Vitória do Uruguai impressa no rosto do craque do Egito

 

Preso ao banco por uma contusão recente no ombro, o craque egípcio Mohamed Salah não esconde a decepção com o gol do Uruguai aos 43 do segundo tempo

 

 

Para quem acompanha futebol, é normal notar seu efeito trágico sobre os homens. Trágico no sentido dado pelos gregos antigos, não de se fazer tragédia. E, numa Copa do Mundo, o efeito se acentua quando impresso nos jogadores, em resumo de uma nação.

Quem assistiu ao Mundial de 94, nos EUA, como não lembrar do choro de rogozijo do atacante Rashidi Yekini (1963/2012), envolto nas redes da Bulgária, após marcar o primeiro gol da Nigéria na história das Copas?

 

 

No mesmo Mundial, embora a maioria lembre o pênalti decisivo perdido pelo atacante Roberto Baggio na final, que deu o título ao Brasil sobre a Itália, como esquecer o imerecido pranto de desconsolo do zagueiro Franco Baresi, caído de joelhos após desperdiçar a sua cobrança?

 

 

Nessa balança tênue entre o céu e o inferno, foi o mesmo drama estampado agora há pouco na face do craque egípcio Mohamed Salah, após ser obrigado a presenciar do banco o gol do zagueiro uruguaio José Gimenez, que definiu o placar aos 43 minutos do segundo tempo. Sem seu grande nome, o Egito marcou sob pressão nos dois tempos e claramente jogava pelo empate.

 

https://www.youtube.com/watch?v=-6cA1A5pDAE

 

Vindo de uma contusão no ombro há apenas 20 dias, Salah foi poupado para o jogo decisivo do Egito contra a Rússia, que ontem (14) goleou a Arábia Saudita por 5 a 0. Curado ou não, Salah deve entrar em campo na próxima terça, dia 19. E, se não for o suficiente para garantir sua presença na próxima fase, azar o da Copa.

Em que pese a simpatia natural pelos donos da casa, quem gosta de futebol torce para que Egito e Uruguai se classifiquem no Grupo A às oitavas de de final. Na dúvida, confira abaixo alguns lances do melhor jogador da liga inglesa na última temporada e maior craque do Magreb (a África do Norte dos islâmicos) de todos os tempos:

 

 

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Brasileiros da Rússia, Portugal, Espanha, Polônia, Costa Rica e México

 

O lateral-direito paulista Mário Fernandes estreou pela Rússia na goleada de 5 a 0 sobre a Arábia Saudita

 

O lateral-direito Mário Fernandes que estreou hoje (aqui) na goleada da Rússia de 5 a 0 sobre a Arábia Saudita, não será o único brasileiro a atuar na Copa por seleções de outros países. Haverá outros também com as camisas da Espanha, de Portugal e da Polônia.

 

Zagueiro e volante Pepe, alagoano que defende Portugal

 

Sergipano Diego Costa, titular do ataque da Espanha

 

Carioca Rodrigo Moreno, opção do banco para o ataque da Fúria

 

A partir das 15h desta sexta, três brasileiros estarão no Portugal x Espanha. Dois entrarão em campo: o volante e zagueiro Pepe na seleção portuguesa e o atacante Diego Costa, pela espanhola. No banco desta, ainda estará o atacante Rodrigo Moreno, filho do ex-lateral-esquerdo do Adalberto, que atuou pelo Flamengo nos anos 1980, antes de ir jogar na Espanha.

 

Thiago Alcântara, filho do brasileiro Mazinho, nascido na Itália e meia titular da Espanha

 

Zagueiro Bruno Alves, filho de brasileiro nascido em Portugal

 

Isso, sem contar com o meia Thiago Alcântara, outro titular da equipe espanhola. Filho do ex-jogador Mazinho — ex-Vasco e tetra com a Seleção Brasileira em 1994 —, ele nasceu na Itália, onde seu pai também jogou. O ténico Tite já declarou que, se não tivesse jogado na Espanha, Thiago seria convocado para o Brasil. No banco da equipe lusitana, também estará o zagueiro Bruno Alves, que é filho de brasileiro, mas nasceu em Portugal.

 

Zagueiro Thiago Cionek, paranaense que defende a Polônia

 

Outro jogador nascido no Brasil é o zagueiro Thiago Cionek. Ele está na seleção da Polônia, que estreia contra a Colômbia em 19 de junho. Ele se naturalizou polonês em 2011 e estreou pelo time nacional daquele país em 2014.

 

Volante Celso Borges, filho de brasileiro com a camisa da Costa Rica

 

Irmãos Giovani e Jonathan dos Santos, filhos de brasileiro na seleção do México

 

Como Thiago Alcântara pela Espanha, e Bruno Alves, por Portugal, a Copa da Rússia terá outros jogadores também com naci0nalidade brasileira, embora não tenham nascido aqui: o meia Celso Borges, que defenderá a Costa Rica; e os irmãos e meias Jonathan dos Santos e Giovani dos Santos, pelo México.

 

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Nas surpresas de sempre, aposta na Bélgica, Portugal e Croácia

 

Após listar aqui as seleções favoritas na Copa da Rússia — Alemanha, Brasil, Espanha, França e Argentina — o leitor Fernando perguntou aqui: “E não terá nenhuma supresa?”. Sempre há. Há aquelas seleções que decepcionarão e voltarão mais cedo para casa. Campeãs, respectivamente, em 1998, 2006 e 2010, a França, a Itália e a Espanha sequer passaram pela primeira fase nas Copas seguintes, em 2002, 2010 e 2014. Até um bicampeão, como o Brasil em 1958 e 62, também não foi além da fase de grupos na Copa de 1966.

