Marcelo Amoy — O preço da irresponsabilidade

 

Amoy 16-01-17

 

 

Sabemos que o dinheirinho nosso de cada dia é suado e limitado: por isso tem grande valor e devemos usá-lo com equilíbrio. Assim, qual de nós, sem ter tido aumento de salário ou renda, ousaria passar a gastar mais sem qualquer preocupação? Mesmo acumulando desejos e adiando necessidades, evitamos qualquer passo nesse sentido por causa de uma coisa chamada responsabilidade. É por causa dela que, quando acontece de gastarmos além da conta, corremos a segurar despesas para reorganizarmos nossas finanças — pelo menos será este o conselho que pessoas responsáveis nos darão. Se você acha que isso é lógico, reflita sobre o que nossos governantes têm feito com o dinheiro público e (re)pense se tem cabimento sair por aí gastando como se não houvesse amanhã.

Por razões culturais — mais do que por justificáveis necessidades —, o brasileiro parece desejar e/ou supor que o dinheiro público brote como chuchu na cerca num latifúndio da Casa da Moeda. A consciência de que o Estado só tem para gastar o que nós pagamos de impostos ainda é rara. Além disso, costuma-se esperar que o Estado se responsabilize pela tutela de grande parte de nossos desejos e necessidades. E pior, enquanto isso: o dinheiro público costuma ser visto como sendo de ninguém — embora devesse ser encarado pelo que é: o suado e limitado dinheiro de todos nós. Então, se não podemos fazer milagres no orçamento doméstico, como esperar que o governo possa fazer no dele — especialmente para atender demandas que nem deveria?

Aliás, o debate sobre o papel do Estado precede as discussões sobre seu desempenho. Sem entrar nesse mérito, até porque este espaço é limitado como o nosso dinheiro, precisamos primeiro separar desejos de necessidades, encarando o atendimento das últimas com racionalidade e dentro das possibilidades do mundo real. O contrário é o que o alcoólatra faz: beber irresponsavelmente até espremer a garrafa — e sem jamais se satisfazer. Isso porque mesmo todo o dinheiro público não é suficiente para cuidar de todas as necessidades. É urgente que a sociedade compreenda as limitações orçamentárias, exija que se faça mais com menos e reconheça que precisamos de gestores eficientes sem imaginar, com culpa indevida, que isso nos transformará em pessoas insensíveis.

Não, ninguém se tornará (nem deve se achar) insensível por defender controle de gastos mesmo sabendo o imenso tamanho da demanda social, reprimida há séculos, por atendimento nos serviços públicos – e acho que o Estado tem que satisfazê-la no que lhe compete. Infelizmente, nem a imensidão das necessidades, nem o tamanho da nossa sensibilidade, nem nosso desejo de melhorar a vida do próximo farão crescer dinheiro onde for preciso. A gastança irresponsável (não falarei aqui da corrupção) produz o resultado inverso: a falência pública e a consequente piora dos já ruins serviços oferecidos.

Foi assim que o caos nos chegou em três esferas: Campos vendeu seus futuros royalties para tapar buracos nas contas, não nas ruas — enquanto a Educação não passa na mais rasa das avaliações, a Saúde nem encontra vaga na UTI e a máquina pública, ficando sem combustível… vai parando enquanto acumula defeitos. Por sua vez, o Estado do Rio enlouqueceu aumentando despesas 45% acima de uma arrecadação decrescente nos últimos anos e agora atrasa até salários com a cara de quem parece não saber o que aconteceu — todo mundo sabe. Já o governo federal… movido por uma ideologia que eu reputo, no mínimo, equivocada (além de  interesses imediatistas, eleitorais e partidários), produziu foi atraso social enquanto jurava fazer o contrário — afinal: nos incentivou a provar o doce, mas nos impediu de avançar para a segunda mordida (isso pra não dizer que enfiou o dedo na nossa goela pra devolvermos o que já tínhamos engolido). É evidente que vivemos cercados de péssimos e irresponsáveis administradores. Mas como mesmo chegaram aos seus cargos?

“A hora de consertar o telhado é quando não está chovendo”, se diz popularmente. E o que fizemos? Ignoramos os avisos e, não bastasse: ainda quebramos mais umas telhas achando — irresponsavelmente — que a tempestade nunca viria. Num mundo tão precisado de formigas, fomos cigarras — para o horror não só de La Fontaine. Já foi dito que “a política é a arte do possível” (Bismarck — chanceler alemão) e que “a economia é a administração da escassez” (junção que abreviei das definições de Robbins, mais alinhado ao pensamento de Mises, e de Samuelson, um pensador a la Keynes — economistas de visões divergentes). Óbvio: nem tudo é possível porque não há recursos suficientes. É a administração responsável desses limitados recursos, com a priorização das urgências e necessidades — e sem a perda de uma perspectiva humanista –, que caracteriza uma boa gestão pública.

Então, por que políticos são aplaudidos e eleitos prometendo uma fartura impossível? Por que a sociedade não se toca de que o Estado, visto equivocadamente por muitos como um desejável grande provedor de tudo – mas percebido corretamente por tantos como o provável garantidor de quase nada –, só é eficiente em nos infantilizar, por nos tirar autonomia e tolher nossa iniciativa; e em nos condenar à mendicância, por nos manter dependentes do que ele não é sequer minimamente capaz de entregar? Por que aceitamos trocar nossa independência como indivíduos pelos favores distribuídos a quem se torna “amigo do Rei”? Temos medo de crescer? Continuaremos apostando no milagre da multiplicação infinita das verbas? Vamos continuar achando que a racionalidade econômica e a responsabilidade individual são inimigas da solidariedade e da preocupação social? Até quando?

O que nos têm impedido, como sociedade, de alcançar a consciência de que é alto, muito alto, o preço da irresponsabilidade?

 

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Fabio Bottrel — A Causa do Fracasso da Humanidade

 

Bottrel 14-01-17

 

 

A cada dia que passa nos tornamos o que acreditamos ser, enquanto improvisamos um sentimento que não seja mudo para quem tão pouco entende o mundo. É interessante observar dessa perspectiva, entre o pensamento e a vida,o filme Angel-a de Luc Besson, à medida que Ângela mostra ao personagem André como ter autoestima e confiança o comportamento do personagem muda, e assim também a sua vida. O estopim da mudança foi o pensamento sobre si mesmo e a confiança para tomar as rédeas de sua vida, como essa dolorosa cena do espelho que antes o alienava ao próprio reflexo:

 

 

O filme é de 2005 com roteiro de Luc Besson, Thierry Arbogast e Martine Rapin, conta a vida de André, um jovem endividado com os criminosos franceses que resolve pôr fim à própria vida. No local onde suicidaria André encontra Ângela e a salva do que também seria seu destino. Grata, resolve ajudá-lo a resolver as pendências dele e revela um grande mistério próximo ao final.

Tal como no filme é fácil notar, tudo o que se cala transborda pelos olhos, tristeza ou alegria, insegurança ou confiança, nada dói mais que o amor sem vazão, represado dentro do coração. O fracasso parece iminente quando falta amor próprio e confiança na própria capacidade.Como já dizia William James, só existe uma causa para o fracasso da humanidade: a falta de fé em si mesmo.

