Marcelo Amoy – Fato ou Ficção?

Histórias de ficção científica sempre me instigaram. Quando criança, era só pela tecnologia “de sonho” que apresentavam; depois de adulto, por me fazerem pensar no grau das esperanças e ameaças que seriam razoáveis considerar para o futuro dado o nosso presente. Algumas das maravilhas tecnológicas com que eu sonhava lá na aurora dos anos 70 já andam por aqui há tanto tempo que algumas até ficaram ultrapassadas – vejam o vídeo cassete, por exemplo. Outras vão além do imaginado antes. Minha geração viu surgir (e/ou ficar amplamente acessível no Brasil) o microondas, o CD, o DVD, o vídeo game, o computador doméstico, a TV de tela plana (pra pendurar na parede como um quadro), o armazenamento de dados “em nuvem” e mais uma série imensa de objetos e tecnologias que, na minha infância, existiam apenas nas páginas e telas dos livros e filmes de ficção científica. Nenhuma delas, contudo, trouxe tanta mudança de hábitos como a internet e os telefones celulares.
Uma pesquisa recente indicou que o acesso à internet no Brasil se dá hoje, majoritariamente, pelos aparelhos celulares. Mais do que um telefone sem fio de alcance virtualmente ilimitado (quem veraneia em Atafona sabe que não é bem assim, rsrsrs), o que menos se faz hoje com um celular são… chamadas telefônicas. A ficção científica de minha infância – aquele aparelhinho capaz de se comunicar com todo mundo, escanear coisas, guardar informações, avisar de compromissos, executar pagamentos e mais um sem número de coisas – é hoje a mais banal das realidades. Assim como a internet.
Imagino como os historiadores do futuro chamarão essa nossa época: a de tantas e tão profundas mudanças em comunicação. O que virá (melhor dizendo: já chegou) depois da “Idade Contemporânea”? Nesse exato momento, antropólogos, sociólogos, filósofos, historiadores, psicólogos, educadores e pesquisadores de incontáveis áreas estudam como nossas relações têm sido modificadas pela internet – pelo uso que fazemos dela. As enciclopédias em que eu pesquisava meus trabalhos escolares hoje estão todas (e muitas mais) ao alcance de um toque, no sofá de qualquer sala, num banco de ônibus, na praia. Difícil imaginar um progresso tão amplo em profundidade e acesso democrático: grosso modo, da mais rica cobertura ao barraco na periferia, a internet está ali, “de graça”, para quem quiser usá-la. Os interesses individuais, contudo, seguem variando como sempre – não haveria de ser diferente.
Dizem que a internet tem sido usada como um divã onde são exibidos dramas pessoais e experiências psicológicas mal resolvidas; que virou uma vitrine em que a pessoas, voluntariamente (inadvertidamente?), abrem mão de sua privacidade por vaidade; um lugar em que se vivem vidas de personagens de romances de texto duvidoso – com altos e baixos que revelam carências e movimentos desordenados. Eu até gostaria de sugerir a certas redes sociais que oferecessem serviços de psicólogos online – fariam um bem danado pra muita gente!, rsrsrs –, mas deixemos isso pra lá. As constatações anteriores, mesmo que verdadeiras, não me incomodam: acho que as pessoas devem fazer o que quiserem sempre que permitido pela lei e por suas consciências. O drama se torna grave quando não há consciência nem autocrítica – e o grave se torna gravíssimo quando notícias são distorcidas por descaso, má vontade ou por expressa intenção de enganar interlocutores. A falta de educação formal ou mesmo de bom senso, quando ingênua, é perdoável pela ausência de condições para uma conduta contrária. No entanto… essa não é uma justificativa que todos possam apresentar.
Impulsos incontrolados de nivelar tudo por baixo; de rotular tudo apressada e rasteiramente – como se nada tivesse nuances; de julgar no primeiro ímpeto; a raiva como argumentação para ideias sem lastro… assim vejo se comportarem muitos doutores que, apesar de seus PhDs, infelizmente faltaram às aulas de civilidade, respeito e honestidade intelectual. Como tem gente por aí espalhando notícia falsa ou deturpada por interesses subterrâneos! Mesmo que cotidianas, essas atitudes ainda me espantam e sempre espantarão, embora as palavras de Hannah Arendt (no seu “As Origens do Totalitarismo”) as coloquem em perspectiva: “Num mundo incompreensível e sempre em mutação, as massas chegariam a um ponto em que, ao mesmo tempo, acreditariam em tudo e nada, pensariam que tudo seria possível e nada seria verdade”. Chegamos: é tanto absurdo verdadeiro que a falsidade soa real. E há tanta gente propensa a acreditar em qualquer coisa quanto há pessoas dispostas a se aproveitar disso a favor de sua agenda particular. Como exemplo, citarei duas postagens tresloucadas que vi recentemente – uma à esquerda, outra à direita.
No tumulto ocorrido no retorno das atividades da ALERJ, queimaram um ônibus na Av. Rio Branco. Um “luminar” da esquerda publicou o seguinte: “Eis aí o incêndio causado por uma bomba de efeito moral que a PM jogou nos manifestantes pacíficos.” Só quem não sabe que bomba de efeito moral jamais causaria um incêndio é que talvez imagine que a PM jogue bombas por esporte. No extremo oposto, na mesma época, um “expoente” da direita decretou: “A globalização é um plano dos comunistas (União Europeia e China) pra acabar com o dólar e dominar o mundo.” Ora, ora… quantas pessoas seriam capazes de misturar tanto alho e bugalho juntando UE com China, defesa do dólar, globalização e comunismo de uma forma tão rasa? Observem que não pretendo restringir nem invalidar nenhum debate sobre direito à manifestação, nem sobre a globalização ser boa ou não: o que critico aqui são a pobreza e a infantilidade e/ou o sensacionalismo e o alarmismo dos comentários. Só estupidez ou mau caratismo os justificariam – ou justificariam o surpreende número de curtidas e comentários raivosos que ambas as postagens receberam em anuência. Espanta que haja muita gente disposta a acreditar.
Eu nunca soube de nenhuma ficção científica em que houvesse uma vacina contra a estupidez ou o mau caratismo… Precisam criar uma estória dessas: quem sabe não inspira algum pesquisador por aí? Imagino se um dia o mundo conseguirá se livrar disso tanto quanto da miséria (material e intelectual). Joubert, o pensador francês cuja única obra foi publicada postumamente no começo do séc. XIX, nem se tivesse podido ler Júlio Verne (morreu antes) imaginaria a atualidade de seu pensamento 200 anos depois ou o tanto de paroxismo que a modernidade lhe emprestaria – ou seria melhor dizer: liquidamente lhe emplastaria? Até mesmo na argumentação política, hoje em dia se busca mais vitória que progresso – mas se obtém o resultado inverso: repulsa ao invés de aproximação; separação ao invés de convergência; retrocesso ao invés de avanço. Para cada mentira inventada ou replicada, a Humanidade dá um passo para trás.
Não há ganho na insistência em reduzir o debate de temas tão fundamentalmente importantes para o Brasil (e o mundo) a uma birrinha de crianças mal criadas num ringue de areia (movediça) no parquinho da internet. Sugiro que troquem a guerra de desinformação por uma de travesseiros – vai ser mais divertido, garanto! Pelo menos será mais edificante – é que as coisas, do jeito que estão, só fazem corar a Tico e Teco. Quem inadvertidamente espalha absurdos merece ser desculpado, mas precisa sobretudo ser instado a desenvolver melhor seu pensamento para deixar de ser tão bobo. Quanto a quem o faz de propósito, aí vai de cada interlocutor decidir se ignora ou se expõe e contesta o comentário malicioso com argumentação digna do nome. Já aviso que altas doses de altruísmo são necessárias porque, na maioria das vezes, essas pessoas não estão preocupadas com os fatos nem com a lógica: ou estão mais a fim de tumultuar o processo ou querem mesmo é ganhar pontos junto aos outros membros de sua facção radical – mesmo que só ecoem Umberto… Umberto… Umberto… E um Umberto é um Umberto é um Umberto…, né Gertrude? (Notem que citei o nome Umberto 6 vezes: se fosse um político na Lava Jato, poder-se-ia afirmar que temos aí seis diferentes delitos?)
Para lhes poupar a paciência, encerro – mas com outra reflexão de Joubert: “Podemos convencer os outros com as nossas razões, mas só os persuadimos com as razões deles.” Assim se estabelece o debate lúcido e se possibilita o convencimento. Será que o tele-transporte virá antes do entendimento?

