Vanessa Henriques – Ex-alunos se mobilizam para salvar a Uenf: patrimônio de Campos e do Norte Fluminense




O ano de 1989 foi o que se pode rotular, sem exagero, de “espetacular”. Praticamente tudo era novidade na Planície Goitacá, desde um prefeito recém-empossado aos 28 anos até a expectativa de eleição direta para a Presidência da República, a primeira da minha vida e do país em três décadas. Pela importância de Campos no cenário político nacional, quase todos os 22 (isso mesmo, 22!) candidatos passaram pela cidade em campanha eleitoral, e eu, repórter da TV Norte Fluminense e Jornal A Cidade, tive acesso à boa parte deles, em revezamento de pautas com os colegas Alrênio Nascimento, Mauro Silva, Antônio Fernando, Sueli Freitas e Ocinei Trindade. Todos sob o comando de Rose David e Gianinno Sossai.
Era tudo novidade e excitação. Entrevistas, caminhadas com Paulo Maluf, Afonso Camargo, Guilherme Afif Domingos, Enéas Carneiro (”meu nome é Enééééas”), além dos semideuses batizados com seus nomes mortais de Leonel Brizola e Ulysses Guimarães. Ninguém passa por estes últimos com a alma impune. A mim não coube acompanhar Lula em sua primeira campanha, tarefa/privilégio de Alrênio. Éramos (quase) todos eleitores do petista… Em compensação, fui a Macaé cobrir o comício de Collor, já no segundo turno disputando contra Lula. Daquela cobertura guardo duas recordações: líder das pesquisas, Collor não dava entrevistas, mas como houve um encontro no auditório do Hotel Ouro Negro, montei trincheira no acanhado elevador junto ao cinegrafista (o falecido Sérgio Batista), tão logo a comitiva deu sinais de se retirar do recinto. Por poucos segundos um homem alto, empertigado, já exalando poder por todos os poros, esteve a dois passos do esconderijo, de minha espreita no elevador e confiante que a logomarca da Rede Globo na canopla do microfone fosse atrair o “caçador de marajás”.
— Governador, governador. Arrisquei.
Com o estilo marcial que marcaria sua postura no curto governo, Collor virou nos calcanhares e desceu a pé os quatro os cinco andares do hotel e deixou-nos sem a entrevista. Tenho outra história de elevador, mas com Leonel Brizola e muito mais agradável. Conto outro dia…
Mal descemos à rua, minha equipe foi cercada por um grupo de petistas que nos dirigiram os piores impropérios. No estreito entendimento daqueles tempos de maniqueísmo (hoje não muito diferente) acharam que, por trabalharmos numa emissora afiliada à Rede Globo, “patrocinadora” de Collor, éramos “colloridos” também. O que nos salvou de uma eventual agressão física foi uma “praguinha”, tipo de propaganda eleitoral, um adesivo, que eu mantinha colada na parte interna do paletó: era branca com o nome de Lula em letras vermelhas, que mostrei aos intolerantes, como prova de minha condição e opção política. Fomos aplaudidos. Ter posições definidas e pagar por elas, aliás, sempre me trouxe mais alegrias que dissabores…
Muito já se falou e ainda muito há que se falar dos gloriosos anos 80, mas aqui nestas lembranças baseadas apenas na memória ainda alcançável, abuso da paciência dos leitores deste Opiniões — porque só aqui me arrisco escrever na primeira pessoa— para dizer que 1989 não foi ano só de eleições. Por aqui, na esteira do alvorecer de um tempo que prometia novo, também vicejava a obsessão do quase centenário Austregésilo de Athayde, presidente da Academia Brasileira de Letras. Ele sonhava fazer, no Solar da Baronesa, então de propriedade da ABL, um centro internacional de formação de lideranças e a maior biblioteca brasiliana do mundo. Até a carta de Pero Vaz de Caminha falavam em trazer de Lisboa para integrar o acervo da instituição. Com seu prestígio de intelectual reconhecido internacionalmente, Athayde angariou recursos para recuperação do velho solar construído para ser residência da baronesa de Muriaé e que frequentava habitualmente, coadjuvado por uma secretária. Poucos foram os repórteres em atividade naquela época que não foram admoestados por aquele velho de cabelos brancos em desalinho, que de tão ranzinza, simpático e inesquecível se transformava.
De chofre, costumava interpelar repórteres antes que sacassem qualquer pergunta óbvia:
— Você sabe quem é o único brasileiro coautor da Declaração dos Direitos Humanos?
Enquanto o pobre repórter balbuciava qualquer resposta, ele emendava.
— Sou seu. Vocês são mesmo uns analfabetos…
Das personalidades que Austregésilo trouxe a Campos para ver sua obra, o então presidente de Portugal, Mário Soares (falecido há poucos dias, aos 92 anos), foi dos mais importantes. Organizou-se uma entrevista coletiva em torno de uma enorme mesa em “U”, o mestre de cerimônia era o jornalista Fernando Leite, à época secretário de Comunicação da Prefeitura de Campos, que abriu a coletiva franqueando mim a palavra para a primeira pergunta. Eu não tinha nada em mente para perguntar ao presidente de Portugal… Perguntar se não seria o caso de ele pedir perdão pela colonização nefasta de seus conterrâneos estava fora de cogitação. Fiz qualquer indagação acerca dos processos de redemocratização entre Portugal e Brasil com dez anos de diferença a favor da antiga metrópole. Soares respondeu diplomaticamente e suspirei aliviado.
Toda essa história em torno de 1989 é para chegar ao último dia da campanha eleitoral. Ulysses Guimarães, o gigante “doutor Ulysses”, que teria grandes chances de ser presidente se a eleição de 1985 tivesse sido direta, amargava uma péssima colocação nas pesquisas entre os 22 pretendentes. Moreira Franco, governador do Estado do Rio, apoiava Ulysses, por isso resolveu encerrar a campanha do PMDB em Campos. Naquela época as eleições ocorriam sempre no dia 15 de novembro e a campanha obrigatoriamente encerrada alguns dias antes. Era domingo, já estava perto da meia noite e Ulysses ainda não chegara ao palanque montado na esquina das avenidas Salo Brand e professora Carmem Carneiro, em Guarus. De plantão no jornal A Cidade, que era o único dos jornais campistas a circular às segundas-feiras, eu estava no alto da escada do palanque quando de repente, vejo uma mão ossuda e branca brandindo em minha direção, pedindo socorro para puxá-lo para cima. Estava meio escuro, mas pude ver claramente o brilho dos olhos azuis daquele homem especial, cuja mão segurei e puxei com firmeza. A adrenalina profissional impediu externar a emoção de fã. Era a mão do Doutor Ulysses, a mesma que semanas antes tinha promulgado a mais liberal e democrática de nossas constituições.
