Há menos de dois meses das urnas, acabou agora há pouco o primeiro debate entre os presidenciáveis, promovido pela Band. Líder em todas as pesquisas sem o ex-presidente Lula (PT), quem esperava que Jair Bolsonaro (PSL) fizesse feio na sua estreia em debates como candidato a governar o Brasil, não teve suas expectativas atendidas. Sem brilho individual, o ex-capitão do Exército se manteve na média dos oito candidatos. Até pela maior experiência, Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (rede) e Álvaro Dias (Podemos) demonstraram mais consistência.
No contraste, Bolsonaro foi ajudado pelo caricato Cabo Daciolo (Patri). O misto de bobo da corte e pastor pentecostal ganhou notoriedade como líder da greve fluminense de policiais e bombeiros militares de 2011, antes de ser eleito deputado federal em 2014 pelo Psol — e expulso da legenda em 2015. Candidato a presidente do partido, Guilherme Boulos não fugiu do maniqueísmo com que se pode topar em Campos, numa noite na Fluir, com qualquer jovem alternativo. Achou descolado o bordão “cinquenta tons de Temer” e o repetiu ad nauseam pela noite e madrugada. Por sua vez, se não foi bufão, Bolsonaro tampouco foi Geni. Este papel coube Henrique Meirelles (MDB), candidato de Michel Temer e ex-presidente do Banco Central nos governos Lula.
Ausente da campanha por decisão da Justiça, preso desde 7 de abril e virtualmente inelegível pela Lei da Ficha Limpa, que sancionou quando presidente, Lula só teve o nome lembrado por Boulos. Que depois provocaria risos da plateia ao dizer que não tinha Dilma como chefe, quando pediu e não ganhou um direito de resposta. Por seus temperamentos assertivos, também se aguardava um duelo à parte entre Ciro e Bolsonaro. Se ele não chegou a esquentar, o candidato de direita não se saiu mal, apesar de inferior como orador. Ao ser perguntado pelo cearense como faria para livrar 66 milhões de brasileiros do SPC, Bolsonaro ironizou e devolveu a pergunta, desejando um debochado “boa sorte, Ciro!” na tréplica.
Alckmin e Marina também andaram se estranhando. O primeiro apanhou de quase todos os concorrentes por sua aliança com o Centrão. Mas quando a segunda insistiu, perguntando como mudar o Brasil tendo ao lado a base de sustentação de Temer, levou a bicada do tucano: “nunca fui do PT, nem ministro do PT”. Ex-governador bem avaliado do Paraná, Álvaro Dias tentou hastear a Lava Jato como bandeira. E prometeu nomear o juiz federal Sérgio Moro ministro da Justiça. No combate aos privilégios prometido por todos — à exceção de Bolsonaro e Daciolo em relação aos militares —, Ciro lembrou a Dias que Moro recebe o auxílio-moradia.
Também foram debatidas questões como saúde, educação, segurança, infraestrutura e necessidade de reformas. Mesmo candidato do Centrão, Alckmin chegou a dizer que a sua primeira seria a política. Mas quase ninguém explicou como realizar o prometido. A não ser, claro, Daciolo: “pelo amor, em honra e glória do senhor Jesus!”
Céu do Arpoador, Rio, 17/12/14 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Observava o passar do tempo ouvindo o barulho da água batendo na janela. A chuva chegara há umas horas. Desde a véspera, quando o céu havia mudado de cor, começou a desejar por gotas, relâmpagos e trovões. Na infância, temia. Mas, com os anos, todo o medo tinha se transformado em prazer durante as tempestades.
Dias nublados eram sinônimo de voltar ao passado. Caminhar por trilhas já percorridas. Relembrar os momentos, bons e ruins, que a levaram até aquela chuva. A música ajudava a retornar às épocas da sua vida. Tinha o hábito de escutar determinada canção quando desejava reviver sensações de tempos remotos.
Transitou da infância à adolescência em ritmo de rock. A mochila cor de exército. Os cabelos enrolados em nós. Casaco azul ou cinza. Dependia de seu humor. Viu-se entre as paredes do colégio. Mais uma manhã daquelas divididas com os amigos por três anos. Os corredores da escola, cheios de vozes e jeitos e caras e bocas, eram passagens diárias. Os caminhos sempre iguais. As chegadas, saídas. Debates sobre a vida ou sobre um lanche na hora do intervalo.
Era aula de português. A professora, de voz firme, ensinava algum trecho da gramática. Ou seria um movimento literário? Muitas vezes, no ritmo das falas, seus pensamentos viajavam para outros mundos, tanto em fuga quanto em busca de soluções para os problemas típicos e atípicos de uma adolescência.
Naquele dia, no entanto, uma pergunta marcara a manhã. A mulher olhou para os alunos e questionou se eram felizes. A simples pergunta transpareceu os conflitos dos meninos e meninas que ocupavam as cadeiras da classe. Para uns, a resposta mais óbvia seria: “claro”. Mas, para outros, permaneceu a dúvida. Duas das garotas se olharam. Sabiam que pensavam a mesma coisa. “Não sei.”
Após o sinal, indicando o término do horário, os quatro amigos se sentaram em algum canto da grande escola e conversaram sobre a aula.
— Você é feliz? — perguntou um deles.
— Eu sou. E vocês? — respondeu o outro.
As duas meninas voltaram a se encarar. A resposta estava nos olhares.
