Em outubro de 2020, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) desautorizou (confira aqui) o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello a comprar a vacina Coronavac do Butantan. Tudo por vaidade política contra o esforço do governo paulista João Doria (PSDB) pelo obtenção do imunizante. Isto, mais o fato do ministério da Saúde sob Pazuello ter ignorado solemente mais de 80 e-mails da Pfizer, atrasou o início da vacinação no país, que poderia ter começado desde dezembro. E condenou à morte dezenas de milhares de brasileiros.
À época, o general da ativa do Exército Brasileiro reagiu, diante da ordem de Bolsonaro de não comprar as vacinas Coronavac do Butantan: “Senhores, é simples assim: Um manda e o outro obedece”.
Já em 16 de julho deste ano, ao depor na CPI da Saúde, o ex-ministro da Saúde Pazuello disse: “Sou (era) o dirigente máximo, eu sou o decisor, eu não posso negociar com a empresa. Quem negocia com a empresa é o nível administrativo, não o ministro. Se o ministro… Jamais deve receber uma empresa, o senhor deveria saber disso“. Respondeu à pergunta do relator, senador Renan Calheiros (MDB/AL).
Agora, o jornal Folha de São Paulo revela (confira aqui) que Pazuello negociou pessoalmente, em 11 de março, a compra de Coronavac com atravessadores. Por R$ R$ 154,99 a dose. A mesma vacina que era vendida pelo Butantan a R$ 58,20 a dose, quase 1/3 do preço.
Nessa reunião de março, fora da agenda, mas gravada em vídeo, o general disse: “Nós estamos aqui reunidos no ministério da Saúde, recebendo uma comitiva (…) que veio tratar da possibilidade de nós comprarmos 30 milhões de doses numa compra direta com o governo chinês (…) Mas saímos daqui hoje já com memorando de entendimento assinado e com o compromisso do ministério de celebrar no mais curto prazo um contrato”.
Na acareação entre Pazuello e Pazuello feita pelo site Metrópoles, assista aos dois vídeos abaixo, o de 16 de julho e o de 11 de março. Que provam que o general cometeu crime ao mentir descaradamente à CPI do Senado Federal:
Se você ainda acredita na honestidade, na competência e na responsabilidade do governo Bolsonaro com a vida dos 160 milhões de brasileiros, 78 milhões deles ainda sem uma dose de vacina no braço, sua demanda de imunizante não é contra a Covid. É contra a febre aftosa!
“Liberdade é o direito que todo homem tem de ser honrado e a pensar e a falar sem hipocrisia. No mundo tem de haver uma certa quantidade de decoro, como certa quantidade de luz. Quando há muitos homens sem honra, há sempre outros que têm em si o decoro de muitos homens. Estes são os que se rebelam com força terrível contra os que roubam dos povos a sua liberdade, que é como roubar-lhes aos homens sua dignidade. Nestes homens vão milhares de homens, vai um povo inteiro, vai a dignidade humana”.
(José Martí, jornalista, poeta, filósofo e herói da independência de Cuba no séc. 19, pela qual foi morto e teve o corpo mutilado pelos espanhóis)
Acordo cedo na manhã deste domingo, lavo o rosto, escovo os dentes e vou conferir as primeiras mensagens do grupo de WhatsApp que este blog divide com o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3. E, após ler manifestações matinais de dogmas de fé opostas à realidade tensa de Cuba, que dominou os noticiários do mundo na última semana e já havia tentado analisar aqui, com a devida condenação ao bloqueio comercial dos EUA à ilha caribenha, me senti obrigado a novamente escrever no grupo o que transcrevo abaixo:
Acordei, li as primeiras mensagens de hoje do grupo e me senti em um túnel do tempo. Não o da Guerra Fria, que ficou para trás há 30 anos, com a dissolução da União Soviética em 1991. E que, infelizmente, ainda tem Cuba como passageiro perdido daquele período. Mas um túnel do tempo pessoal mesmo. Com a manhã de domingo aberta na TV por smurfs azuis, felizes e contentes, cantando “tra-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá”, em meio aos cogumelos do seu mundo idílico, numa floresta encantada. Até que um deles grita “Gargamel!” e todos saem correndo com medo do mal encarnado no estereótipo do feiticeiro careca e narigudo, com seu gato emblematicamente de orelha furada e chamado Cruel.
É mais ou menos a ideia que alguns querem vender, junto dos seus anacronismos políticos: a Cuba dos smurfs felizes em seu isolamento do mundo e os EUA dos malvados Gargamel e Cruel, que querem literalmente devorá-los. Enquanto isso, na vida real, ontem o presidente Miguel Díaz-Canel falou em autocrítica do regime. E a alta comissária da ONU para os direitos humanos, a ex-presidente de esquerda do Chile Michelle Bachelet, exigiu respeito aos direitos universais dos cubanos que foram às ruas de 20 cidades da ilha pedir por liberdade, além da libertação imediata dos até 130 deles presos pelo regime.
Liberdade que já não pode ser concedida a Diubis Laurencio Tejeda, de 36 anos, morto durante “abordagem policial” em Havana.
Assim, enquanto senhores tupiniquins de meia e terceira idade festejam seus dogmas de fé, em cópia carbono com mais leitura dos tiozões bolsonaristas do WhatsApp, a música de afrocubanos que inspirou os protestos no país segue ecoando seu versos pelo mundo: “No más mentiras! Mi pueblo pide libertad, no más doctrinas!” (“Chega de mentiras! Meu povo exige liberdade, não mais doutrinas!”).
Confira abaixo a música “Pátria e Vida”, em oposição ao “Pátria ou Morte” ecoado em vida por Fidel Castro (1926/2016) como líder da ilha caribenha:
E como o debate sobre Cuba, sempre controverso no Brasil, tem muito mais propriedade quando tratado longe do maniqueísmo raso de quem nunca molhou seus pés no mar caribenho de azul profundo, segue abaixo o relato da médica cubana Arleny Valdés Arias. Residente em São João da Barra, ela usou as redes sociais para dar seu testemunho (confira aqui) sobre o que ocorre de fato em seu país:
13 de julho de 2017. Eu desertei de meu país. Hoje fazem exatamente 4 anos que decidi não voltar a Cuba, quando meu contrato acabou no Programa Mais Médicos. Foi uma decisão difícil porque estava ciente que meu governo tomaria medidas contra mim pela decisão de viver diferente, de decidir por mim e pelo bem de minha família e não deixar mais eles decidirem onde e como devo trabalhar.
Foi o dia que decidi deixar de ser propriedade de um governo que hoje reprime seu povo que está nas ruas pedindo liberdade de forma pacífica. Lembro que solicitei ao meu governo renovar meu contrato no Brasil, ainda eles ficando com 85% de meu salário. Mas a resposta foi que meu relacionamento com os munícipes da cidade onde eles me enviaram a trabalhar era muito forte e isso era risco para eu desertar. Mais uma vez me trataram como propriedade, eu deveria trabalhar e não me envolver? Eu deveria simplesmente ser mais um objeto que eles utilizam?
Hoje meu coração está apertado pelos meus irmãos cubanos, pelo meu povo que com coragem está na rua porque não aguenta mais não poder se expressar e viver com as necessidades básicas cobertas. Meu povo que está sendo reprimido pelo mesmo Exército que deveria defendê-los, meu povo que enfrenta com palavras, valentia e o peito aberto os militares com armas.
Eu sofri as medidas de meu país, oito anos sem poder entrar a Cuba e sem ver minha família, meus documentos muitas vezes negados, meus diplomas de estudo negados para me privar de avançar na vida.
Eu falo a vocês que eu venci e meu povo vai vencer, eu estou bem e ajudando a minha família, eu fui acolhida por um povo lindo no Brasil. Em São João da Barra, construí meu lar feliz e livre, revalidei meu diploma ainda com todos os obstáculos impostos. E essa é minha forma de mostrar que não podem ser donos de minha vida, vencendo sempre…
Meu povo cubano corajoso, seja firme. Estamos longe ajudando. E se pudéssemos estaríamos aí junto a vocês.
Meus amigos brasileiros compartilhem as notícias de Cuba, apoiem meu país. O governo bloqueou o sinal de internet para que não possam compartilhar o que acontece lá e pedir ajuda.
Vamos pedir ajuda por eles, em Cuba os direitos humanos estão sendo violentados cruelmente.
