Campanha de Haddad tenta se pintar do Brasil que cedeu a Bolsonaro

Desde ontem era possível notar nas redes sociais que parte dos anúncios de campanha de Haddad trocou o vermelho do PT pelas cores nacionais: verde, amarelo e azul. Hoje, foi anunciado que, com a entrada de Jaques Wagner na campanha, até a imagem e o nome de Lula foram retirados da propaganda petista no segundo turno.

Wagner é ex-governador da Bahia, pela qual se elegeu senador no dia 7. A votação que ele deu a Haddad no Estado foi a principal causa para Bolsonaro não ter liquidado a fatura ainda no primeiro turno. Antes, o líder baiano havia sido a única voz do PT que ousou questinoar os ditames Lula, ao buscar a aliança do partido com a vice na chapa de Ciro Gomes.

As manifestações femininas do “#EleNão” de 29 de setembro levaram muitas cores às ruas e praças do país, mas nenhum verde, amarelo ou azul. Na Praça São Salvador, o único manifestante que apereceu com uma bandeira do Brasil chegou a ser confundido com eleitor de Bolsonaro — que aumentou consideravelmente seu voto entre as mulheres após o evento.

Por arrogância, ressentimento e desinteligência, a oposição a Bolsonaro abriu mão das cores da bandeira nacional para os militantes do capitão. E, segundo as urnas revelaram, deixaram junto o Brasil. Mesmo que Haddad agora consiga reunir o apoio de Ciro, Marina Silva e Fernando Henrique Cardoso, tudo indica que é tarde demais para recuperar o país. O caminho parece bem mais longo que o próximo dia 28. E certamente mais difícil.

Na dúvida, a pesquisa Datafolha hoje divulgou (aqui) sua primeira pesquisa para o segundo turno presidencial. Contabilizados os votos válidos, deu: Bolsonaro 58% x 42% Haddad.

 

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Elio Gaspari — O rancor produzido pela onipotência virou veneno

 

Elio Gaspari, jornalista e escritor

Jaques Wagner entra em campo

Por Elio Gaspari

 

Fernando Haddad e o comissariado petista querem costurar uma “frente democrática” para derrotar Jair Bolsonaro e puseram em campo o ex-ministro e ex-governador da Bahia, Jaques Wagner. Se conseguirem, no mínimo, levantam o nível da campanha.

Wagner é competente e seu desempenho na Bahia comprova isso. Governou o estado de 2007 a 2015, elegeu o sucessor que, por sua vez, acaba de se reeleger. Se lhe faltasse credencial, no início do ano defendia uma chapa com Ciro Gomes e Haddad na vice. Foi atropelado pelo oráculo de Curitiba, recolheu-se e foi tratar de sua campanha para o Senado.

As duas principais pontas dessa costura são Ciro Gomes e Fernando Henrique Cardoso. Ciro tem um capital eleitoral e já disse que “ele não”. Ainda falta que entre na campanha de Haddad. Ele seria um corpo estranho no estilo que Haddad apresentou no primeiro turno. A questão será saber em que tipo de campanha e de propostas cabem os dois.

Só o tempo dirá onde o PT estava com a cabeça quando atropelou-o e, sobretudo, quando Dilma Rousseff descumpriu a palavra dada ao irmão de Ciro, que lhe oferecia uma cadeira de senadora pelo Ceará. Roberto Mangabeira Unger, velho amigo dos Gomes, já conversou com Haddad.

A ponta de Fernando Henrique Cardoso é mais delicada. Ele está fechado em copas, numa dupla negativa: “Não concordo com o reacionarismo cultural e o descompromisso institucional de uns vitoriosos e tampouco com a corrupção sistêmica e com o apoio ao arbítrio na Venezuela e em outros países”. Para tirá-lo dessa posição será necessária muita conversa. Mesmo assim, FHC sabe o peso biográfico de um eventual silêncio. São duas costuras possíveis para Jaques Wagner.

Uma parte do fenômeno Bolsonaro saiu do rancor petista, da eternizada adoração oracular a Lula e, sobretudo, da resistência dos comissários à autocrítica. Muitas pessoas podem até votar em Haddad, mas se o preço for defender a moralidade petista no balcão de uma lanchonete acabam votando no capitão. O rancor produzido pela onipotência virou veneno e ainda está lá.

Mesmo depois do massacre de domingo, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, disse o seguinte: “Nós vamos fazer um chamamento a todos os democratas. (…) Não temos restrição, se as pessoas tiverem noção do que está em jogo no Brasil e defenderem a democracia têm que estar nessa caminhada.”

Quem a ouvisse acreditaria que falava a uma plateia de militantes. “Têm que estar”, por que, cara pálida? A causa democrática não precisa do toque de clarim do PT, é justo o contrário.

A ideia segundo a qual o programa do PT precisa apenas de ajustes é suicida. Quem propõe uma frente democrática não fala essa língua, até porque felizmente os comissários já jogaram no mar a proposta de uma Constituinte. A maior frente já construída na política brasileira foi a das Diretas-Já, de 1984. Nela entrou até Tancredo Neves que, com fina percepção, a considerava “necessária, porém lírica”.

Na sua fala ao Jornal Nacional, Jair Bolsonaro desautorizou a sugestão de Constituinte de sábios e a referência ao “autogolpe” de seu vice Hamilton (e não Augusto) Mourão. Fica combinado assim. Faltou esclarecer o significado de uma frase na sua saudação de domingo: “Vamos botar um ponto final em todos os ativismos do Brasil”.

Sem ativistas não há democracia. Não existiriam o PT, nem o PRTB de Levy Fidelix com seu aerotrem. Bolsonaro também precisa de um filtro moderador, mas talvez a banda golpista de seu eleitorado nem o queira.

 

Publicado hoje (aqui) na Folha de São Paulo

 

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Juristas de Campos analisam ameaça de Witzel de prender Paes

 

 

Compromisso com a Constituição

No dia seguinte ao primeiro turno, os candidatos a presidente Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) tranquilizaram quem teme pelo país, independente do vencedor do segundo turno. Ao Jornal Nacional, ambos garantiram o compromisso com a Constituição Brasileira, que tentarão reformar apenas pelo recurso nela previsto das emendas. As dúvidas eram pertinentes, após o general Hamilton Mourão (PRTB), vice de Bolsonaro, declarar que uma nova Constituição poderia ser feita sem a participação de representantes eleitos. Sem contar o projeto de governo do PT, que previa uma nova Constituinte, só agora descartada por Haddad.