— Não sei — responderam ambas. Os dois rapazes as observaram boquiabertos. “Mas como vocês não são felizes?”, questionou um deles, o mais inquieto com a resposta. Para ele, a felicidade parecia ser natural. O bom humor presente nos diálogos e a cada sorriso distribuído. O outro também mantinha a alegria e o carisma no trato com o próximo. Elas, mais fechadas, seriam capazes de ouvir longas conversas sem emitir um som, caso não se sentissem à vontade.
Anos se passaram desde o dia da resposta indefinida. Ainda ao som da chuva, lembrou os traços dos olhos e rostos deles. Entre sonhos e realidades, deixaram para trás os sinais mais expressivos da inexperiência, adquirindo, vagarosamente, ares de cinismos. O mundo e seus moinhos.
Antes de dormir, apagou a luz, caminhou até a cama e se deitou sob as cobertas, já esticadas para aquecer um pouco o lençol. Respirou fundo e reviveu os momentos recentes em sua cabeça, ainda incapaz de definir até onde eles a levariam. Vencida a luta entre o peso dos olhos e dos pensamentos, foi capaz de ouvir, antes de pesar a respiração, a mesma voz firme da sala de aula de sua adolescência. Naquele breve momento, refletiu, era feliz.
Muito se fala que o voto em Bolsonaro só é possível para quem nunca leu um livro de história. Na dúvida, alguns exemplos do que a “indolência” do índio e a “malandragem” do africano são capazes de produzir:
Teotihuacán, cidade erguida pelos índios mexicanos, sem metal, a roda ou animais de tração, entre 100 a.C. e 250 d.C.
Esfinge e pirâmides erguidas por volta de 2.500 a.C. na planície de Gizé por africanos egípcios
Charge do José Renato publicada hoje (08) na Folha
Nova mesa da Câmara
Como adiantou ontem o blog Opiniões, hospedado no Folha 1, a eleição da nova mesa diretora da Câmara de Campos entrará na pauta na sessão de hoje. E o resultado quase certo foi revelado de véspera: Fred Machado (PPS), como presidente; Abdu Neme (PR), vice-presidente; José Carlos (DC), primeiro secretário; Marcelo Perfil (PHS), segundo vice-presidente; e Igor Pereira (PSB), segundo secretário. Entre os 25 votos, as dúvidas até ontem eram Álvaro Oliveira (SD), Josiane Morumbi (PRP), Eduardo Crespo (PR), Renatinho do Eldorado e Cabo Alonsimar, ambos do PTC. Com certeza da maioria, não será surpresa se votação for 25 a 0.
Pós-Chequinho
Com o enfraquecimento do grupo de Anthony Garotinho (PRP), cuja bancada eleita via Cheque Cidadão foi ferida de morte pela operação Chequinho, o governo Rafael Diniz (PPS) nada de braçada na Câmara. É importante na recuperação de um município deixado em estado falimentar após duas gestões de Rosinha Garotinho (Patri) — inelegível por oito anos após ter suas contas unanimemente rejeitadas no Tribunal de Contas do Estado (TCE). Mas compromete o equilíbrio que seria desejável na relação entre legislativo e executivo. Embora Campos apenas repita a dependência entre poderes que se reproduz em quase todo o Brasil.
Arquitetura
Eleito prefeito após ser destaque de primeiro mandato na oposição legislativa ao último governo Rosinha, Rafael aprendeu bem a lição, se mostrando um negociador hábil com a Câmara. Nisso foi fundamental a participação do seu atual presidente, Marcão Gomes (PR), que vai sair para se candidatar a deputado federal. Por parte do executivo, quem também atua nessa função de costura é o secretário de Governo Alexandre Bastos, conhecedor dos bastidores do legislativo municipal por seu trabalho como jornalista político. Líder da bancada governista, Fred representa a continuidade desse bom trânsito.
Sem capacho
“Nossa expectativa é boa. Como líder do governo, tive proximidade não só com a situação, como com a oposição. Já conversei com Alonsimar e Renatinho. E pretendo fazer o mesmo, antes da votação, com Álvaro, Josiane e Eduardo. Acredito que nossa eleição possa até ser por unanimidade, ainda que respeitemos a opinião de cada um dos 25 vereadores”, disse Fred ontem à coluna. Caso seja confirmado como novo presidente, ele garante que serão mantidas as boas relações com Rafael, de quem é amigo pessoal, mas ressalvou: “só não vou ser um capacho do executivo, como foi Edson Batista (PTB) no governo Rosinha”.
União regional
Irmão da prefeita sanjoanense Carla Machado (PP) e primo do presidente da Câmara de São Francisco de Itabapoana, o vereador Pintinho (Pros), Fred também pretende dar força à atuação regional: “Hoje nós temos municípios da região que estão inadimplentes com a União. E que por isso não podem receber verbas federais de emendas parlamentares a eles destinados. Temos que fortalecer o Parlamento Regional e o Consórcio de Municípios para superar essas dificuldades. Juntos, somos fortes para negociar com a União e o Governo do Estado. Com a ajuda dos legislativos e executivos da região, isso será também meu objetivo”.
Fred Machado, Abdu Neme, Zé Carlos, Marcelo Perfil e Igor Pereira
Foi batido o martelo. A eleição da nova mesa diretora da Câmara de Campos será colocada em pauta na sessão desta quarta (08). E o resultado já parece definido de véspera: Fred Machado (PPS) como presidente; Abdu Neme (PR), vice-presidente; José Carlos (DC), primeiro secretário; Marcelo Perfil (PHS), segundo vice-presidente; e Igor Pereira (PSB), segundo secretário. A expectativa é de uma definição por larga margem entre os 25 votos.