Não estou falando de direita e esquerda, não falo da política no Brasil, é uma realidade totalmente diferente. Falo hoje de vidas e pessoas que precisam de ajuda, da verdade da opressão sendo escondida pelo governo.
Cláudio Castro, Rodrigo Neves, Marcelo Freixo, Eduardo Paes, Wladimir Garotinho, Caio Vianna, Rodrigo Bacellar e Bruno Calil
Neves pré a governador em Campos
Todas as conversas políticas giram em torno da eleição presidencial de 2022. Sobre a liderança isolada do ex-presidente Lula (PT) em todas as pesquisas, o derretimento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a possibilidade de uma terceira via conseguir furar, ou não, essa polarização. Mas e a eleição a governador do estado do Rio, nas mesmas urnas de outubro de 2022? Sem perder de vista as consequências regionais da disputa nacional, os candidatos a protagonista na eleição ao Governo do Estado já se movimentam. Ontem, um deles, o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves (PDT), esteve em Campos para lançar (confira aqui) sua pré-candidatura.
Caio pré a federal
Após eleger seu sucessor em Niterói no 1º turno de 2020, Axel Grael (PDT), Rodrigo Neves comandou a campanha de Caio Vianna (PDT) no 2º turno a prefeito de Campos. Não conseguiu virar a grande vantagem de Wladimir Garotinho (PSD), que ficou perto de fechar a fatura em turno único, mas encurtou bastante a diferença. E levou muitos a apostarem que, se a eleição tivesse mais uma semana, o resultado seria outro. Hoje secretário de Ciência e Tecnologia de Niterói, Caio acompanhou ontem Rodrigo, que o lançou pré-candidato a deputado federal. Pai de Caio, o popular ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT) também esteve presente.
Wladimir e Bacellar com Castro
Hoje, esta mesma página de Opinião da Folha da Manhã traz um artigo (confira aqui) do consultor em estratégia Orlando Thomé Cordeiro. “Carioca da gema”, como se auto-intitula, ele fez uma análise sobre a disputa a governador do Rio a partir do ponto de vista da capital. Mas não deixou de observar como o jogo jogado do governador Cláudio Castro (PL) a 2022 tem se espraiado também ao interior. Na Campos governada por seu aliado Wladimir, cujo maior adversário na Câmara Municipal tem sido o secretário estadual de Governo Rodrigo Bacellar (SD), é até desnecessário dizer. Com Castro, os dois agora têm Caio com Neves.
Bilhões da Cedae até SFI
Orlando destacou “a bolada superior a R$ 22 bilhões” da venda da Cedae. Que propiciou a Castro “acordos e parcerias com prefeitos, tanto de municípios da região metropolitana quanto do interior (…) São R$ 7,688 bilhões distribuídos (…) pelos 28 municípios que aderiram ao plano de concessão de saneamento, sendo que 80% do total será repassado ainda nos anos de 2021 e 2022”. O consultor carioca exemplificou esse impacto a um vizinho de Campos: “São Francisco de Itabapoana, cujo orçamento anual em 2021 previa uma receita total de pouco mais de R$ 72 milhões e vai receber cerca de R$ 22 milhões ainda neste ano”.
Dr. Bruno na UPA de Campos
Outros dois pontos favoráveis a Castro foram analisados. Primeiro, o apoio de Bolsonaro, explicitado tanto na venda da Cedae, quanto na filiação do governador ao PL. Noves fora a simpatia, Orlando constatou: “no nosso estado as pesquisas indicam que o apoio ao presidente é superior à média nacional”. O outro ponto? “Recompor o secretariado, atraindo deputados (…) de diferentes partidos”. Nesta leva, Bacellar cavou (confira aqui) sua vaga. E ontem entregou o comando da UPA de Campos ao seu candidato a prefeito em 2020, Dr. Bruno Calil (SD). Que agradeceu “a confiança do secretário Rodrigo Bacellar e do governador Cláudio Castro”.
Piso de Freixo, teto de Neves
O consultor carioca afirmou em sua análise: “Enquanto o governador se movimenta com desenvoltura cada vez maior, os possíveis concorrentes ainda não se apresentaram para a disputa. A única exceção é o deputado federal Marcelo Freixo, que recentemente migrou do Psol para o PSB”. Isto foi escrito na quinta, um dia antes de Neves se lançar ontem pré-candidato a governador na Campos governada pelos Garotinho, mas rachada em 2020 com os Vianna. Na briga pelo eleitor antibolsonaro do RJ, Freixo tem piso mais alto, que define dois no 1º turno. Mas Neves tem teto mais alto, que define entre os dois que chegarem ao 2º turno.
Paes, a “noiva preferida”
Entre as pré-candidaturas a governador de Castro, Freixo e Neves, uma certeza: a “noiva preferida” é o prefeito do Rio, Eduardo Paes, correligionário de Wladimir no PSD. Se entrasse na corrida ao Palácio Guanabara de 2022, seria um candidato fortíssimo. Mas prometeu na campanha a prefeito de 2020, na qual bateu Marcelo Crivella (Republicanos) com a graça de Deus, que não seria. O que voltou a afirmar (confira aqui) em entrevista ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, no último dia 9. Quando disse ao microfone da rádio mais ouvida de Campos: “isso (ser candidato a governador) não vai acontecer em 2022, em hipótese nenhuma”.
Pingo é letra
À Folha FM, Paes disse: “tenho uma pré-candidatura colocada, que é a do presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz”. Já ontem, o jornal carioca Extra anunciou: “(Paes) pôs na mesa a possibilidade de lançar outro nome (…) o secretário de Saúde Daniel Soranz”. Também ontem, Neves revelou em Campos manter conversas com Paes. Que foi lembrado no Folha no Ar de um seu encontro com Castro. E que este leva vantagem para ter o apoio do prefeito do Rio: eleito vice-governador em 2018, caso se eleja governador em 2022, Castro não pode tentar se reeleger em 2026. Indagado sobre isso, Paes não gostou. Da capital ao interior, pingo é letra.
A crise que vive o estado do Rio de Janeiro guarda elementos estruturais de enorme gravidade. O maior deles é que nos últimos 40 anos os governos deixaram de lado políticas públicas embasadas em um mínimo de planejamento estratégico para focar quase que exclusivamente nas ações de curto prazo. E para piorar o quadro, nos últimos quatro anos vimos seis governadores presos ou afastados do mandato.
Portanto, é importante que cidadãos fluminenses olhem com atenção para as eleições de 2022, quando poderemos escolher quem será responsável pela gestão estadual no período 2023/2026.
Como mostram diferentes pesquisas, a maioria da população ainda não está interessada no assunto, mas isso não diminui sua relevância nem inibe as inciativas de lideranças e partidos que já se movimentam realizando entendimentos preliminares com vistas a futuras alianças.
Em um cenário onde muitos dos nomes tradicionais passam por desgaste, ou impedimentos legais, há uma chance real da disputa vir a ser protagonizada por personagens ainda pouco conhecidos, entre os quais o próprio governador Cláudio Castro.
Sua posição atual foi fruto de uma sequência de fatores pertencentes ao chamado imponderável. Eleito em 2016 para um primeiro mandato de vereador na capital com 10.262 votos, em 2018 aceitou concorrer como vice-governador na chapa encabeçada por Witzel, que à época não havia conseguido atrair outros partidos para se coligarem com o PSC. O que aconteceu depois já faz parte da história.
Durante os oito meses em que exerceu o governo interinamente, adotou um estilo cauteloso, reiterando sua condição de governador em exercício. Porém, a partir de 30 de abril, data em que Witzel foi afastado definitivamente, sentou-se na cadeira com força e muita vontade. E quis o destino que nesse mesmo dia fosse realizado o leilão da Cedae, que rendeu ao estado e aos municípios uma bolada superior a R$ 22 bilhões.
Com dinheiro em caixa, o governador e seus principais aliados entraram em campo já definindo o principal objetivo: viabilizar sua candidatura à reeleição. O primeiro movimento foi recompor o secretariado, atraindo deputados estaduais e federais de diferentes partidos que, diretamente ou por meio de indicados, passaram a exercer a titularidade em diversas secretarias.
O segundo movimento foi filiar-se ao PL, em uma solenidade prestigiada pelo presidente da República, deixando claro que o bolsonarismo seria seu campo de atuação política. Tal movimento é estratégico porque no nosso estado as pesquisas indicam que o apoio ao presidente é superior à média nacional.