Em contrapartida, sempre há aquelas seleções das quais ninguém espera muito, mas surpreendem positivamente. Embora nunca tenham chegado à final. Foi o caso da Camarões de Roger Milla, que só caiu na prorrogação das quartas de final de 1990, após colocar a Inglaterra na roda de bobo; da Bulgária de Hristo Stoichkov, 4ª colocada em 94; da Croácia de Davor Suker, 3ª em 98; da Turquia de Hakan Sükür, 3ª em 2002; do Portugal de Luís Figo, 4º em 2006; do Uruguai de Diego Forlán, 4º em 2010; e da Costa Rica do goleiro Keylor Navas, que em 2014 derrotou Uruguai e Itália na primeira fase, empatando com a Inglaterra, para só cair nas quartas de final, na disputa de pênatis, após empatar sem gols e no tempo normal e prorrogação contra a Holanda.

Supresas como as listadas nos dois parágrafos acima são impossíveis de se prever. Mas, se tivesse que apostar em seleções com potencial para fazer uma bela campanha, mesmo sem talvez romper o tabu de chegar à final, listaria três:

 

Eden Hazard, camisa 10 da Bélgica e considerado um dos mais habilidosos no futebol de clubes da Inglaterra

 

1) a Bélgica, cuja geração dos meias Eden Hazard e Kevin De Bruyne, respectivamente do Chelsea e do Manchester City, é muito boa — a melhor desde a que encantou o mundo nos anos 1980, com Eric Gerets e Enzo Scifo — e já pegou rodagem após cair nas quartas de final de 2014;

 

Cristiano Ronaldo, craque inconteste em clubes, mas ainda a dever em Copa do Mundo

 

2) Portugal, cuja conquista da Eurocopa de 2016 indica que finalmente se conseguiu montar uma equipe equilibrada para dar suporte ao talento de Cristiano Ronaldo, eleito melhor jogador do mundo cinco vezes pela Fifa, mas ainda sem dizer a que veio em Copas do Mundo;

 

Luka Mocric, cérebro do meio de campo da Croácia

 

3) e a Croácia, grande herdeira da clássica escola da ex-Iugoslávia, os “brasileiros do Leste Europeu”, que pega um grupo difícil, com a Argentina de Messi e a sempre temida Nigéria, mas tem em Luka Mocric, meia do Real Madrid, um dos maiores organizadores do futebol mundial.

 

Mohamed Salah, destaque pelo Liverpool no Campeonato Inglês, é a esperança do Egito

 

Muito provavelmente, alguma seleção não listada entre as três opções acima, surpreenderá positivamente. Alguma equipe africana sempre aparece bem. Além da já citada Nigéria, pode ser o Senegal ou o Egito, que deposita suas esperanças no talento do craque Mohamed Salah, astro do Liverpool, mas vem de contusão e é dúvida nesta sexta contra o Uruguai dos perigosos atacantes Luisito Suárez e Edson Cavani, respectivamente do Barcelona e Paris Saint-Germain.

 

Craque da Colômbia e revelação da Copa de 2014, James Rodriguez não emplacou no Real Madrid

 

Num grupo teoricamente fácil, talvez a Colômbia possa repetir ou até superar a boa campanha de quatro anos atrás, quando caiu nas quartas de final. Seu grande craque, o meia-esquerda James Rodriguez foi a revelação da Copa de 2014. E marcou o gol mais bonito da competição, na vitória  de 2 a 0 sobre o Uruguai. Mas o jogador foi para o Bayer de Munique, após não ter emplacado no Real Madrid.

 

Zagueiro Rafa Márquez, do México, vai para a sua quinta Copa do Mundo

 

Em condições normais, o México do veterano zagueiro Rafa Márquez, que vai disputar sua quinta Copa, é conhecido por endurecer contra os grandes. Assim como a velocidade e a aplicação tática da Coreia do Sul — 4ª colocada na Copa que sediou em 2002, junto com o Japão — podem complicar a vida dos favoritos. Mas mexicanos e sul-coreanos cairam no mesmo grupo da poderosa Alemanha, que tem ainda a Suécia, vice-campeã em 1958 e 3ª em 50 e 94.

O futebol é jogado por homens. E, como ressalvou o filósofo espanhol Ortega y Gasset: “o homem é ele e suas circunstâncias”.

 

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Paula Vigneron — Tantos

 

Pôr do sol em Atafona, 29 de agosto de agosto de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

A janela fechada tornava ainda mais escuro o quarto. Era o segundo da casa, usado por sua mãe na adolescência. Entre fumaça de sucessivos cigarros, ela buscava decifrar o som ao redor. Crianças na rua. Passos pela casa. Gatos e cachorros em confusões, divididos entre o seu e outros quintais. Conversas gritadas por vizinhos. Uma batida oca sinaliza a continuidade de obras.

Fechou os olhos. Por ali, passaram tantos outros. Avós, tios, primos, amigos. Amores de diversas naturezas e períodos. Uns mais. Outros menos. Assumia: era incapaz de se recordar quantos dividiram, por breves ou longos momentos, cantos de seu recanto. Ligou o som. A música a levara, rapidamente, a uma época não tão remota de sua vida, quando passava horas trancada em uma sala, em um monótono trabalho. Ainda com os olhos fechados, mais um trago no cigarro e nas lembranças, que a atingiam sem que esperasse.

“Ah, se eu pudesse viver das minhas memórias.”

Era criança. Gordinha, com a franja quase sempre desalinhada. Corria de um lado para outro. Ou usava um velotrol quando era chamada. Mais um trago no cigarro. Era inevitável sorrir nestas horas. Também era brava. Não gostava quando apertavam sua bochecha. Doía. Era fácil deixá-la zangada. Uma vez, em um bar, segurara, com irritação, a mão de um homem desconhecido que havia se apoiado em sua cadeira, puxando e afastando-a em seguida. Por fim, encarou o estranho. Era menina. Não passava de seis anos. E não temia.

