Rafael e Wladimir sob análise no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta (18), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o advogado José Paes Neto, professor do Isecensa e ex-procurador-geral de Campos. Ele analisará as causas dos 151,4 mil votos que elegeram o governo Rafael Diniz (Cidadania) no primeiro turno de 2016 terem diminuído a apenas 13,5 mil votos em 2020. Também falará dos ataques generalizados à administração municipal passada, sob silêncio do ex-prefeito, e analisará os 11 meses da atual, de Wladimir Garotinho (PSD).

Por fim, José Paes tentará projetar as eleições estadual e federal de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Bolsonaro, Lula, Moro e 3ª via enquanto Centrão governa

 

Presidenciáveis Jair Bolsonaro, Sergio Moro e Lula

 

 

 

Brasil de 2022 na Folha FM

“Bolsonaro não é cachorro morto”.  A advertência, relativa à eleição presidencial de 2022, foi feita na manhã de ontem pelo analista político Ricardo Rangel, colunista da revista Veja, na série de entrevistas com personagens nacionais feita no Folha no Ar, da Folha FM 98,3. Ex-diretor da Conspiração Filmes, Ricardo tem também sólida militância na cultura brasileira. E, ainda que não tenha sido eleito, foi bem votado a deputado federal pelo estado do Rio em 2018, pelo Novo. Que deixou pela aproximação de parte do partido com o governo Jair Bolsonaro (sem partido). Do qual é crítico, mas sem perder o pragmatismo na análise.

 

Ricardo Rangel, analista político e colunista da revista Veja, entrevistado do Folha no Ar de terça

 

Terceira via: ainda é cedo?

“A terceira via ainda não decolou. Isso é um fato. Mas ainda falta bastante (mais de 10 meses) para a eleição. O eleitor médio ainda não está tão preocupado com política. O eleitor que já está preocupado com isso é o bolsonarista e o lulista. O eleitor da terceira via não está polarizado. Por todas as pesquisas, o eleitorado está dividido em três terços: um terço ou menos que vota em Bolsonaro, um terço ou mais que vota em Lula, e um terço que não vota em nenhum dos dois. Esse vai votar, lá na frente, na opção mais bem posicionada. É cedo para decretar a morte da terceira via”, também advertiu ao Folha no Ar o colunista da Veja.

 

“Moro é direita que não deu certo”

Ricardo também analisou criticamente a pré-candidatura a presidente do ex-juiz federal e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, Sergio Moro (Podemos): “Ele falou muito bem, obviamente está com profissionais de media training, de fonoaudiologia. Mas não considero o Moro uma terceira via de verdade, porque é muito associado ao Bolsonaro, é um projeto de direita que não deu certo. Ele ficou um ano e meio lá e, inclusive, perseguiu os inimigos do Bolsonaro e dele mesmo. E a gente sabe o que a Vaza-Jato revelou sobre o seu comportamento como juiz. Ele tira votos do centro e da direita. Então acho que o Moro tumultua sem ajudar”.

 

PT e Lula sem resposta

Sobre a liderança do ex-presidente Lula em todas as pesquisas a 2022, o analista político projetou questionamentos inevitáveis. E, até aqui, sem resposta. “Até hoje, o PT nem reconheceu o que fez no poder, nem que houve erro. Mensalão, Petrolão e a nova matriz econômica, que destruiu a economia brasileira com Dilma, o PT faz de conta que não existiu. Mas isso vai ser muito discutido na campanha eleitoral. Por enquanto, o Lula não está sendo muito criticado, mas na campanha vai apanhar muito. A gente viu que o Ciro (Gomes, PDT) fez uma provocação sobre isso e ele (Lula) fingiu indignação. O fato é que ele não tem resposta”.

 

O inaceitável e o indesejável

Ainda assim, para Ricardo Rangel, “Bolsonaro é pior do que Lula”. “O Pedro Passos (empresário, sócio da Natura) é que disse (em entrevista a O Globo, publicada em 3 de outubro) que a gente não pode ficar obrigado a escolher entre o ‘inaceitável’ e o ‘indesejável’. O inaceitável, naturalmente, é o Bolsonaro, e o indesejável é o Lula. A rejeição ao Bolsonaro é maior do que ao Lula. Então é mais fácil tomar votos do Bolsonaro do que do Lula. E a popularidade de Bolsonaro vai cair, mesmo com esse Auxílio Brasil. Porque o cenário econômico do ano que vem é de penúria, a gente já está com 10% de inflação”.

 

Capitão a presidente ou senador?

Apesar do prognóstico ruim ao inquilino do Palácio do Planalto, o colunista da Veja ressaltou à Folha FM: “O presidente da República é sempre um candidato muito forte. No Brasil, é raro perder, quase sempre se reelege. Então, tem que ser levado a sério. Bolsonaro não é um cachorro morto. Quem tem a máquina sempre pode ganhar”. Mas não descartou outro destino eleitoral ao capitão em 2022: “Se, mais perto da eleição, estiver claro que vai perder, ele pode vir a senador, no que ganharia com facilidade, para manter o foro privilegiado. São vários processos contra Bolsonaro e os filhos, que só não andam porque ele é o presidente”.

 

Irracionalidade no governo

Para Ricardo, a falta de lógica de Bolsonaro torna difícil prever seu futuro: “A gente sempre cai numa armadilha de procurar racionalidade nas decisões de Bolsonaro. Isso que acabou de acontecer, na briga com Valdemar (da Costa Neto, condenado pelo Mensalão e presidente do PL), ele (Bolsonaro) iria se filiar na semana que vem e desistiu. Ele pode se manter até o final, mesmo com a certeza da derrota. Ele pode achar que vai tentar dar o golpe de novo e que, dessa vez, vai conseguir. No 7 de setembro, ele queria dar um golpe de estado e convocou uma greve de caminhoneiro, que se faz para derrubar o presidente, não para manter”.