E o terceiro movimento foi a formalização de acordos e parcerias com prefeitos, tanto de municípios da região metropolitana quanto do interior, destacando-se a liberação do repasse de recursos decorrentes do leilão da Cedae supracitado. São R$ 7,688 bilhões distribuídos proporcionalmente pelos 28 municípios que aderiram ao plano de concessão de saneamento, sendo que 80% do total será repassado ainda nos anos de 2021 e 2022 e o restante em 2025.
Para se ter uma noção do impacto para os municípios, vejamos o exemplo de São Francisco de Itabapoana, cujo orçamento anual em 2021 previa uma receita total de pouco mais de R$ 72 milhões e vai receber cerca de R$ 22 milhões ainda neste ano. É equivalente a 30% de acréscimo!
Lembrando que o governador já deixou claro não existir qualquer restrição para a utilização desses recursos. “Cada prefeito e estado gastam como quiserem. Não há destinação prevista, é um dinheiro livre”, declarou. Com base nessa premissa, para atender aos demais 63 municípios (excluída a capital) o estado terá à disposição o montante de R$ 14,478 bilhões.
Está claro que a opção preferencial pela aliança com prefeitos e prefeitas traz a ele dois benefícios diretos com vistas às eleições. O primeiro é torná-lo, desde já, mais conhecido do eleitorado fluminense. E o segundo, permitir que sua futura campanha esteja presente nos municípios sob a responsabilidade direta das principais lideranças locais.
Enquanto o governador se movimenta com desenvoltura cada vez maior, os possíveis concorrentes ainda não se apresentaram para a disputa. A única exceção é o deputado federal Marcelo Freixo, que recentemente migrou do Psol para o PSB, sinalizando uma clara tentativa de se reposicionar politicamente de modo a romper o cerco eleitoral que o levou a derrotas em disputas anteriores para cargos no Executivo. Porém, seu nome carrega uma forte rejeição em razão do histórico político, praticamente inviabilizando sua vitória.
Nesse cenário há um espaço aberto para a construção de uma candidatura alternativa capaz de furar o cerco e disputar em melhores condições com o atual governador. Quem se habilita?
Ao abrir o jornal vejo a imagem escatológica postada pelo presidente. Vê-se um Jair sem camisa, fragilizado, deitado, com os dizeres: “Estaremos de volta em breve, se Deus quiser. O Brasil é nosso!”.
Tanto na época do deplorável atentado em 2018 quanto nesta intervenção médica a que se submete o presidente nesta quarta (14), o capitão-presidente se expõe com a fragilidade da carcaça à qual estamos todos presos.
A política é feita de símbolos, e, no caso de Jair Messias Bolsonaro, o símbolo é a morte.
O que faz a morte? Torna-o soberano e mito. O riso espalhafatoso ao simular morrer sem ar, imitando pacientes graves de Covid-19. A defesa do fuzilamento de 30 mil pessoas.
O tratamento hospitalar do presidente, o sétimo desde 2018, é necessário. Não é imprescindível, no entanto, expor-se em frangalhos, desnudo, em imagem jogada às multidões. Isso é uma escolha política.
Ao se colocar como um líder a navegar contra os infortúnios da mortalidade que nos une, ao lado de uma figura religiosa ao pé da maca, o presidente mitifica-se ou assim quer ser visto. E, ao mitificar-se, reforça sua pulsão da morte como arma política.
Toda a resposta presidencial à pandemia que vitimou meio milhão de brasileiros foi um longo beijo necrófilo. Bolsonaro precisa da morte porque é essa a sua forma de governo. “Eu não sou coveiro, tá certo?”. “Mortes vão haver”. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”. “A gente lamenta todas as mortes, está chegando ao número 100 mil, mas vamos tocar a vida”. “Todos nós vamos morrer um dia, aqui todo mundo vai morrer”.
Os humanos e outros primatas são os poucos seres vivos que ritualizam a morte, porque é da capacidade do luto que é feita nossa humanidade. Contra a necrópolis em que Bolsonaro nos meteu a todos devemos lutar com a pulsão de vida. Desejo ao presidente que se recupere rápida e plenamente para que possa, enfim, ser responsabilizado pelo governo da morte que preside.
O Dia do Rock foi ontem. Mas nunca é tarde para lembrar desse estilo musical nascido da amplificação elétrica do blues. Quando o violão das paisagens agrárias e amplas do delta do rio Mississipi não era mais suficiente para ecoar o lamento de ex-escravos negros. Que, mesmo depois de libertos na Guerra de Secessão (1861/1865), seriam segregados pelo século seguinte no racismo institucionalizado do sistema Jim Crowe, nos estados do Sul dos EUA. E se mudaram para buscar sua humanidade em meio à cacofonia urbana das grandes cidades do Norte do país.
Concebido, gestado e parido nos anos 1940 e 1950, já foi dito que o guitarrista Chuck Berry seria o pai do rock and roll, enquanto o pianista Little Richard seria a “mãe”. O filho pródigo, quando garotos brancos dos EUA começaram a requebrar os quadris como negros, para quebrar paradigmas morais de comportamento, foi Elvis Presley. O estilo seria reinventado na Inglaterra dos anos 1960, por outros garotos brancos talentosos, reunidos em bandas como The Beatles, The Rolling Stones e Cream.
A coisa se alastraria pelo mundo do pós-II Guerra, chegando ao Brasil também nos anos 1960, com o movimento baiano da Tropicália, como baiano era Raul Seixas, a banda paulista Os Mutantes e a popular Jovem Guarda do Iê-iê-iê, parida no bairro carioca da Tijuca, que teria como rei o capixaba Roberto Carlos. E explodiu de vez nos anos 1980 do BRrock, com bandas como as cariocas Blitz e Barão Vermelho, as paulistas Titãs e RPM e as brasilienses Legião Urbana e Paralamas do Sucesso.
Embora tenha sido marcado pelo standard da MPB “O bêbado e a equilibrista”, na voz de Elis Regina, o rock brasileiro foi a trilha sonora real da redemocratização do país que saía da sua última ditadura militar (1964/1985). “Que país é este?”, indagava Renato Russo no chamado. “Brasil, mostra a tua cara”, clamava Cazuza na resposta.
Bandleader dos Beatles, John Lennon chamava Chuck Berry de “meu herói”. Já o batismo da banda de Mick Jagger e Keith Richards viria de um verso da música do mestre do blues Muddy Watters, que nasceu no Mississipi e se mudou para Chicago, trocando o violão pela guitarra: “a rolling stone gatter no moss” (“pedra que rola não cria limo”).
Mas seria o Cream quem desceria mais às raízes do rock, ao resgatar o mestre do delta blues Robert Johnson, regravando seu sucesso “Crossroads”, para influenciar outras gerações pelo mundo. Muito por influência do seu tímido guitarrista, que já vinha da experiência em outras bandas, entre elas a Yarbirds, antes desta mudar de nome para Led Zeppelin. Conhecido como “deus da guitarra” e amigo em vida dos seus pares precocemente falecidos Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan.
Foi de Eric Clapton que vi na manhã de hoje uma charge no grupo de WhatsApp deste blog, postada na noite de ontem, em homenagem ao Dia do Rock, por seu talentoso autor, Walter Silva Jr. Inspirado nela e com o mesmo dolo, deitou-se esta prosa. Abaixo o traço do Waltinho, a música de Johnson por Clapton, o baixista Jack Bruce e o baterista Ginger Baker, mais os versos escritos quase um quarto de século atrás, pelo jovem que fui:
Eric Clapton, em homenagem ao Dia do Rock, por Walter Silva Jr.
Decano do jornalismo campista com sólida formação marxista na juventude, José Cunha Filho tem uma expressão que define boa parte da militância de esquerda brasileira: “marxista de axila”. É o indivíduo que põe “O Capital” de Karl Marx embaixo do braço, sem nunca ter lido nem o mais fininho “O Manifesto do Partido Comunista”, e sai gritando palavras de ordem.