Leia a cobertura completa na edição de amanhã da Folha da Manhã
Num debate do Facebook, por volta das 21h de hoje, um comentarista resumiu o pensamento do eleitorado de Jair Bolsonaro (PSL) sobre a polêmica e reiterada afirmação do candidato: governo do Brasil entre 1964 e 1985 não foi uma ditadura militar. A justificativa é bem simples:
— Patético é ficar remoendo o passado como se fosse o mais importante e esquecermos do presente e futuro. Nosso momento é outro. Bolsonaro presidente.
Na perspectiva histórica de algumas horas antes, durante um almoço na Câmara de Indústria e Comércio de Caxias do Sul (RS), o vice de Bolsonaro hoje esclareceu a ponte que a candidatura parece querer erguer entre passado e presente:
— Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena (…) mas a malandragem é oriunda do africano.
Diante desse exemplo de ilustração histórica, o adjetivo “patético” soa mesmo irrelevante. E a dúvida parece ser: há futuro?
Capaz de diagnosticar doenças, ou reconhecer indivíduos a partir de material obtido de fragmentos de pele, fios de cabelo ou, até mesmo, uma mísera gota de saliva. Os exames de DNA se popularizaram com os programas de TV. Sejam as séries policiais investigativas ou os popularescos e de gosto duvidoso exames de paternidade. O DNA empresta a cada um de nós sequência única de informações, repetida apenas em casos de gêmeos univitelinos. Nenhuma outra pessoa no mundo terá seu DNA repetido, excetuando-se, como dito, os gêmeos idênticos.
A descoberta do DNA em 1953 descortinou todo um novo mundo aos olhos dos cientistas. As pesquisas de doenças e seus tratamentos têm avançado muito. O mapeamento genético tem permitido o aconselhamento quanto a estilo de vida. E até tratamentos mais invasivos vem sendo discutidos e propostos a pacientes com risco ampliado para o desenvolvimento de doenças graves.
No campo forense muitos crimes podem ser, e o têm sido, elucidados quando há técnicas e equipamentos adequados disponíveis. De outro lado, muitas vidas têm sido salvas. Há relatos o bastante de sentenças de morte sendo revistas e indivíduos que cumpriam condenação sendo inocentados para que estas penas sejam repensadas nos países que as aplicam.
O DNA é uma marca de vida individualizada tão forte que mesmo o feto no ventre de sua mãe possui sua própria sequência. Todos as pequenas células da mãe possuem o DNA materno, mas o bebê, não. O feto possui sequência única, diferente da sequência do pai e da mãe. Já seria argumento suficiente para que nenhum desses inocentes estivesse no corredor da morte.
Até o voto na urna daqui a exatamente oito semanas, tudo são conjecturas. Mas difícil pensar e não buscar alternativas entre a esquerda de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a direita de Jair Messias Bolsonaro (PSL).
Na noite sexta (03), entre os presidenciáveis à frente nas pesquisas, o ex-capitão do Exército foi o último entrevistado da semana no programa “Central das Eleições”, da GloboNews. Antes dele, já haviam sido Álvaro Dias (Podemos), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB). E, diante da pressão equânime da mesma bancada de jornalistas sobre os cinco candidatos, Bolsonaro se revelou de longe o mais frágil.
Já na tarde de ontem (04), foi a vez do PT realizar sua convenção nacional. E nela o ex-presidente foi anunciado como candidato, em meio ao frenesi de políticos, artistas, sindicalistas e militantes. Todos usavam máscaras com o rosto estampado de Lula, preso desde 7 de abril após a condenação em segunda instância que o torna inelegível pela mesma Lei da Ficha Limpa que sancionou enquanto presidente.
Enquanto este artigo era escrito, uma zapeada na timeline do Facebook revelou ao acaso duas postagens: uma sobre da outra, relativas a ambos os fatos.
Na primeira, entre as entrevistas de Bolsonaro no Roda Viva da TV Cultura, na segunda (30), e a de sexta, na GloboNews, uma pertinente analogia foi feita pelo advogado goitacá Carlos Alexandre de Azevedo Campos. O ex-assessor do Supremo Tribunal Federal (STF) escreveu (aqui):
“Deixa eu dizer o óbvio.
Tem duas formas de entrevistar Bolsonaro:
— a primeira é criando oportunidades para ele repetir as suas simplicidades de sempre com as quais seus eleitores fiéis regozijam-se;
— a segunda é criando oportunidades para ele responder sobre as complexidades que um presidente deve enfrentar e em relação às quais ele não tem o mínimo racional a dizer.
O primeiro tipo de entrevista não acrescenta nada, a não ser um momento de puro prazer àqueles que, bem ou mal, enxergam hoje a política sob o ângulo restrito das fanfarronices de seu candidato.
O segundo tipo acrescenta muito ao oportunizar que o eleitor, ainda não iludido pelo discurso populista de Bolsonaro, possa concluir o quanto ele é não só despreparado, mas absolutamente fora do seu tempo para governar um país que precisa evoluir em muitos aspectos além de sua pequena caixa de preocupações.
O primeiro tipo de entrevista foi do Roda Viva.
O segundo, da Globonews.
Ontem pude ter certeza: Bolsonaro não é só um fanfarrão ou bobalhão, é uma verdadeira farsa política.”
