Bombardeio a hospital em Gaza, Biden em Israel e 4,4 mil mortos

 

Pacientes que sobreviveram ao bombardeio ontem do Hospital Batista Al-Ahly Arab, incluindo crianças palestinas, chegam transferidas ao hospital Al-Shifa, também na cidade de Gaza (Foto: Anadolu/Reuters)

 

Atacado nos atentados terroristas do grupo palestino Hamas no último dia 7, qual o objetivo de Israel nos bombardeios e cerco dos 10 dias seguintes à Faixa de Gaza? Se o direito internacional fosse a lei de talião, “olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” (Êxodo 21:24), o objetivo já teria sido cumprido. Até o final da tarde de ontem (17), das 4,4 mil vidas humanas perdidas no conflito, 1,4 mil eram israelenses, outras 3 mil palestinas — mais que o dobro. Nos dois lados, a grande maioria civis. Incluídos os cerca de 500 palestinos mortos ontem no ataque ao Hospital Batista (cristão, ligado à Diocese Anglicana de Jerusalém) Al-Ahly Arab, na cidade de Gaza. O crime de guerra foi atribuído pelos islâmicos a Israel. E, por este, ao grupo terrorista Jihad Islâmica, também de origem palestina, que negou.

INVASÃO POR TERRA? — Se o objetivo de Israel, como assumiu seu primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, for destruir o Hamas, todos os especialistas militares dizem que isso não se dará sem uma invasão maciça por terra, além de ataques por ar e mar. Apesar da imensa superioridade das forças israelenses, com cerca de 500 mil soldados mobilizados, contra cerca de 20 a 40 mil militantes armados do Hamas, os especialistas também ressalvam que a guerra de guerrilha numa região densamente construída e habitada, como a Faixa de Gaza, favoreceria seus defensores. Que conhecem melhor o terreno, contam com 199 prisioneiros judeus e usam a própria população palestina como escudo humano. Israel não ocupa a Faixa de Gaza desde 2005, que passou a ser controlada pelo Hamas em 2006.

LULA QUER CORREDOR HUMANITÁRIO — Com empenho pessoal de Lula, que tem conversado com líderes de países islâmicos e seus aliados, o Brasil formulou proposta na condição de presidente provisório do Conselho de Segurança da ONU, para tentar abrir um corredor humanitário na Faixa de Gaza. Provavelmente, na sua fronteira sul do território com o Egito, pela passagem de Rafah.

BRASILEIROS EM GAZA — O avião presidencial do Brasil está desde o dia 13 em Roma, na Itália. Lá, espera a autorização egípcia e israelense para retirar os 26 brasileiros confinados sem entrada de comida, água, remédios ou energia elétrica, na Faixa de Gaza. Em meio a 2,3 milhões de palestinos empilhados por Israel num campo de concentração a céu aberto de 365 km2, 11 vezes menor que o município de Campos.

BIDEN COM NETANYAHU, ÁRABES CANCELAM — Aliados de Israel, os EUA pediram e conseguiram um adiamento de 24 horas na votação da proposta brasileira. Hoje, o próprio presidente Joe Biden chega a Tel Aviv, onde se reunirá com Netanyahu. Depois, tinha programado voar a Aman, capital da Jordânia, a leste de Israel. Lá, Biden se encontraria também com o rei da Jordânia, Abdullah II; o ditador do Egito, Abdul Fatah Khalil Al-Sisi; e o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas. Expulsa da Faixa de Gaza pelo Hamas, a ANP atua sobre o maior território da Palestina, a Cisjordânia, com 5.860 km2 e já ocupada militarmente por Israel. Mas, após o ataque ao hospital em Gaza, os três líderes de muçulmanos cancelaram o encontro com o presidente dos EUA.

HEZBOLLAH, LÍBANO E IRÃ — A outra possível frente de batalha mais temida por Israel é a sua fronteira norte com o Líbano, onde atua o Hezbollah, financiado pelo Irã. Grupo paramilitar de extremismo islâmico, como o Hamas, o Hezbollah é muito mais poderoso. Tem cerca de 100 mil homens armados, testados na Guerra Civil da Síria, e mais de 150 mil mísseis. Que são capazes de derrubar prédios em Tel Aviv como Israel tem feito em Gaza. Os enfrentamentos na região ainda são pontuais. Mas causaram no dia 13 a morte do cinegrafista Issam Abdallah, da agência britânica Reuters, por um míssil que teria sido lançado por um helicóptero israelense.

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

PARCEIROS DE OCASIÃO — Na divisão do mundo islâmico desde a Idade Média, o Hamas é sunita, enquanto o Hezbollah e seu patrocinador Irã são xiitas. Opositores no plano religioso, são parceiros geopolíticos de ocasião, unidos no não reconhecimento à existência de Israel. Que, se estender sua guerra ao Irã, dificilmente o faria sem o apoio dos EUA.

PARCEIROS DE PESO — Embora chegue hoje a Israel para tentar impedir uma escalada do conflito, Biden já embarcou ontem em Washington sabendo do cancelamento da reunião de hoje na Jordânia. Antes, ele já tinha deslocado dois porta-aviões estadunidenses às costas de Israel e da Faixa de Gaza, no Mar Mediterrâneo. Onde estão o USS Gerald Ford e o USS Dwight D. Eisenhower. Juntos, levam mísseis, mais de 10,5 mil homens e 165 caças de guerra.

 

Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Campista quer paz, com seus políticos em pé de guerra

 

Wladimir Garotinho, Marquinho Bacellar, Maicon Cruz, Fábio Ribeiro e Anthony Garotinho; Rodrigo Bacellar, Filippe Poubel, Rodrigo Amorim, Raphael Thuin e Jair Bolsonaro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Campos entre paz e guerra

Após as três pesquisas quantitativas de avaliação de governo e intenção de voto às eleições de prefeito e vereador de Campos (confira aqui) em 6 de outubro de 2024, daqui a pouco mais de 11 meses, duas outras pesquisas qualitativas foram feitas recentemente. Uma pelos Garotinho, outra pelos Bacellar. E ambas revelaram o mesmo: o campista está farto de brigas políticas e quer paz. A polarização acirrada que deu o tom das eleições municipais de Campos em 2016 e 2020, assim como das presidenciais de 2018 e 2022, ficou para trás. Ainda assim, aparece à frente da cidade, desde o fim da pacificação entre Garotinhos e Bacellar, decretada (confira aqui) no último dia 11.