Não é o caso do também jornalista Luiz Carlos Azedo (confira aqui), outro de sólida formação marxista, que escreveu artigo publicado hoje no Correio Braziliense. O texto é necessário à compreensão dos protestos populares de cubanos (confira aquie aqui) contra a ditadura comunista de Cuba, com um didático passeio pelo “socialismo real” no mundo, até suas consequências ao Brasil de hoje. Onde o ex-presidente Lula (PT) lidera com folgas todas as pesquisas à eleição presidencial de outubro de 2022, daqui a pouco mais de 14 meses.
Confira abaixo:
(Arte: Correio Braziliense)
Luiz Carlos Azedo, jornalista
Saia justa na esquerda
Por Luiz Carlos Azedo
Milhares de cubanos foram às ruas, no domingo, protestar contra o governo em meio ao agravamento da pandemia e da crise econômica no país. A crise cubana pôs uma saia justa nos partidos e nas lideranças de esquerda, principalmente no ex- presidente Luiz Inácio Lula da Silva, amigo da liderança cubana desde quando Fidel Castro deu uma força à criação do PT, recomendando que todos os partidos de esquerda — então na ilegalidade — se somassem ao líder operário que despontava na política após as greves no ABC de 1978.
Leonel Brizola, no PDT; Miguel Arraes, no PSB; e Luís Carlos Prestes, até então no PCB, não embarcaram no partido operário criado por líderes sindicais, intelectuais e estudantes na reforma partidária de 1979. A maioria dos militantes de esquerda que havia participado da luta armada contra o regime militar, cujo grande expoente foi o líder comunista Carlos Marighela (ALN), porém, encabeçada por José Dirceu, seguiu a orientação do “Comandante”.
O livro A Ilha, do jornalista Fernando de Moraes, fez a cabeça de muita gente, em cores vibrantes: em Cuba, todos ganhavam o suficiente para sobreviver com dignidade, com políticas de educação e saúde exemplares. O sonho do “homem novo”, de Che Guevara, fazia do socialismo cubano, com seus comitês revolucionários, um contraponto ao burocrático modelo da União Soviética e do Leste Europeu. A Revolução Cubana rivalizava até com a Revolução Cultural de Mao Tse Tung, o líder chinês que deu todo poder aos jovens estudantes da Guarda Vermelha e perseguiu a velha liderança comunista, inclusive Deng Hisiao Ping, que seria reabilitado após a morte de Zhou En Lai e se tornaria o pai da modernização da China.
O presidente cubano e novo líder do Partido Comunista, Miguel Díaz-Canel, culpou os Estados Unidos pelas manifestações. Convocou apoiadores a irem às ruas “em defesa da revolução”. O apelo à mobilização partidária é um sinal de que a situação é grave: “Estamos convocando todos os revolucionários do país, todos os comunistas, para que saiam às ruas em todos os lugares onde ocorram essas provocações”, disse. O regime cubano mantém um sistema de mobilização popular no qual jovens trabalhadores e estudantes das províncias são levados para Havana, com o objetivo de participar das manifestações oficiais e, eventualmente, munidos de tacos de beisebol, pôr para correr os grupos dissidentes que realizam protestos.
Cortina mágica
Cuba sofre com o agravamento da crise econômica, foi fortemente impactada pela queda drástica do turismo durante a pandemia. O país lida com escassez de remédios, longas filas para acesso a alimentos e cortes de energia elétrica desde o fim da ajuda soviética. Ultimamente, tem recebido apoio da China. O principal aliado do regime cubano na América Latina é Nicolás Maduro, que mantém milhares de técnicos e assessores cubanos na Venezuela, mas o regime bolivariano também anda mal das pernas. A mesma coisa acontece com a Nicarágua, de Daniel Ortega. Os governos Lula e Dilma Rousseff também ajudaram muito o governo cubano, inclusive com a construção do estratégico porto de Mariel, concebido para ser uma espécie de “hub” portuário do Caribe. Mas, agora, com o presidente Jair Bolsonaro no poder, toda a colaboração econômica foi suspensa.
A crise cubana veio em péssima hora para a candidatura de Lula, pois o regime comunista cubano é um mau exemplo para qualquer candidato democrata. Cuba perdeu o charme político, mesmo que a narrativa do boicote dos Estados Unidos como causa de seus problemas econômicos ainda tenha alguma razão de ser. Não justifica, porém, o seu fracasso econômico, diante do esplendor do capitalismo de Estado chinês. Pode ser que a crise leve à aceleração das reformas econômicas, como aconteceu com a China depois do massacre estudantes da Praça da Paz Celestial. A outra possibilidade é o colapso político do regime, semelhante ao da União Soviética, que se desmilinguiu após a queda do Muro de Berlim e a vaia em Mikhail Gorbatchov, em plena Praça Vermelha, no Primeiro de Maio de 1991. Em dezembro daquele mesmo ano, a União Soviética se autodissolveu.
Só o futuro dirá o que vai acontecer, mas a crise cubana rasgou a cortina mágica que cerca a ilha, tecida por mitos revolucionários. Como diria o escritor tcheco Milan Kundera, quando o mundo corre em direção aos cubanos, já está maquiado, mascarado, pré-interpretado. “E os conformistas não serão os únicos a ser enganados; os seres rebeldes, ávidos de se opor a tudo e a todos, não se dão conta do quanto também estão sendo obedientes, não se revoltarão a não ser contra o que é interpretado (pré-interpretado) como digno de revolta.”
Este blog tem um grupo de WhatsApp, que divide com o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, considerado por muita gente entre os mais qualificados de Campos. Talvez por sua diversidade entre profissionais liberais, professores, sindicalistas, empresários, políticos e religiosos de matizes variados. Que funciona como laboratório virtual da democracia real goitacá e tupiniquim. Com o objetivo de alimentar o Grupo Folha com pautas e análise crítica.
Moderá-lo é uma honra e uma responsabilidade. Que testa a capacidade de convivência entre pensamentos opostos, dentro do limite de respeito ao contraditório, eventualmente transposto. Quando a placa de “não ultrapasse” se faz necessária. Sobretudo em relação à disseminação de fake news e a grupos que pensam poder disputar uma pretensa hegemonia política dentro do grupo, visando torná-lo mais uma dispensável bolha virtual.
Muitas vezes debates se desenrolam no grupo. E, algumas vezes, ensejam participação da moderação. Como na noite especial de ontem. Em meio a uma overdose de espetáculos esportivos de primeira qualidade. Como a final da Copa América de futebol e as artes marciais mistas (MMA) do UFC 264, no sábado. Seguidos no domingo da final de Wimbledon do tênis, da final da Eurocopa de futebol e do terceiro jogo das finais do basquete da NBA. Tudo isso a pouco mais de 10 dias da abertura das Olimpíadas de Tóquio.
E, entre a Argentina de Lionel Messi 1×0 Brasil de Neymar Júnior, a trilogia nos pesos leves entre o estadunidense Dustin Poirier e o irlandês Conor McGregor, o Itália 1×1 Inglaterra definido na disputa pênaltis pelos goleiros Gianluigi Donnarumma e Jordan Pickford, a consagração do sérvio Novak Djokovic entre os maiores vencedores de Grand Slams da história, e do duelo que segue entre o Milwaukee Bucks do ala-pivô greco-nigeriano Giannis Antetokounmpo e o Phoenix Suns do armador estadunidense Chris Paul, o mundo gira entre outros personagens, países e disputas.
O debate sobre Cuba sempre gera polêmicas. Travado ontem à noite no grupo, inicialmente, entre o liberal Fernando Loureiro, empresário e ex-subsecretário de Planejamento e Orçamento de Campos, e a comunista Graciete Nunes, professora estadual e secretária de Comunicação do Sepe-Campos, que também pôs o Chile na discussão. Acesa por um link do UOL (confira aqui) sobre Cuba, postado no grupo pelo jurista Cleber Tinoco, advogado da Uenf.
Antes de o debate ser complementado no grupo, com maior conhecimento de causa, pelo cubano Raul Palacio, professor e reitor da Uenf — “entendo que os problemas atuais de Cuba deveriam ser resolvido pelos cubanos que moram em Cuba” —, a moderação também meteu sua colher. Segue abaixo a tentativa de análise feita, neste caldeirão borbulhante chamado mundo, após a provocação da Graciete sobre Cuba. E a perspectiva dos comunistas como ela chegarem ao poder pelo voto, nas eleições presidenciais do Chile em novembro:
Não criminalizo Cuba, Graciete. Entendo o contexto histórico da Revolução de 1959, inicialmente anti-Fulgêncio Batista e depois marxista no diapasão da Guerra Fria, pela reação dos EUA à perda do seu “quintal” caribenho. E sobretudo após a tentativa de invasão à Baía dos Porcos em 1961, chegando ao ápice no ano seguinte, em que toda a humanidade foi posta em risco, com a Crise dos Mísseis soviéticos. Mas, me desculpe, não entendo uma elite de burocratas de partido como trabalhadores. Ainda que reconheça e admire características como o acesso popular integral à saúde e à educação.