 

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“O grande Gastby” — Barcos contra a corrente

 

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Após “Ferreira Gullar — Autobiografia poética”, concluído o segundo livro das férias. A leitura de “O grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald (1896/1940), justifica que romance e seu autor sejam considerados entre os grandes do séc. XX. Na comparação com o estilo conciso de Ernest Hemingway (1899/1961), talvez maior referência do Modernismo na prosa dos EUA, a escrita fluída, mas caudalosa de Fitzgerald, endossa a distinção entre os dois feita por outro escritor, o brasileiro Luis Fernando Verissimo: “Hemingway é um seco; Fitzgerald, um suculento”.

Na verdade, como narra em seu biográfico “Paris é uma festa”, sobre os encontros e desencontros dos grandes modernistas das artes do mundo na capital francesa dos “loucos” anos 1920, sempre regados a excessos de álcool, Hemingway era não só conterrâneo e contemporâneo, mas amigo próximo de Fitzgerald. O primeiro leu antes de ninguém as cópias ainda não revisadas de “O grande Gatsby”. Ambos integravam aquilo que a também escritora Gertrude Stein (1874/1946), outra estadunidense “exilada” em Paris, batizaria de “geração perdida”.

Considerada a obra prima de Fiztgerald, “O grande Gatsby” é leitura obrigatória nas universidades do mundo que estudam a literatura dos EUA. E foi novamente popularizada com sua mais recente adaptação ao cinema em 2013, pelo diretor australiano Baz Luhrmann, tendo Leonardo DiCaprio como protagonista. Na verdade, foi a quinta transposição do livro às telas, depois de Jay Gatsby ter sido encarnado em filmes homônimos pelos atores Warnen Baxter (1926), Alan Ladd (49) e Robert Redford (74), além de Toby Stephens, numa produção para a TV de 2000.

A trama gira em torno da trágica história de amor idealizado, mesmo após consumado e perdido cinco anos antes, do noveau riche Gastby pela aristocrática Daisy Buchanan, casada e infeliz com seu igual em extrato social: o ex-astro universitário de futebol americano Tom Buchanan, asumido racista, misógino e marido infiel. Completa os personagens principais o corretor de ações Nick Carraway, primo de Daisy e vizinho de Gatsby, que passa a ser um elo na obsessessão deste em reconquistar a amada. Amor defindo assim por seu cupido:

 

“Quando me aproximei deles para me despedir, percebi que a expressão de assombro tinha retornado ao rosto de Gatsby, como se uma leve dúvida tivesse surgido em sua mente, questionando aquele momento de felicidade. Quase cinco anos! Devia ter havido momentos, mesmo naquela tarde, em que Daisy não correspondia totalmente a seus sonhos… Não por culpa dela, mas devido à colossal vitalidade da ilusão que ele alimentara. Uma idealização que havia crescido e se tornado maior que ela, maior que qualquer coisa no universo. Ele se lançara dentro do sonho com paixão criadora, acrescentando detalhes todo o tempo, decorando-o com cada pluma brilhante que passava em seu caminho. Não há intensidade de ardor ou de euforia que possa desafiar aquilo que um ser humano é capaz de armazenar em seu fantasmagórico coração”.

 

É Carraway quem narra restrospectivamente os fatos. Com o auxílio da jogadora de golfe Jordan Baker, sua namorada de ocasião e amiga de Daisy, ele atua como cupido para um amor do passado do seu vizinho misterioso, famoso pela ostentação das festas que promove na sua mansão de West Egg, Long Island, tradicional balneário marinho de Nova York. Os personagens principais têm posições sociais bem mais privilegiadas do que Myrthle Wilson, amante de Tom Buchanan e esposa insatisfeita do inexpressivo dono de posto George B. Wilson.

E não é por acaso que o romance cruza o niilismo da burguesia estadunidense com a desumanização do seu proletariado, naquele mesmo período de pujança econômica dos EUA, entre o fim da I Guerra Mundial (1914/18) e a Grande Depressão de 1929. Gatsby, Daisy, Tom, Carraway e Jordan dividem suas vidas de colorido artificial, transitando de carro ou trem entre Nova York e Long Island. E, exatamente no meio do caminho, fica o refugo do “sonho americano”, onde o casal Wilson habita no cotidiano dos “homens cinzentos” da Revolução Industrial.

F. Scott Fitzgerald
F. Scott Fitzgerald

Na rica descrição de Fitzgerald, pela boca de Carraway:

 

“Mais ou menos  na metade do caminho entre West Egg e Nova York, a rodovia rapidamente se une à linha férrea e corre ao longo dela por uns quatrocentos metros, de modo a afastar-se de uma certa área desolada. É o vale das cinzas, uma fazenda fantástica em que as cinzas crescem como trigo em sulcos, colinas e jardins grotescos; em que as cinzas assumem a forma de casas e chaminés de onde sobe a fumaça; e em que, finalmente, por meio de um esforço transcendental, tomam o aspecto de homens cizentos, que se movem devagar, como se até mesmo eles estivessem se defazendo no ar empoeirado. Por vezes, surge uma linha de vagões cinzentos que se arrasta ao longo de trilhos invisíveis, produzindo um barulho apavorante, e então para; imediatamente, o enxame de homens cinzentos, carregando pás de chumbo, levanta uma nuvem impenetrável de poeira, que esconde por inteiro sua ação obscura da visão dos transeuntes”.

 

Ao deixar para trás uma origem social não muito diferente, na tentativa de ofertar a mesma vida de conforto material na qual Daisy foi criada, Gatsby transforma em pesadelo próprio o “sonho americano” — aquele mesmo que Donald Trump foi eleito presidente dos EUA, quase um século depois, na promessa de resgatar. Ao custo mais alto possível, a execução da fatura revela o saldo devedor da sociedade burguesa e materialista daquele começo de século 20 — que, no milênio seguinte, ainda parece estar em aberto.

Pobres ou ricos, burgueses ou proletários, todos os personagens centrais têm em torno de 30 anos. Como Fitzgerald, Hemingway e sua mesma “geração perdida” naqueles “anos loucos” entre 1918 e 1929, comungam os dilemas de quem saiu da juventude e da I Guerra — “migração daquelas hordas de bárbaros teutônicos” — rumo à maturidade. E nenhum deles parece cumprir seus ritos de passagem com mais sensibilidade do que Carraway:

 

Nova York dos anos 1920
Nova York dos anos 1920

“Comecei a gostar de Nova York, das sensações aventurosas e excitantes da noite e da satisfação que a constante passagem de homens, mulheres e veículos dá aos olhares inquietos. Gostava de subir pela Quinta Avenida e escolher mulheres de aspecto romântico no meio da multidão e imaginar que dentro de alguns minutos eu entraria em suas vidas, sem que jamais alguém soubesse ou desaprovasse. Algumas vezes, em minha imaginação, eu as seguia até seus apartamentos nas esquinas de ruas obscuras e elas se viravam e sorriam para mim, antes de desaparecerem por alguma porta e se perderem na escuridão cálida. No crespúsculo encantado da metrópole, sentia algumas vezes uma solidão assombrosa e percebia que outros também a sentiam, jovens pobres que gastavam o tempo em frente às vitrinas, esperando a hora do jantar solitário em qualquer restaurante, jovens funcionários de escritório perdidos no crepúsculo, desperdiçando em noites vazias os momentos mais pungentes de suas vidas”.

