Entre eleições dos EUA e Campos, Hamilton Garcia nesta 2ª no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na semana seguinte à eleição presidencial dos EUA e anterior ao domingo de eleições municipais em Campos e no Brasil, quem abre o Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf. Ele falará sobre a vitória do democrata Joe Biden e suas consequências ao Brasil de Jair Bolsonaro (sem partido), que tinha o presidente derrotado Donald Trump como principal referência política. Analisará também a crise financeira de Campos e dará suas perspectivas sobre o pleito municipal de domingo, 15 de novembro.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Confirmado oficialmente o que a Folha adiantou: Joe Biden é o presidente dos EUA

 

(Infográfico: Associated Press)

 

A Associated Press acabou de oficializar o que o blog havia adiantado (confira aqui) desde o início da manhã de ontem: Joe Biden foi eleito como 46º presidente dos EUA. Ele venceu o atual presidente Donald Trump tanto no voto popular, quanto no que vale: o do colégio eleitoral dos estados. O que decretou a oficialização foi o estado da Pensilvânia, onde Biden nasceu e bateu Trump por 49,7% a 49,2% do voto popular. Com isso o democrata levou os 20 delegados do estado, somando 284 — 14 a mais que os 270 necessários para definir o ocupante da Casa Branca, a partir de 20 de janeiro de 2021. A vantagem de Biden, no entanto, deve chegar ainda a 306 votos no colégio eleitoral, confirmadas suas vitórias também nos estados da Geórgia (16 delegados) e de Nevada (6 delegados).

 

 

—  (Estados Unidos da) América, eu estou honrado por você ter me escolhido como líder do nosso grande país. O trabalho à nossa frente será duro, mas eu prometo: serei um presidente para todos os americanos, tenham vocês votado em mim ou não. Com o fim da campanha, é hora de colocar a raiva e a retórica dura para trás e nos unir como uma nação. É a hora de se unir e se de curar. Somos os Estados Unidos da América. E não há nada que não possamos fazer, se fizermos isso juntos — declarou Biden no Twitter sobre a sua vitória, pregando a união de um país dividido nas urnas. Após ser eleito em 1972 como o senador mais jovem dos EUA, aos 29 anos, ele foi confirmado hoje como o presidente mais velho a ser eleito no país.  Tem atualmente 77 anos e assumirá a democracia mais longeva do mundo aos 78, após aniversariar no próximo dia 20.

 

Joe Biden e sua vice, Kamala Harris (Foto: Twitter)

 

Político moderado em seus 47 anos de vida pública, oito deles como vice-presidente dos dois mandatos de Barack Obama, Biden conseguiu a candidatura após comandar a maior virada da história (relembre aqui) nas convenções do Partido Democrata, onde bateu o socialista Bernie Sanders. Com a confirmação oficial da sua vitória hoje, ele traz na chapa eleita outra novidade: a primeira mulher e primeira negra a ser eleita vice-presidente, Kamala Harris, ex-senadora pela Califórnia, estado em que já tinha atuado como promotora de Justiça.

 

https://twitter.com/SamPancher/status/1324515716222115841?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1324515716222115841%7Ctwgr%5Eshare_3&ref_url=http%3A%2F%2Fopinioes.folha1.com.br%2F2020%2F11%2F06%2Fbiden-e-o-novo-presidente-dos-eua-trump-esperneia-e-bolsonaro-fica-mais-so%2F

 

Derrotado, Donald Trump é o primeiro presidente dos EUA a não conseguir se reeleger desde 1992, quando o também presidente republicano George Bush foi derrotado pelo democrata Bill Clinton. Sem apresentar uma única prova, o atual presidente vem denunciando “fraude” desde antes do pleito de 3 de novembro. Na quinta (05), já ciente da vitória de Biden nas urnas, Trump voltou a denunciar (relembre aqui) “fraude” sem provas. Sem precedente na história dos EUA, mas que deve servir como padrão à mídia do mundo, o pronunciamento presidencial teve a transmissão interrompida pelas principais redes de TV, por conta da divulgação de informações falsas. Assim como vem acontecendo as postagens de Trump no Twitter. Ainda assim, promete recorrer à Suprema Corte contra sua ordem de despejo da Casa Branca emitida pela vontade popular.

 

Ernesto Araújo, Jair Bolsonaro e Ricardo Salles, emparedados pela derrota de Donald Trump

 

Com as apostas encerradas sobre o novo presidente dos EUA, outras serão abertas do lado de cá do Equador. Quais serão os reflexos da derrota do trumpismo ao Brasil de Jair Bolsonaro (sem partido)? E quanto tempo mais durarão nos cargos seus ministros Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente? O primeiro se referia a Trump como “enviado de Deus” para salvar o Ocidente. Já Salles é considerado o principal responsável pelas queimadas na Amazônia, criticadas por Biden no debate presidencial de 29 de setembro. Por sua vez, Bolsonaro endossou publicamente as denúncias de “fraude” sem provas de Trump, a quem tem como ídolo. Cujos pés de barro foram erodidos pela democracia, deixando orfã a extrema-direita do mundo.

 

Fotos de Trump com o bordão “You’re fired!” (“Você está demitido!”) do talk-show de sucesso que ele comandou na TV antes de se eleger presidente em 2016, viralizaram nas redes sociais dos EUA, do Brasil e do mundo, desde a oficialização da sua derrota nas urnas para Joe Biden

 

Enquanto as dúvidas se instalam no governo Bolsonaro com a derrota de Trump, outras autoridades da República tomaram a frente do Palácio do Planato para saudar a vitória do novo presidente dos EUA e da democracia, com recados velados a Brasil:

A vitória de @JoeBiden restaura os valores da democracia verdadeiramente liberal, que preza pelos direitos humanos, individuais e das minorias. Parabenizo o presidente eleito e, em nome da Câmara dos Deputados, reforço os laços de amizade e cooperação entre as duas nações — twitou o presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ).

 

 

 

— Democracia significa eleições limpas, alternância no poder e respeito aos resultados. E, também, civilidade. Cumprimento Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos, e a vice Kamala Harris, primeira mulher eleita para a função no país — disse também no Twitter o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso.