O que não concordo é com ditaduras. E penso que a defesa da democracia é um valor da tal civilização greco-romana-judaico-cristã. Talvez não universal, por sua aplicação bem mais complexa em outras civilizações, como a chinesa, a islâmica e a indiana. Embora, nesta última, uma transição interessante tenha sido feita pelo liberalismo inglês, com todas as mazelas do domínio britânico sobre a Índia. Hoje governada pelo populista de direita Narenda Modi.
Cuba integra a Civilização Ocidental. E, mais cedo ou mais tarde, terá que fazer a transição de passageiro perdido do túnel do tempo da Guerra Fria, oprimido por um bloqueio que não tem nenhuma justificativa desde a queda do Muro de Berlim em 1989 e da dissolução da União Soviética em 1991. Trinta anos depois, oxalá consiga fazê-lo com democracia e as conquistas sociais do socialismo.
Já o Chile parece ser o oposto. Montou a economia mais acertada da América do Sul com o liberalismo na ponta da baioneta da ditadura militar mais sangrenta do continente. E desde os protestos de 2019, que testemunhei diante da La Moneda, não aceita mais ter estabilidade econômica com injustiça social, sobretudo aos idosos. Se, neste contexto, os comunistas chegarem ao poder pela democracia, e dela se mantiverem zelosos, palmas para vocês.
— E aí, até o Centrão deixou Bolsonaro de brocha na mão na PEC do voto impresso da Bia Kicis? Enquanto tiveram sumo para chupar do governo, antes de deixar o bagaço, travarão os mais de 120 pedidos de impeachment na Câmara. Mas acenderam o sinal amarelo e disseram claramente que não avançarão o vermelho rumo ao precipício com o capitão — constatou Pedro, após abrir os trabalhos no boteco com o primeiro gole de Serra Malte.
— Capitão depois que foi para a reserva para não ser expulso do Exército, por planejar explodir bomba em quartel. Na ativa, nunca passou de tenente. Mas você viu como ele reagiu? — indagou Aníbal, rindo, após também molhar a palavra com cerveja gelada.
— Disse que, no ano que vem, “ou fazemos eleições limpas, ou não teremos eleições”. Quer fazer com o voto impresso o que Trump tentou fazer com os votos pelos correios nos EUA em 2020. E deu no que deu. O que você achou?
— Achei que lembrou aquela piada do sujeito que usava short, sem cueca, no tempo em que circo ainda tinha animal selvagem. Na apresentação do domador, o leão fugiu da jaula e partiu para o público. No meio da correria, quando o camarada também tentou se levantar e fugir, só então percebeu estar com os testículos presos entre duas tábuas da arquibancada. Aí sentou e começou a gritar: “volta, que o leão é manso; volta, pelo amor de Deus, que o leão é manso”.
— Só que, no caso, a prisão dolorida no vão entre as tábuas e o leão partindo são anunciados a cada nova pesquisa — ponderou Pedro, alguns minutos após se recompor do acesso de gargalhadas que o fez cuspir involuntariamente o gole de Serra Malte sobre a mesa.
— Só em julho, já foram três ecoando o rugido do leão. A CNT/MDA, divulgada na segunda, registrou que 48,2% dos brasileiros consideram o governo Bolsonaro ruim ou péssimo. Com 41,3% a 26,6% para Lula no primeiro turno. Sem contar os 63,7% que disseram confiar na urna eletrônica.
— Sim, depois veio a XP Ipespe, na manhã de quinta. E deu o recorde de 52% que acham o governo Bolsonaro ruim ou péssimo. Com 38% a 26% para Lula se a eleição fosse hoje. E registrou também o estrago das revelações de corrupção na compra de vacinas, feitas pela CPI da Covid no Senado: 81% já sabem e 63% consideram verdadeiras.
— E daí, na tarde da mesma quinta, foi divulgada a primeira parte da Datafolha. Nela, não só 51% consideram o governo federal ruim ou péssimo. Chegam a 52% os que acham Bolsonaro desonesto. 55% que o acham falso. 57% que o acham indeciso. 58% que o acham incompetente. 62% que o acham despreparado. E 66% que o acham autoritário. São 57% que o acham pouco inteligente. É eufemismo de burro.
— E que eufemismo usar para os 25%, 1/4 do eleitorado, que declararam na pesquisa presidencial Datafolha, divulgada ontem, que ainda votariam em Bolsonaro?
— O mesmo usado para aqueles, entre os 46% que disseram à Datafolha votar em Lula e acreditam que ele é “a alma mais honesta do Brasil”. Ou que ainda tentam defender a catástrofe do governo Dilma, que converteu as bases sólidas de Fernando Henrique e Lula em castelo de areia, sob as ondas da maior recessão econômica da história da República.
— Dilma só não é um desastre maior à esquerda porque terá o contraste do que Bolsonaro é e será, anos após 2022, à direita brasileira. Mas o que seria um novo governo Lula? Ele apareceu na Datafolha batendo todos os prováveis adversários, não só Bolsonaro, no segundo turno.
— Sabemos o que foi Lula no boom internacional das commodities. Das quais vivemos de explosões eventuais desde o pau-brasil, passando pelo açúcar, o ouro das Minas Gerais e o café. Até o ferro, a soja, a proteína animal e o petróleo de hoje. Diferente de Bolsonaro, ninguém pode chamar Lula de burro. Mas sabemos o que ele foi na época das vacas gordas. Não sabemos o que seria, mais de 10 anos depois, nas vacas magras.
— E Bolsonaro?
— A 15 meses das urnas, o vento pode mudar? Lógico, pode mudar. Mas a rejeição perto dos 50% de Bolsonaro em todas as pesquisas, 59% pela Datafolha, é proibitiva. A qualquer um que saiba fazer contas. Votar nele, hoje, é eleger Lula. De maneira ainda mais segura que foi votar em Haddad no primeiro turno de 2018, para eleger o tenente/capitão no segundo.
— E a tal terceira via? Entre Lula e Bolsonaro?
— Aí é o que diz um dos melhores quadros políticos do país. Cristovam Buarque foi escorraçado do PT por ser sério. E falou: “Os outros não têm tanta rejeição, mas não têm voto”.
— Mas uma dessas possibilidades de terceira via e presidente do Senado, Rodrigo Pacheco ontem tomou posição. E foi contra as ameaças de Bolsonaro e setores militares contra à democracia.
— Pacheco é a opção do antilulismo no caso de impeachment de Bolsonaro. Cada vez mais no radar. Omar Aziz é presidente da CPI. E errou ao falar em “banda podre” dos militares, por conta dos que tomaram de assalto o ministério da Saúde. Para disputar essa guerra de facções contra o Centrão. Na disputa dentro do governo Bolsonaro em tentativas de compra de vacinas pra lá de duvidosas. Todas virulentas de corrupção.
— Entraram juntos com Pazuello. Que foi denunciado pelo MPF de Brasília por sua gestão “imoral e antiética” da pandemia. É como esse coronel da reserva do Exército e seu lgar-tenente, o tal do Elcio Franco, que não queria vacinar a população carcerária do Brasil. E agora pode integrar.
— Os militares cometeram erros capitais na história da República. Do golpe que a fundou e passou pelo genocídio dos sertanejos na Guerra de Canudos. E a ditadura entre 1964 e 1985. Mas devemos a eles a manutenção das fronteiras continentais do Brasil. E foram as únicas Forças Armadas da América Latina que enviaram tropas para combater o nazifascismo. À bala, na Europa, na 2ª Guerra. Talvez a última guerra moralmente justa do mundo.
Líder fascista Benito Mussolini e seu pastiche em duas rodas por Jair Bolsonaro
— Pois é. E agora estão com o presidente da República que copia as motociatas de Mussolini.