Ulysses sofreu derrota humilhante nas urnas. Teve cerca de 4% dos votos válidos e ficou atrás até do folclórico Enéas. Perdeu poder na Câmara Federal e o comando do partido. Passou por período de depressão e retomou o leme do barco ao liderar a campanha do impeachment de Collor. Desapareceu no mar de Angra dos Reis antes de ver o ex-caçador de marajás enxotado do Palácio. Era 12 de outubro de 1992 o helicóptero que levava Ulysses, Dona Mora e os inseparáveis amigos Severo e Henriqueta Gomes, caiu na viagem de volta a São Paulo. Todos foram encontrados e sepultados, menos Ulysses. Por coincidência era o dia em que os católicos comemoram a Padroeira do Brasil.

Desprezo ditadores. A tirania talvez funcione no cinema ou na literatura para efeito de narrativa ou reflexão, mas na vida cotidiana, não. Não dá para ser feliz sob jugo. Desconfio de quem despreza a História e os fatos. Os militares? São úteis. Os sacerdotes religiosos? Também são. Os criminosos? Ameaças constantes e devem ser combatidos. Os jornalistas? Necessários. O diálogo e o debate? Sempre. O silêncio? Segundo um provérbio árabe é uma grande sabedoria. Li tal provérbio em um livro do Malba Tahan. Nem tudo que se lê interessa, mas o poder atrai muitas atenções, protestos e críticas.
Na semana passada, o texto escrito por Claudio Kezen neste blog despertou (aqui) alguns comentários acalorados (o que acho ótimo) quanto à defesa da democracia. O Brasil e o mundo vêm sendo acometidos por uma onda de extremistas, sejam de esquerda, sejam de direita, além da ultra-esquerda e da ultra-direita. Estes defensores de interesses políticos e religiosos estão em diversos segmentos da sociedade. A cultura, as tradições, as fronteiras do país, a liberdade de expressão, os idiomas e credos devem ser preservados e respeitados, mas hoje em dia estamos discordantes de quase tudo. Estamos convictos de que estamos certos e todos os outros errados. Maniqueísmo já é algo preocupante desde sempre, mas quem é bom e quem é mau hoje no convívio social? Depende do ponto de vista.
O escritor italiano Umberto Eco chegou a dizer que a Internet ajudou a dar voz aos imbecis. As redes sociais ajudam a dilatar essa impressão de bobagens escritas e postadas a todo instante. É muito provável que eu também seja um dos imbecis que escreve ou comenta este texto ou aquela postagem, dependendo do ponto de vista de quem me lê. Todos nós queremos opinar (o que acho ótimo), mas nem todos nós queremos ouvir ou ler a opinião contrária à nossa. Não basta ser contra ou a favor, mas a capacidade de argumentação quase sempre passa pela superficialidade e incapacidade, percebo. Quando critico o PT e outros partidos, lulistas, ativistas em geral, tucanos, líderes religiosos em geral, maus políticos em geral, membros da família Garotinho, Dilma, Temer, um filme, uma obra teatral, a fala de alguém que se expõe em rede, significa correr risco. Se elogio, também corro risco. Posso ser julgado e condenado quando agrado ou quando desagrado. Se o texto for ruim, piorou. Paciência e pagamento compulsório. Percebo claramente quando não agrado e vejo um lado positivo nisto, pois tento conviver com as diferenças, já que não sou igual a todo mundo, apesar de algumas semelhanças.
O mundo já seria violento desde antes do Éden. A violência não deve ser encarada como algo banal para ser tolerado. Porém, se não toleramos tantas ameaças, somos exterminados antes da hora derradeira. Dizer a verdade e o que se pensa custa caro e custa cargos. O ex-secretário nacional da Juventude, Bruno Júlio, caiu depois que defendeu uma chacina por semana nos presídios brasileiros após a explosão de motins em Manaus e em Roraima. “Tinham que ter matado mais”. A declaração do político do PMDB ligado ao gabinete do presidente Michel Temer não deixa de ser um exemplo do que boa parte da sociedade pensa. Certamente, muitos concordaram com ele, mas outros não. Presos e criminosos também têm pai, mãe, filhos, alguém que os ama, mesmo sendo malfeitores. O milagre da regeneração desses bandidos em cadeias infernais espalhadas pelo Brasil e pelo mundo deve ficar mais difícil de acontecer. O Estado é responsável em preservar a vida de todos os cidadãos, inclusive encarcerados, mas não dá conta. E a população carcerária só aumenta.
Se o Brasil não dá conta de hospitais, escolas e universidades públicas, quando poderá contar com prisões adequadas para recuperar e ressocializar condenados? Muitos acham melhor (e creio que sobretudo governantes) que presos se rebelem e se matem, pois assim esvaziam cadeias, policiais e políticos não são tão expostos e é menos complicado botar problemas para debaixo do tapete, visto que nossa sociedade violenta costuma dizer que “bandido bom é bandido morto”. Imagina uma rebelião dessas com Anthony Garotinho, Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, José Dirceu, Marcelo Odebrecht e outros dentro do sistema prisional brasileiro? O crime organizado tem vencido em todas as frentes, e combatê-lo e vencê-lo não tem sido competência de nenhum governo.
A corrupção é tamanha na sociedade, governos e instituições (nem igrejas escapam) que tudo está entregue à sorte, principalmente nossa sobrevivência. O Brasil conta com cerca de 700 mil encarcerados e outro tantos milhões de criminosos do lado de fora à espera de algum tipo de freio, punição ou julgamento. Aqueles que defendem o regime militar de governo de volta ao comando do Brasil devem se lembrar que crimes bárbaros e toda espécie de corrupção não deixaram de existir de 1964 a 1985. Há décadas registramos assassinatos no Brasil com números que superam países que vivem em guerra por anos. Entretanto, recentemente na história do país nunca se viu tanto empresário e político poderosos sofrerem prisões e condenações como temos testemunhado, muito embora alguns acusem esses acontecimentos como perseguição e disputa de poder entre uma suposta elite minoritária de direita contra uma esculhambada esquerda (im)popular e (des)articulada. Vivemos em uma guerra civil não declarada oficialmente faz tempo.