 

“O Centrão está no poder”

Liberal que não descarta se lançar novamente a deputado federal em 2022, Ricardo também foi questionado sobre o resultado do liberal Paulo Guedes como ministro da Economia. “Não há nada de liberal na gestão econômica do governo Bolsonaro. A esquerda adora falar de (John Maynard) Keynes (economista britânico), de o Estado colocar dinheiro na economia. Fazer isso num momento de emergência é uma ideia liberal. O que não é liberal é o Estado botar dinheiro na economia sempre. A reforma da Previdência, até Lula teria que fazer. Guedes escolheu a desonra. O Centrão está no poder, gastando dinheiro como se nada houvesse”.

 

Confira abaixo, em três blocos, a íntegra da entrevista de Ricardo Rangel ao Folha no Ar de terça. O tratado na coluna é o terceiro:

 

 

 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

PDT do vereador Leon Gomes no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (17), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador de Campos Leon Gomes (PDT). Ele falará sobre a bandeira em defesa dos autistas e outros portadores de necessidades especiais, que ele e outros edis levantam no Legislativo goitacá. Neste, falará também da posição da bancada pedetista entre as orientações de Caio Vianna, presidente municipal do partido e secretário de Ciência e Tecnologia de Niterói, e o apoio ao governo Wladimir Garotinho (PSD).

Por fim, Leon falará da pré-candidatura de Ciro Gomes pelo PDT a presidente da República e tentará projetar as eleições de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Analista da Veja projeta 2022 no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (16), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o analista político Ricardo Rangel, colunista da revista Veja. Ele falará das recentes eleições da atriz Fernanda Montenegro e do compositor Gilberto Gil à Academia Brasileira de Letras (ABL), e do cenário da cultura no país. Falará também das eleições das bancadas estadual e federal, e para governador do RJ.

Por fim, Ricardo analisará as chances da terceira via na polarização Lula (PT) x Jair Bolsonaro (sem partido) no pleito presidencial de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Um entre cada quatro campistas na probreza extrema

 

População de rua improvisa abrigo no Jardim São Benedito (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

 

Povo de Campos tem fome!

O governo Wladimir Garotinho (PSD) celebrou esta semana o aumento do atendimento da secretaria de Desenvolvimento Humano e Social (SDHS), em todas as suas pontas com a população carente de Campos. A comparação entre os períodos de janeiro a setembro de 2020 e 2021 apontam avanços concretos na área social, em atendimentos, serviços e concessão de benefícios. As 4.065 cestas básicas distribuídas nos nove primeiros meses do ano passado, nos nove primeiros deste ano já chegaram a 10.117 — aumento de 149%. Foi o índice que registrou maior crescimento. E revela o mais grave problema hoje do povo campista: a fome!

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Um entre cada quatro campistas

Pelo CadÚnico do governo federal, o município de Campos tem 50.246 famílias em situação de extrema pobreza, com renda mensal de até R$ 89,00. Individualmente, seriam hoje 135.222 campistas. Sem censo nacional desde 2010, o IBGE de 2021 estima 514.643 pessoas residentes em Campos. No cruzamento dos dados, é possível afirmar que 26,3%, ou mais de um entre cada quatro campistas, estão em condições de extrema pobreza. A situação reflete a grave crise do país, com a condução da pandemia da Covid-19 e da economia pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido) criticada por todos os especialistas, no Brasil e no mundo.

 

Mudanças?

O percentual da miséria em Campos pode ser um pouco menor, caindo de 26,3% a 22,2%, se estiverem certas as estimativas que apontam para 600 mil pessoas vivendo hoje no município. Mas, mesmo sem melhora significativa na vida dos 135 mil campistas que hoje têm dificuldade para comer, o percentual da extrema pobreza pode crescer ainda mais. No artigo 20 da sua proposta de criação do Auxílio Brasil — novo nome ao Bolsa Família dos governos do PT, que por sua vez rebatizou o Bolsa Escola criado no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) —, Bolsonaro quer subir para renda familiar de R$ 100,00 a classificação de extrema pobreza.

 

Campos espelha o Brasil

É positivo que o governo Wladimir mostre vigor no atendimento às urgentes demandas sociais. Capacidade que é fruto do aumento das receitas petrolíferas. De janeiro a novembro de 2021, o município recebeu de royalties e Participações Especiais (PEs) 79,6% a mais que o mesmo período de 2020. Ainda assim, não é preciso ser especialista para constatar o reflexo local da crise brasileira. Basta sair às suas ruas de Campos e testemunhar o aumento exponencial dos pedintes e população de rua. Mas o que pensam os especialistas da cidade do aumento da miséria? E de como os governos municipal e nacional têm lidado com ela?

 

Alcimar Chagas, economista e professor da Uenf

Visão do especialista (I)

“O crescimento do atendimento social em Campos tem dois motivos: a suspensão do Auxílio Emergencial federal, que durante o ano passado atendeu a 39% da população do município, além da falta de investimento público municipal em políticas de indução das atividades produtivas, que absorvem mão-de-obra de baixa e média qualificação. Entendo que a forma encontrada aos precatórios (PEC do governo aprovada na Câmara Federal e sob apreciação do Senado, para dar o calote em dívidas da União, furar o teto de gastos e bancar o Auxílio Brasil) pode não ser a mais adequada”, advertiu o economista Alcimar Chagas, professor da Uenf.

 

Fabrício Maciel, sociólogo e professor da UFF-Campos

Visão do especialista (II)

“O aumento da demanda social em Campos e todo o Brasil é resultado direto da política equivocada do governo Bolsonaro. O problema não é só orientação ideológica, mas a incompetência. A instabilidade política na qual o governo colocou o Brasil afeta diretamente a economia e gera esse aumento exponencial na miséria. O Auxílio Brasil é irresponsável e eleitoreiro. Sugere que vai atenuar a miséria, quando na verdade é apenas o remendo em um problema causado pelo governo. Substitui o Bolsa Família sem nenhuma discussão pública sobre o tema”, avaliou o sociólogo Fabrício Maciel, professor da UFF-Campos.