— Não são todos, Pedro. A maioria do oficialato das Forças Armadas é séria e muito preparada. Estão cientes, como o Centrão, que o leão passeia fora da jaula do circo. E sua presa com o orgulho entre as pernas e rugindo acuada de medo — advertiu Aníbal, tomando na mão direita para levar à boca o copo de Serra Malte gelada.
“Em hipótese nenhuma” o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), será candidato a govenador do Estado do Rio em 2022. Foi o que ele garantiu na manhã de ontem em entrevista ao programa Folha no Ar, na Folha FM 98,3. Onde disse que seu pré-candidato ao Palácio Guanabara é o presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz (PSD), mas elogiou o governador Cláudio Castro (PL). Indagado se uma eventual eleição deste não seria sua melhor opção, já que o vice-governador eleito em 2018, se eleito governador em 2022, não poderia se candidatar à reeleição em 2026, Paes respondeu: “se em algum momento eu for discutir esse apoio (a Castro em 2022), esse seria o último argumento (espaço aberto em 2026) que me levaria a apoiá-lo”. O prefeito do Rio ressaltou a importância de Campos no Norte e Noroeste Fluminense. E elogiou o prefeito Wladimir Garotinho, do seu partido, com quem se encontrou por acaso na quinta: “ao contrário do pai, que é um político de mais conflitos, me parece um quadro político muito preparado, articulado”. Nacionalmente, considerou a situação do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) como “muito crítica”. E negou que seu almoço recente com o ex-presidente Lula (PT) tenha sido sinal de apoio à eleição presidencial de 2022.
Prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (Foto: Divulgação)
Quadro encontrado na Prefeitura do Rio — Acho que é importante a gente dizer, para não ficar só no jogo de culpa de gestor A ou B, nosso adversário político (Marcelo Crivella, Republicanos, ex-prefeito do Rio derrotado por Paes no segundo turno de 2020): o Brasil vem vivendo uma crise ética, política e econômica desde 2014. Esse é um fato bastante relevante, senti isso com muita força já no meu segundo mandato de prefeito. Então, é óbvio que o país que passa por uma crise há quase sete anos, você tem uma dificuldade muito grande, uma degradação social, o aumento da pobreza, a miséria, queda de arrecadação. Isso tudo gera um ambiente muito ruim. E é neste ambiente, justamente, que os gestores são mais exigidos. É neste momento que a gente precisa de gestores com mais experiência, com mais competência. O Rio, em 2016, resolveu eleger o Crivella prefeito, que se revelou um péssimo gestor; repito, enfrentando uma situação difícil. Nunca disse que a situação era simples, pelo contrário. Mas, ele não soube lidar com a crise, ao contrário, agravou ainda mais aquilo que já era difícil. Então, para onde quer que você olhe, seja do ponto de vista da zeladoria da cidade, passando pela prestação de serviços de Saúde, de Educação, de Transporte, tudo isso se degradou muito. Então, o desafio é grande. Acho que a melhor definição, o esboço inicial, é ajeitar as finanças e botar a cidade para funcionar de novo. Aí, sim, você voltar a recuperar a capacidade de investir e fazer.
“Em hipótese nenhuma” — Não vou disputar a eleição (a governador). Eu fui eleito para ficar aqui (como prefeito) por quatro anos. O grau de degradação da cidade (do Rio) é muito grande. Se tivesse uma mensagem clara minha, durante o processo eleitoral, até sob o ponto de vista de a população poder identificar com mais tranquilidade o vice-prefeito (Nilton Caldeira, PL), isso poderia até ser uma possibilidade. Eu não nego o meu desejo de um dia poder governar o Estado do Rio de Janeiro, um estado com tanto potencial, tanta capacidade e tanta força, e que, infelizmente, vem passando pelos problemas que passa. Mas, isso não vai acontecer em 2022, em hipótese nenhuma.
Felipe Santa Cruz e Cláudio Castro — Eu tenho uma pré-candidatura colocada, que é a do presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz (PSD). É um quadro muito qualificado, muito preparado e que tem, na minha opinião, capacidade de enfrentar alguns temas que o nosso estado enfrenta, entre eles o da Segurança Pública, que deixou de ser uma questão restrita à capital ou à Região Metropolitana do Rio de Janeiro; passou a ser uma questão de todo o estado. Então, ele tem essa enorme capacidade, uma enorme capacidade de articulação a nível nacional que pode ajudar muito ao nosso estado. Mas falta muito tempo para a eleição. Eu tenho aqui que fazer o registro sobre a maneira habilidosa, correta, com que o governador Cláudio Castro (PL) tem conduzido a administração do estado. Ele pegou o estado numa situação muito inusitada, ainda como uma pessoa desconhecida até do meio político, e tem demonstrado muita habilidade, tem sido muito correto no trato com os prefeitos, inclusive com o prefeito da capital. Então, esse processo é mais para frente. O que eu desejo é que a gente possa fazer esse ponto de virada no estado do Rio de Janeiro. O que a gente tem visto, infelizmente, é que o estado tem se degradado muito, perdido importância econômica, perdido protagonismo, e isso é inaceitável. Nós estamos trabalhando junto com o governador Cláudio Castro para conseguir avançar. Agora, a pré-candidatura colocada por mim e pelo meu partido é a do Felipe Santa Cruz.
Lula, Bolsonaro e terceira via — Eu acho que é muito cedo ainda. Hoje, parece haver uma polarização entre o ex-presidente Lula (PT) e o presidente Bolsonaro (sem partido). A gente vê, agora, uma queda bastante forte da popularidade e da credibilidade do presidente Bolsonaro. A gente percebe também uma rejeição muito grande desses dois personagens. Há um desejo, no mundo da política e em vários atores sociais, de que surja o que eles chamam de terceira via, sei lá o que isso quer dizer, mas uma alternativa a esses dois nomes. E nós estamos a um ano da eleição. O processo eleitoral ainda é tema de políticos, da imprensa, pois estamos aqui debatendo, e de determinados setores. A população ainda não se ligou para isso, ela está preocupada com o altíssimo desemprego que está enfrentando, com o preço do quilo do arroz, com passagem do ônibus que já é alta e com o ônibus que falta, porque o setor está completamente destroçado. Então, essas são as preocupações da população. Eu acho que o candidato a presidente que tiver mais capacidade de apresentar isso é que vai ser o escolhido.
Reflexo no RJ — Voltando ao estado do Rio, eu acho que isso (a eleição presidencial) vai ter muita influência na eleição estadual. Será mesmo que o presidente Bolsonaro apoiará o governador Cláudio Castro? Será mesmo que o governador Cláudio Castro vai querer o apoio do presidente Bolsonaro? Será mesmo que o presidente Lula levará a sua candidatura até o fim? Será mesmo que vai haver essa disputa entre essas duas forças? Isso é um processo que a gente tem que observar. Ainda falta muito tempo, as forças políticas estão se movimentando. Eu acho que é muito bom para o Brasil que a gente tenha várias candidaturas, e é muito bom para o estado do Rio de Janeiro também que a gente tenha várias candidaturas. Qualquer eleição em que você fique limitado a poucos candidatos, é muito ruim. Eu disputei a eleição de 2018 (a governador), a população tinha uma quantidade grande de alternativas. Na eleição de 2020 (a prefeito), de novo a população tinha uma quantidade grande de alternativas. Em uma eu perdi, na outra eu ganhei. Então, eu acho que é importante que surjam novas candidaturas, que surjam ideias diferentes para o estado. Por isso, a eleição em dois turnos ajuda. Você vai, no segundo turno fazer a composição política.
