Troca de César por Marcão na visão dos adversários de outubro

 

Wladimir Garotinho

“Para mim, não interfere quem vai ser o candidato da máquina. Independente de quem for o candidato, eu vou fazer oposição ao modelo de gestão do governo Rafael”. Esta foi a reação de Wladimir Garotinho (PR) à troca do empresário César Tinoco (PPS) pelo vereador Marcão Gomes (Rede) como pré-candidato do governo de Campos a deputado federal. A novidade foi anunciada (aqui) na coluna “Ponto Final”, na edição do último domingo (25) da Folha da Manhã. Também pré-candidato a deputado federal e apontado como principal alvo da mudança governista, Wladimir não foi o único a se posicionar à Folha sobre ela:

Paulo Feijó

— Marcão é uma liderança política consolidada, tem uma formação importante, foi vereador duas vezes e é presidente da Câmara. A história dele lembra, inclusive, a minha, que também fui vereador duas vezes, conquistei a presidência da Câmara no segundo mandato, me elegi deputado federal e não saí mais. Temos que bater na tecla da regionalização do voto para deputado. Marcão é habilidoso. Vai saber colocar as questões de Campos e da região acima dos interesses partidários. Como Marcelo (Mérida, PSD) também. São pessoas de bom nível — opinou o deputado federal Paulo Feijó (PR), do mesmo partido de Wladimir, mas cujo apoio é disputado por Marcão e Mérida.

Marcelo Mérida

Citado por Feijó, o presidente da Federação Fluminense das Câmaras de Dirigentes Lojistas (CDLs) e também pré-candidato a deputado federal se posicionou sobre a troca governista na disputa do mesmo cargo:

—  Acho que César e Marcão têm legitimidade e conteúdo para postular uma candidatura a deputado federal. O que nós temos que fazer é promover o debate de propostas para recuperar economicamente Campos, região, o Estado do Rio e o Brasil. Temos que discutir soluções e nisto a CDL se encaixa, sem ideologias radicais. O eixo tem que ser o desenvolvimento econômico, que passa pelo fortalecimento dos empregadores, das pequenas e microempresas. As CDLs estão empenhadas para derrubar o veto presidencial ao Refis para as pequenas e microempresas. Hoje, 95% dos nossos associados são pequenos e microempresários — pregou Marcelo Mérida.

José Maria Rangel

Outro que opinou sobre as definições do grupo político do prefeito de Campos para as eleições de outubro foi o petroleiro e também pré-candidato a deputado federal José Maria Rangel (PT):

— Quando colocamos nossa pré-candidatura foi para discutir o país, os rumos do país. Para mim, tanto faz se vai vir Marcão ou Cesinha. Parece que a decisão do governo é definir alguém para enfrentar Wladimir. Mais parece birra. Vão colocar o Marcão porque ele tem mais competitividade. Tem também o Marcelo Mérida, candidato da CDL, que apoiou o “golpe”, o impeachment de Dilma. E a gente vê a situação em que o país está. Estou muito animado em fazer essa discussão com a sociedade. Tenho certeza que nossa pré-candidatura vai surpreender. E de maneira positiva — observou o dirigente do Sindipetro-NF.

Rafael Crespo

Também petroleiro e petista, presidente municipal da legenda pela qual Marcão se elegeu vereador pela primeira vez, Rafael Crespo analisou a mudança governista:

— Antes dessa troca, a dobrada César/Marcão era a lógica do governo para fazer contraponto à família Garotinho. Esta pode vir de Wladimir/Bruno, mas ainda tem que definir se Clarissa (PRB) não vai vir a estadual. Quanto a Marcão, quando a gente olha para 2016, vai ver que ele hoje já não tem o mesmo apoio, diante de todo o desgaste do governo na sociedade. Temos que considerar também a dificuldade histórica de ter eleitor fora do município, que só aqui pode render no máximo uns 15 mil votos. E Marcão é pouco conhecido fora de Campos. Mas se ele não conseguir se eleger, pode ser um revés ao grupo do governo para 2020. O PT tem um pré-candidato próprio a deputado federal: José Maria Rangel, uma terceira via à esquerda, que também terá uma mais ao centro e à direita em Marcelo Mérida. Essa pluralidade é boa para a democracia, mas também há o risco de se pulverizar os votos. Quem quiser vencer, não pode ser candidato de um só município — alertou o presidente do PT em Campos.

Marcos Bacellar

Experiente vereador, ex-presidente do legislativo goitacá e hoje integrando o bloco “independente” do G-5, Marcos Bacellar (PDT) também analisou a troca de César por Marcão:

— Marcão já foi testado nas urnas diversas vezes e é presidente da Câmara. Vai ser uma disputa boa: ele e Wladimir. Hoje Marcão tem um desgaste muito grande por conta do governo Rafael, com corte dos programas sociais, crise do transporte coletivo, falta de dinheiro e aumento da carga tributária. Já houve a grita com a taxa de iluminação pública, que vai ser ainda maior no IPTU. Mas isso vai passar, a arrecadação vai aumentar, há a projeção de aumento dos royalties e o governo deve melhorar a partir de junho, julho. Melhorando as finanças, voltam os programas sociais e a popularidade aumenta. Marcão é representante do governo, mas também do Poder Legislativo. Acho que ele tem grande chance de se eleger. Eu vou apoiar meu filho (Rodrigo Bacellar), que vai concorrer a deputado estadual pelo Solidariedade e dobrar com Áureo, deputado federal do partido.

 

Página 2 da edição de hoje (27) da Folha

 

 

Publicado hoje (27) na Folha da Manhã

 

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Bomba da GAP armada e reforma administrativa do governo Rafael

 

 

 

Fernando Trabacah, preso duas vezes, nas operações “Caça-Fantasma” e “Mercado de Ilusões”, esteve ontem em Campos e volta a assombrar com sua delação (Foto: Reprodução de TV)

 

 

Preparem o Rivotril!

O empresário Fernando Trabach esteve ontem em Campos. Acusado de usar fantasmas para fraudar licitações, lavar dinheiro e sonegar impostos, ele era proprietário da GAP, empresa conhecida em Campos pela locação de ambulâncias no governo Rosinha. Em 29 de novembro, enquanto o casal Garotinho estava preso pela operação “Caixa D’água”, esta coluna advertiu (aqui): “a pressão poderia piorar se Trabach resolvesse falar o que sabe”. Em 14 de dezembro, o jornalista Lauro Jardim confirmou (aqui), em O Globo: “Trabach está delatando. E é quase tudo sobre Garotinho”. Quem conversou com ele ontem em Campos garante: vem bomba por aí.

 

(Arte de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Reforma administrativa (I)

“Eu vou apresentar algumas reformulações já, já, para toda a sociedade campista”. Foi o que o prefeito Rafael Diniz (PPS) anunciou (aqui) em entrevista à Folha, publicada em 7 de janeiro. No último domingo (25), quando o “Ponto Final” revelou (aqui) que o pré-candidato a deputado federal do governo será o vereador Marcão Gomes (Rede), no lugar do empresário César Tinoco (PPS), assessor especial de Rafael, outras mudanças também foram noticiadas: “Tinoco vai assumir a chefia de gabinete no lugar do jornalista Alexandre Bastos, que vai para a secretaria de Governo. Hoje na pasta, o advogado Fábio Bastos vai para a superintendência de Relações Governamentais, para cuidar do planejamento e captação de recursos”.