 

 

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Eleição a presidente dos EUA por Campos dos Goytacazes

 

Joe Biden espera apenas a confimação oficial da sua viória eleitoral sobre Donald Trump na disputa à presidência dos EUA (Montagem: The Wall Street Journal)

 

Embora hoje dispute com a China a posição de economia hegemônica no mundo, a atenção que a humanidade dedica desde terça (03)  às eleições presidenciais dos EUA evidencia a nação que ainda é sua maior referência. No Brasil e em Campos, não foi diferente. E a atenção foi reforçada pelo suspense da apuração lenta da única democracia que elege seus governos há mais de 230 anos. Isto e o fato do seu atual presidente, Donald Trump, ser capaz de atacar essa mesma democracia por não aceitar a ordem de despejo da Casa Branca emitida pelas urnas, inventando “fraudes” e prometendo levar a questão à Suprema Corte dos seu país. Além da celeuma, o que o Brasil governado pelo trumpista Jair Bolsonaro (sem partido) pode esperar dos EUA governados pelo democrata Joe Biden? E, em especial, o Estado do Rio e Campos? Em busca de respostas, a Folha fez perguntas ao advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ao cientista político Hamilton Garcia e à socióloga e advogada Sana Gimenes, professores, respectivamente, da Uerj e Isecensa, da Uenf, e da Uniflu e Candido Mendes.

 

Professores Carlos Alexandre de Azevedo Campos, advogado; Hamilton Garcia, cientista político; e Sana Gimenes, socióloga e advogada (Montagem: Elaibe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha da Manhã – Após a vitória nos estados da Flórida e no Texas na eleição presidencial dos EUA, o mundo que foi dormir na madrugada de quarta (04) com a perspectiva da vitória de Donald Trump, acordou no final da manhã do mesmo dia com as esperanças acesas para Joe Biden, após a conquista do estados do Arizona e da liderança em Nevada, além da virada em Winsconsin e Michigan. Que se confirmariam na sexta com as viradas democratas também na Geórgia e na Pensilvânia? Foram muitas emoções? O que esperar pela razão?

Carlos Alexandre de Azevedo Campos – Sim, anseio pela derrota de Trump. Essa resposta inicial é sintomática: menos do que a vitória de Biden, me alegra o significado do que seja a derrota de Trump. Tenho o dever da sinceridade intelectual em minhas respostas. Daí essa resposta inicial. Vale para o resto de minhas respostas. Porém, por conta dos números, e por conhecer um pouco, por pesquisa, da prática estadunidense de votar, não dormi com a vitória de Trump, e sim com a esperança, sem certeza, da virada de Biden. Por acreditar na razão dos americanos, hora nenhuma dei como marcada a vitória de Trump.

Hamilton Garcia – No contexto de uma sociedade dividida e polarizada, como os EUA deste século, das seis eleições realizadas, somente duas foram resolvidas com folga maior que 3,8%: as que sagraram Barack Obama. É de se esperar eleições disputadas urna a urna e, sob o trumpismo, com muita retórica e algum tensionamento.

Sana Gimenes – Certamente foram muitas emoções e também muita incredulidade diante do fato de que uma das maiores democracias do mundo tenha um sistema eleitoral tão complexo e, ao mesmo tempo, arcaico. Simbolicamente, faz todo o sentido que as eleições talvez se definam pelo Estado das grandes, e arriscadas, apostas que é Nevada. Pelo lado da razão, o resultado vai ser muito apertado, mas acho que com o atual cenário já dá para acreditar na vitória dos democratas.

 

Suprema Corte dos EUA

 

Folha – Desde antes da eleição, Trump alegava fraude. E declarou que vai questionar o resultado da eleição até a Suprema Corte, onde garantiu maioria conservadora. O motivo é o voto pelos correios, que existem nos EUA desde a Guerra de Secessão (1861/1865). Os democratas também recorreram à Suprema Corte em 2000, mas não conseguiram reverter a derrota de Al Gore para George W. Bush. Dá para esperar resultado diferente agora?

Carlos Alexandre – Em meu primeiro livro, que foi acerca do ativismo judicial, dediquei um capítulo só para os Estados Unidos, e um espaço grande para a decisão Bush vs. Gore (Bush vs. Gore, 531 U.S. 98 [2000]). A doutrina majoritária chama a decisão, que favoreceu Bush, de partidária, portanto, ilegítima. Não concluí dessa forma. Nas eleições de 2000, houve um impasse na contagem de votos na Flórida, haja vista a primeira apuração ter apontado vitória de Bush, por uma margem menor que 0,5%. Essa margem ínfima, segundo a legislação estadual, autoriza a recontagem manual dos votos. Al Gore pediu essa recontagem nos municípios que normalmente votavam com os Democratas, e à medida que a recontagem ocorria, a margem de vitória de Bush era ainda mais reduzida, com tendência ao final de ser revertida. O problema era que o prazo legal de anúncio do resultado iria expirar. A Suprema Corte da Flórida autorizou que esse prazo fosse estendido. E foi acusada por muitos de praticar ativismo judicial. Mas a Suprema Corte suspendeu a decisão, paralisando a recontagem. Com isso, a Suprema Corte decretou a vitória de Bush. E foi acusada de praticar ativismo judicial. Prazos, por segurança jurídica, deveriam ser respeitados. Hoje, a Suprema Corte ainda tem uma “maioria republicana”. Mas um democrata, Biden, está à frente. Será que a Corte terá o capital institucional para afirmar uma “suposta fraude” para, manifestamente, reverter a eleição em favor de um republicano? Não há base para tanto, e a mesma segurança jurídica que norteou Bush vs. Gore deve hoje iluminar a Corte para sacramentar a derrota do desespero infundado de Trump. É o que se espera do Tribunal Superior mais respeitado do mundo.

Hamilton – Nos EUA, a contestação eleitoral passa pelo sistema judiciário normal, de longa tradição, de modo que é de se esperar que hajam provas para se invalidar votos, o que pode atrasar a proclamação do resultado, mas não deve embaralhar o jogo como se tem especulado.

