)

 

 

Era uma Quarta-Feira de Cinzas como hoje num ano qualquer do século passado. A vida em Campos ainda girava em torno do Centro, onde ficava o ponto final dos ônibus que se dirigiam aos bairros. Foi ali, vindo da Rua Alberto Torres, que avistei uma figura suada, cabelos encaracolados bem rentes ao couro cabeludo, trajando alguns restos de pouca fantasia e batendo um solitário tambor como se recusasse a aceitar que a festa da inversão acabara e mundo já tinha voltado à mesmice. Só anos depois conheci Oskar Matzerath — personagem de Günter Grass (1927-2015) —, um menino que decidiu parar de crescer, e seu inseparável tambor de lata. Ali, perto do Chafariz belga na Praça das Quatro Jornadas, quem roubou minha atenção adolescente não foi o menino de “O Tambor”, e sim o jovem ator Kapi, que mais tarde descobri Antônio Roberto de Góis Cavalcanti, de quem me tornei meio-amigo e admirador por inteiro.

Kapi era movido a um inconformismo produtivo que fez dele pioneiro. Um desbravador tão desvairado quanto genial. Antes de vê-lo com o tambor espichando o Carnaval, já tinha apreciado uma rara participação dele como ator. Foi em “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes e direção de Orávio de Campos. Kapi fazia o papel do repórter que cobria a saga de Zé do Burro (Gildo Henrique) tentando entrar, com sua cruz de madeira, na igreja de Santa Bárbara para pagar promessa pelo restabelecimento da saúde do seu burro.

Foi Kapi quem inaugurou o anfiteatro do Parque Alberto Sampaio, concebendo e dirigindo o espetáculo “Arena Canta Zumbi”, no governo Zezé Barbosa. É dele a direção do memorável espetáculo “No Natal a Gente Vem te Buscar”, de Naum Alves de Souza, que inaugurou, também, o Lapa Cine Show,  um espaço misto de teatro e shows localizado ao lado do Corpo de Bombeiros, em parte do terreno onde hoje está a sede da Igreja Universal. Foi um dos retumbantes fracassos de Kapi, que como outro mestre genial, Darcy Ribeiro, sempre preferiu ficar ao lado dos vencidos. Kapi sonhava grande e muito, porque sonhar pequeno é para os medíocres. De óbvio e ordinário o mundo transborda.

Burocrata, nunca foi. No primeiro governo Garotinho (1989-1992) foi diretor de Turismo e, a despeito da pouca atenção que demos ao setor, inclusive na minha gestão à frente da Secretaria, (que era de Comunicação Social e Turismo), sempre trazia seus projetos e ideias. O que foi feito na época, como a criação do city tour, renovação dos cartões postais da cidade e o aproveitamento da estrutura turística que existia na Lagoa de Cima, é mérito dele, sem falar nas primeiras iniciativas do setor na praia do Farol de São Thomé. Na transição do governo Garotinho para o de Sergio Mendes (1992-1996), sugeri a transferência do Turismo para a Companhia de Desenvolvimento, cujo presidente, Murillo Dieguez, era e é tão criativo e operacionalmente eficiente quanto Kapi. A parceria da dupla deu bons resultados, principalmente a instalação de um curso superior de tecnólogo de turismo na cidade. É mérito seu, também, o resgate dos Desfiles das Escolas, Blocos e Bois Pintadinhos a partir do Carnaval de 1990, quando o impossível aconteceu: regendo aquela bagunça histórica, Kapi conseguiu que as agremiações cumprissem o horário. Montado na garupa da motocicleta de um guarda-costas às avessas, percorria a pista como um general passando a tropa em vistoria. Inesquecível!

Como diretor de teatro chegava a ser irascível. Talvez por sentir-se enquadrado demais num palco italiano, sempre procurou a forma de arena (o público em volta do palco) e espaços alternativos, como a antiga mansão dos Aquino, na Beira-Valão, onde montou e dirigiu a peça Constantine, com um elenco de socialites. Com o grupo da Faculdade de Direito, montou “O Inspetor Geral”, do dramaturgo russo Nicolai Gogol, para o Festival Universitário de 1986. O grupo de alunos, de onde sairia um juiz e dois promotores de justiça, era indisciplinado e o diretor, ao desistir de ver decorado o texto de linguagem rebuscada, radicalizou: optou por uma linha caipira e transformou o palco do Teatro de Bolso num imenso galinheiro e para isso retirou várias fileiras de cadeiras transformando a plateia numa impensável arena. Depois do festival o TB teve que ser reformado.

Outra ousadia foi a encenação do ”Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meirelles, a céu aberto, na inauguração do Memorial de Tiradentes, em frente ao antigo Hotel Flávio, num 21 de abril dos anos 90. O espetáculo também era apresentado no Convento da Lapa. Levar sua arte a espaços inusitados era o desafio de Kapi. E o desafio não era apenas técnico, tinha uma mensagem política clara, seja para os dirigentes ou para a sociedade conformada.  Foi assim que num dos últimos festivais universitários de teatro que a municipalidade promoveu, creio em 1995 ou 1996, resolveu chamar atenção da cidade para as obras de construção do novo Trianon, que andavam lentamente ao sabor dos parcos recursos, e levou seu grupo da Faculdade de Odontologia para encenar, sob o céu de estrelas de um teatro sem teto e assentos de concreto o clássico “Gota d’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes.  Com cenário de andaimes em três planos, atores afiadíssimos, texto e música geniais arrebatou a maioria dos prêmios.

Entre peças teatrais, festivais, incursões empresariais frustradas — foi dono do tradicional Bar Vermelho, que levou à falência ao travesti-lo de Clean — Kapi produziu poemas de forte conteúdo social. O meu preferido é o que diz “Usina é usura…/ um gosto (doce-amargo)/ de uns caldos escorrendo,/ ora nas moendas ora nos moídos…”. Como filho da assistente social de usina, Severina Cavalcanti, conhecia de perto aquele “remedar de vida” e, de quando em vez, realizava algum projeto voltado para os trabalhadores do corte de cana.

Para marcar o Dia Mundial de Combate à AIDS, primeiro de dezembro, chamei Kapi com uma ideia que só ele poderia comprar, se apaixonar por ela e executar com eficiência. Anos antes, tinha visto pela TV, que vestiram um preservativo gigante no famoso obelisco de Buenos Aires, para chamar atenção das pessoas para a epidemia já alertada na década anterior. Como temos um semelhante na Avenida XV de Novembro, erigido para marcar as obras de saneamento executadas na cidade na primeira década do século passado, porque fazer dele um falo monumental e cobri-lo com uma camisinha gigante?

— Sensacional. Festejou Kapi, já pensando no tipo de tecido, cores e logística. Sugeriu pedir apoio do Corpo de Bombeiros e a adesão da incansável Fátima Castro, fundadora e presidente da Casa Irmãos da Solidariedade e batizamos o projeto internamente de “operação pinto desconhecido”. Na madrugada de primeiro de dezembro, um caminhão-escada magirus do Corpo de Bombeiros parou o trânsito nas duas pistas e, em menos de uma hora, um preservativo bege de 22 metros por 3 metros de diâmetro cobria o obelisco. A cidade careta acordou com um pinto gigante e protegido bem no Centro da cidade.