 

“Traidor da pátria”

Ainda vai demorar para que se compreenda o grito de “basta” do eleitor no domingo. À espera do seu último ato, esta eleição talvez signifique o fim do Brasil da Nova República, construído a duras penas após a ditadura militar (1964/85). Último líder daquele período ainda na ativa na política nacional, mesmo preso desde 7 de abril, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) parece sido superado por quem melhor soube encarnar o anti-Lula: Bolsonaro. Mas, acima dos personagens, o roteiro da Constituição precisa ser preservado. Como setenciou o ex-deputado Ulysses Guimarães ao promulgá-la há 30 anos: “traidor da Constituição é traidor da pátria”.

 

Facadas

O problema parece ser a queda das máscaras com a vitória esmagadora do antipetismo nas urnas. E o rosto deformado que isso revela. Em Salvador, na madrugada de segunda, o mestre capoeirista Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, foi morto com 12 facadas pelas costas. O motivo? Ele disse ao seu assassino, o barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana, que era contrário a Bolsonaro. À exceção do desfecho, como diferenciar o crime bárbaro da facada que o próprio Bolsonaro levou no abdômen, enquanto era carregado por seus militantes nas ruas de Juiz de Fora, desferida covardemente pelo ex-militante do Psol Adélio Bispo de Oliveira?

 

Bolsonaro e Witzel

O país caminha em limite tênue entre o contraditório, fundamental à democracia, e a violência. Na demanda de equilíbrio, não ajuda a declaração dada ontem por Bolsonaro, que voltou a chamar Haddad de “canalha”. Muito menos o ex-juiz federal Wilson Witzel (PSC), que ontem ameaçou dar voz de prisão a Eduardo Paes (DEM), seu adversário no segundo turno a governador do Rio, caso este utilize nos debates o que julga serem fake news. Bolsonaro teve a lupa nacional sobre si desde que se revelou presidenciável competitivo, há um ano. Witzel, que cresceu espantosamente nos últimos dias antes da urna, só agora está no foco.

 

Delegado resolve

Sobre a ameaça do ex-magistrado, que Paes considerou autoritarismo, a coluna ouviu ontem alguns juristas. Para o promotor estadual Victor Queiroz, a decisão caberia ao delegado de Polícia ao qual o caso fosse encaminhado: “O crime de injúria visando à propaganda eleitoral está previsto no artigo 326 do Código Eleitoral. Há também o crime de injúria genérico, previsto no artigo 140 do Código Penal. Tratam-se de delitos de menor potencial ofensivo. É o delegado de Polícia quem vai deliberar sobre a lavratura do termo circunstanciado ou do auto de prisão em flagrante, e não o agente policial ou o cidadão que optou por conduzir o autor do fato”.

 

Carteirada antidemocrática

Advogado do Grupo Folha, João Paulo Granja chamou a ameaça de Witzel de “carteirada”: “Em relação ao recente vídeo onde o candidato Wilson Witzel afirma que promoverá a prisão do também candidato Eduardo Paes, caso venha a ser injuriado no debate. Trata-se de grosseiro equívoco jurídico, provavelmente derivado do acirramento da disputa eleitoral para o governo do nosso Estado. Inexiste prisão em flagrante delito em crime de menor potencial ofensivo, como no caso. É certo, ademais, que Witzel não mais ocupa qualquer cargo público, conferindo cores mais fortes à antidemocrática e ilegal ‘carteirada’ prometida”.

 

Desvestir a toga

Advogado criminal, Felipe Drumond analisou a ameaça como representante da OAB-Campos: “A prisão em flagrante seria de difícil implementação por se tratar de crime de menor potencial ofensivo. A lei veda o auto de prisão em flagrante se o acusado se comprometer a comparecer à Justiça, mas autoriza que seja conduzido coercitivamente à delegacia. A menção, por Paes, de fatos classificados por Witzel como ofensivos não seria suficiente para prisão. Em debates políticos, é comum que eventos desonrosos sejam mencionados com a intenção de informar o eleitor”. Favorito como candidato, Witzel precisa desvestir a toga. E descalçar o salto.

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

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Joseli Mathias — Os brasileiros sairão perdendo

 

(Igo Estrela/Estadão Conteúdo)

 

 

Por Joseli Mathias(*)

 

Nesses últimos 17 anos, a data da eleição sempre foi, para mim, um dia de grande empolgação, tanto pelo dever cívico, quanto pelo meu papel como jornalista. Mesmo após meses de trabalho duro durante uma campanha eleitoral e sabendo que o dia D não tem hora para acabar, eu chegava à redação animada, com intensa carga de adrenalina correndo na veia. Ontem, entretanto, o dia foi cinza, e não só pelo tempo chuvoso, que parecia emoldurar nosso futuro. Antes de seguir para o jornal, fui à urna deixar meu voto, mas com a sensação de batalha perdida. Já sabia que não faria diferença em um cenário tão polarizado, mas não aceitava me render ao “voto útil”.

Apesar de fazer o que amo, o dia foi sombrio e senti que grande parte dos meus colegas de trabalho compartilhava essa impressão. E, ao final, foi ainda mais desconcertante, não só por enxergar um beco sem saída para o meu país, mas por ver nas redes sociais a reação à confirmação de um segundo turno.

Os ataques ao povo nordestino me enojaram, como me enoja e revolta a batalha desonrosa que usa a troca de insultos e de ameaças para tentar eleger seu candidato, cada um em defesa de seus interesses particulares e nunca pelo bem coletivo.

A campanha de 2018 me revelou muita coisa, além da triste constatação da cultura de ódio tão próxima. Como a deprimente prática de militantes dos dois extremos imputarem a si uma superioridade que não têm, mas ao fazer campanha se concentrarem em desconstruir o outro candidato ao invés de focar em valorizar as propostas do seu. É irônico e o que mais se vê nas ruas e no ambiente virtual.

