Guilherme Carvalhal — A mina de ouro do meu pai

 

 

 

Quando meu pai achou o filão de ouro, toda a dinâmica da vila mudou. Meu pai enriqueceu e boa parte dos vizinhos começou a trabalhar para ele. Com tal labuta, o patamar financeiro geral cresceu e saíram do estado de mendicância. As antigas choupanas de madeira deram lugar a casas de alvenaria. Compraram carros, tiverem energia elétrica. Quando as pessoas passaram a andar de bolso cheio, todo tipo de comércio surgiu. Tudo mudou e a prosperidade reinou.

Quem anteriormente percorria as ruas cabisbaixo e sem perspectivas passou a olhar o mundo de queixo erguido. Os mineradores constituíram uma classe orgulhosa e meu pai um empreendedor digno. Todos o enxergavam como um salvador da pátria, o homem que trouxe o desenvolvimento, que nos ligou ao mundo com a estrada e a ferrovia, que trouxe deputado estadual para falar com a gente. Até ergueram um busto em sua homenagem.

Após sua morte, tocar o empreendimento tornou-se um grande desafio para mim. Eu vivia à sombra dele, nunca sendo eu mesmo, mas sempre o filho do herói. Assumir a empresa consistia em um fardo que herdei, sempre sob os olhares implacáveis de quem demandava o mesmo desenvolvimento das últimas décadas.

Por uma ironia do destino, logo o sonho amainou e o desespero tomou conta de mim. Mês após mês a quantidade de ouro se reduzia e isso indicava o esgotamento do veio. A empresa pela primeira vez começou a apresentar resultados negativos e cabia a mim tomar medidas.

O primeiro corte de mão de obra gerou forte polêmica. Os demitidos se revoltaram e me xingaram afirmando que na época de meu pai isso não ocorreria. Os que continuaram se encheram de apreensão, temendo pela sua hora. Mesmo assim, os resultados negativos permaneceram, pois cada vez saía menos ouro da terra.

O efeito logo foi sentido. Muitas lojas fecharam por falta de compradores e a criminalidade cresceu. Os demitidos colocavam seus móveis e carros à venda, muitos deles negociavam até a própria casa. A escassez fez que nem isso conseguissem e os móveis se entulharam nas varandas com placa de “vende-se”.

O primeiro mês em que nenhum grama de ouro foi desencavado levou ao desespero. Sem receita, precisei tirar dinheiro dos fundos da empresa para pagar todos os custos, fundo esse já deteriorado após os meses de resultado negativo. Tentei segurar ao máximo, porém os três meses seguintes corroboraram a realidade: a mina estava esgotada.

Decretei falência e usei as sobras de dinheiro para quitar todos os débitos. Paguei os direitos trabalhistas, os impostos, o banco. Faltou capital e precisei colocar os bens da empresa à disposição. No fim das contas meu próprio patrimônio se esgotou e sobrou-me apenas a mansão construída por meu pai, bem diante da praça que ostentava seu busto.

Assisti pela sacada todo o progresso ruir feito um castelo de cartas quando o vento sopra. O clima de felicidade foi trocado pela tristeza e pelo ressentimento. Brigas surgiam constantemente. O alcoolismo se fez mais presente. A sujeira acumulou, as casas se arruinaram.

Quando a fome se generalizou, todos andavam lá e cá sem rumo. Um, mais revoltado, tacou uma pedra contra minha janela. Um efeito hipnótico acometeu sobre todos, localizando o verdadeiro responsável pela penúria. E todos avançaram contra minha casa.

Assisti portas derrubadas e móveis destruídos. Eu implorava por paciência, mas a destruição amainava o desespero reinante em cada um. Iniciaram um fogo e lançavam quadros, copos e talheres, oferecendo um sacrifício para que a prosperidade novamente se instalasse.

Por fim, me amarraram e deixaram ali dentro para queimar com tudo mais. À medida em que as chamas avançavam pelo carpete e pelas cortinas, restou pedir perdão para meu pai. E, em minha agonia, pude ver seu semblante surgir debochando de meu final.

 

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Ricardo André Vasconcelos — Primeiras impressões de 2018

 

 

 

A manutenção da liderança de Lula na corrida presidencial, de acordo com a primeira pesquisa Datafolha após a prisão do ex-presidente, mostra que o quadro sucessório está longe, muito longe, de qualquer indicativo do que o eleitor vai decidir em 7 de outubro.  O instituto ouviu 4.194 pessoas entre os dias 11 e 13 de abril, poucos dias após o inicio do cumprimento da prisão de Lula, em Curitiba, condenado a 12 anos e um mês por crimes de corrução e lavagem de dinheiro no caso que ficou conhecido como o do “triplex no Guarujá”.

O petista, que teve a candidatura confirmada pelo partido na semana passada, ficou com 31% das intenções de voto, seguido de longe pelo capitão reformado e deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) com 15%. Como principal antagonista da candidatura do petista, Bolsonaro parece ter batido no teto das intenções de voto, ou está próximo disso, porque seria natural o seu crescimento diante da certeza, cada diz mais cristalina, de que Lula está definitivamente fora do páreo.