 

Reforma administrativa (II)

Ontem, um site local requentou as mudanças administrativas adiantadas nesta coluna no dia anterior e anunciou outras duas: o jornalista Fernando Leite vai ocupar uma das subsecretarias de Governo. A outra, será acumulada por Fábio Bastos — segundo o prefeito destacou ontem à coluna: “pelo bom trabalho administrativo que ele vem realizando”. Também foi noticiado que Rogério Matoso assumirá uma vaga na secretaria de Desenvolvimento Humano e Social, mas sem dizer o cargo. Na verdade, o ex-vereador e ex-candidato a prefeito de Campos será subsecretário da pasta, que manterá a socióloga e advogada Sana Gimenes como titular.

 

Reforma administrativa (III)

“Sana é muito preparada para o cargo. A gente está se entrosando. Vamos entrar para contribuir. É bom também lembrar que a atual subsecretária, Elma Sizenando — assistente social e servidora de carreira —, permanecerá na equipe para dar continuidade ao bom trabalho que vem fazendo”, ressaltou Rogério Matoso.  Outra novidade na reforma administrativa será a médica Renata Juncá, que vai assumir a presidência da Fundação Municipal de Saúde (FMS). Ela também é servidora de carreira e já atuava na administração municipal, responsável pelo programa Saúde do Trabalhador.

 

Reforma administrativa (IV)

“Nós já vínhamos discutindo com a Fabiana (Catalatini, secretária de Saúde) e o Rafael sobre a necessidade de reestruturar a Saúde como um todo. A interface da secretaria com a FMS precisa melhorar. A atenção básica do município, ao contrário da orientação do SUS, não faz contato com os atendimentos de urgência e emergência. Recolhemos os dados necessários para montar uma base estatística para, a partir dela, monitorar nossas ações, sem achismos ou política, que eram os critérios da Saúde em Campos”, apontou Renata Juncá. Outras novidades na equipe de governo serão conhecidas nos próximos dias.

 

Decepcionante

Além da preocupação com Trabach, Garotinho parece não estar tão confiante no movimento contra o prefeito Rafael Diniz (PPS) que ele mesmo vem convocando nas últimas semanas. O político da Lapa esteve ontem no Clube de Regatas Rio Branco, no Centro de Campos, onde, segundo ele próprio, esperava reunir aproximadamente 600 pessoas, mas apenas cerca 300 compareceram. O objetivo era motivar o seu grupo para o ato convocado para a praça São Salvador no dia 8 de março e “multiplicar por dez o número de presentes” ontem, chegando a 6 mil manifestantes. Porém, a tomar como exemplo a reunião, o trabalho não será fácil.

 

Movimento popular?

Garotinho tenta travestir de “popular” um movimento político e chegou até convocar outras forças para o ato, como o candidato derrotado na última eleição a prefeito, Caio Vianna (PDT). Além disso, o ex-governador cobrou mais empenho da oposição na Câmara Municipal. “Os vereadores da oposição estão fazendo um trabalho muito bonito , mas agora quero ver se conseguem levar para a praça toda essa garra dos discursos”. Em outro momento, Garotinho disse que vai avaliar em cinco dias se o manifesto vai mesmo acontecer. “Não podemos expor o povo de Campos ao ridículo de convocar um ato para ir meia dúzia, eu tenho responsabilidade”.

 

Com o jornalista Aldir Sales

 

Publicado hoje (27) na Folha da Manhã

 

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Igor Franco — Lava Jato e o Zeitgeist

 

 

 

A segunda-feira (26/02) iniciou quente no mundo político. Numa operação que apura desvio de dinheiro público na construção da Arena Fonte Nova, na Bahia, o ex-governador petista Jacques Wagner teve sua casa visitada por agentes da Polícia Federal. Entre malotes de documentos apreendidos, quinze relógios de luxo. Em nota oficial, o PT reforçou a baboseira de perseguição do partido pela PF, enquanto Jacques Wagner justificou-se afirmando tratarem-se de apenas réplicas. A justificativa é a síntese perfeita do partido e seus membros: outrora embalados em papel de luxo, revelaram-se a maior fraude da democracia brasileira até este momento — feito nada desprezível, dado o nível de virtude dos nossos políticos.

O nível de parvoice alcançado pela defesa pública do partido é uma demonstração da profundidade que alcançaram investigações Brasil afora e da força avassaladora das provas documentais, periciais e testemunhais que foram obtidas nestes quase 4 anos de operação Lava Jato. A cada nova tentativa de furtar-se de sua responsabilidade, o PT, ao ser confontrado com centenas de documentos e dezenas de testemunhos (alguns de ex-grandes companheiros) via-se obrigado a alterar a narrativa, até que precisou apelar para o já mofado discurso de perseguição das elites. Na impossibilidade de utilizar-se dos mesmos expedientes — uma vez que não contam com intelectuais a soldo nas universidades e soldados da causa nas redações — os outros partidos ainda ensaiam algum tipo de negação dos malfeitos.

Neste momento, cumpre dizer que a Operação Cartão Vermelho, mencionada no início deste texto, não faz parte, formalmente, da Operação Lava Jato original. Porém, assim como as municipalmente conhecidas Operação Chequinho e Operação Caixa D’Água, que feriram gravemente a reputação da família Garotinho, fica difícil ao cidadão não realizar uma ligação direta entre estas e aquela. A percepção tem seu fundamento: muitas operações, como a Caixa D’Água, foram derivadas de provas obtidas no âmbito da Lava Jato, embora fugissem do seu foco principal, que é a apuração de desvios relacionados a contratos fraudulentos com o setor de energia e seus efeitos. Quando as provas não se interligam, a conexão é o próprio ânimo de obter punição de poderosos que outrora pairavam acima da lei, do alto de seu patrimônio financeiro ou político. A Lava Jato é, assim, um movimento, um espírito deste tempo, um momento histórico brasileiro.

Após décadas de cristalina percepção por parte dos cidadãos de um assalto rotineiro aos recursos públicos, parecia inevitável um ajuste de contas da elite política e empresarial que espoliava o Erário. Entretanto, há diversos exemplos de países que não corrigem espirais de disfuncionalidade até que a convulsão social ou a total falta de credibilidade acabe por desacreditar qualquer solução institucional, sendo a Venezuela o exemplo mais gritante e recente.

A Lava Jato é, antes, o triunfo do republicanismo sobre o patrimonialismo que moldou as relações públicas no Brasil. A partir da geração pós-Constituição de 88, empossada em cargos públicos sem a influência nefasta de indicações políticas que marcaram o período anterior, policiais, promotores, procuradores, juízes e servidores de apoio foram forjados num ambiente de contínuo, embora lento, amadurecimento das instituições democráticas. Embora alvisasseiro, é pertinente pontuar que o tribunal de onde partiu a maior parte das operações está longe do centro político brasileiro e mais blindado de pressões de bastidores. É impossível não deixar de lembrar que, a essa altura das investigações, o STF ainda foi incapaz de condenar sequer um político envolvido nas investigações.