Nem nas horas mais difíceis, de dívidas, falta de dinheiro, de teto e depois, com a saúde debilitada pela doença, nunca, nunca Kapi deixou de ter projetos culturais em mente ou em curso. Nunca deixou de sonhar acordado. Mesmo entre as internações para tratar das doenças oportunistas causadas pelo HIV, falava com entusiasmo incomum de peças que queria montar. Num de nossos últimos encontros discorreu em detalhes o musical que estava escrevendo sobre “O Coronel e o Lobisomem”, baseado no livro de José Cândido de Carvalho, Zombeteiro, dizia que o médico o havia proibido até de pensar nisso. “E eu vou respeitar?”

— Claro que não. Se não eu não seria Kapi.

Como o Oskar, vivido no cinema por David Bennet (1979 – direção de Volker Schlöndorff), que recusou a crescer a partir dos três anos de idade, Kapi nunca se resignou com as coisas como se elas fossem do jeito que são ou aparentam ser. Ele sempre quis, fez e foi mais. E hoje, nesta Quarta-Feira de Cinzas, deve estar batendo seu tambor em algum lugar, porque para ele, o Carnaval não acabou ontem. Não vai acabar nunca.

 

Kapi, comemorando aniversário na quadra da sua escola do coração, a Mocidade Louca (Foto: Ricardo André Vasconcelos)

 

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Ocinei Trindade — Rosa é a cor mais violenta

 

(Reprodução)

 

 

De repente, um tiro. E outro. Pânico e ensurdecer. Confusão mental. Difícil explicar que em poucos segundos a vida muda e a morte vem. E vem em forma de cabeça estourada, miolos espalhados pelo automóvel conversível. Quem atirou? Por que atirou? O buraco aberto no crânio faz sangue e massa encefálica jorrarem. Alma arrebentada. O homem atingido é John. Ao seu lado, a esposa, Jacqueline, vestida de rosa e respingada de sangue,ela o ampara. Tenta estancar o sangue com as próprias mãos. Quem sabe, ele escapa. Não deu. Choro. Vazio e incerteza. Golpe do destino. Assassino.

Parece cena de filme. E é. Parece ficção. Não é. A morte ao vivo diante das câmeras de modo espetacular repercute mais de cinquenta anos depois. Por que rememoramos coisas tristes? Por que o roteiro traçado por nós teima em não ser cumprido pela vida autônoma? A vida às vezes parece tão injusta, embora já saibamos que a ironia seja uma de suas predileções. Uma mulher bela e elegante, rainha sem ser monarca, esposa de um líder democrata jovem e bonito, envolvidos em uma trama de conspiração e comoção. Kennedy ressuscita e morre há mais de cinco décadas. Morre para sempre, revive na memória coletiva até morrer outra vez a cada revisita ao passado. E em torno da cena macabra, uma mulher vestida de rosa.

John Fitzgerald Kennedy nunca foi santo (e qual presidente americano seria?). Nenhum governante do mundo nunca foi ou será santo. Nem o Papa. Mas, mesmo assim, os santificamos, os bendizemos, os beatificamos, os sagramos, os reverenciamos, os entronizamos quando queremos. É o jeitinho brasileiro ou o jeitinho internacional de reinventar o messias ou o mártir, aquele que se sacrificou e morreu por nós. E se não morreu por nós, que pelo menos fique registrado pelas câmeras, pela história e pela imprensa o quão injustiçado pode ser um político. Será mesmo possível isto ou não passa de mais um mito que teimamos crer, criar e recriar?

No dia em que Anthony Garotinho veio a Campos para ser ouvido pelo juiz Ralph Manhães sobre o processo que acusa o ex-governador do Rio de Janeiro de chefiar um esquema criminoso de compra de votos na cidade, eu estava no cinema assistindo ao filme Jackie (2016), estrelado pela sempre magnífica Natalie Portman e dirigido pelo chileno Pablo Larrain. Não me interessei tanto pelo depoimento do ex-governador, embora me informei do fato.

Vi as fotos e alguns vídeos na webda família Garotinho apoiando o patriarca neste momento no mínimo midiático, mas constrangedor (ou vice-versa). A ex-governadora e ex-prefeita Rosinha, linda como sempre, não estava vestida de rosa, mas usava óculos escuros à la Jackie O. Vale lembrar que esse “O” é de Onassis, sobrenome que Jacqueline Kennedy herdou do segundo marido, o armador grego e milionário Aristóleles Onassis. A família Garotinho e os amigos fizeram questão de um círculo de oração no Fórum, disseram. O mundo inteiro carece de reza e oração mesmo, pois o mundo jaz no maligno.

Voltemos à cena do crime em Dallas, depois sigamos voando para Washington para os preparativos do funeral suntuoso de John Kennedy, inspirado no mesmo roteiro do funeral de Abraham Lincoln, presidente que também morreu assassinado um século antes. Jackie quis que seu marido tivesse a mesma reverência, honraria e tratamento que Lincoln, considerado por especialistas em política americana, o maior presidente dos Estados Unidos de todos os tempos. Os dias se arrastam. É um momento de muita tristeza, mas também de muita beleza assistir aos dois espetáculos: o funeral de Kennedy em imagens de arquivo e a encenação do funeral na película. A personagem de Natalie Portman conta esse episódio da História com um olhar muito particular e sofrido, de uma viúva jovem que viveu uma espécie de conto de fadas enquanto esteve na Casa Branca.

A história narrada por Jackie não acrescenta muito além do que já sabemos. Porém, quando uma mulher resolve narrar sua versão dos fatos, isto sempre será relevante, atraente e comovente. O olhar feminino quase sempre é mais abrangente, embora nem sempre mulheres confessem suas crueldades e equívocos nas decisões que tomam junto aos maridos. Jackie Kennedy e Rosinha Garotinho são mocinhas ou vilãs diante de suas trajetórias e escolhas? Depende de quem as vê ou as julga.

O filme está aí para ser avaliado. As ações políticas da ex-prefeita também. Sem falar na biografia do nosso ex-prefeito e ex-governador Anthony Garotinho marcado pela cor rosa de sua casa na Lapa, na cadeira rosa que sua esposa ocupou na Prefeitura, no carro rosa que eles usavam, no microfone rosa por ela utilizado em comícios, nas roupas rosas que marcaram eventos, solenidades e campanhas eleitorais. Rosinha sempre atraiu votos para o marido e vice-versa. Mas, como sabemos, nem tudo é um mar de pétalas de rosas na vida deles, muito menosnas nossas vidas com o Brasil cada vez mais desmoralizado, afundado por políticos e por uma sociedade corrompida que temos.

A roupa que Jacqueline Kennedy usou naquele fatídico dia em Dallas, o emblemático tailleurrosa com botões e detalhes pretos, ficou ainda mais significativo com o sangue de seu marido espalhado pelo tecido. A violência pode não combinar absolutamente nada com a cor rosa, mas em algumas ocasiões fica difícil não prestar atenção nas cores do sofrimento, da vergonha, do medo, da injustiça e de uma tragédia que vira e mexe estamos vivendo e revivendo.

 

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Marcelo Amoy — “Não me leve mal, hoje é carnaval!”