 

É o mesmo Carraway, primo de Daisy e vizinho de Gastby, que conecta seu “espanto” gullareano com o dos holandeses que, expulsos de Pernambuco, vão à América do Norte, no séc. XVII, fundar Nova Amesterdã — mais tarde Nova York. E, como os protestantes holandeses levaram com eles a comunidade judia que se assentara em Recife, inadmissível no catolicismo português, instiga pensar que Steven Spielberg, Woody Allen e Bob Dylan, entre outros, hoje pudessem ser pernambucanos.

Nos cinco últimos parágrafos do livro, pelo seu narrador, o desfecho da história de um verão:

 

“Na última noite, com minhas bagagens empilhadas e meu carro vendido ao dono do armazém, atravessei o gramado e fui olhar pela última vez aquele imenso e incoerente fracasso que pretendia ser uma casa, Em um dos degraus brancos, uma palavra obscena, rabiscada por algum menino com um pedaço de tijolo, destacava-se claramente ao luar, eu eu a apaguei com cuidado, esfregando a sola do meu sapato na pedra. Então, fui até à praia e deitei minhas costa na areia.

A maioria das grandes residências contruídas junto à praia estava fechada, agora que o verão havia terminado; e praticamente não havia luzes, exceto o brilho impreciso e ondulante de um ferryboat que percorria o Estreito. E, à medida que a lua se erguia cada vez mais alto, todas aquelas casas desnecessárias começaram a se dissipar, até que aos poucos tomei consciência da velha ilha que florescera em outros tempos ante aos olhos dos marinheiros holandeses, como se fosse um seio verde e dadivoso do Novo Mundo. Suas árvores derrubadas, as grandes árvores que tinham dado lugar à casa de Gatsby, haviam sido motivo de admirados e respeitosos sussurros que refletiam o último e maior de todos os sonhos humanos; durante um momento, breve, mais cheio de encantamento, os homens devem ter prendido a respiração diante deste continente, compelidos a uma tensa contemplação estética que nem compreendiam nem desejavam, face a face, pela última vez na história, com alguma coisa que correspondia plenamente à capacidade que os seres humanos têm de maravilhar-se.

Fiquei sentado na praia, meditando sobre o velho mundo desconhecido e pensando no deslumbramento de Gatsby quando pela primeira vez identificou a luz verde que ficava acesa na ponta do acoradouro como a luz da casa de Daisy. Ele percorrera um longo caminho até chegar a este gramado que o luar tornava azul, e seu sonho deve ter parecido tão próximo que seria praticamente impossível deixar de alcançá-lo. Ele não sabia, no entanto, que o sonho havia ficado para trás, perdido em algum lugar daquelas vasta obscuridade que es estendia além da cidade, em que os campos escuros se estendiam muito além da noite.

Gatsby acreditara na luzinha verde, naquele futuro orgiástico que ano após ano se afasta de nós. O futuro já nos iludiu tantas vezes, mas não importa… Amanhã correremos mais depressa e esticaremos nossos braços um pouco mais além até que, em uma bela manhã…

E assim nós prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente de volta ao passado”.

 

 

Contra a corrente, “só pra exercitar”, navegue pelos trailers de “O grande Gastby” em suas versões às telas de 1929, 1949, 1974, 2000 e 2013:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Guilherme Carvalhal — A Cortina

 

Carvalhal 12-01-17

 

 

Depois que papai instalou a cortina, nossa casa nunca mais foi a mesma. Não tinha mais a incidência do sol ao fim da tarde traçando um raio que aumentava de extensão pela sala até morrer ao anoitecer. Não enxergava mais quando Dorotéia chamava em casa convidando mamãe pro dominó. Para quem as regras impediam de sair sozinho, a cortina isolou meu mundo.

Desprovido da paisagem da rua a acalentar minha curiosidade pueril, colei-me à parede e a cada som passei a associar alguma imagem. Quando um pássaro cantava, de cá eu cogitava, um melro ou um canário, pintava-o com minhas cores prediletas, reverenciava seu voo em um estilo peculiar. O pedreiro comentando com papai sobre levantar um muro me levou a imaginar as torres de um castelo medieval e seus crocodilos ou o entorno de cerca de arame farpado e eletrificado de uma base militar.

Cresci nas intermitências do claustro obscuro gerado pela cortina. Como aquela camada de cetim colocava um ponto final em minha visão, restava-me acrescentar reticências continuando a história a meu bel-prazer. Mais do que sensorialmente, finquei as raízes no quintal e cruzei as ruas de bicicleta imaginariamente, de onde o sabor das mangas caídas do pé após a chuva de verão adocicavam minhas papilas gustativas a centenas de metros de distância.

A abertura de um mundo palpável à medida em que os anos passavam deixaram essa lembrança trancafiada em algum lugar do passado. Da adolescência à vida adulta, trocamos as coisas de meninos pelas de homens. Assumimos aquele fervor burocrático do dia a dia, em um turbilhão de compromissos nos quais não diferenciamos mais onde termina nosso legítimo eu e onde começa um simulacro existencial exigido pelo mundo.

Em contrapartida, sempre quando observo da janela do meu carro as cortinas das casas balançando ao vento outonal, avoluma algo jamais de fato silenciado, como um animal na coleira latindo e dando solavancos contra a corrente chumbada no concreto. E o sinal se abre, lembrando-me da eterna progressão do mundo adiante. Por uns breves instantes, meus olhos se fecham e recrio um mundo novo, em um projeto de engenharia exclusivamente meu. Meu universo, adaptado aos meus desejos, com regulamentos próprios, onde minha satisfação pessoal reinava.

Eis que o buzinaço me lembra da obstrução do trânsito. Engato a marcha e sigo para meu próximo compromisso, para o mundo real, inequivocadamente real, inequivocadamente contra mim. Aquele vaticínio ao qual nos rendíamos, inescapável, inevitável. O buzinaço cessa. Os demais carros me ultrapassam. Sinto que cada motorista ao meu entorno acordou unicamente para descerrar as cortinas de minhas pálpebras e me libertar do cárcere de minhas fantasias.

 

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Carol Poesia — Quebra tudo e chama a NASA!

 

Carol Poesia em São Tomé das Letras (Foto: Adriano Moura)
Carol Poesia em São Tomé das Letras (Foto: Adriano Moura)

Em São Tomé das Letras nada fazia sentido: “cogumelos azuis”, “vampiro doidão”, “diabo careta”… “Quebra tudo e chama a NASA” — cantávamos em coro, protestando contra tudo, invocando sabe lá Deus o quê.

No meio da tarde, o Ventania e suas viagens, acessíveis a qualquer um. Montanhas, pirâmides, água. “São Tomé é cidade mágica”. Eu sei,  eu sei…

“É um dos sete pontos energéticos do mundo”. Em meio a muitas risadas — “quais são os outros seis”? A pergunta era legítima, mas virou piada. É a brisa na calçada, carrega um, carrega dois, carrega três.

A Ladeira do Amendoim desafia a lei da física. Puxa de baixo pra cima!! E não é “coisa pra inglês ver”!

No mato, o tempo passa diferente, definitivamente. Há vida cheia de si “pra dar e pra vender”!

Em São Tomé nada fazia sentido: parecia nem ter tido 2016. Sem golpe, sem massacre, sem desastre. O ano passado foi um filme ruim que ninguém quer rever.

 

 

Hoje (ontem) morre Zygmunt  Bauman, autor que tanto nos elucidou sobre a Modernidade, suas incertezas, ansiedades, sobre as relações do homem na cidade.