Além disso, cumpre mencionar o triunfo das técnicas de investigação, frutos de cooperação internacional contra lavagem de dinheiro, que permitiram expor o caminho do dinheiro e, a partir daí, prender um a um os envolvidos em malfeitos.

Ainda, a operação Lava Jato jamais poderia chegar a este momento se não fosse a coragem das autoridades judiciárias em solicitar as punições previstas na legislação e, mais ainda, sustentar as decisões por prisões e outras restrições em tribunais superiores. Tal fato é um alento para aqueles que, como eu, anseiam pelo dia em que a lei seja cumprida, criminosos punidos e todo lixo intelectual reunido sob a alcunha do “garantismo penal” — que possui o livrador-geral da república, Gilmar Mendes, como expoente — seja definitivamente enterrado como mais um fantasma que ainda assombra o desenvolvimento destas terras.

Por fim, de nada valerá todos esses anos de esforços pelo desenvolvimento da democracia se, ao cabo, a operação não produzir presos definitivos. Desta forma, a batalha definitiva da operação será travada no STF quando do julgamento do habeas corpus de Lula e/ou da possível revisão da prisão em segunda instância. A impunidade de Lula só presta a Têmeres, Aécios e Alckmins da vida, não presta ao Brasil.

 

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Arthur Soffiati — Manguezais da Ásia

 

Sumária notícia de manguezal na Ásia do séc. XVI

Por Arthur Soffiati

 

No início do século XV, a economia de mercado da Europa ocidental estava diante de um dilema: ou crescer ou estagnar. Para continuar a crescer, ela precisava romper o monopólio do comércio oriental sob domínio dos muçulmanos. A tentativa de transferir o comércio oriental do mundo islâmico para o mundo cristão ocidental por meio das Cruzadas, entre os séculos XI e XIII, não deu resultado porque os muçulmanos resistiram. Apenas Veneza consegui crescer, pois monopolizava as relações comerciais dos muçulmanos com a Europa ocidental. O fluxo pode ser esquematizado do seguinte modo: o que se chamava de Índias, no ocidente, integrava Índia, China, Japão e outros pontos da Ásia. Os produtos oriundos desses pontos eram levados por comerciantes muçulmanos até o Mediterrâneo, onde eram vendidos a Veneza que, por sua vez, vendia-os aos comerciantes dos mercados europeus que, finalmente, vendiam-nos aos consumidores. No ponto terminal, os produtos chegavam a preços muito caros. Os comerciantes finais perceberam que era necessário romper o monopólio islâmico e veneziano.

Em 1415, a busca de um caminho marítimo para o oriente começou com a tomada da cidade de Ceuta, no norte da África. Os portugueses saíram na frente, seguindo uma rota pragmática: costear a África pelo Atlântico julgando que havia um ponto de inflexão que levaria às Índias. Informações a esse respeito existiam, ainda que vagas. Pouco a pouco a costa atlântica da África foi conquistada.

Cristóvão Colombo partiu da premissa de que a Terra era redonda. Assim, navegando rumo ao ocidente, chegar-se-ia ao oriente. Os portugueses estavam prestes a contornar o cabo da Boa Esperança. A rainha Isabel, da Espanha, no ano mesmo em que conseguiu expulsar os muçulmanos de Granada, decidiu bancar Colombo. Assim, ele partiu da Espanha em 1492.

O navegador genovês dirigiu-se ao ocidente e chegou a terras americanas julgando que tocara a Índia. Daí o nome de índios que deu aos habitantes das terras alcançadas. Colombo voltou mais três vezes à América com a convicção de que chegara às Índias. Como Portugal e Espanha haviam se lançado primeiro na aventura de encontrar um caminho marítimo para o oriente, foi necessário definir limites para os dois países. Assim, assinou-se o tratado de Tordesilhas, em 1494, dividindo o mundo entre ambos por um meridiano de polo a polo.

Nos diários de bordo de Colombo, há registro de muitas maravilhas, entendendo-se por essa palavra a pujante natureza e os costumes dos nativos. Mas, em suma, o que se esperava achar eram metais preciosos e centros produtores. A natureza era vista nos diários de Colombo como um todo indistinto. Suas caravelas passaram rente a manguezais e eles não foram notados. Américo Vespúcio, outro grande navegador, também não enxergou mangue. Muitos outros igualmente não o viram, como Pero Vaz de Caminha, Antônio Pigafetta e Pero Lopes de Souza.

Em 1498, depois da mais longa viagem marítima empreendida até então, Vasco da Gama chegou à Índia. Os governantes muçulmanos que ele encontrou nos pontos de parada tentaram impedir a viagem ou impulsioná-la. Consta que o experiente piloto islâmico Amad ibn Majid desempenhou papel de fundamental importância para Vasco da Gama. Com Cristóvão Colombo e Vasco da Gama, duas frentes da expansão europeia foram abertas: a do ocidente e a do oriente. A Espanha desinteressou-se das Índias por ter encontrado metais preciosos na América.

Portugal conquistou Goa, na Índia, e a transformou na porta de entrada para todo o oriente. O país fincou estaca em Diu, Damão, Malaca, Macau e Timor. Suas ambições eram maiores: dominar a China, o Japão, o Ceilão, a costa oriental da Índia e a parte norte da ilha de Sumatra, principalmente. No século XVI, Portugal já havia criado bispados em Goa, Malaca e Macau. Seus comerciantes eram bastante dinâmicos. A língua portuguesa passou a ser falada em vários pontos da Ásia, sofrendo mudanças locais ou gerando dialetos ao mesclar-se com as línguas faladas na Ásia. Eram as línguas crioulas, hoje em declínio.

De todos os relatos escritos por portugueses sobre a Ásia, destacaremos aqui o “Roteiro das Cousas de Achem”, redigido por D. João Ribeiro Gaio, bispo de Malaca. Achem era um poderoso sultanato situado na ponta norte da ilha de Sumatra, conhecida então como Samatra. Portugal tinha em seus planos a conquista de Achem a partir de Goa. D. Gaio era um entusiasta dessa conquista. Para tanto, escreveu um roteiro sobre o país com ajuda de Diogo Gil, que conhecia muito bem o local, no ano de 1584. Se, no século XV, os manguezais representavam, ao que se supõe, uma ameaça à navegação, agora eles passam a merecer registros superficiais. Parece que eram assinalados nas cartas de navegação na forma de conjunto de árvores.

 

Achem em carta de Fernão Vaz Dourado, datada de 1568. Biblioteca do Duque de Alba, Madri

 

No capítulo 16 do Roteiro, D. Gaio escreve: “E na ilha que faz este esteiro há algumas casas de pescadores e algumas figueiras e árvores salgadas”. Pescador próximo a árvores salgadas pode ser indicação da presença de manguezais, notadamente a referência a árvores salgadas. No capítulo 40, aparece uma referência explicita a nipa, planta associada a manguezal. D. Gaio escrever: “Do riacho de Pasangam para o oriente está outro riacho que se chama Labu, distância do outro de um terço de légua, e tem caminhos por terra como todos os outros riachos. E de maré cheia entram neste riacho catures (pequena embarcação indiana) e tem povoação de cem vizinhos, e há neste riacho nipas e hortas palmares.” A nipa aparecerá ainda no capítulo 46 ao lado da pimenta, cânfora, benjoim de bonina, ouro, seda, madeira para a construção de naus, pedras, rubis, pau brasil, cravo, noz, sândalo, tartarugas, etc.