“Ah, se eu pudesse viver das memórias.”

Levantou. Esticou as pernas. Caminhou pelo cômodo pouco mais escuro. As horas pareciam passar em minutos. A cabeça vagava enquanto segurava, entre os dedos, o cigarro para mais um trago. Sentia a fumaça percorrer o seu corpo. Estava novamente correndo por espaços antes seus. A piscina cheia de crianças e adolescentes em uma tarde de férias. Perguntara a um amigo, mais velho, quanto tempo faltava para o horário em que sua mãe a autorizara a mergulhar e brincar com os outros.

O rapaz respondera, pacientemente, atento às brincadeiras à beira d’água. Cinco minutos depois, como se cronometrasse o tempo, perguntou novamente. Ainda não. Mais cinco minutos até interromper o menino, que ralhou:

— Não adianta ficar perguntando porque o tempo não vai passar mais rápido!

Ela esperou enquanto olhava, ansiosa, os outros gargalhando em brincadeiras. O tempo passou. Não só os desejados mais cinco minutos para a hora de brincar, mas anos. Anos e anos e anos que silenciaram as gargalhadas à beira da piscina e a voz e o sorriso daquele rapaz. Agora, ela temia.

Respirou fundo. “Ah, se eu pudesse”, disse, com a voz rouca pelo silêncio. Tocou a testa, buscando a franja desalinhada. Riu. Por vezes, via-se menina outra vez. Quase sempre, olhava-se no espelho e enxergava, junto ao reflexo de sua imagem, outros tantos rostos. Era parte de cada traço com que cruzara ao longo de sua vida. Deu o último trago e colocou a ponta do cigarro no cinzeiro, apagando-o. A linha de fumaça desfazia-se diante de seus olhos.

Abriu a janela. Parou em frente ao espelho. Observou atentamente. Era um misto: vozes, rostos, sorrisos. Novos, velhos. Homens, mulheres. Sentimentos. Histórias, idas e vindas. Era tantas e tantos. Tocou novamente a testa. Sorriu. Com mãos mais preparadas, agora, era capaz de ajeitar a quase sempre desalinhada franja.

 

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Jogador brasileiro estreia com goleada na Copa do Mundo

 

O brasileiro Mário Fernandes jogando pela seleção da Rússia (Foto: Getty Images)

 

 

A Seleção Brasileira só estreia na Copa da Rússia no domingo, às 15h, contra a difícil seleção da Suíça. Mas um jogador brasileiro já entrou em campo hoje. E na maior goleada da história em jogos de abertura da Copa do Mundo. O lateral-direito brasileiro Mário Fernandes jogou pela Rússia, que enfiou 5×0 na fraca Arábia Saudita, agora há pouco. Ele participou da jogada do terceiro gol, marcado de cabeça pelo atacante Golovin.

Ex-jogador do Grêmio, Mário Fernandes se transferiu para o CSKA de Moscou em 2012. Em 2018, se naturalizou russo, quando disse:

— Estou feliz e orgulhoso de ser russo. Após me mudar para o CSKA em 2012, a Rússia se tornou um verdadeiro lar para mim. Era um desejo natural obter a cidadania e poder jogar pela equipe nacional. Agora, vou fazer tudo o que depende de mim para ser útil para o clube e para o país.

Uma curiosidade na carreira do jogador é que, antes mesmo de se mudar para a Rússia e se naturalizar, ele se recusou a atuar na Seleção Brasileira. Convocado pelo então treinador, Mano Menezes, para um amistoso contra a Argentina em 2011, Mário Fernandes disse “não”.

Depois, em 2014, após o fracasso do Brasil na Copa, o jogador mereceu uma nova convocação por Dunga. Mas ficou na reserva e só entrou no segundo tempo de um amistoso contra o Japão. Na ocasião, Mário substituiu Danilo, atual titular de Tite, com a contusão de Daniel Alves.

 

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De hoje a 15 de julho, blog entra de cabeça na Copa da Rússia

 

 

 

Começa hoje a Copa da Rússia. Salvo as postagens dos coloboradores do blog, minhas atualizações serão diárias sobre a maior e mais importante competição de futebol do planeta. O jogo de abertura é daqui a pouco, ao meio dia, entre a dona da casa e a Arábia Saudita, no que promete ser uma das peladas da primeira fase.

Acompanho Copas desde 1982, na Espanha, na qual encantou, mas perdeu e não levou, a melhor seleção que vi jogar. Sua linha média tinha Cerezzo, Falcão, Sócrates e Zico. Como jornalista cubro Copas desde a de 1990, sediada na Itália e vencida pela Alemanha — ainda Ocidental, antes de ser oficializada a reunificação do país, em outubro daquele ano.

Passados os três primeiros jogos de cada seleção, começa a fase eliminatória e a Copa propriamente dita: perdeu, vai para casa. Para quem conseguir continuar, serão mais quatro jogos: oitava de final, quarta de final, semifinal e, em 15 de julho, a final. Para estar nela, considero que há, entre as 32 seleções na Rússia, cinco favoritas. Por ordem, elas são:

 

Alemanha — Atual campeão mundial (2014, no Brasil) e da Copa das Confederações(2017) está invicta em jogos oficiais desde a semifinal da Eurocopa de 2016. Após uma classificação impecável na Eliminatória Europeia à Rússia, não tem colhido resultados favoráveis nos últimos amistosos: foram três empates (0x0 com a Inglaterra, 2×2 com a França, 1×1 com a Espanha), duas derrotas (0x1 para o Brasil e 1×2 contra a Áustria) e um vitória magra de 2×1 contra a Arábia Saudita. Mas tem um time forte em seus três setores, comandado dentro de campo por um melhores meias do mundo, Toni Kross, cérebro também do Real Madrid. Pesa sobre a Alemanha um fato histórico: apenas a Itália de Giuseppe Meazza, em 1934 e 38; e o Brasil de Didi, Garrincha e Pelé, em 1958 e 62, conseguiram ser bicampeões do mundo. Ademais, como já provocou o presidente russo, Vladimir Putin, em referência à II Guerra Mundial (1939/45), a Alemanha não costuma se dar bem na Rússia.