 

 

 

Como qualquer feriadão, o reinado de Momo é efêmero – especialmente nesses nossos tempos velozes –, mas tem peculiaridades que fazem toda a diferença. Enquanto os outros feriadões dependem dos caprichos do calendário pra sabermos se teremos mais ou menos dias de folga, o carnaval tem número de dias fixo: são sempre quatro (e se incluirmos o muito comum recesso da quarta-feira de cinzas, cinco). Sua mobilidade ano a ano lhe acrescenta tempero: conforme cair num determinado ano, o verão será mais longo ou mais curto – o que faz muitos corações suspirarem em expectativa. Tirando o Natal e o Ano Novo, é o principal feriadão temático que temos: em todos os demais, cada um aproveita sua folga do jeito que preferir; mas, no carnaval, as pessoas são meio que direcionadas aos tipos específicos de eventos e ocupações que conhecemos tão bem. Para completar, é uma festa de origem religiosa – por menos que pareça ou as pessoas se lembrem disso.

Os dias de carnaval são marcados em função do calendário lunar – eis porque variam tanto de ano a ano – e em decorrência da Páscoa. O domingo de Páscoa é sempre o primeiro domingo de lua cheia depois do equinócio de primavera no hemisfério norte (nosso equinócio de outono). Com o estabelecimento do domingo de Páscoa, regride-se uma semana até o domingo de ramos e, daí, contam-se regressivamente mais 40 dias para o estabelecimento da terça-feira de carnaval e a delimitação de todo o período da quaresma. Originalmente, só a terça era feriado – mas dada a nossa natureza festiva, fomos dando um jeitinho de oficializar uma folga geral desde o sábado anterior, rsrsrs.

Assim, ninguém deve estranhar que muitos escolham passar o carnaval em retiros de oração: há motivos para isso além da preferência pessoal por calma e tranquilidade. Aliás, conheço muita gente que troca a folia por dias numa fazenda ou numa praia calma, sem badalações; ou que curta mesmo só ficar em casa lendo, vendo TV, descansando ou colocando tarefas em dia. Essa tendência costuma aumentar com a idade, mas o carnaval não tem idade e todos podem curti-lo se quiserem – até porque é possível aproveitar os dias de folia pra encontrar amigos na praia, brindar num churrasco, ver os blocos passarem e os desfiles pela TV sem ter que se jogar na folia sem hora pra voltar, como se o mundo fosse acabar amanhã, rsrsrs.

Por muitos anos, eu passei meus carnavais no clube de Atafona; depois no Rio de Janeiro, em blocos de rua. Enquanto vejo feliz o crescimento da folia urbana, de um carnaval de rua cada vez mais concorrido, lamento o fim dos carnavais de clube. Até mesmo aquelas filas enormes e a bagunça embolada de todo mundo se apertando no pequeno hall do Atafona Praia Clube pra comprar os “convites” para os sete bailes – momento esperado o verão inteiro com ansiedade insuportável para mim, rsrsrs – são hoje motivo de saudade. O próprio clube nem existe mais: minhas memórias jazem hoje num terreno baldio. Mesmo assim, ainda sinto o cheiro e o gosto do churrasquinho e do salsichão com farofa do Baiano, devorados ao som da orquestra lá dentro; lembro das paqueras e brincadeiras no salão; dos encontros com todo mundo o tempo todo – sensação de estar em casa; de ver o sol nascer na praia, ao final de cada baile; e das meninas fantasiadas de odaliscas, negas malucas, havaianas e os meninos de piratas, índios, sheiks. Tudo ao som dos melhores sambas-enredo e das mais tradicionais marchinhas.

“Quanto riso, ah… quanta alegria!!!”: isso era o carnaval – além de um punhado de amores feitos e/ou desfeitos; algumas ressacas e vexames; e algumas infelizes e eventuais brigas entre alguns exaltados (geralmente depois de muitos copos vazios). Mas ninguém se aborrecia quando chamado a olhar “a cabeleira do Zezé”, nem perguntando “será que ele é?”. Brigas de namorados se desfaziam ao som de “Bandeira branca, amor; não posso mais… pela saudade que me invade, eu peço paz!” e poucos corações resistiam a um “Tu não tens pena de mim, que vivo tonto com o teu olhar?” cantado com aquele olhar comprido e sem vergonha…

“Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô; mas que calor, ô ô ô ô ô ô!” era, então, quem sabe, só um desabafo pela falta de ar condicionado; nunca uma ameaça de morte. Aliás… ninguém problematizava letra de marchinha: o carnaval era só folia, tão despido dessas elocubrações quanto o possível nas roupas. A liberdade só possível no carnaval – a catarse esperada o ano todo pra desopilar a existência – nunca foi berço de preconceitos. Ninguém estava nem aí se alguém “De dia, era Maria; De noite, era João”, nem cantava “O teu cabelo não nega, mulata; Porque és mulata na cor” para discriminar ninguém. Por mais que os versos seguintes – “Mas como a cor não pega, mulata; Mulata, eu quero o teu amor” – sejam horríveis à luz de uma mínima sensibilidade: ninguém aprendia, com eles, mais preconceito do que talvez já tivesse. Todo mundo só estava ali pela folia. Só pela folia. Ponto.

Hoje, “O Arlequim está chorando” (mas não é, só) “pelo amor da Colombina”: é também pela censura que se quer impor à espontaneidade que é a alma do carnaval. A alegada internalização do preconceito, usada como pretexto pra censurar marchinhas que todos cantam – e (não) lamento dizer: vão continuar cantando! – não terá força como argumento enquanto o próprio idioma usar expressões como “a coisa tá preta” para designar algo ruim. Mas pra quem já desejou censurar Monteiro Lobato e reescrever Machado de Assis… o que é uma marchinha de carnaval, não? É tão pouco que nem bastou: querem censurar as fantasias também. Eis aí o que li um dia desses em um site que se pretende (???) sério: “Nesse Carnaval, que tal abrir mão de turbantes, bindis, quimonos, cocares e hijabs e usar um pouco mais a imaginação? Nenhuma cultura é exótica ou engraçada para virar fantasia nas mãos de quem não entende suas lutas e tradições. Para todo mundo um lindo Carnaval, cheio de alegria e sem apropriação cultural!!!”. Só faltou explicar porque não conseguem enxergar as fantasias como demonstração de admiração ou homenagem.

Falta do que fazer no bloco do sanatório geral. Nas palavras de Cora Ronai: “Como essa gente fazia pra passar vergonha antes da internet?” Não sei a resposta, Cora. Vai ver é coisa recente… Talvez queiram mesmo é deixar de lado a parte do riso e da alegria para ficar só com a dos “Mais de mil palhaços”. Se é que são tantos assim.

 

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De bandeja, os bastidores de 10 prefeitos de Campos

 

Seu Zé e Rafael Diniz (Foto: Rafael Peixoto)

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Nos últimos 30 anos, 10 foram os prefeitos que serviram a Campos. Ou foram eleitos para fazê-lo. Zezé Barbosa (1982/88), Anthony Garotinho (1988/92 e 1996/98), Sérgio Mendes (1992/96), Arnaldo Vianna (1998/2000 e 2000/04), Carlos Alberto Campista (quatro primeiros meses de 2005), Alexandre Mocaiber (2005/08), Roberto Henriques (março a abril de 2008), Rosinha Garotinho (2008/16), Nelson Nahim (julho a dezembro de 2010) e Rafael Diniz (2017). E uma mesma pessoa serviu a todos: José da Conceição Pereira Viana, o Seu Zé, hoje com 75 anos e ainda em plena atividade, famoso pelo café cremoso que prepara e serve sempre quente, com açúcar, adoçante ou amargo, à escolha dos ocupantes e visitantes da Prefeitura de Campos, ao longo de mais de três décadas.