 

CPI da Educação

Fruto do fim dessa pacificação que os adversários dos dois grupos políticos sempre encararam como mera trégua, está a CPI da Educação proposta pela oposição. Por ter passado à frente de outras três — da Violência Contra a Mulher, da Enel e da Arteris, cobradas nesta mesma coluna (confira aqui) desde 24 de dezembro —  que tinham sido pedidas antes e foram arquivadas sem apreciação em plenário, a nova deve enfrentar o questionamento jurídico do governo Wladimir Garotinho (PP). Que também tentou retirar assinaturas de vereadores antes favoráveis à sua criação. Mas sem impedir, até o presente momento, que ela (confira aqui) prossiga.

 

Valor do voto e dos questionamentos

Além de enfrentar a CPI na Justiça e na política, a bancada governista também ameaça abrir questionamentos na Câmara à gestão de Marquinho Bacellar (SD) na presidência. Eleito a ela com o voto polêmico de minerva do vereador Maicon Cruz (sem partido), que não por acaso agora recebeu a presidência da CPI da Educação, Marquinho também já questionou o biênio do seu antecessor, Fábio Ribeiro (PSD). Que está licenciado do Legislativo na secretaria de Obras de Campos. Mas, como os questionamentos de Marquinho a Fábio, até agora, não deram em nada, difícil saber aonde eventuais questionamentos governistas a Marquinho darão.

 

Garotinho liberado pelo STF

Os atritos entre Garotinhos e Bacellar tendem a se acirrar. Na segunda (16), o ex-governador Anthony Garotinho (União) conseguiu (confira aqui) liminar do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que suspendeu decisão do TJ-RJ que o impedia de publicar em seu blog e redes sociais as denúncias que vinha fazendo contra o deputado estadual Rodrigo Bacellar (União), presidente da Alerj. Ontem mesmo, Garotinho voltou à carga, falando de um suposto depoimento de Rodrigo à Polícia Federal (PF). Cuja assessoria se limitou em informar à Folha: “A PF não divulga informações sobre eventuais investigações em andamento”.

 

Quem quebrou a placa de Marielle?

Como não há nada que não possa piorar, nesta sexta (20) a Câmara promove audiência pública sobre desordem urbana com os deputados estaduais bolsonaristas Filippe Poubel (PL) e Rodrigo Amorim (PTB), aliados de Rodrigo na Alerj. Poubel chegou a ser lançado pelo jornal carioca Extra como pré-candidato a prefeito de Campos. O que, até como tubo de ensaio, só cola com quem nada conhece da política goitacá. Por sua vez, além das recentes confusões de rua em que se meteu, Amorim é mais conhecido por ter quebrado na eleição de 2018 a placa da ex-vereadora carioca Marielle Franco (Psol), executada a tiros em março daquele ano.

 

Surpresas da sexta

Após ofender Wladimir na tribuna da Alerj, como resposta à defesa do prefeito e sua família feita pelo deputado Bruno Dauaire (União) em 2021, Amorim é conhecido dos Garotinhos. Se vier dar sua contribuição contra a desordem urbana no entorno da Pelinca denunciada (confira aqui) por seu correligionário, vereador Raphael Thuin (PTB), o deputado pode ser uma surpresa positiva. Mas se vier para dar uma de “valente”, esperando a mesma passividade da placa de uma mulher assassinada, pode ter uma surpresa negativa na cidade que tem por lema: “Ipsae matronae hic pro jure pugnant” (“Até as mulheres aqui pelo direito lutam”). A ver.

 

CPI pede indiciamento de Bolsonaro

Enquanto bolsonaristas são esperados como reforço político em Campos, o que talvez se justifique pelos 63,14% de votos válidos do município dados ao capitão no segundo turno presidencial de 2022, ontem não foi um bom dia ao ex-presidente. Primeiro do Brasil a tentar e não se reeleger, Jair Bolsonaro (PL) foi também o primeiro a ter seu indiciamento pedido (confira aqui) por crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de estado. Foi o resultado do relatório final da senadora Eliziane Gama (PSD/MA), aliada do governo Lula (PT), na CPI do 8 de janeiro. Que, disparada pela oposição, saiu com o tiro pela culatra.

 

Desenvolvimento e mobilidade

Unidos no apoio que deram a Bolsonaro no segundo turno presidencial de 2022, Garotinhos e Bacellar parecem ignorar juntos o desejo de paz política manifestado pelo campista nas pesquisas qualitativas dos dois grupos políticos. Que voltaram a apontar o transporte público e a mobilidade urbana entre os principais problemas do município. Neste sentido, com apoio da Prefeitura de Campos, boa oportunidade de debate será o 1º Seminário de Desenvolvimento Sustentável, Mobilidade Urbana e Cidades Responsivas. Será realizado das 8h às 19h da quinta-feira de 9 novembro, no Teatro Trianon. Pela internet, as inscrições (confira aqui) são gratuitas.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Os sertões e os filhos — Expedição a Canudos, 21 anos depois

 

“As prisoneiras”: cerca de 400 mulheres e crianças de Canudos que se entregaram ao Exército Brasileiro em 2 de outubro de 1897, na promessa de terem suas vidas popupadas, descumprida a fio de faca no Vale da Degola (Foto: Flávio de Barros/Acervo Museu da República)
“As prisioneiras”: cerca de 400 mulheres e crianças do Belo Monte que se entregaram ao Exército Brasileiro em 2 de outubro de 1897,  três dias antes da queda definitiva do arraial, na promessa de terem suas vidas poupadas, descumprida sob fio de faca no Vale da Degola (Foto: Flávio de Barros/Acervo Museu da República)

 

Christiano Barbosa, Paullo de Régis, Aluysio Abreu Barbosa e Rafael Abreu, Parque Histórico de Canudos, 3 de outubro de 2023 (Foto: Christiano Barbosa)

Os sertões e os filhos

(A Ícaro e Christiano Barbosa, Rafael Abreu e Paullo de Régis)

 

“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Vencido palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5 (de outubro de 1897), ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”. Testemunha ocular da Guerra de Canudos (1896/1897), assim Euclides da Cunha narra seu último combate, no livro “Os Sertões”.

A planta canudos na cidade atual de Canudos, no alto da barragem sobre o rio Vaza Barris, diante do Açude do Cocorobó, ao pôr do sol de 4 de outubro de 2023 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Maior guerra civil da História do Brasil, Canudos é o nome da planta de caule oco usada para fazer cachimbo que dava nome à fazenda de gado semiabandonada no norte do sertão da Bahia, às margens do rio Vaza Barris. Como é um dos poucos daquela região que corre o ano inteiro, o profeta cearense Antônio Conselheiro lá bateu o cajado, após 25 anos de peregrinações pelo Nordeste, para fundar seu Arraial do Belo Monte em 1893.

