Folha 40 anos — Sebastião Carlos Freitas

 

Jornalista Sebastião Carlos Freitas

Cinco anos em quatro décadas

Por Sebastião Carlos Freitas(*)

 

O que representam cinco anos em uma história de quatro décadas? Para muitos, seria apenas um curto período, mas para mim representou um grande período de aprendizado e satisfação em poder trabalhar com jornalismo. Nesse 8 de janeiro, a Folha da Manhã completa 40 anos de muita informação e jornalismo feito com seriedade e me orgulho de ter feito parte desta história, mesmo que por apenas exatos cinco anos (fui contratado em 7 de março de 2004 e deixei esta importante casa em 7 de março de 2009).

Cheguei à Folha para trabalhar na editoria de Esportes a convite de Aluysio Abreu Barbosa. Mas nos cinco anos trabalhando nesta casa, passei também pelas editorias de Política e Geral, chegando à editoria geral, cargo no qual trabalhei por três anos.

Em seu texto sobre os 40 anos da Folha, o professor Orávio de Campos, de quem tive o privilegio de ser aluno no curso de Comunicação Social da Fafic, lembra o olhar visionário de Aluysio Cardoso Barbosa no final da década de 70. A Folha segue acompanhando este olhar de futuro.

O radialista Antunis Clayton, meu antecessor na editoria geral da Folha, e que também chegou ao jornal para trabalhar na editoria de Esportes, recorreu às lembranças de criança, ao ouvir o rádio do avó, para mostrar sua trajetória até a chegada à Folha. Lembrança boa, que fez recordar minha infância no interior de Minas Gerais, em uma casa sem energia elétrica, onde o rádio à pilha era o meio de informação e, às vezes, até de diversão.

Mas, de todas as palavras sobre os 40 anos da Folha, a narrativa de Aloysio Balbi me chamou mais a atenção. A história sobre como descobriu que seu nome fazia parte do expediente do jornal foi muito parecida como minha chegada a editoria geral. Assim como aconteceu com Aloysio Balbi, ao ser questionado por Aluysio Cardoso Barbosa se já havia lido o jornal do dia, eu vivi a mesma experiência com Aluysio Abreu Barbosa. Eu também li toda a edição, para só depois saber que meu nome fazia parte do expediente ao lado dos membros da família Barbosa.

O tempo passa, as pessoas passam, mas a história nunca será esquecida.

 

(*) Jornalista e ex-editor-geral da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

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Folha 40 anos — Moacir Cabral

 

Jornalista e empresário de comunicação Moacir Cabral

Uma doce loucura

Por Moacir Cabral(*)

 

Sempre tive uma Folha no caminho.

Parece que foi ontem, mas lá se vão quase 45 anos que, pela primeira vez, pisei na redação de um jornal. Era a Folha do Comércio, que funcionava no velho casarão da Praça São Salvador, sede da Associação Comercial. Foi ali, aos 19 anos, que me envaideci quando soube que naquele jornal –  feito com linotipos e chumbo – trabalharam os imortais José Cândido Carvalho e Raimundo Magalhães Júnior, em épocas distintas.

O tempo voava. De repente, eis que era anunciada uma nova era de modernidade na imprensa campista com o nascimento da Folha da Manhã, com o então inovador sistema de impressão offset. Bem que merecia, achava eu, ser convidado para a empreitada. Mas não fui contemplado com o chamado do mestre Aluysio Cardoso Barbosa – eu o chamava de Barbosão, mesmo ele não gostando tanto do apelido.

A princípio, portanto, me mantive no jornal onde era o editor:  A Notícia – o melhor da cidade, antes da Folha. Mas com um objetivo em mente:  tentar fazer sempre o melhor para conquistar a atenção de Barbosão.

Certa vez, enchente braba, o  Rio Paraíba jogava água na cadeia pública, na Avenida Quinze de Novembro. Coisa de doido. Barbosão, prestigiadíssimo, conseguiu helicóptero para algo jamais visto na imprensa da cidade: uma foto aérea.

E agora? Eu e o fotógrafo — não recordo exatamente se foi Leudo ou Peninha — partimos para a tal caixa d’água ao lado da ponte General Dutra, alta o suficiente e com escada que iria permitir a foto que Barbosão queria: a água entrando na velha cadeia.

No dia seguinte, capas semelhantes e fotos idênticas. Barbosão, dizem, chegou bufando no jornal. Afiando um generoso bigode, foi dando esporro:

— Quem deu esta foto para Cabral?

Não demorou para eu acumular a chefia da sucursal de O Fluminense e a geral da Folha da Manhã. Verdadeiramente, uma doce loucura.  Outra vez, o fotógrafo Zé César Castro me seduziu a ficar quase um dia inteiro em Atafona para uma matéria xoxa. Preferimos a cachaça com pitanga. Acho que fomos demitidos.

Irritar José Cunha era um deleite, assim como rir das trapalhadas de Péris Ribeiro. Melhor ainda era apavorar Angela Bastos, que, aliás, era de outra linhagem, mais próxima dos experientes Celso Cordeiro e Saulo Pessanha.

Estávamos mais para revoltosos sem causa, como Aloysio Balbi, Orávio, Maurício Guilherme, Esdras Pereira, Zé César, Antônio Roberto, o Capitão, e outros.