 

Vitor Peixoto, cientista político e professor da Uenf

Visão do especialista (III)

“A demanda reflete a tragédia social brasileira em consequência da pandemia e da forma que o governo federal a administrou. No nível municipal, a atual administração tem demonstrado alguma sensibilidade. A reabertura do Restaurante Popular é um dos exemplos e cumpre papel fundamental. A destruição do Bolsa Família exemplifica a incompetência federal. O Auxílio Brasil tem financiamento provisório, sem controle, sem regras claras. Cumprirá a função de liberar recursos às bancadas em ano eleitoral, com o furo do teto. Mas garantirá a sobrevida do governo com o Congresso”, definiu o cientista político Vitor Peixoto, professor da Uenf.

 

Valter Martins, assistente social e professor da UFF-Campos

Visão do especialista (IV)

“O desemprego em larga escala, a corrosão da renda pela inflação de 10,67% no acumulado anual e a má gestão econômica, política e epidemiológica do país acenam para uma catástrofe social. Que se expressa no crescimento da pobreza em Campos, aos olhos de quem caminha pelas ruas da cidade. Isso tem tensionado os serviços públicos da assistência social, especialmente os de segurança alimentar e nutricional. E tende a se agravar pelo governo Bolsonaro, se aplicado o calote da dívida pública para criar um programa populista até as eleições de 2022” projetou o assistente social Valter Martins, professor da UFF-Campos.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Gil na ABL — Poesia à poesia para falar com Deus

 

O compositor Gilberto Gil foi eleito ontem (11) para a cadeira número 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL). É um passo adiante da tradicional instituição da literatura nacional, que teve como seu primeiro presidente ninguém menos que Machado de Assis, na sinergia com outras formas de arte. Que já tinha sido dado antes, ainda neste mês de novembro, com a eleição da grande atriz Fernanda Montenegro à ABL.

Em termos formais, muito se discute se a poesia musical pode ser considerada, ou não, poesia literária. Chico Buarque já disse que não. E recusou uma indicação à ABL, embora tenha considerável obra literária como prosista, à parte sua lida mais conhecida de compositor. Seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, assim como o poeta Carlos Drummond de Andrade, se comprometeram desde 1941 a nunca integrar a ABL, depois que esta elegeu entres seus membros o então presidente e ditador Getúlio Vargas.

Vários outros grandes escritores brasileiros nunca integraram a ABL. Na prosa literária, é significativa a ausência de mestres como Graciliano Ramos, Lima Barreto, Monteiro Lobato, Erico Verissimo, Clarice Lispector e Caio Prado Júnior. Na prosa das ciências humanas, além de Sérgio, o polímata Gilberto Freyre também nunca entrou. Na poesia, além de Drummond, são também os casos de Vinícius de Moraes, Cecília Meirelles, Mário Quintana, Dante Milano, Paulo Leminski e Manoel de Barros.

 

Poetas, diplomatas e amigos Vinícius de Moraes e João Cabral de Melo Neto

 

O exemplo particular de Vinícius é emblemático na suposta contraposição poesia literária x poesia musical. Se é inegável que ele se tornou muito mais conhecido do grande público por sua atividade de compositor, tinha amigos na poesia e na ABL, como o mestre pernambucano João Cabral de Melo Neto, que criticavam a opção do poetinha pela popularidade. Por conta da música, consideravam que o sonetista lírico e de técnica perfeita se dedicou aquém do que deveria à literatura.

Homero, pai de todos os poetas

Aparentemente resolvida agora com a eleição de Gil à ABL, a questão entre poesia musical e poesia literária é muito antiga. Pai de todos os poetas, o grego Homero fundou a literatura ocidental, com suas “Ilíada” e “Odisseia”, sem atentar a qualquer diferença. Com sua lira, o rapsodo ia literalmente cantando de cidade em cidade a tradição oral da Guerra de Tróia e do retorno à Grécia. Do século 8 a.C. de Homero, a poesia permaneceu 2,6 mil anos basicamente inalterada em sua estrutura entre rima (melodia), métrica (harmonia) e ritmo, tripé necessário para versos a serem cantados sobre um fundo musical. Demanda que qualquer repentista ou rapper de hoje, ciente ou não de Homero, conhece tão bem quanto ele.

Walt Whitman, poeta maior dos EUA

Até que em julho de 1855 (d.C.) o estadunidense Walt Whitman lançou seu revolucionário “Folhas da Relva”, livro que foi acrescendo de poemas novos até o final da sua vida. Com eles, o maior poeta dos EUA criou o verso livre, ainda com base em ritmo, mas já liberto da rima e da métrica. Além de semear tudo aquilo que depois chamaríamos modernismo, Whitman abriria, talvez sem dolo, a cisão entre poesia literária e musical.

Antes de Gil na ABL, outro grande compositor, estadunidense como Whitman, Bob Dylan parece ter encerrado essa “diáspora” da poesia pelo mundo, quando foi anunciado em outubro de 2016 como vencedor do Nobel de Literatura. Ao qual já tinham sido indicados, sem levar, os poetas brasileiros Jorge de Lima e Geraldo Melo Mourão, outros que nunca integraram a ABL. O fato é que, obedeça ou não à rima e à métrica ignoradas por muitos versejadores que se julgam poetas, mas sempre atenta ao ritmo, é inegável a influência da poesia sobre a própria poesia, seja ela musical ou literária.

 

Compositor dos EUA, Bob Dylan foi o Nobel de Literatura de 2016

 

Nessa afluência da poesia sobre si mesma, da nascente à foz, segue abaixo um dos tantos exemplos da poesia de Gil, em homenagem ao baiano que se disse agora “imortalmente mortal”. Feito por ele para falar com o Imortal. E que, junto ao mineiro Drummond, ao inglês William Shakespeare, ao paraibano Augusto dos Anjos, e ao cineasta sueco Ingmar Bergman, modestamente influenciou, talvez, o único poema confessional que cheguei a arriscar:

 

Se eu quiser falar com Deus

 

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que ficar a sós

Tenho que apagar a luz

Tenho que calar a voz

Tenho que encontrar a paz

Tenho que folgar os nós

Dos sapatos, da gravata

Dos desejos, dos receios

Tenho que esquecer a data

Tenho que perder a conta

Tenho que ter mãos vazias

Ter a alma e o corpo nus

 