Tão irônico quanto o fato de os eleitores mais extremistas de Bolsonaro serem, na realidade, crias rebeldes do PT. Porque a campanha do capitão não teria tomado tamanha proporção se não fosse a ingerência do PT e a institucionalização da corrupção pelo partido fundado sobre ideais democráticos e que, caso vença o segundo turno, não deixará o Brasil em situação mais confortável que a proposta pelo adversário. Em qualquer um dos dois cenários, nós, brasileiros, sairemos perdendo. E, mesmo quem hoje não enxerga, logo perceberá que falhamos, mais uma vez.

Não tenho hábito de postar sobre política na minha rede social, mas é um desabafo de uma pessoa que não sabe o que nos espera ali na frente, como mulher, jornalista, esposa e mãe de cidadãos pretos e nordestinos e amiga de cidadãos gays e lésbicas, mas também como uma cidadã que não quer mais ver o Brasil afundado em corrupção.

 

(*) Jornalista, editora do Folha 1

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

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Igor Franco — Terremoto nas urnas

 

(Foto: Reuters)

 

 

O Brasil acordou diferente na última segunda. Com a taxa de renovação na casa dos 52% na Câmara e de 85% no Senado, teremos o Congresso com mais caras novas desde a redemocratização. Com uma performance avassaladora, o PSL, partido de Bolsonaro, elegeu 52 deputados e passou de um dos menores partidos da Câmara para o segundo maior partido na Casa do Povo. A surpresa passou pela rejeição de candidatos coroados pelas reiteradas pesquisas. Dilma, Suplicy, Romero Jucá, Roberto Requião, Eunício Oliveira, César Maia, entre outros, foram apenas alguns dos figurões que estavam eleitos pelos institutos de pesquisa. Estes últimos também foram incapazes de perceber a ascensão fulminante de Wilson Witzel no Rio de Janeiro, que terminou a eleição próximo da maioria dos votos válidos. Analisada de modo amplo reflete uma rejeição massiva dos políticos tradicionais que foram incapazes de construir alternativas concretas aos problemas dos eleitores.

Após uma década de baixo crescimento, a tímida recuperação da mais brutal crise econômica deu origem a uma geração de desalentados após um longo período de melhoria contínua nas condições de vida. O crescimento galopante de assassinatos e a sensação implacável de insegurança sentida pela maioria da população coabitam com a contínua percepção de assalto sistemático aos cofres públicos. Em resumo, a população brasileira era convidada a permanecer sentada num espetáculo cujo teatro pegava fogo enquanto os extintores eram roubados pelos organizadores.

Talvez esse sentimento explique a baixa eficácia da campanha negativa realizada contra candidatos como Bolsonaro (“homofóbico, machista, misógino, apoiador da tortura” etc) e a alta eficácia das fake news, cujo conteúdo normalmente confirma crenças anteriores a respeito de algum tipo de trama de poderosos ou de acordos de bastidores que prejudicam o eleitor.

Bolsonaro é, hoje, a maior placa tectônica a mover o sistema político e a votação expressiva que obteve em todo território nacional comprova sua força pessoal enquanto encarnação do sentimento antipetista que habitava a contragosto no PSDB. É provável que Bolsonaro saia das urnas, inclusive, superior ao antipetismo, tomando o protagonismo de Lula como maior força política nacional. Porém, há alguns resultados eleitorais que não podem ser explicados apenas pela força de Bolsonaro e que ocorreram *apesar* da sua força. A não-eleição de Magno Malta, fiel escudeiro do capitão, por exemplo, indica que há algo para além da rejeição do presidiário e seus asseclas.

Desde ontem, muito se fala da “Onda Conservadora” ou de uma “Onda Bolsonaro”. De fato, os resultados das urnas foram absolutamente avassaladores e, considerando as eleições legislativas, não previstos em qualquer pesquisa. Entender o movimento que culminou nos votos de ontem como uma onda talvez seja inadequado. Prefiro classificar o que aconteceu no primeiro turno das eleições de 2018 como um terremoto. O terremoto, cuja face mais visível é a desorganização, esconde uma brutal reorganização subterrânea, em que uma nova acomodação dará origem à configuração da superfície por um certo período de tempo.

Um observador mais ousado poderia dizer que Bolsonaro deixou de ser um candidato. Bolsonaro passou a ser uma ideia, um sentimento. E será difícil encerrar essa ideia antes do dia 27.

 

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Arthur Soffiati — Primeiro tempo

 

(Robert De Niro)

 

 

Por Arthur Soffiati(*)

 

Desde a eleição indireta de Tancredo Neves, em 1985, nunca houve tanta polarização e radicalização numa eleição presidencial. Nem mesmo o neoliberal Fernando Collor de Melo provocou tanta discórdia. Nesses 23 anos, o regular foi uma posição de centro-direita enfrentar uma de centro-esquerda. Na década de 1990, a centro-direita predominou com Fernando Henrique Cardoso. A partir de 2003, a centro-esquerda com Lula e Dilma governou o Brasil até o impeachment desta última em 2016. Mesmo assim, os dois presidentes do PT buscaram a paz com as classes dominantes, seja com a “Carta ao Povo Brasileiro”, seja com os vice-presidentes José de Alencar e Michel Temer, numa política de alianças com partidos moderados.

Agora, os dois candidatos a disputarem o segundo turno radicalizaram suas posições. No impedimento de Lula, Haddad escolheu Manuela D’Ávila, do PCdoB como vice, e Jair Bolsonaro recorreu ao general Hamilton Mourão. Pelo menos nos discursos iniciais da chapa de direita, a defesa de um programa simples agradou muitos eleitores: combate implacável à corrupção, direito da sociedade se armar contra a violência, privatizações, enxugamento de ministérios, militarização da educação. Já a chapa de esquerda não conseguiu crescer como se esperava. Lula seria o candidato ideal para vencer Bolsonaro, mas impedido ele escolheu Fernando Haddad como seu representante. Houve hesitações. Não é bom um partido forte contar com uma só pessoa carismática. Lula está preso, mas imaginemos que ele estivesse impossibilitado de concorrer por doença. Haddad não também não o substituiria à altura. Houve hesitações em lançar o sucessor de Lula, e este dificultou o surgimento de novas lideranças.

E os eleitores? Os que votam na direita e na esquerda parecem convictos. Eles não mudam de posição. Daí também as taxas de rejeição serem altas de ambas as partes. O crescimento delas parece se alimentar de votos de outros candidatos e dos indecisos. Em ambos os lados, o medo de que um dos lados vença leva ao voto útil, atitude que deve ser relativizada. O voto útil tanto pode ser na direita quanto na esquerda.