Além de reverter a prisão, Lula precisaria suspender os efeitos da condenação e, ainda, da inelegibilidade imposta pela lei da Ficha Limpa, para ter seu nome incluído na urna eletrônica. Pode-se concordar ou não, mas é um fato, tal qual a reação das ruas que não veio e, com isso, ficou reduzida a capacidade de transferência de votos. O PT e os partidos de esquerda tentam, com poucas chances de êxito, fortalecer um nome como herdeiro do espólio lulista, mas a tarefa é tão difícil quanto à presença do próprio Lula na eleição. A pesquisa testou o nome do ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que ficou com parcos 2% de intenções de voto. Dos possíveis herdeiros do patrimônio eleitoral do petista, Ciro Gomes (PDT), ficou com 5%. A ex-ministra do governo Lula, Marina Silva, que nas duas últimas eleições presidenciais, consolidou em torno de 20% dos votos, pontuou na pesquisa com 10%, seguida do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa (PSB), com 8%. Manuela D’Ávila (PCdoB) teve 2% e Guilherme Boulos (PSOL) não pontuou,

Barbosa é uma esfinge. Demorou para se decidir filiar a um partido político, estica até a undécima hora se vai ou não entrar na disputa, e chega ao cúmulo da indecisão ao confessar que ainda não sabe se quer ou não ser candidato. Se as pesquisas que indicam que o eleitor quer alguém novo, sem os tradicionais vícios políticos e principalmente, sobre o qual não pesem dúvidas sobre a honestidade, estaria aí um campo enorme para crescimento de Joaquim Barbosa ou de Marina, ou quem sabe os dois juntos numa mesma chapa? O problema é que, defeito ou virtude, a ambos carece a gana para disputar a talvez mais importante eleição deste a redemocratização.

Pesquisas à parte, que são retratos de momentos, ao que parece, um dos principais fatores a decidir a eleição presidencial será o ritmo e rumos da Lava-Jato nos próximos meses. A mesma Lava-Jato que abateu Lula e Aécio Neves, pode levar ao cadafalso o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, agora fora da benfazeja sombra do STF, já é investigado na primeira instância da justiça paulista. Alckmin largou mal na pesquisa Datafolha com apenas 6%. Além da Lava-Jato, outro fator determinante na eleição de 7 de outubro é a questão do financiamento. Será a primeira eleição com doações empresariais proibidas, ou seja, sem a Odebrecht e suas congêneres e sem a onipresente JBS, todas irrigando recursos nas campanhas distintas de olho nas vantagens auferidas junto à que se sagrar vencedora. Além disso, será uma campanha mais curta, de apenas 45 dias de propaganda no rádio e TV.

Uma candidatura Temer é impensável e dificilmente a máquina do Governo Federal teria algum êxito no apoio ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), por exemplo, mas este é outro que pode ser apanhado na rede da Lava-Jato. Por este prisma, restariam a insossa Marina, o titubeante Joaquim e o explosivo Ciro, de um lado, e o Bolsonaro correndo sozinho com seu discurso de retrocesso arrebanhando votos dos que entendem que os problemas se resolvem enfrentando as consequências e não as causas.

 

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Orávio de Campos — Teixeira de Melo ou Azevedo Cruz?

 

 

 

Muito embora a memória planiciana aponte, com muita razão, o poeta João Antonio de Azevedo Cruz (1870-1905) como o maior de seus vates, destacando sua obra quase totalmente voltada para o engrandecimento de sua aldeia Goytacaz, não podemos esquecer, também, do sucesso nacional obtido pelo médico e poeta José Alexandre Teixeira de Melo (1833-1907), autor de “Sombras e Sonhos” e “Miosótis”, famoso poema cívico sobre os voluntários campistas imolados na Guerra do Paraguai.

Cruz, nascido na Freguesia de Santa Rita da Lagoa de Cima, estudou no Liceu e se formou em Direito, na capital, onde pode conviver com a intelectualidade no final do século XIX, com destaque para o aedo Alphonsus de Guimarães, de quem se tornou amigo. No “Escólio do Poema Amantia Verba”, seu autor, o filólogo Newton Perissé Duarte, salienta que ele frequentou a roda poética do simbolista Cruz e Souza.

Além dos encômios recebidos em sua terra, o poeta, amigo de Nilo Peçanha, “o mulato de Morro do Coco”, Manuel Moll, Múcio da Paixão, Luiz Carlos de Lacerda (abolicionista), Tancredo Lobo, Pedro Americano e, dentre outros, o sanjoanense Cecílio Lavras, que deu nome ao “Banco das Cismas”, ganhou importância no livro “Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro”, de Andrade Muricy…

Já Teixeira de Melo, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, menos badalado pela boêmia poética do final do Século XIX é, todavia, um dos destaques do livro “História da Literatura Brasileira” (Livraria José Olímpio Editora, Rio de Janeiro, 1960, p. 1040/1047), de autoria do não menos famoso crítico Silvio Romero (1851-1914), que o coloca dentre os articuladores do movimento parnasianista no país, e no mesmo nível (até melhor) de Casimiro de Abreu e de Luiz Delfino.

Ganha destaque, ainda, na obra “Movimento Literário em Campos” (p.34), através da pena de Múcio da Paixão. “(…) Entre nossos diletos cantores, figura nos primeiros planos. Poeta lírico de sabido merecimento, seu lirismo é suave, doce e delicado; teceu páginas de beleza admirável as quais foram respeitadas pela inclemência do tempo (…). Waldir Pinto de Carvalho, em “Gente Que é Nome de Rua” (p.31/45), também não lhe poupa elogios.

Azevedo Cruz, tão mulato como Nilo Peçanha, na perspectiva do olhar bairrista, tem um foco maior por causa da alegoria “Amantia Verba”, traduzida como “Versos Amantes”, um grito de amor à terra, (dedicada ao Dr. Benedito Pereira Nunes) — considerada como uma pérola da poesia brasileira e muitas vezes repetida, em parte, no próprio hino à cidade, com a musicalidade perfeita do próprio autor de “Escólio…”.

Teixeira de Melo, no dizer de Silvio Romero: “(..) O que individualiza e distingue as feições da poesia deste autor é certa singularidade, certa elevação graciosa das frases, certa garridice das imagens; coisas que lembram Victor Hugo nos bons tempos, quando ele não tinha ainda gongorismos, a fase em que escreveu “Sara la Baigneuse” e outras jóias deste quilate (…)”. Depois deixa exalar que o livro de Teixeira é exuberante de seiva, como são tantos outros do animado e luxuriante lirismo brasileiro.