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que aceitar a dor

Tenho que comer o pão

Que o diabo amassou

Tenho que virar um cão

Tenho que lamber o chão

Dos palácios, dos castelos

Suntuosos do meu sonho

Tenho que me ver tristonho

Tenho que me achar medonho

E apesar de um mal tamanho

Alegrar meu coração

 

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que me aventurar

Tenho que subir aos céus

Sem cordas pra segurar

Tenho que dizer adeus

Dar as costas, caminhar

Decidido, pela estrada

Que ao findar, vai dar em nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Do que eu pensava encontrar

 

 

“Pois que, eu essência, não habito
Vossa arquitetura imerecida;
Meu Deus e meu conflito”

(carlos drummond de andrade)

 

sétimo selo

 

há os dias em que busco Deus

há aqueles em que topo o dedão

e O chamo de filho da puta

mas guardo na cômoda, por utopia

um pequeno grão de mostarda

e o amor da carpintaria

 

eu, quase sempre distante

como filho criado por outros

numa ilha sem fé no mar

e às vezes, meu Deus, tão seu íntimo

agarrado como uma criança

a quem a salvou de se afogar

 

minha imagem e semelhança?

falho demais para meu Deus

— teria mais em conta um gorila

ou a árvore que o aproxima do céu

 

caminho em sua vida

abençoado por sua sorte

encontro marcado com a morte

delirando chorar como hamlet

na certeza química dos anjos

nas dúvidas de antonius block

 

campos, 11/12/06

 

A Morte e o cavaleiro cruzado Antonious Block, vivido pelo ator Max von Sydow, jogam xadrez em “O Sétimo Selo” (1956), obra prima do cineasta Ingmar Bergman

 

Consórcio Bolsolira constrói candidatura viável a 2022

 

Jair Bolsonaro e Artur Lira

 

 

Vera Magalhães, jornalista

Consórcio Bolsolira tem outras vidas

Por Vera Magalhães

 

Game over? Não, diferentemente dos videogames em que uma jogada encerra a partida, a maioria formada pelo Supremo Tribunal Federal para disciplinar a excrescência chamada emenda do relator ao Orçamento não põe fim à aliança entre Jair Bolsonaro e Arthur Lira, que tem como horizonte a campanha à reeleição do presidente. Por isso, ainda que haja razões concretas para celebrar a decisão do STF, a oposição não deve achar que o jogo acabou. O consórcio Bolsolira ainda tem outras vidas.

O Supremo deu um recado eloquente ao Congresso: o Orçamento não pode ser uma peça privada, voltada a garantir maioria ao governo e benefícios aos parlamentares, sem nenhuma transparência ou prestação de contas aos órgãos de controle.

Como escrevi aqui na última sexta-feira, antes de a ministra Rosa Weber conceder liminar paralisando os pagamentos via orçamento secreto, um instrumento assim desigual conspurca a democracia. Tanto Rosa quanto a ministra Cármen Lúcia salientaram esse aspecto em seus votos.

O placar formado de pronto para referendar a decisão de Rosa também tem outro aspecto importantíssimo: mostrar que o Judiciário não é suscetível a ameaças de retaliação vindas de Lira e seu grupo.

Atingido em cheio no seu poder imperial de distribuir dinheiro rápido e sigiloso em troca de votos, o presidente da Câmara agiu como se os membros do Judiciário estivessem sujeitos à mesma tutela que ele exerce sobre seus pares. Não colou, e outros cinco ministros fizeram questão de deixar isso patente antes mesmo da votação em segundo turno de outra anomalia chamada PEC dos Precatórios.

Isso significa que Bolsonaro não conseguirá mais dar suas pedaladas e avançar no vale-tudo fiscal para se reeleger, com a ajuda de Lira? Não necessariamente. Ficará menos rápido e menos eficaz fidelizar deputados com emendas, mas outras rubricas virão se a RP9, a via rápida do fisiologismo, permanecer interditada.

Eles tentarão aprovar um remendo de transparência para dar uma satisfação ao Supremo e tentar retomar o mecanismo. Se não colar, transferirão os recursos para outro tipo de emenda.

Além disso, Bolsonaro trata de avançar numa outra costura em que, mesmo impopular, com a inflação comendo solta e o desemprego galopante, está muito mais adiantado que a oposição, inclusive o PT: a construção de um palanque para 2022.

Na surdina, fez uma jogada malandra: deve se filiar ao PL, que ameaçava deixar a base aliada para até cair no colo de Lula, e ter o PP, que por muito tempo foi seu plano A, na chapa, indicando o vice.

De novo é o consórcio Bolsolira em ação. As emendas do relator eram importantes para que o casamento fosse registrado em cartório? Sem dúvida. Eram condição sine qua non? Vamos vendo que não.

Se conseguirem abrir a clareira fiscal no teto de gastos, outra inconstitucionalidade flagrante, além de um crime contra as contas públicas por que o país pagará pelas próximas décadas, Bolsonaro e Lira ganharão mais recursos para novas emendas (RP9 ou seja quais forem) e também para promover um fundão eleitoral anabolizado de que PP e PL se beneficiarão.

Junte-se a isso a expectativa de ministros e parlamentares do Centrão de que o Auxílio Brasil tratará de resgatar Bolsonaro do limbo da popularidade, vai-se construindo, com a ajuda de uma oposição bastante atordoada, uma candidatura viável daquele que é o pior presidente da História do Brasil.

Incrível, não?

Para evitar essa sucessão de descalabros, o Supremo tem sido o único bastião confiável, corajoso e cioso de seu papel. Oposição, TCU, Ministério Público, até o Senado oscilam e por vezes não enxergam o que vai se configurando: o maior e mais caro estelionato eleitoral, para o qual vale dar calote em dívida judicial, arrombar o teto e sabe-se lá mais que truque.

 

Publicado em O Globo.

 

O palhaço, o capitão e o PT sendo o PT

 

Bolsonaro, Tiririca e Lula (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Bernardo Mello Franco, jornalista

O palhaço e o capitão

Por Bernardo Mello Franco

 

Tiririca é produto da avacalhação da política. Em 2010, levou seu besteirol de circo para o horário eleitoral gratuito. Sem saber onde ficava o Congresso, tornou-se o deputado mais votado do país.

