Garotinho foi preso por não ouvir o filho, a Folha, nem ninguém

 

(Charge de Marco Antonio Rodrigues)
(Charge de Marco Antonio Rodrigues)

 

 

 

Ponto final

 

 

Qual o tamanho de Garotinho?

No dia seguinte à sua derrota, ainda no primeiro turno, da eleição de governador há dois anos, esta coluna fez (aqui) um registro e uma indagação: “Ontem (05/10/14), ao agradecer por seus mais de 1,5 milhão de votos para governador, Garotinho publicou em seu blog ser ‘melhor perder uma eleição do que a vergonha’. Pudesse ser olhado hoje pelo jovem político que em 2002 também quase chegou a um segundo turno, mas de uma eleição presidencial na qual teve mais de 15 milhões de votos, com que tamanho aquele Garotinho veria esse de agora, 10 vezes menor?”

 

Ascensão e queda

Pois ontem, como o Brasil inteiro já sabe, Garotinho foi alvo (aqui) da prisão preventiva pela Polícia Federal (PF), num apartamento do Flamengo (aqui), no Rio, acusado de chefiar aquilo que o Ministério Público Eleitoral (MPE) denunciou (aqui) como “escandaloso esquema” de compra de votos nas últimas eleições municipais de Campos — cuja Prefeitura acabaria também perdida no primeiro turno. E toda a grande mídia brasileira (aqui), com direito ao primeiro bloco do “Jornal Nacional” (reveja aqui), fez um resumo da carreira política do preso, contrastando sua rápida ascensão na juventude, nos anos 1980, com sua decadência igualmente precoce, com apenas 56 anos.

 

O tranco da prisão

Segundo sua defesa, pelo renomado criminalista Fernando Augusto Fernandes, Garotinho não foi transferido ontem mesmo a Campos, para controlar no Rio suas “alterações cardíacas apontadas em eletrocardiogramas”, após a prisão. Embora a decadência do líder rosáceo pareça não ser financeira, pois tem como advogado quem cobrou (aqui) R$ 5 milhões para defender o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa na Lava Jato, ele aparenta dificuldades físicas para aguentar o tranco. Atendido (aqui) pelo Samu, ele foi da Superintendência da PF no Rio ao Hospital Municipal Souza Aguiar e, de lá, segundo (aqui) o jornalista Ancelmo Góes, ao hospital particular Quinta D’Or.

 

Surpresa no TSE

Se não haveria espanto com uma melhora súbita de saúde, caso Garotinho fosse solto, também não chegou a surpreender que ele tivesse seu pedido de habeas corpus negado duas vezes (aqui) no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) — preventivamente, no último dia 12, e ontem, liminarmente. O que surpreendeu é que, no final da noite de ontem, a liberdade do preso tenha sido indeferida (aqui) também pela ministra Luciana Lóssio (confira seu histórico aqui), do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Afinal, fora ela quem já mandara soltar (aqui) os vereadores Ozéias (PSDB) e Miguelito (PR), presos antes pela PF por envolvimento direto no mesmo “escandaloso esquema”.

 

Sem espantos

Em contrapartida, ninguém ficou espantado com as palavras firmes do juiz Glaucenir Oliveira, da 100ª Zona Eleitoral de Campos, ao decretar (aqui) a prisão de ontem, sem revisão pelas duas instâncias superiores: “Pelas interceptações, cujas degravações constam na denúncia, se vislumbra o protagonismo e comando exercidos pelo réu na cadeia da associação criminosa (…) sendo extreme de dúvidas sua dominação inclusive no parlamento municipal”. Assim como ninguém se surpreendeu com a constatação, na mesma decisão judicial, de que Garotinho é o “prefeito de fato” de Campos, além de proprietário da rádio e jornal “O Diário”.

