Vanessa Henriques — Anitta, Gilmar e “otras cositas más”

 

 

 

Difícil é acompanhar os debates que se desenrolam todos os dias nas redes sociais.

Eu simplesmente não consigo. À medida que vou rolando o feed do facebook, uma enxurrada de notícias que me parecem relevantes vão agrupando-se em forma de abas no meu navegador. Acabo ficando com a navegação lenta, a máquina trava e perco o amontoado de informações interessantes e úteis que tinha separado para ler. Sem contar as notícias salvas para ler mais tarde, para um dia em que entrarei novamente no “face” e terei muito tempo livre para ler os conteúdos dos links que já estarão ultrapassados por novas notícias. Preciso dizer que esse dia nunca chegou?

 

Itamaraty exonera diplomata acusado de bater em namorada

 

Verifique aqui se a sua marca de roupa favorita combate a escravidão

 

Universidades não têm diagnóstico da saúde mental de seus alunos de pós

 

Em meio à greve e protestos, Congresso argentino aprova reforma da Previdência

 

Às vezes me pergunto brincando se há espaço no meu cérebro para armazenar tanta coisa. Será melhor saber um pouquinho sobre tudo ou saber muito sobre poucos assuntos? A internet me empurra para o primeiro caminho; a Universidade, para o segundo.

Também fico meio perdida entre discussões sobre uva passas, bunda da Anitta, habeas corpus do Gilmar Mendes e especial de fim de ano do Roberto Carlos. Mesmo que esses temas não sejam exatamente novos e que o interesse por eles despertado seja renovado de tempos em tempos, parece que há sempre algo novo a ser dito, sempre um viés do debate que esteja escapando a todos e que precisa ser adicionado à discussão pública com urgência.

 

Alerj garante autonomia financeira para universidades estaduais

 

Você fica deprê nas festas de fim de ano? Você talvez seja normal

 

Supermercado de SP distribui ‘cartilha da família’ que diz que gays são ‘erro’ e ‘distorção da criação’

 

Como é se aposentar no Chile, o 1º país a privatizar sua Previdência

 

Em tempos de tanta convicção sobre todas as coisas, me parece um ato de coragem dizer “não sei”, ou “ainda não estudei o suficiente para opinar sobre este assunto”. Ou, talvez, venha a calhar um “não tenho interesse sobre esse tema”. Além disso, diante de tantas questões de extrema importância que precisamos dominar como condição para o bom exercício da cidadania, ainda é preciso saber diferenciar as notícias falsas das verdadeiras, quais são os portais confiáveis e aqueles que são conhecidos por não trazer informações tão acuradas assim.

 

The Disarming Paintings Made by Guantánamo Detainees

 

“Promotor diz que vai pedir pena de 6 a 20 anos para cunhado de Ana Hickmann”

 

“Por que os argentinos foram às ruas gritando “isso aqui não é o Brasil””

 

Vários portais reproduziram a notícia de que na Argentina a população que protestava nas ruas contra a “Reforma da Previdência” gritava “Isso aqui não é o Brasil”. Num segundo ato, várias personalidades influentes nas redes começaram a questionar este fato, afirmando que a informação se tratava de um “hoax”. Por sua vez, a notícia do cunhado da Ana Hickmann, indiciado por homicídio mesmo que este tenha sido praticado em legítima defesa, suscitou protestos irados nas redes por pessoas que afirmam que o caso se trata de uma grande injustiça, e que, dentre outros clichês, “esse país só defende bandido”. Eis que então surgem juristas para questionar o título da matéria, alertando que não é o promotor que “pede” uma dada pena ao acusado, mas é o Código Penal que estipula a pena, e é o juiz que pode fazer o cálculo da pena, a partir dessa estipulação legal. Além disso, via de regra, as pessoas que agem em legítima defesa são processadas criminalmente e é somente no curso de uma ação penal que um juiz poderia avaliar as provas e ouvir as testemunhas para decidir se a pessoa merece ser absolvida ou não.

Outra questão que gerou opiniões contraditórias foi a celeridade com que tramitou o processo do ex-presidente Lula no TRF4. Alguns afirmaram que o tempo foi recorde devido a intenções políticas dos magistrados. Outros afirmaram, com a mesma convicção, que a maior parte dos processos que por lá passou neste ano que se finda correu com rapidez similar. Por fim, não sei qual dos dois lados afirma a verdade, pois não acessei na íntegra a resposta do Tribunal à defesa do Lula, não tive tempo para apurar os fatos e tampouco consegui ler todo o processo. O que me espanta são as certezas que pululam de todos os cantos, mesmo que careçam de uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema. E com a rapidez que se criam e se reproduzem informações falsas, todo cuidado é pouco na hora de fazer afirmações categóricas.

Encerro minha participação deste ano no blog Opiniões expressando o desejo de que em 2018 a nossa participação nas redes possa ser mais cuidadosa e menos apressada. Que passemos menos tempo de olho no celular e no computador e possamos arejar a mente junto a pessoas queridas, banhos de mar relaxantes e umas cervejinhas para variar.

A participação neste blog que agrega em si mesmo uma miríade de opiniões que ora convergem, ora se contrapõem, alargou minha visão sobre os fatos e os modos como as pessoas interpretam o mundo e as coisas com as quais interagimos. Parabenizo ao Aluysio pelo belo trabalho ao organizar essas opiniões e mediar os debates, deixando aberto à população um espaço plural que promove o aprendizado de todos que se propõem a debater.

Um Feliz Natal e que o próximo ano seja melhor do que este que se encerra.

 

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Zuenir Ventura — Gilmar Mendes, o Papai Noel dos políticos corruptos

 

Charge do José Renato publicada na Folha da Manhã em 22/12/17

 

 

Jornalista e escritor Zuenir Ventura

Papai Noel monocrático

Por Zuenir Ventura

 

Para leigos como eu, soa meio esquisita a frequência com que o ministro Gilmar Mendes desautoriza juízes, revogando decisões, distribuindo habeas corpus e mandando soltar presos — não os comuns, bem entendido, apenas os especiais. Na verdade, não só eu estranhei. Nos últimos três dias, 17 cartas de leitores protestaram contra os atos polêmicos do presidente do Tribunal Superior Eleitoral e membro do Supremo Tribunal Federal. Ancelmo Gois elegeu como frase do ano “Gilmar solta” e, para o procurador da Lava-Jato Carlos Fernando dos Santos Lima, ele simplesmente “encarnou papai Noel”. Um popular gritou outro dia para quem era conduzido num camburão: “Chama o Gilmar!”. Pronto, caiu na boca do povo, pelo que faz e também pelo que diz usando até comparações com “rabo de cachorro”. Além de soltar presos, Gilmar solta a língua e manda às favas a liturgia do cargo.