A “Nypa fruticans”, comumente conhecida como palmeira de mangue, é a única espécie da família Arecaceae (palmeiras) que tolera ambientes salinos de estuários nos oceanos Índico e Pacífico. É, pois, a única palmeira que consegue viver em área de manguezal. O mapa abaixo mostra a sua distribuição.

 

Distribuição de “Nypa fruticans” no mundo

 

Quem se dedica ao estudo do manguezal na América, tanto na costa atlântica quanto na pacífica, não encontrará essa palmeira que, segundo informações não está ameaçada.

 

Touceira de Nypa no interior de manguezal na Ásia

 

Atualmente, as grandes áreas de manguezal das ilhas orientais deram lugar a fazendas para a criação de camarão. Nas margens de cada rio e de cada riacho, elas se estendem, impedindo que os manguezais voltem a crescer.

 

Fazenda de camarão em Achem, norte de Sumatra

 

Sugestões de leitura

ALVES, Jorge M. dos Santos e MANGUIN, Pierre-Ives. O roteiro das cousas do Achem de D. João Ribeiro Gaio: um olhar português sobre o norte de Samatra em finais do século XVI. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997.

LINSCHOTEN, Jan Huygen van. Itinerário, viagem ou navegação para as Índias Orientais ou Portuguesas, 2ª ed. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998.

ORTA, Garcia da. Colóquios dos simples e drogas da Índia, 2 volumes. Edição fac-similada. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1987.

 

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Wladimir, Feijó, Mérida e Zé Maria analisam troca de César por Marcão

 

Wladimir Garotinho, Paulo Feijó, Marcelo Mérida e José Maria Rangel analisaram a troca de César Tinoco por Marcão Gomes como pré-candidato do governo Rafael a deputado federal (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

“Para mim, não interfere quem seja o candidato da máquina”. Esta foi a reação de Wladimir Garotinho (PR) à troca do empresário César Tinoco (PPS) pelo vereador Marcão Gomes (Rede) como pré-candidato do governo Rafael Diniz (PPS) a deputado federal. A novidade foi anunciada ontem (aqui), na coluna “Ponto Final”, da Folha da Manhã. Também pré-candidato a deputado federal e apontado como principal alvo da mudança governista, Wladimir não foi o único a se posicionar hoje sobre ela:

— Marcão é habilidoso. Vai saber colocar as questões de Campos e da região acima dos interesses partidários. Como Marcelo (Mérida, PSD) também. São pessoas de bom nível — opinou o deputado federal Paulo Feijó (PR), do mesmo partido de Wladimir, mas cujo apoio é disputado por Marcão e Mérida.

Citado por Feijó, o presidente da Federação Fluminense das Câmaras de Dirigentes Lojistas (CDLs) e também pré-candidato a deputado federal se posicinou sobre a troca governista na disputa do mesmo cargo:

—  Acho que César e Marcão têm legitimidade e conteúdo para postular uma candidatura a deputado federal — analisou Marcelo Mérida.

Outro que opinou sobre as definições do grupo político do prefeito de Campos para as eleições de outubro foi o petroleiro e também pré-candidato a deputado federal José Maria Rangel (PT):

— Para mim, tanto faz se vai vir Marcão ou Cesinha. Parece que a decisão do governo é definir alguém para enfrentar Wladimir — observou o dirigente do Sindipetro-NF.

 

Confira a reportagem completa na edição de amanhã (27) da Folha da Manhã

 

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Marcão é o pré-candidato do governo Rafael a deputado federal

 

 

Charge do José Renato

 

 

Sai César, entra Marcão

Sai o empresário César Tinoco (PPS) e entra o vereador Marcão Gomes (Rede). Se antes mirava a Assembleia Legislativa, o preidente da Câmara de Campos será o pré-candidato a deputado federal do governo Rafael Diniz (PPS). Após anunciar (aqui) sua pré-candidatura à Câmara Federal em entrevista à Folha, publicada em 17 de dezembro, Tinoco agora vai assumir a chefia de gabinete de Rafael. Ocupante do cargo, o jornalista Alexandre Bastos vai para a secretaria de Governo. Hoje responsável pela pasta, o advogado Fábio Bastos vai para a superintendência de Relações Governamentais, para cuidar do planejamento e captação de recursos.

 

Articulação interna                   

Segundo César, Marcão e o próprio Rafael falaram à coluna, a decisão foi de todo o grupo político. “Tenho certeza de que o César Tinoco desempenharia um grande papel na disputa eleitoral, já que tem a política no sangue e uma grande capacidade de agregar, mas hoje ele é uma peça fundamental em nossa gestão e tem nos ajudado muito no processo de reconstrução da cidade”, admitiu o prefeito. Um dos seus colaboradores mais próximos, se César fosse eleito, temia-se que o governo perdesse capacidade interna de articulação.

 

Nova missão

“Não há mais espaço na política para quem pensa apenas em si mesmo. É preciso ter maturidade, entender o processo e, principalmente, colocar a cidade à frente de qualquer interesse. Vamos ajudar Rafael Diniz na construção de um alicerce sólido, com projetos importantes não só para os próximos anos, mas para as próximas décadas. Apesar de todas as dificuldades, já nos próximos meses iremos ajudar o prefeito a desenvolver um pacote de ações em áreas como Educação, Saúde, Transporte e Social”, justificou César Tinoco.

 

Alvo: Wladimir

Vereador de Campos mais votado em 2016, Marcão é um dos nomes de maior densidade eleitoral no grupo governista. Sua entrada na disputa à Câmara Federal traz um objetivo político: se opor ao também pré-candidato Wladimir Garotinho (PR), que vinha liderando todas as pesquisas a deputado federal em Campos. Caso o filho dos ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho se eleja em outubro, não se espera que traga benefícios a uma Campos governada pela oposição aos seus pais. Diferente, por exemplo, do deputado Paulo Feijó (PR), eleito com apoio dos Garotinho, mas que tem conseguido recursos federais à gestão Rafael.

 

Armas na disputa

Ainda que não assuma Wladimir como alvo da mudança da sua pré-candidatura, de deputado estadual a federal, Marcão adianta os elementos que usará no embate com o filho do casal Garotinho na disputa pelo mesmo voto: experiência e retorno do eventual mandato a Campos e região. “Sou advogado, servidor público federal do IFF e contador. Estou no meu segundo mandato, fui o vereador mais votado do município e hoje tenho a experiência de presidir a maior Câmara do interior do Estado. Campos, o Norte e o Noroeste Fluminense precisam de deputados que tenham compromisso com a nossa terra”, pregou o edil.