 

Advertência da Folha

Em relação à utilização do Cheque Cidadão para compra de voto, tampouco alguém pode se espantar que tenha sido ignorada a advertência feita por esta coluna (aqui) desde 30 de agosto, na analogia do casal Garotinho com o antes formado pelos ex-presidentes Lula e Dilma: “Se Campos está (aqui) no buraco, o que não dá para fazer diferente é eximir de responsabilidade seu casal de governantes na m(…) buarqueana na qual enfiaram a terra dos sambistas Wilson Batista (1913/68) e Geraldo Gamboa (1930/2016). E quem acha que a reversão desse quadro é possível com a prática que foi alvo das ações da Justiça Eleitoral (…) talvez valha a pena observar o rigor da lei com Lula e Dilma para saber que m(…) muito maior ainda pode estar por vir”.

 

Advertência do filho

O que talvez espante nisso tudo, é saber que Garotinho ignorou as advertências do próprio filho, Wladimir, pela gerência desastrosa do “escandaloso esquema”. No bombástico depoimento da radialista Elizabeth Gonçalves dos Santos, a Beth Megafone, repórter do programa “Fala Garotinho”, considerado fundamental (aqui) à prisão do líder, além de admitir a destruição de provas dos crimes eleitorais cometidos, ela revelou (aqui) “que chegou a ouvir uma discussão entre Garotinho e Wladimir; que Wladimir dizia: isso não vai dar certo, isso vai acabar com o governo da minha mãe”. Famoso por jamais ouvir ninguém, o pai ignorou. E deu no que deu.

 

 

Publicado hoje (17) na Folha da Manhã

 

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Wladimir avisou a Garotinho: “isso vai acabar com o governo da minha mãe”

Considerado (aqui) fundamental na prisão preventiva hoje do secretário municipal de Governo Anthony Garotinho (PR), conheça abaixo trechos do bombástico depoimento dado à Polícia Federal (PF) de Campos, no último dia 31, pela radialista Elizabeth Gonçalves dos Santos, a Beth Megafone, repórter do programa “Fala Garotinho”:

 

Radialista Beth Megafone
Radialista Beth Megafone

 

 

“que assim que soube da prisão de Ana Alice e Gisele, a reinquirida (Beth) ateou fogo em todos os comprovantes de recebimento de cartões do Cheque Cidadão que ainda não haviam sido entregues pela reinquerida a Gisele”.

“que ateou fogo também em listas com nomes de pessoas beneficiárias por intermédio de Linda Mara”.

“que ao saber do plano de GAROTINHO, seu filho WLADIMIR vazou a informação para outros candidatos da sua predileção, a saber: Jorge Rangel, Carlinhos Canaã, Duda de Ururaí, Thiago Virgílio, Albertinho, Leo do Turf, Roberto Pinto e Vinicius Madureira; que a ideia de WLADIMIR era que o plano de GAROTINHO alcançasse também esses outros candidatos, de forma que a distribuição do Cheque Cidadão os beneficiassem; que esses candidatos então procuraram por GAROTINHO para pressioná-lo a receber eles também os cheques prometidos a Kellinho, Linda Mara e Thiago Ferrugem”.

“que então GAROTINHO realizou uma reunião com Kelinho, Linda Mara, Thiago Ferrugem e os candidatos de interesse de WLADIMIR para tratar da distribuição do Cheque Cidadão”.

“que sabe de todas essas coisas porque o próprio GAROTINHO contou para a reinquirida num encontro que teve um dia após as últimas eleições”.

“que chegou a ouvir uma discussão entre GAROTINHO e WLADIMIR; que WLADIMIR dizia: isso não vai dar certo, isso vai acabar com o governo da minha mãe”.

 

Confira a cobertura completa na edição de amanhã da Folha da Manhã

 

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Pergunta e resposta — Quem é o chefe do “escandaloso esquema”?