Bolsonaro é produto da descrença nos políticos. Em 2018, misturou seu discurso de ódio com uma pregação antissistema. Sem saber governar, recebeu quase 58 milhões de votos e virou presidente.

Em duas semanas, o palhaço e o capitão devem se transformar em colegas de sigla. Vão dividir espaço no Partido Liberal, acostumado a fazer negócios com todos os governos. As duas filiações foram costuradas pelo mesmo personagem: o ex-deputado Valdemar Costa Neto.

O chefão do PL é um mestre na arte da sobrevivência. Deputado por seis mandatos, renunciou duas vezes para escapar da cassação. Foi condenado no mensalão e delatado na Lava-Jato. Amargou um ano na cadeia, mas nunca deixou de mandar na legenda.

“Escolha de partido é igual a casamento”, disse Bolsonaro em outubro. Neste caso, um casamento de interesses. O presidente precisava de uma sigla para disputar a reeleição, e o PL buscava um puxador de votos para engordar o fundo eleitoral.

O capitão perambulava atrás de um partido havia dois anos. Não conseguiu registrar o Aliança pelo Brasil e foi chutado pelo Patriota antes de assinar a ficha. Agora vai arrastar seu grupo para uma legenda com força nos estados e tempo na TV.

O histórico dos noivos sugere que o enlace pode durar pouco. Bolsonaro já passou por oito siglas diferentes. Deixou o PSL porque perdeu a disputa pelo cofre. Valdemar não gosta de dividir poder nem dinheiro. Aceita aliados de todas as tribos, desde que não contestem suas ordens.

Tiririca se lançou na política com o lema “Pior que tá, não fica”. Desde que subiu a rampa, Bolsonaro se empenha em mostrar que ele estava enganado.

Venezuela e Nicarágua

O PT deu uma força ao bolsonarismo ao insistir no apoio a Nicolás Maduro, que mergulhou a Venezuela no caos político e econômico. Agora repete a dose ao festejar a “reeleição” de Daniel Ortega na Nicarágua. O ex-revolucionário prendeu os líderes da oposição e promoveu uma disputa de fachada para se perpetuar no poder. A burocracia petista descreveu a farsa como “uma grande manifestação popular e democrática”.

 

Publicado em O Globo.

 

Lula da Silva, Jair Bolsonaro, Sergio Moro ou Ciro Gomes?

 

É possível se debater em alto nível, com argumentos no lugar das ofensas, a renhida eleição presidencial do Brasil de 2022? Na manhã de ontem, ao vivo e durante duas horas, o sociólogo José Luis Vianna da Cruz, o odontólogo Alexandre Buchaul, o advogado Cristiano Sampaio e o sociólogo Roberto Dutra provaram que sim. Eles defenderam, respectivamente, suas simpatias pelos presidenciáveis Lula (PT), Jair Bolsonaro (sem partido), Sergio Moro (Podemos) e Ciro Gomes (PDT), mais bem colocados nas últimas pesquisas. No programa Folha no Ar, na Folha FM 98,3, os quatro justificaram o voto nos nomes das suas preferências, falaram sobre as propostas que cada um tem à grave crise econômica do país e teceram prós e contras que enxergam nas demais pré-candidaturas ao Palácio do Planalto. Com algumas palavras fortes, mas sobretudo com respeito à diversidade de pensamento com a qual se constrói a democracia. Presidente do Brasil que marcou época, e alvo até hoje de paixões favoráveis e contrárias, a Getúlio Vargas é atribuída a frase: “Campos é o espelho do Brasil”. Pelo que o lulista, o bolsonarista, o morista e o cirista campistas demonstraram, seria uma boa pedida. Independentemente do resultado das urnas de daqui a 11 meses.

 

José Luis Vianna da Cruz, Alexandre Buchaul, Cristiano Sampaio e Roberto Dutra, simpatizantes, respetivamente, dos presidenciáveis Lula, Jair Bolsonaro, Sergio Moro e Roberto Dutra (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha – Por que votar no seu pré-candidato a presidente da República em 2022?

José Luis Vianna da Cruz – A minha intenção de votar em Lula, primeiro, é porque é o candidato que se coloca no campo do anticonservadorismo, não do conservadorismo no sentido ideológico, válido, mas sim da sua distorção. Que atenta contra a democracia no neofascismo com o qual estamos convivendo. O Brasil é conservador, sempre tive convicção disso. Faltavam liderança, partido e organização que expressassem isso politicamente de forma mais consistente. E isso aconteceu com o Bolsonaro, um personagem de ocasião. E o Lula continua representando o campo que pode se aglutinar, para poder ser capaz de superar essa onda reacionária do ponto de vista econômico e político, recuperando a ideia dos direitos. Neste sentido, o Lula, quando foi feita justiça com relação à ausência de provas capazes de condená-lo, voltou a imagem daquele que fez um excelente governo, foi o melhor presidente da história do Brasil. É o que foi mais longe na distribuição de renda e no enfrentamento das desigualdades.

Alexandre Buchaul – O Brasil é um país conservador, como bem disse o professor José Luis, e o conservador, por definição, é alguém que reage. Não é alguém que promove revoluções, mas reage quando sente seus valores subvertidos. Essa sensação de agressão fez com que essa direita se organizasse; esse conservador que ainda precisa amadurecer muito, precisa estudar muito. A figura que se encontrou como representante nesse momento era o Bolsonaro, que precisava existir para essa direita conservadora rompesse as amarras que até então existiam num discurso que foi praticamente banido. A partir da eleição de Bolsonaro, você tem pessoas que começam a assumir esse discurso com mais ou menos qualidade, como é em qualquer campo. Nossa situação econômica se deve muito à situação econômica mundial. Isso precisa amadurecer, vai acontecer numa eventual reeleição de Bolsonaro, para que nós tenhamos o avanço desse perfil conservador, o avanço do debate, da discussão conservadora.