Se fui  demitido pelo menos  três vezes, também por três ou mais fui guindado a cargos de chefia. Entre os belos trabalhos da Folha, a irretocável cobertura da crise da igreja, com a ruptura entre tradicionalistas e progressistas. Mas isso hoje é apenas história.

Lembram-se como tudo começou? O tempo passou. E, há 28 anos, cá estou em outra Folha: a Folha dos Lagos.

 

(*) Jornalista e empresário de comunicação, ex-editor da Folha da Manhã e proprietário da Folha Lagos, de Cabo Frio

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

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Folha 40 anos — Luciano Teles

 

Jornalista e ondontólogo Luciano Teles

Folha: sempre presente no futuro

Por Luciano Teles(*)

 

Falar da Folha da Manhã em minha vida é me lembrar da infância. De, enquanto brincava pelo chão da casa, por volta dos 10 anos de idade, 1980, ouvir, pelas ondas da Rádio Continental, os versos empolgantes do jingle do jornal: “Olha, a gente faz o melhor, (pra) inspirar confiança, merecer liderança. Olha a Folha da Manhã, o jornal que o povo lê. (Ooooo)Olha, a gente faz o melhor, (pra) inspirar confiança, merecer liderança. Olha a Folha da Manhã. Preferência po-pu-lar!!”

Os versos mostravam a realidade. Quando se falava em comprar um jornal, a frase era “comprei a Folha” ou “Fulano, compra a Folha”. Depois dizia-se “li na Folha”, ao invés de “li no jornal”. Fatos gravados na memória. Junto com cenas de matérias importantes lidas nas páginas da Folha. Toda marca comercial precisa dessa impressão de seu nome no vocabulário do cotidiano popular. Para um jornal, isso é vital.

Já estudante do segundo ano de Jornalismo, na “Filosofia”, 1991, recebi um convite do caro Adelfran Lacerda para ser repórter-estagiário do jornal. Felicidade era pouco para resumir o que sentia. Na redação, aprendi muito sobre o jornal e a cidade lendo edições passadas, encadernadas e arquivadas. E, além de Lacerda e outros tantos queridos colegas repórteres e editores, como a querida Angela Bastos e o caro Ricardo André Vasconcelos, tive aulas valiosas com Orávio de Campos, que já era meu professor na Fafic (e de quem ainda guardo carinhosamente as pautas que nos passava, verdadeiras pérolas), e o tão falado Aluysio Barbosa, cuja fama lhe precedia.

Conhecer e trabalhar com “Seu” Aluysio foi um prêmio para quem teve tal oportunidade. Homem de poucas palavras, de poucos elogios (que decifrávamos nos gestos e no tom de seu “Humm…” para algo). Mas de um olhar que, de tão aguçado, focado, parecia te mostrar sempre que ainda faltava algo a apurar ou escrever.

Cheguei à Folha em plena mudança da máquina de escrever para os computadores. Usávamos Carta Certa III. Cada dia trazia aprendizados com os novos processos. Da redação das matérias à transferência destas para a diagramação, impressas ainda na matricial: <me=05> <md=77> e tínhamos os 72 toques da linha da lauda. Era mais um passo da Folha em direção à tecnologia, ao que havia de mais moderno. E zelar por sua vocação em busca do novo sempre foi uma das marcas maiores da Folha. Desde seu pioneirismo, em offset, até a impressão em cores, ganhando a internet, com sua urgência e suas interações, possíveis e necessárias aos novos tempos.

Os parabéns são mais do que merecidos. São obrigatórios. Afinal, não é todo jornal do interior que, além de sobreviver a várias crises de um país como o Brasil, consegue completar 40 anos. Que não deixou a liderança que ocupou durante este tempo. Que, ainda sob a guarda da família dos fundadores, mantém as oficinas e participa ativamente da internet, redes sociais e afins. E continua com projetos e planos em direção ao futuro, onde sempre esteve.

 

(*) Jornalista e odontólogo, ex-repórter da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

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Alexandre Bastos — Começa com G: Garotinho ou Goebbels?

 

Fanáticos pelo poder, os aliados do ex-governador Anthony Garotinho (PR) parecem dispostos a seguir uma cartilha nazista. Inspirados em Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda na Alemanha Nazista, eles apostam na ficção e na repetição de mentiras para tentar desestabilizar o governo municipal.

A última pérola foi publicar uma foto do vice-presidente da Codemca, Fábio Monteiro Moraes, e dizer que se tratava do ex-prefeito Alexandre Mocaiber. Segundo a publicação dos rosáceos, o prefeito Rafael Diniz estaria sempre em contato com o ex-prefeito. Uma mentira que minutos depois foi desmentida pelo próprio Mocaiber.

Cientes da gafe, mas sem capacidade de reconhecer o erro e se desculpar, simplesmente tiraram a foto do ar sem dar qualquer tipo de satisfação ao leitor. Ou seja, fica nítido que a ideia é espalhar a mentira e tentar viralizar.

Cientes de que as “fake news” estão sendo disseminadas por grupos que fabricam informações falsas com objetivos políticos, podemos dizer que, em Campos, Garotinho seria o Barão das notícias falsas e da dissimulação. Algo fácil para uma mente imaginativa, que consegue até ver fantasmas na prisão.