A outra postagem no acaso do Facebook foi do carioca Ricardo Rangel, diretor da Conspiração Filmes e candidato a deputado federal. Em outra coincidência, ele é o entrevistado (aqui) na página 2 desta edição. Embora nesta tenha sido crítico a Ciro Gomes, sua avaliação sobre o lançamento da candidatura de Lula se aproxima à definição dela feita pelo político cearense: “o PT está numa viagem lisérgica”. Em palavras próprias para conclusão semelhante, disse o Ricardo (aqui):
“Lula está preso e é inelegível. Acaba de ser escolhido candidato a presidente do PT por aclamação. O PT redefiniu o conceito de surrealismo.
Em um momento da convenção, todas as pessoas presentes colocaram uma máscara com o rosto do ex-presidente Lula e gritaram em coro: ‘Eu sou Lula’. Os petistas redefiniram o conceito de mico (e Dalton Trumbo, roteirista de ‘Spartacus’ revirou-se na tumba).
‘Se eles impugnarem a eleição do Lula, a gente vai até o fim’, disse Lindbergh. O PT já chegou ao fim há tempos. Ao fim da picada. Lindi redefiniu o conceito de falta de noção.”
No contraste entre os dois fatos e suas análises, resta a reflexão ao domingo alongado no feriado do Salvador: qual o Brasil para além de Lula e Bolsonaro?
Desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o debate nacional tem sua realidade pautada no mundo virtual. Foi nas redes sociais que um diretor da Conspiração Filmes, de sólida formação cultural, passou a ganhar notoriedade como formador de opinião. E delas saiu para tentar uma vaga à Câmara Federal pelo Novo. Ricardo Rangel se tornou conhecido tanto por suas críticas ao lulopetismo, quanto à sua reprodução em papel carbono na nossa “pior direita”. Ele defende a queda de Dilma — “estava nos levando à destruição” — e a prisão de Lula, enquanto afirma: “Bolsonaro é o candidato mais despreparado que já tivemos”.
(Foto: Divulgação)
Folha da Manhã – Como e por que um sócio-diretor da Conspiração Filmes, maior produtora de audiovisual do Brasil, decide entrar na política, se candidatando a deputado federal?
Ricardo Rangel – Acredito que o Brasil chegou a esta situação calamitosa porque as pessoas decentes e comuns da sociedade civil se afastaram da política. Quanto menos nos envolvemos, pior a política fica. E quanto pior fica, menos queremos nos envolver. Para romper esse círculo vicioso, é preciso que as pessoas decentes e comuns voltem a se envolver em política. Daí minha decisão. Naturalmente, contou na decisão o fato de eu estar num momento da vida que me permite isso.
Folha – Com o advento do Facebook, você se tornou um formador de opinião do novo mundo virtual. A partir de 2014, com o início da operação Lava Jato e a acirrada disputa presidencial entre Dilma e Aécio, redundando no impeachment da primeira dois anos depois, você se tornou conhecido como severo crítico do lulopetismo. O Brasil ficou melhor com a queda de Dilma, a ascensão de Temer e a prisão de Lula?
Ricardo – Digamos que acho que o Brasil está melhor do que estaria se tivéssemos continuado no caminho em que estávamos. Dilma estava nos levando à destruição. Temer, num primeiro momento, foi positivo, conseguiu aprovar coisas importantes como o teto de gastos e a reforma trabalhista. Depois da gravação do Joesley, entretanto, Temer se tornou um morto-vivo, incapaz de fazer coisa alguma. E o país está imobilizado desde então. Quanto a Lula, sua prisão é boa no sentido de que é bom que se cumpra a lei, o que não é comum no Brasil. A lamentar apenas a recorrente narrativa fantasiosa do golpe, que dificulta a reconciliação entre petistas e não-petistas.
Folha – Inegável que o Brasil teve avanços sociais nos 13 anos de administração petista. Mas, economicamente, passou a errar já no segundo governo Lula, com o PIB elevado a “chineses” 7,53% em 2010, para eleger Dilma a primeira vez. A conta veio com desemprego, fechamento ou encolhimento das empresas e maquiagem de números, inclusive nas famosas “pedaladas fiscais”, que levaram ao impeachment e à maior recessão da nossa história recente. James Carville, estrategista de campanha do ex-presidente estadunidense Bill Clinton, estava certo: “é a economia, estúpido?”
Ricardo – Os 7,53% do PIB em 2010 foram o refluxo do crescimento zero em 2009, resultado da crise global decorrente da bolha imobiliária nos Estados Unidos. Na média daqueles anos, o Brasil cresceu menos do que os Brics e a América Latina. Mas, voltando para o Jim Carville, eu acho que ele tem razão: a economia continua sendo o principal, especialmente num país com as dificuldades do nosso. A corrupção deixa todo mundo indignado, mas o escândalo do Mensalão não impediu Lula de se reeleger em 2006. E a Lava Jato não impediu Dilma de se reeleger em 2014. Se não estivéssemos em recessão, não teria havido impeachment.
Folha – A inteligência política de Lula é inegável. Por isso mesmo, acredita que seu maior erro foi escolher Dilma como sua sucessora? E da ex-presidente, entre tantos equívocos, seu maior foi manter Guido Mantega na Fazenda e aumentar a aposta no nacional-desenvolvimentismo? Ou foi sua tentativa de girar 180º com o liberal Joaquim Levy, tentando salvar o que já parecia perdido no começo do seu segundo governo?