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Guilherme Belido – Luminosa verdade

Instigante e reveladora a forma como o artigo “Verdade e pós-verdade”, publicado em seu “Opiniões” pelo jornalista Aluysio Abreu Barbosa, trouxe à tona a distinção entre a verdade, nem sempre glamorosa, mas recompensadora, e os tempos da “pós-verdade”, relacionando Santiago e Gatsby — saídos das criações de Hemingway e Fitzgerald — esta última intrinsicamente ligada com figuras do mundo real dos nossos dias, cujas pós-verdades escondem, grosseiramente falando, descaradas mentiras.
Em “O Grande Gatsby”, o personagem central se vale de luxo e ostentação para esconder um passado de malfeitos — ainda que por boa causa. O êxito inicial de sua pós-verdade, contudo, não se sustenta e deságua num final trágico e solitário, prevalecendo a velha máxima: quanto mais você corre de seus pecados, mais fraco vai estar quando por eles for alcançado.
Já em “O Velho e o Mar”, o pescador perde para os tubarões o troféu de sua conquista, mas as sobras e a espinha-dorsal são mais que suficientes para que todos da vila comprovem a verdade de sua bravura e a saga triunfante nascida da irrefutável vitória sobre o grande peixe.
Por aqui, a pós-verdade do ex-presidente Lula consiste em dizer que não fez o que inapelavelmente fizera; e do atual governo em afirmar que vem fazendo aquilo que está longe de fazer.
Sobre Trump… Dizer o quê? Curiosamente usando as redes sociais como principal instrumento para vencer a corrida presidencial (para alguns, os democratas teriam sucesso se ao invés de Hillary a disputa fosse com Sanders, de 75 anos), o bilionário é uma figura ultrapassada não por ter 71 anos, mas pelo alinhamento reacionário que nem se recuarmos à década de 50, de Truman a Bush — incluindo o controverso Richard Nixon — iremos encontrar outro presidente com perfil tão desfavorável.
Texto luminoso, “Verdade e pós-verdade” lança mão da literatura para alcançar profunda reflexão de diferentes aspectos dos dias de hoje, fruto da singular perspicácia e inteligência de seu autor.

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CPI na Alerj para levantar o tapete das desapropiações no Açu