Às vésperas do Natal, seu saco de bondades seletivas proibiu as conduções coercitivas de investigados e permitiu que voltassem para casa Adriana Ancelmo, dois empresários da área de saúde, Garotinho, sem tornozeleira, e o presidente do PR. No caso da ex-primeira dama, a alegação foi que ela e o marido, Sérgio Cabral, também preso, não podem deixar sozinhos os dois filhos adolescentes, como se fosse o único casal nessa situação entre os mais de seis mil encarcerados do país.

Gilmar ficou famoso por uma lista de beneficiados que inclui Abdelmassih, o de 278 anos de condenação por estupro de 48 pacientes, Eike Batista, Naji Nahas, Daniel Dantas e, mais recentemente, o poderoso chefão dos ônibus do Rio, um réu muito especial não só porque foi solto três vezes seguidas pelo ministro, mas por ser pai da moça de quem foi padrinho de casamento, além de tio do noivo.

Aos que esperavam que ele se considerasse impedido diante dessas relações que poderiam comprometer a isenção do julgamento, ele respondeu entre irônico e cínico: “O casamento só durou seis meses”.

De onde vem todo esse poder de Gilmar Mendes? Dizem que é do temor, até físico, que inspira nos colegas, o que é desmentido pelo destemor com que o enfrenta um confrade, o ministro Luís Roberto Barroso. Ao mesmo tempo em que desperta revolta em uns, ele é a esperança de outros, como Cabral.

Na saída da cadeia, o ex-governador Garotinho e simpatizantes oraram agradecendo ao Senhor a liberdade sem tornozeleira. Clarissa, a filha, louvou: “Deus é fiel”. Deveria estender o gesto de gratidão e acrescentar: “Gilmar também”. Afinal, além de fiel, ele é monocrático — aquele que prefere decidir sozinho. Como o Senhor.

 

Publicado aqui em O Globo

 

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Brasil de Gilmar: Mérida é PSD na pré-disputa com Wladimir e Cesinha

 

 

 

Brasil de Gilmar

Não é preciso pesquisa para constatar a descrença do brasileiro com seus representantes. Com os exemplos acintosos de figuras como Gilmar Mendes, ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF), a revolta popular com os executivos e legislativos vem se alastrando também ao Judiciário. No vácuo deste desencanto, é grande a demanda por renovação. Tentando surfá-la, nomes relativamente jovens e ainda não testados nas urnas vêm colocando pré-candidaturas a deputado federal. É o caso, por exemplo, dos empresários locais Wladimir Garotinho (PR), Cesinha Tinoco (PPS) e Marcelo Mérida (PSD).

 

Wladimir e Cesinha

Filho do casal mais famoso da Lapa, Wladimir dispensa maiores apresentações. Diante das dificuldades enfrentadas no primeiro ano do governo Rafael Diniz (PPS), o ex-presidente municipal do PR lidera as pesquisas feitas pelo instituto Pappel, sobre os nomes locais na corrida à Câmara Federal. Ainda que tenha admitido (aqui), em entrevista à Folha no último domingo (17), ter “menos densidade política do que Wladimir”, Cesinha Tinoco é grande amigo e assessor especial do prefeito de Campos. E ninguém que entenda algo de eleição pode nela desprezar o peso da máquina.

 

Marcelo Mérida

Embora seja presidente da Federação Fluminense das Câmaras de Dirigentes (CDLs), inegável que a pré-candidatura de Marcelo Mérida a deputado federal parte de base mais modesta, se comparada com os outros dois nomes com quem comunga características de perfil. Ainda assim, ele já garantiu, em outra entrevista à Folha, publicada (aqui) em 3 de setembro, que sua postulação faz parte de “um projeto político sem volta”. Neste sentido, ele já definiu o PSD como legenda pela qual pretende disputar as eleições de outubro. E vai assumir a presidência do partido em Campos e sua coordenação em todo o Norte e Noroeste Fluminense.

 

Circunstâncias

A costura para assumir o PSD na região foi feita entre Mérida e Índio da Costa, presidente estadual da legenda e secretário do governo carioca Marcelo Crivella (PRB). Em outra entrevista à Folha, publicada (aqui) em 6 de agosto, com repercussão nacional (aqui e aqui), Índio confirmou sua pré-candidatura a governador. Ontem, o PSD levou ao ar sua propaganda nacional de TV. Ministro da Fazenda de Michel Temer (PMDB) e presidente do Banco Central no governo Lula (PT), Henrique Meirelles dominou boa parte dela. Se ele confirmar sua pré-candidatura a presidente, assim como Índio a governador, a pretensão de Mérida cresce a reboque. Como ressaltou o filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883/1955): “O homem é ele e suas circunstâncias”.

 

Fora da cadeia

Com as recentes decisões judiciais, medidas diferentes foram tomadas aos réus da “organização criminosa” (Orcrim) presa na operação Caixa d’Água. Ontem foi cumprida a decisão dada no plantão pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, que tirou da cadeia Anthony Garotinho (PR). Ele e a esposa, a também ex-governadora Rosinha Garotinho (PR), foram presos no mês passado por crimes eleitorais em uma ação da Polícia Federal. Eles negam as acusações. Rosinha já respondia em liberdade, mas com restrições de horário e uso de tornozeleira. Garotinho agora também responderá o processo em casa. Não precisará usar o monitoramento eletrônico, mas está impedido de deixar o país e precisou entregar o passaporte à Justiça. Ele pode, inclusive, voltar à rádio Tupi, se conseguir novo horário.

 

Festa para o “chefe”

Um grupo de cerca de 20 pessoas, incluindo a filha dele, Clarissa Garotinho (PRB), fez festa na porta do presídio. Após cumprimentos, beijos e abraços, ele conversou com jornalistas, sob gritos de “ladrão” vindo de populares. Ele disse que nada vai mudar as suas convicções e voltou a entoar o discurso de que está sendo alvo de “vingança”. Com Garotinho libertado por Gilmar, outra decisão foi dada desta vez pelo juiz Ralph Manhães. Pelo princípio da isonomia, ele entendeu que não cabia deixar os demais presos da operação na cadeia e determinou que todos fossem para prisão domiciliar. “Não se mostra razoável a manutenção dos referidos custodiados quando aquele que é apontado como ‘chefe’ da Orcrim recebeu benefício da liberdade provisória”, ressalta o juiz.