 

Pergunta do vereadir Marcão feita e ecoada neste “Opiniões”, há cinco dias (Reprodução)
Pergunta do vereador Marcão feita e ecoada neste “Opiniões”, há cinco dias (Reprodução)

 

Aqui, em entrevista ao blog há apenas cinco dias, o vereador Marcão (rede) perguntou: “quem seria o chefe do ‘escandaloso esquema’?”. O edil se referia à denúncia original (aqui) do Ministério Público Eleitoral (MPE) de Campos, sobre a troca de Cheque Cidadão por voto, em favor das candidaturas rosáceas a prefeito e vereador.

Pois hoje, com a prisão preventiva do marido e secretário de Governo da prefeita Rosinha Garotinho (PR), por compra de voto e coação de testemunhas, se ficou sabendo: a pergunta de Marcão foi respondida na nova denúncia assinada por oito promotores eleitorais de Campos, que gerou decisão do juízo da 100ª Zona Eleitoral (ZE).

Na dúvida confira aqui e aqui, no blog “Na curva do Rio”, da jornalista Suzy Monteiro.

 

No blog “Na cirva do rio”, a resposta do Ministério Público Eleitoral (MPE) conhecida apenas hoje com a prisão que gerou, na decisão do juízo da 100ª Zona Eleitoral (Reprodução)
No blog “Na curva do rio”, a resposta do Ministério Público Eleitoral (MPE), conhecida apenas hoje com a prisão dela gerada, na decisão do juízo da 100ª Zona Eleitoral (Reprodução)

 

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Resposta de megafone

Garotinho, hoje, na sede da Polícia Federal (PF) no Rio, após ser preso no bairro caioca do Flamengo (Foto: Reprodução/William Côrrea/GloboNews)
Garotinho, hoje, na sede da Polícia Federal (PF) no Rio, após ser preso no bairro caioca do Flamengo (Foto: Reprodução/William Côrrea/GloboNews)

 

E para quem achava que com o juiz Glaucenir Oliveira assumindo a 100ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos, nas férias do titular Raph Manhães, as investigações do “escandaloso esquema” iriam entrar em banho maria, a resposta veio hoje… de megafone.

 

Atualização às 13h38: Confira aqui, no “Blog do Bastos”, primeiro na Folha Online a noticiar a mais nova prisão da operação “Chequinho”, da Polícia Federal (PF).

 

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Carol Poesia — Gênesis poética

 

Poeta 2

 

 

 

Gênesis poética

 

Poeta é aquele

que convive com a dualidade:

a dor de toda frieza e morte

a paz no coração quente de amor.

 

Poeta nunca vive bem

porque enxerga com dois olhos:

vê sujeira preta no branco vazio

vê colorido-vermelho de sorriso infantil.

 

Um coração carrega toda a dor-mundo

outro sofre a felicidade simples de quintal.

 

O poeta, meio palhaço, chora enquanto sorri…

 

Um poeta não vive bem

porque são dois

e viver por mais de um não cabe a ser humano.

 

O destino é ser um só,

 

mas poeta nasce em mais,

leva no corpo a alma de vários,

transforma em belo a solidão de cada um.

 

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Poema molhado de chuva

 

Atafona, 13/11/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

outros blues

 

cego ao cheiro da folha da figueira

e às lembranças doces de fruta

o homem sentou ao final do caminho

farto da semeadura dos seus erros

dessa amargura na mina da saliva

desse cansaço que nem a chuva lava

 

atafona, 14/11/16

 

 

 

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Artigo do domingo — Para quem lutou lado a lado na mesma linha

Criança em Termópilas (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Menino diante a Leônidas em Termópilas (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

“Venha buscá-las!”

 

Para quem só conhece Grécia Antiga a partir do filme “300” (2007), de Zack Znyder, pode parecer que a força física, habilidade e coragem individuais fizeram com que um pequeno contingente de helenos, liderado por 300 espartanos, conseguisse resistir por três dias, na Batalha de Termópilas (480 a.C.), à invasão do Império Persa contabilizada em 1 milhão de soldados. Mas quem conheceu o episódio por Heródoto (484/425 a.C.), em sua “História” (livro que batiza a ciência, não o contrário), ou por seus companheiros de lida subsequentes, sabe que a grande responsável pela façanha foi a tática coletiva dos gregos.