Ricardo – Sim, a escolha de Dilma foi o maior erro de Lula. Ele tem isso de não deixar ninguém sobressair, queria alguém que ele pudesse controlar. Mas há uma parte que é o imponderável. Ninguém sabe como teria sido a relação de Lula com Dilma, se ele não tivesse tido o câncer. Quanto a Dilma, seu maior erro não foi Mantega, Mantega apenas fazia o que ela mandava. E Levy era um dois de paus, nunca mandou nada. O Brasil não mudou de rumo com sua nomeação. O maior erro de Dilma foi sua própria arrogância. Ela não ouve ninguém, e, quando erra, insiste no erro até o fim.
Folha – Na última quarta (01), o presidente do TSE, ministro Luiz Fux, negou um pedido de inelegibilidade de Lula. Mas antecipou (aqui) seu juízo sobre a condição do ex-presidente, enquadrado pela Lei da Ficha Limpa: “inelegibilidade chapada”. Após o abraço de afogado no governo Dilma, a esquerda brasileira se deixa arrastar em outro mergulho profundo na insistência com Lula?
Ricardo – Sem dúvida. A insistência de Lula em lançar sua própria candidatura, e o atraso em escolher outro candidato, pode ser um golpe de misericórdia no PT. Já o acordo com o PSB parece ter inviabilizado Ciro. A esquerda que defende Lula, incluindo Ciro, vai se tornando menos relevante. Sobra a esquerda independente, de Marina, que tem suas próprias dificuldades.
Folha – O primeiro marco capital das redes sociais na vida pública se deu na eleição de Barack Obama à presidência dos EUA, em 2008. Depois, entre 2010 e 2012, a Primavera Árabe balançou o mundo islâmico em três continentes. No Brasil, o fenômeno se repetiu nas Jornadas de Junho de 2013, prenúncio do que aconteceria entre 2015 e 2016, quando as ruas impuseram o impeachment de Dilma. No novo método, a direita brasileira superou a esquerda, que perdeu as ruas e o poder?
Ricardo – Acho que qualquer afirmação sobre a direita brasileira é enganosa, porque ninguém sabe mais o que é direita. No Brasil, parece que qualquer coisa que não seja o PT e seus satélites é direita. Vai de Bolsonaro ao PSDB, o que, claro, não faz sentido nenhum. Ou não deveria fazer. “Esquerda” virou uma espécie de marca fantasia para designar todo mundo que defende Lula. Mas creio que o importante, tanto em 2013 como agora, é que a população está dando um recado de profunda insatisfação com a situação que vivemos e com os políticos. O voto em Bolsonaro é menos a favor dele do que contra todo o resto.
Folha – Protagonista dos protestos pelo impeachment, o MBL depois enveredou por outras questões polêmicas, como a cruzada contra a arte e os artistas brasileiros (aqui) em 2017. Agora, em 2018, a pouco mais de dois meses da eleição, o movimento teve (aqui) 196 páginas do Facebook e os 87 perfis falsos que as operavam excluídos. Seus defensores acusaram “censura” e comemoraram um pedido de explicação do MPF de Goiás. Não é irônico que quem prega menos intervenção do Estado na iniciativa privada, celebre uma ação do Estado (o MPF) sobre a empresa de Mark Zuckerberg?
Ricardo – Claro, não faz sentido nenhum. Ou bem você acha que o Facebook é uma empresa como outra qualquer, e os usuários que se consideram lesados por conta de quebra de contrato que entrem na Justiça, sem que o MPF tenha nada com isso; ou bem você acha que o Facebook deve ser regulado. Neste caso, quem regula é uma agência, de acordo com legislação criada pelo Congresso, e o MPF continua não tendo nada com isso. O MBL, assim como a maioria dos autoproclamados liberais brasileiros, nada tem de liberal.
Folha – Com a recessão, a Lava Jato e a ameação de impeachment, o PT passu a investir no conceito marxista da “luta de classes” como argumento de defesa. E, na base do “nós contra eles”, reproduziu em papel carbono esse radicalismo histérico de direita. Também não é irônico que um conceito europeu do séc. XIX, aplicado pela esquerda ao Brasil do séc. XXI, tenha estimulado o crescimento de uma direita que lembra o pior produzido pelo homem no séc. XX?
Ricardo – O PT, Lula em particular, sempre teve a atitude do “só nós somos virtuosos”. Ele investe no “nós x eles” desde a eleição de 1989. É dos maiores desserviços que faz ao país. Insistir nisso é ridículo, especialmente depois do que a Lava Jato revelou. Sim, é uma ironia, mas a esquerda é a maior responsável pelo crescimento da pior direita que temos.
Folha – A sabatina de Jair Bolsonaro (PSL) no Roda Viva, na última segunda (30), foi (aqui) um sucesso estrondoso de público, superado apenas pela entrevista do juiz federal Sérgio Moro ao programa. No dia seguinte, saiu uma pesquisa do instituto Paraná que colocou Bolsonaro atrás só de Lula, com diferença de 7,2 pontos percentuais. Sem Lula, o ex-capitão do Exército liderou com diferença média de 10 pontos à frente de Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT), empatados tecnicamente na margem de erro. A oito semanas das urnas, é possível projetar um segundo turno sem Bolsonaro?