Donald Trump, presidente dos EUA, está afundado em denúncias que a cada dia comprovam como a manipulação de informações falsas e a espionagem barata ajudaram a moldar a opinião pública. Garotinho é um Trump piorado: mentiu e derrotou muitos inimigos, mas no caso dele, a justiça revelou sua verdadeira natureza.

É engraçado perceber como ao longo dos anos anos o grupo garotista enganou a tantos com a tecelagem de um trama na qual o casal era sempre a vítima e os outros sempre os algozes. Como se tudo fosse uma grande batalha entre o bem e mal.

Após ter o que lhe restava de credibilidade ser desmantelado com três prisões ( já pode pedir música), cada mentira que é contada por ser grupo, vira atestado de honestidade para quem se vê atacado pelas mesas.

 

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Folha 40 anos — Fabiano Venâncio

 

Jornalista e empresário de comunicação Fabiano Venâncio

Nave-mãe

Por Fabiano Venâncio(*)

 

Em meados dos anos 80, cheguei ao Grupo Folha e ouvi a frase: o jornal era a ‘nave-mãe’. De ‘calças curtas’, eu pensava que em pouco tempo tudo mudaria, ou seja, a recém-adquirida TV Planície, com a força de um veículo de massa, iria ocupar o topo do Grupo. Não conseguia assimilar quando Aluysio e dona Diva faziam questão de enfatizar o papel do jornal para o grupo de comunicação. Com o tempo, já na condição de diretor da Rádio Continental e sócio da Rádio Jornal de Macaé, percebi o porquê da projeção feita pelo casal, colocando a Folha como principal pilar do grupo.

Com o tempo, percebi que eles não falavam de estrutura empresarial e, sim, de um veículo de comunicação que tinha na pluralidade um dos principais pilares editorias. Assim, se posicionou diante de temas controversos da região, noticiando — e muitas vezes protagonizando — os fatos mais importantes das últimas quatro décadas. E se tornou o que é mais importante para um veículo de comunicação: o porta voz da população.

Aprendi, aprendi muito, dia após dia, com as orientações, decisões, puxões de orelha de dona Diva— às vezes com luva de veludo e outras num tom alto — com sua garra e poder de trabalho insuperáveis. E com as ponderações de Aluysio

E mais: feliz de quem consegue fazer sucessores. Olho para trás e posso dizer o quanto vejo no trabalho diário de redação e em seus artigos, muito de Aluysio (pai) em Aluysio (filho), assim como de dona Diva em Cristiano.

 

(*) Jornalista e empresário de comunicação, ex-repórter da Folha da Manhã, ex-gerente da Rádio Continental e proprietário do site Campos 24 Horas

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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Folha 40 anos — Frânio Abreu

 

Jornalista Frânio Abreu

“Caminhando e cantando e seguindo a canção, aprendendo, ensinando uma nova lição…”

Por Frânio Abreu(*)

 

O cantor e compositor Geraldo Vandré estava certo quando em 1968 afirmou em verso e prosa: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Foi isso que eu fiz, sem grandes pretensões, quando já funcionário da Folha da Manhã, trabalhando como revisor de textos, iniciei uma nova era na minha vida. Essa nova era se estendeu por 20 anos dentro da empresa, considerada por mim e tantos outros como uma verdadeira escola.

Como revisor de textos sofria influências jornalística de todos os lados, principalmente, pelo próprio trabalho diário de revisar, já que tinha ao meu lado, na mesma função, uma jornalista experiente, com passagem por grandes jornais da época, como “Última Hora”, “Jornal do Brasil”, entre outros diários que acompanharam o processo histórico nacional por longo tempo. Marilda Rios ou “Marildinha”, como era conhecida, falava com um entusiasmo tão grande de jornalistas como Alberto Dines, Carlos Heitor Cony, Wladimir Herzog e outros que eu sequer sabia existirem, que contagiava.

Na época, eu estudava Letras na Faculdade de Filosofia e meus amigos eram do curso de Jornalismo da mesma faculdade e, por coincidência, também da Folha. Antônio Fernando Nunes, Juscelino Rezende e outros acabaram me influenciando, assim como Marildinha. Sem contar que, por força do meu trabalho de revisão, tinha contato direto com os mais experientes jornalistas: José Cunha Filho, Orávio de Campos, Luiz Mário Concebida, Angela Bastos, Francisca de Assis, além dos mais novos da época e nem por isso menos conceituados, como Ricardo André Vasconcelos, Jane Nunes, Rosayne Macedo, Aloysio Balbi e muitos mais.

Mas o grande mestre era mesmo “seu” Aluysio Barbosa, chefe de poucas conversas, mas muito observador — característica essencial para o jornalista. E eu, influenciado por todo esse pessoal, não sei como criei coragem e fui à sala de Seu Aluysio para pedir uma oportunidade na redação.

A primeira coisa que ele perguntou foi se eu gostava de ler, independente dos textos que revisava por obrigação e, se não gostasse, não adiantava nem tentar. Conversamos não mais do que cinco minutos e, direto e objetivo, me mandou procurar no dia seguinte Orávio, responsável pela pauta, para um teste.

A vida de revisor de textos terminou três meses depois deste dia, quando então começou a do jornalista. No meu lugar na revisão ficou minha irmã, Suany Abreu, que também soube fazer sua história dentro da Folha.