 

Aliado em Brasília

Assim como Marcão, Rafael não foi direto, mas apontou distinções que considera existir entre as pré-candidaturas do seu grupo político e dos Garotinho: “Durante muitos anos Campos contou com políticos que pensavam mais nas eleições do que na gestão, muitas vezes utilizando a cidade como trampolim. Marcão deixa sua pré-candidatura à Alerj e se coloca como pré-candidato a deputado federal. No atual momento da cidade e da região, é a hora de construir pontes, não muros. Por isso, ter aliados na Câmara Federal é fundamental para viabilizar parcerias e colocar projetos em prática, como já estamos fazendo”.

 

Dobradas

O que Rafael, Marcão e César não disseram, na troca do terceiro pelo segundo como pré-candidato do grupo a deputado federal, é que a saída do presidente da Câmara Municipal da corrida à Alerj abre espaço para articulações políticas importantes. Assim, alguns dos pré-candidatos a deputado estadual que já estavam pensando em fazer dobrada com Wladimir, ou com o empresário Marcelo Mérida (PSD), podem ser agora seduzidos pela possibilidade de fazê-lo com o novo pré-candidato do governo. É o que determinarão as próximas pesquisas e, sobretudo, o voto nas urnas. Mas ninguém duvida que 2020 passa antes por outubro de 2018.

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

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Alexandre Bastos — Garotinho, um adicto em pós-verdade

 

 

 

Em 2016 a Oxford Dictionary, editado pela universidade britânica, elegeu a palavra “pós-verdade” como a palavra daquele ano para língua inglesa. Após a publicação, a palavra se popularizou nos debates no meio jornalístico e no meio político. Basicamente, segundo a acepção cravada pelo dicionário, pós-verdade é um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais.

Não faltaram matérias e análises sobre política tentado como base tal conceito. Um bom exemplo da peso da pós-verdade na vida prática do cidadão são os estragos causados pela disseminação de fake-news através de sites de notícias que vivem exclusivamente de produção de conteúdo sem qualquer tipo de rigor na apuração da informação, mas que apelam para psicologia do medo, sempre com manchetes que demonstram um universo distópico à situação real.

Nunca vimos tanta disseminação de boato como nos dias de hoje. Basta receber um texto no whatsapp contendo algo sensacionalista que um um número incontável de pessoas já vai repassando sem ao menos googlar e conferir a veracidade da notícia de whatsapp. É como se cada um com um celular na mão se tornasse um motor em potencial na corrida pelo espalhamento da boataria. Os menos cuidadosos ainda encaminham a mensagem com um preâmbulo bonitinho na tentativa de se isentar de estar repassando informação falsa. Se receber mensagem com “ não sei se é verdade mas tô repassando porque…”, é melhor nem ler o resto.

Em Campos temos um especialista nesse tipo de coisa. Na verdade, de tão eficaz que é na construção de boatos, arrisco dizer que daria um bom escritor de obras de realismo fantástico, ficção científica ou mesmo algo steampunk. Afinal, são gêneros que exigem um enorme capacidade de imaginação.

No jogo das pós-verdade x verdade, Garotinho parece estar no primeiro time. Ele e uma parte mais apaixonada de seus seguidores não hesitam em espalhar um sem número de mentiras, boatos que tentam desestabilizar governos, moldar fatos à sua vontade na tentativa de conseguirem adesão a causa do principado da casinha da Lapa.

O último tiro pela culatra foi a difusão de “notícia” sobre um parecer que seria favorável a cassação do prefeito Rafael Diniz. Boato requentado, por sinal. Desde que seu grupo político foi apeado do poder pelo voto da maioria da população, Garotinho tenta disseminar essa mentira na pauta política e na cabeça da população. Há aqueles prevenidos, que sabem como o líder rosáceo opera sua rede, e há os que estão na iminência de despertar dessa Matrix que é o universo da pós-verdade.

 

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MPF e CPI para investigar “venda do futuro” de Campos por Rosinha

 

O presidente e o produrador da Câmara de Campos, Marcão Gomes (Rede) e Robson Maciel Júnior (Foto de Atonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

Celebrada (aqui) em 12 de maio de 2016 pelo governo municipal Rosinha Garotinho (PR), no apagar das luzes do governo federal Dilma Rousseff (PT), a “venda do futuro” de Campos junto à Caixa Econômica Federal (CEF) será investigada (aqui) como “ato de improbidade administrativa e ilícito penal”. A determinação partiu do Ministério Público Federal (MPF), em parecer do procurador regional da República José Homero de Andrade. E, segundo o presidente da Câmara Municipal de Campos, vereador Marcão Gomes (Rede), o “contrato fraudulento” feito entre os Garotinho e a CEF será alvo também de uma CPI.

Através do seu procurador, Robson Maciel Júnior, o legislativo goitacá tomou ciência do parecer do MPF de 11 de dezembro. Nele, o procurador regional eleitoral acatou todos os argumentos da procuradoria da Câmara de Campos, considerados fundamentais à decisão liminar (aqui) do desembargador Marcelo Pereira da Silva, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), em 20 de junho de 2017. Foi ela que garantiu a cobrança mensal da “venda do futuro” de Campos no limite legal de 10% dos royalties do petróleo recebidos mensalmente pelo município, não nos termos pactuados entre a CEF e os Garotinho, que agravariam ainda mais a situação de caos financeiro do município.

Trechos do parecer do procurador regional da República José Homero de Andrade (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Além endossar a decisão liminar do TRF-2, favorável a Campos, o procurador José Homero de Andrade foi duro nas palavras com as alegações da CEF para querer cobrar de Campos, até 2026, o R$ 1,3 bilhão que acordou com o governo Rosinha: “beirando o cinismo a alegação segundo a qual a Caixa não seria responsável pelo destino dado pelo Executivo Municipal (comandado pelos Garotinho) à verba que lhe repassara”.

A denúncia de fraude no contrato da “venda do futuro”, feita pela procuradoria da Câmara de Campos, foi considerada “das mais sérias” pelo MPF.  Para o procurador regional eleitoral, os fatos “configuram, em tese, ato de improbidade administrativa e ilícito penal”. Tudo foi oficiado ao chefe do MPF no Estado do Rio:

— Trata-se de acusação das mais sérias, de inegável relevância, a merecer imediata apuração. Para essa finalidade (…) expedirei ofício do Procurador Chefe da Procuradoria da República no Estado do Rio de Janeiro, dando-lhe ciência dos fatos que configuram, em tese, ato de improbidade administrativa e ilícito penal.

Segundo a imprensa nacional noticiou (aqui) à época, a ausência inesperada da deputada Clarissa Garotinho (atual PRB, mas então no PR) na votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff na Câmara Federal teria sido trocada pelo ex-governador Anthony Garotinho (sem partido) pelo empréstimo com a Caixa ao governo Rosinha. Foi a terceira operação seguida da administração rosácea daquilo que ficou popularmente conhecido como “venda do futuro” de Campos.