Cristiano Sampaio – Sequer posso afirmar que Moro será candidato. A gente tem essa perspectiva. Eu sou simpatizante dele quando se iniciou a operação Lava Jato. E embora alguns críticos digam que ele foi tendencioso, quando você olha, na boa técnica, não há essa inclinação. Bolsonaro foi muito inteligente no momento em que ele puxou o Moro para si. Acredito que Moro talvez venha, mas ele tem que vir com a cabeça mais política. O Bolsonaro vendeu aquela imagem de uma pessoa fora da política, o que ele nunca foi. Quem colocou Moro no páreo foram os próprios políticos. Quando se discutiu um projeto de emenda à Constituição que falava da quarentena para juízes, promotores, que não logrou êxito, o que se pretendia era tirar Moro, Deltan, todos eles do páreo. Só queria discordar um pouco do professor Luiz Vianna quando ele diz que Lula, agora, nessas reavaliações do Supremo, não houve provas. Houve provas, sim, provas robustas. O que o STF simplesmente entendeu é que Moro seria suspeito.

Roberto Dutra – Como o Cristiano falou, política é um jogo complexo. Ontem (quinta), por exemplo, nesse gesto arriscado, que a gente não sabe que resultado vai ter, o Ciro deu um recado para a sociedade que, por exemplo, o Moro não deu. Eu coloco na mesa o meu capital político em nome de uma ideia (votar contra a PEC dos Precatórios): eu risco uma linha no chão. Se for para ser pré-candidato, tem que ter o mínimo de coerência. Eu gostaria muito que os outros pré-candidatos, da chamada terceira via, e o Moro está aí bem nas pesquisas, mas não se posicionou. E é um tema delicadíssimo, envolve o principal tema da candidatura Moro, que é a questão da corrupção. O PT foi uma decepção. Eu vou discordar do meu amigo José Luis Vianna. Lula foi um bom presidente, sim, mas piorou muito no fim. A tragédia Dilma não pode ser esquecida, um governo fracassado economicamente. Nós precisamos de um presidente que assuma os riscos. A população, em 2018, votou em Bolsonaro pelo risco.

 

Folha – Quais são as propostas do seu candidato à grave crise econômica do país?

José Luis – A questão econômica demonstra também a falência desse governo. Eu lamento que o Alexandre ainda defenda o Bolsonaro, quando no campo da direita você tem pessoas menos contundentes na pregação de uma necropolítica. Nós somos um país periférico e dependente. A questão da América Latina, da Ásia e da África é romper com essa dependência na economia. Isso implica em investir em ciência e tecnologia, o que foi zerado no governo atual. E preservar os setores da economia que garantem a soberania, como a cadeia do petróleo. Hoje, nós nos tornamos exportadores de petróleo. Como a gente importa os produtos beneficiados do petróleo? O nosso agronegócio é negativo, por incrível que pareça. Os insumos são importados. Não adianta você exportar produto primário, se os bens industriais são importados. O que justifica você aumentar a pobreza, jogar os pobres na vala comum dos mortos por inanição, quando a direita considera o Bolsa Família uma ameaça porque “alimenta vagabundo”?

Buchaul – Vivemos o fenômeno de inflação mundial pela pandemia; uma fuga do capital internacional em direção ao dólar para se proteger. A Petrobras importa combustível, porque a autossuficiência de petróleo foi uma mentira. Nós produzimos em extração, mas compramos gasolina, diesel, gás. E tudo vendido em dólar. A opção é subsidiar, só que isso tem custo muito alto, leva a Petrobras à quebradeira. A nossa infraestrutura precisa de muita melhoria. O ministro Tarcísio está conseguindo avançar, mas nós estamos aqui, em Campos, que é um entroncamento. A gente tem uma BR 101 passando agora por um processo de relicitação, porque na primeira não se cumpriu o contrato. Era para a gente já ter a BR 101 duplicada, o contorno de Campos, e ainda não conseguiu. A gente precisa que a EF 118, que é o projeto de ferrovia que vem do Espírito Santo, passa por Campos e vai para Rio, São Paulo e Mato Grosso, avance. O Bolsa Família ou o Auxílio Brasil é essencial. É um grande movimentador da economia.

Cristiano – Sequer se cogitava o nome de Moro como candidato, então não existe um plano. Acredito que ele escolherá um bom nome para conduzir a economia. E não é demérito não conhecer de economia. Lula não conhecia, Fernando Henrique não conhecia. O Guedes não conseguiu implementar suas ideias, quedou-se para o Centrão e virou um fantoche. A verdade é essa, e o mercado não respeita. A nossa inflação já alcançou dois dígitos, que a gente só teve no primeiro ano do Plano Real. E muito responsável pelo dólar alto é o presidente, com o dom da palavra para derrubar as bolsas, trazer instabilidade. Lula, por muito tempo resistiu ao mercado, mas depois se curvou. O professor José Luiz coloca o Bolsa Família. Eu sou de direita, conservador, mas vejo, sim, que é um projeto importante. A gente tem que socorrer o nosso irmão. É ser cristão. Só que Bolsonaro só viu agora como o viés político de reeleição. Há um desastre em curso. Bolsonaro, com essa PEC fura teto, fragiliza ainda mais a economia.

Roberto – Economia é a área onde eu acho que o Ciro mais tem buscado oferecer um projeto há muito tempo, desde quando era do PSDB e ajudou a implementar o Plano Real. O Brasil, cada vez mais, é um país que consome produtos que não produz e de cujas cadeias produtivas não participa. A gente vende soja e quer comprar um celular de última geração. Isso foi possível durante um período do populismo cambial. Mas não é mais. O que sustentava o populismo cambial era o boom de commodities. Faz diferença se um país produz chips ou se um país produz soja apenas. Não estou nada contra a soja, o agronegócio é o único setor da economia brasileira que aumentou a produtividade. Mas não é um sucesso de complexidade. Como o professor José Luiz falou, a gente importa os insumos, as sementes, os remédios, as máquinas. E complexidade é você reindustrializar o país a partir do que já tem. E aí, o Ciro vem propondo quatro áreas desde a campanha de 2018, que com essa pandemia se tornaram ainda mais atuais.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Folha – Quais são os prós e contras das demais pré-candidaturas a presidente?