Afinal, o que eu perco não tendo uma comunidade?

 

 

No último dia em São Tomé, o proprietário da casa perguntou se algum de nós havia esquecido os óculos no passeio pela manhã. Os óculos eram, de fato, de um de nossos amigos. E haviam sido esquecidos durante um passeio de ônibus com mais de quarenta pessoas, para uma fazenda a quilômetros dali.

Como os óculos teriam retornado até nós? Ficamos todos surpresos. Assim como havíamos ficado surpresos, nos dias anteriores, com cada gentileza na rua, cada explicação de bom grado e informação gratuita. Há paciência nas palavras das pessoas de lá. Há paciência nas nossas palavras quando estamos lá. Dizem que eles falam cantando… É verdade, nós ouvimos bem!

Nesses raros momentos de cordialidade e zelo por parte de estranhos, percebo, de fato, o quão líquidas são as relações na cidade — baseadas, comumente, em vantagens. Lembro-me da Modernidade Líquida de Bauman e invejo a lucidez desse povo que olha no olho e é feliz sem wi-fi.

São Tomé não faz nenhum sentido, mas o nonsense às vezes é o que há de mais honesto a ser vivido.

 

 

Quebra tudo e chama a NASA (Tibil)

 

quebra tudo e chama a nasa

quebra tudo e chama a nasa

quebra tudo e chama a nasa

 

a tesoura ta na bolsa

um cortinho e nada mais

da sala nem me lembro

 

onde é que esta maria

 

se você não tem o Franks tem

se você não tinha o Tio Pa tinhas

se você não gosta a Gal gosta

 

quebra tudo e chama a nasa

 

se a nasa não vier chama a ONU

 

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Fernando Leite — Carta pública ao prefeito Rafael Diniz

 

Leite 09-01-17

 

 

Fiquei matutando sobre o que escrever nesta inauguração de meus escritos no blog Opiniões, a convite do jornalista Aluysio Abreu Barbosa. Grande responsabilidade. Uma coisa é escrever no meu bloguinho, outra coisa é o blog Opiniões, vitrine virtual do jornal Folha da Manhã. Nos “Outros Quintais”, estou em casa, de bermuda e sandálias, mas, aqui, é “casa dos outros” e como dizia minha mãe, “é ambiente que exige recato”.

De onde escrevo, regularmente, num canto do hall dos quartos da minha casa, onde divido a mesa com minha pequena estante (aprendi com o mestre Ariano Suassuna que, quem se aventura nas alamedas da literatura, deve escrever todo dia) vi, na prateleira em frente, a lombada do livro de Gabriel Garcia Marquez, “Ninguém escreve ao coronel”, gritar meu nome. Pensei em fazer uma analogia do título com a derrocada do nosso “coronel de tênis”, mas logo desisti. O conto do colombiano, escrito aos 29 anos, denso como tudo que escreveu na vida, antes de entregar ao mundo, o romance universal, “100 anos de solidão” é muita coisa para ilustrar o crepúsculo da nossa personagem.

Cogitei a barbárie do Presídio do Amazonas, em Manaus e me lembrei que, no final da década de 1970, do século e milênio passados, eu começava a minha militância partidária. O regime militar, já exaurido, dava os primeiros passos em direção à abertura política. Logo no início dos anos 80, o general Figueiredo, era indicado presidente da República e anunciava que quem se colocasse contra a volta do Poder Civil, ele “prendia e arrebentava”. Naquela época, ainda havia, em menor escala, os órgãos de controle e repressão e o meu maior medo era ser preso. Pensava comigo: prefiro morrer! De lá para cá muita coisa mudou no País, mas o sistema prisional continua o mesmo, uma câmara de horror. Ainda que tenha sido concebido como instituição reformadora, capaz de ressocializar o infrator. Não, tema muito áspero para início de conversa.

Quem sabe, então, uma carta pública, dessas que a gente nunca manda, ao novo inquilino do Poder Executivo Municipal, Rafael Diniz. Essas cartas em que a gente diz o que pensa e vai além. Seria pernosticismo de minha parte, eu que nunca consegui, sequer, vencer as barreiras do partido, para ser candidato a prefeito, embora tenha tentado 3 vezes. Mas, vá lá! Na carta e, seria carta mesmo, e não, e-mail, sugerir que ele convide os místicos da Planície, para uma sessão de descarrego civil no centro administrativo municipal, o nosso Passo, uma vez que ali, nos últimos 8 anos, uma seita partidária, cumpria, dia a dia, o ritual sedutor do culto à personalidade ao líder espiritual dos povos (ele, de novo!), guardando as proporções, uma versão papagoiaba do que os bocheviques faziam para Stálin, naquele castelo horrendo do Kremlin. E essa praga pega.

Antes, porém, recomendar, o que dizia o acadêmico Austregésilo de Athaíde, perguntado sobre o que faria se fosse um gestor público, “mandaria costurar a chave do cofre no cós da calça”.

Depois, pedir o esforço de reinventar a cidade – essa nossa vila formosa de São Salvador dos Campos. As cidades são espaços urbanos vivos, que se movem, e, se não cuidadas, incham, sangram em sua vielas infectas, adoecem e morrem. Cidades não são obras prontas e acabadas. São construídas, dia a dia, por isso correm o risco de se tornarem ambientes tristes, feios, inóspitos, se deixadas aos cuidados de aproveitadores, todos “com a mesma boca torta, a mesma artéria aorta, o mesmo sangue ruim”.

Colocar música clássica nos corredores dos hospitais e maternidades, depois de sanar as goteiras e consertar os elevadores, além de abastecer as farmácias de remédios. Está, cientificamente, comprovado que uma cantata de Bach, uma sinfonia de Bethoven, ou a “Feira de Mangaio”, de Sivuca, e “Asa Branca”, de Luis Gonzaga, filho de Januário, têm efeito curativo. Criar os corais dos pacientes dos CRAs, promover a inclusão pela arte, fazer nosso jardim botânico, semear creches para o resgate da primeira infância desassistida, ensinar nossa história nas escolas e convidar os artistas, os operários, as mulheres dos cortiços, as donas de casa que nunca foram ao teatro ou ao cinema, os enganados pelos mercadores da fé, os viventes das periferias para que digam que cidade querem. Eles que nunca tiveram cidade. É desse jeito que se reinventa um lugar para se viver de verdade. Com menos carros e mais bicicletas. Com poesia declamada nas praças, mesmo que só as flores prestem atenção. O começo é sempre assim. O poeta Ferreira Gullar, advertiu há décadas “a arte existe porque a vida não basta”. Ora direis, isso é coisa de doidivanas e eu responderei: amém!

Apoiar as manifestações criadoras, instituir uma volante para vigiar as margens do rio Paraíba do Sul, não, permitir que a especulação financeira violente este corpo feminino d’água que alimenta homens e animais desde sempre, sem exigir nada em troca, nem um aplauso solitário, no final do dia quando fica mais dourado, com a inclinação do sol. Ficam também sob a guarda da Volante, as lagoas, os riachos e rabichos d’água que varam a Planície à procura da vazante. Para que cumpram o seu destino de virar mar.

Pode soar détraqué, piegas, sei lá, mas criar oportunidades para os meninos e meninas, mormente, àqueles que ficam horas em frente as vitrines com os pares de tênis mais reluzentes, absolutamente, inacessíveis para seus pés descalços, neste paraíso capitalista, cujo grande tesouro é a democracia que permite tudo, desde que você tenha posses. Por aqui, até os socialistas mais convictos são democratas. Eu sou anarquista, graças a Deus!