Com cerca de 35 kg de bronze sobre o corpo, entre armadura, elmo, caneleiras, braceletes e o escudo redondo (hóplon, daí o soldado de infantaria ser chamado de hoplita), mais a lança longa (sarissa) e uma espada curta, só usada como último recurso, um único soldado grego era pesado, lento e desajeitado. Todavia, a partir da coesão numa mesma linha, cada hoplita tinha o peito protegido pelo escudo erguido pelo braço canhoto do companheiro à sua direita, enquanto fazia o mesmo com quem estava à esquerda. E, a despeito da aparência coletiva de um porco espinho na batalha, unidos no compromisso de defesa das suas cidades, os gregos foram quase imbatíveis.

Treinados desde muito jovens na sua arte da guerra, no atletismo e na filosofia (saber ainda não compartimentado em ciências particulares) todo soldado grego era um cidadão, treinado para lutar e ciente do por quê. E há quem afirme, como o historiador francês Fernand Braudel (1902/85), que a democracia teve parto natural, sobretudo na Atenas cosmopolita e mercantil, quando essa tática de paridade coletiva da linha de hoplitas migrou do campo de batalha à vida civil. Um escudo erguido sobre o peito do companheiro em defesa da cidade na guerra, um voto para definir seus rumos na ágora.

Na última semana, o jornalista e blogueiro Alexandre Bastos se despediu da Folha da Manhã. Agora, responde pela coordenação da Chefia de Gabinete do governo eleito Rafael Diniz (PPS), que assume o poder em 1º de janeiro de 2017. Mas foi neste jornal que, entre vindas e idas, Bastos passou quase metade da sua vida. Em 2001, aos 19 anos, teria sua primeira experiência profissional na Folha, como corretor de anúncios, por indicação da sua tia materna, a saudosa jornalista Ângela Bastos (1946/2007), que fez história no jornalismo campista e na Folha.

Na redação do jornal, Bastos iniciaria em 2004, aos 22 anos. Após ter estreado como jornalista na revista “Caraca”, dos publicitários Gustavo Alejandro Oviedo e José Ronaldo, ele enviou um artigo intitulado “A Terra do Nunca”. O texto crítico sobre a mentalidade tacanha de alguns setores da sociedade goitacá abriu as portas para que se tornasse articulista da Folha, onde passou a opinar semanalmente sobre política, esporte e cultura.

No ano seguinte, em 2005, aceitou o convite para trabalhar como repórter da Folha Dois, onde foi colocado como “foca” do jornalista Aloysio Balbi, com quem já comungava a mesma criatividade superlativa no texto. Sete meses depois, mesmo a contragosto, foi posto na editoria de política, até deixar a Folha pela segunda vez em 2006, ano de eleição municipal suplementar, na qual atuou pela primeira vez como assessor de imprensa.

Em 2007, Bastos voltou ao jornal como editor da Folha Dois, função na qual permaneceu até o fim daquele ano, quando atuou novamente como assessor de imprensa. Por fim, retornou à Folha em novembro de 2008, onde ficou até agora. Nestes últimos oito anos, foi repórter e editor (novamente contra a vontade) de política, repórter e editor interino de esportes, colaborador do “Ponto Final”, colunista social e blogueiro — função na qual se revelou um fenômeno de popularidade inédito e ainda sem par na mídia virtual goitacá.

Piadista talentoso, quase sempre capaz de arrancar uma gargalhada de quem chegaria com uma queixa, Bastos padece assumidamente da mesma contradição do coelho Pernalonga: adora brincar, mas se revela pouco paciente quando alvo da brincadeira. Como jornalista, além da criatividade no texto, tem perspicácia incomum na apuração. Se às vezes “morcega” no meio de campo, como o ex-craque francês Zinedine Zidane, é capaz de sair da aparente letargia, quando a cobrança se impõe, para produzir de relance uma sequência de jogadas inesperadas e, não raro, definir a partida.