Roberto Dutra – O movimento que Bolsonaro representa, tem um mérito: deu voz, sim, a uma direita brasileira. Outro mérito é que, sem querer, Bolsonaro representa algo que está na alma do povo: a força. Ele distorce isso, coloca a força como violência. Mas tem a ver com a nossa capacidade de ser um povo batalhador. E Bolsonaro vocalizou isso. Negativamente, tudo. Mas resumiria na incapacidade de separar palanque de governo. Sobre Moro, a Lava Jato desnudou uma relação promíscua entre dinheiro e poder, que todo mundo sabia que existia, mas ninguém tinha visto ainda de um modo tão claro. Negativamente, Moro não tem projeto, não diz nada sobre como vai recuperar a economia brasileira. A grande obra de Lula foi ter possibilitado o povo brasileiro se identificar consigo mesmo. O lado negativo de Lula é, infelizmente, o desperdício do que poderia ter sido. Ele poderia, sim, ter sido o maior presidente da história desse país. Com 85% de aprovação, não fez uma mudança estrutural. Lula não acredita em ideias.

Cristiano – A crítica que faço, já de antemão pedindo desculpa ao José Luis, mas o Lula é um corrupto. Nada vai tirar isso da biografia dele. Foram milhões que a Odebrecht devolveu aos cofres públicos, confessando. Em caso do segundo turno entre Lula e Bolsonaro, com todos os defeitos, vou com o Bolsonaro. Lula foi um cara que tinha tudo, como Roberto colocou, para ser o maior dos líderes. Só que o cara virou um ladrão. Desculpa a expressão, não tem aqui como falar de uma forma mais suave, tem que falar o popular que o povo entende. A crítica que eu faço a Bolsonaro é que ele abandonou o bolsonarismo. A corrente armamentista não é feita de cristãos. Ele pegou aquele nicho cristão, que se sentia muito atingido por uma política de ideologia de gênero, que eu não concordo. E o Ciro, por sua vez, eu fiquei impressionado com a imaturidade dele diante dessa decisão que houve de colocar seu nome, retirar, suspender. Eu nunca vi uma suspensão de pré-candidatura, entendeu?

Buchaul – O Ciro tem uma experiência política que acho importante, mas tem o problema do destempero emocional. O Sergio Moro devia continuar sendo juiz. Acho que foi um erro o Bolsonaro tê-lo nomeado ministro, e foi um erro do Moro ter aceitado. Já o Lula deveria seguir o exemplo dos ex-presidentes americanos e manter-se fora da política eleitoral. Você não tem um governo violento só pela violência física, mas também pela violência financeira. E o PT acaba fazendo um pouco das duas coisas: a ameaça que é o MST, as invasões de prédios públicos, e também a violência financeira, quando compra adversários, outros partidos e impede a efervescência política, algo que nós vimos também aqui em Campos. Apesar de o Lula ter tido um mandato com alguns benefícios, eu os coloco muito mais na conta do bom momento internacional e uma herança que ele recebeu do governo Fernando Henrique, de reformas que iriam no contrário do que o Lula dizia que ia fazer e que por sorte não fez.

José Luis – Sobre o Bolsonaro, eu me sinto contemplado, particularmente, com o que o Roberto e o Cristiano falaram. Só reforçar que a questão pior sobre o Bolsonaro é que ele trouxe o protagonismo do que há de pior em termo de caráter e de comportamento, de conduta e de valores na sociedade brasileira. Não vejo nada positivo, a não ser o que o Roberto falou e eu falei também: ele deu voz e institucionalidade ao conservadorismo que existia no Brasil. Só que aí está misturado, tem que separar. O Moro, eu lamento dizer, Cristiano, mas acho, como talvez até você tenha colocado de uma forma mais branda, como figura política, eu acho ele é amorfo, inodoro e incolor. O Ciro é do campo da esquerda, do antifascismo, tem boas ideias na economia. O Ciro faz parte do campo que tem que se juntar para enfrentar o fascismo. O Ciro é um campo ombro. Mas, eu acho que foi bom para a democracia e a história brasileira o Bolsonaro ter sido eleito, como o Roberto falou, porque agora nós sabemos a nossa cara.

 

Confira abaixo, em vídeo, os três blocos do Folha no Ar da manhã de ontem com o debate presidencial entre José Luis Vianna da Cruz, Alexandre Buchaul, Cristiano Sampaio e Roberto Dutra na manhã de ontem (05), nas Folha FM 98,3:

 

 

 

 

Precatórios — Último tiro de Bolsonaro e a cabeça do país

 

Jair Bolsonaro e Arthur Lira

 

A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) dos Precatórios virou tema nacional desde sua aprovação em primeiro turno na madrugada de quinta, na Câmara dos Deputados. Embora de consequência direta à vida de todos, é assunto árido à maioria. Precatórios são as dívidas que pessoas físicas e jurídicas têm a receber da União, após transitadas em julgado na Justiça. Sobre as quais Jair Bolsonaro (sem partido), pretende impor o dito popular: “devo, não nego; pago quando puder”. Após a tentativa desastrada de golpe no último 7 de setembro, talvez seja seu último tiro para tentar resgatar sua popularidade perdida em 2021.

Após a vitória, o governo agora terá que aprovar a PEC no segundo turno da Câmara, nesta terça (09). E, depois, no Senado onde a CPI da Covid prova as dificuldades maiores. Terá também que passar pelo crivo do Supremo Tribunal Federal (STF), onde a aprovação da PEC em primeiro turno teve ontem (05) sua constitucionalidade questionada. Se passar por tudo isso, terá ainda que acertar o alvo nas urnas a menos de 11 meses. Mas, a julgar pela queda de 2,09% do Ibovespa e a alta do dólar em 0,29% sobre o Real, na mesma quinta da aprovação da PEC em primeiro turno, pode antes alvejar uma economia brasileira já moribunda.