Os dois vultos históricos ganharam bustos no entorno do prédio neoclássico da Academia Campista de Letras, na Praça Nilo Peçanha. As pessoas passam por ali não os reconhecem e nem os passarinhos poupam-lhes as cabeças coroadas. A cidade parece sem memória e nos programas pedagógicos são raras as escolas que tratam da cultura papa-goiaba como uma das mais interessantes da Capitania de São Tomé.

Azevedo Cruz escreveu: “Torres de usinas fumegando a um lado, / Para o poente o Itaoca e em cima e ao fundo, / Diáfano sempre, — um céu imaculado, / Céu de safira sem rival no mundo”. Teixeira de Melo e seu lirismo: “O amor é a vida na mulher que um dia / Ao passar pelo espelho achou-se linda! / Ama e vive, mulher! Quando morreres… / Quando morrermos, viverá ainda! ”.

Ambos — Azevedo Cruz e Teixeira de Melo — marcam a grandeza da poesia brasileira e, por isso, deveriam merecer pelo menos o respeito de seus concidadãos. Contudo, como outras relíquias de nosso patrimônio cultural, estão sujeitas à destruição, por falta de uma política que contemple a preservação da história desta urbe, que já foi uma das mais importantes do pais. Pior é, finalmente, verificar (Jacques Le Goff) que a memória também pode ser esquecimento.

 

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Artigo do delegado da PF gera nota de repúdio da OAB-Campos

 

A prisão do ex-presidentre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelo juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sérgio Moro, e quase tudo que a cerca, divide o país. Foi o que mostrou (aqui) a pesquisa do instituto Ipsos, que ouviu 1,2 mil pessoas entre 7 e 10 de abril, nas cinco regiões brasileiras. E, em Campos, não parece ser diferente.

Sobre a prisão de Lula por Moro, um artigo (aqui) do delegado da Polícia Federal (PF) de Campos, Paulo Cassiano Júnior, provocou incômodo por conta de algumas observações sobre o papel dos advogados. A resposta veio hoje (20) com uma nota de repúdio do presidente da 12ª Subseção da OAB-RJ, Humberto Nobre.

Enquanto os aconselháveis — e talvez necessários — “panos quentes” não chegam, confira abaixo os dois textos:

 

Humberto Nobre e Paulo Cassiano

 

Nota de repúdio da OAB-Campos

Por Humberto Nobre(*)

 

A Seccional e a 12ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil do Estado do Rio de Janeiro, por sua Diretoria, Conselho, Comissões e em nomes de todos os advogados vem a público REPUDIAR COM VEEMÊNCIA as recentes declarações do Ilustre Delegado de Polícia Federal, Dr. Paulo Cassiano Júnior.

O advogado, profissional de extrema importância para a manutenção da justiça; o advogado, profissional que lutou arduamente pelo restabelecimento da democracia; o advogado, profissional que por imposição constitucional é indispensável à administração da justiça; o advogado, profissional que através de muito estudo e da constante atualização consegue impulsionar diariamente os rumos da justiça brasileira; o advogado, profissional que defende muito mais que autor e réu. Profissional que, em verdade, defende o Direito, o cidadão, as garantias constitucionais, a Constituição Federal, a aplicação da lei e principalmente os ritos processuais, que muitas vezes são ignorados pelas autoridades públicas, não merece o descrédito pontuado nas declarações repudiadas.

Afirmar que determinados advogados não sabem que a Suprema Corte fica em Brasília soa tão desrespeitoso quanto afirmar que determinadas autoridades públicas desconhecem o contraditório, a ampla defesa, os ritos processuais, a probidade, a imparcialidade, as garantias constitucionais e o dever de urbanidade.

Ressalta-se que a “massa carcerária mofa nas penitenciárias” não por má atuação da advocacia, mas sim pelas constantes violações às prerrogativas dos advogados que, não raras as vezes, pasmem, são impedidos de acessar inquéritos e processos judiciais, de despachar com as autoridades competentes e, também, pela morosidade da justiça.

A advocacia, além de defender o Direito do cidadão, tem por finalidade defender a Constituição, a ordem jurídica do Estado democrático de direito, os direitos humanos, a justiça social, e pugnar pela boa aplicação das leis, pela rápida administração da justiça e pelo aperfeiçoamento da cultura e das instituições jurídicas. Diante do exposto, quando um advogado é desrespeitado, é o direito do cidadão que está sendo violado.

Por fim, o mínimo que a advocacia exige, e vai obter a todo custo, é respeito.

 

(*)Presidente da OAB-Campos

 

 

Moro cometeu ilegalidades na prisão de Lula

Por Paulo Cassiano(**)

 

Na semana passada, o Brasil assistiu, atônito, à prisão do primeiro ex-presidente por crime comum em toda a história da República.

Quando Lula chegou à Superintendência da Polícia Federal no Paraná, o país dividiu-se entre os que se regozijaram, de um lado, pela prisão de um político corrupto, e os que se indignaram, de um outro, pela perseguição ao maior líder popular da nossa história.

Frequentemente, a operação Lava-jato é acusada pela seletividade das suas investigações, que centram fogo contra petistas, mas recolhem a sua artilharia quando os alvos são os tucanos. “Pau que bate em Francisco deveria bater em Chico também”, dizem os críticos.

De fato, o juiz Sérgio Moro parece ter cometido ao menos três ilegalidades em sua decisão.