Seu Zé entrou na Prefeitura em 1986. Na época, era garçom do hoje extinto Café Ouvidor, na rua Marechal Floriano. O então prefeito Zezé Barbosa entrou no estabelecimento, acompanhado do deputado federal Alair Ferreira e o fiscal de renda J. Costa:

— Quando fui anotar o pedido, Zezé falou que precisava almoçar em 10 minutos. E perguntou se eu era capaz de providenciar. Fui à cozinha e trouxe voando um frango desossado grelhado com creme de espinafre. Foi tão rápido que o próprio Zezé se espantou: “Já está pronto?”. Na saída, fiquei com vergonha de fazer o pedido. Mas ele voltou, eu tomei coragem e perguntei: “O senhor não arruma um emprego pra mim na Prefeitura?”. Ele me disse: “O que o senhor quer?”. Eu respondi: “O que o senhor estiver para mim, está bom”.

No dia seguinte, uma quarta-feira, Seu Zé foi ao antigo Matadouro, onde Zezé costumava despachar. Mas lá foi informado que o chefe do Executivo não estava atendendo. Ao voltar na quinta, conseguiu falar com o prefeito, que o mandou procurar José Almeida, chefe de gabinete, na sexta na Villa Maria. Feito isso, já na segunda começou a trabalhar na Prefeitura como garçom, função na qual impressionara Zezé pela presteza e agilidade.

Do que lhe abriu as portas ao serviço público, Seu Zé revela o segredo pelo qual se manteve tanto tempo, numa função tão íntima dos bastidores do poder goitacá, passando por 10 prefeitos — 11, se contado Geraldo Pudim, que chegou a ser prefeito por apenas um dia, em 2004: “A gente tem que pegar o jeito do prefeito. Isso costuma levar uma semana”

Mas o tempo pode ser menor. Neto de Zezé, a quem Seu Zé já impressionara pela rapidez com que tirou um almoço, Rafael foi surpreendido já em seu segundo dia de mandato, quando além do café e água habituais, o veterano garçom lhe trouxe cajá cortado em fatias, fruta da predileção do novo prefeito:

— Logo no primeiro dia eu conversei com assessores mais próximos de Rafael, que me disseram que ele era louco por cajá. Aí arrumei as frutas, descasquei, cortei e temperei com um pouco de sal. Tira a acidez e o cajá fica docinho. Ele tomou um susto, mas adorou.

Nestas mais de três décadas servindo diariamente os líderes políticos mais importantes da cidade, além de se adaptar aos seus gostos, Seu Zé também registrou diferenças de estilo:

— Zezé tinha muita personalidade. O que ele falava com os secretários tinha que ser ali, na hora. Não tinha essa história de deixar para depois, não. Os secretários tinham muito respeito por ele. Nas audiências com gente de fora, sempre mandava servir caldo de cana com biscoitos de champanhe. Foi um ótimo prefeito!

Se Zezé costumava dizer que prefeito em fim de mandato, quando pede um café, só vem meia hora depois e frio, Seu Zé garante que é só parte do folclore do líder político que, em seu auge, chegou a ser chamado pela imprensa carioca de “Rei no Norte”. De quem o substituiu, o garçom também revela os gostos e estilo:

— Garotinho tinha pressão alta. Então eu sempre fazia para ele suco de carambola. Gostava do café bem quente e forte. E adorava comer quibe cru. Quando ele almoçava e jantava na Prefeitura, eu ia de carro até o Kantão, trazia e servia comida libanesa. Também era firme com os secretários. Dizia: “Eu mandei você fazer isso. Por que você não fez?”

A mesma personalidade, segundo Seu Zé, não se repetiria no prefeito seguinte:

— Com Sérgio Mendes o governo saiu da Villa Maria e foi para a antiga Casa Rosada (na av. Alberto Torres, diante ao Cartório do 1º Ofício). Só tomava água e café. Não queria comer nada, não ligava para nada. Pouco conversava com ele. Como prefeito, não tinha a mesma força dos outros.

Embora considere entre os melhores prefeitos que Campos teve, era pelo jeito brincalhão, e o apetite, que Arnaldo Vianna se destacava dos demais:

— Era o mais guloso. O que levasse, ele comia. Quibe, pão, salgadinho, tudo. Também era firme com os secretários. Aí, não brincava. Mas teve uma vez que ele estava reunido com os vereadores. Eu cheguei com a bandeja e ele disse: “Bota essa bandeja aí na mesa e fale aqui no celular, que tem alguém procurando você”. Eu não entendi nada, mas atendi. Do outro lado da linha, um homem começou a me xingar, perguntando o que eu estava querendo com a mulher dele. Fiquei todo sem jeito, enquanto Arnaldo e os vereadores morriam de rir.

Apesar dos pouco mais de quatro meses no poder, Seu Zé é de opinião que, se conseguisse completar o mandato, Carlos Alberto Campista iria acertar:

— Era firme também, sério, não brincava. Chegava cedinho. Eu levava água e café. E às vezes ele dizia: “Senta aqui, Seu Zé, vamos conversar”. E falava sobre a Prefeitura, como estava botando as coisas no lugar. Dizia: “Estou começando agora, mas depois de alguns meses, vai tudo estar como a gente quer”.  Acho que ele iria fazer um bom governo. Tinha atitude.

Segundo Seu Zé, atitude foi justamente o que faltou ao prefeito seguinte:

— Mocaiber só bebia café e água. Não queria comer nada. Era educado, mas de pouco conversar. Não era tão firme como os outros no trato com os secretários. Ele era mais devagar. Acho que isso atrapalhou muito o governo dele. A gente achava que os secretários tinham mais força que ele.

Prefeito por pouco mais de um mês entre março e abril de 2008, Roberto Henriques se marcou por uma personalidade oposta:

— Tomava muito café. Chegava e logo pedia: “Seu Zé, meu cafezinho e minha água”. Não ligava para comer. Foi o mais rigoroso de todos com os secretários, os vereadores, com todo mundo. Decidia fazer uma coisa e fazia mesmo. Com ele não tinha tempo ruim. Todo mundo respeitava ele.

Sobre a sucessora de Mocaiber, o veterano garçom desmente as versões de que Rosinha fosse uma prefeita ausente:

— Todo dia ela estava lá. Tinha dia que ela chegava mais alegre. Em outros, chegava aborrecida, triste. Mas assim mesmo tratava a todos bem. Era muito educada com os secretários. Garotinho era mais duro. Gostava do cafezinho bem quente e tomava um copo d’água com meio limão espremido, duas ou três vezes ao dia. Também gostava de salada de fruta, que eu mesmo fazia. Adorava cantar. Às vezes se reunia na Prefeitura com as mulheres da igreja. Aí cantava “Noites Traiçoeiras” e outras músicas. Cantava direitinho.

Segundo Seu Zé, quando estava de bom humor, Rosinha também era brincalhona:

— Num final de ano, teve um amigo oculto do auditório. Aí, a menina que me tirou começou falando que o amigo oculto dela gostava de chamar as mulheres de “coisa linda”. Todo mundo sabia que era eu. Aí, Rosinha disse: “Seu Zé, estou muito aborrecida com o senhor. Chama todas as meninas de ‘coisa linda’, mas a mim, não”. Aí eu cheguei para ela, segurei sua mão e disse: “Coisa linda!”. Todo mundo riu.