Quatro anos depois, quando a quarta expedição do Exército Brasileiro levou a cabo sua guerra de extermínio contra o povo brasileiro, Belo Monte somava 25 mil habitantes. O que fazia dele a segunda maior cidade da Bahia, atrás apenas da capital, Salvador. Cerca de 20 mil sertanejos foram dizimados a tiros de fuzil, metralhadoras e artilharia, dinamitações e degola a fio de faca dos prisioneiros, sem pudor a mulheres e crianças, pelos militares. Que, graças à resistência impressionante dos sertanejos, também perderam cerca de 5 mil soldados.

(Xilogravura: Joel)

Fato é que, em um Brasil de economia eminentemente agropecuária, o modo de posse e produção coletiva da terra por parte de Conselheiro e seus seguidores, com base nos evangelhos, produziu inegável sucesso socioeconômico. Que, à parte a fé, serviu de alternativa real e atraente a ex-escravos negros, libertos e entregues à própria sorte poucos anos antes, em 1888. Como aos caboclos oprimidos pelo regime latifundiário e feudal do Nordeste. Que pouco ou nada mudou com o golpe militar que passou o país de Império à República, em 1889.

(Xilogravura: Joel)

Economicamente exitoso e extremamente popular, esse modelo alternativo de sociedade, sem proprietário, padre ou delegado, passou a preocupar os coronéis — como eram chamados, desde o Império, os latifundiários aliados ao governo central — e o clero católico do Nordeste. Como Conselheiro havia queimado placas de cobrança de impostos da recente República, por considerá-las escorchantes e por não enxergar legitimidade no novo regime, ainda fiel ao princípio religioso do “direito divino” monarquista, isso foi usado pelos seus detratores.

(Xilogravura: J. Borges)

Com base numa notícia falsa de que os conselheiristas iriam invadir a cidade de Juazeiro, para tomarem à força um carregamento de madeira destinado à construção do telhado da Igreja Nova do Belo Monte, que tinha sido pago adiantado, montou-se a primeira expedição militar contra o arraial. Tinha 113 homens e era comandada pelo tenente Manuel da Silva Pires Ferreira. Em novembro de 1896, foi enfrentada pelos sertanejos na cidade de Uauá, vizinha a Canudos. E, embora com poucas baixas, posta a correr.

A primeira derrota passou a ser retratada como a vitória de um Brasil medievo, interiorano e monarquista sobre o Brasil às portas do século 20, litorâneo e republicano. E vai se reafirmar nas vitórias conselheiristas sobre as duas expedições militares seguintes. Que passaram a ser falsamente justificadas por uma suposta ajuda internacional de regimes imperiais, como do Reino Unido, à comunidade autônoma, autossuficiente e independente do sertão do Nordeste.

Coronel Antônio Moreira César

Comandada pelo major Febrônio Ferreira de Brito, a segunda expedição tinha 619 homens. E foi posta a correr em janeiro de 1897, nos arredores de Canudos. A terceira foi comandada pelo coronel Antônio Moreira César, conhecido como “Corta Cabeças” por sua atuação violenta contra a Revolução Federalista (1893/1895), no Sul do Brasil. Tinha 1.300 soldados, artilharia e foi a primeira a chegar ao Belo Monte. Após a primeira carga de infantaria contra o arraial e a morte de Moreira César, ferido em combate, também foi posta a correr em março de 1897. E deixou para trás grande parte das suas armas e munições, com as quais armou os conselheiristas.

 

Apoiadores da Revolução Federalista (1893/1895) sendo degolados por tropas e apoiadores da República, sob comando de Moreira César

 

General Artur Oscar de Andrade Guimarães

Comandada pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães, a quarta e última expedição foi composta inicialmente de 5 mil soldados. Chegou no final de maio de 1897 sobre Canudos, no alto do Morro da Favela, batizado pelo arbusto da caatinga chamado favela. De volta à cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, a semelhança física entre o Belo Monte e as comunidades dos escravos recém-libertos nos morros cariocas faria com estas passassem a ser também chamadas de favela pelos soldados vindos do sertão.

Apesar da conquista da posição estratégica sobre o Belo Monte, seus tenazes defensores cobraram preço alto ao Exército. Armados pela expedição Moreira César e comandados por lideranças conselheiristas de brilho militar, como o negro Pajeú e João Abade, os sertanejos usaram táticas de guerrilha e conhecimento do meio agressivo da caatinga para matarem rapidamente mil soldados, ou 1/5 da nova força invasora.

 

Comparado pelos militares, segundo Euclides, a Napoleão, por seu brilhantismo tático e uso do território como arma de guerra, o negro Pajeú foi batizado com o mesmo nome de um rio e uma região do seu Pernambuco, imortalizados na música do conterrâneo Luiz Gonzaga (Desenho: Blog Lentes Cangaceiras)

 

Marechal Carlos Machado de Bittencourt

Sem ter como avançar e sob risco de o Exército ser posto mais uma vez a correr pelo sertão, Artur Oscar pediu e recebeu, em agosto, reforços de todas as partes do Brasil, totalizando 10 mil homens. Os problemas crônicos de abastecimento das suas linhas, no entanto, só seriam resolvidos em 6 de setembro. Foi quando o marechal Carlos Machado de Bittencourt, ministro da Guerra do governo Prudente de Moraes, primeiro presidente civil do Brasil, chegou à região do conflito. E nela comprou todos os burros disponíveis.

Euclides da Cunha

Em 16 de setembro, enviado como correspondente do jornal A Província de São Paulo (depois, O Estado de S. Paulo), Euclides da Cunha chegou ao Belo Monte, já completamente cercado pelo Exército. No dia 22 daquele mês, morreu Antônio Conselheiro, por ferimentos de estilhaços de granada e disenteria. Além de 31 reportagens e 62 telegramas, Euclides fez entrevistas, estudos e anotações que, enquanto trabalhava como engenheiro de obras públicas na reconstrução de uma ponte no município paulista de São José do Rio Pardo, gerariam “Os Sertões”, publicado em dezembro de 1902.

 

 

Jovem saído da adolescência e ainda sem filhos, foi num verão de rede e vento nordeste, na Atafona de 1992, que leu pela primeira vez “Os Sertões”. Naqueles mesmos dias, após descobrir sua brasilidade no duplo de Conselheiro e Euclides, teria sua primeira experiência de morte. Da qual sobreviveria para ser pai em 1999. Em 2002, no centenário de “Os Sertões”, quando seu filho tinha 3 anos, fez sua primeira expedição a Canudos. Que gerou um caderno especial de 10 páginas, patrocinado pelas universidades de Campos e publicado em jornal.