Além do MPF, o contrato firmado entre a CEF e a ex-prefeita Rosinha deve ser também alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara de Campos:

— Já tínhamos denunciado lá atrás (aqui) que a “venda do futuro” de Campos, pela prefeita Rosinha, foi uma fraude contratual. Foi a argumentação jurídica neste sentido, feita pelo procurador da Câmara, dr. Robson Maciel, que garantiu a manutenção da cobrança em 10% no TRF-2. E agora essa argumentação foi acatada também pelo MPF, que vai investigar o contrato por improbidade administrativa e ilícito penal. É dever da Câmara de Campos também fazer o mesmo. Já na próxima semana, vamos conversar com nossos pares sobre a necessidade de abrir uma CPI para investigar esse contrato fraudulento com a Caixa, lesivo aos cofres do município — garantiu o presidente do legislativo goitacá, vereador Marcão.

 

Página 2 da edição de hoje (24) da Folha

 

Publicado hoje (24) na Folha da Manhã

 

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MPF investiga “venda do futuro” por improbidade administrativa

 

O presidente e o procurador da Cãmara de Campos, Marcão Gomes (Rede) e Robson Maciel Júnior (Foto de Atonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

Celebrada (aqui) em 12 de maio de 2016 pelo governo municipal Rosinha Garotinho (PR), no apagar das luzes do governo federal Dilma Rousseff (PT), a “venda do futuro” de Campos junto à Caixa Econômica Federal (CEF) será investigada como “ato de improbidade administrativa e ilícito penal”. A determinação partiu do Ministério Público Federal (MPF), em parecer do procurador regional da República José Homero de Andrade.

Através do seu procurador, Robson Maciel Júnior, a Câmara Municipal de Campos tomou ciência hoje do parecer de 11 de dezembro. Nele, o MPF acatou todos os argumentos da procuradoria do legislativo goitacá, considerados fundamentais à decisão liminar (aqui) do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) em  20 de junho de 2017. Foi ela que garantiu a cobrança mensal da “venda do futuro” de Campos no limite legal de 10% dos royalties recebidos mensalmente pelo município, não nos termos pactuados entre a CEF e os Garotinho.

Além da investigação do MPF, oficiada ao procurador-chefe do órgão no Estado do Rio, o contrato firmado entre a CEF e a ex-prefeita Rosinha deve ser também alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara de Campos:

— Já tínhamos denunciado lá atrás (aqui) que a “venda do futuro” de Campos, pela prefeita Rosinha Garotinho,  foi uma fraude contratual. Para além do discurso, foi a argumentação jurídica neste sentido, feita pelo procurador da Câmara, dr. Robson Maciel, que garantiu a manutenção da cobrança em 10% no TRF-2. E agora, essa nossa argumentação foi acatada também pelo MPF, que vai investigar o contrato por improbidade administrativa e ilícito penal. É dever da Câmara Municipal de Campos também fazer o mesmo. Já na próxima semana, vamos estar conversando com nossos pares sobre a necessidade de abrir uma CPI para investigar esse contrato fraudulento com a Caixa, lesivo aos cofres do município — garantiu o presidente do legislativo goitacá, vereador Marcão Gomes (Rede).

 

Trechos do parecer do procurador regional da República José Homero de Andrade (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Confira a reportagem completa na edição de amanhã (24) da Folha da Manhã

 

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Guiomar Valdez — Uma semana depois: notas sobre a intervenção federal na Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro

 

 

 

Por ‘N’ razões defendo que a intervenção no Estado é uma necessidade. Penso que demorou. Perguntem, em especial, aos moradores da cidade do Rio de Janeiro e regiões próximas;

2) Esta ação não está ferindo a Constituição Federal. Está no âmbito do Estado de Direito;

3) Esta intervenção não é um ato apenas burocrático, ele é político também, óbvio;

4) Em especial neste ano eleitoral, esta intervenção expressa um ato político-eleitoral. Um ato de atores explícitos ou não, pertencentes as relações de poder em nosso país;

5) Esta intervenção é Golpe? Para mim, NÃO!;

6) Poderá compor um Golpe de Estado? Talvez, tenho muitas dúvidas. Como variados atos políticos/sociais podem compor a instalação de um Estado de Exceção. Levar à suspensão das eleições neste ano? Talvez, tenho muitas dúvidas;

7) Esta intervenção foi devido ao Carnaval carioca, marcado pela crítica e denúncia no âmbito político-social? NÃO! Foi devido as faixas presentes em favelas de apoio ao Lula, que ameaçava o ‘morro descer’? Para mim, NÃO! Menos;

8) Como ato político-eleitoral de maior amplitude, esta intervenção dando certo em seus objetivos ‘técnico-humanos’, poderá gestar um candidato viável à direita? Para mim, é PROVÁVEL. Que tal, ‘Rodrigo Maia’? OBS: seu discurso no ato de assinatura do decreto foi o único que recebeu aplausos, tímidos, mas, houve;

9) Esta intervenção é para apoiar a candidatura de Bolsonaro? Para mim, NÃO! Menos;

10) Com esta intervenção, o governo federal está dando ‘um tempo’ na Reforma da Previdência? SIM. Talvez, nem aconteça… (anotações de 16/02/2018 – 6ªf – 15h41).

Horas depois da assinatura do Decreto Nº 9.288/2018 da Intervenção, o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, anuncia a retirada da PEC da Reforma da Previdência da pauta; 12) e, na segunda, 19/02, o ministro articulador do governo Temer, Carlos Marun anuncia a retirada desta PEC do Congresso Nacional, por ‘insegurança jurídica’(!?).

Devido à ignorância ou má intenção (interesseira?) percebi ao longo da semana muita confusão com o significado constitucional de ‘intervenção federal na segurança pública’ e ‘intervenção militar’, que são coisas diferentes;

14) Preocupada fiquei com a confusão generalizada (intencional?) entre ‘intervenção federal ou militar’ com o dispositivo constitucional denominado GLO – Garantia da Lei e da Ordem no Rio de Janeiro; daí anotei sobre a presença, as ações das Forças Armadas no Rio de Janeiro, através da GLO:

  1. Acontece através do amparo da Constituição Federal no seu artigo 142, pela Lei Complementar 97/1999 e pelo Decreto 3897/2001: GLO – GARANTIA DA LEI E DA ORDEM. Dando poder as Forças Armadas para apoiar operações pontuais de combate ao tráfico de drogas, roubos de cargas, etc.,etc. É a Presidência da República quem autoriza a GLO;
  2. Foram 12 ações de GLO no Rio: a 1ª) foi em outubro de 2008 (eleições municipais); 2ª) de dezembro de 2010 a junho de 2012 (Ocupação do Complexo do Alemão); 3ª) julho de 2011 (V Jogos Mundiais Militares); 4ª) junho de 2012 (Rio + 20), 5ª) outubro de 2012 (eleições municipais); 6ª) julho de 2013 (Jornada Mundial da Juventude); 7ª) julho de 2014 (Copa do Mundo); 8ª) de abril de 2014 até junho de 2015 (Ocupação do Complexo da Maré); 9ª) agosto de 2016 (Jogos Olímpicos); 10ª) outubro de 2016 (eleições municipais); 11ª) fevereiro de 2017 (votação do pacote de austeridade); 12ª) a partir de julho de 2017, para a implantação do Plano Nacional de Segurança no Rio;
  3. Na 12ª ação, as operações do tipo GLO deram apoio em operações conjuntas e pontuais com as polícias Civil e Militar para combater o tráfico de drogas e os roubos de carga. Desde então, houve incursões nas favelas da Rocinha, Cidade de Deus, Jacarezinho, Mangueira, Tuiuti, Arará, Mandela 1 e 2, Barreira do Vasco, Complexo do Salgueiro, Anaia, São Carlos, Zinco, Querosene e Mineira. Como parte da GLO do Plano Nacional de Segurança, o Exército também foi usado na disputa de facções da Rocinha.
  4. A ‘INTERVENÇÃO FEDERAL NA SEGURANÇA PÚBLICA DO RJ’ (13ª ação), difere das outras 12 vezes em que o Exército foi chamado a intervir no Estado. Porque “evoca os artigos 144 e 145, que tratam da gestão da segurança pública – o que inclui traçar estratégias e destinar recursos – de um Estado da Federação.”