Mais do que ele possa ter aprendido em nosso convívio, Bastos foi para mim um “professor” generoso do jogo jogado da política, do qual se tornou antes melhor leitor, apesar de uma década mais novo. Tivemos nossos problemas, sobretudo no entrechoque de vaidades. Mas soubemos superá-los e, penso, construímos uma sólida amizade, sobretudo quando a idade revelou a ambos que produzíamos um melhor jornalismo atuando na mesma linha, um ao lado do outro e de todos os demais — sem ninguém à frente ou deixado para trás.

Sobre seu novo desafio no governo de Campos, respondeu quem antes vivia de indagar: “Agora, quando a nossa cidade vive o fim de um ciclo, vejo que também é o momento de iniciar um novo momento em minha vida. Deixar o papel de narrador e entrar em campo. Unir aquela vontade de mudar o mundo, que estava presente nos primeiros artigos, com o lado mais pragmático de quem já é pai de família e sabe que os grandes feitos dependem mais de transpiração do que de inspiração”.

Da lição final de João Cabral de Melo Neto (1920/99) aplicada da poesia ao jornalismo e à própria vida, agora em campos diferentes na defesa da mesma cidade, redefinida em rumo pela democracia conquistada ao custo de tantas batalhas perdidas e ganhas ao longo da história, desejo, em nome da redação da Folha, toda a sorte do mundo a um dos seus nomes mais talentosos. No que há de particular, destaco: ter atuado profissionalmente ao lado de Bastos é dos orgulhos que levarei destes 26 anos de jornalismo.

Ao futuro, ecoa a resposta do rei Leônidas (540/480 a.C.), comandante espartano morto em Termópilas, ao persa que lhe ofereceu ouro para entregar as armas: “Malon lave!” (“Venha buscá-las!”).

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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Fabio Bottrel — Mais profundo que a morte, mais onírico que a vida

 

Sugestão para escutar: Ilusão – Marisa Monte e Julieta Venegas

 

 

 

 

“Abaporu” (1928), óleo sobre tela de Tarsila do Amaral
“Abaporu” (1928), óleo sobre tela de Tarsila do Amaral

 

 

Se eu nunca houvesse amado, jamais teria chorado, que triste ilusão da vida imaginar que as lágrimas aguardam salgar seus lábios quando o sorriso sumir. Não seria tão difícil imaginar o sentido da nossa existência se enriquecemos enquanto guardamos dinheiro e empobrecemos enquanto economizamos amor, quem nega o amor, perde antes, o negador. A quem escreve o seu nome na água solitária d’uma ilha deserta, a brisa que carrega a larva é a mesma que desmancha a mágoa em nuvens envolta a alma, soprando mais profundo que a morte, mais onírico que a vida.

Como tudo parece encontrar o seu oposto, a vida e a morte, o sorriso e a lágrima, a felicidade e a tristeza, que nos encontre em nosso mais alto estado de alma as intempéries conscientes que virão, mas não tenha dúvida, no fim a mão do amor é sempre a que balança a vida no seu berço de esplendor. Acho que chegamos em tempo de parar de achar, de sangrar até a última seiva dentro de nós, num movimento suave colocarmos a máscara ao lado, sorrirmos de lábios nus e aceitarmos que temos muito a crescer, Campos, ver tua cultura dilacerada me lastima a dilacerar a alma. Ver-te sorrir por mentiras, chorar por causa menor do que és, Campos, sonho com o dia que tua cultura levantará desse sono de morte.

Enxergo assim toda a dimensão dessa noite que parece nunca amanhecer transfigurada nesse poema de Ferreira Gullar:

 

Aprendizado

 

Do mesmo modo que te abriste à alegria

abre-te agora ao sofrimento

que é fruto dela

e seu avesso ardente.