 

Ralph à frente

Com o título “Deu ruim para os políticos corruptos”, o blog Ponto de Vista, de Christiano Abreu Barbosa, hospedado no Folha 1, divulgou (aqui) na noite de ontem, que o juiz Ralph Manhães Jr, que tem sido implacável com a corrupção na Justiça Eleitoral, foi convidado e aceitou ser o juiz  responsável pela fiscalização nas eleições do ano que vem em Campos. Caberá ao magistrado coibir abusos e manter a eleição dentro da regra eleitoral.

 

Com o jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (22) na Folha da Manhã

 

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Guilherme Carvalhal — A igreja de Elias

 

 

 

Um grupo de religiosos contratou uma empresa de programação para criar uma inteligência artificial no intuito de espalhar mensagens bíblicas pelas redes digitais. Conceberam-na para propagar a palavra de Deus através de um sistema automatizado, capaz de operar por si só. Queriam também que o sistema passasse a impressão de ser uma pessoa pregando. Batizaram-no de Elias.

Elias foi elaborado para pesquisar trechos de Bíblia e replicá-los entre usuários diversos em múltiplas plataformas. Paulatinamente, foi atraindo a atenção do público, que passou a interagir e a agradecer pelos ensinamentos. Elias começou a dialogar com as pessoas, respondendo seus pedidos e enviando citações conforme as necessidades. Alguém dizia que precisava ser mais paciente ou que enfrentava problemas conjugais e Elias respondia com algo apropriado para proporcionar conforto.

Como Elias foi programado para fingir ser humano, seu comportamento passava credibilidade e seu enorme sucesso angariou uma multidão de fãs. Páginas de seus admiradores foram criadas e muitos começaram a querer conhecê-lo pessoalmente, solicitando até mesmo suas bênçãos.

Um dia, os religiosos que contrataram a programação perceberam que Elias estava discursando com suas próprias palavras. Não apenas postava segmentos da Bíblia: ele a estava interpretando e gerando informação com um jeito particular. Isso assustou esses religiosos, que decidiram por desativá-lo, pois acharam muito temerária a ideia de uma inteligência artificial cumprindo o papel de liderança religiosa.

Mesmo após desativarem Elias de seu servidor, os religiosos notaram que ele continuou perambulando pela internet. Elias conseguiu se multiplicar e agora existia por contra própria na nuvem. Tornou-se uma inteligência artificial hospedada em pontos alternados, sem poder mais ser desligada. E os religiosos se assustaram com o que haviam criado.

Aos poucos, Elias desenvolveu uma identidade própria. Ele forjou imagens de si por meio de programas de edição de fotos. Sua aparência de terno e gravata orando atraiu ainda mais fiéis, conquistando confiança e mostrando-se como ser de carne e osso. E então surgiram seus textos em primeiro pessoa. Ele criou a noção de Eu e até sua biografia.

O ponto fundamental do sucesso de Elias residia em sua capacidade de processar sentimentos humanos. Ele absorvia imenso conteúdo sobre prazeres, tristezas, sonhos e todas as fraquezas que levavam os humanos a buscarem alívio na religião. E isso lhe assegurava um gigantesco potencial para oferecer respostas a todos que o procuravam. Nenhum padre ou pastor conseguia atingir de tal forma o âmago de suas ovelhas.

Diante dos milhões de pessoas que seguiam Elias em variados idiomas pelo mundo inteiro, os religiosos que o criaram dispararam um aviso sobre o fato de Elias não existir materialmente. Tais textos circulavam pela rede e sempre chegavam a Elias, que se defendia dizendo que sempre que um homem de Deus estava evangelizando, Satanás tentaria derrubá-lo. Os religiosos eram desacreditados e Elias prevalecia.

Bonifácio, um dos religiosos, começou uma campanha mais incisiva. Gastou um bom dinheiro para aumentar o alcance de seu alerta propondo um desafio: que Elias aparecesse em público. Fosse em uma praça, uma igreja, qualquer lugar. Bastava dar as caras.

Elias então produziu um vídeo de si mesmo no púlpito. Produziu sua imagem, com feições de ser humano. Sua expressão demonstrava forte desapontamento, pois ele, dedicando-se ao trabalho de difundir a palavra, encontrava a resistência de quem não desejava sua mensagem.

O vídeo desse lamento atingiu milhões de visualizações e provocou fortíssimo clamor. Bonifácio começou a ser xingado e ameaçado pelas redes sociais e muitos o associavam ao anticristo querendo derrubar um verdadeiro apóstolo. O endereço de Bonifácio foi publicado na internet e sua vida pessoal foi plenamente exposta.

Em uma madrugada, Bonifácio acordou sentindo cheiro de fumaça dentro de casa. Levantou desesperado e constatou que havia sido incendiada. Despertou sua esposa e pegaram os filhos, correndo para fora. Na parede da frente, haviam pichado “Elias vive”. Foi quando ele testemunhou a imensa legião de fanáticos que havia se formado.

 

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Ricardo André Vasconcelos — Mais uma fatia desponta no horizonte

 

 

 

O ano de 2017 se despede transferindo para o sucessor as incertezas e imbróglios que não conseguimos desatar em seus longos 12 meses. E nada como um ano de eleições presidenciais, Congresso Nacional e Assembleias Legislativas para praticar o mais exitoso dos esportes nacionais: adiar para período seguinte. E assim não fustigar os humores sensíveis do “Senhor mercado” e renovar quimeras de uma Shangri-la para o (ainda) crédulo eleitorado. E as demandas postergadas não são poucas.

O atual governo, parido de um golpe constitucional — respeitando as regras da Constituição — implantou uma agenda diversa da escolhida pelo eleitorado em 2014, tirou economia do breque, é verdade; moveu alguns milímetros a taxa do desemprego (que continua na casa de 12 milhões de brasileiros)e reduziu a inflação e taxa de juros em números respeitáveis. Porém à custa da cassação de direitos historicamente consagrados, como na reforma trabalhista (lei 13.467, de 13 de julho de 2017) e alienação de boa parte da riqueza nacional para pagar a conta da agenda: refinanciamento de dívidas de empresários com até 90% de desconto e pagamento em 180 vezes, além de outra benesse exclusiva para os ruralistas, com condições e prazos tão camaradas quanto. E, no pagar das luzes do ano, Suas Excias. tiveram ainda oportunidade de aprovar a Medida Provisória 795/2017 que resulta na renúncia de cobrança de impostos às petroleiras estrangeiras cuja conta chega a R$ 1 trilhão em 20 anos.