Ricardo – Só há uma única previsão que eu me permito fazer. Mesmo assim, com muita cautela, porque há petistas, como Jacques Wagner, que ainda tentam um acordo com o PDT. Mas o que acho é que Ciro e o PT estarão fora do segundo turno. Ciro por sua espantosa capacidade de autodestruição e o PT por sua subserviência a Lula. Quanto mais o PT demorar para anunciar seu candidato, menos votos terá. E menos importante se tornará. Agora mesmo, o Centrão, que apoiou Lula e Dilma, fechou com Alckmin, em parte por não saber quem é o candidato do PT. A insistência em fazer o que é bom para Lula, em vez de fazer o que é bom para o partido, pode ser a destruição do PT.
Folha – Em outubro do ano passado, antes de Lula ser preso, mas já seguido por Bolsonaro nas pesquisas, o repórter estadunidense Ryan Lizza, da revista New Yorker, advertiu (aqui) em passagem pelo Brasil: “É interessante que os jornalistas americanos tenham subestimado Donald Trump. O que me perguntam é se o público ou a mídia deveriam levar a sério candidatos bizarros como ele. Minha resposta é: sim, nós temos que levar essas pessoas a sério”. Como avalia Trump e o comportamento da imprensa brasileira, bastante criticado no Roda Viva, com Bolsonaro?
Ricardo – Considero que Trump e Bolsonaro têm muito em comum: são toscos, despreparados, clowns e vestem o figurino de outsider, que não cabe bem em Bolsonaro. Acho o comportamento da imprensa com Bolsonaro, e já digo isso há mais de um ano, lamentável. Bolsonaro é um candidato competitivo, e deve ser tratado como tal. A imprensa parece querer desmascará-lo, inviabilizá-lo, o que é um erro duplo. Primeiro porque é tendencioso, pouco profissional. Segundo porque é contraproducente: a melhor maneira de desmascará-lo é fazer-lhe perguntas honestas e deixá-lo responder. Bolsonaro é o candidato mais despreparado que já tivemos.
Folha – Presidenciável do seu partido (Novo), João Amôedo chegou ao máximo de 1,1% de intenção de voto, nos três cenários da pesquisa Paraná. Como parece impossível que ultrapasse o primeiro turno, qual deveria ser o objetivo real da candidatura até lá? Visto que Bolsonaro apresenta uma proposta liberal da economia, com seu “Posto Ipiranga” Paulo Guedes, é possível que o Novo o apoie num eventual segundo turno contra Marina ou Ciro?
Ricardo – Creio que o principal objetivo da candidatura deveria ser eleger o maior número de deputados federais. Não considero que Bolsonaro apresente uma proposta liberal em campo nenhum. Ele passou a vida sendo a favor de um Estado grande, autoritário e intervencionista. Essa roupa de liberal não lhe cabe, e volta e meia ele deixa isso claro. Ninguém prestou atenção no que Bolsonaro disse de mais preocupante: se Paulo Guedes sair, o que acho certo que aconteça, ele não sabe o que fazer. Eu não sou dirigente do partido, nem falo em seu nome, mas acho improvável que, no caso de Amoedo não passar ao segundo turno, o partido apoie alguém.
Folha – Além do Roda Viva, a GloboNews dedicou a semana a sabatinar (aqui) os presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas. Esta pauta está sendo feita antes das duas últimas: Geraldo Alckmin, na quinta (02), e Bolsonaro, na sexta (03). Mas nas três primeiras, Marina e Ciro tiveram desempenhos consistentes. Como são os dois mais próximos a Bolsonaro nas pesquisas, como os enxerga?
Ricardo – Ciro é um homem inteligente e preparado, mas com ideias arcaicas, de 50 anos atrás. Sem falar que é autoritário e destemperado, não agrega. Se fizer o que promete, levará o país para trás. Mas, como mente muito, ninguém sabe o que realmente fará. Marina é uma mulher inteligente, democrata legítima, que agrega e respeita os outros, com uma história de superação. Mas ainda tem o ranço da esquerda, apresentando dificuldade com itens da agenda de modernização, como reforma da Previdência, reforma trabalhista, privatização etc. A maior dificuldade de Marina é com a tomada de decisão, falta-lhe firmeza. Marina é melhor para o Brasil, e tem mais chance, até porque Ciro tende a se autodestruir.
Folha – Sem decolar nas pesquisas, Alckmin se aliou ao Centrão. Por isso terá bem mais tempo de TV que os demais candidatos. Mas o tucano levou consigo o que há de mais fisiológico na política brasileira. Os líderes do Centrão sequer escondem que é uma tentativa de sobrevivência de quem está encurralado pela Lava Jato. Por esses entorno e objetivo, a candidatura de Alckmin não se torna também um risco à democracia?
Ricardo – Não sei se se torna um risco à democracia, ou, pelo menos a esse tipo de democracia que temos há um bom tempo. Afinal, é mais do mesmo, mais presidencialismo de cooptação. É certo que é difícil acreditar que podemos avançar com qualquer um dos pontos necessários ao país. Há quatro candidatos em primeiro lugar. Bolsonaro e Ciro representam o atraso, cada um de uma maneira. Curiosamente, são mais parecidos do que gostam de admitir. Quem acredita que Bolsonaro deixou de ser o autoritário intervencionista que sempre foi e se tornou um liberal? Marina ainda não abandonou alguns ideais arcaicos, e continua com dificuldade para falar com tranquilidade de temas como privatização, reforma da Previdência. Alckmin é quem tem a agenda mais modernizadora, mas é apoiado pelo que há de mais atrasado no país.