Sana – Não acredito que a Suprema Corte vá reverter o resultado, seja ele qual for, não apenas porque não me parece haver lastro jurídico para tanto, mas também porque no atual nível de polarização em que a nação se encontra isso seria como apagar um incêndio com querosene e poderia ameaçar a estabilidade institucional de um país que, historicamente, respeita as instituições. Apesar das divisões internas, creio que haveria até algum consenso dentro do Partido Republicano contra alegações totalmente infundadas de fraude que apenas satisfazem ao ego infantil e autoritário de Trump.

 

Donald Trump e Jair Bolsonaro (Foto: Jim Watson – AFP)

 

Folha – A alegação de fraude de Trump foi ecoada publicamente pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (sem partido). Após ele ter tentado se meter e contribuir na eleição da Argentina e contribuir para a derrota de Mauricio Macri, a quem apoiou, o que o Brasil tem a ganhar com a nova tentativa de interferência? E a perder, com a vitória de Biden?

Carlos Alexandre – Acho, com toda a sinceridade, que Bolsonaro não é um personagem relevante no cenário internacional. Ele não é levado à sério como liderança, ainda mais considerado o seu ministro das Relações Exteriores. Para mim, a sua opinião é nula sobre a eleição discutida. Não obstante, acredito que Biden é inteligente, e, como os Democratas, de todo sempre, não são os radicais que Trump e sua “trupe” pintam, vai abrir o diálogo com nosso presidente. Bolsonaro, que só pensa em reeleição, não vai se fechar ao diálogo com o mais importante país do mundo. Mudança, se vier, só vai ser simbólica para os radicais e cegos bolsonaristas.

Hamilton – Nada a ganhar: só demonstra o despreparo do atual presidente brasileiro, incapaz de entender um sistema jurídico-político de aparência similar ao nosso, mas radicalmente distinto em seu “espírito”, baseado num individualismo autonomista estranho à nossa tradição do favor/dependência. A possível vitória de Biden deve desestabilizar a política de alinhamento automático com os EUA, inaugurado no governo Bolsonaro, reforçando as vertentes soberanistas majoritárias em nossas elites, inclusive militares.

Sana – O Brasil não tem nada a ganhar com essa interferência, mesmo no caso de uma vitória de Trump. O presidente dos EUA já deixou bem claro, em mais de um episódio, que o “viralatismo” de Bolsonaro só serve, e quando serve, para a concessão de migalhas que em nada alteraram nossa posição geopolítica. Muito ao contrário. Quanto a uma vitória de Biden, isso enfraquece a pessoa do presidente brasileiro e, consequentemente, a sua governabilidade, mas não creio que isso atinja, a princípio, o Brasil enquanto nação, a não ser que Bolsonaro resolva assumir uma postura ainda mais radical, e kamikaze, e se alinhe de forma claramente contrária aos EUA.

 

Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente, têm cabeças a prêmio com a vitória de Biden (Foto: Arthur Max – AIG – MRE)

 

Folha – Depois das declarações de Bolsonaro em apoio às teorias da conspiração de Trump, o vice-presidente brasileiro Hamilton Mourão tentou consertar as coisas. Antes da eleição presidencial dos EUA, analistas diziam que, em caso de vitória de Biden, dois ministros olavistas do governo brasileiro estariam com os dias contados: Ricardo Salles, no Meio Ambiente, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores. Como você projeta?

Carlos Alexandre – Essa pergunta é excelente, e só reflete a sensibilidade intelectual do entrevistador. Penso que, para manter boa relação com a maior nação do mundo, faz-se necessário se livrar de imbecis em posições estratégicas de decisão. Os dois ministros citados já demonstraram estar na contramão do que o mundo relevante pensa, sem grande oposição dos Estados Unidos. Agora terão essa oposição, sem dúvidas. Bolsonaro, que já se mostrou pragmaticamente infiel, não terá saída, senão se livrar desses pesos. É uma questão de pragmatismo, sem culpa com o eleitorado doentio.

Hamilton – O filoamericanismo e, mais recentemente, o negacionismo ambiental têm tido dificuldades de aceitação no país devido a vários fatores, o mais notável deles a ortodoxia ideológica que os sustenta e é estranha à nossa cultura. O ministro Araújo, um intelectual preparado, embora desprezado pelas elites acadêmicas, tem sua ascensão na carreira ligada ao bolsonarismo, de modo que deve se adaptar às oscilações táticas exigidas pela política externa. Já o ministro Salles, com problemas na Justiça e suplantado pelo vice Mourão na questão amazônica, parece menos capaz de sobreviver à pressão que está por vir.

Sana – Faz sentido na medida em que estamos falando de um país da magnitude dos Estados Unidos e, independentemente do alinhamento ideológico entre Bolsonaro e Biden, esses ministros dificultariam ainda mais o diálogo entre as duas nações. Por outro lado, é bom lembrar que Bolsonaro vem sistematicamente atacando a China, a despeito da importância que essa relação tem para o Brasil. O problema de governantes bufões como Bolsonaro, ou o próprio Trump, é justamente esse: não dá para esperar razoabilidade.

 

Incêndio na Amazônia em 2020 (Foto: Mario Tama – Getty Images)

 

Folha – No debate presidencial de 29 de setembro, Biden chegou a criticar os incêndios criminosos na Amazônia. Que já tinham gerado pesadas críticas de uma Europa com sua cena política cada vez mais dominada pelos Partidos Verdes. Isso sem contar o desgaste brasileiro com a China, de quem Bolsonaro se recusa a comprar as vacinas contra a Covid-19, desenvolvida com o Butantan. Sem Trump no poder, o Brasil vira um pária internacional?

Carlos Alexandre – Bolsonaro perde o seu aliado negacionista mais importante. Na verdade, para o mundo, mais do que um aliado, perde sua base de legitimação. Em relação à Covid, sem Trump, Bolsonaro vira para o mundo aquilo que ele é, para muitos brasileiros como eu: uma piada de mau gosto. E isso porque, para agradar seus eleitores sensacionalistas e nacionalistas, ele sempre insistiu que a crise sanitária fosse uma invenção, talvez uma armadilha dos imaginários “inimigos da esquerda”. Espero que a sua hora de enfrentar a verdade também chegue.