Brasileiro tem um baita complexo de inferioridade. A arrecadação nacional de impostos é trilionária, mas nenhum serviço público funciona como deveria, sem falar no quesito “segurança”. Quase tudo é inferior e de qualidade ruim. O feliz ano novo e o tão aguardado ano 2017 vem enchendo de tapas e tabefes a cara da sociedade brasileira em duas semanas apenas. Nem o governo, nem as instituições republicanas escapam de mais essa (com)provação de desajustes e incompetência no que diz respeito ao sistema prisional e o combate ao crime.
As pessoas de bem já são reféns de maus políticos, traficantes de drogas e armas, além de empresários gananciosos e opressores há muito tempo, bem antes desses motins e matanças dentro dos presídios. Há, talvez, muito mais criminosos perigosos do lado de fora das prisões. E, com quase absoluta certeza, poucos de nós estamos preparados para enfrentá-los sem por vidas inocentes em risco e cabeças a prêmio. Alguns se iludem com a especulação de que ditadores militares (Jair Bolsonaro é um exemplo) ou regimes autoritários como de Adolf Hitler que promoveu matanças atrozes resolvam o problema da violência e da ordem social. Faltam-nos saúde, educação, moradia e segurança dignas, mas nos faltam sobretudo o amor à vida. Existir ou deixar de existir já parecem não ter importância ou significado para as pessoas que têm se desumanizado demais.
Os comentários de postagens em redes sociais e de reportagens em sites de notícias nos dão um bom termômetro o quão preconceituosos, intolerantes, cruéis e mal-informados somos. Porém, precisamos e queremos opinar. Nem que seja para aniquilar o outro (uma pena). A jornalista Paula Vigneron outro dia em sua rede social se mostrou chocada com comentários de pessoas sobre mulheres que sofrem abuso sexual. Eu cheguei a dizer a ela que fico dividido entre ler e não ler os comentários imbecis de internautas, os quais Umberto Eco um dia chegou a criticar. Os imbecis, tiranos e machistas têm na rede o mesmo espaço democrático para se manifestarem que um Prêmio Nobel ou um cientista sério possuem, por exemplo. Mas, infelizmente, muitos desperdiçam tal privilégio, incitando o ódio e promovendo mais intolerância. Donald Trump parece ser o tirano imbecil da vez (mas eleito pelo voto).
Como separar o joio do trigo? Bem, o respeito às diferenças, a começar pelas opiniões, é um tremendo exercício de paciência e sabedoria. Seria mais fácil admitir que cometemos erros e equívocos. Opinar sobre o filme La La Land, de DamienChazelle; ou sobre homens usarem saias (eu defendo firmemente, sobretudo em um país quente como o Brasil) também vale. Em outro momento, quem sabe, falaremos de cinema e vestuário masculino, pois precisamos antes de falar sobre qualquer assunto, sobreviver às ditaduras, tiranias e matanças. Haja bom humor e sorte.

Sabemos que o dinheirinho nosso de cada dia é suado e limitado: por isso tem grande valor e devemos usá-lo com equilíbrio. Assim, qual de nós, sem ter tido aumento de salário ou renda, ousaria passar a gastar mais sem qualquer preocupação? Mesmo acumulando desejos e adiando necessidades, evitamos qualquer passo nesse sentido por causa de uma coisa chamada responsabilidade. É por causa dela que, quando acontece de gastarmos além da conta, corremos a segurar despesas para reorganizarmos nossas finanças — pelo menos será este o conselho que pessoas responsáveis nos darão. Se você acha que isso é lógico, reflita sobre o que nossos governantes têm feito com o dinheiro público e (re)pense se tem cabimento sair por aí gastando como se não houvesse amanhã.
Por razões culturais — mais do que por justificáveis necessidades —, o brasileiro parece desejar e/ou supor que o dinheiro público brote como chuchu na cerca num latifúndio da Casa da Moeda. A consciência de que o Estado só tem para gastar o que nós pagamos de impostos ainda é rara. Além disso, costuma-se esperar que o Estado se responsabilize pela tutela de grande parte de nossos desejos e necessidades. E pior, enquanto isso: o dinheiro público costuma ser visto como sendo de ninguém — embora devesse ser encarado pelo que é: o suado e limitado dinheiro de todos nós. Então, se não podemos fazer milagres no orçamento doméstico, como esperar que o governo possa fazer no dele — especialmente para atender demandas que nem deveria?
Aliás, o debate sobre o papel do Estado precede as discussões sobre seu desempenho. Sem entrar nesse mérito, até porque este espaço é limitado como o nosso dinheiro, precisamos primeiro separar desejos de necessidades, encarando o atendimento das últimas com racionalidade e dentro das possibilidades do mundo real. O contrário é o que o alcoólatra faz: beber irresponsavelmente até espremer a garrafa — e sem jamais se satisfazer. Isso porque mesmo todo o dinheiro público não é suficiente para cuidar de todas as necessidades. É urgente que a sociedade compreenda as limitações orçamentárias, exija que se faça mais com menos e reconheça que precisamos de gestores eficientes sem imaginar, com culpa indevida, que isso nos transformará em pessoas insensíveis.
Não, ninguém se tornará (nem deve se achar) insensível por defender controle de gastos mesmo sabendo o imenso tamanho da demanda social, reprimida há séculos, por atendimento nos serviços públicos – e acho que o Estado tem que satisfazê-la no que lhe compete. Infelizmente, nem a imensidão das necessidades, nem o tamanho da nossa sensibilidade, nem nosso desejo de melhorar a vida do próximo farão crescer dinheiro onde for preciso. A gastança irresponsável (não falarei aqui da corrupção) produz o resultado inverso: a falência pública e a consequente piora dos já ruins serviços oferecidos.
Foi assim que o caos nos chegou em três esferas: Campos vendeu seus futuros royalties para tapar buracos nas contas, não nas ruas — enquanto a Educação não passa na mais rasa das avaliações, a Saúde nem encontra vaga na UTI e a máquina pública, ficando sem combustível… vai parando enquanto acumula defeitos. Por sua vez, o Estado do Rio enlouqueceu aumentando despesas 45% acima de uma arrecadação decrescente nos últimos anos e agora atrasa até salários com a cara de quem parece não saber o que aconteceu — todo mundo sabe. Já o governo federal… movido por uma ideologia que eu reputo, no mínimo, equivocada (além de interesses imediatistas, eleitorais e partidários), produziu foi atraso social enquanto jurava fazer o contrário — afinal: nos incentivou a provar o doce, mas nos impediu de avançar para a segunda mordida (isso pra não dizer que enfiou o dedo na nossa goela pra devolvermos o que já tínhamos engolido). É evidente que vivemos cercados de péssimos e irresponsáveis administradores. Mas como mesmo chegaram aos seus cargos?