Memorial Antônio Conselheiro, Canudos, pôr do sol de 4 de outubro de 2023 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

O filho montou sua própria mitologia entre as histórias daquela outra expedição jornalística, na busca de um país. Que encontraria na sua própria leitura de “Os Sertões”, também no início da juventude. Numa viagem com o pai pelas mesmas Israel e Palestina poucos meses depois em guerra, planejaram ir também a Canudos. Após a morte precoce do filho aos 23 anos, em sua memória, o mesmo roteiro de 21 anos antes foi cumprido. E amigos revisitados.

No Vale da Degola de batismo autoexplicativo, diante do Açude do Cocorobó, onde as águas do rio Vaza Barris foram represadas, em meio a balas de fuzil e ossos humanos do século 19 que ainda brotam do solo pedregoso da caatinga do século 21, após as orações do pai, o primeiro dente de leite do filho foi depositado. Agora, resto mortal do seu menino. E mais um homem feito na última trincheira do sertão.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Mais de 3 mil mortos antes da invasão de Gaza por Israel

 

Enquanto a invasão por terra não vem, cidade de Gaza em mais um dia de bombardeio de Israel (Foto: Mohammed Salem/Reuters)

 

A confirmação da morte de mais uma brasileira, entre as mais de 3 mil vidas humanas perdidas desde os ataques terroristas do grupo palestino Hamas no último sábado (7), respondidos desde domingo (8) com o cerco e o bombardeio da Faixa de Gaza por Israel. Até o final da tarde de ontem (13), era o saldo da nova guerra na Terra Santa para judeus, muçulmanos e cristãos, que adoram o mesmo Deus de Abraão. Enquanto, no mundo dos homens, crescem as denúncias de crimes de guerra praticados pelos dois lados até aqui envolvidos no conflito.

A brasileira Karla Stelzer Mendes, de 41 anos, que estava na festa rave próxima à Faixa de Gaza invadida pelos terroristas palestinos do Hamas no último sábado (7), teve sua morte confirmada ontem (Foto: Instagram)

TERCEIRA BRASILEIRA MORTA — Sepultada ontem, no sul de Israel, a brasileira Karla Stelzer Mendes, carioca de 42 anos, teve sua morte confirmada ontem pelo filho, que serve no Exército de Israel, e pelo Itamaraty.  Foi na mesma festa rave, perto de Gaza, na qual já tinham sido confirmadas as mortes da também carioca Bruna Valeanu e do gaúcho Ranani Nidejelski Glazer, respectivamente, de 23 e 24 anos.

FAB TRAZ BRASILEIROS DE ISRAEL, OS DE GAZA ESPERAM — Dos brasileiros que estavam em Israel, a ação do governo Lula, do Itamaraty e da Força Aérea Brasileira (FAB) já conseguiu repatriar 711. Incluídos os 207 que embarcaram ontem em Tel Aviv, capital israelense, no quarto voo da FAB. E chegam na madrugada de hoje (14) ao aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Enquanto isso, na Faixa de Gaza, cerca de 20 outros brasileiros esperam a liberação de Israel, para sair pela fronteira da região com o Egito. País do qual o avião presidencial do Brasil, em Roma, na Itália, espera liberação para fazer a viagem.

MAIS DE 3,2 MIL MORTOS — Até o final da tarde brasileira de ontem, quando acabou o prazo de 24h dado por Israel para 1,1 milhão de palestinos saírem da cidade de Gaza para o sul da região cercada, já eram mais 3,2 mil vidas humanas perdidas com a guerra. Cerca de 1,9 mil palestinas, incluídas de 614 crianças; e 1,3 mil israelenses, sem divulgação de idade, mas com crianças confirmadas entre os mortos. Incluindo três bebês, dois deles carbonizados, que tiveram suas fotos divulgadas na quinta (12) pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

BEBÊS DEGOLADOS? — Divulgada na terça (10), a informação de que 40 bebês israelenses teriam sido decapitados pelos terroristas do Hamas no kibutz (modelo de fazenda coletiva autossuficiente que marca o início do moderno estado de Israel) de Kfar Aza, próximo à Faixa de Gaza, não foi, no entanto, confirmada. Como demanda confirmação por fontes independentes as imagens de bebês mortos divulgadas por Netanyahu, cada vez mais sob pressão do próprio povo de Israel que dividiu na tentativa de controlar o Judiciário do país, para evitar ser preso por corrupção.

ISRAEL NA FAIXA DE GAZA — Esperada a qualquer momento, o ritmo da invasão de Israel por terra à Faixa de Gaza, da qual se retirou em 2005, deve ditar os próximos passos do conflito. Pela densidade de construções como na cidade de Gaza, continuamente habitada há 3,6 mil anos, uma guerra de guerrilha pode dificultar a imposição da superioridade do Exército de Israel, com 486 mil soldados mobilizados, sobre as forças paramilitares do Hamas, estimada entre 20 a 40 mil homens armados. Isso, além dos cerca de 120 reféns capturados para serem usados como escudos humanos. Segundo o Hamas, 13 deles já teriam sido mortos pelos bombardeios israelenses.

A FACÇÃO E O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO — O que Israel hoje mais teme é que o conflito se abra em duas ou mais frentes. Sem nunca formar um estado de fato, a Palestina se divide em duas áreas. Entre o centro-oeste e o sudoeste da Terra Santa, a Faixa de Gaza é controlada com mão de ferro pelo Hamas, desde que o grupo fundamentalista islâmico lá chegou ao poder nas eleições palestinas de 2006. Na região, 2,3 milhões de palestinos são empilhados por Israel num campo de concentração a céu aberto de 365 km2, onze vezes menor que o município de Campos.

ISRAEL NA CISJORDÂNIA — A outra área da Palestina é a Cisjordânia. Com 5.860 km2, não tem ligação terrestre com a Faixa de Gaza e é bem maior que esta. No centro-leste da Terra Santa, é controlada militarmente por Israel. Que tem seus limites territoriais bíblicos reivindicados pela extrema-direita de fundamentalismo religioso judeu, aliada de Netanyahu, na expansão de assentamentos sobre o território palestino ocupado. Ontem, na repressão de manifestações de apoio aos palestinos de Gaza, os israelenses mataram 11 palestinos na Cisjordânia.

ISRAEL, LÍBANO, HEZBOLLAH E IRÃ — A outra possível frente mais temida por Israel é sua fronteira norte com o Líbano, onde atua o Hezbollah, financiado pelo Irã. Grupo paramilitar de extremismo islâmico, como o Hamas, o Hezbollah é muito mais poderoso. Tem cerca de 100 mil homens armados, testados na Guerra Civil da Síria, e mais de 150 mil mísseis. Que são capazes de derrubar prédios em Tel Aviv como Israel tem feito em Gaza. Os enfrentamentos na região ainda são pontuais. Mas ontem, no sul do Líbano, causaram a morte do cinegrafista Issam Abdallah, da agência britânica Reuters.