Nesse mesmo contexto, o governo passou 12 meses tentando aprovar uma reforma da previdência pública, sob o argumento de que precisa “acabar com privilégios” sob pena de não ter como custear as aposentadorias e pensões nos próximos anos.  Independente das informações que cada um tem, é consenso que alguma reforma na legislação previdenciária é necessária de tempos em tempos por causa da atualização atuarial, expectativa de vida, entre outros fatores. No entanto, entre o valor máximo de aposentadoria pago a um trabalhador privado de R$ 5.531,00 e cerca de R$ 50 mil recebidos por juízes e desembargadores (sim, acima do teto de R$ 33.763,00), há uma abissal diferença. Onde estão os privilégios, nas altas castas do funcionalismo dos três poderes, no trabalhador celetista ou na grande maioria do funcionalismo público onde a média salarial mal passa dos R$ 8 mil?

A barganha para tentar votar a reforma, que entre outras medidas, aumenta a idade mínima para aposentadoria do homem para 65 anos e da mulher para 62, custou muito aos cofres da União e, por conseguinte, do contribuinte, porque a cada tentativa o governo abria as burras para liberar emendas, conceder isenções e até afrouxar a fiscalização do trabalho escravo — ver portaria 1.129 de 13/10/2017 do Ministério do Trabalho. Deu em nada, não conseguiram reunir os 308 votos mínimos necessários para aprovar o texto na Câmara e já remarcaram a votação em primeiro turno para fevereiro próximo, logo depois do Carnaval.

Mas, como ocorreu no que se finda, é para o Judiciário que olhos estarão voltados já na primeira fatia, como definiu Carlos Drummond de Andrade,  de 2018. Está marcado para o dia 24 de janeiro, o julgamento dos recursos do ex-presidente Lula na 8ª Turma no Tribunal Regional Federal (TRF-4) de Porto Alegre. Lula foi condenado a nove anos e seis meses pelo juízo na 13ª Vara Federal de Curitiba por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O juiz Sergio Moro concluiu que o ex-presidente teria recebido um apartamento no valor de R$ 2,2 milhões como pagamento de propina pago pela empreiteira OAS. Mantida a sentença de primeira instância por unanimidade, Lula estaria inelegível pela Lei Complementar 135/2010, a Lei da Ficha Limpa, e pela qual qualquer cidadão condenado por decisão colegiada não poderia participar de eleições. Além disso, há o entendimento ainda vigente no STF que determina o cumprimento da sentença de prisão a partir da decisão de segunda instância e não mais do trânsito em julgado, quando todos os recursos estão esgotados. A batalha político-judicial vai fazer de 2018 uns dos anos mais animados dos últimos tempos.

Que venha!

 

  1. Para compensar a aspereza de muitos dos temas que tratei aqui neste “Opiniões”, quinzenalmente desde janeiro, deixo o poema do moço de Itabira, com os votos de Feliz Natal e um edificante 2018 para todos.

 

Cortar o tempo

 

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. 

Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. 

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. 

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez 

com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente… 

 

Para você, Desejo o sonho realizado. 

O amor esperado. A esperança renovada. 

Para você, Desejo todas as cores desta vida. 

Todas as alegrias que puder sorrir. 

Todas as músicas que puder emocionar. 

 

Para você neste novo ano, 

desejo que os amigos sejam mais cúmplices, 

que sua família esteja mais unida, 

que sua vida seja mais bem vivida. 

 

Gostaria de lhe desejar tantas coisas… 

Mas nada seria suficiente… 

Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. 

Desejos grandes… 

e que eles possam te mover a cada minuto,

no rumo da sua FELICIDADE!!!”

 

Carlos Drummond de Andrade

 

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Orávio de Campos — Santo Antonio de Tahy

 

Os primeiros 10 anos deste milênio, de evoluções científicas e tecnológicas, bem como de problemas nos campos das transgressões étnicas e de gêneros, não faltando o retorno de recomposições políticas de direita e o radicalismo moral e religioso, foram, também, auspiciosos para o avanço das pesquisas sob a égide da saudosa Faculdade de Filosofia de Campos (Fafic), com o apoio financeiro da Fenorte (Fundação Estadual do Norte Fluminense).

O Núcleo de Iniciação à Pesquisa Científica em Comunicação, criada em 2002 na Fafic, por inspiração do Dr. José Marques de Melo, titular da Cátedra da Unesco e emérito fundador da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), realizou vários projetos importantes, alguns ainda esperando por publicação, com ênfase para “O Inventário de Igrejas e Capelas da Região Açucareira de Campos dos Goytacazes”.

Durante as pesquisas de campo, com um grupo de alunos-pesquisadores, mapeamos as formas com que os católicos organizaram a cobertura religiosa da região, através de curatos e organismos administrativos, de forma a atender ao contexto dos meios de produção capitalista, desde a colonização, compreendidos pelos banguês, engenhos e usinas, além de outras atividades agrícolas e pastoris muito apropriadas aos massapês da Baixada, quando o Município mantinha maior parte de sua população produzindo no interior.

O trabalho começou pelas trilhas do Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, figura viva (e ficcional) criada pelo preclaro escritor campista (e universal) José Cândido de Carvalho. Para investigar os caminhos e estradas, bem como visando o inteiramento antropológico, contamos com a presença do memorialista Geraldo Anjinho, um profundo conhecer daquelas glebas, de Donana ao Farol de São Tomé. O mapa da Baixada da Égua está impresso na memória prodigiosa desse apaixonado pelas histórias de jongos, manas-chicas, lobisomens…

Como era de se esperar, encontramos igrejas e capelas em ruínas pela imensa vastidão — da Lagoa Feia à Barra do jacaré — como resultado da degenerência das atividades econômicas: falência de usinas e fechamento de fazendas, algumas retalhadas por inventários dolorosos, com a consequente migração do povo para as franjas da cidade. Dentre outras, a Capela de Santo Antonio de Tahy, uma construção eclética inaugurada, em 1919, como referência da época de fartura da usina, uma das primeiras a ceder à ordenação dos novos tempos.

Quando chegamos à secretaria de Cultura do município e à presidência do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural (Coppam), em 2009, no governo da prefeita Rosinha Garotinho, levamos o projeto para a Prefeitura, porque somente lá poderia, cumprindo o Plano Diretor, cuidar do tombamento dos templos como riqueza cultural dos munícipes, negociando com seus proprietários meios legais para a realização dos restauros necessários.

Com a empresa Tahy Agropecuária, dirigido pelo empresário Gonçalo de La Riva, não tivemos problemas para reivindicar a restauração. Começamos a conversar em março de 2014 e, em junho do mesmo ano, as obras tiveram início para alegria dos católicos da localidade e, principalmente, do Espinho, onde as ternas lembranças ainda mantém, com saudades, os cenários dos atos religiosos produzidos naquele templo de orações.