Hamilton – Não, uma nação-pária tem que ter um histórico significativo de maus-feitos à sociedade e ao mundo, o que está longe de ser nosso caso. O que temos é um governo isolado internacionalmente, mas os governos passam.

Sana – Não acho que chegue a esse extremo, mas, de fato, o país ficaria cada vez mais isolado no cenário internacional. De todo modo, isso também faria com que setores menos extremistas da própria base aliada do governo pressionassem Bolsonaro para que determinadas políticas, como a ambiental, por exemplo, fossem revistas. Já vimos isso acontecer antes.

 

Viktor Órban e Andrzej Duda, presidentes da Hungria e da Polônia, são a extrema-direita no poder que restou a Bolsonaro no mundo, após a derrota de Trump nos EUA

 

Folha – A eleição presidencial dos EUA foi e é apontada como a mais importante em décadas, pela capacidade de determinar os rumos do mundo. Como analisa isso e o fato dela ter gerado tanto interesse entre os brasileiros? Consumada a derrota de Trump, restará ao Brasil de Bolsonaro o diálogo só com a extrema-direita no poder na Hungria e na Polônia, países menos importantes da Europa?

Carlos Alexandre – É importante, como foi e sempre será, para o Brasil e para o mundo, porque os Estados Unidos são a mais importante nação do mundo, sob todos os aspectos. Porém, considerada a aliança conservadora entre Trump e Bolsonaro, o resultado ganhou cores mais fortes entre nós. Bolsonaro é, para o terror e amnésia de seus idólatras, muito mais pragmático do que fiel às suas bravatas de eleição. Não é liberal, e seu conservadorismo extremo vai até a página dois, ou até as manchetes de carnaval, se isso lhe convier. Não vai se isolar com países desimportantes, considerado o cenário internacional, se isso vier a atrapalhar sua agenda econômica.

Hamilton – O rumo do mundo está sendo definido pela reemergência da Ásia, iniciada pelo Japão e depois engrossada pelos “tigres” e, a seguir, pela China. A ascensão chinesa tem um peso inédito, dado o tamanho de sua população, a tradição de nação fechada ao mundo e ao fato de ser uma potência dirigida por um partido único, comunista, uma combinação desafiadora em termos geopolíticos para as potências ocidentais. A China não precisa fazer muito para se consolidar como potência hegemônica: basta refrear seu ímpeto territorialista, no Sul asiático, até que as contradições inerentes às civilizações decadentes cimentem o caminho de uma nova ordem mundial onde seu poderio econômico passe a dar as cartas, com os desdobramentos militares costumeiros.

Sana – As eleições dos EUA sempre despertaram interesse no resto do mundo em razão da influência internacional que esse país tem. Nessa eleição presidencial, porém, estão à prova dois fenômenos globalmente observados nos últimos anos: a popularidade de políticos que negam a lógica e o decoro da política tradicional, sob a alegação de que seriam mais honestos e eficientes, e também a ascensão de um discurso de extrema-direita que prega a intolerância e a desigualdade. Consumada a derrota de Trump, veremos que esses dois fenômenos, apesar de barulhentos, mostraram muito precocemente os seus sérios limites até para os seus eleitores. Restará a Bolsonaro baixar o tom ou se alinhar com os países mencionados, mas essa segunda opção certamente traria ainda mais dificuldades para o seu governo.

 

Complexa cédula de votação, com várias escolhas além de presidente, usada para votar nos Correios dos EUA no estado da Carolina do Norte (Foto: Foto: Jonathan Drake – Reuters)

 

Folha – O interesse dos brasileiros gerou comparações do processo eleitoral dos EUA, com apuração lenta pelos votos em cédula de papel e do complexo sistema do colégio eleitoral, com o nosso, com urnas eletrônicas e que define o presidente pelo voto direto do cidadão. Como avalia essa comparação? Sobretudo com a possibilidade de questionamento das urnas no Judiciário, faz falta aos EUA a existência de uma Justiça Eleitoral?

Carlos Alexandre – Não faz falta. Isso é cultura institucional. Até porque, lá não são definidos apenas cargos de governo. As eleições, que são comandas pelos Estados, não envolvem apenas representantes de governo, mas vários plebiscitos sobre questões morais e políticas cruciais, como aborto, armas, drogas, casamento gay, etc. É impossível a comparação. No mais, o Colégio Eleitoral é uma prática secular que sempre foi aceita como a mais democrática, sem grandes questionamentos internos. Discussões existiram, inclusive na Suprema Corte, sobre o peso do voto em cada distrito eleitoral, mas nunca sobre o método da eleição.

Hamilton – A democracia americana é incomparavelmente melhor e mais sólida que a nossa. Não só pela perenidade de suas instituições, a Constituição deles data da fundação da nação em 1787, numa guerra independentista, enquanto nós tivemos sete delas desde nossa fundação como Estado, em 1822, a partir da cisão da Coroa lusitana. Mas tamém pelo fato dessas insituições derivarem da rica e dramática experiência de um povo majoritariamente livre, o que lhes permitiu sobreviver a uma guerra civil. A vantagem advinda de nosso vanguardismo no voto eletrônico, não nos iludamos, é fruto da corrupção endêmica que existe até hoje e nos impede, por exemplo, de votar pelo correio, o que constitui um nítido e singelo sinal de elevada cidadania.

Sana – O sistema eleitoral dos EUA não faz jus à sua democracia. São inúmeros problemas como: a inexistência de normas eleitorais unificadas em nível nacional, a sub-representação dos Estados mais populosos da Federação, além do próprio modelo de votação majoritariamente por cédulas em uma nação de dimensões continentais. Temos um sistema que também pode ter falhas, mas está muito mais próximo da compreensão popular, que é o cerne da própria democracia, além de ser modernamente operado através de urnas eletrônicas e efetivado por meio de uma estrutura jurídica própria.