 

Brasil — Conseguiu superar a maior humilhação da sua história, a derrota de 7×1 para a Aleamanha, na semifinal da Copa 2014, dentro do Brasil, aparentemente sem maiores traumas. Vinha capengando nas Eliminatórias, até passar ao comando do técnico Tite, com o qual fez 12 jogos, com 10 vitórias e dois empates. Em amistosos, teve apenas uma derrota, de 0x1 para a Argentina, em 9 de junho de 2017. De lá para cá, foram mais sete amistosos, com seis vitórias e apenas um empate (0x0 diante da Inglaterra). Chega à Copa embalado, após vencer os quatro amistosos de 2018. Sua grande estrela é o atacante Neymar, do Paris Saint-Germain (PSG). Como este costuma jogar pela esquerda, faixa também do lateral Marcelo, do Real Madrid e considerado o melhor do mundo na posição, O Brasil passou a ser um time canhoto na saída de bola. A característica se acentuou após o corte por contusão do lateral direito Daniel Alves, também do PSG.

 

Espanha — Ficou marcada pela demissão do treinador Julen Lopetegui, ontem (13), na véspera do início da Copa da Rússia. Sua contratação pelo Real Madrid gerou bastante polêmica, sobretudo num país já dividido entre o centralismo da capital espanhola e a cada vez mais forte disposição separatista da Catalunha, província economicamente mais desenvolvida do país, cuja capital é Barcelona — cidade do grande rival dos madrilhenos no futebol. Quem assumiu como treinador foi ex-zagueiro Fernando Hierro, que já integrava a comissão técnica da Espanha como diretor esportivo. Foi uma solução rápida, bem vista pela torcida e pode ser eficaz no sentido de unir ainda mais um elenco já comprometido por disputar a última Copa de Andrés Iniesta, um dos maiores meias na história do futebol mundial, que recentemente trocou o Barcelona pelo japonês Vissel Kobe.

 

França — Outra equipe que fez uma boa campanha nas Eliminatórias Europeias, classificando-se em primeiro lugar em seu grupo, com sete vitórias, dois empates e apenas uma derrota. Tem a terceira seleção mais jovem da Copa, com média de idade de 25,6 anos. E, por isso pode oscilar em suas atuações, apesar da qualidade técnica dos seus jogadores. Entre eles, destaque para o meia Paul Pogba, do Manchester United, cuja elegância e visão de jogo lembram o ex-craque Zinédine Zidane. Nos amistosos, a França impresionou ao bater por 3×1 a Itália, sempre forte, mesmo fora da Copa. Todavia, os franceses decepcionaram ao empatarem em 1×1 seu último amistoso, contra os EUA. A irregularidade fez com que o ex-jogador e treinador Didier Deschamps tenha relativizado o favoritismo de sua equipe: “É um time forte, mas inexperiente. Apenas seis jogadores da atual seleção estiveram no Brasil”.

 

Argentina — Tem um equipe irregular. Famosa no passado pela qualidade dos seus goleiros e zagueiros, como respectivamente Ubaldo Filliol e Daniel Passarella, campões na Copa de 1978, a seleção argentina há algum tempo não inspira confiança em sua defesa. Oscilou muito na campanha das Eliminatórias da América do Sul, com sete vitórias, sete empates e quatro derrotas, classificando-se em terceiro lugar, atrás dos seus tradicionais rivais no continente: Brasil (1º) e Uruguai. Nos amistosos, também se meteu em polêmicas, como no cancelamento do jogo contra Israel, após protestos dos palestinos e do mundo árabe. Mas tem o melhor jogador do mundo desde a aposentadoria de Zidane dos campos, em 2006: Lionel Messi, grande estrela do Barcelona, jogará provavelmente sua última Copa. E isso não pode ser desprezado, sobretudo se coadjuvantes como o meia-atacante Ángel Di María, outro do PSG, também cumprirem seu papel.

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — Argentina discute o aborto

 

 

 

Hoje, por volta do meio-dia, a Câmara de Deputados da Argentina começou a discutir a descriminalização do aborto. Estima-se que os debates se estenderão até a manhã de quinta feira. Será muito interessante de assistir, em função da veemência e do habitual pitorequismo dos nossos legisladores latino americanos, sempre propensos ao histrionismo e, no caso argentino, à dramaticidade.  Até hoje, o placar se encontrava com uma leve diferença a favor da rejeição do projeto de Lei. No entanto, se espera que a parcela de deputados indecisos acabe aprovando a descriminalização por uma margem estreita, e com os votos dos últimos deputados a falar. Afinal, se não é com emoção, não é argentino.

Como não podia ser diferente, o assunto partiu a sociedade argentina em dois, gerando acalorados debates nas redes sociais, nos programas de televisão e nos almoços familiares. O curioso é que no campo político a divisão não se deu entre partidos políticos a favor e contra. O corte, aqui, foi transversal: cada partido tem dentro de seus blocos parlamentares que apoiam e rejeitam o projeto.

Hoje, o código penal argentino pune com pena de até quatro anos a mulher que causar o seu próprio aborto, ou que permita outra pessoa fazê-lo. A punição para quem praticar o aborto em outra pessoa pode chegar até 15 anos, caso a mulher venha a falecer. O projeto de lei descriminaliza a pratica do aborto até a 14ª semana de gestação, e garante a gratuidade do procedimento através do sistema público de saúde.