ESPERAS — O Hezbollah, como seu patrocinador Irã, que teriam dado autorização para a ação terrorista do Hamas contra Israel no último sábado, parecem esperar para ver como as coisas andarão na invasão terrestre da Faixa de Gaza. Onde, desde domingo, 2,3 milhões de seres humanos são bombardeados e confinados pelos israelenses sem água, comida, remédios, energia elétrica ou corredor humanitário.

 

Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Crimes de guerra do Hamas e de Israel na Terra Santa

 

Tel Aviv, capital de Israel, sob ataque dos foguetes e mísseis disparados pelo Hamas da Faixa de Gaza (Foto: Mohammed Salem/Reuters)

 

Você é expulso da casa na qual se criou e que herdou dos seus antepassados. Primos com linha de sangue com seus avós, mas de outra religião e língua, ocupam a casa durante sua longa ausência. Após passar por grandes sofrimentos numa vida errante pelo mundo, este define que você pode reocupar sua antiga casa. Mas tem que dividi-la com seus primos, que não o querem de volta. Grosso modo, esse é o dilema desde a criação dos estados de Israel e da Palestina, dividindo a mesma Terra Santa para judeus, cristãos e islâmicos, após a II Guerra Mundial (1939/1945). Depois de várias outras guerras pela posse dessa mesma “casa”, o conflito volta a chamar a atenção do mundo desde os ataques terroristas do grupo palestino Hamas contra Israel, por terra, mar e ar, no último sábado (7).

 

Continuamente habitada há 4 mil anos, a cidade de Gaza sob o bombardeio de Israel (Foto: Ashraf Amra/Reuters)

 

ATAQUE, CONTRA-ATAQUE E MORTOS — A partir da sua base na Faixa de Gaza, o Hamas usou soldados armados e alguns milhares de foguetes e mísseis para matar 900 pessoas em Israel, a grande maioria civis. Incluídos os brasileiros Bruna Valeanu e Ranani Glazer, respectivamente, de 24 e 23 anos, que estavam numa festa rave; e cerca de 40 bebês israelenses que teriam sido decapitados num kibutz. Surpreendido e com cerca de 100 de seus cidadãos também levados como reféns, Israel respondeu com a declaração de guerra consumada com bombardeios desde o domingo (8) sobre Gaza. Que, até a noite de ontem, tinham matado 900 palestinos, também civis na maioria, cerca de 100 deles crianças.

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

GAZA E O HAMAS — A Faixa de Gaza fica entre o centro-oeste e o sudoeste da Terra Santa. Nela, 2,3 milhões de palestinos são empilhados por Israel num campo de concentração a céu aberto de 365 km2. Onze vezes menor que o município de Campos, o território é controlado pelo Hamas. Que lá chegou ao poder pelo voto nas eleições legislativas palestinas de 2006. Mas o mantém de lá para cá com mão de ferro, como o tráfico de drogas ou as milícias fazem com as comunidades carentes das grandes áreas urbanas brasileiras.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

CRIMES DE GUERRA — Além dos bombardeios, a Faixa de Gaza teve a entrada de energia elétrica, água e comida fechada por Israel. Assim como a saída de qualquer cidadão palestino, tenha ou não ligação com o Hamas. No que foi denunciado como crime de guerra, assim como os ataques terroristas do Hamas, pela Human Rights Watch, uma das mais importantes organizações de direitos humanos do mundo. A ONU também já iniciou investigação de crimes cometidos pelos dois lados do conflito, para posterior responsabilização. Que também pode acontecer pelo Tribunal Penal Internacional, em Haia, na Holanda.

 

 

CISJORDÂNIA E ANP — A outra área da Palestina é a Cisjordânia, que até agora não se envolveu no conflito. Com 5.860 km2, não tem ligação terrestre com a Faixa de Gaza e é bem maior que esta. No centro-leste da Terra Santa, a Cisjordânia é, em tese, administrada pela Autoridade Nacional Palestina (ANP), opositora política do Hamas. Mas é controlada de fato por Israel, cuja extrema-direita no poder com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu insiste em instalar colonos judeus na região. De origem laica, a ANP reconhece a existência do estado de Israel. Fundamentalista islâmico, o Hamas, não.

PODERIO BÉLICO — Com cerca de 126 mil homens mobilizados em suas Forças Armadas, consideradas entre as melhores do mundo após várias vitórias militares sobre seus vizinhos árabes, Israel já convocou 360 mil reservistas, incluindo brasileiros de dupla cidadania. E prepara uma invasão por terra à Faixa de Gaza. Onde pode esbarrar numa guerra de guerrilha, na qual o mais fraco sempre aumenta suas chances contra o mais forte. Operando como milícia paramilitar, o Hamas teria entre 20 mil e 40 mil homens armados. Desde que se retirou da Faixa de Gaza em 2005, Israel não teve sucesso em tentativas posteriores de voltar militarmente à região.

HEZBOLLAH E IRÃ — Muito mais poderoso que o Hamas é o Hezbollah. Outro grupo paramilitar extremista que atua no Líbano, vizinho de Israel ao norte, conta com cerca de 100 mil homens armados, 100 mil mísseis e artilharia. Analistas do mundo se dividem se o grupo libanês se envolveria no conflito, abrindo outra frente de batalha contra Israel, caso este invada a Faixa de Gaza. Mas como o Hezbollah é financiado diretamente pelo Irã, isso poderia envolver também este país numa eventual escalada do conflito.

PARCEIROS DE OCASIÃO — Na divisão do mundo islâmico desde a Idade Média, o Hamas é sunita, enquanto o Hezbollah e seu patrocinador Irã são xiitas. Opositores no plano religioso, são parceiros geopolíticos de ocasião, unidos no não reconhecimento à existência de Israel. Que, se estender sua guerra ao Irã, dificilmente o faria sem o apoio dos EUA. Por enquanto, foram registrados alguns outros pequenos ataques e contra-ataques envolvendo Israel, partindo do Líbano e da Síria. Esta, aliada da Rússia de Vladimir Putin, já envolvido em sua própria guerra com a vizinha Ucrânia.

BRASILEIROS CHEGAM DE TEL AVIV — Enquanto isso, é esperada às 4h da madrugada de hoje a chegada do primeiro voo da Força Aérea Brasileira (FAB) trazendo brasileiros que estavam na zona do conflito. A aeronave KC-30, com 211 passageiros, partiu às 20h12 no horário de Israel (14h12 de Brasília), do aeroporto Ben Gurion, na capital, Tel Aviv. Segundo o Itamaraty, estão previstos mais cinco voos até o próximo domingo (15).