“A hora de consertar o telhado é quando não está chovendo”, se diz popularmente. E o que fizemos? Ignoramos os avisos e, não bastasse: ainda quebramos mais umas telhas achando — irresponsavelmente — que a tempestade nunca viria. Num mundo tão precisado de formigas, fomos cigarras — para o horror não só de La Fontaine. Já foi dito que “a política é a arte do possível” (Bismarck — chanceler alemão) e que “a economia é a administração da escassez” (junção que abreviei das definições de Robbins, mais alinhado ao pensamento de Mises, e de Samuelson, um pensador a la Keynes — economistas de visões divergentes). Óbvio: nem tudo é possível porque não há recursos suficientes. É a administração responsável desses limitados recursos, com a priorização das urgências e necessidades — e sem a perda de uma perspectiva humanista –, que caracteriza uma boa gestão pública.
Então, por que políticos são aplaudidos e eleitos prometendo uma fartura impossível? Por que a sociedade não se toca de que o Estado, visto equivocadamente por muitos como um desejável grande provedor de tudo – mas percebido corretamente por tantos como o provável garantidor de quase nada –, só é eficiente em nos infantilizar, por nos tirar autonomia e tolher nossa iniciativa; e em nos condenar à mendicância, por nos manter dependentes do que ele não é sequer minimamente capaz de entregar? Por que aceitamos trocar nossa independência como indivíduos pelos favores distribuídos a quem se torna “amigo do Rei”? Temos medo de crescer? Continuaremos apostando no milagre da multiplicação infinita das verbas? Vamos continuar achando que a racionalidade econômica e a responsabilidade individual são inimigas da solidariedade e da preocupação social? Até quando?
O que nos têm impedido, como sociedade, de alcançar a consciência de que é alto, muito alto, o preço da irresponsabilidade?

A cada dia que passa nos tornamos o que acreditamos ser, enquanto improvisamos um sentimento que não seja mudo para quem tão pouco entende o mundo. É interessante observar dessa perspectiva, entre o pensamento e a vida,o filme Angel-a de Luc Besson, à medida que Ângela mostra ao personagem André como ter autoestima e confiança o comportamento do personagem muda, e assim também a sua vida. O estopim da mudança foi o pensamento sobre si mesmo e a confiança para tomar as rédeas de sua vida, como essa dolorosa cena do espelho que antes o alienava ao próprio reflexo:
O filme é de 2005 com roteiro de Luc Besson, Thierry Arbogast e Martine Rapin, conta a vida de André, um jovem endividado com os criminosos franceses que resolve pôr fim à própria vida. No local onde suicidaria André encontra Ângela e a salva do que também seria seu destino. Grata, resolve ajudá-lo a resolver as pendências dele e revela um grande mistério próximo ao final.
Tal como no filme é fácil notar, tudo o que se cala transborda pelos olhos, tristeza ou alegria, insegurança ou confiança, nada dói mais que o amor sem vazão, represado dentro do coração. O fracasso parece iminente quando falta amor próprio e confiança na própria capacidade.Como já dizia William James, só existe uma causa para o fracasso da humanidade: a falta de fé em si mesmo.

Após “Ferreira Gullar — Autobiografia poética”, concluído o segundo livro das férias. A leitura de “O grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald (1896/1940), justifica que romance e seu autor sejam considerados entre os grandes do séc. XX. Na comparação com o estilo conciso de Ernest Hemingway (1899/1961), talvez maior referência do Modernismo na prosa dos EUA, a escrita fluída, mas caudalosa de Fitzgerald, endossa a distinção entre os dois feita por outro escritor, o brasileiro Luis Fernando Verissimo: “Hemingway é um seco; Fitzgerald, um suculento”.
Na verdade, como narra em seu biográfico “Paris é uma festa”, sobre os encontros e desencontros dos grandes modernistas das artes do mundo na capital francesa dos “loucos” anos 1920, sempre regados a excessos de álcool, Hemingway era não só conterrâneo e contemporâneo, mas amigo próximo de Fitzgerald. O primeiro leu antes de ninguém as cópias ainda não revisadas de “O grande Gatsby”. Ambos integravam aquilo que a também escritora Gertrude Stein (1874/1946), outra estadunidense “exilada” em Paris, batizaria de “geração perdida”.
Considerada a obra prima de Fiztgerald, “O grande Gatsby” é leitura obrigatória nas universidades do mundo que estudam a literatura dos EUA. E foi novamente popularizada com sua mais recente adaptação ao cinema em 2013, pelo diretor australiano Baz Luhrmann, tendo Leonardo DiCaprio como protagonista. Na verdade, foi a quinta transposição do livro às telas, depois de Jay Gatsby ter sido encarnado em filmes homônimos pelos atores Warnen Baxter (1926), Alan Ladd (49) e Robert Redford (74), além de Toby Stephens, numa produção para a TV de 2000.
A trama gira em torno da trágica história de amor idealizado, mesmo após consumado e perdido cinco anos antes, do noveau riche Gastby pela aristocrática Daisy Buchanan, casada e infeliz com seu igual em extrato social: o ex-astro universitário de futebol americano Tom Buchanan, asumido racista, misógino e marido infiel. Completa os personagens principais o corretor de ações Nick Carraway, primo de Daisy e vizinho de Gatsby, que passa a ser um elo na obsessessão deste em reconquistar a amada. Amor defindo assim por seu cupido:
“Quando me aproximei deles para me despedir, percebi que a expressão de assombro tinha retornado ao rosto de Gatsby, como se uma leve dúvida tivesse surgido em sua mente, questionando aquele momento de felicidade. Quase cinco anos! Devia ter havido momentos, mesmo naquela tarde, em que Daisy não correspondia totalmente a seus sonhos… Não por culpa dela, mas devido à colossal vitalidade da ilusão que ele alimentara. Uma idealização que havia crescido e se tornado maior que ela, maior que qualquer coisa no universo. Ele se lançara dentro do sonho com paixão criadora, acrescentando detalhes todo o tempo, decorando-o com cada pluma brilhante que passava em seu caminho. Não há intensidade de ardor ou de euforia que possa desafiar aquilo que um ser humano é capaz de armazenar em seu fantasmagórico coração”.