Embora considere que Rosinha foi uma boa prefeita, Seu Zé diz não entender o montante das dívidas deixadas por seu governo na Prefeitura:

— Tem esse problema de dívida, aí. Essa coisa “braba”, esse negócio de dívida é que não dá para entender. Tiveram tanto dinheiro!

Prefeito durante seis meses em 2010, Nelson Nahim foi outro prefeito servido por Seu Zé:

— Gostava de cafezinho com açúcar e água. À tarde servia torrada, ou uma banana caturra assada no forno, com canela por cima. Era mais calmo que o irmão. Foi um prefeito muito bom. Era muito educado, muito paciente, tinha muita calma para falar com as pessoas. Quando tinha muita gente agitada, eu fazia um suco de maracujá e saía todo mundo calminho.

Muitos anos antes de Rafael assumir a Prefeitura no início do ano, já era um velho conhecido de Seu Zé:

— Quando era criança, ele ficava no gabinete do avô, com a mãe (Beatriz), fazendo bagunça. Corria pra lá e pra cá. E sempre rindo. E isso é uma coisa que ele mantém até hoje: o mesmo riso. É um prefeito amigo de todo mundo. Trata todos da mesma maneira, abraçando e cumprimentando todos por onde vai. É muito carinhoso e simples. Vai na cozinha ver se tem um café, pegar um copo d’água e brinca com a gente, sempre com uma palavra de carinho. Ele puxou o avô: gosta de tudo certinho. E também é firme quando tem que ser. É muito católico, vai à missa todo domingo, no Convento, que eu também frequento. Sem Deus a gente não vive.

Sobre os desafios da criança que cresceu para governar a cidade, Seu Zé serve convicção, na fervura do seu famoso café:

— Ele vai dar conta. Deus vai dar sabedoria para ele governar Campos e resolver o problema das dívidas. Pior, não pode ficar, tem que melhorar. E ele está fazendo tudo para isso.

 

Publicado hoje (26) na Folha da Manhã

 

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Fabio Bottrel — Dona d’um coração surrealista

 

Sugestão para escutar enquanto lê: ArvoPärt–Silentium

 

https://www.youtube.com/watch?v=FK-KC2aQpcI

 

 

Ao me sentar para escrever o texto de hoje vi, logo ao meu lado, um dos contos que havia escrito para o blog bem no início da minha colaboração, em maio de 2016. Embevecido pelas obras surrealistas que acompanhava à época – movimento pelo qual sempre tive predileção – e pelo prazer de ter conhecido um paraíso chamado Imbé, d’onde desfrutei de suas cachoeiras. Do meu peito saíram essas palavras que almejaram ser a poesia para alguém que não sabia ler. Aos que começaram a acompanhar os meus textos após esse período, creio que vale conhecer, para os que acompanham desde o início, vale rever:

 

 

Dona d’um Coração Surrealista

 

Está escuro, aqui, no alto do Imbé.

Lá embaixo um pedaço do rio é iluminado pela lua.

Com o peito nu abro os braços para a imensa escuridão…

Consegue sentir?

O sussurro dos ventos nos meus ouvidos, os poros se arrepiarem de dor, o peito se abrir em flor?

Com a pele dilacerada veja meu pulmão deixar o meu corpo, bem à minha frente, iluminado pela lua, cai n’água de forma brusca.

Não consigo respirar, corro para a beira do abismo enquanto a poeira se levanta com o batuque dos meus pés, pulo, mergulho, soturno, para dentro de mim, perfuro a gota do oceano diluída na multidão de uma pessoa só.

¡Nado, nado, nado a braços largos, meu pulmão iluminado pela lua do fundo do oceano se afasta cada vez mais de mim, se não conseguir alcançá-lo em pouco tempo morrerei asfixiado. Chego até a areia do fundo e quase consigo pegá-lo, mas logo se enfiou entre os grãos se batendo como meu coração. Cavei até sair em um campo com gramas verdes e úmidas, ao longe, meu pulmão voa, corro, mas minhas pernas já estão cansadas pela falta de oxigênio.

Me apoio ofegante numa grande árvore colorida, lá em cima ele está parado, brilhando com a luz do sol, se enchendo e esvaziando. Subo a árvore e ao sair do amontoado denso de folhas percebo que o verde se transformou em branco das nuvens, além do céu meu pulmão voa enquanto pulo de nuvem em nuvem tentando alcançá-lo, mas ao pisar forte em uma grande e carregada nuvem de chuva, afundo, fundo, caio sem paraquedas com a cidade inteira abaixo de mim, meus cabelos arrepiados, minhas bochechas querendo deixar o corpo de tanto vento, vejo meu pulmão ao lado, mas o vento me impede de chegar até ele.

Corto o ar com braçadas fortes, como se estivesse nadando, mas já não há tempo, estou caindo e o chão é próximo. Bato tão forte na terra que paro no meio da Terra, em meio as lavas procuro meu pulmão, mas não consigo enxergar nada, dentro de um vulcão em erupção sou expelido para fora como um jato de lava e ao me pôr em pé na superfície do planeta, vejo que já não caibo mais nele, se tornou do tamanho de uma bola de futebol, me equilibrando com apenas um pé, olho para cima e vejo meu pulmão já perto de plutão, pego impulso e pulo em sua direção. Já se passou um minuto e meio e estou roxo, talvez não aguente chegar até o final do sistema solar, até o final do sistema solar… Pedras, meteoros me impedem de chegar, me seguro em Júpiter, tentando alcançar, meu pulmão, o final do sistema solar… mas já não há mais tempo, não consigo mais segurar, continuo tentando alcançar…

Tentando alcançar

Tentandoalcan

Tentan

Tent

Te

 

 

A

Até

Até mim

Até mim ele

Até mim ele veio

Até mim ele veio, entrou em meu peito e consegui novamente respirar.

…::…                …::…                …::…                …::…                …::…                …::…

Abismo alto, aqui, escuro está

Lua iluminando o rio d’um pedaço lá embaixo.

Escuridão imensa, braços abro nu peito

Sentir, consegue?

Flor abrir-se em meu peito, de dor arrepiarem-se os poros, ouvidos meus nos ventos dos sussurros?

Brusca forma no rio cai…

Uma pessoa só de multidão, diluída na gota de um oceano, perfura soturna, mergulha, pula pés de batuque enquanto levanta a poeira na beira do abismo corre respirar, mas falta oxigênio pelas cansadas pernas, corre, voa pulmão longe nas úmidas e verdes gramas em um campo meu coração batendo como os grãos no fundo da areiaasfixiado se não conseguir alcançá-lo em pouco tempo, de mim afasta-se cada vez mais oceano, fundo de lua iluminando meu pulmão de largos braços dona, dona, dona!

 

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Vestiu sua blusa amarela e saiu por aí

 

Após dia e noite longos de trabalho no jornal, cheguei neste início de madrugada a Atafona, minha Pasárgada, mesmo neste agito de folia. Daqui até o próximo dia 6 de março, não estarei postando nada no blog, à exceção dos textos dos seus colaboradores e da minha produção dominical como jornalista na Folha.

Depois do reinado de Momo, a vida real recomeça — queiramos ou não. Até lá, deixo você, leitor, com os “versos alegres” do bardo russo Vladímir Maiakóvski (1893/1930), “agudos e necessários como um estilete pros dentes”, que sempre me ocorrem quando penso em poesia e carnaval.