 

Vala comum aberta para enterrar os mortos da Covid na ilha Hart, em Nova York (Foto: Lucas Jackson – Reuters)

 

Folha – Parece ser consenso que, mais do que Biden, foi a atuação desastrosa de Trump no enfrentamento dos EUA à pandemia da Covid-19 que definiu a eleição presidencial deles. Concorda? E, com atuação igualmente questionada na condução da crise sanitária do novo coronavírus, por que esse mesmo desgaste popular não se deu também com Bolsonaro?

Carlos Alexandre – Concordo que o negacionismo prejudicou Trump em sua reeleição. Porém, discordo que o mesmo negacionismo não tenha prejudicado a credibilidade eleitoral de Bolsonaro. E isso porque, descontando os afetados pelo bolsonarismo extremo, ainda acredito no bom senso, no sentido do ridículo dos brasileiros. Bolsonaro ainda pagará a sua conta.

Hamilton – Trump jogou fora a segurança de sua reeleição porque não tinha como “emparedar” o vírus, precisando fazer algo além da espetacularidade com a qual governou até então. Já Bolsonaro é incapaz até mesmo de qualquer espetacularidade; não só porque pilota um Estado geopoliticamente fraco e economicamente falido, mas, sobretudo, por ter uma dimensão baixo-clericalista do poder, forjada no varejo das “rachadinhas” e nos subterrâneos da corporação onde se formou.

Sana – O posicionamento anti-Trump vem crescendo. Ele reúne, inclusive, alas do próprio Partido Republicano. Essa aversão está ligada a fatores mais amplos do que a questão da pandemia, que vão desde o desprezo às suas posições sexistas, racistas e homofóbicas, até sua condução da política externa e ambiental. De todo modo, é certo que a atuação desastrosa de Trump no enfrentamento à Covid-19 acirrou esse posicionamento, lembrando que os EUA são, hoje, o país mais atingido pela pandemia. Nossa realidade é distinta porque além de termos um sistema de saúde gratuito e universal, o que mitiga os efeitos dessa crise sanitária, também há uma vinculação muito mais direta da população aos serviços de saúde municipais, ou até mesmo estaduais e, consequentemente, aos seus governantes.

 

Trump e Biden no último debate presidencial dos EUA, na noite de 22 de outubro (Foto: Morry Glass- AP Photo)

 

Folha – No último debate presidencial dos EUA, em 22 de outubro, Biden prometeu marcar seu governo pela transição da matriz energética do petróleo para alternativas limpas, como a solar e a eólica. Caso isso se cumpra, como poderia afetar diretamente Campos, municípios vizinhos e o Estado do Rio, cuja mais parte da arrecadação ainda é de receitas petrolíferas?

Carlos Alexandre – As coisas boas demoram a chegar aqui. Às vezes, mais de um século! Não vejo qualquer efeito imediato de substituição, nem mesmo a longo prazo. Mas que ótimo seria se esse discurso incentivasse os brasileiros a buscarem fontes mais limpas, e os governos locais a incentivarem essa prática, e a transformarem isso em meio de recursos tributários novos. Em vez de substituição imediata, deveríamos pensar em complementação em médio e longo prazo, e em substituição, se um dia ocorresse, como política de futuro.

Hamilton – A princípio, a saída dos EUA da oferta tenderia a melhorar o preço da commodity, o que beneficiaria os outros produtores no curto prazo. Por outro lado, no longo, aceleraria a substituição das tecnologias demandadoras de combustíveis fósseis por de outras fontes, o que nos prejudicaria.

Sana – Não acredito que haveria efeitos tão diretos, principalmente, a curto ou médio prazo. O processo de transição da matriz energética não se dá forma tão rápida e ainda tendo a achar que o discurso de Biden nesse sentido é um tanto mais retórico do que prático. Ele, de fato, tem a preservação ambiental como uma de suas bandeiras, o que, por si só, já é um grande avanço, mas se não for possível conciliá-la com o desenvolvimento capitalista, é esse último que prevalecerá sem dúvida alguma.

 

 

Folha – Goste-se ou não dos EUA, o fato histórico é que eles são a mais longeva e importante democracia representativa do mundo. E são sua principal referência ao Ocidente, por mais que a ditadura da China tenha importância econômica internacional. Como essa influência se manterá em um país que, independente do resultado final, sai de uma eleição presidencial absolutamente dividido? Como projeta o futuro dos EUA para eles e o mundo?

Carlos Alexandre – Essa pergunta vale uma dissertação. Qualquer resposta resumida é historicamente incompleta. Mas vamos lá: essa nação foi forjada em separação de poderes e bipartidarismo forte. Tirando George Washington, neutro, os EUA foram criados por gênios contrapostos: por exemplo, Jefferson e Madison, de um lado, Adams e Hamilton, de outro. Esses quatro maiores teóricos e políticos da história nos ensinaram que uma grande nação se faz sob dois pontos: forte divisão intelectual sobre o que é governar, pois democracia é oposição forte; respeito ao que decidido pelo the people themselves (“as próprias pessoas”) o que significa que, até a próxima eleição, vale a decisão do representante eleito. Essas são as bases da longevidade democrática dos EUA. Sem Trump e seus extremismos, vejo um futuro mais tolerante para todos.

Hamilton – A democracia americana está mais preparada e equipada para enfrentar a crise hegemônica do Ocidente que as demais potências, mas precisará acertar nas respostas para manter seu protagonismo; o que parece difícil a julgar por suas práticas externas desde o fim da URSS e a fixação interna de suas elites intelectuais em pautas centrífugas.

Sana – Independentemente do resultado das eleições, o fato de a disputa estar tão acirrada parece apontar que o discurso virulento e irracional da extrema-direita começa a perder força. Com a vitória de Biden, ainda que a polarização permaneça, ele pode mostrar que, a despeito do que tem prevalecido no imaginário social, uma política mais progressista também pode ser economicamente eficiente. Para que a perda de influência dos EUA sobre o resto do mundo seja realmente palpável, teríamos que ter uma crise institucional interna em níveis nunca antes vistos. Lembrando que, a despeito de qualquer resultado eleitoral, a China hoje já é a maior economia do mundo.