A primeira: facultou ao preso um prazo para se entregar. Ao permitir que Lula se apresentasse espontaneamente à Polícia Federal apenas no dia seguinte ao da decisão, o magistrado colocou em risco a efetividade de sua própria medida, pois permitiu que o preso manobrasse para se esquivar de seu cumprimento, o que aconteceria, por hipótese, se Lula acorresse a uma embaixada amiga em busca de asilo político. Ora, a prisão de qualquer indivíduo é, por natureza, medida drástica e urgente: ou é pra valer, ou não deve ser.

A segunda: proibiu o uso de algemas “em qualquer hipótese”. Porém, ficam aqui as perguntas: se Lula tentasse fugir? Se resistisse à prisão? E se oferecesse perigo à sua própria integridade física ou à de terceiros? Bem, nesse particular, parece que o magistrado não se atentou para as regras do Decreto nº 8.858/2016 e da Súmula Vinculante nº 11 do Supremo Tribunal Federal, que autorizam o uso de algemas em todas essas situações.

A última: determinou o cumprimento da prisão em sala de Estado Maior. Aqui a ilegalidade bifurca-se em outras duas: primeiro, porque ex-presidentes da República não têm assegurado por lei direito a esse benefício; e segundo, porque o recolhimento a sala de Estado Maior ocorre apenas quando a prisão é cautelar. Nesse ponto, vale lembrar que, recentemente, consolidando entendimento já assentado em 2016, o plenário do STF decidiu que a natureza jurídica da prisão após condenação em segunda instância é a de execução provisória da pena.

Em sua decisão, o juiz Sérgio Moro justificou a deferência “em razão da dignidade do cargo ocupado” pelo ex-presidente.

Estranho é ver que, no Brasil, ricos e poderosos como Lula, capazes de contratar um exército de advogados caríssimos e influentes, ainda obtêm vantagens pela dignidade dos cargos que ocuparam, mesmo que essa ocupação tenha se dado indignamente.

Enquanto isso, a massa carcerária brasileira mofa nas penitenciárias superlotadas, assistida por advogados que não sabem nem que o STF fica em Brasília.

Estes são os verdadeiros filtros da seletividade da Justiça brasileira: o dinheiro e o poder.

Petistas, tucanos e afins são “francisco”. O resto é “chiquinho”.

 

(**)Delegado da Polícia Federal de Campos

 

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Paula Vigneron — Resquícios

 

Paria do Espélho, Bahia, 6 de março de 2018 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Era pontual. Às sete da manhã, saía de casa. Traçava, em uma pequena caderneta, a rota pela qual passaria nas horas seguintes. Vestiu-se de forma meticulosa. Cueca. Meias. Calça. Blusa. Tênis. Analisou a imagem no espelho. Ajeitou os cabelos com os dedos. Nem se lembrava de onde havia deixado o pente que herdara de sua mãe.

A bolsa estava jogada na cadeira da bagunça, perto de sua cama. Era onde ficavam os principais acessórios do dia. Sempre acomodava-os ali. Era mais fácil de encontrar todos os objetos dos quais precisaria. Pegou-a. Colocou-a sobre o ombro esquerdo. Estava vazia. Refez o trajeto. Encontrou a caneta. Traçou. Demoraria poucas horas para retornar à sua casa.

Abriu a porta da sala. Estava sol. Um dia mais quente do que esperava. Montou em sua bicicleta e seguiu pelas ruas. Vias desertas. Por trás dos muros, vidas vazias. Prosseguiu. A bolsa balançava enquanto ele andava sobre paralelepípedos. No chão, a característica sujeira de uma noite movimentada.

À medida que fazia o percurso, sentia um peso sobre o ombro esquerdo. Fora jovem e correra por aquele caminho. Mais adiante, havia beijado a primeira garota de sua vida. Aninha. Uma paixão adolescente que ainda acelerava o coração adulto. Agora, perto da esquina, em frente à escada que dava acesso ao hospital, revivia as despedidas. Pensou que poderia ter sido um homem melhor.

O peso sobre o ombro esquerdo aumentava.

Percorreu 100, 200, 300 metros. Um quilômetro entre recantos. Cantos outrora seus. A casa de Aninha. Continuava com as mesmas paredes brancas. Apertou os freios. Do outro lado da rua, via o quarto dela, no segundo andar. Estava fechado. Conseguia sentir, apesar da distância, o cheiro de mofo onde, antes, havia perfume, briga, amor, sabonete e sexo. As cortinas azuis combinavam com lençóis e fronhas de sua cama. Hoje, a janela conservava os vidros trincados.

Aumentava o peso sobre o ombro esquerdo.

Retomou o percurso. Sentiu o calor ao pedalar. Pensou no mar. Seria o final do trajeto. Antes, precisava redescobrir outros espaços. Ziguezagueou pelas tradicionais áreas. Supermercados. Bares. Uma casa onde havia funcionado um cinema alternativo. Os primeiros porres compartilhados com os amigos. Os segredos trocados. As juras de amor eterno. Tantas promessas sopradas ao vento. E, ainda ali, Aninha. O sorriso aberto ao saber das novidades. O cenho franzido denunciando a insatisfação.

Ajeitou a bolsa que pesava sobre o ombro esquerdo.

Poucos metros depois, lembrou-se do último encontro. A despedida dos amigos. Eles iriam para outras cidades. Uns foram aprovados em vestibulares. Outros conseguiram empregos. Um deles conheceu uma moça e queria se casar. Entre eles, Aninha. Havia sido classificada para uma vaga no curso de artes. “Não vá. Fique comigo”, pediu, como uma criança. “Não vou abandonar um sonho. Voltarei um dia. Me espere, querido. O tempo é um sopro.”

Doía, de forma contundente, o ombro esquerdo.