Na “empresa/escola” tive a grata oportunidade de ser repórter de quase todas as editorias — Geral, Polícia, Economia, Política, Folha Dois —, além de ter sido subeditor, editor, responsável pelo antigo caderno infantil “Folhinha”, tablóides como a “ Folha Shopping”, matérias de cunho comercial, colunista social substituto em férias dos titulares — Angela Bastos, principalmente, porque fazia uma coluna mais jornalística do que social.

Minha experiência em rádio também foi dentro da empresa, cobrindo férias na Continental, pertencente ao Grupo Folha. Sem falar nos flashes passados de dentro da redação, lá pelas 22h, para diferentes rádios da região.

São muitas histórias, impossíveis de contar em 40 linhas. O que é possível afirmar é que tudo isso me deu base para continuar na luta até hoje.

Viva os 40 anos da Folha da Manhã!

 

(*) Jornalista, ex-editor da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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Guiomar Valdez — Indignação e Coragem: precisamos muito da espiritualidade-poesia

 

 

 

Em tempos de crise, de ‘deriva’, de violência descomunal, é comum os sentimentos de indignação e de coragem, essas, dizia Santo Agostinho, ‘são filhas diletas da esperança’. Há verdade nisso. O que alimentou muitos dos movimentos que mudaram a História? Indignação e Coragem! O que estava presente nas conquistas sociais para a maioria das pessoas? Indignação e Coragem! Claro, sei, que não apenas estes sentimentos, ou só sentimentos. Mas eles são imprescindíveis…

Estudo/conhecimento, desalienação, organização, táticas, estratégias, comunicação, lideranças, etc., fazem parte do contexto de qualquer luta que preze pela seriedade nos embates que defendem a justiça, os direitos individuais e coletivos, a própria vida. De certo, todos os movimentos que ousaram mudar, e, não, perpetuar, foram movidos pela esperança, pela utopia, traduzidas muitas vezes na expressão criativa de ‘mundo novo’. Acreditavam na ideia, na probabilidade, de CRIAR algo NOVO! Muitos, conscientes, deram a própria vida, acreditavam, que, juntos, de fato, poderiam participar da CRIAÇÃO!

Seja em ‘guerra de movimento ou de posição’, no dizer gramsciano, as ações esperançosas de criação bebiam na fonte dos valores humanistas da modernidade ‘iluminista’, que em muitos casos formulavam sínteses que pareciam impossíveis, como, por exemplo, articulando-se aos valores judaico-cristãos. Na América Latina, e, em especial, no Brasil, temos vários exemplos concretos dessas ‘improváveis sínteses’.

Com certeza, como estamos falando de ações e sonhos de homens e mulheres na História, dada a nossa finitude e a nossa incompletude, as imperfeições, os erros, as incoerências e as incongruências, permearam os movimentos, seus processos e seus resultados. Mas, o ‘prosseguir’ com a esperança não era enterrado, nem contestado. Foram homens e mulheres imprescindíveis, lembrando o pensamento de Brecht sobre os lutadores. Foram eles e elas construtores da História, que ousaram CRIAR!

Ao observar e ao participar do mundo hoje, em especial, do nosso país, percebo que há algo diferente, algo que parece rompido, destroçado, fraturado. De crises, de injustiças, estamos mergulhados. A indignação aparece, mas, predominantemente em conversas que mais parecem de ‘divã’ e nas redes sociais. Mais, ela aparece junto com a apatia, com a ‘vontade fraca’ das ruas e dos movimentos sociais. Como se não tivéssemos mais ‘fôlego’ para agir em busca de um ‘novo criativo’ inspirados nos valores universais, que demandam, talvez, um tempo de ‘longa duração’, de um processo perene de avanços e de recuos, de conquistas e de reconquistas.

De acordo com Frei Betto, hoje, “a indignação se manifesta em expressões de ódio e desprezo; a apatia, na sensação de que é inútil protestar nas ruas, já que se tirou um governo ruim para dar lugar a outro pior”. E, para combater este estado de coisas, é necessário a espiritualidade de grão de mostarda: “Pequeno e insignificante, mas dele pode brotar o que, no futuro, mudará o rumo da história.[…] Não é suficiente reclamar, é preciso agir. De nada vale odiar, falar mal, criticar. Mais vale arregaçar as mangas e, como dizia João Batista, empunhar o machado e centrá-lo na raiz da árvore apodrecida”.

Ouso acrescentar: precisamos também nesses tempos, e, mais do nunca, da ‘espiritualidade’ que vem da Arte, dos artistas, em especial, dos poetas! Necessitamos da espiritualidade que nos ‘religa’ ao mistério à espiritualidade das palavras-poesias que são gritos de humanização! Que pode nos ‘religar’, uma a uma, um a um, um a uma, em unidade indignada e um ativo e vigoroso amor pela vida, ao mesmo tempo! Que pode nos fazer ousar de novo, ter a coragem que parece, perdemos! Que nos faz sair do conforto da alienação, porque a poesia desperta, cutuca, transcende, provoca o sonho!

Sei, sei, não se vai à luta somente com ‘as espiritualidades’, mas, hoje, mais do que nunca em nossa História, depois de corrompido e destroçado os ideais humanistas, necessitamos desse impulso vital ‘das espiritualidades’, que, tenho certeza, nos afastará do nefasto individualismo alimentador da indiferença e do niilismo que ‘conforma’ a apatia. Nos proporcionará a coragem de um coração solícito à vida de todos e de todas.