 

Página 5 da edição de hoje (07) da Folha da Manhã

 

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Biden é o novo presidente dos EUA, Trump esperneia e Bolsonaro fica mais só

 

Joe Biden na convenção democrata que o lançou candidato democrata a presidente dos EUA, cuja vitória sobre Donald Trump foi confirmada hoje  (Foto: Kevin Lamarque – Reuters)

 

Agora é oficial: Joe Biden é o próximo presidente dos EUA. Com a virada na Geórgia, estado tradicionalmente republicano, o democrata chega a 280 delegados, 10 a mais que os 270 necessários para determinar o ocupante da Casa Branca a partir de 20 de janeiro. Antes, deve ampliar a vantagem se confirmar os outros 20 delegados da Pensilvânia, mais os 6 de Nevada, somando os 306 de uma vitória incontestável. Donald Trump, que denunciava “fraude” bem antes das urnas de 3 de novembro, sem apresentar uma única prova, voltou a dizer hoje que vai recorrer à Suprema Corte da derrota no complexo sistema do colégio eleitoral. Como é o mesmo que lhe permitiu levar a presidência dos EUA em 2016, mesmo com 2,8 milhões de votos populares a menos que Hillary Clinton, Trump exerce quatro anos depois o famoso jus esperniandi (“direito de espernear”).

 

 

Na noite de ontem, Trump usou seus últimos dias na Casa Branca para chamar de “fraude” sua ordem de despejo emitida pela vontade popular. E teve a transmissão do seu pronunciamento interrompida pelos principais canais de TV do seu país, no que deve servir de “novo normal” à mídia do mundo com outros governantes sem pudor de mentir descaradamente. Desde que promulgaram sua única Constituição em 1787, foi a primeira vez em 233 anos que os EUA viram seu presidente atacar sua própria democracia. O atual mandatário republicano foi condenado publicamente por ex-procuradores de governos republicanos, deputados e senadores republicanos. O motivo da “fraude”? Os votos pelos correios, autorizados pela Suprema Corte e prática do país desde a Guerra de Secessão (1861/1865).

 

Donald Trump e Jair Bolsonaro (Foto: Jim Watson – AFP)

 

Ao Brasil, cujo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se prestou a ecoar publicamente as denúncias de “fraude” do seu “mito”, restam duas alternativas. Ou acerta o passo em sua política externa e na proteção ao meio ambiente, demitindo os ministros olavistas Ernesto Araújo e Ricardo Salles, ou o país se tornará um pária mundial. Sem Trump, sobraram ao capitão a interlocução com a extrema-direita no poder apenas na Hungria de Viktor Órban e na Polônia, de Andrzej Duda. E, em termos de relações comerciais, as duas pequenas nações do Leste da Europa representam ao Brasil pouco ou quase nada.

 

Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente, têm cabeças a prêmio com a vitória de Biden (Foto: Arthur Max – AIG – MRE)

 

Apesar da derrota, ninguém com isenção pode ignorar: Trump foi o eixo no qual girou essa eleição presidencial. Que ele perdeu para a pandemia da Covid-19 e suas graves consequências econômicas, como o desemprego galopante nos EUA, não para Biden. Ainda assim, o eleitor estadunidense branco, de pouca instrução e classe média baixa compareceu em massa para votar na reeleição do seu presidente. Que só não conseguiu levar por conta da perda em estados que acabaram sendo decisivos, como Arizona, Winsconsin, Michigan, Geórgia, Pensilvânia e Nevada. Mas basta olhar o mapa da votação para constatar o país que saiu visceralmente dividido das urnas.

A tarefa de suturar a ferida aberta caberá a Biden, político moderado em seus 47 anos de vida pública, acusado de “socialista” em delírio coletivo que agora terá que despertar à realidade com a cara ardendo pelo tapa. O novo presidente dos EUA não é um orador brilhante como Barack Obama, de quem foi vice por oito anos, nem um comunicador histriônico, mas talentoso, como Trump. Joe Biden é um homem normal que, não por acaso, é chamado nos EUA de “regular Joe”. Mas a quem a História legou a responsabilidade de determinar o futuro do seu país e do mundo. E terá que fazê-lo talvez sem poder atender a contento a juventude que tomou as ruas do mundo no Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”).

 

Motivado pela morte do negro George Floyd por um policial branco, protesto Black Lives Matter em frente à Casa Branca, em 1º de junho deste ano (Foto: Olivier Douliery – AFP)

 

Abraham Lincoln, presidente que liderou os EUA em sua Guerra Civil (1861/1865) para libertar os negros da escravidão, e seria assassinado por isso

“O homem é ele e suas circunstâncias”, ressalvava o filósofo espanhol Ortega y Gasset. E as circunstâncias do homem normal, que assumirá a mais longeva democracia representativa do mundo, são enormes. Aparentam também estranhas coincidências. Após conquistar a vaga para disputar a presidência na maior virada da história das primárias do Partido Democrata, contra o socialista de fato Bernie Sanders, Biden chega ao poder após virar a apuração que, até o dia seguinte à eleição, indicava a vitória de Trump. Com a derrota deste, o Partido Republicano, que deu aos EUA a referência presidencial de um Abraham Lincoln, terá que se reinventar para além do trumpismo.

Para não fragmentar ainda mais seu país, Biden terá que buscar o equilíbrio de quem caminha sobre o fio da navalha. Onde é sempre fácil cair, ou cortar o pé. Ainda assim, suas promessas de campanha são ousadas: enfrentar a segunda onda da Covid onde ela tirou o maior número de vidas humanas no planeta Terra, revitalizar o Obama Care dilapidado por Trump em um país sem SUS, taxar as grandes fortunas para bancar a assistência social aos mais pobres e impor um salário mínimo aos EUA de US$ 15 por hora. E o democrata será tão cobrado para implementá-las, quanto se não surtirem o efeito desejado.