As lembranças gritavam. Ecoavam as vozes da memória. Eram agressivas com o homem que sobrevivia por meio delas. Encontrou o mar. As ondas tranquilizaram-no. O ombro pesado. Doído. Jogou a bolsa na areia. Livrou-se da calça. Blusa. Medos. Meias. Tristezas. Tênis. Culpas. Cueca. Diante do mar, despiu-se da saudade.

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — Em busca de um liberal para chamar de meu

 

Art. 19 da Constituição Argentina de 1853. Uma bela definição de liberalismo

 

 

Para a época em que Cristovão Colombo partiu do Porto de Palos, em 1492, com o objetivo de achar uma rota até as Índias pelo leste, era de conhecimento geral, dentre a população ilustrada, que a Terra era redonda. Apenas os ignorantes e os supersticiosos (pagãos ou religiosos) acreditavam que o mundo se sustentava sobre elefantes parados numa tartaruga gigante.

Forçando no paralelismo, diria que hoje apenas os supersticiosos (pagãos ou religiosos) não acreditam no liberalismo econômico (capitalismo) como a melhor ferramenta de desenvolvimento humano. Aliás, é a filosofia econômica utilizada em quase todos os países e, mal que lhes pese a alguns — de um lado e do outro —  é a que o PT também utilizou durante seus 13 anos no governo federal.

O capitalismo pode ser clientelista (América Latina); integrado a um Welfare State eficiente (Europa); anárquico (África); tutelado por uma ditadura (China), ou de estado mínimo (Estados Unidos). Dependendo da subcategoria,  proporciona mais ou menos qualidade de vida. No entanto, em qualquer caso, há uma constante: o progresso. Tirando as exceções como os países em guerra civil, ao analisar as estatísticas dos últimos dois séculos, nota-se uma melhora inegável no desenvolvimento humano.

Chama a atenção, no entanto, que sendo o Brasil um país com 35 partidos políticos registrados no TSE, aqueles que abraçam a causa liberal sejam contados com os dedos de uma mão. E desses poucos partidos que se dizem liberais, praticamente todos limitam o liberalismo à questão econômica.

Faça-se a seguinte experiência: pegue um autodenominado ‘liberal brasileiro’, e pergunte a ele o que acha da liberação das drogas, ou do aborto. Aí você comprovará o quanto ele é realmente liberal. Até João Amoedo, candidato a presidente pelo Partido Novo, um dos partidos liberais com a proposta mais original que tenha surgido nos últimos tempos, é contra.

Um verdadeiro liberal,  entendo eu, deveria ser uma pessoa que não apenas simpatize com  a noção essencial de que não existe impulso maior para o progresso humano do que a ambição particular, num contexto onde o estado (sim, ele precisa existir) garante as condições básicas de justiça, competitividade, segurança e assistência social. Até aqui temos um conservador. Para ser liberal mesmo tem que abraçar a ideia de respeito ao próximo. E quando digo respeito digo também indiferença. Indiferença para o que pensa, para o que incorpora ao seu corpo, para o que veste e para as pessoas que elege levar à cama. Afinal, um moralista não é outra pessoa que alguém que se importa demais com a vida dos outros.

Se entendemos que o estado intromete demais no nosso bolso, para fazer mal aquilo que acha certo para nós, porque não haveríamos de pensar igual para outros aspectos da existência?

Ainda aguardo um verdadeiro liberal que me represente.

 

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Carol Poesia — Em nome do livro

 

 

 

Nesta semana tem o Dia do livro, e várias escolas contam com uma  programação especial… Não é para menos! Entenda a importância da leitura:

O ato de ler favorece o conhecimento de mundo, o reconhecimento das demandas e à formulação de possíveis soluções para os problemas da humanidade. A leitura promove autonomia ao indivíduo, uma vez que ele próprio, a partir de seu acervo cultural e de seu senso crítico, pode perceber e analisar o meio a sua volta, bem como reconhecer-se enquanto agente transformador desse meio.

Além de fundamental para a formação do senso crítico, a Literatura, enquanto arte, garante ao leitor algo muito raro aos automáticos e robóticos tempos modernos — sensibilidade. O texto literário, por ser um texto artístico, cumpre uma função para além da informação: promove sensibilização a partir de um encontro estético, uma reflexão a partir das emoções.

E como é rara a reflexão hoje em dia! Embora a oferta de informações seja abundante com a popularização da televisão e da internet, tem-se observado que esta leitura múltipla e em rede não necessariamente se converte em conhecimento ou reflexão. Por exemplo, um jovem leitor “lê”, ao mesmo tempo, notícias sobre o assassinato da vereadora Marielle, atualizações das suas redes sociais e textos sobre Direitos Humanos para uma pesquisa da escola. Essa “leitura em rede”, que deveria favorecer o seu raciocínio, talvez não favoreça a assimilação das informações, dificultando o estabelecimento das relações entre elas. É possível que esse “leitor”, após toda essa “leitura”, não seja capaz de relacionar a morte da vereadora com os Direitos Humanos, assim como é possível que ele repita opiniões do Facebook sem refletir sobre o assunto, sem ser capaz de se posicionar honestamente sobre um tema.

Então temos um problema. E não é com a tecnologia. Os e-books e suportes digitais só facilitam o acesso às obras. O problema está na forma de ler, que hoje segue o automatismo da vida moderna e, muitas vezes, ignora a reflexão, o que torna a leitura vazia. E onde entra o livro nessa história? O livro é uma mídia que exige mais do cérebro humano do que qualquer outra, porque ao contrário dos audiovisuais — que já oferecem imagens, formatos e sons prontos —, na leitura do livro é preciso imaginar as cores, os tamanhos, as expressões e as vozes. Esse exercício faz jus a todos os benefícios do ato de ler — informação, reflexão, criatividade, emoção, sensibilização, raciocínio e senso crítico. Além disso, a leitura do livro exige exclusividade e foco, um ótimo treino para a concentração.