Seremos generosamente ‘sementes’. Por que, não?

 

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Folha 40 anos — João Noronha

 

Jornalista João Noronha

Folha, marca de sucesso e qualidade

Por João Noronha(*)

 

Uma revolução na história da imprensa em Campos. O 8 de janeiro de 1978 foi o dia mais esperado por todos nós, jornalistas, lotados em outras redações, que sonhávamos com os avanços tecnológicos da época, quando foi às bancas o primeiro jornal offset da região. Impressão e fotografias de qualidade, matérias bem elaboradas e editadas, que conquistaram a confiança da população.

A experiência profissional de Aluysio Cardoso Barbosa aliada à visão empresarial de Diva dos Santos Abreu Cardoso Barbosa não poderia ter uma receita de sucesso diferente. Empresa sólida e bem sucedida, vitoriosa em movimentos importantes que nortearam o progresso da nossa Campos dos Goitacazes e na promoção de eventos que depois se tornaram marca registrada. Nascia a Folha, a minha segunda casa entre 80/84. E, depois de passar por outros veículos de informação, retornei entre 2005/15 sob o comando de Aluysio Abreu Barbosa, que implementou o jornalismo investigativo, atendendo às exigências do mercado editorial.

O nosso admirável mundo novo seguia os passos da modernidade, com o serviço noticioso da agência Jornal do Brasil (via telex), que só era possível até então através de escuta de rádio e com dificuldades dada à distância da capital. O jornal inovava a cada ano, com lançamento de cadernos especiais voltados para os públicos infantil, estudantil, agronegócios, e diversos segmentos representativos da sociedade goitacá. O profissionalismo cresceu tanto, que a Folha reuniu durante décadas os melhores nomes da comunicação regional, uma espécie da Rede Globo impressa.

Sempre preocupada em oferecer qualidade e informação de primeira mão aos seus anunciantes e assinantes, a Folha se agigantava com projetos gráficos e investimentos profissionais. O primeiro jornal também a informatizar sua redação e criar editorias que o tornaram o maior e melhor impresso do Norte Fluminense. Perto de completar meio século de informação, a Folha marca de sucesso e qualidade vai ser mantida ainda por muitos anos. Vida longa aos seus diretores pela dedicação e a seriedade na condução da empresa, da qual me orgulho por ter passado dois longos períodos, nestes 35 anos de profissão.

Obrigado sempre, Folha!

 

(*) Jornalista, ex-chefe de reportagem da Folha da Manhã e assessor de comunicação da Prefeitura de Quissamã

 

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

 

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Folha 40 anos — Cilênio Tavares

 

Jornalista Cilênio Tavares

Quatro décadas de liderança

Por Cilênio Tavares(*)

 

Sete dos meus quase 30 anos de jornalismo passei dentro da redação da Folha da Manhã. A primeira passagem foi no início da década de 2000 e a segunda, por volta de 2010. Nas duas, a convite do diretor de redação, Aluysio Abreu Barbosa. Em ambas as vezes, para trabalhar na equipe da editoria de Geral, que, fora o período eleitoral, é a mais movimentada dentro de uma redação de jornal. É onde as notícias se afunilam e não têm hora para chegar, fazendo com que as equipes fiquem a maior parte do tempo com a adrenalina nas alturas.

O jornalismo é assim e deve continuar dessa forma, como única maneira de entregar, ao leitor — seja no impresso ou na edição online — a melhor informação possível, dentro do objetivo de qualquer meio de comunicação que se preze a prestar um bom serviço. E, nesse aspecto, de um modo geral, só posso dizer do orgulho de ter trabalhado com tanta gente boa durante o tempo em que permaneci na empresa.

Hoje são quatro décadas de liderança incontestável, comprovada pela estrutura adquirida pela Folha graças ao trabalho em equipe, onde direção e redação sempre caminharam juntas e cujos resultados só demonstram que, quando há vontade e objetivos comuns, o céu é o limite.

Mas não dá para falar em Folha da Manhã sem citar o saudoso Aluysio Cardoso Barbosa, Seu Aluysio, jornalista que estava à frente de seu tempo. Que transformou seu sonho em realidade. E como sabia, como poucos, que não se faz um jornal sozinho, conseguiu passar isso para as gerações que tiveram a honra de conviver com ele na redação do jornal. Uma escola para praticamente todos os estudantes de jornalismo que passaram pela Faculdade de Filosofia de Campos, atual Uniflu. E esses ensinamentos, claro, foram mais que absorvidos pelos filhos Aluysio e Christiano Abreu Barbosa, que seguem, junto à mãe, dona Diva, à frente do Grupo Folha.

Parabéns ao Grupo Folha da Manhã pelos 40 anos completados nesta segunda-feira (08/01) e também aos colegas de redação, que se esmeram pra dar o melhor de si na brava tarefa de bem informar. E encerro este artigo fazendo, minhas, as palavras do amigo Murillo Dieguez, em sua coluna na edição da última sexta-feira: “Ninguém chega à condição de liderança incontestável à toa. Certamente que é fruto de muito trabalho, compromisso, perseverança, seriedade, dinamismo e sintonia com os seus leitores e a sociedade”. Então, é desse jeito.