 

Do mesmo modo

que da alegria foste

ao fundo

e te perdeste nela

e te achaste

nessa perda

deixa que a dor se exerça agora

sem mentiras

nem desculpas

e em tua carne vaporize

toda ilusão

 

que a vida só consome

o que a alimenta.

 

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Manobra rosácea não cala debate: “quem é o chefe do ‘escandaloso esquema’?”

Marcão (foto de Edu Prudêncio - Folha da Manhã)
Marcão (foto de Edu Prudêncio – Folha da Manhã)

 

 

Quem seria o chefe daquilo que o Ministério Público Eleitoral (MPE) de Campos denunciou (aqui) como “escandaloso esquema”? É a pergunta que faz o vereador Marcão Gomes (Rede), reeleito nas urnas com a maior votação legislativa de Campos (5.552 votos) e candidato à presidência da Câmara Municipal no próximo mandato. Marcão quebrou o silêncio no qual o Legislativo goitacá foi mergulhado nesta semana, com as manobras da base governista e do atual presidente Edson Batista (PTB), que não realizou as sessões previstas para evitar o debate sobre a Operação “Chequinho”, da Polícia Federal (PF), e seus resultados no início dos julgamentos (aqui e aqui) dos envolvidos pelo juízo da 99ª Zona Eleitoral (ZE) do município:

— Considerando o direito de fiscalizar e controlar os atos do Poder Executivo, inclusive os da administração indireta, nos termos da Lei Orgânica do município de Campos dos Goytacazes; e, principalmente devido ao “recesso branco” imposto pela base do governo Rosinha junto à Câmara, para evitar que as mazelas que estão assolando o nosso município sejam denunciadas, é meu dever, no exercício estrito da vereança, me manifestar, pois as inverdades elencadas pelo ditador enrustido deste município chegaram a um limite absurdo.

Ao criticar de maneira velada o marido e secretário de Governo da prefeita Rosinha Garotinho (PR), o vereador foi bem direto ao lembrar de um caso de maio de 2013, quando o líder rosáceo ainda era deputado federal e foi enquadrado publicamente pelo também deputado, hoje senador, Ronald Caidado (DEM):

— Caiado (DEM) já chamou (aqui) Garotinho (PR), na cara dele, em pleno Congresso Nacional, de chefe de quadrilha e frouxo.

Após lembrar o fato passado, que alcançou repercussão nacional, Marcão falou sobre o quadro presente e local:

— O que se vê hoje no grupo deste desgoverno, que felizmente acaba no final do ano, é gente de cabeça baixa, escondida, até chorando, com medo de ser presa pela PF. Alguém em Campos acredita que a ex-secretária (de Desenvolvimento Humano e Social Ana Alice Ribeiro) e a coordenadora do Cheque Cidadão (Gisele Koch Soares, ambas presas aqui pela PF, em 23 de setembro) tenham armado o esquema sem a autorização do chefe? Aliás, quem seria o chefe do “escandoloso esquema”? A ordem para desembolsar R$ 3,6 milhões/mês com 18 mil Cheques Cidadão, que seriam trocados por voto, como denunciou o MPE, partiu de quem?

 

Página 3 da edição de hoje (12) da Folha da Manhã
Página 3 da edição de hoje (12) da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

 

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Marcão: “quem seria o chefe do ‘escandaloso esquema’?”

Vereador Marcão
Vereador Marcão

Vereador reeleito com a maior votação de Campos (5.552 votos), Marcão (Rede) é candidato a presidente da Câmara Municipal na próxima legislatura. Entre os principais aliados do prefeito eleito Rafael Diniz (PPS), desde os tempos de ambos na bancada de oposição a partir da qual derrotaram nas urnas a situação, Marcão quebrou o silêncio ao qual a Câmara foi mergulhada nesta semana, com as manobras do atual presidente Edson Batista (PTB), para a não realização das sessões, evitando o debate sobre a Operação “Chequinho”, da Polícia Federal (PF), e seus resultados no início dos julgamentos dos envolvidos.

