Guiherme Carvalhal – O Trem Fantasma



No Espírito Santo
Para concluir que o Brasil vive uma inversão completa de valores, basta olhar o quadro de caos vivenciado no Espírito Santo desde o último sábado, a apenas 60 km de Campos. As cenas de vandalismo, depredações, arrastões, saques e homicídios às dezenas, veiculadas à exaustão na democracia irrefreável das redes sociais, servem para comprovar que vivemos o tempo, melhor definido pela sabedoria popular, de “poste urinando em cachorro”. E quem não quiser sair “molhado”, que se esconda dentro da própria casa.
Em Campos
Em Campos, ainda que a PM não esteja em greve, a coisa não parece ser muito diferente. Por volta das 16h de ontem, um punhado de motoristas de lotadas ilegais, que agiram livremente na cidade durante os oito anos do governo Rosinha Garotinho (PR), não gostaram da apreensão feita pelo Detro de três dos seus veículos. E, à luz do dia, na cara dura, simplesmente fecharam os dois lados da av. XV de Novembro, diante da rua Carlos de Lacerda, espaço público que utilizam diária e folgadamente para seus fins particulares.
Cidade parada duas horas
O resultado, por certo planejado, foi cumprido. O trânsito do Centro ficou parado por cerca de duas horas. Numa reação em cadeia, o tráfego de veículos de toda a área urbana da cidade foi diretamente comprometido durante o mesmo período. Até o fechamento desta edição, não se tinha notícia se algum campista precisando de socorro urgente, como uma parturiente, um acidentado ou infartado, perdeu a vida ou a teve posta em risco por conta da manifestação ilegal, em defesa de uma atividade ilegal. Mas se não houve, foi apenas sorte.
Medo de quê?
O mais grave foi que vários homens da PM e da Guarda Municipal estiveram no local poucos minutos depois que XV de Novembro ter sido fechada. E nada fizeram! Cerceados em seu direito de ir e vir por irresponsáveis que riam debochadamente do caos que criaram, as centenas de motoristas de Campos cerceados em seu direito de ir e vir nada fizeram com medo de contrariar algum manifestante armado — como não é prática incomum na atividade. Resta saber com medo de que ficaram os guardas municipais e, sobretudo, os PMs.
Ação sem reação
Diante da passividade cúmplice dos agentes da lei, o tráfego de veículos em Campos só foi restabelecido no final da tarde de ontem, por volta das 18h, porque começou a chover. E, novamente para atender seus interesses particulares, os motoristas das lotadas constataram estar perdendo dinheiro, deixando de transportar ilegalmente as pessoas que saíam do trabalho. Diante do “sucesso” da ação e sem nenhuma reação efetiva por parte da PM ou Guarda Municipal, prometeram fechar o trânsito da cidade, hoje, mais uma vez.
FDP em pauta
Representantes de entidades como a Associação de Imprensa Campista (AIC) e a Academia Campista de Letras (ACL) se reuniram na manhã de ontem com a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Cristina Lima, para discutir a organização do II Festival Doces Palavras (FDP), de 20 a 24 de setembro, no Jardim do Liceu. Uma ótima iniciativa, que foi um sucesso na sua primeira edição e que tem tudo para repetir a deliciosa combinação entre literatura e doces.
Chance para escritores
E tem oportunidade para escritores. A Essentia Editora, do Instituto Federal Fluminense (IFF), está com inscrições abertas para a seleção de apoio à publicação de livros impressos — Edição 2017 — voltada para o público interno e externo do Instituto. As propostas deverão ser encaminhadas até o dia 6 de maio deste ano, por meio do setor de Protocolo da Reitoria ou pelos Correios, para o seguinte endereço: rua Coronel Walter Kramer, 357, no Pq. Santo Antônio, em Guarus. O resultado final das propostas aprovadas será divulgado no dia 02 de outubro deste ano. Outras informações em www.selecoes.iff.edu.br.
Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves
Publicado hoje (08) na Folha da Manhã






Eu não gostava de Darcy Ribeiro. Quando se é jovem, tolice e estupidez não nos faltam. Eu não gostava de Leonel Brizola, demorei compreendê-lo. Eu tinha 12 anos quando ouvi falar de ambos pela primeira vez. Brizola foi eleito governador do Rio de Janeiro em 1982, e teve Darcy como seu vice naquele mandato até 1986. Achava-os chatos e falastrões. Eu achava que eles preferiam o Ciep, quando minha escola estadual estava abandonada. Eu não gostava tanto da escola, nem da ideia de ficar o dia inteiro nela aprisionado sofrendo pressões, assédios e constrangimentos (o que chamamos hoje de bullying). Lembro de ter visto ambos pela primeira vez na Beira-Rio, em Campos, durante campanha eleitoral em carreata. Darcy era candidato ao governo estadual, mas perdeu para Moreira Franco. Eu ainda não tinha idade para votar, mas votaria em Fernando Gabeira, se pudesse.
Eu demorei um bocado para saber quem era de fato Darcy Ribeiro e sua importância valiosa para o Brasil. Ignorantes são assim, demoram compreender muitas coisas. Não sei exatamente se foi em 1991 ou 1992, em uma certa ocasião, fui parar no restaurante do Palace Hotel para um jantar com Darcy Ribeiro. Não me lembro se ele já era senador da República ou candidato ao cargo. O encontro reuniu diversas autoridades do governo municipal, políticos, intelectuais, educadores e professores universitários que ensaiavam a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense sob a égide de Darcy Ribeiro, o mentor genial de tudo que se tornaria a Uenf futuramente. Como fui parar naquele evento? Bem, eu namorava alguém muito importante da primeira gestão de Anthony Garotinho na Prefeitura de Campos, então, fui a reboque.
Lembro que Darcy Ribeiro demorou muito para aparecer, sendo assim, o jantar não podia ser servido enquanto ele não chegasse, e eu faminto. Quando finalmente surgiu, estava de banho tomado, cabelos molhados e escovados para trás e, para variar, a sua metralhadora falante defenestrada entrou em ação. O homem era o centro das atenções e não poderia ser diferente. Eu percebia uma certa bajulação dos convidados, além de um constrangimento dos mesmos ao se dirigirem a ele, ou de interrompê-lo naquela verborragia toda alucinante. À época, a ponte Barcelos Martins tinha sido pintada de verde, o que desagradou a muitos campistas, inclusive integrantes do governo. Porém, Darcy elogiou a pintura com a cor mais representativa da flora brasileira. Bastou Darcy elogiar a ponte verde para muitos mudarem de opinião e concordarem com ele. “Toda cidade que é cortada por um rio como este só pode ser bonita”, disse.
Confesso que eu estava achando um saco aquele jantar. Darcy Ribeiro ria de tudo que ele mesmo contava e eu não conseguia achar a menor graça. Até que relatou de um susto que levara ao se hospedar em um hotel de alguma cidade do mundo onde fora criar ou reformar o modelo de ensino de alguma universidade, talvez no Peru ou Venezuela, não sabia precisar. Darcy disse que, ao sair do banho, deu de cara com um homem pelado de bunda murcha e enrugada no meio do quarto. Custou alguns segundos compreender o que um velho nu, enrugado e de bunda murcha fazia dentro do seu quarto. Foi então que percebeu que o velho era ele mesmo. A bunda flácida e enrugada que via era a sua própria refletida em espelhos. Todos riram, até que eu, tolo, estúpido e mau-humorado o contestei dizendo: “Ah,essa história eu achei muito mal-contada, professor. Afinal, o senhor estava hospedado só ou acompanhado nesse quarto de hotel?”. Alguns segundos de silêncio, ele me olhou por um instante, arqueou as sobrancelhas enormes e alvoroçadas, me ignorou, e voltou a disparar suas histórias. Me dei conta de minha gafe e passei a rir de tudo que ele dizia a partir de então, mas na verdade eu ria de mim mesmo.