 

Avião KC-30 da FAB, com 211 passageiros brasileiros embarcados em Tel Aviv, tem chegada prevista na madrugada de hoje à Brasília (Foto: Reprodução de TV)

 

LULA, BOLSONARO E MORO — Embora tenham condenado os ataques terroristas, as notas do Governo Federal, do presidente Lula (PT) e do Itamaraty não citaram o nome do Hamas. Porque, se o fizessem, teriam que classificá-lo, ou não, como grupo terrorista. Adversários do petista, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o senador Sergio Moro (União/PR) lembraram que o Hamas parabenizou Lula por sua eleição em outubro passado.

 

Presidente Lula, ex-presidente Jair Bolsonaro e o senador Sergio Moro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

MST VÊ “REAÇÃO LEGÍTIMA” DO HAMAS — Aliado de Lula, o MST soltou ontem uma nota, em que afirmou: “Resistência Palestina, desde Gaza, reagiu, de maneira legítima, às agressões e à política de extermínio que Israel implementa na região há mais de 75 anos (…) À brava Resistência Palestina em Gaza: seguiremos apoiando e defendendo o direito legítimo dos povos a reagir contra a opressão”.

JOE BIDEN — No hemisfério oposto das Américas, o presidente dos EUA, Joe Biden, afirmou ontem: “Nós estamos com Israel, apoiamos Israel, e garantiremos que tenham tudo o que precisarem para cuidar dos seus cidadãos, defender-se e responder a esse ataque”. Atrás do ex-presidente Donald Trump nas pesquisas da eleição à Casa Branca em 5 de novembro de 2024, Biden pode ser tentado a mudar essa situação na pretensão dos EUA à condição de “polícia do mundo”. Mesmo que ela não tenha vingado recentemente em outros países islâmicos, como o Iraque e o Afeganistão.

 

Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Campos, Faixa de Gaza e patrimônio no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Servidor público federal, blogueiro do Folha1 e jornalista, Edmundo Siqueira é o convidado do Folha no Ar desta quarta (11), a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele analisará os últimos capítulos da novela da política de Campos (confira aqui). Assim como os ataques terroristas do grupo extremista Hamas contra Israel, que respondeu com bombardeios e privação de água, comida e eletricidade aos 2,3 milhões de palestinos que confina na Faixa de Gaza.

Por fim, Edmundo falará da preservação do patrimônio histórico de Campos, assim como do brasileiro em Canudos, no sertão da Bahia, palco da maior guerra civil do país, no final do século 19. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Ataque do Hamas e guerra de Israel no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Júnior)

 

Os ataques terroristas do grupo palestino Hamas a Israel e a guerra declarada por este em resposta, com a possibilidade de escalada do conflito e de consequências ao Brasil. Este será o tema do Folha no Ar desta terça (10), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Será debatido pelo âncora Cláudio Nogueira e os jornalistas Rodrigo Gonçalves e Aluysio Abreu Barbosa, que esteve há poucos meses em Israel e na Palestina.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Boçalidade lulopetista e bolsonarista, Flamengo e Botafogo na Villa

 

(Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

— E a assessora da Anielle Franco, irmã da Marielle Franco e ministra da Igualdade Racial de Lula? — indagou Diego, após tomar o primeiro gole de cerveja artesanal no dia de abertura do 1º Concurso de Cerveja Caseira da Villa, em pé e diante do amigo que encontrara ao acaso nos jardins de Finazinha Queiroz.

— Foi tão idiota, na sua agressão gratuita e provavelmente ébria à torcida do São Paulo na decisão da Copa do Brasil no Morumbi de domingo, quanto a patriotária Ana Priscila de Azevedo, que depôs na quinta à CPMI do 8 de janeiro. Após ser uma das líderes das invasões às sedes dos três Poderes em Brasília, a maluca disse que acreditava que Bolsonaro era um “infiltrado de esquerda”. Porque elogiou no passado a Hugo Chávez na Venezuela — comparou Aníbal, antes de também experimentar do seu copo de fermentado caseiro de cevada, com tons de maracujá para acalmar.

— Você acha que a tal da Marcelle Decothé, agora ex-assessora da Anielle, estava doidona?

— Acho que quem inventar um bafômetro que bloqueie smartphone, lap top e acesso às redes sociais após umas cervejas a mais, o que é normal para aliviar a tensão de um jogo de decisão, vai ficar milionário. Nem sei como o Steve Jobs, que era um grande babaca como ser humano, mas um gênio em criar e atender demandas humanas, não pensou nisso antes de morrer.

— Minha avó já dizia: quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza.

— Como a avó de Raul Seixas dizia para ele sair sem se molhar. E o neto respondia: “mas a chuva é minha amiga e eu não vou me resfriar”. No seco, o fato é que foi assim no primeiro governo do PT, com Lula, a partir de 2003.

— Que estava esperando na fila há 14 anos, desde o segundo turno presidencial de 1989, vencido por Fernando Collor de Mello.

— Exato. Como voltaria a ser assim a partir de 2019. Com todo tipo de medíocre ressentido, incluindo o Collor e seus mesmos eleitores 30 anos mais velhos e de cara mais repuxada, que se sentiu representado com Bolsonaro no poder.

— E o avião da FAB para ir ver a final do Flamengo? A festa do PT já recomeçou?

— É cedo para dizer. E não gosto desse tipo de bipolaridade nivelada por baixo. Mas, ao que se saiba, pelo menos ninguém transportou 37 kg de cocaína nesse avião da FAB. Nem as milionárias joias sauditas de propina pela venda aos árabes, por R$ 2 bilhões abaixo do preço de mercado, da refinaria de petróleo baiana Landulpho Alves.

— Você está querendo mudar de assunto, Aníbal. O fato é que, como a Anielle e a tal da Marcelle, você é Flamengo, né?!

— Como você, Diego, pertence à segunda maior torcida de futebol do estado do Rio: a antiflamenguista. Que tem suas subdivisões no Vasco, no Fluminense e até no seu Botafogo.

— Mais respeito! Você está falando com o virtual campeão brasileiro de 2023.

— Até aqui, tudo indica que sim. E é mais que merecido ao clube que deu ao futebol Mané Garrincha, Heleno de Freitas e Nilton Santos.

— Você esqueceu logo do campista Didi?

— Esqueci, nada. Só que, após o Americano, o clube carioca que revelou Didi foi o Madureira. E ele ganhou fama pelo Fluminense, no qual jogava quando disputou pelo Brasil a Copa do Mundo de 1954, antes de também brilhar no Botafogo.