Pedir cuidado, muito cuidado com os tartufos, que Molière tão bem identificou, nas lonjuras do século 17. São idólatras do Poder, independente de quem o exercite, no momento. São exímios bajuladores e têm como missão tirar o governante do mundo real. Só pensam em si mesmos estes sicários modernos.

Por derradeiro, lembrar ao jovem prefeito as façanhas de Lulu Bergantim, personagem do nosso patrício, da Baixada da Égua, o gigante Zé Cândido de Carvalho. O prefeito que não se curvou aos formalismos, ao rito oficial, à liturgia obsoleta do cargo e do alto de sua santa loucura transformou Curralzinho Novo numa cidade resolvida e confortável para o seu povo, agente protagonista da mudança que transforma para melhor e não para ficar igual.

Porque administrar todos administram, uns com mais tirocínio que outros, com mais esperteza desonesta, mas governar é ir além, é conduzir. Obras são perecíveis, ações são perenes.

Mas é tanta coisa, ao mesmo tempo e junta, que, em sã consciência, ninguém consegue fazer. Até Deus precisou de 7 dias para semear galáxias neste universo curvo. Eu sei. Por isso não sugiro prazo para tamanha tarefa. Peço, apenas, que comece. Já é um grande presente.

Então: Meu caro prefeito Rafael, nestas mal traçadas linhas…

 

Atualização do texto às 10h43

 

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Artigo do domingo — Referências

 

Zé Eugênio (Foto: Facebook)
Zé Eugênio (Foto: Facebook)

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Já escrevi e repeti mais vezes do que gostaria: nada dá a sensação do tempo passando sobre nós, do que quando ele não passa mais na vida de quem nos servia de referência. No dia de Natal, na morte do cantor e compositor britânico George Michael (1963/2016), escrevi e me lamentei, mais que pela pessoa que não conheci, pela perda do autor e intérprete de parte da trilha sonora de uma geração.

Só quem foi adolescente e jovem entre os anos 80 e 90 do último século do milênio passado, sabe o orgulho que deu fazer parte presente daquela efervescência. Da música, ao cinema, aos esportes, aos avanços da tecnologia, ao fim da Ditadura Militar no Brasil (1964/85) e da Guerra Fria (1945/91), no mundo, não há para onde se olhar retrospectivamente sem orgulho do que era produzido enquanto cumpríamos nossos ritos de passagem à maturidade.

À parte quaisquer diferenças individuais, tínhamos esperança coletiva num mundo melhor do que este tão estranho no qual nos encontramos — e constatamos, talvez em desencanto, também ter ajudado a construir.

Conheci José Eugênio Koch Torres, o Zé Eugênio, nos anos 1990. Três anos mais velho que eu, sabíamos quem éramos desde a década passada. Mas só passamos a conviver, a partir de amigos comuns, quando a diferença de idade tão “distante” na adolescência se apequenou naturalmente na juventude e idade madura.

Formal e de poucas palavras no contato inicial, se revelava verborrágico e muitas vezes assertivo após alguma intimidade. Numa mesa de bar ou reunião entre amigos, com a voz naturalmente mais solta pela bebida, não havia como “competir” com Zé Eugênio na dominância do debate. Sobre qualquer assunto, costumava dar e sustentar sua opinião com firmeza e eloquência — mesmo que, eventualmente, fosse apenas um “chute”.

Quando ele inclinava o queixo para baixo, franzia o cenho e encarava por cima dos olhos, numa expressão facial bem característica, era capaz de conferir importância com sua voz grave ao argumento, a priori, mais despretensioso. E, a despeito do desagrado do eventual interlocutor, era sempre o mais sincero possível.

Certo ou errado, não cultivava obstáculos de hipocrisia social entre mente e boca. E, embora nunca tenha lhe dito, o admirava por isso.

Fui algumas vezes à sua casa de construção antiga e bem conservada na rua Aquidaban. E nela, quando conseguia cavar a muito custo um hiato nos monólogos de Zé Eugênio, mantivemos aquelas conversas inteligentíssimas das quais, no dia seguinte, ninguém nunca se lembra.

De férias em Atafona, com meu filho, dolosamente desligado do mundo para tentar colocar corpo e leitura em dia, fiquei ainda ilhado de telefonia celular desde o último domingo, como todos em São João da Barra, por conta da competência natimorta da Vivo. Neste isolamento que me impus e que me foi imposto, fui de carro à casa da família Tinoco em Atafona, no final da manhã de ontem, quando soube que Zé Eugênio havia morrido no dia anterior, na sua casa, na Aquidaban, ponto de encontro de uma geração. Tinha acabado de voltar de Atafona.

Confesso que o impacto inesperado da notícia me deixou atordoado. Não só por conhecer e gostar de Zé Eugênio há cerca de três décadas, mas porque estive com ele apenas cinco dias antes, na segunda-feira. E sem que nada indicasse isso naquele momento, embora represente bastante agora, nosso último encontro não poderia ter sido mais emblemático: numa mesa de alvenaria sob a frondosa sombra do ficus italiano, também chamado de falsa seringueira, árvore guardiã e símbolo do Carlinhos Pisca-Pisca, boteco mais tradicional de Atafona.

Nesses encontros inesperados e prazerosos que compõem a rotina do verão atafonense, e o distinguem da estação em qualquer outro pedaço de litoral do planeta Terra, ele estava com duas tias; e eu, esperando quem chegaria de ônibus. Enquanto o fazia, sentei com eles e conversamos por cerca de meia hora, tempo de dividirmos, velas enfunadas ao vento nordeste, nossas duas últimas garrafas de cerveja.

Geralmente cético, Zé estava esperançoso no novo governo municipal de Campos, cuja posse, como assessor jurídico do vereador Neném (PTB), outro amigo comum, ele presenciara. Muito embora, como advogado, tivesse críticas à atuação do Judiciário e do Ministério Público goitacá na condução da operação Chequinho. E, se não as tivesse, não seria Zé Eugênio.

Com sua morte, me solidarizo, sobretudo, com sua mãe, Estelmar, e sua esposa, Bethânia. Para elas, como aos amigos da mesma geração, muitos bem mais próximos do que eu, se vai aquilo que Fernando Pessoa (1888/1935) definiu pela pena de Álvaro de Campos: “Um ponto de referência de quem sou”.

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Morre advogado José Eugênio Torres. Enterro hoje no Campo da Paz

Zé Eugênio
Zé Eugênio

 

 

 

Morreu na tarde de ontem, vítima de um AVC hemorrágico, o advogado José Eugênio Koch Torres. Ele estava na sua casa, na rua Aquidaban, após ter voltado de Atafona. Tinha 47 anos e atuava na assessoria jurídica do vereador Neném (PTB). O velório está acontecendo no Campo da Paz, onde se dará o enterro às 15h30 de hoje.

Zé Eugênio, como era mais conhecido, deixa a esposa Bethânia Castro Torres, e a mãe, Estelmar Tinoco Dias Torres. À toda família e aos muitos amigos, meu mais sincero pesar.

 

Atualização às 14h52 para correção de informação.

 

 

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Vanessa Henriques — À memória de Luiz Carlos Ruas

 

Vanessa 07-01-17

 

 

Era noite de Natal.