Dias depois, a professora Magdala França Vianna, que estava nesse jantar e que me dava aulas no curso de Comunicação Social à época, me abordou na faculdade e disse ter se surpreendido com meu atrevimento ao me dirigir daquela forma ao célebre Darcy Ribeiro. Ela se divertiu. Sinceramente, eu achei que falei algo tão insignificante, mas que de uma certa maneira eu quis, sim, pensando bem, chamar sua atenção. Levei tempo para aprender que quase todos ali queriam ser que nem Darcy Ribeiro, um gênio (com e sem dúvidas) diante da vida. Quando ele morreu de câncer, aos 74 anos, em Brasilia, em 1997, eu já era menos tolo. Contava com 27 anos e tinha um pouco mais de maturidade e informação para saber que Darcy Ribeiro era um homem raro, que defendia a educação e os índios com tamanha nobreza e com grande conhecimento de causas e lutas.
Em novembro último, visitei a conceituada Universidade de Brasília e seu campus gigantesco. A UnB foi concebida por Darcy Ribeiro quando era ministro da Educação durante o governo parlamentarista de João Goulart. Dentro daquele complexo de prédios modernistas com traços de outro gênio, Niemeyer, lembrei desse meu encontro com Darcy Ribeiro e sobre sua última criação, a Universidade Estadual do Norte Fluminense que leva o seu nome, em Campos dos Goytacazes, instituição esta que eu tenho a honra de estar concluindo o mestrado em Cognição e Linguagem. Lamento muito que a Universidade do Terceiro Milênio como ele idealizou, esteja atravessando um momento de abandono juntamente com outras instituições de ensino do estado do Rio de Janeiro, acometido por graves problemas financeiros e por uma gestão desastrosa por parte dos últimos governos que preferiram investir em isenções fiscais para empresas multinacionais, por exemplo, além de superfaturar obras faraônicas e desviar dinheiro público para enriquecimento ilícito, como bem sabemos pelas acusações e prisões de vários políticos fluminenses testemunhadas pelo povo.
Tantos anos de luta e investimento por parte de professores, servidores, pesquisadores e estudantes, mas os políticos ainda não sabem ou não aprenderam a importância da educação para o desenvolvimento de um país e de uma sociedade que parece retroceder a cada dia quando não tem acesso ao ensino de qualidade. Há muito o que lamentar, porém é preciso reagir. Quando a Uenf foi idealizada, muitos representantes de setores organizados se juntaram para sua elaboração e consolidação. Agora é hora de todos que acreditam em um Brasil melhor e mais digno por meio da educação voltarem a se unir em favor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Um país que abandona suas escolas e universidades condena a si próprio ao atraso, ao esquecimento, às trevas.
Conta-se que no leito de hospital, antes de morrer, Darcy Ribeiro, sedutor como de costume, pediu à médica que lhe tratava o câncer para que ela o autorizasse a dar aulas ali mesmo. Ele sentia uma vontade enorme de ensinar, Trouxeram-lhe um menino de nove anos de idade para que ele pudesse conversar e dar sua última aula. Dizem que por alguns instantes, Darcy contou várias histórias ao garoto sobre o Brasil, a importância dos índios, das florestas, das culturas todas, do sambódromo e das escolas, e que todas essas coisas deveriam ser respeitadas, Foi um testamento que ele quis deixar.
Na UnB, no prédio lindo em forma de oca indígena construído no local que Darcy Ribeiro apelidou de beijódromo (era um local de encontros amorosos no campus universitário), encontra-se todo o seu acervo pessoal de livros, documentos, discos, prêmios, honrarias e objetos relevantes. Ali, se concentram alguns elementos que ajudaram na formação intelectual do antropólogo, reitor e escritor Darcy Ribeiro. Ele deixou um legado precioso ao país, e esta herança não pode ser esquecida pelos brasileiros, povo que ele amou sem reservas. O homem que amou o Brasil e que se doou de tal maneira nos deu exemplos. A lição está dada.