— O que importa é que agora é o Botafogo. Não o Flamengo. Ou Flamengue, na linguagem neutra com que a ex-assessora da irmã de Marielle usou para ofender a torcida do São Paulo: “Descendente de europeu safade. Pior de tudo pauliste”.

— Fruto da mesma arrogância associada ao flamenguista, a tal linguagem neutra tem futuro tão “neutre” quanto o presente do esperanto. Quanto ao Botafogo, após 28 anos na fila, já estava na hora. Em você, reconheço que se manteve fiel esse tempo todo, na primeira ou na segunda divisão do Brasileirão. Porque, com a boa fase atual, começou a sair botafoguense até do ralo. Parece aquele filme dos anos 1980, “Os Gremlins”: não pode jogar água que brotam outros das costas. Aí fica esse cheiro de naftalina danado nas ruas, das camisas da Estrela Solitária escondidas há tanto tempo no fundo da gaveta.

— É a mesma gaveta em que vocês vão esconder as faixas de todos os vice-campeonatos que acumularam este ano?

— Chico Buarque já disse gostar mais de futebol que do Fluminense. O que eu superlativizo: gosto muito mais de futebol do que do Flamengo. A verdade é que o São Paulo mereceu vencer. Pelo jogo de ida no Maracanã e pelo tapa de luva que o Dorival Júnior deu na cara da diretoria do Flamengo. Que o demitiu no final do ano passado sem até hoje dizer por quê.

— Isso é verdade. Após a final da Copa do Brasil deste ano, o próprio Zico lembrou que mandaram Dorival embora após ele conquistar a Copa do Brasil e a Libertadores pelo Flamengo em 2022. Para contratarem quem? O português Vítor Pereira. Que, treinando o Corinthians, tinha perdido para o Flamengo de Dorival nas duas competições.

— Verdade, Diego. Não há monopólio de gênero, ideologia política ou cores de clube de futebol para ser imbecil.

— Sei. E, agora, sai Sampaoli e entra Tite? O que você acha?

— Sobre Tite? Jesus! — ironizou Aníbal, seguido dos risos comuns, umedecidos de cerveja artesanal nos jardins da Villa.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Do Brasil a Campos, resumo da semana no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Um apanhado dos principais fatos da semana, do Brasil a Campos, com o âncora Cláudio Nogueira e os jornalistas Aluysio Abreu Barbosa e Rodrigo Gonçalves. É o que fecha a semana do Folha no Ar nesta sexta (29), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Primeira reitora eleita da Uenf no Folha no Ar desta quinta

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Professora e reitora eleita da Uenf, Rosana Rodrigues é a convidada do Folha no Ar nesta quinta (28), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ela falará dos questionamentos da oposição, feitos pelo professor e ex-candidato Carlão Rezende, e do que a Uenf pode e deve esperar (confira aqui) da primeira mulher reitora da principal universidade de Campos e região.

Rosana também falará sobre expansão, inclusão com segurança e transporte, e da relação com os servidores e os Poderes em Campos e no RJ. Por fim, projetará sua atuação em relação ao atraso na reforma do Solar dos Jesuítas que abriga o Arquivo Público Municipal, com R$ 20 milhões liberados pela Alerj (confira aqui) desde outubro de 2021, nas atividades na Villa Maria e no desenvolvimento de pesquisas como formas de integração com a cidade.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Por Sérgio Arruda, “os oito secos” de Aluysio Abreu

 

Sérgio Arruda de Moura, professor de Letras da Uenf e escritor

POR UMA POÉTICA DO ESSENCIAL (OU DA SECURA)

Por Sérgio Arruda de Moura

 

Não é de hoje que a literatura (poesia e ficção) se alimenta de suas próprias arquiteturas, isto é, de seus espaços no mundo, construídos pela arte com a palavra. Pois, se o lugar no mundo da literatura é o espaço que ela própria criou — ainda que procuremos desesperadamente aquilo de que ela fala — a primeira armadilha já está feita e falta só um passo para caírem dentro dela o poeta e o leitor, dentre eles, o leitor-crítico. Falo isso em função das dificuldades de leitura que um poema apresenta, e das saídas fáceis para escrevê-los “legíveis” e, pior ainda, floreados. Mas é bom viver iludido, levantando castelos e taperas no ar, colocando gente dentro deles, fazendo-os falar, se estarrecer, refletir sobre a tarefa de viver, encarar o outro e a si, enfim, buscar na palavra algum recanto de onde possa lançar a inumerável pergunta: que é a poesia e o que o poeta faz para fazer poesia? Não vale escrever dissertando, defendendo teses e quebrando as frases no meio da linha para criar a ilusão de que está fazendo um poema…

O poema — eu sei, é desconfortável — tem que trazer algum hermetismo. Tem que fisgar desde o título: Pois bem, lá vai: o que são oito secos, por exemplo?

O que se sucede é um desfile de personagens — da voz, dos músicos instrumentistas, da própria poesia, do romance, do cinema e até do futebol. Mas principalmente da própria poesia — de ontem e de hoje.

A poesia se faz a partir do seu próprio interior. O poeta não vive sem se enfurnar dentro dos versos alheios e das vivências de poetas, de onde vai buscar a seiva de seus próprios versos.

Se encararmos a tradição milenar da literatura — a arte de narrar, cantar em versos —, vamos perceber que ela é a única atividade humana a se manter tal como sempre foi: encantamento, mergulho em si, beleza gratuita, cavada de dentro, sem utilidade finalista, elevação, beleza… Tiro tudo isso da belíssima evocação que o poeta mexicano Octávio Paz (1914-1998) faz da poesia, em O arco e a lira. Sim, parece que só um poeta tem a chave da definição exata do que seja a poesia — e que nem é tão exata assim. Pois vejam só:

“A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono […]. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente”.

Essas linhas iniciais me recordam do grave exercício da crítica ou do ensaio num terreno tão incerto e, a uma só vez, sombrio e revelador — que é a poesia. Se a linguagem revela e esconde no mais comum dos pronunciamentos humanos, o que esperar dela quando seu exercício é no interior de uma proposição poética? Trago o arco e a lira comigo desde sempre, a me lembrar do alto elogio que a linguagem faz de si mesma quando envereda pela poesia. E se tornou uma bíblia onde tudo está dito e onde checo a pertinência da poesia que me assalta.

Como disse desde lá em cima, o exercício da literatura é interno à palavra. Não procuremos seus sentidos lá fora, sem antes ver a arquitetura cá dentro. Eventualmente ela é manifesto, mas aí ela é bandeira para os exercícios de novas safras e novas visadas.