A despeito de todos os obstáculos que ainda terá pela frente, Bolsonaro mira nas suas melhores taxas de aprovação popular. Que foram registradas pelas pesquisas no segundo semestre de 2020, na esteira do Auxílio Emergencial de R$ 600,00 à população carente na pandemia. Agora, o governo quer lançar o Auxílio Brasil, no valor de R$ 400,00. É o novo nome ao Bolsa Família dos 13 anos do PT no poder. Que, por sua vez, rebatizou o Bolsa Escola implantado em 2001, durante o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Seria agora pago só enquanto durar o ano eleitoral de 2022, sem nenhuma garantia de continuidade após o pleito.

Ninguém pode negar a necessidade de socorro a mais de 20 milhões de brasileiros em situação de pobreza extrema. Mas, se fosse o caso de apenas socorrê-los, bastaria enviar ao Congresso uma Medida Provisória (MP). Para aprovar uma MP, o governo precisaria de maioria legislativa simples, não dos 3/5 necessários a uma PEC. Com a qual se pretende impor moratória aos credores da União, furar o teto de gastos e, segundo todos os economistas, levar ainda mais brasileiros à miséria. Com o país inteiro se afundando ainda mais numa inflação que, pela primeira vez desde a implantação do Plano Real em 1994, já ultrapassa a casa dos dois dígitos.

Para alocar os recursos necessários pare atender aos pobres, sem produzir outros com a bancarrota da economia nacional, bastaria tirar o dinheiro das “emendas secretas”. São assim chamadas porque as indicações parlamentares e o destino final das verbas não ficam registrados no Orçamento ou no Diário Oficial, com objetivo doloso de dificultar sua fiscalização. É o Mensalão de Bolsonaro, criado no final de 2020 para beneficiar deputados e senadores, tentando blindar o presidente contra seus mais de 120 pedidos de impeachment na Câmara, bem como seus filhos de investigações nas duas Casas.

Se Bolsonaro conseguir mandar às favas o compromisso fiscal do país, o Orçamento Secreto reservará R$ 20 bilhões do dinheiro que a União não tem a deputados e senadores em pleno ano eleitoral de 2022. Em 2021, foi liberando fiado R$ 1,2 bilhão em emendas aos deputados na véspera da votação da PEC dos Precatórios, que o governo conseguiu os 312 votos, apenas quatro a mais que o mínimo de 308 necessário à sua aprovação no primeiro turno na Câmara. Na falácia de ajudar aos pobres, até deputados de oposição do PDT, do PSB e do PSDB deram ao governo sua margem de vitória apertada.

Presidenciável do PDT, Ciro Gomes reagiu já na manhã de quinta, suspendendo sua pré-candidatura para tentar forçar os deputados de seu partido que votaram a favor da PEC a mudarem a posição na próxima terça. A atitude de cearense elevou o tom da oposição, que ontem arguiu no STF as manobras na votação da PEC por parte do presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP/AL). Que, com Bolsonaro refém do Centrão ao qual sempre pertenceu, é hoje o homem mais poderoso do país. Diferente do capitão, que nunca mostrou nenhuma capacidade de articulação política em 30 anos de vida parlamentar, Lira é um mestre do “jogo jogado”. Os dois aliados só se assemelham nos escrúpulos de ordem moral.

Bolsonaro chegou ao Palácio do Planalto pela capacidade de agitação. Que foi catapultada virtualmente com fake news e disparos em massa por robôs nas redes sociais. Como já havia acontecido com a votação do Brexit pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia e com Donald Trump na eleição presidencial dos EUA, ambos em 2016. Fenômeno aqui acrescido, dois anos depois, do antipetismo real disseminado na sociedade pela corrupção sistêmica eviscerada na Lava Jato. E pela catástrofe econômica dos cinco anos e meio de governo Dilma Rousseff. Que o atual presidente, perto de completar três anos no cargo, conseguiu a façanha de superar.

Incapazes, inábeis, arrogantes, confusos, maniqueístas e anacronismos vivos de uma Guerra Fria que acabou no mundo desde 1989, o capitão do Exército e a ex-guerrilheira que combateu a ditadura militar, para instalar no Brasil outra ditadura, têm também muitas diferenças. A mais emblemática? Quando testada, Dilma demonstrou coragem física superior à da maioria dos homens. Seu sucessor é um covarde ao molde assumido dos que torturaram mulheres.

Último tiro de Bolsonaro para 2022, o resultado da votação na madrugada de 4 e outubro de 2021 foi uma vitória parcial de um governo acuado. E do que há de mais fisiológico no Congresso Nacional. Em aliança espúria que ainda tem muitas blindagens para tentar perfurar. Se será um disparo no alvo ou no pé, só o tempo dirá. Na dúvida, a certeza: nessa brincadeira de roleta-russa, contra a boca do cano da arma, a cabeça é a do país.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Lula, Bolsonaro, Moro ou Ciro no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (05), os convidados para fechar a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, são o sociólogo José Luis Vianna da Cruz, o odontólogo Alexandre Buchaul, o advogado Cristiano Sampaio e o sociólogo Roberto Dutra. Eles representarão, respectivamente, suas simpatias pelas pré-candidaturas a presidente de Lula (PT), Jair Bolsonaro (sem partido), Sergio Moro (Podemos) e Ciro Gomes (PDT), líderes nas últimas pesquisas. Será um exemplo, no Grupo Folha, de que a acalorada disputa presidencial de 2022 pode ser dar no melhor nível.

José Luis, Buchaul, Cristiano e Roberto elencarão os motivos para se votar nos presidenciáveis dos quais são simpatizantes, falarão das propostas de cada um para a grave crise econômica do Brasil, além de analisarem, por fim, prós e contras dos demais pré-candidatos ao Palácio do Planalto em 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Vereador Álvaro Oliveira no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta (04), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador Álvaro Oliveira (PSD), líder do governo na Câmara de Campos. Ele falará sobre sua troca de farpas com o edil de oposição Rogério Matoso (DEM), Código Tributário e IPTU. Também analisará a eleição da Mesa Diretora no ano que vem e a administração Wladimir Garotinho (PSD).

Por fim, Álvaro analisará o caminho de 11 meses que nos separa das urnas estaduais e federais do Brasil de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.