E os eleitores? Ouvi de um que aquele que votar em Haddad ou é corrupto ou cúmplice da corrupção. De nada resolvem discursos elaborados demais para convencer o eleitor. A maioria se mostra sensível a argumentos simples. O cérebro humano reduz e simplifica complexidades.

Por fim, Inglaterra e França não poderiam imaginar que as rigorosas condições impostas à Alemanha no final da Primeira Guerra Mundial levariam à ascensão de Hitler. Os governos do PT também não imaginavam que criariam espaço para um discurso radical de direita ao permitirem o crescimento da corrupção, como escreveu o sociólogo petista ontem, e da violência urbana. Mesmo que a realidade seja mais complexa do que se mostra, o PT concorreu para a radicalização política. Na ficção, Dr. Frankenstein era um médico ético, mas, num momento de fraqueza, criou um monstro. Entre nós, o monstro gerou uma filha num momento de fraqueza.

 

(*) Historiador ambiental e colaborador da Folha

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

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Artigo depois do primeiro turno — No fotochart e na foto grande

 

 

Prevaleceram as pesquisas. Como adiantou (aqui) a coluna Ponto Final de ontem, a definição do segundo turno presidencial foi no fotochart. O recurso fotográfico é usado para definir o vencedor de uma corrida quando os atletas cruzam quase ao mesmo tempo a linha de chegada. Mas, nas raias ao Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro (PSL) chegou com a mesma diferença sobre Fernando Haddad (PT) que o velocista Usain Bolt costumava impor aos adversários. O fotochart só foi usado para definir o segundo turno. Com imensa desvantagem ao petista, sua largada foi dada desde a noite de ontem à chegada daqui a três domingos.

A força eleitoral demonstrada por Bolsonaro não foi suficiente para elegê-lo no primeiro turno. Mas serviu para fazer os votos dos brasileiros arderem sobre o lombo da esquerda, numa coça humilhante em quase todo o país. No Estado do Rio, após receber o apoio da família Bolsonaro, o candidato a governador e ex-juiz federal Wilson Witzel (PTC) surpreendeu com um dos crescimentos mais meteóricos na história da política fluminense.

Quando exibiu o 17 escrito na mão e pediu voto a presidente para Bolsonaro, ao final do debate do SBT de 19 de setembro, Witzel tinha apenas 1% de intenção de votos na pesquisa Datafolha mais recente. Exatos 16 dias após aquele debate, o candidato teve 17% dos votos válidos na última Datafolha antes do pleito. À sua véspera, o ex-magistrado apareceu empatado com Romário Faria (Podemos) na segunda posição, após ultrapassar Tarcísio Motta (Psol) e Indio da Costa (PSD). O avanço foi tão rápido que nem deu tempo à pesquisa para simular o segundo turno entre Witzel e o líder Eduardo Paes (DEM).

Encerrada a apuração do primeiro turno, menos de 24h depois, o avanço real do ex-juiz superou qualquer simulação. Ele teve impressionantes 41,28% dos votos do urnas do Estado do Rio. Eduardo Paes até foi ao segundo turno, mas com apenas 19,56% do eleitorado. Quase engolido pelo tsunami bolsonarista sobre o qual surfou Witzel, o ex-prefeito do Rio tinha uma eleição a governador aparentemente garantida em todas as pesquisas.

A explicação? Simples: mesmo cortejado pelo PT nacional, Paes escolheu a neutralidade presidencial. Candidato de Witzel, Jair Bolsonaro teve 59,79% do eleitorado fluminense. Com 15,22%, Ciro Gomes (PDT) ficou em segundo, à frente Haddad, que teve 14,70%. Somados, os dois presidenciáveis de esquerda tiveram a metade da votação do capitão no Estado do Rio. O mesmo que elegeu com folga seu filho Flávio Bolsonaro (PSL) como senador. À Câmara Alta, ele teve quase a soma de votos dos dois primeiros colocados a governador.

As consequências da força de Bolsonaro junto ao eleitor fluminense foram várias. Inclusive em Campos. Como o blogueiro Christiano Abreu Barbosa explicou ontem (aqui) em seu Ponto de Vista, hospedado no Folha 1: “A estupenda votação de Bolsonaro no Estado do Rio, puxou todos os candidatos do seu partido (…) conquistando 12 cadeiras para a Câmara de Deputados em Brasília. O 12º do PSL conquistou a vaga com 31.788 votos (…) A coligação de Marcão Gomes, PR e Podemos, tinha potencial para três a quatro deputados. Com a onda PSL, fez apenas dois, deixando de fora Marcão, com quase 41 mil votos”.

Ainda no Estado do Rio, o senador Lindbergh Faria (PT) foi varrido pelo voto conservador. E ganhou a companhia de outros fortes candidatos ao Senado do seu partido, como Eduardo Suplicy em São Paulo e a ex-presidente Dilma Rousseff, em Minas Gerais. Governador daquele Estado, o também petista Fernando Pimentel perdeu a reeleição ainda no primeiro turno, atropelado pelo candidato Romeu Zema (Novo), com apoio do PSL. No particular de Dilma, como lembrou ontem o jornalista Merval Pereira, ficou a irônica justiça dela ter sofrido pelo voto a punição que a Justiça sonegou em seu impeachment.

Apesar dos estragos causados à esquerda em todo o país, a imposição do segundo turno presidencial a Bolsonaro, contra Haddad, deveria servir de reflexão. À direita, pelos facínoras que ontem filmaram o voto ao capitão sendo teclado pelo cano das armas na urna, ou latiram nas redes sociais contra o Nordeste do país. À esquerda, pelo grito de “basta!” do voto popular contra quem se arrogava imune à autocrítica, em nome de uma fidelidade canina a Lula.

Salvo o imponderável, como a facada em Juiz de Fora, a vantagem para o dia 28 é toda de Bolsonaro. Sobretudo se os eleitores de Haddad propuserem insistir as próximas três semanas no diapasão “barbárie x civilização”. Além da simpatia dos já convertidos, deve surtir o mesmo efeito prático da mobilização das mulheres no “#EleNão” de 29 de setembro, responsável pelo avanço do capitão sobre o voto feminino. Mais do mesmo que transformou um deputado federal do baixo clero no pivô da separação entre a esquerda e a urna.