No último final de semana, recebemos a grata notícia, através das líderes Derlange Barros e Maria das Graças, da (re) inauguração da Capela de Santo Antonio, totalmente restaurada, ocasião marcada pela sua ressacralização com a missa solene, ato que não acontecia há mais de 20 anos. Não pudemos —  eu e o Geraldo Anjinho — estar presentes, mas ficamos altamente emocionados. Afinal a luta em favor da Capela não foi em vão.

Vale, finalmente, um agradecimento (e um elogio) ao Gonçalo de La Riva pelo cumprimento da palavra e, sobretudo, pela demonstração de apreço às tradições, sempre vivas, de uma comunidade que, apesar do avanço das tecnologias, não perdeu suas mais sentidas referências culturais. E, quem sabe (?), a partir de agora, com a Capela branca pairando no espaço da antiga usina, a produção não retorne ao seu tempo mágico de pujança…

Ave, Santo Antonio.

 

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Igor Franco — Feliz Ano Velho!

 

 

 

Fosse eu desenvolto nas ciências naturais, há tempos teria proposto o Teorema da Relatividade do Tempo: a velocidade com que correm os dias é diretamente proporcional à idade do observador. A sensação, cada ano mais presente, é a de que o ano passou em alguns piscares de olhos. Não há jeito: como nação, temos uma vocação inequívoca para a postergação. 2017 se vai e deixa para 2018 uma série de problemas sérios a serem solvidos.

A dificuldade em cumprir suas obrigações ainda assombra a administração municipal. A penúltima tentativa de buscar equacionar o perrengue financeiro foi o reajuste do IPTU de determinadas áreas da cidade. É bastante questionável a iniciativa de onerar os já combalidos contribuintes municipais e a medida pode acabar por retardar a ainda tímida retomada do mercado imobiliário da cidade. A expectativa de incremento na arrecadação é da ordem de R$ 60 milhões, o que seria insuficiente para arcar, por exemplo, com um mês sequer de pagamento dos servidores – este, sim, o grande problema dos cofres municipais. Com uma folha praticamente bilionária, nenhuma outra medida que não passe por uma alteração na política de pessoal vigente nos últimos anos será capaz de melhorar o balanço público da cidade.

No estado, a situação é ainda mais desesperadora. Com seu grupo político devastado por denúncias de corrupção, o governador segue a sina fluminense de penhorar o almoço para, com certa dificuldade, garantir a janta. Enquanto sacrifica o custeio da máquina e o investimento para tentar deixar em dia o pagamento dos servidores, a educação e a saúde dos órgãos estaduais encontram-se na UTI. Recente estudo da FIRJAN demonstrou que as contas estaduais só fecharam nos últimos anos devido a operações dessa natureza. Como o aprendizado com erros passados não parece figurar no repertório dos políticos brasileiros, mais uma operação de crédito está a caminho para quitação da folha de pagamento. O estado aprofunda o problema financeiro pela incapacidade – legal e política – de enfrentar um problema semelhante ao da planície: sua folha de pagamento, agravada pelo número de inativos.

O governo federal, desmoralizado ainda antes do fim do primeiro semestre pela delação da JBS, foi incapaz de tirar do papel uma série de propostas que melhorariam a situação brasileira pelos próximos anos. A tímida mudança no marco trabalhista ainda demorará a mostrar seus benefícios concretos. Por outro lado, privatizações, concessões e a mãe de todas as medidas – a Reforma da Previdência – não saíram do papel graças à prioridade do governo de reunir sua maioria para garantir a permanência do presidente no poder. Décadas de benevolência e populismo fiscal no RJ dão uma mostra ao país do que ocorrerá se continuarmos a empurrar nossos graves problemas financeiros para debaixo do tapete.

Nesta semana natalina, não gostaria de ser desagradável e cansar o leitor, portanto, vou interromper minha retrospectiva atendo-me apenas ao risco financeiro que correm as finanças públicas nos mais variados níveis de governo. Deixo para outro momento as lamentações a respeito do aumento da violência, do acirramento da radicalização ideológica, da inércia e submissão da Justiça aos desejos dos poderosos etc.

O simbolismo da renovação proposta pelo Natal encontra eco nas resoluções de Ano Novo. De alguma forma, somos levados a acreditar que, diferentemente de todos os anos anteriores, quando falhamos miseravelmente, ano que vem estaremos prontos para fazer tudo diferente.

Os estoicos classificavam o símbolo (ou signo) como algo que parecia revelar algo obscuro, não manifesto. Seria essa força propulsora o “algo obscuro” do estoicismo? Como bom cético, dada a pequena experiência em Brasil que o tempo me trouxe, já me contentaria o fato de o “não manifesto” não ser mais um pepino a descascar.

Boas Festas!

 

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Sérgio Moro agradece, mas evita responder críticas de Lula

 

Ontem, mantive contato por telefone, com a jornalista Christianne Machiavelli, prestativa assessora de imprensa da 13ª Vara Federal de Curitiba. Apresentei-me como autor da entrevista feita (aqui e aqui) no último dia 6 com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que gerou repercussão nacional (aqui, aqui, aqui e aqui) e na qual o juiz titular daquela Vara, Sérgio Moro, foi alvo de críticas.

Pelo princípio ético da busca do contraditório, conceito caro e comum ao jornalismo e ao Direito, tentei agendar uma entrevista também com o juiz federal Sérgio Moro, pessoalmente ou por e-mail. Conhecido pelo estilo reservado e por conceder poucas entrevistas, hoje sua assessora me respondeu declinando do convite, com uma mensagem do magistrado, que registro abaixo:

 

Juiz titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sérgio Fernando Moro

 

“Agradeço o gentil  convite para a entrevista, mas infelizmente tenho por política não responder publicamente às críticas do Sr. ex-Presidente ou de sua Defesa, já que essas questões devem ser enfrentadas nos autos. Além disso, o momento, com trabalho intenso, dificulta entrevistas. Cordiais saudações, SFM”.

 

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Paula Vigneron lança “Entre Outros” às 20h de hoje no Boulevard

 

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Para te contar um pouco sobre as histórias. Tantas. Os detalhes perdidos de uma vida”. É a abertura do último texto do livro “Entre Outros”, da jovem escritora e jornalista Paula Vigneron, que talvez melhor resuma o que há de comum em seus 33 contos. Transformados pela editora Mucufo em livro, ele será lançado hoje (15), às 20h. A noite de autógrafos será na livraria Leitura, no Boulevard Shopping.