Inté!

 

 

Na foto em preto e branco, o jovem Maiakóvski e sua blusa amarela

 

 

A blusa amarela

 

Do veludo de minha voz

Umas calças pretas mandarei fazer.

Farei uma blusa amarela

De três metros de entardecer.

E numa Nevsky mundial com passo pachola

Todo dia irei flanar qual D. Juan frajola.

 

Deixai a Terra gritar amolengada de sono:

“Vais violar as primaveras verdejantes!”

Rio-me, petulante, e desafio o Sol!

“Gosto de me pavonear pelo asfalto brilhante!”

 

Talvez porque o céu está tão celestial

E a Terra engalanada tornou-se minha amante

Que lhes ofereço versos alegres como um carnaval

Agudos e necessários como um estilete pros dentes.

 

Mulheres que amais minha carcaça gigante

E tu, que fraternalmente me olhas, donzela.

Atirai vossos sorrisos ao poeta

Que, como flores, eu os coserei

À minha blusa amarela.

 

(1913)

 

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Luciane Silva — Choram Marias e Clarices no solo do Brasil

 

 

 

Às três da manhã de uma madrugada insone (como foram tantas no ano de 2016), recebi por telefone uma instigante pergunta de um amigo jornalista. Ele estava finalizando uma matéria para uma revista e me questionava sobre uma possível depressão pós-golpe. Sinto que lhe devo uma resposta. Naquela madrugada usei os argumentos conhecidos. Sobre a crise vivida pelo funcionalismo no Rio de Janeiro, sobre a crise da esquerda, sobre as pequenas depressões cotidianas. Ele não parecia satisfeito, relatando outras repostas já recebidas. Eu estava contra a parede.  Para respondê-lo, recuperei as memórias de luta do Muspe (Movimento Unificado dos Servidores Públicos Estaduais ) nas escadarias da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, recuperei a angústia diária vivida nos meses anteriores ao impeachment de Dilma Rousseff, eleita com mais de 54 milhões de votos em 2014. Mas estranhamente, de forma não intencional, a resposta tardia só me pareceu satisfatória depois de viver três experiências indiretamente conectadas. E disto trato neste texto-resposta.

Nos mês de janeiro, ainda em Porto Alegre (e exatamente por conta da suspensão da rotina cotidiana) assisti aos filmes Tatuagem (2013, Hilton Lacerda), Neruda (2016, Pablo Larrain) e finalmente, Elis (2016, Hugo Prata). Não houve nenhum tipo de racionalidade anterior na escolha. A relação entre os filmes só foi estabelecida, na verdade, ao final do terceiro, quando senti a resposta como um soco no estômago. Os três filmes tratam da relação entre arte e política em tempos de ditadura. Tratam do teatro, da poesia e, no caso de Elis, da música. Algo que devo mencionar como vivi o ano de 2016: uma paralisia da escrita causada pela sensação de total inutilidade da crítica diante dos golpes orquestrados pela estrutura política e pelo aumento da repressão à população. E sobretudo, pelo clima de ódio cotidiano manifestado em atos de violência (virtuais e físicos) contra mulheres, gays, negros, indígenas e presos (entre outros grupos, visados como alvo de ataques dentro de uma compreensão míope sobre o significado dos direitos humanos no Brasil).

Assisti a estas três narrativas sobre a relação entre o artista como figura política fundamental no agenciamento das emoções de um povo e a censura. Censura aos espetáculos, censura à poesia, censura às letras de música brasileira. Perseguição, cassação, prisão, tortura e morte. Ao relembrar o primeiro enterro de Elis por Henfil no Pasquim, durante a ditadura militar e a gravação de “O bêbado e o equilibrista”, entendi o que havia me acontecido:  minha tristeza (esta sobre a qual ele me questionara) se manifestara na incapacidade da escrita. Da escrita livre, que por ventura sempre guarda alguma espécie de aposta utópica. A censura, em sua forma mais fantasmagórica havia me abraçado. Os primeiros versos de “Canto General”, jogaram-me nas centenas de celas espalhadas pela América Latina naqueles anos. Tenho me perguntado sobre dar resposta ao momento político, às contas acertadas com a história. E tenho aprendido a administrar o horror. Das chacinas e estupros coletivos. Percebi que a perturbação profunda causada pelas três narrativas era a resposta ao (des)ânimo vivido. Durante o ano, amigos em diferentes momentos se afastaram do convívio público, cansados, abatidos, incrédulos. A eles dedico este texto como nos versos de “Sinal Fechado”, vivíamos encontros cheios de sustos, adiando a vida para um próximo encontro. Que nunca viria, ou viria como um simulacro, um estar pela metade, um estar censurado. Era isto. Parados em um sinal de uma avenida em Goiânia. Assustados com a nomeação dos novos ministros, com o cinismo dispensado a cada noticiário oficial. Mas não há censura. Não temos “Canto General”, nem a volta do irmão do Henfil. São dias de um limbo de novo tipo. Sem movimento operário, sem utopia latinoamericana… quem poderia descrever esta censura que não produz resistência?

Esta é minha resposta. Como arrancar do cotidiano a utopia da qual nos fala Galeano? Como ultrapassar este sinal fechado sem perder a voz, a vida, sem cair sob as botinas que massacram professores nas ruas do Paraná? Como não tombar frente ao exército da farsa, empossado, ativo e cheio de vontade de morte?

 

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Guilherme Carvalhal — Através da Câmera de Vigilância

 

 

 

Todos os dias Gisele olhava para aquele homem através da câmera de vigilância. Ele chegava sempre à 8h30, de roupa social, tomava um café e comia um pão assistindo o noticiário matutino. Cada gesto expressava delicadeza, segurando a xícara com um leve aperto dos dedos ou cumprimentando gentilmente o balconista. Na sua mente, vislumbrava um antigo nobre e seus trejeitos.

À medida em que o observava, Gisele sentia crescer algo dentro de si. Parecia um amor platônico, uma vontade de abraçá-lo, de beijá-lo, de estar ao seu lado. Esse sentimento a levava a esquecer do mundo por esses minutos em que ele entrava na padaria, traçando sonhos diversos, estipulando como seria seu dia, qual sua profissão, desejando-lhe um bom trabalho fosse em um tribunal, em um escritório, em uma escola.

Já vestia seu uniforme e saía de casa com sua fisionomia na mente, como um ritual que precisava repetir cotidianamente. Chegou a cogitar em abordá-lo. Aproximar-se sorrateira, fingir esbarrar nele, arrumar um motivo qualquer para puxar assunto. Quem sabe ele se interessaria, perguntaria seu nome, pediria seu número de telefone. E disso um encontro, quem sabe? E assim, de seu posto de vigilância, ela sonhava, apenas sonhava.

Marcava com tamanho afinco sua presença que notou quando ele não apareceu. Uma gripe, imaginou, coisa da mudança abrupta do clima em março. Porém, após quatro dias seguintes sem ele dar as caras, resolveu perguntar para a caixa sobre aquele fulano de tal, negro, bastante sorridente, bem arrumado, que tomava café da manhã:

— Não soube? Foi atropelado e morreu na segunda-feira.

Gisele se desesperou. Acessou um blog de notícias locais e confirmou: ele atravessou a rua distraído e um carro acima do limite de velocidade o atingiu em cheio. Os socorristas o levaram ao hospital, mas chegou morto. Chamava-se Pedro, e Gisele lamentou descobrir com atraso seu nome.