Registrei também algumas observações 15) sofre o tráfico de drogas e de armas neste contexto:

  1. Há que se registrar no drama da violência do Estado do Rio, que as questões do tráfico de drogas e das armas e das milícias articulam-se com a questão política, econômica e político-eleitoral. Um aspecto ‘novo’, que devemos atentar, porque remete mais ou menos aos anos de 2014/15 em diante, ou seja, até hoje, é o acirramento e a complexidade da ‘guerra entre facções do tráfico’, com a entrada no Rio de Janeiro do PCC – Primeiro Comando da Capital, a poderosa facção paulista, a maior do Brasil, que passa a expandir seus negócios, organização, metodologias, etc, por aqui, em rivalidade com o CV – Comando Vermelho (a maior facção do Rio). Numa verdadeira guerra por territórios, deixando para trás, mais ou menos 20 anos de ‘paz’/sociedade entre eles.
  2. “A ofensiva, que mais parece uma estratégia de expansão empresarial, contempla também acordos comerciais com outras facções criminosas e o monopólio da distribuição de drogas e armas na favela considerada como a mais rentável do Rio, a gigantesca Rocinha, na rica Zona Sul. O objetivo é aumentar o lucro e enfraquecer o novo inimigo – o Comando Vermelho.”(cf. https://ponte.orghttps://brasil.elpais.com)
  3. Ao longo da semana ‘chefes/comandantes/líderes’, em especial do PCC, foram presos ou morreram (fora do RJ).

No mesmo dia 16/02, dia do ‘decreto’, lendo alguns outros noticiários/artigos, deparei-me 16) com mais informações sobre a possibilidade de Lula não ser preso, em especial da colunista de ‘O Globo’, Lydia Medeiros, com o título ‘Poder em jogo’ – “A mudança do entendimento sobre a prisão após condenação em segunda instância já é dada como certa no Supremo Tribunal Federal, diz a colunista Lydia Medeiros, no jornal O Globo; apesar das negativas da presidente da Corte, Cármen Lúcia, sobre sua intenção de pautar novamente o assunto, a decisão do relator da Lava Jato, ministro Edson Fachin, de levar ao plenário o pedido de habeas corpus feito pela defesa do ex-presidente Lula forçará uma deliberação; há sinais claros de que Gilmar Mendes mudará o voto dado pela prisão, e de que Rosa Weber manterá sua posição contra a execução da pena após a segunda condenação; com isso, prisão do ex-presidente Lula não deve acontecer.”

Daí anotei, para não esquecer, uma pergunta meio ‘maluca’(!?) – 17) E aí, a intervenção federal no Rio será boa ou ruim para sua candidatura??

E a cabeça teimosamente refletindo, mas ciente de que deveria parar, a fim de obter um fôlego e tempo necessários para estudar mais a área de economia-política à luz da crise iniciada no final de janeiro e os novos acontecimentos por aqui, terminei minhas notas, pensando a intervenção federal no Rio a partir da ‘política como um tabuleiro de xadrez’; e fui finalizando assim: 18) CÁ PRA NÓS, O TEMERÁRIO FEZ UMA ‘JOGADA DE MESTRE’ NA MOVIMENTAÇÃO POLÍTICO-ELEITORAL! Teve o efeito surpresa. O conteúdo escolhido – violência/segurança, é ao mesmo tempo estratégico, como também, urgente e sensível às subjetividades de quem vivencia 24 horas por dia a insegurança e as perdas de vidas (isso é concreto);

19) COMO VAMOS RESPONDER? TAMBÉM COM AÇÕES EM UNIDADE NO CAMPO DA POLÍTICA!

Falo em unidade porque temo um desenrolar que volte a alimentar um ‘acordaço conciliatório’ pelo alto. Afinal, tudo caminha, pelo menos até agora, para a derrubada no STF do tema ‘prisão em segunda instância’.

 

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Milícia de jogos do Rio suspeita da execução de campistas na Barra

 

 

 

Executado na Barra da Tijuca com um tiro na nuca, Renato Chagas de Souza Júnior teve o corpo sepultado ontem (22), no Caju (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Sete suspeitos de integrarem a milícia do jogo da Zona Oeste do Rio, onde Ericksson e Renato seriam executados, foram detidos e encaminhados à 134ª DP de Campos, em 05 de outubro de 2016 (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Milícia do jogo suspeita de mortes (I)

Em plena intervenção federal no Estado do Rio, os campistas ficaram chocados com o assassinato (aqui) de dois conterrâneos na capital fluminense. Ericksson Rodrigues Calil e Renato Chagas de Souza Junior foram executados, cada um com um tiro na nuca, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste carioca. Ocorrido entre domingo e segunda, o crime teria sido um acerto de contas com a milícia do jogo, com o qual os dois estariam envolvidos. Ericksson tinha passagens na 134ª DP por envolvimento com a atividade, enquanto Renato teve sua ligação com o jogo clandestino apontada em áudio que circulou, após as mortes, no WhatsApp.

 

Milícia do jogo suspeita de mortes (II)

Na verdade, o crime recente teria ligação com uma ocorrência policial estranha, um pouco mais antiga. Em 5 de outubro de 2016, sete homens em dois carros foram detidos (aqui) por atitude suspeita no cruzamento das avenidas 28 de Março e José Alves de Azevedo. Abordados pela PM local e encaminhados à 134ª DP, três deles se revelaram PMs do Rio, enquanto os outros quatro tinham extensa folha corrida. Um seria envolvido com a milícia da comunidade de Gardênia Azul, em Jacarepaguá, na mesma Zona Oeste carioca onde os dois campistas foram assassinados.

 

Milícia do jogo suspeita de mortes (III)

Em 2016, a polícia de Campos chegou aos sete homens vindos do Rio, por acaso. Como o juiz da 129ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos, Ralph Manhães, estava à frente da Chequinho e reside em um condomínio em frente de onde os dois carros pararam, suspeitou-se de uma ação contra ele. Não era, mas pode estar ligado à dupla execução no início da semana. As informações estão com a Divisão de Homicídios da capital. Ontem, o aplicativo do EC Games, usado para fazer apostas de futebol em Campos e região, anunciava (aqui): “Estamos em LUTO, porém o SONHO continua! Vida que segue!”. EC são as iniciais de Ericksson Calil.