Confira o que o parlamentar falou ao blog:

— O (senador Ronaldo) Caiado (DEM) já chamou (aqui) Garotinho (PR), na cara dele, em pleno Congresso Nacional, de chefe de quadrilha e frouxo. E só o que se vê hoje no seu grupo político é gente de cabeça baixa, escondida, até chorando, com medo de ser presa pela Polícia Federal. Alguém em Campos acredita que a ex-secretária (de Desenvolvimento Humano e Social Ana Alice Ribeiro) e a coordenadora do Cheque Cidadão (Gisele Koch Soares, ambas presas aqui pela Polícia Federal em 23 de setembro) tenham armado o esquema sem a autorização do chefe? Aliás, quem seria o chefe do “escandoloso esquema”? A ordem para desembolsar R$ 3,6 milhões/mês com 18 mil Cheques Cidadão, que seriam trocados por voto, como denunciou o Ministério Público Eleitoral (MPE), partiu de quem?

 

Confira amanhã (12) a matéria completa na edição da Folha da Manhã

 

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Paula Vigneron — Entre quatro paredes

 

Atafona, 16/07/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, aurora de 16/07/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

— Há quanto tempo você está trancada neste quarto?

— Oito anos.

— Por vontade própria?

— Sim.

— Tem algum motivo específico?

— Não.

— Fale mais sobre você. Ou prefere que eu pergunte?

— Não fará diferença.

— O que você guarda dentro da caixa?

— Lembranças.

— Posso vê-las?

— Não. Está vazia.

— Onde estão as lembranças?

— Eu preferi apagá-las.

— Por que não as guardou?

— Por que ninguém me guardou?

— Rebater com perguntas. Não funciona comigo.

— Não era para funcionar.

— Quer falar algo? Em que posso ajudá-la?

— Em nada. Procure se ajudar.

— O que são essas frases na parede?

— Eu.

— Você?

— Meus gritos sufocados que ninguém quis ouvir.

— Você tentou dizer?

— Sempre tentei, mas não deu certo.

— Quer falar para mim?

— Você pode ler.

— Eu prefiro te ouvir.

— A leitura é sempre mais prazerosa. Acredite. Li a minha vida toda e me poupei de escutar coisas insatisfatórias.

— Ler é uma ótima opção. Ajudou você?

— Me ajudou a entender mais do que precisava e menos do que gostaria.

— Não é possível entender tudo.

— Não é possível entender nada.

— Vamos dar uma volta?

— Me dê um motivo para isso.

— Vamos observar. Você pode tirar novas conclusões sobre o mundo.

— O tempo passa e coisas mudam, mas minhas conclusões sobre o mundo serão as mesmas.

— Você levou quanto tempo para escrever nas paredes?

— Eu ainda não terminei. E não sei quando terminarei. É uma eterna construção. É a minha saída quando o silêncio me sufoca.

— Por que não experimenta conversar com sua família?

— Porque ela nunca experimentou me ouvir. Não havia tempo para isso.

— Eu posso te ouvir.

— Tarde demais, doutor. Eu não sei mais falar. Não sei empregar as palavras certas fora da minha escrita.

— Eu escuto suas confusões e ajudo você a entendê-las.

— Se eu não as entendo, lamento, mas não será você quem as entenderá.

— Posso te surpreender.

— Ah, não. Eu nem consigo me lembrar da última pessoa que conseguiu me surpreender. Desculpe desapontá-lo.

— E esses CDs? São seus?

— Meus companheiros de melancolia. Se anseio por uma voz, recorro a eles.

— Não sente falta de uma voz amiga?

— Eles são as vozes amigas das quais você fala.

— Por que caneta preta?