Consultou a página das listas amarelas e descobriu um número residencial. Telefonou e uma mulher atendeu: seria mãe, filha, esposa? Inventou que o conhecia de tempos de colégio, soube do falecimento e gostaria de visitar o jazigo. Informaram-na do cemitério e orientaram sobre onde localizar a lápide.

No sábado logo cedo compareceu, ramalhete em mãos. Diante do túmulo, vislumbrou o nome forjado em bronze e o retrato em porcelana. Essa imagem lembrou-a dos seus movimentos vistos com carinho através da câmera de vigilância. Aguçou sua curiosidade sobre seu tom de voz e se o toque de seus dedos a infundiria com calma ou da deixaria agitada. Comprovadamente morto e enterrado, disso se certificava, seu amor eternamente impossível,e justamente por isso ela respirou aliviada. Não, o pânico do afastamento irreversível não a assolava, pelo contrário: perpetuar uma paixão que não se poderia consumir lhe proporcionou a maior satisfação de sua vida.

 

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Carol Poesia — Quarta-feira de cinzas

 

(Reprodução)

 

 

Quarta-feira de cinzas

 

Luzes ainda coloridas.

Muita sujeira na rua.

A cidade dorme pesado.

O mar, de ressaca,

abre bocas de sono.

Não se vê nada.

Nem formiga.

Nem saúva.

Nem namorado.

Nem marido.

 

Só saudade

colorindo o fim de sexo ordinário.

 

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Por que cada áulico a soldo do garotismo vale por 10 opositores?

 

 

 

Enquanto esperavam Anthony Garotinho (PR) vir hoje (20) na condição de réu à audiência da “Chequinho” (aqui), na  100ª Zona Eleitoral (ZE) do município, e atrair mais jornalistas do que militantes ao Fórum de Campos, os áulicos a soldo do ex-governador tentaram criar fatos. E na incapacidade de fazê-lo por conta própria, repercutiram entrevista feita por mim e publicada na Folha e (aqui) neste blog, com os líderes do governo e do PR na Câmara Municipal — respectivamente Fred Machado (PPS) e Thiago Ferrugem.

Para os áulicos a soldo do garotismo, Thiago teria dado uma “surra” em Fred. Toda opinião merece, a priori, ser respeitada, mesmo a de quem é conhecido e reconhecido pela etiqueta de preço da sua. Mas encarar uma entrevista como “embate” é um equívoco infantil e evitável — ou deveria ser, para quem milita em jornalismo. Sobretudo quando os dois entrevistados, como foi o caso, não tiveram nenhum contato durante a entrevista, nem conhecimento prévio das respostas dadas pelo outro às mesmas perguntas.

À maioria que votou em Rafael Diniz (PPS) a prefeito, a tendência foi gostar mais das palavras de Fred. Já à minoria que votou no manutenção do garotismo, mesmo àqueles que o combateram no passado e mudaram a soldo presente, as palavras de Ferrugem devem ter soado mais atraentes. E, seja por simpatia gratuita ou em espécie, é natural que assim seja.

A quem tem um pouco mais de isenção, o que a entrevista revelou foi a aparente inversão dos atores em interpretações semelhantes de oposição e situação, após as urnas de outubro rearrumarem o palco da política goitacá. De fato, a impressão foi melhor definida numa resposta do próprio Ferrugem, ao dizer de outros o que poderia ser aplicado à fala de todos: “mudaram apenas os atores e mantiveram o roteiro”.

Assim, se os áulicos do garotismo pretendiam usar o trabalho alheio para justificar seu soldo, na defesa de quem agora tem que apresentá-la na Justiça, fizeram o que se pode denominar de “baldeação ideológica inadvertida”. O efeito foi colateral.

Em política, mídia e no simples lamber de botas, existem determinados “aliados” que valem por 10 opositores. Os áulicos a soldo do garotismo, não é de hoje, certamente são alguns deles.

 

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Fernando Leite — Filhos da Pátria

 

(Reprodução)

 

 

Corre uma provocação bem humorada, segundo a qual, a Associação Nacional das Putas, com sede em Brasília, expediu um comunicado indignado, esclarecendo de forma peremptória, que os políticos que andam fazendo lambança por aí, não são seus filhos, embora assim sejam chamados. As incansáveis operadoras do sexo não aguentam mais serem acusadas de terem parido figuras tão execráveis e acrescentam: “quem pariu Mateus que o balance”.

Do humor ao horror. A sociedade brasileira revela-se perplexa com tantos escândalos protagonizados pelas elites dirigentes. Somente a delação dos executivos da Odebrecht, conhecida como “delação do fim do mundo”, arrasta mais de 200 medalhões para o banco dos réus, isso sem contabilizar as infindáveis operações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

Mas engana-se quem pensa que isto é novo. E ilude-se quem atribui comportamento social tão delinquente aos que vivem abaixo da linha do Equador, nas caricatas republiquetas de bananas, sob argumento da influência do clima. A corrupção é um traço da personalidade humana e viceja como ervas daninhas quando encontra ambientes favoráveis. O Poder é um campo estercado.

É cultural. E por mais constrangedor e incômodo que seja admitir, “eles somos nós”.

Por isso vamos ficar com o recorte do Brasil contemporâneo, visto que logo ali no século 19, o jurista e intelectual, Ruy Barbosa, já reclamava: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

De lá para cá, avançamos, desgraçadamente, para o refinamento da pilhagem pública, da rapinagem oficial. O tesouro nacional passou a bancar fortunas pessoais inimagináveis, tão grandes que não cabem no sistema financeiro nacional. São repartidas em paraísos fiscais. A bolsa da Viúva serviu de caixa para financiamento criminoso de campanhas político-partidárias. Todos sabem disso e uma observação mais acurada irá revelar que há os que condenam a tunga, mas há, e não são poucos, os que a “justificam” e queriam estar no lugar dos que levaram o botim.

O Brasil é cenário do maior caso de corrupção oficial do Planeta. É campeão! Isso não é fortuito. Há ambiente para o crime.

A sociedade, diante de realidade tão áspera, faz apressados julgamentos superficiais. A condenação moral dos envolvidos é rala porque, não há como negar: os políticos, todos, inclusive a ínfima parcela que se comporta dignamente, são gestados pela sociedade, que se escandaliza, nos telejornais da noite, quando vê seus filhos bastardos na caçapa do camburão, mas “leva sua vida em agonia e maltrata, por dinheiro”, o espaço coletivo, na vã ilusão que bandidos são só os que vemos na tela da TV.

Repito, é cultural. As gerações se sucedem e o múnus público se deteriora velozmente. Ninguém espere nada destes que estão aí. Gesto de grandeza e exaustão políticas como a de Getúlio, que pôs fim a própria vida por não suportar a desonra que lhe imputavam, é impensável para os protagonistas da caudalosa roubalheira. Guimarães Rosa dizia que só havia duas maneiras de se ficar rico: ou no garimpo ou no jogo. Agora, há a política que pari milionários, Rosa.