 

(*) Jornalista e ex-editor de Geral e de Política da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

 

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Paula Vigneron — Manchete

 

Ruínas de Atafona, janeiro de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

— A morte é para os velhos. Para os que são restos e rastros. Para os que só possuem o fim. Para os que deixaram início e meio para trás.

A voz nascida da angústia tomou a rua. Por breves segundos, ninguém se entreolhou. Todos estavam expostos. Nus diante de palavras certeiras.

Sobre o corpo da criança, a mulher chorava. Uma mão sobre a cabeça fria e pálida do menino. A outra estava pousada em sua barriga. Era voz comum: quando acontece algo ao filho, a mãe sente as dores em seu corpo. Elas atingem a alma e o útero, de onde havia surgido o ser sem vida que agora estava estirado diante de seus olhos desfocados e sem brilho.

Os cabelos negros uniam-se às lágrimas, suor e saliva, em um misto de dores e odores característicos da perda. Um homem alto, com olhar sombrio, observava a cena de longe. Por mais que quisesse dividir o desenlace com a esposa, sabia que aquele era o momento dela e de seu filho. Ele queria, mas não podia intervir. Os dedos tremiam. Tentando conter os movimentos involuntários, Alberto os mexia freneticamente. “Está na hora de parar com essa mania. Vai ficar com problemas, papai”, recordou-se do tom de repreensão de Luigi. Com onze anos, demonstrava mais sinais de maturidade, em determinadas situações, do que o velho pai, que o admirava em silêncio.

Alberto caminhou lentamente em direção a Jane, que continuava a chorar de maneira descontrolada. Os pés queriam seguir outros rumos, mas ele precisava estar ali. Não podia mais fugir dos acontecimentos como fazia na adolescência. Na época, refugiava-se em bebida. Com o tempo, ela se tornou insuficiente para calar seus gritos. Usou maconha. Quase sucumbira a outras drogas, mas envergonhou-se de sua covardia e aceitou o que lhe era designado. Agora, pensava sobre o que teria sido a vida se não tivesse tomado as decisões que o levaram até ali.

“A covardia do ser humano está em seus gestos, jeitos e trejeitos. Está no ar que ele expira”, pensava o pai do garoto, cujo corpo inerte conservava os piores temores de sua vida. Alegre, Luigi costumava acompanhá-lo em afazeres cotidianos. Ambos, diariamente, saíam juntos para a caminhada matinal, que, às vezes, se transformava em uma corrida. Os risos eram companheiros dos dois. Em certos momentos, optavam por nadar no clube do qual o homem era sócio. Divertiam-se entre cambalhotas e mergulhos, tanto em dias frios quanto sob o escaldante sol de fevereiro.

Os dedos continuavam a ser movimentados em ritmo descompassado. O coração se acelerava à medida que o homem se aproximava da esposa, que observava o filho em silêncio. A respiração da mulher estava mais lenta, mas os olhos permaneciam sem brilhos e vidrados diante da grotesca situação que eram obrigados a vivenciar. Pássaros sobrevoavam a criança oca e fria. Suas sombras mesclavam-se às sombras que eram, neste momento, Jane e Alberto. Dentro do casal, algo estava partido para sempre.

Quando era criança, Alberto testemunhou um caso que nunca saiu de sua cabeça. Aos 43 anos, toda a cena era nítida em suas memórias. Andava na rua, sempre alternando os pés entre as faixas pretas e brancas, em uma dança incompreensível por quem o via, no momento em que escutou um barulho abafado. Com o dedo na boca e as sobrancelhas arqueadas, buscou o local exato de onde viera o estampido. Os cabelos pretos, semelhantes aos fios negros de Luigi, estavam bagunçados pelo vento. Afastou a franja lentamente. Caio, seu amigo, estava deitado no chão, em frente ao seu portão, de onde saíram dois desconhecidos jovens correndo.

Antes de reagir, assustado, sentiu dois braços o agarrarem. Tentou desvendar o rosto de quem o carregava, mas só descobriu que era Valter, seu tio, ao chegar à casa dele. O homem estava pálido. Abria a boca, mas não conseguia emitir ruídos. O suor escorria pela face. Alberto, menino, apenas o encarava, aguardando explicações.

— O que você estava fazendo lá fora? Eu tinha mandado ficar dentro de casa. Sabe que moramos em uma área perigosa — repreendeu Valter.

— Mas o que aconteceu? Não entendi, tio — a criança olhou ao redor. Apenas os dois estavam na residência. Em resposta, Valter apenas abraçou o filho único de seu irmão, cuja mente ecoava o barulho abafado. Hoje, Alberto e Jane partilham o cenário da infância do pai do garoto morto. Ele tentava compreender o que se passava. Olhava o filho. Ora enxergava Caio, ora via Luigi. Braços, mãos, sangue.

Dois homens corriam em direção ao menino. Em disparada. Pareciam fugir de algo invisível. Do outro lado da rua, Alberto observava. Luigi, ao ouvir os desesperados passos, estagnou. Estava pronto para entrar em casa quando um dos estranhos tentou puxar a chave de sua mão. Por reflexo, a criança reteve o chaveiro. Ele, então, reagiu. A barriga do garoto ficou endurecida ao ser perfurada por uma faca enferrujada. Os olhos se cruzaram. Homem e menino. Os sonhos perdidos. Os desejos escondidos. Os brinquedos de ambos que ficariam para trás. Amor e ódio. Luz e escuridão. O objeto ficou cravado enquanto o assassino e o companheiro correram. O pai, sem ação, ouviu pessoas indo ao encontro de seu filho. O socorro não chegou a tempo.