É Carraway quem narra restrospectivamente os fatos. Com o auxílio da jogadora de golfe Jordan Baker, sua namorada de ocasião e amiga de Daisy, ele atua como cupido para um amor do passado do seu vizinho misterioso, famoso pela ostentação das festas que promove na sua mansão de West Egg, Long Island, tradicional balneário marinho de Nova York. Os personagens principais têm posições sociais bem mais privilegiadas do que Myrthle Wilson, amante de Tom Buchanan e esposa insatisfeita do inexpressivo dono de posto George B. Wilson.
E não é por acaso que o romance cruza o niilismo da burguesia estadunidense com a desumanização do seu proletariado, naquele mesmo período de pujança econômica dos EUA, entre o fim da I Guerra Mundial (1914/18) e a Grande Depressão de 1929. Gatsby, Daisy, Tom, Carraway e Jordan dividem suas vidas de colorido artificial, transitando de carro ou trem entre Nova York e Long Island. E, exatamente no meio do caminho, fica o refugo do “sonho americano”, onde o casal Wilson habita no cotidiano dos “homens cinzentos” da Revolução Industrial.

Na rica descrição de Fitzgerald, pela boca de Carraway:
“Mais ou menos na metade do caminho entre West Egg e Nova York, a rodovia rapidamente se une à linha férrea e corre ao longo dela por uns quatrocentos metros, de modo a afastar-se de uma certa área desolada. É o vale das cinzas, uma fazenda fantástica em que as cinzas crescem como trigo em sulcos, colinas e jardins grotescos; em que as cinzas assumem a forma de casas e chaminés de onde sobe a fumaça; e em que, finalmente, por meio de um esforço transcendental, tomam o aspecto de homens cizentos, que se movem devagar, como se até mesmo eles estivessem se defazendo no ar empoeirado. Por vezes, surge uma linha de vagões cinzentos que se arrasta ao longo de trilhos invisíveis, produzindo um barulho apavorante, e então para; imediatamente, o enxame de homens cinzentos, carregando pás de chumbo, levanta uma nuvem impenetrável de poeira, que esconde por inteiro sua ação obscura da visão dos transeuntes”.
Ao deixar para trás uma origem social não muito diferente, na tentativa de ofertar a mesma vida de conforto material na qual Daisy foi criada, Gatsby transforma em pesadelo próprio o “sonho americano” — aquele mesmo que Donald Trump foi eleito presidente dos EUA, quase um século depois, na promessa de resgatar. Ao custo mais alto possível, a execução da fatura revela o saldo devedor da sociedade burguesa e materialista daquele começo de século 20 — que, no milênio seguinte, ainda parece estar em aberto.
Pobres ou ricos, burgueses ou proletários, todos os personagens centrais têm em torno de 30 anos. Como Fitzgerald, Hemingway e sua mesma “geração perdida” naqueles “anos loucos” entre 1918 e 1929, comungam os dilemas de quem saiu da juventude e da I Guerra — “migração daquelas hordas de bárbaros teutônicos” — rumo à maturidade. E nenhum deles parece cumprir seus ritos de passagem com mais sensibilidade do que Carraway:

“Comecei a gostar de Nova York, das sensações aventurosas e excitantes da noite e da satisfação que a constante passagem de homens, mulheres e veículos dá aos olhares inquietos. Gostava de subir pela Quinta Avenida e escolher mulheres de aspecto romântico no meio da multidão e imaginar que dentro de alguns minutos eu entraria em suas vidas, sem que jamais alguém soubesse ou desaprovasse. Algumas vezes, em minha imaginação, eu as seguia até seus apartamentos nas esquinas de ruas obscuras e elas se viravam e sorriam para mim, antes de desaparecerem por alguma porta e se perderem na escuridão cálida. No crespúsculo encantado da metrópole, sentia algumas vezes uma solidão assombrosa e percebia que outros também a sentiam, jovens pobres que gastavam o tempo em frente às vitrinas, esperando a hora do jantar solitário em qualquer restaurante, jovens funcionários de escritório perdidos no crepúsculo, desperdiçando em noites vazias os momentos mais pungentes de suas vidas”.
É o mesmo Carraway, primo de Daisy e vizinho de Gastby, que conecta seu “espanto” gullareano com o dos holandeses que, expulsos de Pernambuco, vão à América do Norte, no séc. XVII, fundar Nova Amesterdã — mais tarde Nova York. E, como os protestantes holandeses levaram com eles a comunidade judia que se assentara em Recife, inadmissível no catolicismo português, instiga pensar que Steven Spielberg, Woody Allen e Bob Dylan, entre outros, hoje pudessem ser pernambucanos.
Nos cinco últimos parágrafos do livro, pelo seu narrador, o desfecho da história de um verão:
“Na última noite, com minhas bagagens empilhadas e meu carro vendido ao dono do armazém, atravessei o gramado e fui olhar pela última vez aquele imenso e incoerente fracasso que pretendia ser uma casa, Em um dos degraus brancos, uma palavra obscena, rabiscada por algum menino com um pedaço de tijolo, destacava-se claramente ao luar, eu eu a apaguei com cuidado, esfregando a sola do meu sapato na pedra. Então, fui até à praia e deitei minhas costa na areia.
A maioria das grandes residências contruídas junto à praia estava fechada, agora que o verão havia terminado; e praticamente não havia luzes, exceto o brilho impreciso e ondulante de um ferryboat que percorria o Estreito. E, à medida que a lua se erguia cada vez mais alto, todas aquelas casas desnecessárias começaram a se dissipar, até que aos poucos tomei consciência da velha ilha que florescera em outros tempos ante aos olhos dos marinheiros holandeses, como se fosse um seio verde e dadivoso do Novo Mundo. Suas árvores derrubadas, as grandes árvores que tinham dado lugar à casa de Gatsby, haviam sido motivo de admirados e respeitosos sussurros que refletiam o último e maior de todos os sonhos humanos; durante um momento, breve, mais cheio de encantamento, os homens devem ter prendido a respiração diante deste continente, compelidos a uma tensa contemplação estética que nem compreendiam nem desejavam, face a face, pela última vez na história, com alguma coisa que correspondia plenamente à capacidade que os seres humanos têm de maravilhar-se.