Sólon, legislador ateniense a quem é creditada a criação da democracia no séc. VI antes de Cristo

A democracia foi inventada na Grécia Antiga, com as reformas de Sólon na cidade-estado de Atenas, por volta de 590 a.C. Funcionaria depois na República de Roma, antes do maior poder da Antiguidade se tornar o Império Romano. O sistema de governo que significa “poder do povo” só seria resgatado, mais de mil e setecentos anos depois, com a invenção da democracia representativa pelo Iluminismo, no séc. 18. E sua primeira experiência no mundo foi justamente no regime fundado pela Revolução Americana, para unir 13 ex-colônias britânicas que se tornaram independentes à bala. E que, sob a mesma Constituição, hoje somam os 50 estados que deram a vitória a Biden no mesmo sistema do colégio eleitoral que fez George Washington seu primeiro presidente, em 1789.

De lá para cá, não são poucos os analistas que consideraram a derrota de Trump, mais que a vitória de Biden, como a sobrevivência da própria democracia. Foi um teste ultrapassado não só pelos EUA, mas pelo mundo que não enxerga na ditadura da China, apesar da sua pujança econômica, uma opção política aceitável. Algo quase se quebrou neste mundo, na sua nação ainda mais importante. O vitral resultante terá suas cores reveladas pela luz do sol do amanhã. Hoje, as sombras perderam.

 

Quem quiser saber como os destinos dos EUA e do mundo foram definidos, desde as convenções democrata e republicana, passando pelos debates até a eleição presidencial e sua apuração, pode ler ou reler aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aquiaqui e aqui. Para quem quiser saber um pouco mais desses tais de americanos, e sobre a nossa relação com eles enquanto brasileiros, seguem abaixo valiosas lições na poesia de Caetano: 

 

 

 

Americanos

 

Americanos pobres na noite da Louisiana

Turistas ingleses assaltados em Copacabana

Os pivetes ainda pensam que eles eram americanos

Turistas espanhóis presos no Aterro do Flamengo

Por engano

Americanos ricos já não passeiam por Havana

 

Veados americanos trazem o vírus da Aids

Para o Rio no carnaval

Veados organizados de São Francisco conseguem

Controlar a propagação do mal

Só um genocida em potencial

— de batina, de gravata ou de avental —

Pode fingir que não vê que os veados

— tendo sido o grupo vítima preferencial —

Estão na situação de liderar o movimento

Para deter a disseminação do HIV

 

Americanos são muito estatísticos

Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos

Olhos de brilho penetrante que vão fundo

No que olham, mas não no próprio fundo

Os americanos representam grande parte

Da alegria existente neste mundo

 

Para os americanos branco é branco, preto é preto

— E a mulata não é a tal —

Bicha é bicha, macho é macho

Mulher é mulher e dinheiro é dinheiro

E assim ganham-se, barganham-se, perdem-se

Concedem-se, conquistam-se direitos

Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime

E dançamos com uma graça

Cujo segredo nem eu mesmo sei

Entre a delícia e a desgraça

Entre o monstruoso e o sublime

 

Americanos não são americanos

São os velhos homens humanos

Chegando, passando, atravessando

São tipicamente americanos

 

Americanos sentem que algo se perdeu

Algo se quebrou, está se quebrando

 

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Desespero de Trump confirma: Joe Biden é o novo presidente dos EUA

 

Joe Biden teve sua vitória nas urnas confirmadas hoje à noite pelo desespero de Donald Trump (Montagem: The Wall Street Journal)

 

Joe Biden foi eleito presidente dos EUA. Mais que a apuração em que o candidato só precisa de mais seis delegados estaduais para chegar ao mínimo de 270, e está perto de virar nos estados da Pensilvânia (20 delegados) e Geórgia (16 delegados), sem contar Nevada (6 delegados), em que já lidera, a certeza da vitória de Biden foi dada agora à noite pelo seu concorrente: o ainda presidente Donald Trump. Ele mentiu tão descaradamente ao denunciar “fraude” nas eleições, em pronunciamento na Casa Branca, sem apresentar uma única prova, que as redes de TV do seu país interromperam a transmissão. Como O Twitter já havia bloqueado oito postagens suas pelo mesmo motivo.

Agora resta à apuração oficializar por quanto foi a derrota de Trump. E à Justiça do seu país, a quem prometeu recorrer por ter perdido no voto popular e do colégio eleitoral, responsabilizá-lo criminalmente pelo inédito ataque de um presidente dos EUA à democracia dos EUA. Ex-procuradores de governos republicanos repudiaram as falsas acusações do mandatário republicano, também criticadas publicamente por deputados e senadores republicanos. Os votos pelos correios, denunciados como “fraude”, são praticados nos EUA desde a Guerra de Secessão (1861/1865). Quando o país passou pela mesma divisão violenta que seu ainda presidente busca claramente estimular.

Assim que a vitória de Biden for oficializada e até a sua posse como 46º presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2021, com as apostas encerradas sobre o novo ocupante da Casa Branca, outras serão abertas do lado de cá do Equador. Quais serão os reflexos da derrota eleitoral do trumpismo ao Brasil de Jair Messias Bolsonaro? E quanto tempo mais durarão nos cargos seus ministros olavistas Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente?

 

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Apuração deixa Biden mais perto de vencer a eleição a presidente dos EUA

 

 

 

Joe Biden confirmou sua vitória nos estados de Winsconsin e Michigan, somou mais 26 delegados no colégio eleitoral e agora tem 264. Se vencer também no estado de Nevada (6 delegados), onde lidera, chega ao total de 270, mínimo necessário para se determinar o próximo presidente dos EUA.

Se isso acontecer, como tudo até agora indica, Biden não precisaria nem vencer em no seu estado natal da Pensilvânia (20 delegados). Embora a diferença que ainda o separa de Trump lá, venha caindo com a apuração dos votos antecipados e pelos correios.

 

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Apuração nos EUA que indicava vitória de Trump acende esperança para Biden

 

 

Dormi após às 3h da manhã com a eleição presidencial dos EUA aparentando estar definida para Donald Trump. Acordei agora há pouco e o mapa da apuração, com a virada de Joe Biden no estado do Michigan e sua vitória parcial nos estados de Wisconsin e Nevada, acendem as esperanças por um triunfo final muito apertado do democrata. Tendência endossada pelas denúncias de “fraude” do atual presidente republicano.