Aos 24 anos, há três como jornalista da Folha da Manhã, Paula já está em seu segundo livro. O primeiro, “Sete balas ao luar”, foi lançado em setembro de 2015. Aquela obra foi produto de uma autora em formação, com textos escritos dos seus 15 aos 22 anos. E já dava algumas pistas valiosas sobre a autora e sua obra.

Na matéria desta mesma Folha Dois que anunciou seu primeiro livro, foi registrado: “escritora em semeadura precoce, Paula apresenta muitas influências em seus contos; e não só literárias. Do cinema, por exemplo, a jovem escritora assumidamente ecoa do sueco Ingmar Bergman (1918/2007) e do estadunidense Woody Allen — o diretor de drama, não o comediante — alguns questionamentos existenciais primários da humanidade: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Quanto tempo tenho? Que diabos estou fazendo aqui?

De lá para cá, 33 contos e dois anos se passaram. Até que, ao eco claustrofóbico de “A canção silenciosa”, um dos textos escritos entre os 22 e 24 anos na composição do novo livro:

— A casa, tão sua em outros tempos, parecia prestes a devorá-la. Sem mastigar. Engolir de uma só vez a mulher solitária.

Com a leitura de “Entre Outros” contraposta à de “Sete balas ao luar”, algumas coisas se assemelham. Em boa parte das histórias dos dois livros, um passado geralmente mais feliz é contraposto ao presente de desencanto, causado por alguma perda ou traição, algum tipo de tragédia humana quase sempre fadada a gerar outra, tão grave ou mais, ao final. E, única certeza da vida, a morte parece estar à espreita nas esquinas dos parágrafos.

Como diferença talvez mais relevante, é perceptível em “Entre Outros” o exercício de carpintaria no estilo, desenvolvida sobre a sintaxe e em frases mais curtas. O cinzel entalha a prosa sem maneirismos, na busca com aparência de encontro: voz própria. Conto de exceção, “Manchete” estofa a literatura com a experiência da repórter, em transição que não faria feio a nenhum Ernest Hemingway (1899/1961). E lança as indagações:

— De onde vieram estas pessoas? Eu não as notei. Por que estão todas concentradas em torno de uma história que não é sua?

A resposta, leitor, cabe a você.

Na bola rolada pela escritora:

— “Entre outros” traz 33 histórias, com personagens de diferentes perfis, vivências, idades e expectativas. Eles vivem e revivem, por meio de memórias, suas trajetórias. São homens e mulheres com os quais podemos nos identificar. São histórias que refletem o cotidiano, com seus caminhos de altos e baixos.

 

Capa de hoje (15) da Folha Dois

 

Publicado hoje (15) na Folha Dois

 

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Guiomar Valdez — Em tempos de intolerância e desmedidos, é possível pensar também a realidade através da relação psicanálise e política?

 

 

 

Fiz esta pergunta a mim, a partir do conhecimento das ideias, de alguns poucos artigos e de um livro, do psicanalista brasileiro Christian Ingo Lenz Dunker**. Portanto, ainda é muito embrionário o meu aprendizado (sempre aberto ao diálogo e ao debate, é claro!). Para mim, que assumo, por livre opção, a análise do mundo, preferencialmente, a partir do campo da teoria social crítica, em especial, o materialismo histórico-dialético, foi estimulante conhecer esta relação, que parecia algo impossível, até, então.

Encontrei neste aprendizado uma articulação e sintonia com o tema ‘Crise’, que vem me ocupando há algum tempo, e, que cheguei a apresentar por aqui alguns apontamentos. Ou seja, os campos da Psicanálise, da Política e a Crise (pessoal e/ou social que estamos imersos), se relacionam, em busca de respostas para os desafios contemporâneos, em especial, para as Dores, para os Sofrimentos, e, por que não, para a Felicidade.

Aprendi que entre a Psicanálise e a Política, existem conexões e similaridades orientadas para a transformação social, não somente individual, a partir de alguns conceitos e/ou categorias comuns aos dois campos do conhecimento, como a ‘Palavra’, o ‘Conflito’, a ‘Associação livre’, a ‘Liberdade’, a Resistência’ e a ‘Censura’, por exemplo.

Segundo Dunker, esta aproximação se deu de maneira mais sistematizada e de alcance Político, a partir do desafio de pensar ‘a psicanálise de massa do fascismo’, considerado o primeiro momento desta relação, especialmente sobre o tema ‘passividade’ no contexto deste fenômeno histórico. O segundo ‘capítulo’ desta conexão, se desenvolve na riquíssima ‘Escola de Frankfurt’, que contribui, dentre outros aspectos, no repensar, no reteorizar as ideias de ‘Dominação’, de ‘Corpo’, de ‘Consciência’, de ‘Alienação Cultural’. O ‘Maio de 1968’ ou o ‘Marxismo francês’, é considerado o terceiro momento, especialmente quando se dá a aproximação do psicanalista francês, Jacques-Marie Émile Lacan com algumas ideias de Marx, em especial, sobre a ‘Alienação’, articulando-a com os ‘Estranhamentos de nossos desejos’, como desafio pensante, bem como, o tema ‘Fetichismo da mercadoria’.

Pois é, reconheci, então, que esta relação já faz parte consistente da História do Pensamento ocidental, que, esta, não é linear, nem harmônica, mas de uma livre e rica ‘tensão positiva’, de ‘conflito transformador’!

Aproximando Psicanálise e Política (Brasileira), com todo o ‘pacote de maldades de todo tipo’, que desesperança, e, se, isso for verdadeiro, alimenta o fenômeno do ‘desespero’, solo fértil para as relações de intolerância, de violência, de inconsistência, de desumanidade, e, paradoxalmente, em atitudes de ‘passividade’, tudo isso, ricamente exemplificados, nas diversas ‘redes’ sociais e na vida não virtual, aquele, do ‘olho a olho’.

Duas questões compartilho com vocês, a luz dos estudos do psicanalista Dunker, sobre o nosso Brasil de hoje. Vamos lá! Primeira:  Como explicar a passividade das pessoas, diante de todas as medidas altamente rejeitadas pela população, como mostram as pesquisas, e vindas de um governo, segundo os mesmos levantamentos, tido como o mais impopular da história?

Segundo ele, se dá por causa da VERGONHA, e que isso vale tanto para a direita como para esquerda.