Neste sentido, mais do que nunca, faz-se necessário a realização de eventos e programas que fomentem a leitura de livros. O ato de ler deve ser entendido como uma ação em prol da liberdade, porque através dele o indivíduo pode pensar por si, ter raciocínio crítico, opinião, autonomia e, finalmente, ser capaz de assumir sua função de agente transformador da realidade em que vive.

 

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Pesquisa Vox Populi para o PT: Lula lidera e não perde voto com prisão

 

 

O PT encomendou ao Instituto Vox Populi — e registrou no Tribunal Superior Eleitoral — pesquisa com quatro cenários distintos para o segundo turno das eleições presidenciais. Em todos os casos, o ex-presidente Lula venceria com folgas.

A pesquisa foi realizada no período de 13 a 15 de abril. O Vox Populi fez 2000 entrevistas, aplicadas em 118 municípios. A margem de erro é de 2,2 %, estimada em um intervalo de confiança de 95%.

A leitura, de acordo com o instituto, é de que Lula não perdeu votos, mas sim cresceu em alguns cenários. E que a percepção de injustiça na prisão do ex-presidente é grande.

O Vox Populi apresenta quatro cenários. O ex-presidente Lula concorre em cada um deles com Jair Bolsonaro (PSL), Joaquim Barbosa (PSB), Marina Silva (Rede) e Geraldo Alckmin (PSDB). De acordo com a pesquisa, Lula teria mais de 50% dos votos contra todos os outros candidatos. O ex-ministro do STF é quem teria o melhor desempenho entre os oponentes.

Para o presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, a pesquisa revela que “o impacto da prisão não foi significativo nas intenções de voto de Lula”, diz. “A pesquisa mostra que aumentou o sentimento de que o ex-presidente é vítima de uma injustiça e de que recebe um tratamento desigual por parte do Judiciário”, completa.

 

Veja os resultados de todos os cenários pesquisados no 2º turno:

 

Cenário 1 (Segundo turno com Marina)

Lula (PT): 54%

Marina Silva (Rede): 16%

Ninguém/ Branco/ Nulo: 23%

Não sabe/ Não respondeu: 7%

 

Cenário 2 (Segundo turno com Alckmin)

Lula (PT): 56%

Geraldo Alckmin (PSDB): 12%

Ninguém/ Branco/ Nulo: 25%

Não sabe/ Não respondeu: 7%

 

Cenário 3 (Segundo turno com Bolsonaro)

Lula (PT): 55%

Jair Bolsonaro (PSL): 17%

Ninguém/ Branco/ Nulo: 21%

Não sabe/ Não respondeu: 7%

 

Cenário 4 (Segundo turno com Joaquim Barbosa)

Lula (PT): 54%

Jair Bolsonaro (PSL): 20%

Ninguém/ Branco/ Nulo: 20%

Não sabe/ Não respondeu: 6%

 

Fonte: Jornal do Brasil

 

Confira aqui a pesquisa Datafolha à corrida presidencial, que aponta liderança ampla, mas menos folgada de Lula, com perda de votos após sua prisão.

 

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Alexandre Buchaul — Vacas Gordas

 

 

 

Desde quando se possibilitou aos municípios a implantação de regimes próprios de previdência social, estes, que se queixam da excessiva municipalização de atribuições antes dadas a Estados e União, apressaram-se a criar e por a funcionar seus próprios regimes previdenciários. Agora, põem-se a descoberto as razões.

Alvo de denúncias da bancada de oposição durante a legislatura que antecedera a atual, de pedido de informações de vereadores na atual legislatura, de auditorias internas e independentes durante a atual gestão do executivo campista, de denúncias da imprensa e por mais recente, mas temo que não por último, da ação do judiciário, em desdobramento da Operação Lava Jato, o PrevCampos, regime de previdência dos servidores públicos da Prefeitura de Campos dos Goytacazes, permanece para o servidor, maior interessado, um grande mistério. Não foi posta às claras a real situação do instituto e os servidores permanecem sem conhecer os números, e as verdades, acerca da sua previdência.

O assalto aos fundos de pensões têm sido notícia frequente na imprensa nacional e as fraudes envolvendo institutos de previdência pública vêm sendo investigadas desde 2011 pela polícia federal, tendo grande repercussão a Operação Miqueias, deflagrada em 2013 e famosa inclusive pelo uso de modelos no esquema para seduzir e facilitar a cooptação de políticos. Como visto no decorrer da cobertura dos desdobramentos das operações da polícia federal, nossos políticos não se intimidam e o “Mecanismo” permanece operando sem pudor algum.

Os servidores públicos devem, e aí me incluo, cobrar transparência ímpar das contas de seus institutos previdenciários, escrutinar os números e velar para não serem surpreendidos justamente no momento em que, já velhos, precisarem de suas aposentadorias. Os rombos nas contas previdenciárias não surgem do nada e o caminho pode melhor ser corrigido se os erros forem identificados e as medidas saneadoras tomadas cedo.

A lição bíblica de José ao interpretar os sonhos do faraó no Egito permanecem incompreendidas e não aplicadas. Persistimos fazendo churrascos com as vacas gordas e chorando pelo leite derramado quando nos sobrevêm as vacas magras.  Diante de nossos políticos, praga de gafanhotos é mero aborrecimento!

 

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Fabrício Maciel — O “Mecanismo” da distorção da verdade no Brasil

 

Dia desses, conversava ao telefone com o sociólogo Fabrício Maciel, professor da UFF-Campos, a quem convidei para ser colaborador regular do blog. Pela carga já grande de afazeres, ele infelizmente declinou, mas confidenciou a intenção de escrever sobre a polêmica série “O Mecanismo”.