Fernando Gabeira compara Bolsonaro/2022 a Crivella/2020 — Eu nem vi esse comentário do Gabeira, mas ele é um personagem que eu sempre observo com muita atenção, que tem uma visão perspicaz sempre da política, porque é jornalista, está na estrada há muito tempo e já esteve lá dentro, como deputado e como candidato de várias eleições majoritárias. E eu acho que, sim, a situação do presidente Bolsonaro é muito crítica. A capacidade dele de dialogar com diferentes setores da sociedade… aliás, de dialogar. A incapacidade dele de dialogar é uma característica muito forte. Isso, obviamente, limita as possibilidades de ele ampliar. Eu entendo, às vezes, que fica ali um jogo meio de dois personagens se retroalimentando; dois personagens que têm uma rejeição muito alta, o presidente Lula e o presidente Bolsonaro, hoje o presidente Bolsonaro muito maior. Acaba que o Bolsonaro joga muito mais com a história de “vocês querem que eles voltem?”. Ele já ganhou a eleição (de 2018) assim. Eu não acho a situação dele simples, não. Acho a situação dele muito complicada, até porque o Brasil não vai bem. Tirando a pandemia, essa tragédia que nós vemos acontecendo, no Brasil você tem uma economia muito degradada, tem muita gente desempregada, com nenhuma perspectiva de crescimento econômico. É uma inflação alta, é o PIB sem crescer, enfim, as estruturas mais fundamentais do Estado brasileiro, no sentido de chegar à população, não funcionam. Hoje, você pega o sistema de assistência social, pode perguntar isso aos prefeitos do Norte e Noroeste Fluminense, você não tem mais os repasses regulares do Sistema Único de Assistência Social (Suas), que é fundamental para tratar da população mais vulnerável. Então, me parece um governo (Bolsonaro) muito frágil politicamente, muito frágil do ponto de vista gerencial, e que enfrenta uma situação econômica trágica. Não sei que milagre eles podem fazer. Mas, no final, fica um pouco aquela velha frase: a grande questão é comida na mesa, é o emprego da população. E, óbvio, isso agravado por essa tragédia da pandemia, na minha opinião, muito mal conduzida, muito mal gerenciada. Ninguém aqui é culpado pela pandemia, ninguém é culpado pela doença, nem o presidente nem ninguém aqui do Brasil. Mas, quando se depara com o cenário adverso, você gerencia bem a crise ou gerencia mal. E a crise foi mal gerenciada no Brasil.
Campos dos Goytacazes — Primeiro, eu acho que o Rio tem ou teria que ter duas capitais: a cidade do Rio/Niterói, que é o centro da metrópole, e acho que Campos devia ser a segunda capital do estado. Enfim, óbvio que isso não é possível do ponto de vista administrativo, mas, na prática, e essa era uma proposta minha quando fui candidato a governador (em 2018). Na prática, o grande centro de referência da parte Norte do estado é a cidade de Campos. Portanto, merecia algum protagonismo maior por parte do Governo do Estado na discussão dos órgãos administrativos, no momento de tomada de decisão, na própria presença das autoridades públicas e políticas. Portanto, essas duas cidades (Rio e Campos). E incluo aqui Rio/Niterói, porque, tirando a poça (Baía de Guanabara) que tem entre nós (risos), são duas cidades muito próximas. Rio e Niterói têm esse protagonismo natural, mas era importante que Campos pudesse cumprir com esse papel para todo Norte e Noroeste. A minha percepção sempre foi de muita distância entre o centro de tomada de decisões e uma parte enorme do estado, sei lá, de mais de 1/3 do território, vamos chamar de 2/5 do estado, que acabam muito relegados a um processo de decisão geograficamente muito distante.
Governo Wladimir — Eu estive ontem (quinta, dia 8), por acaso, com o prefeito Wladimir Garotinho (PSD). Tivemos uma conversa. Eu ingressei nas fileiras do PSD, partido do prefeito Wladimir Garotinho. Apesar de conhecê-lo muito pouco, me parece um quadro político muito habilidoso, muito preparado. Até brinquei com ele ontem: ao contrário do pai (o ex-governador Anthony Garotinho, sem partido), que é um político de mais conflitos, de mais embates, de mais brigas, ele (Wladimir) me parece um quadro político muito preparado, articulado, que está aí enfrentando a situação com muita dificuldade. A situação de todos os municípios, de todos os gestores públicos municipais, não é uma situação simples.
Castro é melhor por que, se eleito governador em 2022, não poderá se reeleger em 2026? — Só quem pensa política de forma pequena imagina isso. A pior coisa na política é quando um ator político se coloca no lugar do outro com a sua própria cabeça. Quando você se coloca no lugar do outro, tem que tentar se aproximar do que pensa o outro. A última coisa que eu penso é em 2026, sinceramente. Se eu penso em alguma coisa hoje mais distante, é em 2024, na possibilidade da minha reeleição aqui como prefeito. É fundamental para a vida do prefeito, tanto para a vida do prefeito aqui do Rio quanto para a vida do prefeito Wladimir, aí em Campos: nós precisamos de um bom governador, que tenha capacidade, que realize, entregue. Um bom governador facilita muito a vida, a popularidade e a reeleição de um prefeito. O que eu desejo é que o estado do Rio de Janeiro invista em infraestrutura, retome o seu protagonismo econômico. O que eu desejo é que a minha cidade deixe de ser tomada parte do território por milicianos e a outra parte por traficantes; isso acontece na Baixada, em São Gonçalo, na Região dos Lagos. Hoje, em cidades pequenas do Sul Fluminense, há presença de fuzis nas ruas. Essa deve ser a discussão que vai nos pautar para 2022. Agora, dizer que vou apoiar o sujeito porque não vai ser candidato à reeleição. Enfim, fiz meus elogios ao governador Cláudio Castro, mas, se em algum momento eu for discutir esse apoio, esse seria o último argumento que me levaria a apoiá-lo.
Porto do Açu — Eu vou um pouco naquela lógica do que eu tinha dito quando falei das duas capitais. Você tem um investimento do tamanho do Porto do Açu aí (em São João da Barra): ele tem que ser catalisador e tem que propagar para todas as regiões do Norte e Noroeste. Uma pena, por exemplo, que Campos não tenha conseguido ter um protagonismo maior na instalação da indústria petrolífera, do óleo e gás, na cidade de Campos. Seria o mais óbvio, o mais lógico, pela própria infraestrutura, pela própria dimensão de Campos. Mas, se você consegue consolidar esse ramo de desenvolvimento a partir de Campos, isso vai irradiar e trazer riquezas para todas as cidades do Norte e Noroeste Fluminense. Hoje, eu vejo o Porto do Açu como a grande aposta, a grande possibilidade. É uma oportunidade que Campos não pode perder. Aliás, ontem eu conversava isso com o prefeito Wladimir, no encontro que tive com ele, e ele chamava a atenção para isso: como, de certa maneira, equívocos cometidos pelo pensamento campista fizeram com que a Petrobras acabasse em Macaé. Isso não pode acontecer com o Porto do Açu. É uma possibilidade enorme, e a cidade que pode ter protagonismo nisso é Campos, por uma série de fatores, pela qualidade de vida que oferece, pela quantidade de serviços que oferece, pelo capital humano de que dispõe. Isso irradia para as outras cidades, como, de certa maneira, as qualidades do Rio de Janeiro conseguem ser irradiadas para as demais cidades da metrópole.
Almoço com Lula — Eu o recebi para um almoço no Palácio da Cidade, há cerca de três semanas atrás. Nos meus outros mandatos, passei por três presidentes da República: o Lula, a Dilma (Rousseff, PT) e o Michel Temer (MDB). Passei por três governadores de estado: Sérgio Cabral (MDB), Pezão (MDB) e o (Francisco) Dornelles (PP), que ficou um período como governador. Sempre tive com todos eles uma relação institucional, de parceria, trabalhando em conjunto. É a maneira como vamos trabalhar. Eu acho que, quando você está numa função administrativa, quando você assume um cargo de prefeito, governador ou presidente, tem que ser institucional. Não dá para ficar travando batalha eleitoral ou política o tempo todo, conflitando, querendo usar a cadeira de prefeito numa luta política que não tem a ver com os interesses da cidade que você representa. Busco fazer assim com o governador Cláudio Castro, de maneira muito bem-sucedida. Converso muito com ele, temos trabalhado em parceria aqui.
Visão de Bolsonaro – O presidente Bolsonaro, dos que eu convivi, é o presidente mais distante. Não é uma pessoa que tenha uma visão federativa, vamos chamar assim, tão clara quanto vi no presidente Lula, na presidente Dilma e no presidente Michel Temer. Mas, tenho dialogado com diferentes setores e áreas do Governo Federal de maneira positiva. E, de novo: o presidente Lula é uma pessoa que eu não diria ser um amigo. Tive uma relação muito boa, respeito politicamente, reconheço os serviços que ele prestou ao Brasil. Quando veio ao Rio de Janeiro, tive o prazer de recebê-lo para um almoço no Palácio da Cidade, reencontrá-lo, não o via há muitos anos. Foi um prazer muito grande recebê-lo aqui no Rio.