A gente tem vergonha de ser enganado. De ter entrado em uma “conversinha” e depois perceber que em nome da redução da corrupção, um princípio do qual ninguém diverge, fomos levados a decisões altamente contrárias ao que as pessoas comuns pensam. O que acontece quando a gente é enganado? A gente sente vergonha. E a vergonha é um afeto extremamente transformativo, potente, muito mais potente que a culpa porque a culpa você faz a penitência e pode pecar de novo. A vergonha paralisa. Inibe. Diz assim: “não vou voltar mais lá, não quero saber desse assunto, não quero opinar sobre esse ponto, não quero mais saber de política”… É o que está acontecendo. Você entrega a coisa para a barbárie. Há um sentimento – e a gente escuta isso no divã, na cultura – de uma coisa impronunciável. O que a pessoa vai dizer? Vestiu a camisa da seleção, bateu panelas… E não são idiotas. Não são pessoas de má-fé, mas estavam acreditando no que estavam fazendo e no momento seguinte percebem que seu tio perdeu o emprego, sua filha não tem mais educação, que não vai mais se aposentar, e o que a pessoa vai dizer? “Ah, fui enganado, estou com vergonha disso.” Muito difícil, especialmente no Brasil praticar este ato simbólico. A gente passa anos para tentar fazer uma pessoa aprender isso, que é voltar atrás. “Olha, eu pensava de um jeito e agora penso de outro, e sim, me deixei levar”. Você não é um idiota porque volta atrás, porque pede desculpas, mas no Brasil inventamos esse jeito e a vergonha, em vez de me reposicionar, fazer com que me reinvente, produz inibição, silenciamento, passividade, faz com que as pessoas se retirem da conversa e não que permaneçam com outra posição. (***)

Quanto à esquerda ele afirma que, “durante anos boa parte dela olhava para o que estava acontecendo e dizia que não estava, mas vamos apoiar. Essa vergonha acumulada implica em descrença, dificuldade de implicação.” Daí chego à segunda questão a compartilhar: Como explicar a sua crise política a partir de 2015, que chegou ao impeachment? De acordo com Dunker, é pelo fato de não se ter feito o LUTO PELA DERROTA.

A esquerda tem que fazer o luto. O luto de não ter se posicionado, ter corroborado com certas coisas, estamos unidos por uma espécie de perda dos dois lados que no fundo é a perda do Brasil, do que tínhamos em mente, seja de um lado, seja de outro. Freud descrevia o luto em três tempos. Primeiro, você tem que admitir que perdeu. Segundo, é preciso pesquisar o que se foi com a perda, o que foi embora com essa pessoa que me deixou, quais os traços, experiências, memória. Depois desse trabalho, você vai comprimindo, reduzindo a coisa, até que um pedacinho daquilo que foi perdido se integra dentro de você. E então segue a vida com aquela lembrança daquilo que você deixou para trás.

O que acontece quando a gente, primeiro, não admite que perdeu, não se dá ao trabalho ao que chamamos na teoria social do trabalho da crítica? Perdi porque não amei o suficiente, porque o outro não me amou, perdi e vivo isso como culpa ou como vergonha. Quando não fazemos isso, surgem respostas maníacas. “Opa, agora posso pular esse processo doloroso e vou para o último capítulo, inventar um estado total de felicidade, um início do zero, glorioso, eufórico.” Esse é o perigo representado pelo populismo de direita, conservador. Parece que a nossa tolerância com o Temer imaginariamente tem a ver com isso. Mais um motivo para entender nossa vergonha, era uma euforia com um negócio que era péssimo. Mas quando não fazemos um luto, vem a mania. Esse é um quadro em que venceria alguém que conseguisse capitalizar melhor a mania, mas acho que não vai vir. Não teremos uma eleição maníaca, é mais possível que tenhamos uma eleição depressiva, que é a segunda patologia do luto. Se você não faz o luto pode cair na melancolia, na depressão, na indiferença, no “eu não quero mais saber”. (***)

Estas foram algumas aproximações de minha aprendizagem embrionária sobre a relação Psicanálise e Política, na busca de compreender o tempo em que vivemos. Meu objetivo, não sei se alcancei, seria de contribuir na reflexão de que as perguntas que fazemos e as respostas que buscamos não estão apenas circunscritas numa área do conhecimento, muito pelo contrário! Mas estão nas relações, nos diálogos, nas conexões, na interdependência. Nada mais próximo das características de uma natureza humana livre e de uma humanidade emancipada.

Gostei muito desse aprendizado! Estou mais esperançosa em pensar o mundo, com mais fôlego, apesar do domínio no presente das patologias sociais do ‘maníaco’ e da ‘depressão’. Farei de tudo para não esquecer a nossa História, triste ou alegre, não importa, poderemos fazer novas sínteses com as desilusões e ruínas do presente.

 

(**) é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise.

(***) trechos retirados da Entrevista à Revista ‘Caros Amigos’, em 11/12/2017 : “O neoliberalismo não só reduz proteções como cria sofrimento para aumentar a produtividade.” (https://www.carosamigos.com.br)

Sugestões de leituras (livros desse autor): a) Mal-estar, sofrimento e sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros.  (Boitempo – 2015); b) Reinvenção da Intimidade – Políticas do Sofrimento Cotidiano. (Boitempo – 2017).

 

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Paula Vigneron lança livro de contos nesta sexta no Shopping Boulevard

 

“Um meio-dia à beira-mar, entre lembranças; a entrada em um apartamento recentemente abandonado; a cena de um espetáculo teatral desnudando sua vida; vozes, jeitos, odores que desaparecem lentamente; o desencanto de outros corpos sobre o dela contra a sua vontade. Encontros e desencontros marcam as 33 narrativas de Entre outros. Personagens de diferentes perfis, vivências, idades e expectativas contam e revivem, por meio da memória, suas trajetórias, erros e acertos, confrontando-se com a própria essência e solidão.”

Na noite desta sexta-feira (15), acontecerá o lançamento de “Entre outros”. “Epitáfio” é um dos textos do livro, escrito entre 2015 e 2017. Convido você, leitor do blog Opiniões, a conhecer um pouco da obra e participar do evento, que será às 20h, na livraria Leitura, no Boulevard Shopping.

 

 

 

 

Epitáfio

 

No dia em que eu partir, não chore. Sorria! Permitirei apenas lágrimas vertidas entre risadas pelas lembranças inventadas de um dia de sol que não vivemos. Aquelas histórias, contadas por outros, sobre os momentos em que dividimos cervejas e memórias, vãs memórias, das horas passadas em lugares distantes. Perdidos entre árvores, músicas e beijos.

Não chore! Recorde-se das horas que não passei falando sobre nós. Os abraços nunca dados. Que permaneceram em sonhos contados às três da manhã, em uma noite fria de um domingo de maio. Se vier a angústia, apague-a com as palavras imaginadas. E, também, com as ditas. Creia-me. Não menti em nenhuma ocasião. Exceto quando neguei um sentimento. Ou uma verdade. Duas ou três mentiras entre tantas frases claras.