Enquanto que, para alguns, a noite do dia vinte e cinco de dezembro possa somente comportar um descanso modorrento junto da família, apenas passível de ser interrompido pelos ataques vorazes às sobras da ceia compartilhada na véspera, para outros, o Natal é meramente mais um dia de trabalho. Na maior metrópole da América Latina, nem mesmo o mais importante dos feriados cristãos é capaz de fazer a cidade parar. Na estação de metrô Pedro II, localizada no centro da cidade de São Paulo, os sons emitidos pelos trilhos e vagões abafavam o barulho dos passos apressados das pessoas que ali chegavam e partiam em direção a outros destinos.

Naquela noite, um homem corpulento de cinquenta e quatro anos vendia biscoitos, balas e refrigerantes em frente à entrada da estação de metrô, tal como fizera diariamente, incluindo os finais de semana e feriados, nas últimas duas décadas. Luiz Carlos Ruas, o “Índio”, como era conhecido entre seus pares devido à cor parda e aos cabelos lisos, havia combinado com a esposa, Maria de Oliveira, que encerraria as vendas daquele dia por volta da meia noite. Decidiu trabalhar no Natal porque o dinheiro estava escasso e o casal precisava quitar a dívida do IPVA.

A hora de embalar seu material de trabalho e retornar a casa já se aproximava, quando percebeu um pequeno tumulto a alguns metros de distância. Como o entorno da estação serve de abrigo para alguns moradores de rua, fenômeno corriqueiro na cidade de São Paulo, um dos “residentes” daquele espaço protestava contra dois rapazes que urinavam justamente no pedaço de chão que frequentemente lhe servia de cama. Homossexual, apelidado de “Brasil”, o morador de rua não poderia supor que a reação aos seus protestos seria tão desproporcionalmente violenta. Começou a ser surrado, junto de outra moradora de rua, a travesti Raíssa, pelos dois jovens rapazes, que portavam, cada um, um “soco inglês”. Ao notar a covardia que se desenrolava diante de seus olhos, Luiz Carlos se lançou na direção do conflito, tentando acalmar os ânimos dos agressores.

Através das imagens registradas pelas câmeras de segurança da estação, podemos ver a travesti Raíssa correndo em disparada em direção ao metrô, perseguida por Alípio Rogério dos Santos, que sustentava uma expressão facial desfigurada por um ódio implacável e, num primeiro momento, inexplicável. Em seguida, vemos Luiz Carlos tentar, ele também, escapar do ímpeto assassino da dupla de agressores. Com mais idade nas costas e maior peso corporal, Luiz Carlos não foi bem sucedido como os outros dois moradores de rua que conseguiram fugir. Quando caiu no chão, Ruas não conseguiu oferecer qualquer resistência aos golpes que se seguiram.

Dezoito segundos.

Este foi o tempo durante o qual Luiz Carlos foi golpeado ininterruptamente. Durante este curto espaço de tempo, transeuntes orbitavam em torno da cena. Algumas pessoas corriam assustadas, temendo por suas próprias vidas; outras permaneciam paralisadas, fitando estuporadas o brutal assassinato. Os agressores então se afastam, deixando o corpo inerte no chão. Após cinquenta e um segundos, a dupla retorna para um novo “round” de socos e pontapés. Miram sempre o rosto. Precisam se certificar de que ali já não existe vida. Espancam o imóvel corpo do ambulante, por mais vinte e três segundos.

Luiz Carlos Ruas era casado há 30 anos com sua esposa, com quem não teve filhos. Paranaense, torcedor do Palmeiras, Ruas era originário de família de vendedores ambulantes, e trabalhou dos nove aos cinquenta e quatro anos. Com o dinheiro que conseguiu juntar com o trabalho, comprou um pequeno apartamento no centro de São Paulo. Grande parte de sua vida laboral foi marcada pela informalidade, sem direito a descanso, férias ou aposentadoria. Ruas era um brasileiro “batalhador”, termo que pego emprestado do sociólogo Jessé Souza, que o cunhou para classificar uma grande massa de trabalhadores brasileiros que possuem parcos direitos trabalhistas, tendo, como suporte, quase que somente a própria força de vontade, a tenacidade do corpo e um pouco de fé e sorte. Quem poderá saber quantos anos mais Ruas teria se dirigido cotidianamente à estação para vender seus quitutes, não tivesse esbarrado com o ódio bestial naquela noite de vinte e cinco de dezembro?

O crime chocou o país pela covardia e pela torpeza, suas principais características. Para mim, é custosa a tentativa de interpretar corretamente os sentidos da ação dos assassinos. A princípio, cogitou-se a possibilidade de os homens pertencerem a alguma “gangue” de caráter “neonazista”, daquelas nas quais seus membros saem pelas ruas com o objetivo de atacar cidadãos pertencentes a minorias. Pessoas próximas aos assassinos relataram que estes eram conhecidos por serem donos de um temperamento explosivo. Indo nesta direção, especulou-se que o ódio dos dois rapazes fora inflamado pela homofobia. Uma vez que não conseguiram fazer jorrar o sangue dos homossexuais envolvidos na história, o ódio voltou-se à terceira vítima, a que fora mais incapaz de correr ou se esconder.

O ódio que movia os autores do crime não deve ser entendido como uma mera característica particular dos indivíduos. Este sentimento, que é capaz de fazer um homem surrar um semelhante indefeso até a morte, é gestado, fomentado e ancorado por algumas instituições da sociedade. Quando determinadas ideias imbuídas de ódio são propagadas, mobilizando nossos medos e paixões mais primitivas, e atingem personalidades demasiadamente desequilibradas, tendem então a produzir resultados como este. Tal como sucedeu no caso do homem que promoveu uma chacina em Campinas, no último dia 31, e que justificou seu ato amparando-se em discursos de ódio que vem ganhando cada vez mais potência nos últimos anos, nos remetendo a tempos sombrios que a humanidade jurou nunca mais reprisar.

Luiz Carlos Ruas foi mais uma vítima deste ódio ao outro. E morreu por ousar defender outros mais indefesos que ele. Por não se calar diante da covardia, perdeu a vida. Quando soube do caso, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a seguinte pergunta: “Quem, hoje em dia, arrisca a vida por alguém?”. Quantas vezes, por medo de sermos atingidos, não ficamos paralisados diante de injustiças que são cometidas perto de nós?

Luiz Carlos Ruas já era um herói por sobreviver às condições adversas que marcaram sua vida desde o início. Morreu também num ato de heroísmo, pelo ímpeto de defender outras pessoas que, como ele, enfrentam penosos obstáculos sociais. Que a perda dessa vida nos inspire forças para enfrentar as injustiças e a crescente onda de cólera e intolerância que nos atinge a todos, enquanto sociedade.

Registro aqui o meu lamento e a minha homenagem a Luiz Carlos Ruas.

 

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Ferreira Gullar — Autobiografia poética

 

Ferreira Gullar - Autobiografia poética

 

 

 

“A literatura só terá sentido se mudar alguma coisa, nem que seja a minha própria vida”

(Ferreira Gullar)

 

Em férias para colocar corpo e leitura em dia, terminei o primeiro livro de 2017: “Ferreira Gullar — Autobiografia poética”. Presente do amigo e também poeta Adriano Moura, que recebeu em troca, numa dessas coincidências que não há, o “Toda Poesia” do mesmo Ferreira Gullar.