 

Como o aplicativo da EC Games tirou sua mensagem de luto do ar, após a publicação do Ponto Final de hoje, aqui a sua reprodução

 

General como secretário

Com a intervenção federal na Segurança do Rio, o novo secretário estadual da pasta passará a ser um militar da ativa do Exército. Um dos nomes cogitados é o general Richard Fernandez Nunes, segundo afirmou o porta-voz do Comando Militar do Leste, coronel Roberto Itamar. Segundo ele, o nome definitivo ainda será debatido em Brasília e só será anunciado oficialmente na terça-feira (27). Fernandez, entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2015, ficou por três meses à frente da ocupação militar do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. Fernandez foi promovido nesta semana a general de Divisão, três estrelas.

 

Violência sem fim

Hoje, o interventor, general Braga Netto, e o governador Luiz Fernando Pezão se reúnem para falar sobre a intervenção. A proposta não é só discutir o destino do comando da secretaria de Segurança, mas também os primeiros resultados da operação no Rio. Mesmo com a intervenção federal, os casos de violência seguem assustando da Região Metropolitana ao interior. Ontem, em Niterói, nem um tenente do Exército escapou da ação de assaltantes e foi baleado. Em Campos, em uma das principias avenidas, a 28 de Março, bandidos trocaram tiros com um policial de folga após um assalto.

 

Bola fora

Viajando durante mais temporal na cidade do Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella fez piada com a situação: “Lá em São Paulo também tem enchente. Vão até lançar um programa novo: o Balsa Família”. Crivella estava em Brasília, na quarta, onde foi pedir recursos ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para a realização de projetos sociais em áreas conflagradas pelo crime organizado. Ele só voltou ao Rio ontem. Na semana passada, durante a forte chuva que deixou quatro mortos, o prefeito estava viajando pela Europa, onde passou o Carnaval.

 

Posse marcada

Reeleita com 685 votos, a presidente da Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (Amaerj), Renata Gil, toma posse para o biênio 2018-2019 na próxima segunda-feira (26), às 17h30, no Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio. A juíza ressaltou que o desafio é reforçar o combate à retaliação contra a atuação firme e independente dos juízes. “Nossa proposta é sempre trabalhar com afinco em defesa dos interesses da magistratura. Especialmente no cenário nacional, diante dos graves ataques em curso às nossas prerrogativas”, disse.

 

Com colaboração

 

Publicado hoje (23) na Folha da Manhã

 

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Paula Vigneron — Partes

 

Isaías. parte do complexo escultório “12 profetas”, esculpido em pedra sabão por Aleijadinho (1730/1814), nas escadarias do Santuário de Bom Jeseus de Matosinhos, na cidade mineira de Congonhas (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

O corpo estava pálido. Mais do que o normal. Atipicamente branco e frágil. A ausência de luz provinha de sua atual condição: morto. Parado. Duro. Frio. Um corpo que, outrora, aquecera o homem que o observava. Esperava movimentos. Reações. Mantinha a esperança. Permanecia a analisá-lo sem desviar o olhar. “Quem sabe ela possa respirar a qualquer momento? Ou mexer as mãos.”

As mãos.

Ainda com unhas ainda pintadas. Pretas e longas. Agora, estavam gélidas e inúteis. Há uns dias, os dedos passeavam pelos cabelos dele e acariciavam sua cabeça. Estava cansado. Dividiam a cama de solteiro de seu quarto. A proximidade dos corpos gerava um calor que, hoje, parecia impossível.
“Eu entendo, mas você precisa buscar novos caminhos. De que adianta insistir no que não te faz bem?”, questionava ela, atenciosa na escolha das palavras. Não queria magoá-lo. Se dissesse que via seus atos como perda de tempo, ele se chatearia. Era calmo, mas, por quaisquer motivos, abandonava a tranquilidade e se tornava agressivo. Não gostava de vê-lo assim.

Tocou a pele da mulher que jazia à sua frente. Pensou, durante muito tempo, em colocar um anel em seu dedo e fazer dela sua esposa. Casar. Viver histórias sob o mesmo teto. Acompanhar os dias bons e ruins. Desistiu após concordar que não foram feitos para o matrimônio.

“Terminaremos em apuros, querido. Prefiro permanecer a vida como está. Compartilhamos afagos descompromissados. Enquanto for bom, ficaremos ao lado do outro”, afirmou.

“E agora, querida, cadê a vida que você queria manter?” Ele continuava à espera de respostas. De que aquilo, em algum momento, seria revertido, e ela retornaria para dar-lhe o colo nos momentos de ansiedade.

O colo.

Quente. As pernas grossas se transformavam em travesseiro. “Largue suas angústias quando passar pela porta, menino”, ela dizia. Mas estava sempre pronta a ouvi-lo e afastar o que lhe fazia mal. Possuía o dom de escutar e enxergar o outro sem pré-julgamentos e pré-conceitos. Mesmo pouco à vontade, era suficientemente delicada para não dispensar os aflitos e atormentados que apareciam, a qualquer hora, e batiam à porta.

“Como você aguentava essas pessoas?”, perguntou, em voz alta. Deveria ter tirado suas dúvidas quando ainda havia tempo. Ela teria respondido cordialmente. Era uma mulher generosa, embora a paciência, por vezes, lhe faltasse. “É por amor. Amor às causas perdidas”, ouviu a voz imaginária. Teriam sido essas as suas palavras? Quais expressões apareceriam em seu rosto enquanto ela interpretava as falas? A boca se esticaria em um sorriso depois do término?

A boca.

Rosada. Por vezes, quase vermelha. Quando sorria, parecia menina. Os traços dos lábios indicavam o humor do dia: quando apertados, apreensão; quando soltos, leveza; se estivessem mais esticados, alegria. Era visível e previsível.

“O que aconteceu?”

“Nada. Por que a pergunta?”

“Seus lábios mostram sua tensão. Você não tem talento para me enganar, minha menina. Tão querida.” E beijou a boca antes retesada. Sorriu em resposta ao ato. Gostava de ser surpreendida. Ele conhecia seus desejos, mesmo que afirmasse o contrário para agradá-la. Batia, de modo delicado, os nós dos dedos quando discordavam dela. Característica percebida por quem a conhecia verdadeiramente.

O corpo.

Tocou boca, mãos, pernas, dedos, colo. Tateava todas as partes desnudadas por ele. Sentia falta da reciprocidade. “Será que, desta vez, ficarei mesmo sozinho?” Uma gota escorria pelo rosto dela. Era dele a lágrima que percorria espaços por onde línguas e lábios e ternura se alternaram. Buscava sinais vitais que abandonaram a mulher há horas, mas ela permanecia na mesma posição.

Um homem, com a voz delicada, pediu licença. Precisava ajeitá-la para a cerimônia. “É a última desta noite. Temos hora para encerrar o expediente”.

Por sua mente, passaram as cenas das últimas noites e sonhos; coxas entrelaçadas, abraços, palavras soltas e planos. “Última desta noite para encerrar o expediente”, sibilou. Despediu-se com beijo. O frio se apossou de seu corpo. Os dois, homem e mulher, mergulhados na apatia. Presente e futuro, agora, conjugados no passado.

 

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