Fiquei sentado na praia, meditando sobre o velho mundo desconhecido e pensando no deslumbramento de Gatsby quando pela primeira vez identificou a luz verde que ficava acesa na ponta do acoradouro como a luz da casa de Daisy. Ele percorrera um longo caminho até chegar a este gramado que o luar tornava azul, e seu sonho deve ter parecido tão próximo que seria praticamente impossível deixar de alcançá-lo. Ele não sabia, no entanto, que o sonho havia ficado para trás, perdido em algum lugar daquelas vasta obscuridade que es estendia além da cidade, em que os campos escuros se estendiam muito além da noite.
Gatsby acreditara na luzinha verde, naquele futuro orgiástico que ano após ano se afasta de nós. O futuro já nos iludiu tantas vezes, mas não importa… Amanhã correremos mais depressa e esticaremos nossos braços um pouco mais além até que, em uma bela manhã…
E assim nós prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente de volta ao passado”.
Contra a corrente, “só pra exercitar”, navegue pelos trailers de “O grande Gastby” em suas versões às telas de 1929, 1949, 1974, 2000 e 2013:

Depois que papai instalou a cortina, nossa casa nunca mais foi a mesma. Não tinha mais a incidência do sol ao fim da tarde traçando um raio que aumentava de extensão pela sala até morrer ao anoitecer. Não enxergava mais quando Dorotéia chamava em casa convidando mamãe pro dominó. Para quem as regras impediam de sair sozinho, a cortina isolou meu mundo.
Desprovido da paisagem da rua a acalentar minha curiosidade pueril, colei-me à parede e a cada som passei a associar alguma imagem. Quando um pássaro cantava, de cá eu cogitava, um melro ou um canário, pintava-o com minhas cores prediletas, reverenciava seu voo em um estilo peculiar. O pedreiro comentando com papai sobre levantar um muro me levou a imaginar as torres de um castelo medieval e seus crocodilos ou o entorno de cerca de arame farpado e eletrificado de uma base militar.
Cresci nas intermitências do claustro obscuro gerado pela cortina. Como aquela camada de cetim colocava um ponto final em minha visão, restava-me acrescentar reticências continuando a história a meu bel-prazer. Mais do que sensorialmente, finquei as raízes no quintal e cruzei as ruas de bicicleta imaginariamente, de onde o sabor das mangas caídas do pé após a chuva de verão adocicavam minhas papilas gustativas a centenas de metros de distância.
A abertura de um mundo palpável à medida em que os anos passavam deixaram essa lembrança trancafiada em algum lugar do passado. Da adolescência à vida adulta, trocamos as coisas de meninos pelas de homens. Assumimos aquele fervor burocrático do dia a dia, em um turbilhão de compromissos nos quais não diferenciamos mais onde termina nosso legítimo eu e onde começa um simulacro existencial exigido pelo mundo.
Em contrapartida, sempre quando observo da janela do meu carro as cortinas das casas balançando ao vento outonal, avoluma algo jamais de fato silenciado, como um animal na coleira latindo e dando solavancos contra a corrente chumbada no concreto. E o sinal se abre, lembrando-me da eterna progressão do mundo adiante. Por uns breves instantes, meus olhos se fecham e recrio um mundo novo, em um projeto de engenharia exclusivamente meu. Meu universo, adaptado aos meus desejos, com regulamentos próprios, onde minha satisfação pessoal reinava.
Eis que o buzinaço me lembra da obstrução do trânsito. Engato a marcha e sigo para meu próximo compromisso, para o mundo real, inequivocadamente real, inequivocadamente contra mim. Aquele vaticínio ao qual nos rendíamos, inescapável, inevitável. O buzinaço cessa. Os demais carros me ultrapassam. Sinto que cada motorista ao meu entorno acordou unicamente para descerrar as cortinas de minhas pálpebras e me libertar do cárcere de minhas fantasias.

Em São Tomé das Letras nada fazia sentido: “cogumelos azuis”, “vampiro doidão”, “diabo careta”… “Quebra tudo e chama a NASA” — cantávamos em coro, protestando contra tudo, invocando sabe lá Deus o quê.
No meio da tarde, o Ventania e suas viagens, acessíveis a qualquer um. Montanhas, pirâmides, água. “São Tomé é cidade mágica”. Eu sei, eu sei…
“É um dos sete pontos energéticos do mundo”. Em meio a muitas risadas — “quais são os outros seis”? A pergunta era legítima, mas virou piada. É a brisa na calçada, carrega um, carrega dois, carrega três.
A Ladeira do Amendoim desafia a lei da física. Puxa de baixo pra cima!! E não é “coisa pra inglês ver”!
No mato, o tempo passa diferente, definitivamente. Há vida cheia de si “pra dar e pra vender”!
Em São Tomé nada fazia sentido: parecia nem ter tido 2016. Sem golpe, sem massacre, sem desastre. O ano passado foi um filme ruim que ninguém quer rever.
…
Hoje (ontem) morre Zygmunt Bauman, autor que tanto nos elucidou sobre a Modernidade, suas incertezas, ansiedades, sobre as relações do homem na cidade.
Afinal, o que eu perco não tendo uma comunidade?
…
No último dia em São Tomé, o proprietário da casa perguntou se algum de nós havia esquecido os óculos no passeio pela manhã. Os óculos eram, de fato, de um de nossos amigos. E haviam sido esquecidos durante um passeio de ônibus com mais de quarenta pessoas, para uma fazenda a quilômetros dali.
Como os óculos teriam retornado até nós? Ficamos todos surpresos. Assim como havíamos ficado surpresos, nos dias anteriores, com cada gentileza na rua, cada explicação de bom grado e informação gratuita. Há paciência nas palavras das pessoas de lá. Há paciência nas nossas palavras quando estamos lá. Dizem que eles falam cantando… É verdade, nós ouvimos bem!
Nesses raros momentos de cordialidade e zelo por parte de estranhos, percebo, de fato, o quão líquidas são as relações na cidade — baseadas, comumente, em vantagens. Lembro-me da Modernidade Líquida de Bauman e invejo a lucidez desse povo que olha no olho e é feliz sem wi-fi.
São Tomé não faz nenhum sentido, mas o nonsense às vezes é o que há de mais honesto a ser vivido.