Outro fato interessante é que tenha sido o presidente Mauricio Macri quem possibilitasse a discussão no congresso argentino, dando liberdade de decisão para os deputados de seu partido. Não apenas por ele ser pessoalmente contra a descriminalização, mas também pelo fato de que durante os 12 anos do kirchnerismo nem o presidente Nestor nem sua esposa Cristina sequer tenham tocado no assunto. Esta contradição do ‘progressismo meia-boca’ peronista não é exclusividade argentina: o aborto também permanece penalizado na Venezuela, no Equador e na Bolivia. A única exceção sul-americana é a do Uruguai.

Para sermos honestos, não é a esquerda a única em demonstrar contradição entre os valores que prega e os que pratica. A direita autodenominada liberal também rejeita a legalização do aborto, revelando, junto com sua posição sobre o consumo de drogas,  que os termos de liberdade individual que defende limitam-se à questão econômica.

Para aqueles que defendem a proibição, o cerne da questão do aborto passa pela definição do momento em que acontece o inicio da vida humana. Já os que promovem a descriminalização primam pela autodeterminação da mulher em decidir sobre o seu próprio corpo e no fato de que, ainda sob a proibição, milhares delas morrem em clínicas clandestinas. Como se vê, as posições não são conciliáveis, pois as respectivas prioridades são diferentes. Entendo que, desde o estado, na há como impor a uma mulher aquilo que somente ela pode decidir, e que penalizá-la por isso é sobrepor um castigo a um evento que sempre será infeliz. Ressalvando que, aquelas que por convicção religiosa se oponham ao aborto, não estão obrigadas a realizá-lo.

A questão do aborto está na mesma categoria de assuntos ‘sensíveis’ como já foram o divórcio e o matrimonio gay, e como ainda é a legalização das drogas. Mas a experiência indica que a realidade acaba se impondo sobre os dogmas e a ideologia, e mais cedo ou mais tarde o bom senso prevalecerá, na Argentina, no Brasil e no resto de América do Sul. Basta ver o mapa acima, que mostra quais são os países onde se permite o aborto e quais onde é proibido, para ver para onde marcha o mundo civilizado.

A sessão da Câmara argentina está sendo transmitida ao vivo, aqui.

 

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Alexandre Buchaul — Dívidas de Gratidão

 

 

 

A vida nos reserva surpresas, o acaso espreita a cada esquina e aquele de nós que se crê autossuficiente não poderia estar mais enganado. Passamos, minha família, por uma situação arrasadora que, tendo um final feliz, nos pôs a provar o amargo do desespero, mas, ao mesmo tempo, o doce sabor da solidariedade humana de que ainda somos capazes.

Domingo, 10 de junho de 2018, meu sogro, Ulisses saiu para fazer uma “caminhadinha” como as muitas já feitas desde que sofrera o AVC, ou derrame cerebral como me lembro de dizerem quando ainda era eu criança. Desta vez ele não voltou, não como de costume. O procuramos exaustivamente pelos lugares em que poderia, ainda que eventualmente estar. Buscamos por fim em delegacias e hospitais, o demos por desaparecido.

Anunciamos o desaparecimento nas redes sociais, a imprensa da cidade se mobilizou em noticiar o fato e as pessoas se puseram a ajudar como em raras vezes percebemos no correr de nossos dias. Verificamos todas as informações que pudessem trazer mesmo que apenas um fio de esperança em encontrá-lo, muitas não se confirmaram. Entretanto, em dos grupo de whatsapp, dos muitos que há em nossa cidade, surge a informação de um rapaz, de uma lanchonete em Santa Cruz, que o haveria atendido e visto embarcar no ônibus que faz a linha Campos – Miracema. A busca teve seu raio aumentado, mas havia ao menos um norte a ser buscado. Alguns minutos depois recebo a ligação da Delegacia de Polícia de Miracema, ele havia sido localizado e nos aguardava. O alívio banhado em lágrimas é impossível ser descrito.

Tratar redes sociais e mídias tradicionais como inimigas é um terrível erro. Elas se completam, a velocidade e democracia das redes junto à credibilidade e solidez da mídia tradicional são incríveis. Em minutos a foto e o relato do desparecimento de meu sogro repercutiram por toda a região levados pelas redes sociais e a credibilidade das mídias tradicionais permitiu as pessoas terem a certeza de não se tratar de “fakenews”.

Por fim, a forma como meu sogro foi acolhido e atendido em Miracema merece todos os elogios. Sem dinheiro, sem documentos e desorientado, ele foi acolhido, medicado e assistido com amor. Passou a noite de domingo na unidade de saúde e, no dia seguinte, foi encaminhado à delegacia. Lá, apesar dos relatos inconsistentes que fazia, teve atenção a seu problema até que verificaram nas mídias a busca por ele, prontamente fizeram contato e o mantiveram assistidos até que pudéssemos chegar para o buscar.

O serviço público alcança sua maior honra nas atitudes daqueles que o exercem.  Assistentes sociais e servidores da saúde de Miracema foram primorosos, policiais deram mais uma prova de que para salvar vidas nem sempre são necessários tiros. Vocês tem minha eterna gratidão!

 

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Em sabatina da UOL, Garotinho a governador, Judiciário e corrupção

 

 

 

Vai ter quarta prisão?

“O senhor foi preso três vezes. Vai ter uma quarta prisão antes da eleição?”, perguntaram na manhã de ontem (11) ao ex-governador Anthony Garotinho (PRP). Ele respondeu: “Olha, eu não sei”. Foi durante sabatina da UOL, Folha de São Paulo e SBT. O político de Campos teve um dia movimentado. À tarde, ele lançou sua pré-candidatura a governador no Clube de Regatas Boqueirão do Passeio, no bairro carioca da Glória. Lá, além da dinastia Garotinho, com Rosinha (Patri), Clarissa (Pros) e Wladimir (PRP), estiveram vereadores de Campos afastados pela Justiça na Chequinho, além de Brizola Neto (PPL), cotado para vice na chapa.