Uma mão tocou o ombro de Alberto, que estava absorto. Seus dedos, agora doídos, ficaram travados. As pernas bambas. A respiração ofegante. O policial que o abordara precisava de detalhes sobre o menino e o crime.

— Podemos deixar isso para mais tarde? De que importa respondê-lo se tudo está acabado? — em respeito, o militar se afastou. Não queria interferir naquela dor. Sabia que, depois, teria mais tempo para compreender os detalhes da tragédia. Acendeu um cigarro. Não conhecia o pai do menino, mas sentia piedade e compaixão. Sua dor era indescritível. Ficou observando seus movimentos e passos em direção à esposa.

Alberto respirou fundo, mexeu os dedos novamente e se ajoelhou ao lado da esposa. Olhou ao redor. “De onde vieram estas pessoas? Eu não as notei. Por que estão todas concentradas em torno de uma história que não é a sua?”, questionava-se em silêncio. Todos se entreolhavam e pareciam macabramente curiosos. Ele captou sussurros, mas não conseguia traduzir em palavras.

“Soube que este foi o décimo caso do ano”, dissera uma senhora, de cabelos brancos enrolados em um coque desgrenhado. Luigi, agora, tornara-se número. Mais um para a estatística. Contagem progressiva que, dia a dia, assustava os moradores da região em que morava. Contagem regressiva para os pais da criança. De menino, ele se transformaria em capa de jornal.

 

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Folha 40 anos — Afonso Guedes

 

Afonso Guedes

Em uma rua cheia de história, eu fiz história

Afonso Guedes(*)

 

Era setembro de 2002. Pela primeira vez, entrei naquele prédio preto e branco, na rua Carlos de Lacerda, número 75, de corredores extensos, que “pulsava” notícia. O meu coração batia no mesmo ritmo. Como era lá dentro? Em qual parte dele as reportagens, que eu lia diariamente em casa, ganhavam forma? A conversa com o diretor de redação, Aluysio Abreu Barbosa, durou poucos minutos. No dia seguinte, lá estava na sala da escuta, vencendo a timidez, apurando fatos que poderiam ou não estar no dia seguinte na edição da Folha da Manhã. Em uma rua cheia de história, começava ali a escrever um importante capítulo da minha história profissional.

A passagem pela escuta foi repleta de experiências e situações inusitadas! Teve o tradicional “trote”, feito pelos colegas da redação, as idas ao Mercado Municipal para verificar o preço dos produtos da cesta básica. Sem contar as notas de polícia, que virariam registros nas páginas na edição posterior. Em 15 dias, veio o convite de integrar a equipe de Política e Economia. Lembro quando o mestre seu Aluysio Cardoso Barbosa entrou na sala, me parabenizando e ressaltando o peso dessa editoria nos jornais do Brasil e do mundo. Na Folha da Manhã, é óbvio, não seria diferente. Os assuntos políticos tinham sempre destaque na primeira página. A partir daquele momento, em vez do microfone — eu sonhava em trabalhar em televisão — o gravador seria o meu principal instrumento de trabalho.

Mas a história tomou outro rumo e, em uma rua cheia de história, eu fui escrevendo a minha história profissional. No dia seguinte ao convite, um repórter da editoria de Geral se ausentou por motivo de doença. Fui convocado pela chefia de redação a fazer uma reportagem de bairro. Uma página inteira dedicada aos moradores de uma determinada região de Campos. Há 40 anos, a Folha da Manhã é a porta-voz do povo. Ali, a população tinha a chance de expor os problemas que enfrentavam no dia a dia. Com a ajuda do repórter-fotográfico, fiz a reportagem, que ganhou uma chamada de capa. Antes do lead, o meu nome: aquela era a primeira matéria assinada!

A transparência na cobertura dos fatos sempre foi um dos principais “mandamentos” da Folha da Manhã. Ouvir todos as partes envolvidas nas reportagens é a nossa obrigação e, a partir daquele dia, me tornei repórter da editoria de Geral. Como o próprio nome da editoria indica, a cada dia era uma experiência nova. Chorei com parentes de vítimas ceivadas pela violência na porta do antigo IML de Campos; fiz plantão em frente ao presídio Carlos Tinoco da Fonseca durante rebeliões; andei a cavalo para mostrar a enchente que destruiu o Noroeste do Estado; de barco no rio Paraíba do Sul, acompanhando o drama dos ribeirinhos; e a pé para conferir de perto a seca que rachava o solo nas fazendas em Morro do Coco, distrito de Campos. Lá, a nossa equipe acompanhou uma ladainha de São Pedro. Os produtores rurais pediam aos céus chuva para salvar o pasto, o gado, a própria vida. Em cada cobertura, ganhava a confiança e o respeito dos colegas. Na redação havia estudantes, como eu, jornalistas recém-formados e outros mais experientes, que eram verdadeiros professores. Em comum, o “sangue nos olhos”, característica que todo bom jornalista deve ter. Em uma rua cheia de história, eu seguia escrevendo a minha história profissional.