Pauta com Lula — Falamos de tudo. Óbvio que o presidente Lula é um político com muita história, com muita experiência, muita capacidade de diálogo. Me pareceu muito firme no desejo de se candidatar, muito indignado com o que se passa no Brasil se hoje. O presidente Lula, na prática e nas suas ações, sempre demonstrou uma preocupação com as pessoas mais pobres, com aqueles que precisam mais do Estado, de serviço público. Enfim, foi uma conversa de política, sobre o Brasil, sobre o Rio, sobre os acontecimentos dos últimos anos. Tive uma conversa muito sem pauta, muito agradável. Foi, de fato, um prazer reencontrar o presidente Lula.
Acordo? — O presidente Lula é um político muito experiente, eu sou um político experiente, e ambos sabemos que há uma distância muito grande entre o dia de hoje e a tomada de decisão. Mas, é óbvio que as conversas ajudam a construir, a trocar ideia, opiniões, a ajustar, enfim. Isso tudo faz parte do processo da política. Então, eu acho que foi isso. Nós não nos sentamos para fazer um acordo político. As pessoas acabam interpretando: “Ah, o Eduardo Paes vai apoiar o Lula porque recebeu o Lula para almoçar”. Não. Eu recebi o Lula para almoçar e, no mesmo dia, o presidente do meu partido, Gilberto Kassab, trouxe o pré-candidato a presidente Rodrigo Pacheco (DEM), para jantar. Então, eu almocei com o Lula e jantei com o presidente do Senado. As pessoas têm que conversar, têm que dialogar. Eu não tenho o menor problema de conversar com adversário, porque isso faz parte do processo político, esse é o papel que nós, políticos, temos que cumprir. As pessoas até reconhecem em mim qualidades de bom gestor, mas governante não é CEO de empresa. Governante tem que ter capacidade de articulação política, de montar time, de fazer boa gestão, sim, mas principalmente de ter compreensão do quadro como um todo. A tragédia brasileira está muito nessa negação da política que nós vivemos nos últimos anos. Inclusive, faço uma crítica. Fui contra o impeachment da presidente Dilma, acho que foi um arrepio institucional absurdo. Sob ponto de vista político, um equívoco. Mas era uma pessoa com enorme incapacidade também de diálogo político. Incapacidade de olhar para o diferente, para dialogar com aquele que pensava diferente. A política exige isso da gente. Até porque, senão, vai para a ditadura. Se só eu tenho razão, por que eu vou querer ouvir opinião contrária? É importante ouvir. No final, você pode manter sua opinião, mas é importante ouvir a opinião contrária.
Confira abaixo, em vídeo, a entrevista do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, ao Folha no Ar de sexta (9):
Geraldo Coutinho e Natália Soares (Montagem: Joseli Mathias)
Reabertura de usina = R$ 200 milhões em 2022
Mais R$ 200 milhões na economia de Campos em 2022, com a reabertura da usina Paraíso. Foi o que Geraldo Hayen Coutinho, um dos seus proprietários, projetou no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, na última quarta (7). Em 2020, duas usinas geraram na economia goitacá R$ 500 milhões, 1/3 do orçamento executado do município. “Nós fechamos o negócio com o Renato Abreu, proprietário da usina Sapucaia, onde a Coagro é gestora. Acordamos há três anos que Paraíso cessaria sua moagem, direcionando sua cana para Sapucaia. E chegou o momento de darmos mais um salto na escala de produção, com a reabertura de Paraíso. Que já parte no primeiro ano com faturamento próximo a R$ 200 milhões”, revelou o industrial.
Natália busca protagonismo em 2022
Entrevistada do Folha no Ar de quinta (8), a professora Natália Soares (Psol), ex-candidata a prefeita de Campos em 2020, falou em buscar protagonismo na eleição de 2022. Perguntada se concorreria como deputada estadual, ela respondeu: “O timing do partido é diferente do timing das expectativas. Temos conversas e passaremos pelo processo congressual do Psol em setembro. Por isso não é possível dar uma resposta agora: vou? Qual o cargo? A gente não tem isso ainda fechado, porque esses espaços de discussão coletiva precisam ser respeitados. Mas a gente busca, sim, um protagonismo, que foi conquistado na outra eleição (em 2020)”.
Força política do comércio (I)
Um ponto reconhecido por Geraldo e Natália foi a força política demonstrada pelo setor produtivo goitacá, tanto na abreviação do lockdown da cidade em abril, quanto ao impedir até agora a aprovação do novo Código Tributário. “Nós estamos vivendo hoje um movimento inédito na cidade. Reconheço a legitimidade do prefeito, mas me solidarizo com a classe empresarial, quando ela busca qualificar essa discussão. Não dá para simplesmente dizer: ‘o orçamento não fecha e eu preciso complementarֹ, a saída é aumento de tributo’. Esse discurso tem que ser refeito. Esse custeio (da Prefeitura), de fato, está enxuto?”, questionou Geraldo.
Força política do comércio (II)
Natália também reconheceu a força do setor produtivo, embora com conclusões diferentes: “O Código Tributário não passa por um amplo debate com todos os setores. Quem está fazendo essa discussão hoje é esse setor produtivo. Mas careceu de um amplo debate com as universidades, com os pesquisadores que estudam desenvolvimento regional. O TCE (Tribunal de Contas do Estado) comunica que o município excede (o limite entre folha de pagamento e receita própria). Aí você tem decisões. E, sim, precisa pagar mais quem ganha mais. Na nossa visão esse setor (empresarial), com certeza, vem recuperando força política”, analisou Natália.
Nota quebrada a Wladimir: 6,25
Nota 6,25 aos seis meses da gestão Wladimir Garotinho (PSD). Foi a avaliação, na média, das notas de 0 a 10 dadas por Geraldo Coutinho, presidente do Sindicato da Indústria Sucroenergética do Estado do Rio de Janeiro (Siserj), e pela professora universitária de filosofia Natália Soares. No Folha no Ar de quarta, Geraldo deu nota 8 ao novo governo municipal. Bem mais rigorosa no Folha no Ar de quinta, Natália deu 4,5. E disse não falar só em seu nome, mas do Psol goitacá. Em painel de análise sobre a primeira metade de ano do governo, publicado nesta edição, com seis outros entrevistados, a nota ao governo teve uma média superior: 7,4.
Industrial: nota 8
“É o primeiro mandato do prefeito Wladimir. Ele tem todas as credenciais para fazer um bom governo e não enxergo nada que diminua essa possibilidade. Ele assumiu, como seus antecessores, um problema orçamentário de Campos que começa em 2000 e se torna crônico em 2012. Acho que ele pode ajustar alguma coisa, como na questão do Código Tributário. E ainda dou nota 8, esperando que esses próximos seis meses possam vir a confirmar, ou, caso contrário, nos obriguem a rever essa nota. Mas eu acredito no governo Wladimir, acredito no vice dele; Frederico Paes (MDB) tem uma bagagem muito sólida”, apostou Geraldo.
Psol: nota 4,5
“Preciso lembrar da reabertura do Restaurante Popular. Foi muito importante para as pessoas vulneráveis. E a gente reconhece isso. Mas a questão hospitalar, a ausência de insumos, medicamentos, permanece. A gente percebe que o governo cede à pressão das escolas privadas. É uma loucura reabrir no próximo semestre, mesmo no modelo híbrido. A gente tributa na conta da gestão a falta de diálogo com outros setores, passar portarias sem ouvir o conselho de educação, da mesma forma que acontece com o anfiteatro Kapi. Em democracia tem que existir contrariedade e diálogo. A média é 5? Está em 4,5”, avaliou Natália.
Regimento
O advogado Bruno Gomes, atual procurador da Câmara de Campos, disse que tem, junto com toda equipe procuradoria, uma missão: a de criar um novo regimento neste recesso. Que a Câmara faria mudanças, a coluna havia antecipado em 19 de junho. Porém, de acordo com Bruno, nem seria uma reforma, mas um novo regimento, evitando interpretações dúbias que existem no atual. Segundo o procurador, o presidente da Casa, Fábio Ribeiro (PSD), determinou que uma cópia da proposta seja enviada aos vereadores — após o recesso, no início de agosto —, para que todos participem de uma construção democrática para aprovação do regimento.
Confira nos vídeos abaixo, em três blocos cada, as entrevistas de Geraldo Coutinho e de Natália Soares ao Folha no Ar, respectivamente, de quarta e quinta: