Garotinho foi preso por não ouvir o filho, a Folha, nem ninguém


Qual o tamanho de Garotinho?
No dia seguinte à sua derrota, ainda no primeiro turno, da eleição de governador há dois anos, esta coluna fez (aqui) um registro e uma indagação: “Ontem (05/10/14), ao agradecer por seus mais de 1,5 milhão de votos para governador, Garotinho publicou em seu blog ser ‘melhor perder uma eleição do que a vergonha’. Pudesse ser olhado hoje pelo jovem político que em 2002 também quase chegou a um segundo turno, mas de uma eleição presidencial na qual teve mais de 15 milhões de votos, com que tamanho aquele Garotinho veria esse de agora, 10 vezes menor?”
Ascensão e queda
Pois ontem, como o Brasil inteiro já sabe, Garotinho foi alvo (aqui) da prisão preventiva pela Polícia Federal (PF), num apartamento do Flamengo (aqui), no Rio, acusado de chefiar aquilo que o Ministério Público Eleitoral (MPE) denunciou (aqui) como “escandaloso esquema” de compra de votos nas últimas eleições municipais de Campos — cuja Prefeitura acabaria também perdida no primeiro turno. E toda a grande mídia brasileira (aqui), com direito ao primeiro bloco do “Jornal Nacional” (reveja aqui), fez um resumo da carreira política do preso, contrastando sua rápida ascensão na juventude, nos anos 1980, com sua decadência igualmente precoce, com apenas 56 anos.
O tranco da prisão
Segundo sua defesa, pelo renomado criminalista Fernando Augusto Fernandes, Garotinho não foi transferido ontem mesmo a Campos, para controlar no Rio suas “alterações cardíacas apontadas em eletrocardiogramas”, após a prisão. Embora a decadência do líder rosáceo pareça não ser financeira, pois tem como advogado quem cobrou (aqui) R$ 5 milhões para defender o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa na Lava Jato, ele aparenta dificuldades físicas para aguentar o tranco. Atendido (aqui) pelo Samu, ele foi da Superintendência da PF no Rio ao Hospital Municipal Souza Aguiar e, de lá, segundo (aqui) o jornalista Ancelmo Góes, ao hospital particular Quinta D’Or.
Surpresa no TSE
Se não haveria espanto com uma melhora súbita de saúde, caso Garotinho fosse solto, também não chegou a surpreender que ele tivesse seu pedido de habeas corpus negado duas vezes (aqui) no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) — preventivamente, no último dia 12, e ontem, liminarmente. O que surpreendeu é que, no final da noite de ontem, a liberdade do preso tenha sido indeferida (aqui) também pela ministra Luciana Lóssio (confira seu histórico aqui), do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Afinal, fora ela quem já mandara soltar (aqui) os vereadores Ozéias (PSDB) e Miguelito (PR), presos antes pela PF por envolvimento direto no mesmo “escandaloso esquema”.
Sem espantos
Em contrapartida, ninguém ficou espantado com as palavras firmes do juiz Glaucenir Oliveira, da 100ª Zona Eleitoral de Campos, ao decretar (aqui) a prisão de ontem, sem revisão pelas duas instâncias superiores: “Pelas interceptações, cujas degravações constam na denúncia, se vislumbra o protagonismo e comando exercidos pelo réu na cadeia da associação criminosa (…) sendo extreme de dúvidas sua dominação inclusive no parlamento municipal”. Assim como ninguém se surpreendeu com a constatação, na mesma decisão judicial, de que Garotinho é o “prefeito de fato” de Campos, além de proprietário da rádio e jornal “O Diário”.
Advertência da Folha
Em relação à utilização do Cheque Cidadão para compra de voto, tampouco alguém pode se espantar que tenha sido ignorada a advertência feita por esta coluna (aqui) desde 30 de agosto, na analogia do casal Garotinho com o antes formado pelos ex-presidentes Lula e Dilma: “Se Campos está (aqui) no buraco, o que não dá para fazer diferente é eximir de responsabilidade seu casal de governantes na m(…) buarqueana na qual enfiaram a terra dos sambistas Wilson Batista (1913/68) e Geraldo Gamboa (1930/2016). E quem acha que a reversão desse quadro é possível com a prática que foi alvo das ações da Justiça Eleitoral (…) talvez valha a pena observar o rigor da lei com Lula e Dilma para saber que m(…) muito maior ainda pode estar por vir”.
Advertência do filho
O que talvez espante nisso tudo, é saber que Garotinho ignorou as advertências do próprio filho, Wladimir, pela gerência desastrosa do “escandaloso esquema”. No bombástico depoimento da radialista Elizabeth Gonçalves dos Santos, a Beth Megafone, repórter do programa “Fala Garotinho”, considerado fundamental (aqui) à prisão do líder, além de admitir a destruição de provas dos crimes eleitorais cometidos, ela revelou (aqui) “que chegou a ouvir uma discussão entre Garotinho e Wladimir; que Wladimir dizia: isso não vai dar certo, isso vai acabar com o governo da minha mãe”. Famoso por jamais ouvir ninguém, o pai ignorou. E deu no que deu.
Publicado hoje (17) na Folha da Manhã