O ano de 2003 foi de total dedicação à faculdade. Época de conclusão de curso, a realização de um sonho. Fiquei longe da redação até 2004, quando veio o convite de retornar como repórter da Folha 2. Um novo desafio para um jovem repórter, até então acostumado a retratar o factual, o dia a dia, com pouca ou quase nenhuma emoção. Era preciso ir além: “mergulhei” no mundo das artes, dos livros. Foi ali o pontapé para a vida cultural intensa, que mantenho até hoje. Obrigado, Folha da Manhã! Em 2005, subi mais um degrau: assumi a editoria da Folha 2.

As conversas com o mestre seu Aluysio se tornaram mais frequentes, uma vez que deixei a rua e passei a ficar mais tempo na redação. Participar das reuniões de pauta diárias com os outros, o editor-chefe e o diretor de redação, Aluysio Abreu Barbosa, era sempre um aprendizado. Na sequência vinham a aprovação das pautas, a definição de qual repórter seria o responsável pelo conteúdo, a foto correta para ilustrar cada reportagem e o deadline imperdoável! No dia seguinte, estava lá, nas bancas, o resultado do trabalho em equipe. E eu, naquela rua cheia de história, eu fazia história!

Paralelamente ao trabalho na Folha da Manhã, em 2005, comecei a trabalhar em uma emissora de TV, com a aprovação do Aluysio. Ele sabia que o sonho de atuar no telejornalismo estava só adormecido. Às sextas-feiras, tinha o “pescoção”, era sempre um dos últimos a sair da redação da Folha da Manhã. Foram oito meses assim até que me dediquei exclusivamente à televisão. Naquela rua cheia de história — minha mãe e meus oitos tios nasceram e foram criados na rua Carlos de Lacerda, antiga rua do Rosário, a poucas quadras da Folha da Manhã — eu fiz a minha história no jornalismo impresso.

Levo comigo os ensinamentos da Folha da Manhã. Diariamente, ao chegar à redação da Record TV Rio de Janeiro, onde estou como editor-chefe, leio as notícias de Campos e região pelo Folha 1. Sim, essa “quarentona” não parou no tempo… se transformou, se modernizou! Mas os princípios do bom jornalismo continuam pulsantes. Obrigado, Folha da Manhã, por ter tido a chance de fazer parte desses 40 anos de história. Obrigado pelos amigos que fiz nessa empresa e que levo para a vida toda. Que seja o primeiro de muitos “entas”!

 

(*) Jornalista, ex-editor da Folha Dois e editor-chefe da Record TV Rio

 

Publicado hoje (11) na Folha da Manhã

 

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Folha 40 anos — Guilherme Belido

 

Jornalista Guilherme Belido

Além da notícia e da opinião

Guilherme Belido (*)

 

Foi ainda no meu comecinho em jornal que acompanhei, tipo ‘expectador’, visita de contato publicitário do extinto jornal A Cidade a uma construtura local.

O assunto dizia respeito a edição especial de algum evento em que se sugeria a participação de empresas, entidades e órgãos públicos através de inserções publicitárias alusivas à ocasião.

No caso a que me refiro, da pessoa que acompanhei, não foi exatamente um contato. Mas, enfim, lá chegando, ouviu do dono da empreiteira – muito educadamente – que a construtura não tinha “maior interesse em fazer anúncio” porque não vendia nada ao público posto que só fazia obras para o governo, como pontes, estradas, pavimentação, etc. Mas que, “para colaborar”, poderia autorizar mensagem de espaço menor.

O representante do jornal, então, em breves ressalvas, observou que, ao contrário, por trás de cada pontilhão ou obra de saneamento autorizada pelo setor público, havia um veículo que lutara incansavelmente em favor desta ou daquela localidade, para que determinada benfeitoria fosse realizada. E concluiu enfatizando que empresas daquela natureza precisavam mais da Imprensa do que um anunciante varejista.

Na maior cordialidade, despediram-se, com o empreiteiro – aparentemente com outra visão – autorizando a veiculação sugerida que o jornal agradeceu, mas não publicou.

Toda essa volta foi para mostrar, num exemplo concreto, o quanto a Imprensa representa na vida de cada um e de todos – da cidade, do estado e do país –, para além do que “apenas” se mostra: notícia e opinião.

Quase não se percebe que um novo hospital ou posto policial, que uma creche ou universidade, que um conjunto habitacional ou o esgoto que chega numa comunidade, via de regra, viraram realidade graças ao empenho de órgãos de comunicação.

Isso sem prejuízo de seu ofício primário: 1) A notícia, que é comunicação do fato; 2) A interpretação, que é a qualificação da notícia através da explicação do fato; 3) A opinião, que é a orientação tendo em vista o interesse público.

As vezes, são necessárias páginas e páginas. Noutras, poucas palavras contam a história toda, como fez Elio Gaspari para ‘dizer tudo’ de Carlos Lacerda por ocasião da morte daquele que foi o mais brilhante líder da direita de sua geração, porém comunista ferrenho na juventude: “Carlos, como Marx, Frederico, como Engels, Werneck de Lacerda, Lacerda como só ele sabia ser, morreu ontem”.

Há 40 anos um jornalista diferenciado, visionário e idealista, Aluysio Barbosa, pensou em tudo isso, antecipou o futuro e criou a Folha da Manhã, que nas últimas quatro décadas representa, reivindica, cobra, informa, opina e orienta.

 

(*) Jornalista e bacharel em Direito

 

Publicado hoje (11) na Folha da Manhã

 

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