Só para lembrar: quem fizer o mínimo de 270 delegados no complexo sistema do colégio eleitoral, leva a Casa Branca. Certeza, além desta, só duas. A primeira? A mais importante e longeva democracia representativa do mundo sai das urnas absolutamente dividida. A segunda é que a definição da eleição vai parar na Suprema Corte dos EUA.

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Se vai dar Trump ou Biden, o seu papel na eleição a presidente dos EUA

 

 

São 2h30 da manhã de Brasília. E para quem, nesta Terra de Vera Cruz, acha que sua torcida contra ou a favor de Donald Trump importa a quem pode ontem tê-lo reelegido presidente dos EUA, a verdade é dura: sua vontade sempre contou tanto quanto o voto de quem recentemente reconduziu a esquerda ao poder na Bolívia. E isso só pode ser encarado como elogio pelo tupiniquim com menos hemácias no cérebro que nunca pisou na orgulhosa República Andina dos Aimaras.

Escrevo sem saber o resultado final da eleição presidencial dos EUA. A bem da verdade, ninguém sabe. Mas, a não ser que o voto pelos correios mude o resultado do swing state (estado pendular e decisivo) da Pensilvânia, onde nasceu Joe Biden, é bem possível que Trump ganhe mais quatro anos de mandato. Caso contrário, a questão deve parar na Suprema Corte, transformada em bastião conservador pelo sucessor de um republicano diferente, Abraham Lincoln.

Confirmada a derrota de Biden, ela não se dará pela derrota em seu estado natal. Mas pela que Trump impôs aos democratas na Flórida, com os votos latinos de cubanos refugiados de Fidel e até de brasileiros entusiastas de Bolsonaro. No complexo sistema do colégio eleitoral dos EUA, o estado tem 29 votos. Mesmo se o candidato democrata vencer na Pensilvânia (20 votos), mais Winsconsin (10 votos) e Maine (4 votos, um dos dois únicos estados com divisão proporcional), ele ficaria 5 votos aquém dos 270 delegados necessários para vencer o pleito. Outro estado com divisão proporcional de delegados (5 votos), Nebraska seria a única alternativa de alternância no poder.

Em um país como o Brasil, onde todos se ungem espessialistas em futebol e política em tempo de Copa do Mundo e eleição, é pedir demais que se entenda um sistema criado pelos Pais Fundadores dos EUA, no séc. 18, para evitar que um populista chegasse ao poder. E que, mais de 230 anos depois, serve para que um populista como Trump possa se perpetuar no poder. Mas, diante de uma mesma Constituição desde aquela época, não tem moral para criticar quem está na sua sétima. E só consegue mantê-la a despeito dos boçais que saem às ruas para pedir a volta do AI-5.

São os mesmos que, da sua irrelevância subequatoriana, comemorarão mais quatro anos para Trump. “Patriotas” que, como seu “mito”, baterão continência à bandeira estrangeira. Enquanto Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e John Adams — que nunca viram mais gordos — se reviram nos seus túmulos.

 

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Disputa entre adesivos de Wladimir e Bruno no Pq. Guarus viraliza nas redes sociais

 

Se todas as pesquisas pesquisas registradas confirmam a liderança (confira aqui) do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD) na corrida à Prefeitura de Campos, a campanha nas ruas segue disputada — literalmente casa à casa. Nas redes sociais locais, um vídeo viralizou no último final de semana mostrando um militante da campanha a prefeito do Dr. Bruno Calil arrancando na porta de uma casa o adesivo do 55, número de Wladimir, para colocar o 77 do seu candidato.

O militante é Rodrigo Barreto da Silva, também conhecido como “Marreta”. Egresso do grupo político do ex-vereador Magal, ele foi nomeado assesssor parlamentar do deputado Rodrigo Bacellar (SD), que apoia e coordena a campanha de Bruno. O fato gravado em vídeo aconteceu no Parque Guarus, no último domingo (01). Nos grupos garotistas, o vídeo foi divulgado com os dizeres: “Para que esse desespero da turma do Doutor Bruno Calil do deputado Rodrigo Bacellar (SD)????”

 

Nomeação de Rodrigo Barreto da Silva como assessor parlamentar do deputado Rodrigo Bacellar na Alerj (Reprodução)

 

Sem os dizeres, confira abaixo o vídeo de Rodrigo Barreto, vestido com a camisa da Seleção Brasileira:

 

 

Segundo Rodrigo Barreto, o adesivamento de casas com o número 55, no bairro onde ele reside, teria sido feito no sábado, durante carreata de Wladimir no Parque Guarus, sem a autorização dos moradores, aos quais ele já teria pedido para adesivar o 77. Os adesivos com este número teriam sido arrancados, gerando a reação do militante de Bruno Calil. Em outro vídeo, ele revela seu rosto e aparece literalmente comendo o adesivo do 55, antes de o cuspir. Confira abaixo:

 

 

Após o contato do blog para apurar a história, Rodrigo Barreto enviou mais dois vídeos de vizinhos seus no Parque Guarus, que confirmaram sua história. São Antunis da Silva de Souza e Elizabeth Maria da Silva. Confira-os abaixo:

 

 

 

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Dia dos mortos em versos de carne viva

 

Pensei inicialmente em publicar o poema de 17 anos apenas nas redes sociais. Mas devido ao bom envolvimento lá gerado (confira aqui) e por ser uma maneira diferente de lembrar o feriado de hoje, seguem também abaixo. O dia dos mortos em versos de carne viva:

 

 

finados

 

se a chuva que cai sobre mim

cair também sobre ela

que minha lembrança a aqueça

a conta-gotas

dos pingos às folhas

das folhas à terra

 

que minha lembrança se enrosque

à raiz de uma erva daninha

daquelas que brotam de novo

depois da erva arrancada

 

se a chuva que cai sobre mim

cair também sobre ela

que minha lembrança adormeça

em sonhos de carnes fartas

revista de língua na alma

deitado no colo dela

 

atafona, 02/11/03

 

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