 

Vingança de Cabral?

Talvez pelo ingresso da UOL e Folha da São Paulo, a sabatina teve mais critério jornalístico do que as “entrevistas” de Garotinho ao jornalista Roberto Cabrini, no SBT — que depois abririam as portas da emissora às três reportagens bastante duvidosas (aqui, aqui e aqui) sobre a Chequinho e a Caixa d’Água. Ainda assim, mesmo ontem o político da Lapa insistiu em dizer que as duas operações da Polícia Federal (PF), responsáveis por suas três prisões, teriam sido consequência das suas denúncias contra o ex-governador Sérgio Cabral (MDB) e a “gangue dos guardanapos”.

 

Origens: Chequinho e Caixa d’Água

Na verdade, a Chequinho nasceu das próprias assistentes sociais da última administração Rosinha em Campos. Elas denunciaram a falta de critérios para se aumentar de 12,5 mil para 30,5 mil os assistidos pelo Cheque Cidadão, num espaço de apenas três meses do ano eleitoral de 2016. Por sua vez, a Caixa d’Água nasceu das delações do empresário Ricardo Saud, da JBS, à operação Lava Jato, revelando do repasse de R$ 3 milhões de dinheiro não declarado às campanhas de Rosinha a prefeita, em 2012, e de Garotinho a governador, em 2014. Elas foram confirmadas pelo empresário campista André Luiz da Silva Rodrigues, o “Deca”.

 

Judiciário e corrupção (I)

Apesar da origem da Caixa d’Água na Lava Jato, Garotinho insistiu em repetir na sabatina que suas acusações não teriam a ver com a maior operação contra a corrupção do Brasil. “Meus casos são com a Justiça Eleitoral de Campos”, buscou minimizar. Porém, quando disparou suas acusações contra juízes, promotores e delegado federal responsáveis pelas duas operações e três prisões, o vídeo da sabatina foi providencialmente cortado, lendo-se apenas: “problemas técnicos, voltaremos em instantes”. Falando sobre corrupção, o ex-governador provocou: “tem empresário envolvido, tem político envolvido. Será que não tem ninguém do Judiciário?”.

 

Judiciário e corrupção (II)

Sobre a possibilidade de ser preso novamente, Garotinho respondeu mais uma vez: “O senhor pode acabar como o ex-presidente Lula? Ou seja, ser condenado agora pelo TRE, se o STF liberar a ação (recurso da condenação em primeira instância na Chequinho), ser preso e cair na Ficha Limpa?”. Aí, após indagar sobre a corrupção no Judiciário, o ex-governador respondeu: “Olha, eu acho difícil”. Ele pareceu confiante ao apostar na manutenção da suspensão do seu julgamento no TRE em decisão monocrática do ministro do STF Ricardo Lewandowski, conhecido pela aplicação do garantismo com políticos acusados de corrupção.

 

Novos números

O instituto Datafolha divulgou, domingo, nova pesquisa presidencial. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), condenado em segunda instância na Lava Jato e preso desde abril, lidera com 30%. Sem ele, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) aparece na frente, com 19% (2% a mais que no cenário com o petista). Entre os muitos pontos que podem ser analisados está o fato de Marina Silva (Rede) voltar a aparecer na frente de Ciro Gomes (PDT), respectivamente com 15% e 10% no cenário sem Lula. Semana passada, o DataPoder 360 apontou que, sem Lula, Bolsonaro liderava, mas Ciro aparecia à frente de Marina.

 

Críticas

E por falar na DataPoder 360, Bolsonaro  tomou a pesquisa como referência ao tentar desqualificar os números mais recentes. Nas simulações para o segundo turno do Datafolha nos cenário sem Lula, Bolsonaro aparece empatado tecnicamente com Ciro (34% contra 34%) e Geraldo Alckmin (33% cada), ao passo que perderia de Marina Silva (32% contra 42%). O deputado venceria somente Haddad (36% a 27%), bem diferente do que foi apresentado pelo DataPorder360 nos quatro cenários considerados  em um eventual segundo turno. Hoje, o Paraná Pesquisa tem sua mais nova sondagem liberada para divulgação.

 

Com o jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

 

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Pesquisa presidencial Datafolha sob análise no YouTube

 

Companheiros neste Opiniões e em debates anteriores, participei neste noite de domingo de uma rodada de análise da última pesquisa presidencial Datafolha, divulgada hoje (aqui), junto do especialista em finanças Igor Franco, do advogado Gustavo Alejandro Oviedo e do odontólogo Alexandre Buchaul. Batizada de “4 em linha”, a conversa foi transmitida ao vivo pelo YouTube e se repetirá, com outros temas, nas noites de domingo.

Entre várias interpretações, discutimos como a violência brasileira — contabilizada nos 110 homicídios de Campos só em 2018 — pode explicar a ascensão do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). Ele lidera todas as pesquisas sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nestes menos de quatro meses que nos separam das urnas de 7 de outubro.

Confira abaixo:

 

 

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Hamilton Garcia — A evolução da esquerda (II)

 

 

 

A submissão do PCB ao radicalismo militar-popular prestista-stalinista — vide artigo anterior — arrastou não só os comunistas, mas o conjunto do movimento democrático (ANL) e sindical a uma profunda depressão, depois da derrota do levante de 1935 e da onda repressiva que se seguiu, abortando a maré montante da nova sociedade civil após o fim da hegemonia oligárquica sobre o Estado, em meio a uma crise econômica internacional (Grande Depressão) e à frustração popular com os rumos da Revolução de 1930 — já sob a égide da Constituição de 1934, a primeira constituição democraticamente produzida no país, não obstante o veto à participação eleitoral do PCB.