Folha – Você foi francamente favorável à intervenção militar na Segurança do Estado do Rio. Ela não tem o apoio de nenhum dos presidenciáveis à frente nas pesquisas, nem Bolsonaro, e até hoje não conseguiu sequer esclarecer o assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes. Não foi um fracasso?
Ricardo – Eu já era favorável a uma intervenção desde mais de um ano antes, já que o governador não tem a capacidade de governar há tempos. Discordo da expressão “intervenção militar”, já que intervenção ocorreu dentro das provisões constitucionais, decidida por um presidente civil, a cargo de um ministro civil. A intervenção teve muitos erros: deveria ter sido completa, destituindo o governador; o interventor não deveria ser militar; foi improvisada e decidida por motivos eleitoreiros. Mas não fazer nada, deixar como estava, me parecia pior. Dito isso, é difícil dizer que a intervenção não é um fracasso, já que se passaram quatro meses e continua tudo na mesma, ou pior.
Folha – O Novo terá candidato próprio a governador do Rio: Marcelo Trindade. Caso se confirme a polarização anunciada entre Eduardo Paes (DEM) e Romário Faria (Pode), com quem o partido caminharia?
Ricardo – A campanha ainda nem começou, e Marcelo vai surpreender quem não o conhece. Vamos deixar para atravessar essa ponte se e quando chegarmos ao rio.
Se, como vimos no artigo anterior, os comunistas adulteraram o socialismo crítico de Marx&Engels em prol do socialismo mítico das mais variadas tendências — do stalinismo ao bolivarianismo, passando pelo petismo —, os socialdemocratas fizeram o mesmo em prol de um realismo político de resultados incertos: infecundos quando as crises do sistema capitalista polarizavam a sociedade, fecundo quando a normalidade política adversa (guerra fria) obrigou concessões aos trabalhadores.
No primeiro caso, o alinhamento nacionalista do pré-I Guerra (1914-1918) — motivado, entre outras coisas, por conquistas econômico-sociais, no âmbito nacional, derivadas da institucionalização ocorrida nas décadas anteriores — levaria à divisão do movimento dos trabalhadores entre reformistas e revolucionários, no segundo, o pacto social-liberal (welfare state) possibilitou o funcionamento de um sistema semirregulado que levou as sociedades ocidentais ao maior nível de igualdade desde o advento do capitalismo. O novo pacto funcionaria bem até os anos 1970, quando os sucessivos choques do petróleo, os avanços tecnológicos e a aceleração da globalização das cadeias produtivas — com intensa participação nipônica, entre outras —, criaram as condições para a poderosa fuga de capitais oriundos dos EUA e da Europa, que agora ameaçam sua prosperidade.
Se Eduard Bernstein (1850-1932) iniciara a formulação de suas teses revisionistas, a partir do exílio londrino de 1888, sob as vistas de Engels, tentando manter os liames da política social-democrática com uma teoria socialista não-utópica, propondo o debate público, a partir de 1899[i], acerca das evidências de que o capitalismo não só era capaz de superar suas crises, como também de alcançar graus ainda mais elevados de desenvolvimento — ao contrário da previsão de Marx&Engels, o que apontava novos desafios ao movimento operário, agora no sentido do reformismo —, a reação do PSD alemão e de Karl Kautsky (1854-1938) — principal teórico marxista depois da morte de Engels — fora, antes, de garantir, respectivamente, uma prática sem teoria (empirismo) e de manter a “doutrina marxista” relativamente protegida da prática socialista — concepção que Lênin adotou em direção oposta, ou seja, assentando a ação numa “doutrina” com ares de crença.
Se com Bernstein, malgrado as divergências possíveis, temos a tentativa de manter a teoria viva guiando a ação política — a grande inovação marxista fora, exatamente, como já se disse, a de situar a ação socialista no âmbito do desenvolvimento histórico objetivo revelado pelo materialismo-histórico —, na resistência ortodoxa de Kautsky e na abstinência intelectual sindical, o mal, que amoleceria a racionalidade crítica na social-democracia desde então, seria de pensar as conquistas populares no seio do capitalismo como mera forma de ampliação do Estado, sem levar em conta que a manutenção de sua configuração capitalista tornaria as conquistas obtidas não apenas relativamente superficiais, como essencialmente provisórias, à depender das injunções do capitalismo internacional e dos rearranjos geopolíticos.
Não obstante, a pax social-democrática se impôs no pós-II Guerra (1939-1945), apesar da associação difícil com um liberalismo até então liberista — exclusivamente guiado pelo mercado —, e beneficiado pelo fato de que a tragédia civilizatória do stalinismo na Rússia desarmou qualquer possibilidade de uma alternativa comunista no Ocidente, levando os movimentos comunistas de resistência ao fascismo a se desarmarem em benefício do novo pacto democrático, onde eles comporiam uma oposição partidária ativa, embora minoritária, e um movimento sindical de maioria comunista fadado a reforçar a legitimidade do novo regime.
De fato, o único país onde os comunistas foram capazes de superar o tímido papel de coadjuvantes, a que o novo sistema os condenara, foi na Itália, onde, sob a liderança de Palmiro Togliatti (1893-1964) e a inspiração de Antonio Gramsci (1891-1937), o PCI foi capaz de desenvolver uma política de assimilação da democracia-liberal mantendo seus laços com o sindicalismo e uma relativa distância — não obstante insuficiente — da URSS, mesmo tendo seu caminho ao poder obliterado pelo veto branco à participação em governos ao preço, como mostrou posteriormente a Operação Mãos Limpas, de uma corrupção generalizada no âmbito do Estado.