“Suspeita-se que tenha muita sujeira debaixo do tapete (…) Vamos investigar!” É isso que o deputado estadual Bruno Dauaire (PR) diz pretender com a CPI das Desapropriações para a instalação do Porto do Açu, que propôs e deve presidir na Alerj — tema de reportagem investigativa do jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira, que a GloboNews exibe hoje. Alternando a veemência, sobretudo para falar do líder Anthony Garotinho (PR), Bruno também analisou o momento presente e possibilidades futuras da política campista e sanjoanense.
Folha da Manhã – O deputado federal Paulo Feijó (PR), que vinha se distanciado do ex-governador Anthony Garotinho (PR) desde a votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em abril de 2016, recentemente abriu diálogo com o prefeito Rafael Diniz, a quem se dispôs a ajudar. E você, estaria disposto a dialogar e ajudar o novo governo de Campos?
Bruno Dauaire – Assim que os novos prefeitos assumiram, eu mantive a mesma conduta que tive com os prefeitos que saíram, que foi colocar meu mandato à disposição. Essa é a minha linha política, fazer do meu mandato um instrumento capaz de conquistar benefícios para a população. Não me interessa qual a sigla partidária do prefeito, minha obrigação como parlamentar é atender quem está lá na ponta, que é o cidadão. Só não tem a minha ajuda o prefeito que não quiser e estiver amarrado em uma política ultrapassada.
Folha – Como foi à conversa que você e Rafael mantiveram na tradicional festa de Santo Amaro? Ela rendeu algum resultado prático? Sobre o que falaram?
Bruno – Foi um encontro rápido em dia de festa e de devoção. Foi uma conversa cordial, como sempre tivemos, mesmo antes de exercermos nossos mandatos. Lembramos da convivência política da minha família e a de Rafael, uma vez que meu avô, Alberto Dauaire, foi contemporâneo político de Zezé Barbosa. Me coloquei institucionalmente à disposição pelo povo de Campos.
Folha – Como está sua relação com Garotinho? Você é muito ligado ao filho dele, Wladimir Matheus (PR), que estaria tendo cada vez mais discordâncias com o pai, pela maneira personalista como este conduz seu grupo político. No que você acha que poderia ser diferente?
Bruno – Minha relação com o presidente estadual do PR, Garotinho, é boa e está muito tranquila, até porque comungamos das mesmas ideias em relação ao pacote de maldade do governo do Estado. Ele tem se posicionado firme em defesa do servidor e está muito preocupado com a situação de calamidade do Estado. Inclusive tem apresentado nas reuniões de trabalho algumas sugestões para a saída da crise sem penalizar a população e os servidores. Quanto às discordâncias, sempre haverá pensamentos diversos. Afinal, é um partido vivo e em movimento, em que todos precisam colocar as suas opiniões, nada mais do que isso.
Folha – Independente das eventuais discordâncias, como líder da bancada do PR, você vai votar de acordo com a determinação de Garotinho, contrário às propostas do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) que serão votadas na Alerj no correr da semana. Os demais deputados do PR seguirão sua orientação?
Bruno – Eu entendi e acatei as vozes das ruas, por isso voto contra o pacote. Vou orientar a minha bancada pelo voto contrário ao pacote do Pezão. Não vou mudar minha postura política depois de dois anos de um mandato, que generosamente tem sido bem avaliado pela população. Respeito meus colegas deputados que, para enfrentar a crise, pensam de outra forma. Mas eu não poderia votar a favor de um projeto que quer fazer de fiador de má gestão um inocente que é o povo. Quem quebrou o Estado foram eles. Não vou aumentar desconto de servidor e diminuir salários de categorias que já estão sem aumento há muito tempo. Quanto à Cedae, tem aí um fator histórico agregado, é uma empresa que gera recursos e tem um patrimônio bilionário e que não pode ser negociada em uma canetada.
Folha – Com o quadro falimentar do Estado, ser do contra ajuda? Quanto pior administrativamente ao atual governo, e consequentemente à população, melhor politicamente para quem ainda sonha em voltar ao Palácio Guanabara?
Bruno – Foi ao contrário, foi uma década perdida de má gestão, onde o “pior administrativamente” foi escondido debaixo do tapete para facilitar a permanência deles no Palácio Guanabara. No meu ver foi fraude eleitoral, que serviu apenas para fins de eleição. Esqueceram da população. Aumentaram despesa, se endividaram até não poder mais, abriram mão de receita e não criaram novas receitas, além de acabarem de forma criminosa com fundos vitais, como o Rioprevidência. Esconderam a realidade para o povo, o povo tinha o direito de saber. Não existe torcida, este modelo de governança que está ai é causa e efeito e o único responsável pelo quadro falimentar que se encontra o Estado do Rio. Hoje, nós da oposição somos os que mais apresentamos alternativas para ajudar o Estado.
Folha – Se vai votar contrário às propostas de Pezão, qual seria, em seu entender, a solução para o Estado do Rio? Como e por que ele chegou ao atual ponto?
Bruno – O primeiro passo é estancar o mau uso do dinheiro público. Lógico que a mudança é estrutural, mas já comecei a fazer a minha parte, naquilo que me compete, ou seja, na prática estou fechando as bocas de lobo que queimam o dinheiro publico. Aprovei por unanimidade no parlamento uma lei de acabando com os incentivos fiscais fraudulentos, recheados de vícios e desvio de finalidade. Serão milhões que deixarão de sair e outros milhões que poderão ser recuperados judicialmente. Outra medida é a repatriação e recuperação do dinheiro desviado para os cofres públicos que tem sido oriundo de corrupção. Apresentamos um projeto na semana passada sobre isso. E aí vai ter que devolver dinheiro para a Previdência, para servidores, para prefeituras. Fui também autor de uma emenda que estendeu aos municípios a possibilidade de aumentar a sua receita, através da compensação de ICMS com as concessionárias do Estado. Consegui que prefeituras acolhessem responsabilidades do governo do Estado, como o restaurante popular e outros serviços, para não serem interrompidos.
Folha – Com a prisão do ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB) pelo juiz Sérgio Moro, e do ex-governador Sérgio Cabral e do empresário Eike Batista, pelo juiz Marcelo Bretas, acredita que há algum líder político do PMDB fluminense, no grupo iniciado lá atrás por Garotinho, e depois abandonado por este, que esteja dormindo tranquilo? Na condição de deputado próximo ao presidente da Alerj, Jorge Picciani (PMDB), como está o clima na cúpula da política fluminense?
Bruno – Não tenho intimidade com os políticos do PMDB em relação ao problema e acho que eles nem teriam liberdade comigo para tocar neste tipo de assunto. Afinal, sou um deputado novo, de oposição e estamos de lados opostos. Quanto ao presidente Jorge Picciani, ele tem sido sempre acolhedor, respeita a minha postura política e o meu voto no plenário, mesmo quando diverge da sua posição. Afinal ali é o parlamento, onde as ideias diferentes se enfrentam democraticamente e tem que ser assim.
Folha – Nos meios jurídicos, políticos e midiáticos, há quem diga que Marcelo Bretas é ainda mais rigoroso do que Sérgio Moro? Comunga dessa opinião? Por quê?
Bruno – Existem vários mitos em relação a juízes. Não consigo avaliar e nem comparar o rigor entre eles. Seria leviano. Só sei que ambos são da mesma escola jurídica e estão rompendo paradigmas. São momentos singulares pelos quais passa a história política do nosso país e somente a história, com seu devido tempo, vai poder avaliar melhor esses perfis. Mas que no Estado do Rio o quadro de corrupção é pior que nos demais estados, isso é verdade. Talvez isso possa estar relacionado a um rigor maior do juiz carioca.
Folha – Por conta da Operação Chequinho, na denúncia de utilização de Cheque Cidadão na compra de votos na eleição municipal de Campos, Garotinho já entrou com pedido de habeas corpus preventivo no Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Acredita que ele possa ser preso novamente?
Bruno – Diferente de Sérgio Cabral, que foi preso acusado por corrupção, lavagem de dinheiro etc, a prisão de Garotinho foi por questão eleitoral e que aconteceu em um momento muito confuso, tanto que o plenário do TSE entendeu de modo diverso. Decisão judicial se cumpre. Porém, como advogado, não vejo qualquer elemento para uma nova prisão.
Folha – O que também tem tirado o sono de muita gente, nos meios políticos e empresariais, é a CPI das Desapropriações do Porto do Açu, que você propôs e, se aprovada, deve presidir. O jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira levará ao ar um programa sobre o caso, hoje, na Globo News. Qual será o rito da CPI e o seu objetivo?
Bruno – Vamos esperar a publicação e consequente aprovação da CPI para que o rito seja iniciado. O projeto de resolução que apresentei prevê 90 dias, prorrogáveis por mais 60, para a conclusão do trabalho. É preciso que muita coisa seja explicada desse processo estranho e truculento das desapropriações em São João da Barra. Suspeita-se que tenha muita sujeira por debaixo do tapete. Ainda tenho esperança que os pequenos produtores do quinto distrito e os cofres do município sejam devidamente indenizados. Vamos investigar!
Folha – Em entrevistas a várias emissoras de TV aberta, como InterTV RJ, SBT e Record, você tem deixado claro não ser contra o Porto do Açu, fundamental à economia da região, mas à maneira como ele teria sido imposto, com indenizações bem abaixo do valor real pagas aos donos das terras desapropriadas. Quem deveria pagar a diferença: O Estado, a Prumo, outras empresas? E de que soma de dinheiro estamos falando?
Bruno – Não sou contra o Porto do Açu de forma alguma. Sua contribuição para a região é indiscutível. A questão é exatamente essa, a forma como foram feitas as desapropriações e que tipo de facilitações ocorreram. Quem deve pagar a diferença são os responsáveis por essa covardia, sejam eles quem forem. Estamos falando é de uma área cheia de vida e muito extensa, com valor de R$ 2 bilhões, que foi desvalorizada para poucos milhões de reais por um suposto esquema denunciado pela PF.
Folha – Além da questão do preço defasado pago na desapropriação das terras para a implantação do Porto, desde que assumiu a parte da LLX no Porto do Açu, a Prumo, como sede nos EUA, tem sido alvo de muitas queixas pela postura “imperial” e a falta de interação com a comunidade na qual se instalou. Concorda com essa visão? Por quê?
Bruno – Concordo que a empresa precisa interagir melhor com a comunidade. Se faz, é em grau muito pequeno. Ela pode e deve desempenhar um importante papel social para São João da Barra e região. Não pode ser isolada do restante da região. O Porto do Açu é da nossa região e não a nossa região que pertence ao Porto. Uma das questões que merecem destaque é o conteúdo local com a contratação de trabalhadores e empresas locais. E, obviamente, uma melhor parceria com as prefeituras da região.
Folha – No grupo de Garotinho, não há nada que garanta que você vá ter novamente o apoio integral de Wladimir, considerado fundamental em sua eleição. Aventa-se que, dependendo da conjuntura, o próprio filho de Garotinho possa concorrer à Alerj em 2018. Do outro lado, há o grupo de Rafael, com alguns nomes já se colocando à disputa de deputado estadual. Por onde tentará sua reeleição? Corre o risco de ficar sem espaço?
Bruno – Meu espaço é consequência do trabalho que desempenho. Estou exercendo um mandato tão intenso, tanto em plenário, como nas comissões que presido, ao ponto de não pensar ainda em eleição, mas existe uma leitura diferente e mais atualizada, feita por pessoas que estão mais próximas do meu convívio e do convívio de Wladimir. Agora, uma reeleição está fundamentada em três pontos: compor partido, apoio político e atuação parlamentar. Graças a Deus, minha atuação como deputado tem se expandido e tenho conquistado novos espaços. Estamos formando um grande arco de alianças com pessoas que foram eleitas em diversos municípios ou foram bem posicionadas eleitoralmente. O que me empolga muito são os segmentos da sociedade e entidades civis espalhadas pelo Estado que estão reconhecendo o meu trabalho e minhas posições. Esse eleitor não pertence a partido e nem às lideranças. Acho que na eleição de 2018 haverá muito voto de opinião. O eleitor está mais atento e mais exigente.
Folha – Com a situação jurídica complicada de Garotinho, confinado num apartamento do Flamengo, no Rio, proibido pela Justiça de voltar à sua cidade natal, e algumas queixas surgindo sobre o governo Rafael, parece haver espaço para uma nova oposição em Campos. Concorda com essa visão? Se espaço vazio é espaço ocupada, quem poderia preencher essa aparente lacuna? E como?
Bruno – Você disse bem, a lacuna é aparente. A política municipal em Campos não aponta para uma novidade política a curto prazo. O ex-governador, mesmo ausente temporariamente, pelo seu histórico e currículo é a liderança de oposição. Porém, as referencias de oposicionistas e governistas, essas sim vão sendo reveladas pouco a pouco e ocupando cada um o seu quadrado. Não existe espaço vazio em política.
Folha – E em São João da Barra, berço político tradicional da sua família? Muito popular, a prefeita Carla Machado (PP) começa a fazer uma administração aparentemente melhor que a de Neto (PMDB), tarefa em parte facilitada pelo contraste com a desastrosa administração anterior. Acredita que os Dauaire possam recuperar o protagonismo no município que já foi governado por seu pai e seu avô? Como?
Bruno – Não se recupera aquilo que não se perdeu. Meu pai ainda é o maior protagonista da oposição em São João da Barra, mesmo ele não querendo ser. Quem falou isso foram as urnas. Na eleição de 2012, afastado do poder, ele teve mais de 10 mil votos e na última disputa entre Carla e Neco, o ex-prefeito, concorrendo à reeleição, não chegou à votação que o meu pai teve em 1997. Agora, não seria justo fazer uma crítica a uma gestão que começa, até porque podem confundi-la como uma defesa da administração anterior, Mas eu espero que a atual prefeita mude o modelo político que ela implantou e que perdura por dois mandatos dela como prefeita e uma do seu candidato Neco. Ou seja, é a mesma coisa há 12 anos. O mundo mudou, evoluiu, e o governante tem que estar antenado, em permanente capacitação. O governo de São João da Barra voltou no tempo. Aonde levou este modelo político atualmente? Em pleno 2017, desemprego, e os políticos celebrando conquistas antigas, garantidas desde 1997, que foram destruídas gradativamente. Vai da retirada de lixo, da comemoração de pagar o servidor em dia, passando por transporte de estudantes e por aí vai, até ao funcionamento da Santa Casa. Algo que é um direito conquistado pelo povo há décadas e que se perdeu. O modelo tem que mudar, não podemos ser a Venezuela do Norte Fluminense. O que eu puder ajudar vou ajudar, sem pensar em protagonismo ou antagonismo.
Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

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Artigo do domingo – Verdade e pós-verdade

Na prosa, talvez os dois grandes nomes do modernismo dos EUA tenham sido Ernest Hemingway (1899/1961) e F. Scott Fitzgerald (1896/1940). Amigos, a intimidade da relação entre ambos, junto a outros grandes nomes do modernismo nas artes do mundo, reunidos na capital francesa durante os “loucos” anos 1920, é descrita em detalhes em “Paris é uma festa”, romance inacabado do primeiro, publicado após sua morte.
A grande obra de Hemingway é, no entanto, “O velho e o mar”, na qual ele narra a saga solitária e épica do velho pescador Santiago contra um gigantesco marlim, nos mares da Cuba pré-Revolução de 1959. Publicado em 1952, o livro lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura dois anos depois.
Por sua vez, o romance de Fitzgerald mais aclamado pela crítica é “O grande Gastby”, publicado em 1925, cujos originais Hemingway foi um dos primeiros a ler. A história do jovem veterano da I Guerra Mundial (1914/18) Jay Gatsby, que monta um mundo de fantasia e ostentação para tentar reconquistar um amor do passado, idealizado, mesmo depois de consumado, teve cinco adaptações ao cinema: em 1926, 1949, 1974, 2000 e 2013.
Do modernismo àquilo que, na falta de nome melhor, se convencionou chamar de pós-modernidade, vivemos agora os tempos da pós-verdade (“post-truth”). Eleita a palavra do ano em 2016, pelo conceituado dicionário de Oxford, guardião da língua em que escreveram Hemingway e Fitzgerald, o novo verbete foi assim definido: “relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal”.
No ano recém-encerrado, o termo ganhou popularidade nas campanhas do plebiscito vencido pelo Brexit, que definiu a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, e da eleição presidencial dos EUA vencida pelo fanfarrão republicano Donald Trump. Ambas foram marcadas pela disseminação de notícias falsas, viralizadas na democracia irrefreável das redes sociais, que definiram as duas campanhas.
No tempo da pós-verdade, o que vale não é o fato, mas a versão do fato. É a popular “fofoca de vila”, que existe desde o desenvolvimento da linguagem e da vida sedentária pela espécie humana, ainda na Pré-História, mas só ganharia progressão geométrica em tempo real com o avanço das redes sociais nos últimos anos.
Seu questionamento também não é novo. Já estava presente na Grécia Antiga, berço da Civilização Ocidental e da democracia, na qual a arte retórica passou a definir os destinos da coletividade, sendo desvirtuada pelos sofistas, que se orgulhavam por sustentar convincentemente uma opinião para, em seguida, fazer o mesmo com o ponto de vista oposto. E ensinavam isso por dinheiro, de cidade em cidade, numa prática criticada com veemência pelo filósofo Sócrates (469/399 a.C.), condenado a beber cicuta, vítima fatal das mesmas maledicências e ressentimentos vulgares que combateu.
Difícil projetar como Sócrates veria hoje, por exemplo, os defensores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) se digladiando com suas pós-verdades nas redes sociais, geralmente com base na ignorância da diferença entre manifestação de pensamento e argumento dialético, entre opinião e fato.
Diante da fartura de evidências, evisceradas pela operação Lava Jato, de que Lula comandou um esquema criminoso nos 13 anos em que o PT governou (e quebrou) o Brasil, prevalece aos seus adoradores a figura do líder proletário que promoveu a ascensão social das classes menos favorecidas — empurradas de volta aonde vieram pela recessão econômica. Já aos fiéis de Bolsonaro, o combate à corrupção se transformou de matéria do Código Penal em monocórdia plataforma política, em detrimento de avanços na paridade de direitos de gênero, orientação sexual, credo religioso, ideologia política, cor de pele e origem social.
Para os primeiros, Lula e o PT não roubaram aos bilhões. Para os segundos, a Ditadura Militar no Brasil (1964/85) não torturou e matou aos milhares. Ou, pior, se cometeram seus crimes, deveriam receber indulgência em nome de um suposto “bem maior”. E dos dois lados se finge esquecer que o produto final de petistas e militares foi um país desperto na mais lancinante ressaca econômica, após a embriaguez delirante da megalomania.
No tempo da pós-verdade, Lula quase pôde ser nomeado ministro pela então presidente Dilma Rousseff (PT) para fugir do julgamento de Sérgio Moro. Assim como Moreira Franco (PMDB), nomeado com mesmo fim pelo atual presidente Michel Temer (PMDB). E o resto do Brasil que se proteja dos cacos afiados projetados aleatoriamente no espaço pelas pedras atiradas, de lado a lado, sobre telhados de vidro separados por um muro moralmente invisível.
Com igual acinte, se elege Edison Lobão, alvo de dois inquéritos na Lava Jato, parceiro de Temer no PMDB e ex-ministro de Lula e Dilma, como presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, composta por mais 13 investigados da mesma operação da Justiça Federal. É o mesmo jogo de cartas marcadas no qual Trump cortou o baralho antes mesmo de ser eleito, pelo colégio eleitoral, não pelos votos dos eleitores: “Se eu perder, é fraude”.
Na tentativa de reconquistar sua paixão, Gatsby construiu sua pós-verdade numa origem aristocrática, quando não passava de um gângster, contrabandista de bebidas durante a Lei Seca nos EUA. Desmascarado, perdeu o amor que idealizou antes de perder a própria vida, sangrando até a morte na piscina da sua mansão, vítima passional de outra pós-verdade.
Num combate sobre-humano, mas real, que quase lhe matou, Santiago conseguiu capturar o peixe. Se no caminho de volta para Cuba, sobre o dorso das ondas, os tubarões devorariam pelas entranhas seu maior feito, a gigantesca carcaça descarnada, amarrada ao pequeno barco já ancorado no cais, revelou aos demais pescadores e aldeões, estupefatos, que a vida, a luta e a glória do velho homem eram a verdade. Exausto, ele dormiu bem com isso.

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

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Fabio Bottrel – Sociedade e Relacionamentos

https://youtu.be/OKqPqVL4Q-o

Num mundo onde tudo deixa de ser a cada instante, como no rio de Heráclito onde jamais seria possível banhar-se duas vezes, as águas correm, o rio já não seria o mesmo e a vida segue o fluxo enquanto nos apegamos a um momento de verdade que deixa de existir num piscar de olhos. Reinventar-se é preciso para se manter vivo, como diz o professor Cláudio de Barros Filho no vídeo acima, mas como reinventar um coração que insiste em amar à mesma maneira?

“A reinvenção de si deve respeitar as próprias características de quem vive e as exigências específicas do cenário em que vive.” Difícil resolver essa equação quando imersos numa sociedade carente de ética e moral, como vimos vir à tona após a greve da polícia militar no estado do Espírito Santo. A falta do exercício da consciência moral, sendo regidos por agentes externos como a polícia, câmeras de segurança ou qualquer artifício que impeça a decisão das ações por sua própria consciência ou agentes internos, deu no que deu quando se retirou as forças externas ao indivíduo e deu-lhe pleno poder. Como lembra Machado de Assis tal como uma premonição: a ocasião não faz o ladrão, ela apenas o revela – a condição de sê-lo é precursora como demonstraram diversos cidadãos que saquearam o comércio capixaba, minha terra natal.

Assim também é no relacionamento, diante da inexistência de forças repressoras como um homem ou mulher que não reprime os desejos de seu cônjuge ou critica uma roupa vulgar, mas tenta entender os anseios de tal atitude, e nutre o outro com os elogios e esperanças outrora escassas para que se sintacada vez mais nobre e pleno, colocando em primeiro plano o sorriso esquecido. Ao imbuir de poder, tal como um líquido que penetra toda a pele, vem à tona o ser como ele é, e às vezes pode ser torpe e degradante de uma maneira que ele nem mesmo se reconheça após a fissura da máscara a tanto impregnada. Como escrevi em tempo pretérito nesse espaço “menina retire a máscara e veja que a tua pele ainda é nova, e se te doer a carne crua chorarei contigo os elogios das suas próprias lágrimas.” A ferida de quem tem bom coração é dar o pleno direito do outro ser o que é ao abrir os braços em abraço se mostrar alguém do qual ele não precisa se defender, e o que pareceria bom se torna a batalha mais árdua, a luta do outro contra si próprio.

No texto Um Grande Homem, Arnaldo Jabor cita a conduta de seu pai ao ver a filha chorando sobre a cama. O pai se aproxima, acaricia o rosto úmido da sua irmã e após conversar por horas diz: “Minha filha, apaixone-se por um grande homem e nunca mais voltará a chorar.” O conselho serve para ambos os sexos.

O homem se constitui com as respostas aos desafios e nesse quesito parece o coração ser separado do corpo, pois por mais que se reinvente o amor, reinvente a dor, reinvente a própria vida, jamais seria possível reinventar o que se tem dentro do coração – colocando o seu significado na mesma categoria da mente. Talvez isso seja o que se chama de essência, para quem não é afeito ao materialismo dialético. Pois apesar de todos os pesares, ele segue inchado de bondade mesmo que sua vazão deságue num aparente abismo.

Na tentativa de tornar o instante dessa leitura pleno, que as pálpebras se fechem nesse piscar de olhos levando a poesia:

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Cecília Meireles

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Guiherme Carvalhal – O Trem Fantasma

Como de repente despertei sem saber meu paradeiro e muito menos meu destino, deparei-me confuso frente à placa da estação ferroviária. Sem outro rumo nem a mínima orientação do próximo passo, subi pelo lance de escadas que dava acesso a um longo corredor, tendo de um lado a sede administrativa da estação e do outro o amplo horizonte, cuja visão se ampliava livremente em decorrência da altura.
Essa visão serviu como um alívio temporário para a sensação de interrupção reinante. Se acordar no susto me deixou inerte da noção de tempo, perdendo preciosas horas, essas agora irrecuperáveis no passado, a paisagem me preenchia com uma amostra da eternidade. As manchas multicoloridas no céu crepuscular desenhavam um painel convidativo, e eu as interpretava de maneira inexplicável como sendo minha meta alcançá-las.
Além desse corredor, cheguei à área de embarque. Ao contrário do que a aparência desoladora da fachada denotava, me espantei com a quantidade de passageiros no aguardo do comboio. Todos esperavam cabisbaixos, sem interações, sem conversa. Somente o chiado do vento sacudindo as folhas secas do chão ousava romper o silêncio.
Encostei em uma das colunas. Fosse qual fosse o ponto de chegada, sabia que pertencia a esse grupo. Mesmo sem vínculos, mesmo sem conceber a procedência de cada um deles, e reciprocamente me portando como estranho, compreendia nossa fraternidade prescrita. Senhoras idosas, homens com porte de trabalhadores braçais, crianças saídas das fraldas há pouco, todos esses me acompanhariam sem imaginar aonde.
Outra estranheza nesse universo insólito se escondia naquela sede administrativa. Apesar de portas e placas indicativas de setores (almoxarifado, diretoria), não notava nenhum tipo de movimentação. Não havia venda de passagens, estafetas levando mensagens ou carregadores de malas. Aliás, ninguém ali carregava malas; não contávamos com o que vestir após desembarcar. Também chamava a atenção um grande relógio pendurado logo acima do ponto de embarque, de um metro e meio de diâmetro, lustrado com esmero, sendo o único item notoriamente novo. Contrariando seu aspecto funcional, os ponteiros não se moviam.
O barulho da fumaça ao longe presumia o aproximar do trem. Esse barulho levou todos a se levantarem e se organizarem em filas indianas, guiadas por um planejamento aparentemente acima de suas consciências. Igualmente me embrenhei em uma delas, quietamente disciplinado.
Quando o trem parou e suas portas se abriram, a multidão entrou sem atropelos. Guiei-me na cadência do todo, seguindo seu lento andar, aguardando todos se acomodarem nas poltronas. Parei de pé, segurando em uma gancho do teto para não me deslocar contra a inércia.
O trem começou a se mover e aos poucos o cenário iluminado foi escurecendo lá fora. Singraríamos por muitos e muitos quilômetros entre lances de montanhas capazes de cortar plenamente a incidência solar? Eu perguntaria ao maquinista, mas desconfiei que não conseguiria acessá-lo, isso se de fato houvesse um.
Antes que a luz se perdesse por completo, reparei pela primeira vez na minha própria fisionomia desde quando acordei no reflexo da janela. Meu semblante havia perdido o viço e a expressão, igual a todos os demais. Gostaria de lembrar meu nome, mas não consegui. Minha identidade desapareceu. Aí então eu pude finalmente perceber o destino final dessa viagem. Um ponto final de onde jamais encontraria retorno.

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PM e Guarda permitem que lotadas parem o trânsito de Campos

 

 

 

No Espírito Santo

Para concluir que o Brasil vive uma inversão completa de valores, basta olhar o quadro de caos vivenciado no Espírito Santo desde o último sábado, a apenas 60 km de Campos. As cenas de vandalismo, depredações, arrastões, saques e homicídios às dezenas, veiculadas à exaustão na democracia irrefreável das redes sociais, servem para comprovar que vivemos o tempo, melhor definido pela sabedoria popular, de “poste urinando em cachorro”. E quem não quiser sair “molhado”, que se esconda dentro da própria casa.