Quebra tudo e chama a NASA (Tibil)
quebra tudo e chama a nasa
quebra tudo e chama a nasa
quebra tudo e chama a nasa
a tesoura ta na bolsa
um cortinho e nada mais
da sala nem me lembro
onde é que esta maria
se você não tem o Franks tem
se você não tinha o Tio Pa tinhas
se você não gosta a Gal gosta
quebra tudo e chama a nasa
se a nasa não vier chama a ONU

Fiquei matutando sobre o que escrever nesta inauguração de meus escritos no blog Opiniões, a convite do jornalista Aluysio Abreu Barbosa. Grande responsabilidade. Uma coisa é escrever no meu bloguinho, outra coisa é o blog Opiniões, vitrine virtual do jornal Folha da Manhã. Nos “Outros Quintais”, estou em casa, de bermuda e sandálias, mas, aqui, é “casa dos outros” e como dizia minha mãe, “é ambiente que exige recato”.
De onde escrevo, regularmente, num canto do hall dos quartos da minha casa, onde divido a mesa com minha pequena estante (aprendi com o mestre Ariano Suassuna que, quem se aventura nas alamedas da literatura, deve escrever todo dia) vi, na prateleira em frente, a lombada do livro de Gabriel Garcia Marquez, “Ninguém escreve ao coronel”, gritar meu nome. Pensei em fazer uma analogia do título com a derrocada do nosso “coronel de tênis”, mas logo desisti. O conto do colombiano, escrito aos 29 anos, denso como tudo que escreveu na vida, antes de entregar ao mundo, o romance universal, “100 anos de solidão” é muita coisa para ilustrar o crepúsculo da nossa personagem.
Cogitei a barbárie do Presídio do Amazonas, em Manaus e me lembrei que, no final da década de 1970, do século e milênio passados, eu começava a minha militância partidária. O regime militar, já exaurido, dava os primeiros passos em direção à abertura política. Logo no início dos anos 80, o general Figueiredo, era indicado presidente da República e anunciava que quem se colocasse contra a volta do Poder Civil, ele “prendia e arrebentava”. Naquela época, ainda havia, em menor escala, os órgãos de controle e repressão e o meu maior medo era ser preso. Pensava comigo: prefiro morrer! De lá para cá muita coisa mudou no País, mas o sistema prisional continua o mesmo, uma câmara de horror. Ainda que tenha sido concebido como instituição reformadora, capaz de ressocializar o infrator. Não, tema muito áspero para início de conversa.
Quem sabe, então, uma carta pública, dessas que a gente nunca manda, ao novo inquilino do Poder Executivo Municipal, Rafael Diniz. Essas cartas em que a gente diz o que pensa e vai além. Seria pernosticismo de minha parte, eu que nunca consegui, sequer, vencer as barreiras do partido, para ser candidato a prefeito, embora tenha tentado 3 vezes. Mas, vá lá! Na carta e, seria carta mesmo, e não, e-mail, sugerir que ele convide os místicos da Planície, para uma sessão de descarrego civil no centro administrativo municipal, o nosso Passo, uma vez que ali, nos últimos 8 anos, uma seita partidária, cumpria, dia a dia, o ritual sedutor do culto à personalidade ao líder espiritual dos povos (ele, de novo!), guardando as proporções, uma versão papagoiaba do que os bocheviques faziam para Stálin, naquele castelo horrendo do Kremlin. E essa praga pega.
Antes, porém, recomendar, o que dizia o acadêmico Austregésilo de Athaíde, perguntado sobre o que faria se fosse um gestor público, “mandaria costurar a chave do cofre no cós da calça”.
Depois, pedir o esforço de reinventar a cidade – essa nossa vila formosa de São Salvador dos Campos. As cidades são espaços urbanos vivos, que se movem, e, se não cuidadas, incham, sangram em sua vielas infectas, adoecem e morrem. Cidades não são obras prontas e acabadas. São construídas, dia a dia, por isso correm o risco de se tornarem ambientes tristes, feios, inóspitos, se deixadas aos cuidados de aproveitadores, todos “com a mesma boca torta, a mesma artéria aorta, o mesmo sangue ruim”.
Colocar música clássica nos corredores dos hospitais e maternidades, depois de sanar as goteiras e consertar os elevadores, além de abastecer as farmácias de remédios. Está, cientificamente, comprovado que uma cantata de Bach, uma sinfonia de Bethoven, ou a “Feira de Mangaio”, de Sivuca, e “Asa Branca”, de Luis Gonzaga, filho de Januário, têm efeito curativo. Criar os corais dos pacientes dos CRAs, promover a inclusão pela arte, fazer nosso jardim botânico, semear creches para o resgate da primeira infância desassistida, ensinar nossa história nas escolas e convidar os artistas, os operários, as mulheres dos cortiços, as donas de casa que nunca foram ao teatro ou ao cinema, os enganados pelos mercadores da fé, os viventes das periferias para que digam que cidade querem. Eles que nunca tiveram cidade. É desse jeito que se reinventa um lugar para se viver de verdade. Com menos carros e mais bicicletas. Com poesia declamada nas praças, mesmo que só as flores prestem atenção. O começo é sempre assim. O poeta Ferreira Gullar, advertiu há décadas “a arte existe porque a vida não basta”. Ora direis, isso é coisa de doidivanas e eu responderei: amém!
Apoiar as manifestações criadoras, instituir uma volante para vigiar as margens do rio Paraíba do Sul, não, permitir que a especulação financeira violente este corpo feminino d’água que alimenta homens e animais desde sempre, sem exigir nada em troca, nem um aplauso solitário, no final do dia quando fica mais dourado, com a inclinação do sol. Ficam também sob a guarda da Volante, as lagoas, os riachos e rabichos d’água que varam a Planície à procura da vazante. Para que cumpram o seu destino de virar mar.
Pode soar détraqué, piegas, sei lá, mas criar oportunidades para os meninos e meninas, mormente, àqueles que ficam horas em frente as vitrines com os pares de tênis mais reluzentes, absolutamente, inacessíveis para seus pés descalços, neste paraíso capitalista, cujo grande tesouro é a democracia que permite tudo, desde que você tenha posses. Por aqui, até os socialistas mais convictos são democratas. Eu sou anarquista, graças a Deus!
Pedir cuidado, muito cuidado com os tartufos, que Molière tão bem identificou, nas lonjuras do século 17. São idólatras do Poder, independente de quem o exercite, no momento. São exímios bajuladores e têm como missão tirar o governante do mundo real. Só pensam em si mesmos estes sicários modernos.