Mais do que narrar os fatos de uma vida física de 86 anos, da sua São Luís do Maranhão natal, ao Rio de Janeiro, para onde se mudou em 1950 e viveu até morrer, há pouco mais de um mês, o livro conta Gullar através da evolução da sua poesia.

Do início de inspiração parnasiana, ao abandono da rima e da métrica, o poeta tomou a vanguarda do Modernismo brasileiro. Mergulhou de cabeça no experimentalismo, entre as décadas de 50 e 70 do século passado,“para chegar ao essencial: violentar a sintaxe, destruir o discurso e, com isso, revelar o que ele oculta…”

No namoro rompido ruidosamente com o Concretismo dos irmãos paulistas Haroldo (1929/2003) e Augusto de Campos, além de Decio Pignatari (1927/2012), para fundar o Neoconcretismo na reunião entre escritores e artistas plásticos cariocas ou, como Gullar, radicados no Rio, ficou a advertência aos poetas medíocres de ontem, hoje e sempre:

— E tentaram convencer as pessoas de que a má qualidade de seus poemas e suas obras não era defeito, mas uma qualidade ainda desconhecida. Ou seja, tentaram transformar sua mediocridade em virtude e reduzir a poesia.

Para quem acha possível ser poeta sem domínio técnico, nem que seja para se libertar (por opção, não limitação) dessa mesma técnica, na confusão rasa que muita gente faz da poesia com confessionário de padre ou divã de psiquiatra, vale outro conselho de Gullar:

— Assim me dei conta de que fazer má poesia não servia para nada. Ao escrever um poema, a preocupação principal tem que ser com a qualidade literária, poética.

Além da autobiografia, o livro é composto por duas entrevistas do poeta: uma de 1965, outra de 2014. A primeira revela a origem no filósofo grego Platão (427/387 a.C.) e no escritor francês André Gide (1869/1951), respectivamente, de duas das referências bem conhecidas de Gullar: o “espanto” que dizia movê-lo a escrever, além da sua sentença mais célebre: “A arte existe porque a vida não basta”.

 

P – O que acha da inspiração e por que escreve poesia?

R – Considero respondidas essas perguntas. O que se chamou de inspiração é o “espanto”, a que se refere Platão como fonte do conhecimento: a ruptura do mundo conceituado pela experiência nova. Por que escrevo poesia? Cito Gide: “a arte começa quando viver já não é suficiente para exprimir a vida”.

 

Na segunda e mais recente entrevista, ao falar dos seus tempos de militância comunista e exílio durante a Ditadura Militar (1964/85), Gullar revelou a pitoresca e “darcyniana” origem do ensaio que, particularmente, sempre considerei sua mais brilhante obra como teórico da literatura: sobre o poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884/1914), a quem Gullar considerou precursor do Modernismo na poesia brasileira.

 

P – Quanto tempo ficou em Moscou?

R – Fiquei lá cerca de dois anos. Depois, queriam que eu fosse para Paris, mas falei que queria ir para a América Latina, para perto de casa. Fui para o Chile, era o governo do Salvador Allende (1908/73). Mas logo Allende foi derrubado, e quase fui preso. Consegui me safar e fui para Lima, Peru, onde estava o Darcy Ribeiro (1922/97). Ficamos amigos, eu frequentava a casa dele e conversávamos de tudo, inclusive de poesia. Ele gostava de declamar poemas que sabia de cor. Observei que nunca declamava Augusto dos Anjos e quis saber a razão. Ele falou que tinha horror, isso de “escarra nessa boca que te beija”. Eu falei que era preconceito, porque o poema era mais complexo que isso. E comecei a dizer um soneto do Augusto dos Anjos que era diferente. Quando Darcy ouviu aquilo, ficou perplexo. “É um grande poeta”, concordou. Daí a um mês, chegou o Fernando Gasparian (1930/2006), dono da editora Paz e Terra, e nos convidou para almoçar. Durante o almoço, Darcy falou que eu estava escrevendo um livro sobre Augusto dos Anjos e que era para o Gasparian editar. E mais: “Vai logo adiantando quinhentos dólares para ele…”. Falei depois com o Darcy: “Você é louco? Como vou fazer? Não tenho nenhum livro do Augusto dos Anjos aqui comigo”. E ele: “Você se vira aí, se não escrever, também está tudo bem”. Mas eu não iria receber e não fazer o livro. Eu sabia muitos dos poemas de cor, conhecia a história dele, então fui para a Biblioteca de Lima e comecei a tomar notas. Lá não tinha livro do Augusto dos Anjos, mas tinha alguns filósofos que ele citava, como Schopenhauer (1788/1860). Fui lendo essas coisas, e, depois, quando já estava em Buenos Aires, a Thereza me levou outros livros que pedi e acabei de escrever o ensaio, que a Paz e Terra publicou, e a José Olympio reeditou recentemente [Toda poesia de Augusto dos Anjos].

 

Ainda que sem alcançar o mesmo brilho daquele estudo sobre Augusto dos Anjos, a “Autobiografia poética” de Gullar traz mais três ensaios do poeta, dedicados a uma trinca dos seus camaradas em armas: o francês Arthur Rimbaud (1854/91), o português Fernando Pessoa (1888/1935) e o peruano César Vallejo (1892/1938).

Gullar não acrescentou muito sobre o que eu já sabia sobre Rimbaud e Pessoa. Mas, no ensaio derradeiro, que fecha o livro, me apresentou a um poeta que ele considera precursor do Modernismo na América Latina e do qual, confesso, sequer ouvira falar. Lacuna que pretendo preencher com os versos de el cholo Vallejo ainda nestas férias.

 

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Manuela Cordeiro — Entre Rios

 

Morando em Roraima há três anos, ainda há muito o que conhecer do norte do país. Tive a oportunidade de viajar a Santarém no último setembro. Ao chegar lá, na primeira oportunidade, fui presenteada com um muiraquitã. Trata-se de um artefato indígena, em formato de sapo, talhado em madeira ou pedra que pode simbolizar desde proteção a poder. Depois iniciaram algumas viagens. Algumas duravam dez, outras apenas duas horas. De barco, voadeira, lancha rápida, rabeta, passando por alguns rios como o Amazonas, o Tapajós, o Trombetas. Algumas das descobertas desses dias seguem em forma de poema. E, esses versos, assim como o rio, permanecem em sutil movimento.

 

 

Manuela 05-01-17

 

 
Entre Rios

 

O olhar treinado permite ver os bancos de areia à noite ao norte

no Amazonas que não tem ondas próprias

somente quando encobre o ser ou circula na máquina do homem.

 

Mesmo o olhar treinado não permite

medir o comprimento do Tapajós na sua majestade de rio,

ainda que quase todos, ao fim, componham as águas salgadas.

 

A proteção do muiraquitã garante que o rio te abrace em segurança.

E o que é um mergulho no tempo das águas que suavemente sobem e descem

Se não o que chamamos de vida?

 

Os espaços compartilhados para aqueles que

atravessam, admiram, conversam sobre o Trombetas

são largos se comuns, estreitos se privados.

Mas sob a lua iluminada, toda prosa é quase cheia.

 

Sutilmente, ao fim da viagem nesses mares calmos

Descobre se és turbina ou reflexo do movimento das águas ao lado.