— Porque as palavras saem envoltas em um misto de sensações que, para mim, é escuro e impenetrável.

— Suas roupas combinam com a escuridão das paredes.

— Minhas roupas são o reflexo do meu interior.

— É frio aí dentro?

— Muito.

— Nem a luz do sol, quando passa pelo vidro, te aquece?

— Não. Estou afastada dos raios. O frio também é impenetrável.

— Não pensa em voltar ao mundo real?

— Eu estou no mundo real.

— Não. Você está fugindo dele.

— O que é o mundo real?

— É a vida que te espera ali, na saída do quarto.

— Nada me espera. E acredito que você saiba que nada te espera. Nada espera ninguém.

— Você é jovem e tem uma vida toda pela frente. Como acredita que não há esperança?

— Devido às minhas experiências. Repetitivas, vazias e cansativas.

— Mas você tem muitas coisas para viver.

— Não sei. Quem me garante, doutor?

— Pela lógica da vida.

— A vida não tem lógica. Acho que, no fundo, você sabe disso.

— Permita-se viver coisas novas.

— Seu discurso vai de encontro ao que você realmente pensa. É visível a falta de emoção quando fala. Você quer me salvar, mas sabe que, para isso, tem que se entender.

Suspiros invadiram o ambiente.

— Vá, doutor. Pegue a caneta e use a minha parede para dizer suas verdades. Para expressar o que ninguém soube ouvir.

 

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STF manda soltar Gustavo, Renato, Marcus Alexandre e mais três

Ministro Ricardo Lewandowiski
Ministro Ricardo Lewandowiski

 

Por decisão de ontem do ministro Ricardo Lewandowisi, do Supremo Tribunal Federal (STF), o empresário Gustavo Ribeiro Poubaix Monteiro, filho do empreiteiro Ari Pessanha, será solto, com efeito estendido a mais cinco igualmente condenados pelo caso conhecido como “Meninas de Guarus”, pelo qual agora rsponderão em liberdade. Três dos beneficiados são o empresário Renato Pinheiro Duarte, o ex-vereador Marcos Alexandre dos Santos Ferreira e Cleber Rocha da Silva. Os outros dois serão conhecidos tão logo o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) receba, provavelmente ainda esta tarde, a comunicação da decisão do STF para proceder a soltura.

Consultada pelo reportagem da Folha a secretaria estadual de Administração Penitenciária (Seap), informou que os seis beneficiados com a decisão do Supremo, por enquanto, continuam presos. Abaixo a atualização das situações de cada um dos 11 condenados em primeira instância:

 

Seap

 

1 – Nelson Nahim de Oliveira: encontra-se em liberdade desde 27/10/2016.
2 – Renato Pinheiro Duarte: encontra-se na Penitenciária Bandeira Stampa, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.
3 –  Tiago Machado Calil: encontra-se na Penitenciária Bandeira Stampa, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.
4 – Fabrício Trindade Calil: encontra-se na Penitenciária Bandeira Stampa, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.
5 – Marcus Alexandre dos Santos Ferreira: encontra-se na Penitenciária Bandeira Stampa, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.
6 – Cléber Rocha da Silva: encontra-se na Penitenciária Bandeira Stampa, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.
7 – Jayme César de Siqueira: encontra-se em liberdade desde 24/08/2016.
8 – Sérgio Crespo Gimenes Júnior: encontra-se em liberdade desde 27/06/2016.
9 –  Dovany Salvador Lopes da Silva Batista: encontra-se na Cadeia Pública Pedrolino Werling de Oliveira, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.
10 – Leilson Rocha da Silva: encontra-se na Penitenciária Bandeira Stampa, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.
11 – Gustavo Ribeiro Pourbaix Monteiro: encontra-se na Penitenciária Bandeira Stampa, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.

 

 

Confira amanhã a cobertura completa do caso na edição da Folha da Manhã 

 

Atualização às 20h55 para complemento de informação

 

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