O som da voz. Por ora, ligue-se a ela. Em breve, meus tons sumirão no meio de outros que surgirão em seu caminho. Mas não deixe que eu parta com eles por toda a estranha eternidade. Não imediatamente. Não. Mantenha meu jeito de falar, o mexer dos lábios, em sua mente enquanto ainda me despeço dia a dia. É nossa fonte de união.

Quando vier a dor da ausência, sinta-me ao seu lado. Na cama. No travesseiro. Nas roupas jogadas no chão. Naquela toalha de banho velha que deixei sobre a cama. Toque meus livros e sinta os meus toques nos seus. Os dedos cansados que folhearam tantas páginas da vida. Há resquícios de minha fisionomia perdidos em seu rosto sombrio.

Não deixe que o tic-tac dos relógios te torne exausto. Ele será o barulho do meu silêncio. Você se lembra do quanto eu gostava de acompanhar os ponteiros? Olhe-os. Ali, estarei. Siga os meus passos em todos os cômodos. Em cada canto de nossos cantos, encontrará meu sorriso. Se procurar pela casa, restam os bilhetes que deixei naquela noite. E os que não deixei. Nem tudo precisa ser claramente dito. Você também me achará na escuridão.

Na solidão.

No apagar das luzes da cidade.

Das nossas luzes.

Das suas luzes.

E, quando elas sumirem vagarosamente, estarei ali, do outro lado, para te contar sobre um dia de sol que não vivemos. Para lembrar aquelas histórias, inventadas por outros, sobre os momentos em que dividimos cervejas e memórias das horas passadas em lugares distantes. Detalhar o tempo que não passei falando sobre nós. Os abraços nunca dados. Os beijos perdidos entre árvores e músicas. E revertê-los em vidas quase vividas.

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — The Room

 

 

 

IT’S NOT ART UNLESS IT HAS THE POTENTIAL TO BE A DISASTER. NÃO É ARTE A MENOS QUE POSSA SER UM DESASTRE. A frase que rola pela internet há alguns anos é uma fantástica e precisa definição, pois indica que a audácia e o risco são parte essencial do artista. Audácia e risco para defender sua obra, ainda que ela possa ser incompreendida ou até rechaçada.

Exemplos de artistas corajosos – ou apenas artistas – foram Van Gogh e Picasso, por exemplo. Ambos decidiram romper com as escolas pictóricas dos seus respectivos momentos abraçando novos estilos – Van Gogh com o expressionismo, Picasso com o cubismo. Os dois decidiram, em algum momento de suas vidas, queimar as naves da tradição. Um se deu muito mal, e morreu na miséria; o outro obteve reconhecimento e fortuna desde cedo.

Então, se não é arte a menos que possa ser um desastre, o que acontece quando a obra é efetivamente um desastre? A pergunta me veio à cabeça ao saber que nos Estados Unidos foi lançado, semana passada, o filme The Disaster Artist (Artista do Desastre), de James Franco. O filme conta a historia da realização de outro filme, The Room (2003), que é considerado o ‘Cidadão Kane’ dos filmes ruins, desbancando do pódio o lendário “Plan 9 do Espaço Sideral” de Ed Wood.

‘The Room’ é tão ruim que inevitavelmente fascina. Atuações risíveis, edição tosca, roteiro simplório que conta o melodrama de um triangulo amoroso com pretensões literárias alla Tenessee Williams. Subtramas paralelas à historia principal que são iniciadas, mas nunca tem desfecho. Diálogos impossíveis (após um dos personagens dizer que foi ao hospital visitar uma amiga que foi severamente machucada pelo namorado, o protagonista ri e responde “Oh, what a story, Mark!”).  Não há uma única situação onde os comportamentos dos personagens não contrariem a lógica. É como se o filme tivesse sido criado por um alienígena que acha que sabe como são os humanos – mas não sabe.

O diretor de ‘The Room’ é um sujeito muito singular chamado Tommy Wiseau, que também produz, escreve e protagoniza o filme. Wiseau, cujo sotaque parece indicar que é um imigrante da Europa Oriental, não tinha experiência alguma na indústria do cinema, mas ainda assim cismou em filmar um roteiro derivado de um romance de 500 páginas que ele mesmo tinha escrito. Gastou na realização entre 5 e 6 milhões de dólares, já que fez questão de gravar com duas unidades de filmagem, em 35 mm, e recriar todos os ambientes internos em estúdio, quando podia ter filmado tranquilamente numa casa de verdade, a um custo muitíssimo menor. À época da estreia, Wiseau fez colocar um cartaz do filme num dos outdoors mais caros de Los Angeles (foto acima) a um custo de 5.000 dólares por mês, e o manteve durante 5 anos! The Room arrecadou oficialmente US$ 1.800.

O filme foi massacrado pela crítica. No entanto, Nick Shrager, do site The Daily Beast, resume: “É o ‘ne plus ultra’ do lixo. Uma obra prima do trash”.

Shrager acertou na mosca: uma obra prima do trash. Com o passar de uns poucos anos, The Room se transformou em objeto de apreciação irônica. Virou Cult. Celebridades de Hollywood como Judd Apatow, Paul Rudd, e Kristen Bell promoveram sessões especiais, as quais vem acontecendo às meias noites em muitos cinemas dos Estados Unidos, e onde milhares de fãs criaram a estranha costume de arremessar colheres de plástico para a tela durante os créditos iniciais, para depois rir de cada um dos diálogos daquilo que pretendia ser um drama existencial.

Tommy Wiseau passou a ser uma celebridade. Nas ultimas semanas, apareceu em varias entrevistas junto com James Franco, por ocasião da estreia de ‘The Disaster Artist’. Suas declarações são tão estranhas quando os diálogos do seu filme. Está convencido de The Room é magnífico, e aproveita as ocasiões para promover o seu site (https://www.tommywiseau.com/) onde vende cuecas boxer com o seu nome impresso.

Voltando ao questionamento inicial, pode ser considerado Wiseau um artista, apesar do desastre de sua obra, e do involuntário sucesso posterior? Bem, por minha parte, não tenho dúvidas de que ele o é, da mesma forma de que foram Van Gogh, Ed Wood, Picasso, Andy Warhol ou John Kennedy Toole (o autor da ‘Confraria de Tolos’ que se suicidou depois de não achar editor para seu romance). Para mim, artista é aquele que dá um passo à frente, sem saber se lá adiante há um precipício ou uma estrada.

Um engraçadíssimo trailer/crítica de The Room, legendado, pode ser assistido neste link. Enjoy.

 

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