Se Haddad conseguiu chegar no fotochart ao segundo turno, deve à votação do Estado Bahia. E ao trabalho do seu ex-governador Jaques Wagner, eleito ontem senador. Ele foi um dos poucos que ousou questionar Lula pela aliança do PT com Ciro.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

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Subida de Witzel e queda de Romário: Garotinho é o Mick Jagger da eleição

 

 

 

Como o jornalista Arnaldo Neto noticiou aqui, a pesquisa boca de urna do Ibope nos votos válidos a governador do Rio registrou: Wilson Witzel (PSC), 39%; Eduardo Paes (DEM), 21%; Tarcísio Mota (Psol), 15%; e Romário Faria (Pode), 9%. A força do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) no apoio a Witzel já tinha sido antecipada aqui no Ponto Final de hoje. Mas a queda brusca de Romário após o apoio de Anthony Garotinho (PRP) confirma: o político da Lapa é o Mick Jagger desta eleição.

Garotinho já tinha ganho fama de pé frio após apoiar Geraldo Alckmin (PSDB) no segunto turno presidencial de 2006, quando o tucano não só perdeu para Lula (PT), como conseguiu ter menos votos que no primeiro. Na eleição a governador de 2014, quando não conseguiu ir ao segundo turno, Garotinho apoiou nele Marcelo Crivella (PRB). E o sobrinho de Edir Macedo acabou perdendo para Luiz Fernando Pezão (MDB).

 

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Artigo do domingo — Na noite dos desgraçados

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

Na última sexta-feira, a Constituição Brasileira completou 30 anos. No dia, a Folha lembrou a data em boa matéria (aqui) da jornalista Suzy Monteiro, com o major Oswaldo Barreto Almeida, um dos três deputados constituintes de Campos, além do historiador Aristides Soffiati.

Dois dias depois, talvez não seja coincidência que mais de 147 milhões de brasileiros, entre eles cerca de 361 mil campistas, irão hoje escolher nas urnas presidente, governador, senadores, deputado federal e estadual. Não é pouca coisa. Maior democracia da América Latina, somos a quarta do mundo, atrás apenas de Índia, EUA e Indonésia.

Na eleição presidencial de hoje, que parece ser a mais polarizada, tudo indica que será no fotochart a definição se teremos ou não segundo turno. Se ele se confirmar, todas as pesquisas mostram que será disputado entre dois candidatos polêmicos.

O primeiro colocado nas pesquisas tem um passado de várias declarações relativizando a democracia e um presente que nega a última ditadura militar (1964/85) do país. E traz como candidato a vice um general que aventa publicamente a possibilidade de uma nova Constituição ser feita sem representantes eleitos pelo povo. Ainda assim, a chapa pode ser eleita no primeiro turno.

O segundo colocado tem como principal cabo eleitoral um líder popular condenado e preso por corrupção, a quem visita semanalmente na cadeia. E, além dos votos que nunca teve, herdou também um plano de governo ressentido, que pretende impor limitações ao Judiciário, ao Ministério Público e à imprensa. Além de propor abertamente uma nova Constituinte — como a Venezuela fez no ano passado.

Diante das ameaças de um lado e do outro também, na bipolaridade que divide o Brasil desde as “Jornadas de Junho” de 2013, relevante ressaltar a pesquisa Datafafolha feita entre as últimas quarta (03) e quinta (04). Ela revelou que 69% dos brasileiros consideram a democracia a melhor forma de governo. É o maior índice de aprovação desde que a consulta começou a ser feita, em 1989, quando houve a primeira eleição direta a presidente do Brasil após 29 anos.

A esperança é maior quando constatado que o regime com eleições diretas é “sempre a melhor forma de governo” se eleva a 74% entre os brasileiros de 16 a 24 anos. Elos do compromisso com o futuro do país, são jovens afeitos à sentença do velho ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill: “a democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as outras”.

Foi o mesmo compromisso assumido pelo ex-deputado Ulysses Guimarães, conciliador do qual o Brasil tanto carece, quando promulgou a “Constituição Cidadã” há 30 anos. Que dois trechos da sua fala — “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo” e “Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube” — possam ser luz “ainda que de lamparina” ao voto de hoje:

 

 

 

“(…) Ecoam nesta sala as reivindicações das ruas. A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. São palavras constantes do discurso de posse como presidente da Assembleia Nacional Constituinte.

Hoje, 5 de outubro de 1988, no que tange à Constituição, a Nação mudou. A Constituição mudou na sua elaboração, mudou na definição dos Poderes. Mudou restaurando a federação, mudou quando quer mudar o homem cidadão. E é só cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê e escreve, mora, tem hospital e remédio, lazer quando descansa.

(…) A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca.

Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério.

Quando após tantos anos de lutas e sacrifícios promulgamos o Estatuto do Homem da Liberdade e da Democracia bradamos por imposição de sua honra.

Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo.

Amaldiçoamos a tirania aonde quer que ela desgrace homens e nações. Principalmente na América Latina.

(…) Há, portanto, representativo e oxigenado sopro de gente, de rua, de praça, de favela, de fábrica, de trabalhadores, de cozinheiras, de menores carentes, de índios, de posseiros, de empresários, de estudantes, de aposentados, de servidores civis e militares, atestando a contemporaneidade e autenticidade social do texto que ora passa a vigorar.

Como caramujo guardará para sempre o bramido das ondas de sofrimento, esperança e reivindicações de onde proveio.

(…) Tem significado de diagnóstico a Constituição ter alargado o exercício da democracia. É o clarim da soberania popular e direta tocando no umbral da Constituição para ordenar o avanço no campo das necessidades sociais.

O povo passou a ter a iniciativa de leis. Mais do que isso, o povo é o superlegislador habilitado a rejeitar pelo referendo os projetos aprovados pelo Parlamento.

A vida pública brasileira será também fiscalizada pelos cidadãos. Do presidente da República ao prefeito, do senador ao vereador.

A moral é o cerne da pátria. A corrupção é o cupim da República. República suja pela corrupção impune toma nas mãos de demagogos que a pretexto de salvá-la a tiranizam.

Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube, eis o primeiro mandamento da moral pública. Não é a Constituição perfeita. Se fosse perfeita seria irreformável.

(…) Não é a Constituição perfeita, mas será útil, pioneira, desbravadora, será luz ainda que de lamparina na noite dos desgraçados.

É caminhando que se abrem os caminhos. Ela vai caminhar e abri-los. Será redentor o caminho que penetrar nos bolsões sujos, escuros e ignorados da miséria.

A sociedade sempre acaba vencendo, mesmo ante a inércia ou o antagonismo do Estado.

O Estado era Tordesilhas. Rebelada a sociedade empurrou as fronteiras do Brasil, criando uma das maiores geografias do mundo.

 (…) O Estado prendeu e exilou. A sociedade, com Teotônio Vilella, pela anistia, libertou e repatriou.

A sociedade foi Rubens Paiva (deputado federal torturado e assassinado pelos militares em 1971), não os facínoras que o mataram.

Foi a sociedade mobilizada nos colossais comícios das Diretas Já que pela transição e pela mudança derrotou o Estado usurpador.

Termino com as palavras com que comecei esta fala.

A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança.

Que a promulgação seja o nosso grito.

Mudar para vencer. Muda Brasil.”

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Pesquisas indicam segundo turno a presidente e novidade a governador

 

 

Expectativa de 2º turno

Jair Bolsonaro (PSL) pode ser eleito presidente hoje em primeiro turno? Só se todas as pesquisas feitas e divulgadas ontem, na véspera da eleição, estiverem erradas. Com oscilação positiva ou crescimento real, o capitão chegou a 41% dos votos válidos no Ibope e 40%, na Datafolha. Se os números estiverem corretos e o ex-capitão do Exército não crescer cerca de oito pontos percentuais de ontem para hoje, ele disputará o segundo turno contra Fernando Haddad (PT), estagnado com 25% dos votos válidos.

 

Simulações e rejeições

Caso as urnas confirmem o segundo turno presidencial, suas simulações ontem apontaram leve vantagem ao capitão, mas todas no empate técnico. No Datafolha, o turno final ficaria Bolsonaro 45% a 43% Haddad. No Ibope, seria 45% a 41%, já no limite da margem de erro. Índice negativo considerado fundamental à definição do segundo turno, a rejeição dos dois candidatos também foi medida pelos dois institutos: Bolsonaro teve 44% no Datafolha e 43%, no Ibope. Haddad oscilou mais entre as duas pesquisas: respectivamente 41% e 36% não votariam de jeito nenhum no petista. Os dois são os presidenciáveis mais votados e rejeitados.

 

Ciro Gomes

As consultas Datafolha e Ibope foram feitas após o debate da Globo, entre a noite de quinta e a madrugada de sexta. Elas chegaram a registrar que Ciro Gomes (PDT) foi considerado o melhor no evento. A ausência de Bolsonaro, que alegou ordem médica, mas deu uma extensa entrevista a Record, foi considerada um dos motivos para que seu crescimento na reta final talvez tenha sido insuficiente para liquidar a fatura no primeiro turno. Ciro teve oscilações positivas nas duas pesquisas, chegando a 15% dos votos válidos na Datafolha. Atrás 10 pontos de Haddad, o cearense seria o adversário mais difícil a Bolsonaro no segundo turno.

 

Força do capitão

Mesmo que frustre a expectativa de vencer no primeiro turno, Bolsonaro demonstra uma força eleitoral impressionante, talvez só comparável à do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na última Datafolha a governador do Rio, após receber o apoio dos Bolsonaro em sua campanha, o ex-juiz federal Wilson Witzel (PSC) decolou e apareceu ontem empatado com Romário Faria (Podemos). Ambos têm 17% dos votos válidos, 10 pontos atrás de Eduardo Paes (DEM), com 27% dos votos válidos. Mas o crescimento de Witzel foi tão meteórico que o Datafolha nem teve tempo de fazer a simulação de segundo turno entre ele e Paes.

 

Witzel complica Paes?

De Romário, Paes ganhou com facilidade a simulação de segundo turno: 45% a 31%. Sem as simulações om Witzel, a rejeição seria o único dado para avaliar seu desempenho no caso dele chegar ao turno final. Só que o Datafolha também não divulgou o índice negativo na sua nova pesquisa ao governo fluminense. Na pesquisa Ibope também fechada ontem, o ex-juiz federal apareceu com apenas 9% de rejeição, contra os mesmos 33% de Paes e Romário. O que indica que o ex-prefeito do Rio poderia teria muito mais dificuldade em se eleger governador se enfrentasse Witzel no segundo turno.

 

Brasil no RJ

O problema na comparação entre as últimas Datafolha e Ibope a governador, é que o segundo instituto não registrou o mesmo crescimento de Witzel. Pelo Ibope, a disputa segue hoje à urna com 32% dos votos válidos para Paes, 20% para Romário, e 12% tanto para Indio da Costa (PSD), quanto para o ex-juiz federal. Os dois travaram os três últimos debates disputando acirradamente o apoio de Bolsonaro, que tem mais que o dobro de intenções de voto de Haddad no Estado do Rio. Mas foi Witzel, não Indio, que teve em sua campanha o apoio de Flávio Bolsonaro (PSL), candidato a senador e filho de Jair.

 

Vantagem de Bolsonaro e Paes

A coluna já lembrou que nunca um candidato que ficou atrás no primeiro turno conseguiu se eleger presidente do Brasil. É um dado histórico que conta contra Haddad, caso a disputa presidencial vá mesmo às urnas de 28 de outubro. Mas há outras estatísticas que podem pesar não só a favor de Bolsonaro, como de Paes: desde 1998, quando a reeleição foi adotada no Brasil, foram 272 eleições de segundo turno no país — a presidente, governador ou prefeito. Nelas, 72% dos mais votados no primeiro turno venceram o seguinte. Mas o percentual cresce a 92% quando a diferença na votação dos candidatos no turno inicial foi de 10 pontos ou mais.

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Hamilton Garcia — “#Ele não” ou “#Eles não”?