 

Santarém, 14 de setembro de 2016

 

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Ricardo André Vasconcelos — Transição de poder e civilidade

 

Apesar de sugerir o contrário, a foto mostra uma das poucas transmissões de governo de forma civilizada no Brasil. FHC e Lula na passagem da faixa presidencial em 2003 (Foto: Joedson Alves/ AE)
Apesar de sugerir o contrário, a foto mostra uma das poucas transmissões de governo de forma civilizada no Brasil. FHC e Lula na passagem da faixa presidencial em 2003 (Foto: Joedson Alves/ AE)

 

 

No próximo dia 20 de janeiro o mundo vai assistir a confirmação de uma tradição: o presidente dos Estados Unidos transmitindo o cargo ao sucessor. Em seguida, mister Trump vai acompanhar a família Obama até o jardim da Casa Branca, onde o helicóptero presidencial aguarda para levar o ex-homem mais poderoso do Planeta.  Assim funciona a democracia com civilidade.

Aqui pelos trópicos a tradição é outra, a começar pela quartelada que inaugurou a República, eleições de “bico de pena”, suicídio, renúncia e golpes. E mesmo em período democrático, a troca de comando no poder nunca foi lá muito civilizada. Em 1961, por exemplo, o presidente mais popular da história do país, Juscelino Kubitschek, era quase unanimidade quando passou a faixa presidencial ao sucessor, Jânio Quadros, numa solenidade na recém-inaugurada capital federal, construída em tempo recorde de três anos. Posse civilizada e republicana. Menos de uma hora mais tarde, JK estava voando para o Rio quando, do rádio do avião, pode ouvir os impropérios que lhe dirigia, em entrevista, o novo presidente, conhecido por seu temperamento imprevisível.

Das transmissões de cargo, a mais dramática foi a que não houve e, por isso mesmo, até porque até hoje alimenta conspirações: Março de 1985, o enterro era da ditadura militar iniciada em 1964, mas o caixão que subiu a rampa do Planalto levava o corpo do presidente eleito (ainda pela forma indireta), Tancredo Neves. Na véspera da posse, Tancredo foi internado para uma cirurgia de urgência e, por uma sacanagem do destino, seu vice, José Sarney, assumiu em seu lugar. Mas o último ditador (João Figueiredo), do partido do qual Sarney era presidente e desertara meses antes para saltar da canoa que fazia água para a nau segura, recusou a transmitir-lhe o cargo e saiu, justificadamente, pelos fundos do Palácio e da história.

Devoto do que costuma chamar de “liturgias do cargo”, Sarney passou a faixa presidencial ao sucessor Fernando Collor, em março de 1990, mesmo tendo sido por ele execrado durante toda a campanha eleitoral de “corrupto e incompetente”, como batia, no rádio e TV, diariamente o então “caçador de marajás”. Ascensão tão rápida quanto a queda, Collor sofreu impeachment no final de 1992. Foi despachado do Palácio sem cerimônia. Itamar Franco, o discreto vice-presidente, montou uma equipe de craques, domou a inflação, criou nova moeda e elegeu o sucessor, Fernando Henrique, a quem transmitiu o cargo em janeiro de 1995.

Após oito anos houve a primeira grande transição da história republicana com a posse de Lula. O sociólogo entregando ao ex-operário o poder que juntos ajudaram a redemocratizar. A cena é inesquecível: emocionados no parlatório do Planalto, os dois se atrapalharam na passagem da faixa e uma das mãos tombou os óculos do presidente que saia e ambos se abaixam para buscá-lo. Naquele momento não eram professor, príncipe, operário ou sapo, e sim dois aspirantes a estadistas cumprindo, com um singelo sinal de humildade,  a mais civilizada das transmissões de cargo da história da República.

No alto da rampa-símbolo do poder nacional, presidente e ex-presidente se abraçam de novo para despedida e Lula com a voz ainda mais enrouquecida pela emoção deu o tom definitivo da civilizada transição: “Você deixa aqui um amigo”, disse para o não menos sensibilizado Fernando Henrique.

Pela Planície Goitacá, a ausência da ex-prefeita Rosinha Garotinho na transmissão de cargo ao novo prefeito, Rafael Diniz, longe de surpreender, só confirmou o mau humor dos derrotados, dos ressentidos. Mas isso não é novidade. Quase três décadas atrás, o avô do novo prefeito, que não recebeu o cargo da antecessora, fez o mesmo e também não foi à posse do sucessor: um jovem de 28 anos chamado Anthony Matheus, incipiente político que entraria para a história como Garotinho.

Naquele 1º de janeiro de 1989, Zezé Barbosa escolheu um oficial de Gabinete, Eribaldo Paes, para entregar o poder ao novo prefeito. Pelo menos Zezé recebeu Garotinho, dias após a eleição, no charmoso gabinete da então sede da Prefeitura, o   Palacete Finazinha Queiroz, onde funciona hoje a Casa de Cultura Villa Maria. Mulher de Garotinho, Rosinha não retribuiu a gentileza e ignorou o prefeito eleito após a eleição, não o encontrou na transição e nem delegou a nenhum assessor para transmissão de cargo no último domingo.

Esse desencontro entre antecessores e sucessores, aliás, se repetiu nesses últimos anos. Na posse de Garotinho em 1989, jovem repórter da TV Norte Fluminense (então afiliada da Rede Globo), estava eu lá escalado para a cobertura. Quatro anos depois, Garotinho passou o cargo para Sérgio Mendes, eleito com o apoio dele. Estava eu de novo lá, desta vez como secretário do governo que saía e do que entrava. Rompido com o antecessor, Sérgio não transmitiu o cargo ao sucessor, o mesmo Garotinho, em janeiro de 1997. O então vice-prefeito Amaro Gimenes, sem delegação de Mendes nem de ninguém, compareceu para passar um cargo que nunca ocupou.

Como se sabe, Garotinho mal esquentou a cadeira em sua segunda passagem pela Prefeitura de Campos e, em abril de 1998, renunciou para disputar e vencer a eleição para o Governo do Estado no ano seguinte. Seu vice, Arnaldo Vianna, completou o mandato e, eleito na eleição de 2000, recebeu o cargo de si mesmo para passá-lo ao candidato que teve seu apoio, Carlos Alberto Campista, quatro aos mais tarde. O mandato de Campista foi o mais rápido da história dos prefeitos eleitos de Campos: quatro meses e 13 dias após a posse, foi cassado pela Justiça numa decisão de primeira instância que, por razões até hoje desconhecidas, não foi revertida em instâncias superiores. Convocado para mandato-tampão, o presidente da Câmara, Alexandre Mocaiber, foi eleito em 2005 para completar e passou o cargo pessoalmente a Rosinha, em 1º de janeiro de 2009.

Poderia se dizer que Rosinha fechou um círculo revidando com sua ausência, no último domingo, a falta do avô de Rafael na posse do marido, 28 anos atrás. Mas na prática a realidade é outra. Rosinha já tinha encerrado seu mandato desde a derrota de 2 de outubro e principalmente após a prisão do marido e mentor Anthony Garotinho no dia 16 de novembro, acusado de chefiar uma quadrilha formada para comprar de votos a partir de um programa social da Prefeitura. Em solidariedade ao marido, proibido pela justiça de vir a Campos, Rosinha cumpre degredo voluntário num apartamento na praia do Flamengo, mas ambos são aguardados muitas vezes para as muitas audiências judiciais para as quais serão convocados na Comarca.

 

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