Os Poderes, sob os quais, nos curvamos em obrigações, são espelho que refletem nosso rosto, por mais que isso nos incomode. Melhor metáfora para a relação da sociedade com seus políticos é a obra clássica de Oscar Wilde, “O retrato de Dorian Gray”. Enquanto a personagem, seduzida pela perfídia, mantém-se íntegra fisicamente, nos salões elegantes do grand monde, seu retrato na parede exibe a corrosão ácida da corrupção. Se é que isso é conforto, pelo menos, ninguém escapa, impunemente.

A piada da Associação das putas precisa mesmo ser corrigida: eles não são filhos delas, são filhos da Pátria.

 

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Crítica de cinema — Brecht estava errado

 

“Até o último homem” — “Infeliz a nação que precisa de heróis”. A conhecida sentença do alemão Bertolt Brecht (1898/1956), entre os mais influentes dramaturgos do séc. XX, é posta à prova pela história real do soldado estadunidense Desmond T. Doss (1919/2006), que serviu como paramédico na Batalha de Okinawa, entre abril e junho de 1945, já no estertores da II Guerra Mundial — a Alemanha Nazista se renderia em maio de 45, enquanto o Japão o faria em agosto do mesmo ano, após as bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki.

Se o heroísmo em qualquer conflito bélico costuma ser atribuído aos maiores guerreiros, o que surpreende na história de Desmond Doss é que ele evidenciou o seu como pacifista, mesmo no campo de batalha mais sangrento da Guerra do Pacífico, iniciada em 1937 — dois anos antes da eclosão da II Guerra na Europa. E novamente em contraponto a Brecht, que era marxista e ateu, a religião foi o motivo pelo qual Doss se recusou a pegar em armas para se tornar protagonista num teatro de guerra dantesco.

Adventista do Sétimo Dia, ele tinha como mandamento mais caro o “Não matarás” (Êxodo 20:13). E antes de enfrentar os japoneses, famosos por seu destemor diante da morte e — por não signatários da Convenção de Genebra — pela crueldade para com os inimigos, o soldado teve o batismo de fogo das suas convicções pessoais contra o próprio Exército dos EUA, no qual se alistou como voluntário.

Levado às telas sob a direção de Mel Gibson, “Até o último homem” divide em três partes a história de Doss, numa interpretação candidata ao Oscar de Andrew Garfield, ator mais conhecido pelas duas sequências de “O espetacular Homem-Aranha” (2012 e 2014, de Marc Weeb). Após a abertura do filme no inferno de Okinawa, a primeira parte das suas 2h19 de duração se atém à formação do futuro herói de guerra numa cidadezinha no interior da Virgínia — primeira região dos EUA a ser colonizada pelos britânicos, no início do séc. XVII, e batizada em homenagem à rainha Elizabeth I (1533/1603), chamada de “Rainha Virgem” por nunca ter se casado.

Desmond é marcado pelo alcoolismo do pai, Tom Doss, em original composição de Hugo Weaving, mais conhecido como o Sr. Smith da trilogia “Matrix” (1999 e 2003), das transgênero irmãs Washowski. Veterano da I Guerra Mundial (1914/18), ele se culpa por ter sobrevivido aos ex-companheiros de juventude que costuma visitar embriagado no cemitério da cidade. Para se exorcizar dos fantasmas do pai, o filho busca abrigo na devoção religiosa da mãe (Rachel Griffiths), abusada física e psicologicamente pelo marido.

Introvertido, Desmond descobre o amor pela mulher e ao próximo ao socorrer um acidentado, que leva ao hospital onde conhece a enfermeira Dorothy Schutter (a bela Tereza Palmer). Mas no meio da relação e do aprendizado autodidata de medicina, a partir dos livros emprestados pela namorada, os japoneses atacam Pearl Habor, base naval dos EUA no Havaí, em dezembro de 1941, lançando o país na II Guerra.

Para cumprir o que entende ser seu dever, Doss é voluntário ao treinamento militar, com a mesma convicção de quem pretende cumpri-lo sem tocar em nenhuma arma. No conflito inevitável (e violento) entre os dogmas religiosos e militares, se dá a segunda parte do filme, que alguns críticos têm comparado com a obra prima “Nascido para matar” (1987), do mestre Stanley Kubrick (1928/99) — muito embora também encontre analogia com outros excelentes títulos menos conhecidos, como “Metido em encrencas” (1988), de Mike Nichols (1931/2014), e “Tigerland” (2000), de Joel Schumacher.

Mas é na terceira parte do filme, em meio à Batalha de Okinawa, na tentativa de tomada da colina de Hacksaw (a “Hacksaw Ridge” do título original), que não só o protagonista, como seu diretor, mostram a que vieram. Correspondentes à realidade, as cenas de violência explícita não ficam a dever à célebre sequência inicial de “O resgate do soldado Ryan” (1998), de Steven Spielberg, retratando o encarniçado desembarque do Dia D na praia francesa de Omaha. Tampouco às cenas mais fortes de “Além da linha vermelha” (também de 98), de Terrence Malick, sobre a Batalha de Guadalcanal, outra intestina peleja da Guerra do Pacífico, naquele que considero o maior filme de guerra — e sobre a relação do homem com Deus — já feito.

Astro dos filmes de ação entre os anos 70 e 90 do século passado, como nas franquias “Mad Max” (1979, 81 e 85, de George Miller) e “Máquina mortífera” (87, 89, 93 e 98, de Richard Donner), Mel Gibson teve uma estreia despretensiosa na direção, com “O homem sem rosto” (93), antes de revelar o “nu frontal” da violência física no cinema, em cenas de batalha medieval, como ninguém antes ousara fazer. Foi em “Coração valente” (95), também estrelado por ele, com o qual arrebatou os Oscar de melhor filme e diretor.

A partir do polêmico “Paixão de Cristo” (2004), seu trabalho seguinte atrás das câmeras, Gibson uniu a mesma violência gráfica à devoção de católico fervoroso. E sofreu acusações de antissemitismo, pelo destaque do filme à escolha dos judeus por Barrabás ao perdão romano, sentimento que o diretor depois externaria em ofensas verbais contra policiais, em 2006, ao ser preso por dirigir embriagado. Pecado mortal no mundo do politicamente correto, sobretudo numa aldeia judaica como Hollywood.

Depois de outro mergulho na violência ao retratar o ocaso da sofisticada — e sanguinolenta — Civilização Maia, na direção do interessante “Apocalypto” (2006), a boa acolhida de público e crítica de “Até o último homem”, além das suas seis indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e diretor, têm sido consideradas uma espécie de redenção de Mel Gibson no mundo do cinema. Se tem seus momentos piegas, ninguém pode negar que o filme é feito com grande competência técnica, em sua busca por um caráter documental reforçado nos depoimentos dos personagens reais, incluindo o próprio Doss, antes dos créditos finais.

Independente da questão religiosa, a história real do primeiro objetor de consciência — quem se nega a matar por princípio moral — que recebeu a Medalha de Honra do Congresso dos EUA, maior condecoração militar daquele país belicoso, por ter socorrido e descido por uma montanha 75 feridos, incluindo japoneses, dolosamente sozinho e desarmado atrás das linhas inimigas, é realmente impressionante. E no equilíbrio aparentemente contraditório do personagem, o diretor parece também ter encontrado o seu entre violência e fé.

Se fosse ficção, ninguém acreditaria. Mas não foi. Da arte à vida que, vez em quando, a supera, Brecht estava errado. Há heróis que transcendem o palco das nações.

 

 

Confira o trailer do filme:

 

https://youtu.be/R4cmOy0V8UA

 

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