Dirigida por José Padilha e baseada no livro “Lava Jato: o juiz Sérgio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil”, do jornalista Vladimir Netto, a primeira temporada da série estreou com grande sucesso de público em 190 países, no último 23 de março, na Netflix.

Por e-mail, o Fabrício avisou que concluiu seu texto, publicando-o aqui, em seu próprio blog. Mas facultou a este “Opiniões” a oportunidade de também republicá-lo, para estimular o debate, o que é feito abaixo:

 

Ao lado do ator Selton Mello, que estrela a série, o diretor José Padilha

 

O “Mecanismo” da distorção da verdade no Brasil

Por Fabrício Maciel(*)

 

A série “O mecanismo”, de José Padilha, que está bombando na Netflix, é um perfeito exemplo de como se distorce sistematicamente a verdade sobre o Brasil, tanto na academia quanto na arte, operando-se uma perfeita divisão do trabalho. Vou reconstruir um breve histórico deste conhecido cineasta, para que possamos entender o que esta série realmente representa.

Desde o seu documentário “Ônibus 174” (2002), sobre o conhecido episódio envolvendo o garoto de rua protagonista da tragédia, que Padilha não me convence. Quem quiser ter acesso a uma análise realmente crítica deste episódio pode assistir ao filme “Última parada 174” (2008), de Bruno Barreto que, apesar de ser uma ficção, e não um documentário, como fez Padilha, tematiza de fato o que aconteceu na história de vida do menino Sandro. Primeira lição a se aprender: nem sempre um documentário é crítico.

Neste belíssimo filme, Bruno Barreto deixa claro, com fineza sociológica rara, as razões que levaram o menino Sandro a se tornar um adulto tolo e protagonizar a tragédia do referido ônibus. Não recontarei a história, pois é bem conhecida. A análise do filme, baseado em fatos reais, mostra com clareza a história de vida do menino: sua mãe, uma batalhadora dona de um bar na comunidade em que moravam, é assassinada brutalmente durante um assalto em sua presença. O menino começa a vagar, não para na casa de nenhum parente e, sem destino, enlouquece e vai morar nas ruas do Rio de Janeiro. Paralelamente, o filme mostra a vida de um outro menino Sandro, da mesma idade que, criado por um traficante, desenvolve todas as disposições e a inteligência necessária para o crime. Contrário a ele, o Sandro do ônibus se torna um garoto de rua que é essencialmente um tolo. Esta é a moral da história: um garoto de rua não tem metade da sagacidade de um traficante, e o seu destino é ficar vagando e cometendo pequenos delitos no centro da cidade. Ou seja: o garoto de rua é um exemplo perfeito do que o abandono social pode causar a uma pessoa. Quando esta pessoa comete algum delito que afeta a “boa sociedade”, logo ficamos apavorados.

Moral da história: é assim que se usa a arte para se tematizar criticamente as razões dos problemas sociais. É preciso que se mostre claramente, sem ambiguidades e floreios, a origem real dos problemas, como faz o filme. É preciso que se tenha uma didática clara e direta para o público. Esta certamente não é a marca de Padilha. Já no primeiro “Tropa de Elite”, baseado em livro de relatos escrito por Luiz Eduardo Soares e parceiros, ele deixa ainda mais claro a que veio. A trama do filme é simples: apenas uma tropa muito bem treinada para uma guerra, com razões morais que motivam seus membros a darem sua vida pela causa, pode enfrentar o crime no Brasil. A velha tese acadêmica de que a desigualdade no Brasil é uma questão de polícia não podia ser melhor requentada e apresentada ao público como distração.

Em resumo, a questão central do filme, reforçada por sua estética, é que uma tropa de homens bons e honestos vai enfrentar o crime para salvar a boa sociedade. O sentimento mobilizado pela estética do filme é a vontade de ver o crime exterminado a qualquer custo. Por isso não é crítico. A arte tem o poder de mobilizar imediatamente os corações das pessoas. Por isso, deve ir direto ao ponto. Em nenhum momento o filme questiona o fato central de nossa desigualdade, que tem a ver diretamente com a violência no Brasil: o fato de que homens moralmente desqualificados e excluídos de outras possibilidades de trabalho distinto vão encontrar no batalhão sua única chance de receber algum prestígio e status. Para tanto, o preço é matar muitas vezes um primo ou irmão, do outro lado do front da batalha (há relatos verídicos sobre isso), para com isso defender a classe média e a elite da violência mais imediata do cotidiano.

Novamente, fica a sugestão: para quem quiser ver um filme realmente crítico sobre o drama da guerra e de como ela destrói a alma dos envolvidos, basta ver o belíssimo “Nascido para matar” de Stanley Kubrik. Este, sim, tematiza como o treinamento indigno, apenas caricaturado no Tropa de elite que “mostra”, mas não “analisa”, mobiliza os sentimentos e valores dos envolvidos. No filme, um dos soldados, que não tinha preparo físico e emocional para o treinamento, como muitos não têm, acaba se apaixonando pela própria arma, e no final aniquila seu treinador, que era seu algoz.

No Tropa de Elite 2, nosso querido cineasta vai ainda mais longe. Como o próprio sub-título do filme sugere, “O inimigo agora é outro”. O já consagrado herói nacional, Capitão Nascimento, agora “cai para cima” e vai trabalhar na inteligência do combate ao crime. Descobre logo de cara o “sistema”. Moral da história: a polícia deve combater a política. Uma análise que fiz na época sobre o Tropa 2 pode ser lida aqui: http://eduem.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/viewFile/11629/6704.

Mais uma vez, o filme tem uma onda crítica. Aqui não podemos confundir o uso dos fatos com a capacidade crítica da arte, pois é exatamente o que ocorre agora no “Mecanismo”. Não por acaso, o Tropa 2 é lançado em pleno início de segundo turno das eleições para presidência, em 2010, na qual Dilma venceu Serra. Um dado ingênuo: a última cena do Tropa 2 é uma imagem sobrevoando o Palácio do Planalto. O tema do filme, adivinhem: combate à corrupção, que neste caso é só no Estado.