O retrocesso aplainou o terreno para a formação de um poderoso bloco conservador que desembocaria no golpe militar-varguista de 1937, permitindo que o processo de modernização passasse à direção da direita, concentrando o poder de Estado nas mãos de Vargas e seus aliados em benefício de uma acumulação nacional-capitalista acelerada sem a participação independente da sociedade civil trabalhadora — incluído seus extratos médios —, aprisionada em formas paraestatais de associativismo sindical e cultural.

O Estado Novo permitiu a Vargas, a um só tempo, desimpedir o caminho para o capitalismo de Estado brasileiro neutralizando tanto a oposição sindical, quanto o empecilho integralista (AIB) a um pacto amplo de alianças em torno do desenvolvimento. Ao franquear livre acesso ao poder — via ministério do Trabalho e Justiça do Trabalho — aos grupos sindicais moderados, dispostos à barganha com políticos e patrões em troca de privilégios e concessões trabalhistas, Vargas dificultou também o acesso da esquerda ao movimento operário. Aos comunistas, desarticulados e isolados, sobrariam poucas alternativas, tendo prevalecido aquela de tentar recuperar prestígio social ocupando a margem esquerda das concessões do varguismo ao movimento trabalhista (populismo), o que os conduziu a abandonar a extremada oposição e aderir ao queremismo — campanha pela continuidade do Governo Vargas em meio às pressões pela redemocratização e pela constituinte em 1945.

A manobra tisnaria a imagem de Prestes, cuja mulher, Olga Benário — agente da IC no levante de 1935 —, havia sido deportada por Vargas para a Alemanha grávida de uma filha sua, sendo morta em seguida pelos nazistas em um campo de extermínio, sem produzir os resultados esperados e ainda reforçando as desconfianças acerca das intenções totalitárias do PCB.

Mesmo assim, frustrada a manobra queremista pelo golpe civil-militar de 1945, os comunistas lograram obter a ansiada legalidade, não obstante a manutenção do impedimento à liberdade (inter)sindical, e alcançar uma consagradora votação que os colocaria na quarta posição eleitoral em âmbito nacional, sustentando a mensagem da união nacional; que mais refletia a conveniência internacional de um período de paz pera a reconstrução da URSS, do que uma nova estratégia democrática para o socialismo. Logo, o recrudescimento das tensões internacionais (Guerra Fria) e as pressões reacionárias pela contenção dos movimentos sociais – inclusive pelo PTB, interessado no espólio eleitoral do PCB e em eliminar sua concorrência sindical – colocaria por terra a moderação comunista.

A cassação do PCB, seguida da perda do mandato de seus parlamentares, traria de volta o fantasma insurrecional com os comunistas não só abandonando a política de união nacional, como negando a própria ordem democrática (limitada) que haviam ajudado a erigir, voltando-se à pregação revolucionária, agora sob a inspiração da Revolução Chinesa de 1949), sem, mais uma vez, obter a adesão da sociedade.

A recidiva radical seria menos gravosa – dada a relativa ausência de repressão policial –, não fosse o extremo sectarismo que marcou a conduta comunista entre 1948-51, inclusive com tentativas de se formar grupos de autodefesa camponesa armada para enfrentar o arbítrio coronelístico no campo, na esteira da experiência com as Ligas Camponesas – criadas pelos comunistas, a partir de 1945, para driblar o veto católico-latifundiário à sindicalização camponesa.

O fracasso dessa estratégia, cuja expressão urbana foi a malfadada criação de sindicatos vermelhos na tentativa de superar o controle burocrático sobre os trabalhadores, acabaria gerando a reação do setor sindical do partido, que, ignorando as diretrizes do Comitê Central do partido, resolvem voltar aos sindicatos legais, o que levaria à recuperação dos espaços perdidos e ao protagonismo decisivo na greve geral paulista de 1953.

O reatamento dos laços com os sindicatos oficiais, todavia, só reaproximaria os comunistas dos nacionalistas depois do suicídio do líder populista (1954), numa chave semelhante à união nacional, buscando conciliar a via democrático-sindical de acesso à classe trabalhadora, com a perspectiva reformista da acumulação de forças para a revolução; um caminho, sem sombra de dúvida, mais realista para a afirmação dos ideais socialistas do aquele seguido nas fases insurrecionais.

As greves e mobilizações do período 1953-64, fortemente influenciadas pelo PCB, todavia, acabariam por enfraquecer a estratégia reformista ao se deparar com um parlamento petrificado pela ausência de livre organização política no campo — onde residia metade da população — e sem a presença do PCB legal, acabando por alimentar novas correntes rupturistas, agora fora do alcance do prestismo.

Por paradoxal que fosse, o revolucionarismo ganharia tônus com Leonel Brizola (brizolismo), líder radical do PTB gaúcho — partido de amplas bases populares e trajetória ascendente desde a eleição de 1950 — que se insinuaria após a vitoriosa Revolução Cubana (1959) como alternativa nacionalista-popular ao comunismo, avançando, a partir da renúncia de Jânio Quadros (1961), sobre as bases comunistas militares — organizadas, desde 1935, em torno do nacionalismo — sindicais, estudantis e rurais — por meio da recriação das Ligas Camponesas, capitaneadas por Francisco Julião —, através de um programa de mudanças econômico-sociais radicais (reformas de base) a ser implementado por cima do parlamento (“na lei ou na marra”) com o apoio de grupamentos sociais armados (Grupo dos Onze) e da retaguarda dos militares nacionalistas (“dispositivo militar legalista”).