Nada disso, porém, serviu como anteparo à social-democracia quando a crise econômica corroeu as bases de seu pacto social a partir dos anos 1980, levando à onda neoliberal que não apenas abalou seu prestígio eleitoral, mas levou-a a adotar políticas econômicas semelhantes à dos conservadores, contra os interesses sindicais, na tentativa de não perder as bases pluriclassistas conquistadas nas três décadas anteriores.
Ao cabo, o aprofundamento da crise fez emergir novas forças políticas de esquerda dos escombros do comunismo e da SD, mas elas têm manifestado, até aqui, alguns dos velhos cacoetes irracionalistas já conhecidos — em nova roupagem (“pós-moderna”) — que, em pleno revival da crise no seio do capitalismo ocidental, os obriga a um certo retomo aos temas do socialismo de Marx&Engels, embora sem qualquer compromisso com sua teoria crítica, que implicaria esquadrinhar as razões do malogro da esquerda até aqui, seja da experiência soviética ou do esgotamento da fórmula social-democrática, o que abre margem não só para a repetição de velhos métodos esquerdistas (a doença infantil), como também para a reaparição de equívocos políticos que sinalizam grave incompreensão da história e abrem margem para o transformismo das forças políticas tradicionais, inclusive a reemergência da extrema-direita adormecida desde a derrota do nazifascismo.
O apoio de grande parte desta neoesquerda ao chavismo e ao orteguismo — para não falar do lulopetismo — lança sombras tenebrosas sobre nossa capacidade de aprender com a história, visto que estes movimentos da periferia ocidental nada mais são que manifestações atávicas de um século de modernizações periféricas dependentes do imperialismo, que nos legou a atrofia do desenvolvimento político e econômico não só da burguesia, como do operariado e das camadas médias tecno-industriais, encetando os modelos capitalistas híbridos da América-Latina com seu vasto cabedal de desigualdades combinadas, hipostasiadas em ampla carência econômica e profunda dualidade civilizatória.
Neste sentido, a adesão tardia a uma social-democracia em declínio não oferece à esquerda brasileira nenhum antídoto à trágica realidade do “socialismo do século XXI”; antes, oferece-lhe ainda mais espaços para reproduzir-se em meio a um pensamento social prisioneiro de utopias resilientes às duras lições da história.
[i] Vide Socialismo Evolucionário, ed. Zahar-ITV/RJ, 1997, passim.
Concluída agora há pouco a entrevista de Jair Bolsonaro (PSL), a GloboNews fechou o primeiro ciclo do programa “Central das Eleições” com os cinco presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas. Na segunda, foi Álvaro Dias (Podemos); na terça, Marina Silva (Rede); na quarta, Ciro Gomes (PDT); na quinta, Geraldo Alckmin; e Bolsonaro entre ontem e hoje.
Álvaro Dias foi o sabatinado mais prejudicado, por ser o primeiro, com a fórmula do programa ainda aparando as diferenças entre planejamento e prática. Os entrevistados mais consistentes foram, sem dúvida, Marina e Ciro, concorde-se ou não com as suas ideias. Alckmin foi talvez o mais equilibrado, mas a empolgação que gerou fez jus ao apelido “picolé de chuchu”.
Quanto a Bolsonaro, aos eleitores que o colocam em primeiro lugar nos cenários sem Lula, talvez não signifique nada dizer que foi o candidato mais frágil entre os cinco entrevistados. Mas, depois de hoje, é difícil acreditar que crescerá nos índices de intenção de voto que já atingiu nas pesquisas. Entre as mulheres, depois do que declarou ao vivo sobre feminicídio e diferenças salariais entre gêneros, deve ser impossível. Ainda assim, mantém razoável dianteira na briga por uma das duas vagas ao segundo turno.
Talvez com base no polêmico e popular Roda Viva com o ex-capitão do Exército, exibido na segunda, os jornalistas da GloboNews não cometeram os mesmos erros dos seus colegas na TV Cultura. No primeiro bloco, Bolsonaro não foi mal como no segundo e quarto. Mas foi no terceiro que suas limitações ficaram mais evidenciadas. Tão desnudas quanto seus pulsos, entre as duas mangas abertas da camisa a pontuar a atuação confusa.
O improviso do candidato chegou ao ponto dele ficar na dúvida sobre uma questão capital: a privatização da Petrobras. Embora tenha defendido a importância estratégica da estatal dilapidada pela corrupção nos 13 anos de governo PT, ele aparentemente definiu a questão num rompante de momento: se não abaixar o preço do diesel, será privatizada. Simples assim.
Como não há soluções simples para questões complexas, a GloboNews também se expôs ao embaraço público. No decorrer da entrevista, Bolsonaro não escondeu o prazer ao repetir de cor um trecho do editorial do falecido jornalista Roberto Marinho, em apoio ao golpe civil-militar de 1964. Já havia feito o mesmo no Roda Viva. Mas na emissora da família Marinho, obrigou a mediadora Miriam Leitão a balbuciar a resposta em um teleprompter tão lento quanto constrangedor.
Foi um ponto para Bolsonaro. Mas, se ele não se submeter rapidamente a um condicionamento mais rigoroso do que em seus tempos do Exército, terá dificuldade de ampliar suas intenções de voto para além dos já convertidos. A ver…