 

Em Campos

Em Campos, ainda que a PM não esteja em greve, a coisa não parece ser muito diferente. Por volta das 16h de ontem, um punhado de motoristas de lotadas ilegais, que agiram livremente na cidade durante os oito anos do governo Rosinha Garotinho (PR), não gostaram da apreensão feita pelo Detro de três dos seus veículos. E, à luz do dia, na cara dura, simplesmente fecharam os dois lados da av. XV de Novembro, diante da rua Carlos de Lacerda, espaço público que utilizam diária e folgadamente para seus fins particulares.

 

Cidade parada duas horas

O resultado, por certo planejado, foi cumprido. O trânsito do Centro ficou parado por cerca de duas horas. Numa reação em cadeia, o tráfego de veículos de toda a área urbana da cidade foi diretamente comprometido durante o mesmo período. Até o fechamento desta edição, não se tinha notícia se algum campista precisando de socorro urgente, como uma parturiente, um acidentado ou infartado, perdeu a vida ou a teve posta em risco por conta da manifestação ilegal, em defesa de uma atividade ilegal. Mas se não houve, foi apenas sorte.

 

Medo de quê?

O mais grave foi que vários homens da PM e da Guarda Municipal estiveram no local poucos minutos depois que XV de Novembro ter sido fechada. E nada fizeram! Cerceados em seu direito de ir e vir por irresponsáveis que riam debochadamente do caos que criaram, as centenas de motoristas de Campos cerceados em seu direito de ir e vir nada fizeram com medo de contrariar algum manifestante armado — como não é prática incomum na atividade. Resta saber com medo de que ficaram os guardas municipais e, sobretudo, os PMs.

 

Ação sem reação

Diante da passividade cúmplice dos agentes da lei, o tráfego de veículos em Campos só foi restabelecido no final da tarde de ontem, por volta das 18h, porque começou a chover. E, novamente para atender seus interesses particulares, os motoristas das lotadas constataram estar perdendo dinheiro, deixando de transportar ilegalmente as pessoas que saíam do trabalho. Diante do “sucesso” da ação e sem nenhuma reação efetiva por parte da PM ou Guarda Municipal, prometeram fechar o trânsito da cidade, hoje, mais uma vez.

 

FDP em pauta

Representantes de entidades como a Associação de Imprensa Campista (AIC) e a Academia Campista de Letras (ACL) se reuniram na manhã de ontem com a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Cristina Lima, para discutir a organização do II Festival Doces Palavras (FDP), de 20 a 24 de setembro, no Jardim do Liceu. Uma ótima iniciativa, que foi um sucesso na sua primeira edição e que tem tudo para repetir a deliciosa combinação entre literatura e doces.

 

Chance para escritores

E tem oportunidade para escritores. A Essentia Editora, do Instituto Federal Fluminense (IFF), está com inscrições abertas para a seleção de apoio à publicação de livros impressos — Edição 2017 — voltada para o público interno e externo do Instituto. As propostas deverão ser encaminhadas até o dia 6 de maio deste ano, por meio do setor de Protocolo da Reitoria ou pelos Correios, para o seguinte endereço: rua Coronel Walter Kramer, 357, no Pq. Santo Antônio, em Guarus. O resultado final das propostas aprovadas será divulgado no dia 02 de outubro deste ano. Outras informações em www.selecoes.iff.edu.br.

 

Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

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Carol Poesia – Inquérito Poético (parte 2)

Suspeito – Eu?
Inspetora – Por acaso o senhor reconhece isso, seu Adalbeto?
Inspetora – Foi achado no local do crime e tem a sua assinatura.
Suspeito – Como isso foi parar lá?
Inspetora – É o que eu gostaria de saber!
Suspeito – Escrevi esse poema quando eu era criança, muito novo.
Inspetora – Então o senhor confessa que conhecia e mantinha relações com a poesia desde criança?
Suspeito – Eu escrevia às vezes alguns pensamentos rimados…
Inspetora – Me diz uma coisa seu Adalberto, qual foi a última vez que o senhor escreveu um poema?
Suspeito – Eu? Tem muito tempo… Eu não escrevo faz muito tempo… Mas eu não estou entendendo, isso é bom ou ruim?
Inspetora – Eu não sei. O senhor que tem que me dizer! É bom ou é ruim ficar sem escrever? Sabe seu Adalberto, Beto, posso te chamar assim? Eu olho pra você e não vejo a inocência de um auxiliar de escritório que trabalha oito horas por dia pra pagar as contas. Não sei, não sei… Tem algo diferente no seu olhar, na sua respiração… Beto, quando eu falo em poesia, qual é o primeiro verso que vem à sua cabeça?
Suspeito – Quê?
Inspetora – Um único verso é suficiente!
Suspeito – Você só pode estar brincando… O que que eu fiz pra merecer isso, posso saber?
Inspetora – Não precisa ser seu. Qualquer verso. Eu tenho todo o tempo do mundo…
Suspeito – “Que não seja eterno/ posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure”.
Inspetora – Vinicius de Moraes. Outro!
Suspeito – “Oh! que saudades que tenho/ Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!”.
Inspetora – Casimiro de Abreu. Está indo bem.
Suspeito – “O poeta é um fingidor/ finge tão perfeitamente/ que finge sentir a dor/ a dor que deveras sente”.
Inspetora – Fernando Pessoa! Lindo!
Suspeito – “Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./ Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta./ Irmão das coisas fugidias,/ não sinto gozo nem tormento./ Atravesso noites e dias/ no vento./ Se desmorono ou se edifico,/ se permaneço ou me desfaço,/ – não sei, não sei. Não sei se fico/ ou passo./ Sei que canto. E a canção é tudo./ Tem sangue eterno a asa ritmada./ E um dia sei que estarei mudo:/ – mais nada.”
Inspetora – Cecília Meireles!
Suspeito – CHEGA! Eu confesso: sou poeta, a cada instante que passa me nasce uma rosa na testa!
Inspetora – Grande Paulo Leminski!
Suspeito – Chega! Eu estou falando de mim! O verso é dele mas eu estou falando de mim! A verdade é que eu conheço a poesia sim, a minha relação com ela é íntima e antiga! Desde pequeno eu não vejo sentido nenhum no que é útil, no que é prático, no que é comprovado cientificamente. Eu não tenho o sonho de ser rico, nem de descobrir alguma coisa muito importante, pouco me importa a bolsa de valores, eu estou me lixando pra alta do dóllar. Eu trabalho porque preciso comer, eu ainda como porque preciso estar vivo, eu quero estar vivo só pra acompanhar essa poesia toda que acontece independente de mim a cada dia. Ela não precisa de mim, mas eu preciso dela! Eu preciso realizar a inutilidade de imaginar a história de vida de cada desconhecido no ônibus. Eu preciso ver a multidão no metrô, coreografada, em alto relevo e 3D, cantando “Aba Pai”. Eu preciso ouvir a conversa da vizinha e adivinhar o que veio antes ou dar um outro final. Eu preciso do silêncio, da falta de ação, dos momentos de vácuo e de inércia em que a morte parece estar rondando e eu pareço estar querendo morrer, mas o que eu desejo mesmo é esse entre-vida-e-morte, esse estado sublime de experimentação do nada. A quase morte é um tesão! E eu sou viciado! Eu quero estar vivo pra quase morrer todos os dias! O entre-sono também me fascina, aquele estágio em que você não está dormindo, nem acordado, a realidade se mistura com o pensamento imaginário e surge tanta coisa brilhantemente desvairada! Eu adoro dormir… pena que eu tenho insônia! O sono é uma prévia da morte, sabe?! Um gostinho, uma pitada antecipada e vivenciada por todo mundo a cada noite. É uma experiência solitária, quase um poema, de repente você fecha os olhos e pluft! Está completamente sozinho em você mesmo! É o que existe de mais estranho e contraditoriamente de mais natural na vida. E o que seria da vida sem esse morrer diário pra recuperar as forças, hein?! O que seria da realidade sem esse profundo mergulho cotidiano dentro si mesmo fora da realidade? Poesia e morte andam assim oh! (faz sinal com os dedos) Você deveria saber! (leve pausa) A poesia está morta mas eu fiz o que pude! E fiz por mim! Porque a poesia é a humanidade que me salva e que falta na humanidade. É o oposto da engrenagem. É o andar na contramão e por isso mesmo faz todo o sentido. Ela não é cadeira não… Quem diz que fazer poesia é igual fazer cadeira pode até ser poeta, mas nunca foi marceneiro. Poesia é um estado de alma, e se ela morreu pouco me importa o que vai acontecer agora.
(pausa prolongada)
Inspetora – Meus pêsames.
Inspetora – O senhor está dispensado, seu Adalberto.
Suspeito – Estou?
Inspetora – Está. Se eu precisar eu chamo o senhor de novo.
Suspeito – Se eu tiver que voltar prefiro que seja a noite, pra eu não ter que faltar o serviço.
Inspetora – Qualquer novidade sobre o caso eu te aviso. Passar bem.
Suspeito – Obrigado e desculpe qualquer coisa.
Inspetora – Próximo!
(fim)
Confira aqui a primeira parte do “Inquérito Poético”