 

 

Ao que tudo indica, o segundo turno das eleições, fora alguma virada extraordinária no posicionamento dos eleitores, será decidida entre dois partidos antagônicos em seus ideais, porém próximos em seu desapego pela liberal-democracia, por razões também opostas. Mas não é isto que a campanha, supostamente apartidária, “#Ele Não” quer nos fazer crer, apontando seu dedo para apenas um dos lados da contenda.

A indignação encarnada por Bolsonaro é velha conhecida, remonta ao período da decadência do regime militar, quando os assassinatos brutais de dois militantes (pacíficos) do PCB, Vladimir Herzog (1975) e Manoel Fiel Fº (1976), fizeram cair a máscara da justificação do AI-5 pela violência da guerrilha. A partir daí, em especial depois das eleições de 1982, o campo da direita sofreria forte abalo, apenas revertido pela reabilitação recente das Forças Armadas (FFAA) como instituição republicana e a ascensão política de Bolsonaro, ambas vinculadas à degeneração do PT no poder, mais precisamente aos escândalso do Mensalão e do Petrolão, que puseram a nu as práticas criminosas do partido e seus aliados, abrindo espaços extraordinários para a rearticulação da direita (vide Os conservadores avançam ) que as forças tradicionais não souberam aproveitar.

De um lado, o PSDB, prisioneiro do corporativismo empresarial e useiro de métodos semelhantes — como se comprovou mais tarde —, abriu mão, junto com seus aliados, de propor o impeachment de Lula em 2005 acreditando que o Brasil se comportaria como SP — que deu a Geraldo Alckmin 54,2% dos votos válidos nas eleições de 2006. De outro, o Centrão fisiológico aproveitou a crise para se fortalecer no rastro da associação PT-PMDB, o que permitiu a Lula não só se reeleger como se blindar de investigações parlamentares contra suas práticas predatórias do setor público (inclusive Petrobras).

É nesse contexto de putrefação do sistema político e de acovardamento/cooptação da oposição, que o petismo fincou raízes nas classes populares por meio de um crescimento econômico expressivo, não obstante ilusório, pois fruto de uma dinâmica externa exuberante que anulou por certo tempo nossas desvantagens competitivas. É nele também que surge uma nova militância liberal, de centro e de direita — órfã dos partidos tradicionais —, que, após 2013, encontraria no antipetismo e na agenda econômica liberal sua plataforma de oposição ao mecanismo petista.

Tal encontro, em si importante para a democracia pela renovação do campo liberal e conservador em chave orgânica com a sociedade — que o elitismo tucano-democrata foi incapaz de realizar —, se dá, todavia, sob a égide eleitoral de uma direita neointegralista, de um lado, e, de outro, prisioneira da ala terrorista do regime militar — representada pela chapa puro-sangue Bolsonaro&Mourão.

O Integralismo, em nossa história, nos anos 1930, foi uma reação ético-cristã à sociedade liberal-urbana que tomava corpo no país. Embora próxima do fascismo, ela recusava a perspectiva da Razão absoluta (hegeliana) no Estado — de caráter desenvolvimentista —, afirmando a dimensão subjetiva e o predomínio da tradição cristã (antimaquiaveliana) na administração dos negócios públicos (fusão entre ética pública e privada). Hoje, o neointegralismo parece uma versão urbana (liberista) da mesma concepção.

Quanto à ala terrorista, trata-se de uma corrente instrumental sem maiores chances de disputar a direção do Estado. Seu perigo, todavia, reside na possibilidade de se transformar em tenentismo civil-militar com base na fórmula hegeliana; o que a não assimilação da ativista liberal Janaína Paschoal à chapa, como vice, parece evidenciar. Aqui entram, em chave positiva, as FFAA e os militares moderados da coalizão, como o Gen. Heleno, que podem servir de freio a esta tendência, ao mesmo tempo que acicates para a recuperação do sentido de missão das elites políticas, desbloqueando a governabilidade capturada pelo neopatrimonialismo parlamentar (vide artigo anterior).

Já quanto ao PT, as incertezas são bem menores pois ele chega às eleições amadurecido por quase 40 anos de trajetória sem seu freio natural, o lulismo, destrambelhado desde o impeachment de Dilma e levado à radicalização como estratégia de sobrevivência.

Neste sentido, a agenda de curto-prazo do petismo, com sua constituinte e “controle social” dos poderes republicanos e da mídia, tem tudo para afastar o país do enfrentamento de seus grandes problemas histórico-estruturais e mergulhá-lo em um nível de polarização política até aqui desconhecido; tanto ao tentar reparar a “injustiça” cometida contra seu líder, quanto para reverter a desigualdade por meio do “aprofundamento da distribuição de renda” — como se fez recentemente na Venezuela, com os resultados catastróficos conhecidos.

O PT radicalizado retoma sua perspectiva revolucionária — como outrora fizera o PCB depois da cassação de seu registro e mandatos, em 1947 — na tentativa de sair das cordas, com isso contribuindo para embaraçar sua própria identidade histórica, construída em oposição ao comunismo totalitário, e a imagem moderada de seu candidato (Haddad), colocando seu futuro governo sob o dilema de trair os seus para governar ou governar traindo seu eleitorado, chafurdando o país na desordem política e institucional.

Para os céticos em relação à nova inclinação petista, o 6º Congresso (2017) não deixa dúvidas quanto aos objetivos que o partido se diz obrigado a perseguir para evitar um “novo golpe”: “(…) apenas a radicalização da democracia, no curso de uma revolução política e constituinte, poderá sedimentar o processo de mudanças que almejamos”, sendo “a via de aproximação para (…) o nascimento do Estado popular, nas condições históricas atuais, (…) a retomada da Presidência da República e a formação de uma maioria parlamentar defensora das reformas estruturais”[i].

Como tal “maioria parlamentar” não é possível, os petistas vislumbram a solução do impasse não numa ampla aliança de forças (união nacional pela democracia) — que eles só valorizam para obter votos, não para pactos programáticos que possam inibir seu poder —, mas na “intensificação da disputa por hegemonia” — não em sentido persuasivo, mas de imposição de uma vontade eleitoral-majoritária — “a partir de medidas político-administrativas que ampliem o poder popular, de pressão permanente e organizada das ruas”, acompanhada, naturalmente, do “desmonte dos monopólios de comunicação, (…) e do desaparelhamento do sistema jurídico-policial”, o que significa, à luz da tradição (stalinista), pensamento único (Pravda) e perseguição política permanente (NKVD) — o que exigiria também “democratizar o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal”, além, é claro, da “reformulação do papel das Forças Armadas”[ii].