Por fim, temos agora o “Tropa de Elite 3”, pois não se trata de outra coisa esta série “O Mecanismo”. O inimigo continua o mesmo: a política em si e todos os políticos, pois todos são corruptos. Este é o discurso adotado pelo diretor. Não por acaso, a série se atualiza em alguns aspectos: agora o problema do Brasil é mais complexo e apenas a casta jurídica, isenta, pode enfrentar a corrupção, “nosso câncer”, como é enfatizado na série. A estética é a mesma: o combate ao crime organizado, de colarinho branco. A polícia, mais inteligente, preparada, séria e isenta: a federal. Temos alguma esperança: algumas pessoas de bem ainda acreditam na guerra contra os criminosos. Falta apenas falar de um detalhe nesta história toda: a política corrupta é apenas a ponta do iceberg de um “sistema” um pouquinho maior… Só não posso garantir ao leitor que uma série realmente crítica sobre ele passará na Netflix.

 

(*) Sociólogo

 

No último dia 28, o jornalista Ricardo André Vasconcelos também escreveu ao blog sobre sua visão da série “O Mecanismo”. Confira aqui.

 

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Prisão de Lula e reabertura dos supermecados de Campos aos domingos

 

O blog e seu editor são francamente favoráveis à abertura dos supermercados de Campos aos domingos. E, salvo engano, esse parece ser o desejo da esmagadora maioria da população. Mas o antropólogo Carlos Abraão Moura Vaspassos, professor da UFF-Campos e colaborador da Folha da Manhã, enviou um artigo em sentido contrário (conferir a atualização ao final da postagem) para este “Opiniões”. Em respeito ao contraditório, fundamental à democracia, ele segue publicado abaixo:

 

(Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Problemas de Sincronia

Por Carlos Abraão de Moura Valpassos(*)

 

No penúltimo sábado (07), o Brasil estava com suas atenções voltadas para São Bernardo do Campo e os eventos que marcavam a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Havia quem torcesse por uma reviravolta histórica que permitisse que Lula fosse salvo do cárcere; e também aqueles que se mostravam sedentos pelo aprisionamento do ex-presidente, certos de que esse seria o único desfecho compatível com a justiça. Pela primeira vez na história um ex-presidente brasileiro era condenado e preso e isso atraía a atenção de todos, dos mais humildes aos mais destacados nomes da nação. Era necessário tomar partido e manifestar-se sobre o tema, mesmo que sua opinião não tivesse qualquer influência sobre os acontecimentos.

As discussões familiares se manifestavam entre os defensores do ex-presidente e aqueles que clamavam por uma pena severa. E se o cidadão comum se via envolvido no grande drama, os políticos não tinham como se esquivar: ficar em cima do muro não era uma opção. Prova disso foram as críticas a Ciro Gomes por não ter abdicado de sua programação nos Estados Unidos para unir-se a Lula em São Bernardo do Campo nos momentos que antecederam à prisão.

Em Campos dos Goytacazes as coisas foram diferentes. Em um momento de tensão nacional e local, o prefeito Rafael Diniz decidiu manifestar-se não sobre a prisão do um ex-presidente, mas sim sobre a necessidade supostamente urgente de que os supermercados da cidade voltassem a funcionar aos domingos. Sim, foi exatamente isso que aconteceu: o ex-presidente estava sendo preso, o mato tomava conta das ruas de Campos — que permanecia com um transporte público caro e ineficiente, sem a eleição dos diretores de escola e sem o restaurante popular —, mas Rafael Diniz preferiu manifestar-se sobre um projeto questionável por diversos fatores. A manifestação do prefeito, naquele momento, mostrou sua falta de sincronia com os problemas nacionais e locais.

 

(*) PHD em antropologia cultural

 

Atualização à 0h20 de 16/04 para esclarecimento feito pelo autor em comentário a esta postagem, sobre erro de interpretação cometido pelo editor no texto de abertura:

“Prezado Aluysio,

O tema do texto não foi um posicionamento contrário à abertura dos supermercados aos domingos – o que faz com que não seja cabível a afirmação de que o artigo possui um ‘sentido contrário’ a isso – , mas sim o momento escolhido pelo Prefeito para anunciar seu projeto, quando a cidade possui muitos problemas graves não solucionados.

Atenciosamente,

Carlos Abraão Moura Valpassos”

 

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Royalties do petróleo nas capas de O Globo e Folha da Manhã de hoje

 

Lado a lado, as capas de hoje (15) de O Globo e Folha da Manhã

 

 

Quem, como eu, assina  e lê diatriamente a Folha da Manhã e O Globo, hoje amanheceu com uma agradável surpresa: as manchetes dos jornais de Campos e do Rio traziam em suas manchetes os royalties do petróleo recebidos por municípios e estados produtores.

Bem verdade que os enfoques foram diferentes. Enquanto a matéria de O Globo, dos jornalistas Bruno Rosa e Ramona Ordoñez, fala (aqui) das perspectivas de aumento dos royalties e sua aplicação equivocada, a reportagem da jornalista Dora Paula Paes (aqui) tratou da cobrança dos produtores à resolução da partilha dos royalties, aprovada no Congresso Nacional e que repousa sob liminar da ministra do STF Carmen Lúcia.

De qualquer maneira, ficam os parabéns ao trabalho de Dora. Assim como à sua colega e comadre Suzy Monteiro, a quem coube a feliz decisão de abrir a edição da Folha de hoje com a matéria de fundamental interesse a Campos, à região e ao Estado do Rio.

 

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