Por derradeiro, lembrar ao jovem prefeito as façanhas de Lulu Bergantim, personagem do nosso patrício, da Baixada da Égua, o gigante Zé Cândido de Carvalho. O prefeito que não se curvou aos formalismos, ao rito oficial, à liturgia obsoleta do cargo e do alto de sua santa loucura transformou Curralzinho Novo numa cidade resolvida e confortável para o seu povo, agente protagonista da mudança que transforma para melhor e não para ficar igual.
Porque administrar todos administram, uns com mais tirocínio que outros, com mais esperteza desonesta, mas governar é ir além, é conduzir. Obras são perecíveis, ações são perenes.
Mas é tanta coisa, ao mesmo tempo e junta, que, em sã consciência, ninguém consegue fazer. Até Deus precisou de 7 dias para semear galáxias neste universo curvo. Eu sei. Por isso não sugiro prazo para tamanha tarefa. Peço, apenas, que comece. Já é um grande presente.
Então: Meu caro prefeito Rafael, nestas mal traçadas linhas…
Atualização do texto às 10h43

Por Aluysio Abreu Barbosa
Já escrevi e repeti mais vezes do que gostaria: nada dá a sensação do tempo passando sobre nós, do que quando ele não passa mais na vida de quem nos servia de referência. No dia de Natal, na morte do cantor e compositor britânico George Michael (1963/2016), escrevi e me lamentei, mais que pela pessoa que não conheci, pela perda do autor e intérprete de parte da trilha sonora de uma geração.
Só quem foi adolescente e jovem entre os anos 80 e 90 do último século do milênio passado, sabe o orgulho que deu fazer parte presente daquela efervescência. Da música, ao cinema, aos esportes, aos avanços da tecnologia, ao fim da Ditadura Militar no Brasil (1964/85) e da Guerra Fria (1945/91), no mundo, não há para onde se olhar retrospectivamente sem orgulho do que era produzido enquanto cumpríamos nossos ritos de passagem à maturidade.
À parte quaisquer diferenças individuais, tínhamos esperança coletiva num mundo melhor do que este tão estranho no qual nos encontramos — e constatamos, talvez em desencanto, também ter ajudado a construir.
Conheci José Eugênio Koch Torres, o Zé Eugênio, nos anos 1990. Três anos mais velho que eu, sabíamos quem éramos desde a década passada. Mas só passamos a conviver, a partir de amigos comuns, quando a diferença de idade tão “distante” na adolescência se apequenou naturalmente na juventude e idade madura.
Formal e de poucas palavras no contato inicial, se revelava verborrágico e muitas vezes assertivo após alguma intimidade. Numa mesa de bar ou reunião entre amigos, com a voz naturalmente mais solta pela bebida, não havia como “competir” com Zé Eugênio na dominância do debate. Sobre qualquer assunto, costumava dar e sustentar sua opinião com firmeza e eloquência — mesmo que, eventualmente, fosse apenas um “chute”.
Quando ele inclinava o queixo para baixo, franzia o cenho e encarava por cima dos olhos, numa expressão facial bem característica, era capaz de conferir importância com sua voz grave ao argumento, a priori, mais despretensioso. E, a despeito do desagrado do eventual interlocutor, era sempre o mais sincero possível.
Certo ou errado, não cultivava obstáculos de hipocrisia social entre mente e boca. E, embora nunca tenha lhe dito, o admirava por isso.
Fui algumas vezes à sua casa de construção antiga e bem conservada na rua Aquidaban. E nela, quando conseguia cavar a muito custo um hiato nos monólogos de Zé Eugênio, mantivemos aquelas conversas inteligentíssimas das quais, no dia seguinte, ninguém nunca se lembra.
De férias em Atafona, com meu filho, dolosamente desligado do mundo para tentar colocar corpo e leitura em dia, fiquei ainda ilhado de telefonia celular desde o último domingo, como todos em São João da Barra, por conta da competência natimorta da Vivo. Neste isolamento que me impus e que me foi imposto, fui de carro à casa da família Tinoco em Atafona, no final da manhã de ontem, quando soube que Zé Eugênio havia morrido no dia anterior, na sua casa, na Aquidaban, ponto de encontro de uma geração. Tinha acabado de voltar de Atafona.
Confesso que o impacto inesperado da notícia me deixou atordoado. Não só por conhecer e gostar de Zé Eugênio há cerca de três décadas, mas porque estive com ele apenas cinco dias antes, na segunda-feira. E sem que nada indicasse isso naquele momento, embora represente bastante agora, nosso último encontro não poderia ter sido mais emblemático: numa mesa de alvenaria sob a frondosa sombra do ficus italiano, também chamado de falsa seringueira, árvore guardiã e símbolo do Carlinhos Pisca-Pisca, boteco mais tradicional de Atafona.
Nesses encontros inesperados e prazerosos que compõem a rotina do verão atafonense, e o distinguem da estação em qualquer outro pedaço de litoral do planeta Terra, ele estava com duas tias; e eu, esperando quem chegaria de ônibus. Enquanto o fazia, sentei com eles e conversamos por cerca de meia hora, tempo de dividirmos, velas enfunadas ao vento nordeste, nossas duas últimas garrafas de cerveja.
Geralmente cético, Zé estava esperançoso no novo governo municipal de Campos, cuja posse, como assessor jurídico do vereador Neném (PTB), outro amigo comum, ele presenciara. Muito embora, como advogado, tivesse críticas à atuação do Judiciário e do Ministério Público goitacá na condução da operação Chequinho. E, se não as tivesse, não seria Zé Eugênio.
Com sua morte, me solidarizo, sobretudo, com sua mãe, Estelmar, e sua esposa, Bethânia. Para elas, como aos amigos da mesma geração, muitos bem mais próximos do que eu, se vai aquilo que Fernando Pessoa (1888/1935) definiu pela pena de Álvaro de Campos: “Um ponto de referência de quem sou”.
Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

Morreu na tarde de ontem, vítima de um AVC hemorrágico, o advogado José Eugênio Koch Torres. Ele estava na sua casa, na rua Aquidaban, após ter voltado de Atafona. Tinha 47 anos e atuava na assessoria jurídica do vereador Neném (PTB). O velório está acontecendo no Campo da Paz, onde se dará o enterro às 15h30 de hoje.
Zé Eugênio, como era mais conhecido, deixa a esposa Bethânia Castro Torres, e a mãe, Estelmar Tinoco Dias Torres. À toda família e aos muitos amigos, meu mais sincero pesar.
Atualização às 14h52 para correção de informação.