Tudo isso apoiado no empoderamento da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo, como antídoto à Operação Lava Jato, que “desempenha papel crucial na escalada golpista” como “instrumento político para a guerra de desgaste contra dirigentes e governantes petistas, atuando de forma cada vez mais seletiva quanto a seus alvos” e funcionando “como mecanismo de contrapropaganda para mobilização das camadas médias” e do “campo reacionário”[iii].

Para quem foi às ruas, no último sábado, exorcizar as trevas do autoritarismo, acreditando que ela tem apenas um lado, o Governo Haddad seria um choque.

 

[i] Caderno de Resoluções do 6º Congresso Nacional, p. 36 it.s 23-24 (grifos meus); in. <www.pt.org.br/wp-content/uploads/2017/07/6-congresso-pt.pdf>, em 27/09/18.

[ii] Id., pp. 36-37, it.s 25-27 (grifos meus).

[iii] Resolução Sobre Conjunutra, de 17 de maio de 2016, do Diretório Nacional do PT, p.1; in. <Resolução-sobre-conjuntura-Maio-2016[impeachment].pdf>, em 29/09/18.

 

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Onda de Bolsonaro à véspera da eleição gera dúvida sobre 2º turno

 

 

Turno único: 30% de chance

À espera das últimas que serão divulgadas hoje, a grande pergunta é: haverá segundo turno na eleição presidencial? O crescimento de Jair Bolsonaro (PSL) na reta final foi confirmado pelo primeiro instituto que o colocou na casa dos 30% das intenções de voto. Pela Paraná Pesquisas de ontem, o ex-capitão do Exército alcançou os 35% das intenções de voto, mesmo índice apontado no dia anterior pelo Datafolha. Nas duas consultas, Fernando Haddad (PT) patinou nos 22%. Indagado sobre a possibilidade de Bolsonaro ganhar a eleição no primeiro turno, o diretor da Paraná, Murilo Hidalgo, estimou as chances em 30%.

 

Segundo turno: 70%

Com 70% de possibilidade, o segundo turno é o mais provável. Mas suas projeções variaram muito de acordo com as pesquisas. Segunda a Paraná de ontem, Bolsonaro venceria Haddad com relativa facilidade, por 47,1% a 38,1%. Mas Datafolha e Ibope projetaram empates técnicos no turno final entre o capitão e o petista. Estes dois institutos trazem hoje mais duas novas pesquisas, as últimas antes da urna de domingo. A da Datafolha, com mais de 17 mil entrevistas, será a mais ampla já feita nesta eleição. Se nela Bolsonaro estagnar, aumentam as chances de segundo turno. Mas elas diminuem se o candidato registrar outro crescimento real.

 

Ontem e hoje

Desde que o segundo turno foi adotado pela Constituição de 1988, apenas Fernando Henrique Cardoso (PSDB) ganhou a eleição presidencial em turno único. E o fez duas vezes, em 1994 e 1998. Curiosamente, seu principal cabo eleitoral na época foi o Plano Real, que estabilizou a economia do país. Com a recessão criada no governo Dilma Rousseff (PT), a economia voltou a ser um dos principais problemas do Brasil, cujo líder em todas as pesquisas a presidente é alguém que, assumidamente, não entende do assunto. Agora é o antipetismo, cujo papel Bolsonaro roubou do PSDB, que surge como principal cabo eleitoral desta eleição.

 

Rejeições

Todas as pesquisas indicam que, desde a semana passada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esgotou sua impressionante capacidade de transferência de votos para Haddad. Serviu para consolidar o candidato como segundo colocado, na casa dos 20%. Só que a reação à perspectiva do PT voltar ao poder empurrou Bolsonaro à casa dos 30%. Junto com os votos, Haddad recebeu a rejeição de Lula, igualmente impressionante. Pelo Datafolha e Ibope, o petista já está bem próximo de Bolsonaro no índice negativo. E, na metodologia diferente da Paraná, a rejeição de Haddad (58,5%) já é bem maior que a do capitão (48,6%).

 

Haddad no ontem

Transferidos o bônus e o ônus de Lula, seria o momento de Haddad buscar seus votos por conta própria. E ele desperdiçou a chance no debate da Globo, entre a noite de quinta e madrugada de sexta, último antes da eleição de domingo. No lugar de centrar fogo em Bolsonaro ausente, o petista perdeu tempo com Geraldo Alckmin (PSDB) para atacar o governo de Fernando Henrique, de 16 anos atrás. Entre várias outras mudanças de paradigma desta eleição, a polarização nacional entre PT e PSDB foi claramente abandonada pelo eleitor. E, em caso de segundo turno, Haddad vai precisar desesperadamente dos votos do tucano.

 

Ciro se destaca

Pouco depois de Bolsonaro dar entrevista à Record do bispo Edir Macedo, que já fechou apoio da sua popular Igreja Universal ao presidenciável de direita, o debate da Globo provou mais uma vez que Ciro Gomes (PDT) é o candidato mais consistente da esquerda. Foi ele quem se destacou ao cobrar a ausência do líder nas pesquisas. O desempenho do cearense gerou uma reação positiva nas redes sociais ao seu nome, que todas as pesquisas indicam ser o mais difícil de ser batido por Bolsonaro no segundo turno. Mas, à beira da urna, dificilmente será suficiente para reverter os 10 pontos percentuais que separam Ciro de Haddad nas pesquisas.

 

Referências

Na incerteza sobre o segundo turno presidencial, bem provável entre Eduardo Paes (DEM) e Romário (Pode) a governador do Rio, estas eleições derrubaram referências de pleitos anteriores. Mas algumas sobrevivem. Por exemplo, nunca um candidato a presidente atrás no primeiro turno, venceu o segundo. E, nem com Lula, o PT chegou à presidência com uma chapa puro-sangue de esquerda, como Haddad e Manuela D’Ávila (PCdoB). Outro exemplo? Romário ontem recebeu o apoio de Anthony Garotinho (PRP) que Alckmin, a presidente em 2006, e Marcelo Crivella (PRB), a governador em 2014, também tiveram. E acabram derrotados.

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

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