A pressão radical do brizolismo, em maré montante, levaria de roldão não apenas o prestismo — historicamente oscilante entre o putchismo de 1935 e a conciliação de 1945-47, o Manifesto de Agosto de 1950 e a Declaração de Março de 1958 —, mas também boa parte do PTB e o próprio Presidente da República (João Goulart), arrastando a todos para o mesmo precipício de onde, no final de março de 1964, não seria mais possível recuar.

O terrível desenlace, que modernizaria o Estado, a economia e a sociedade brasileira, ao mesmo tempo que a mergulharia numa nefasta ditadura de alto custo humano e social, lançou a esquerda em nova refundação, estilhaçando o PCB e precipitando sua juventude na luta armada à moda cubana (foquismo), numa reiteração trágica do fascínio nacional pela imitação dos modelos estrangeiros, absorvidos aqui sem a necessária consideração acerca das especificidades nacionais.

A nova tournant culminaria com a superação da hegemonia marxista-leninista sobre a esquerda brasileira e sua substituição gradual, a partir dos anos 1970, pela sindical-pastoral, que daria ensejo ao PT em 1980. Mas, isso é assunto para o próximo artigo.

 

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Na vida de Edvar, meio século de luta pela CDL e comércio de Campos

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (08) na Folha

 

 

Cinco décadas de CDL

O empresário Edvar Chagas morreu na madrugada de ontem, aos 79 anos, de parada cardiorrespiratória. Ele completaria 80 anos na próxima sexta, dia 15. Foi presidente quatro vezes da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Campos, passando por todas as diretorias da entidade. Pela capacidade de agregar, era considerado o grande conciliador da instituição, tanto internamente, quanto em suas interrelações com a sociedade. Filiado à CDL desde 1964, esteve em todas as suas lutas nas últimas cinco décadas. Na mais recente, foi fundamental na negociação com a Prefeitura, que reduziu o aumento do IPTU de Campos em 2018.

 

Costura do empreendedor

Nos anos 1960, Edvar trabalhou na Singer Brasil. Com o know how no ramo de máquinas de costura, abriu em 1968 a Feira das Máquinas na rua dos Andradas, no prédio que hoje abriga o parque gráfico da Folha da Manhã. Com a CDL Campos inaugurada em 1963, começou a militar nela no ano seguinte, chegando à presidência em 1977 — sendo eleito novamente em 1995 e, consecutivamente, em 2000 e 2001. Após a experiência da Solar Móveis, ele adaptou o nome da sua loja original na mudança para o novo produto. Assim, em 1985, abriria a primeira Femac, na avenida Alberto Lamego, dedicada ao comércio de móveis de primeira linha.

 

Bandeira

Como líder do setor produtivo de Campos, várias foram as iniciativas de Edvar. Sobre a bandeira do imposto único, hoje hasteada pelo empresário e presidenciável Flávio Rocha (PRB), este esteve em Campos ainda na primeira metade dos anos 1990, quando era deputado federal. Como Murillo Dieguez relembra (aqui) em sua coluna na página 6, Rocha fez uma concorrida palestra na CDL. E depois mereceu uma recepção oferecida por Edvar. A partir dali, o empreendedor campista faria do imposto único uma bandeira sua e de todos os que geram empregos e divisas ao país, a despeito de uma das cargas tributárias mais altas do mundo.

 

Legado

Como também conta (aqui) a reportagem da jornalista Dora Paula Paes, publicada na página 8, foi de Edvar a ideia da Feira de Preços Especiais (Fepe). Ela foi criada em 1999, quando o presidente da CDL-Campos era Marcelo Mérida, hoje à frente da Federação Fluminense das CDLs. Encampado o projeto, nele se passou a reunir todo o resto de estoque do comércio de Campos, sobretudo vestuário, ofertado à população com descontos de até 70%. Reunidos num mesmo lugar e iniciativa, com propaganda conjunta, o sucesso foi tanto que hoje a Fepe já prepara sua 30ª edição. Há 19 anos, ganham o comércio e o consumidor do município.

 

Coragem

Junto da esposa Cicinha, dos filhos Edvar Júnior e Luciano, Edvar era anfitrião e frequentador assíduo da vida social de Campos. Numa cidade em que a vaidade pessoal é carro chefe para quem trabalha com mercadorias de ponta, soube trabalha-la como poucos. Mas o fazia também pelo prazer de receber. Não bebia nada além da cerveja moderada e se cuidava bastante fisicamente. Nos verões em Atafona, sua praia de eleição, era comum se cruzar com ele em caminhadas diárias. Não fumante, sua doença pulmonar foi consequência da coragem com que enfrentou um terrível incêndio na Femac, em 23 de outubro de 2013.

 

Amigo

Pessoalmente, Edvar era conhecido pela fidelidade aos amigos. Um dos mais próximos foi o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa, fundador deste jornal e desta coluna de opinião, que escreveu até bem perto de morrer, em 15 de agosto de 2012. Pouco antes, quando Aluysio descobriu um câncer de pulmão e se submeteu a duas cirurgias em Porto Alegre (RS), centro de excelência na especialidade, Edvar foi um dos amigos que venceu a distância entre as planícies do Paraíba do Sul e do Guaíba, para estar ao lado do amigo. Se o jornalista estivesse vivo, difícil saber o que escreveria aqui sobre quem alçou a planaltos na madrugada de ontem.

 

Amiga

Na dúvida, melhor ficar com o que escreveu sobre Edvar a esposa de Aluysio, cuja íntegra do texto pode ser lido na capa desta edição. Mais como historiadora e poeta, do que como empresária, Diva Abreu Barbosa testemunhou (aqui) sobre 80 anos de vida, não sobre morte: “Por todo nosso caminhar, sonhamos juntos; brincamos juntos, sofremos juntos e, também, renascemos juntos! Um dia após o outro. Fraternidade que galopa em nosso tempo e em nossos prados. Aleluia! Sempre!”.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

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