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Feijó tabela com Rafael e Bruno toca CPI das Desapropriações no Açu

Feijó tabela com Rafael
Praticante assíduo de futevôlei, o deputado federal Paulo Feijó (PR) bateu uma tabela inesperada na manhã do último sábado (04), no Farol de São Thomé. Num verão com menos trios elétricos e mais paz entre os veranistas, enquanto Feijó descansava de uma partida, quem chegou e se sentou ao seu lado, para uma conversa política, após cumprimentar aos demais, foi o prefeito Rafael Diniz (PPS).
Hospital do Hemocentro
O único deputado federal da região se colocou à disposição do prefeito para ajudar Campos em Brasília. Embora tenha destacado que a conversa foi informal, demandando ser aprofundada, Feijó citou um exemplo onde poderia ajudar diretamente: a conclusão projeto do hospital do Hemocentro, no Hospital Ferreira Machado (HFM). Iniciado a partir de uma emenda do parlamentar, ele destacou que verbas federais podem ser também alocadas para equipar a nova unidade, depois que a obra civil for concluída.
Diálogo x distanciamento
Através da sua assessoria, Rafael repetiu ontem seu discurso de campanha, quando prometeu governar aberto ao diálogo não só com quem o apoiou. Eleito deputado no grupo do ex-governador Anthony Garotinho (PR), Feijó apoiou Dr. Chicão (PR) na sucessão de Rosinha Garotinho (PR), vencida ainda no primeiro turno pelo atual prefeito. Mas desde abril de 2016, na aprovação do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) pela Câmara Federal, com o voto de Feijó e contra a vontade de Garotinho, os dois políticos se distanciaram.
CPI das Desapropriações
Outro político do grupo de Garotinho, o deputado estadual Bruno Dauaire (PR), vem sendo bastante procurado pela imprensa carioca e nacional. Menos pela votação do polêmico pacote do governo Luiz Fernando Pezão (PMDB), a partir de amanhã, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que pela CPI das Desapropriações do Porto do Açu. Proposta pelo jovem parlamentar, tudo indica que será aprovada na Alerj e presidida por ele.
InterTV, SBT e Record
Enquanto políticos e empresários, do Rio de Janeiro e São João da Barra, receiam o que Eike Batista possa revelar à Justiça, caso faça delação premiada, Bruno tem falado bastante sobre o objetivo da CPI: violação dos direitos humanos e do valor pago pelas desapropriações. Esclarecendo que sua iniciativa não é contrária ao empreendimento, fundamental para a economia da região, mas à maneira como ele foi imposto aos produtores rurais do Açu, o deputado já foi procurado pela InterTV RJ, SBT e Record para falar sobre o assunto.
Gabeira em SJB
Além das principais emissoras de TV aberta, quem esteve no último final de semana em São João da Barra, para investigar o objeto da CPI proposta por Bruno na Alerj, foi o conhecido jornalista e ex-deputado federal Fernando Gabeira. Em seu programa na Globo News, ele se prepara para trazer, também na TV por assinatura, uma ampla reportagem sobre o caso. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos…
Caos no ES
O Espírito Santo, estado vizinho ao do Rio e bem perto de Campos, por diversas vezes já foi destaque pelos seus altos índices de violência, mas nada que se compara ao que está acontecendo com a ausência de grande parte da polícia militar nas ruas. A onda de homicídios e saques está se espalhando por todo território capixaba e se aproxima cada vez mais de cidades perto de Campos. Em Guarapari, praia bastante frequentada por campistas, o medo tomou conta das ruas e tem muito turista colocando as coisas na mala e voltando para casa.
Medo por aqui
Em Campos, a situação da violência também é bastante preocupante. Em seis dias de fevereiro, sete pessoas já foram executadas a tiros, aumentando para 27 o número de assassinatos só em 2017. Um ano que começou seguindo os altos índices de 2016, que superou em quase 62% os homicídios em 2015. A situação se torna mais preocupante quando já começam a circular pelas redes sociais supostos informativos que no próximo dia 10 haverá um movimento dos PMs do Rio semelhante ao que acontece no ES.
Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

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Fernando Leite – Linda Mara e a saga de “Augusto Matraga”

Vivíamos os primeiros anos da década de 1980, do último século do milênio passado, embora o calendário se despedisse, cercado de superstições e medos, o Brasil experimentava o”melhor dos tempos”. A abertura política retirava, gradualmente, uma tampa de chumbo sobre nossos sonhos e a arte florescia, vigorosa, irrequieta, ansiosa por espaços. Aqui, na vila formosa de São Salvador dos Campos, um longo domínio político conservador vazava e o que era preciso acontecer, começava a tomar forma e rosto e corpo.
A Faculdade de Filosofia, era, então, palco de todas as liberdades, fórum político, por onde passaram todos os candidatos a governadores do Estado, na campanha de 1982, vencida por Leonel Brizola e onde, ainda experimentamos o luxo de receber e conversar, visivelmente, emocionados, com o velho “Cavaleiro da Esperança”, Luís Carlos Prestes, recém-chegado ao Brasil, depois de longo exílio. Era a lenda, “a tempestade de homem”, como diria Oswald de Andrade, bem diante de nós e impressionava por sua fragilidade física. Sem contar luminares da cultura nacional.
Éramos um grupo grande e todos muito jovens. Vencemos as eleições para o Diretório acadêmico e instituímos uma “dinastia”, nos revezando nos 4 anos do curso de Jornalismo, no comando do centro dos estudantes. Foi nesse período que eu conheci essa moça. Uma paranaense, filha de dona Maria e seu Malaco, voluntariosa e, como todos nós, cheia de sonhos. Linda Mara é o nome dela. Da amiga que julguei ter feito lá no alvorecer dos anos 80. Abríamos a alameda do futuro com o desassombro da juventude.
Sei que, a exemplo do que dizia o poeta Torquato Neto, “vou desafinar o coro dos contentes”, mas também citando o designer gráfico, Sérgio Provisano, sou “um cavaleiro das causas perdidas” e, como tal, devo abrir mão do conforto de gritar o que significativa parcela da sociedade quer ouvir e falar, mansamente, o que penso.
A vida e seus desígnios e a política nos levaram por caminhos diversos. Mais apropriado: antagônicos.
A jornalista Linda Mara encarnou a carranca do longevo governo passado, gestão do casal Garotinho, de quem é fiel escudeira e sua melhor tradução. Contra ela migraram todos os ódios e ela os replicava de volta com igual intensidade. Exercia seu poder de mando, subalterno ao casal, com visível gosto e dessa forma, amealhou inimigos aos cachos dentro e fora da administração. Sua prisão, por razões de cunho eleitoral, foi catártica. Guardando as proporções e os motivos teve o mesmo efeito espetaculoso, estético, das cabeças raspadas do Sérgio Cabral e do Eike Batista e de outros presos pela Operação Lava Jato, menos notáveis. Não era nem a prisão em si que era comemorada, mas sua execração pública.
E é nesse patamar da prosa que me detenho. A sociedade brasileira, ao que parece, não tem se conformado com os remédios institucionais para combater os males que a afligem, secularmente. Quer mais. O que quer mais? No caso, aqui, na nossa paróquia, a personagem em questão foi indiciada pelo Ministério Público e Polícia Federal, teve o diploma e o mandato de vereadora eleita cassados, responde a um caudaloso processo judicial e recorre a instâncias superiores da Justiça, conforme reza o famoso “estado democrático de direito”. Aguarda, cumprido o rito processual, a sentença definitiva. Tem mais? Quem sabe um carimbo na testa, uma marca que a diferencie dos demais. Tenho medo desta sanha “justiceira”.
Mais do que isso não é Justiça, é vingança.
Não sou seu advogado de defesa. Estamos em espaços políticos, diametralmente, opostos. Sequer, temos convivência pessoal. Acho que ela e todos os outros denunciados, devem responder pelo que fizeram, mas também recuso o papel de bedel das causas alheias. Não sou julgador. Essa vaga está completa e cabe a um poder instituído para tal. Defendo a civilidade, ao contrário do rancor, do ódio visceral. Anseio por uma sociedade capaz de entender que os erros são, quando percebidos, o combustível da mudança.
Como devoto de são Guimarães Rosa, recorro a um conto de seu evangelho Sagarana: “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”. Rosa conta a história de Augusto Esteves que, depois de aprontar todas, resolveu se redimir de suas culpas, carpir seus pecados e se sacrificar pelo justo, em duelo com “Joãozinho Bem-Bem”, famoso bandoleiro dos sertões mineiros, que impunha à força suas vontades. Redimido, queria “ir para o céu, nem que fosse a porrete”. Assim como ele, todos têm a sua hora e sua vez. Além do que ninguém deve ter compromisso com erros pretéritos, JK já disse isso.
As pessoas são o que são e o que foram. E, sobretudo, o que serão. Vivemos, graças a Deus, numa sociedade regrada, cujos limites são a ordem e a lei. Fazer “justiça” que atenda aos desejos dos que se consideram ofendidos e exigem castigo além da letra da lei é retroagir, no tempo e no sentimento, na evolução civilizatória.
Vamos adiante!
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Vanessa Henriques – “Dentro da cadeia, o PCC era como um pai pra mim”

 

Assim afirmou Felipe, 33 anos, enquanto relatava a experiência vivida em um presídio da capital paulista. Sentado defronte a mim, sem, no entanto, me encarar, Felipe me contou a história de sua vida, durante mais de duas horas ininterruptas. Logo no início do contato, foi possível notar que já devia fazer algum tempo que ele não falava tanto sobre si mesmo para alguém. Pudera, suspeito que Felipe mal se lembrava da última vez em que fora escutado com tamanho interesse. Estimulado pelos meus olhos e ouvidos atentos, as palavras de Felipe jorravam com facilidade. Ele falava em um fluxo quase contínuo, silenciando apenas algumas vezes, quando se detinha um pouco mais em uma ou outra lembrança particularmente incômoda. Diante dele, eu sorvia e aprendia, com o punho cerrado em torno do gravador; era meu trabalho fazer com que aquele relato não se perdesse.
Num primeiro momento, foi estranho ouvir alguém comparar o Primeiro Comando da Capital, “uma das maiores facções criminosas do Brasil”, a um pai. Felipe explicou que, para ter acesso a itens básicos de higiene dentro da cadeia, como sabonetes e pastas de dente, o preso novato que não pudesse receber tais “artigos de luxo” de parentes ou amigos, teria de se “filiar” ao PCC para conseguir obtê-los. Quando chegou à prisão, condenado por ter sido pego em flagrante roubando um supermercado, Felipe se viu sem pertences dentro de uma cela de proporções modestas, junto de mais 60 homens. Dada a precariedade das condições que encontrou no cárcere, somada à ausência de apoio familiar, foram os “manos” do PCC que lhe ofereceram amparo. Por isso, para Felipe, a relação com a facção lhe remete a um vínculo paternal. O sentimento de insegurança, companheiro constante desde que se entende por gente, atenuou-se um bocado quando ganhou a proteção do PCC. Mas é claro que esta proteção não seria gratuita. Em troca, Felipe deveria tornar-se um funcionário do tráfico de drogas existente dentro da cadeia e participar de rebeliões eventualmente programadas pelos “cabeças” da facção. O envolvimento em uma dessas rebeliões custou a Felipe mais dois anos passados no cárcere.
A trajetória de Felipe não se diferia muito das histórias que ouvi dos demais rapazes que entrevistei em virtude de uma pesquisa sociológica da qual participava. Durante um tempo, conversei com homens que se encontravam em situação de rua, acolhidos em um albergue localizado no centro da cidade de São Paulo. Pedi a eles que me contassem o que havia acontecido em suas vidas para que chegassem até aquele lugar, o que me permitiu coletar diversas histórias, todas com seu valor singular e riqueza de detalhes, mas em grande medida orientadas por um roteiro muito similar: infância vivenciada em um contexto de desestrutura material e emocional do núcleo familiar, frequentemente marcada pela ausência do pai; errática trajetória escolar na rede pública precarizada; precoce envolvimento com substâncias entorpecentes; adolescência marcada por desorientação e revolta diante das privações e humilhações de toda ordem apresentadas pelo mundo; dificuldade de inserção formal no mercado de trabalho e, por fim, envolvimento com atividades ilícitas e passagens mais ou menos duradouras pelo cárcere.
Após as dezenas de mortes ocorridas em presídios desde o começo deste ano, ganhou novo fôlego a discussão em torno do problema do sistema carcerário brasileiro. Os dados mostram que somos o quarto país com maior população carcerária do mundo e que o contingente de presos ainda vem crescendo de forma vertiginosa. É notório que as prisões brasileiras não cumprem seu papel de promoção da ressocialização dos presos e que a estrutura do sistema prisional apenas contribui para o recrudescimento da raiva e do ressentimento dos indivíduos que ingressam nas penitenciárias. Enquanto membro da sociedade civil, creio que cabe perguntar qual a serventia da pena privativa de liberdade quando aplicada nessas condições. A ineficácia deste modelo de punição também é passível de ser inferida a partir das estatísticas da área da segurança pública: não é possível perceber qualquer retração nos índices de criminalidade.
Vários especialistas apontam soluções para reverter o estrangulamento desse sistema . Poucos são aqueles que propõem apenas a construção de novos presídios e muitos são os que apontam para a necessidade de atacarmos as raízes do problema. São várias as questões que permeiam o debate: o grande número de presos provisórios, a dureza da Lei de Drogas que foi responsável por aumentar em 480% o número de presos por tráfico de drogas nos últimos doze anos , a carência de investimentos públicos em educação, saúde e assistência social como medidas que possuem o poder de prevenir a criminalidade, bem como o poder de reinserir os indivíduos que estão pagando pelos crimes que cometeram, dentre outras.
Para evitar que novas barbáries aconteçam fora e dentro dos presídios, é preciso que tenhamos a coragem de debater temas espinhosos, que mobilizam enormemente os afetos de grande parte da população, para que possamos reconstruir as bases de nossa sociedade. As facções criminosas ocupam vácuos de poder criados pelo Estado. O fato de que inúmeros Felipes tenham nestas organizações suas fontes de segurança material e existencial escancara a gravidade de um problema que definitivamente não será solucionado com a mera construção de novos muros.

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