N’os oito secos, poema de Aluysio Abreu, o painel talvez seja o de uma vida inteira do poeta, um recorte da memória de quem com a voz, com os instrumentos, com a destreza com a bola, com os versos secos e descarnados, com a frase exaurida até o extremo de floreios linguísticos inspirou a poesia no poema. Sim, tem o poema e tem a poesia, e nem sempre os dois estão juntos.

Neste painel em marca d’água ao lado ao qual se sobrepõe o poema os oito secos figuram os oito secos, oito figuras ilustres da poesia, do romance, da música, do canto, da interpretação. Mas o poema traz mais. Lembro do extremo exercício de aridez essencial e necessária que há em Graciliano e Hemingway e os recomendo aos meus alunos iniciantes na escrita — tão propensos aos excessos despontuados típicos.

Desses oito secos, eu fico com todos. Procurei a secura de De Niro e — sim — não tem ninguém mais low profile quando encarna um papel no cinema. Do Cabral neoparnasiano — não, não é ofensiva a alcunha — nem se fala: da secura de subjetividades de sua poesia salte talvez o que de mais seco haja na poesia brasileira, com o sacrifício público do eu-poético em favor do exercício da palavra.

Pois bem. Com esse painel, o poeta Aluysio Abreu bem que podia lançar o Manifesto em favor da secura na poesia, bastante útil para iniciar os poeta novos ou reiniciar os velhos acometidos de comichões adolescentes e revolucionárias incabíveis em versos intensamente molhados.

Os oito secos enfim é um poema com poesia e metapoética, pois disseca a poesia que há em cada canto do mundo, mesmo quando o instrumento não é a palavra. Billie Holiday, por exemplo, é a dona da navalha afiada na produção da dicção da sílaba e do afiamento da lâmina cortando fora o que não é essencial à nota. Tão cabralino o rastreio que o poeta Aluysio Abreu faz! De quebra, a vida triste da cantora, breve, quase como convém ao artista…

O painel de ensinamentos sobre a secura prossegue com Chet Baker ladeado por João Gilberto: lacônicos, secos, essenciais, sem pirotecnias. Tem Eric Clapton, descendo o tom, trocando instrumentos, passeando em poéticas, cortando o excesso. O mais problemático pra mim, segue com Zidane: como tirar poesia de um jogador de futebol? Já fizeram isso com inúmeros garrinchas e pelés, mas com esse francês, é a primeira vez, eu que o conhecia só da testada que deu em outro e daí foi expulso do gramado de onde tirava versos, certamente com seu bailado com a bola. Difícil pra mim, mas aceitei no poema, tal a confiança que já tenho no poeta Aluysio Abreu.

O cortejo se recupera na secura de Graciliano que nas suas vidas secas só poupou da secura a cachorrinha Baleia, que me botou um dia a chorar…

Por fim, tem Cabral de Melo Neto, o João, que todos sabem ser o seu deus no manejo da secura: “degolou a confissão/ na poética sem sombra ao meio-dia”.

Os oito secos é um poema de maturidade, escondendo o que podia ser óbvio, no mistério do verso contido, seco, explodindo em uma poética… Magistral sacação do conceito poético com uso do que há de mais (i)maculado na palavra, sem afetação do senso comum e do floreio, de truques para captar os bons sentimentos cansados. É o contido. É o seco e cerebral. O leitor, se assim o quiser, que o umedeça nas suas lágrimas, ou nas águas do Capibaribe ou de Atafona.

 

Os oito secos: Billie Holiday, Chet Baker, Eric Clapton e João Cabral de Melo Neto; Zinédine Zidane, Graciliano Ramos, Robert De Niro e Ernest Hemingway (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

POEMA DE ALUYSIO ABREU BARBOSA(*):

 

os oito secos

 

(1)

billie holiday tinha a dicção

das sílabas em postas

com sangue de escansão

gume da navalha a cada nota

 

com ella fitzgerald ao cutelo

o “meu homem foi embora”

saiu pra comprar cigarro

billie só cantava o que não volta

 

pelo pescoço pendurado à árvore

fruto estranho o corpo preto

vida e arte, poro, pele

de gardênia branca no cabelo

 

de prostituta a sofisticada dama

entre meninos e meninas

alforriou depois do antes

para morrer algemada a uma cama

 

(2)

chet baker também era do jazz

anglo-saxão, da costa oeste

norte a joão gilberto

lacônico na voz e no trompete

 

na vilania da heroína mastigado

após surra de traficante

reagiu novo caminho

reaprendeu a tocar sem os dentes

 

improviso em saliva à ponta da língua

avesso a partituras

pedia só o tom

chegava aonde não desce a pirotecnia

 

atafona, diálogo a dois do lamento:

“stay little valentine, stay!”

— você nunca pediria isso!

— só o mar e chet sabem que tentei!

 

(3)

eric clapton, elevado deus da guitarra

do rock, por ser do blues

alcunha na mão lenta

foi a jimi hendrix o que odisseu foi a aquiles

 

largou o yarbirds, rebatizado led zeppelin

mergulhou na música negra

robert johnson em ínterim

ao creme da maior banda da terra

 

inglês branco, custou se assumir bluseiro

trocou guitarra por viola

sentou três cães ao berço

cagado pelo homem negacionista

 

frases melódicas em notas longas

voz no timbre de ray charles

é como um português

se divino no samba da mangueira

 

(4)

cabral de melo neto, o joão

afiou faca só lâmina

degolou a confissão

na poética sem sombra ao meio-dia

 

derramamento ao espelho de medusa

do recife à sevilha

música só das siguiriyas

em estudos a uma bailadora andaluza

 

é cante que não canta ou se enfeita

pedra do sono desperta

para estranhar a alma

dos homens ossudos, do cão sem plumas

 

capibaribe ao paraíba do sul

canavial de vidas

severinas sob céu azul

dois rios a caminho do mesmo mar

 

(5)

zinédine zidane, o futuro atleta

que joão cabral boleiro

passou pra ser poeta

e o francês tirar da grama versos

 

pé negro africano, filho de argelinos

pensava só na vertical

arquiteto ambidestro

duas pernas longas à bacia do cérebro

 

nunca tinha feito gol de cabeça?

meteu dois no brasil

na final do mundial

noutra, mesmo ao se perder, usou a testa

 

lento, infiltrava seu tempo ao jogo

no lençol nos ronaldos

fez do barroco concreto

colocar dobradiça na espinha do outro

 

(6)

graciliano ramos não era da relva

detestava futebol

pregou outro uso de pernas

a rasteira como esporte nacional

 

da caatinga, em oposição ao verde

oposta também sua prosa

à suculência dos sertões

na cunha de euclides, veredas em rosa

 

vidas secas emergiram antes

na baleia sem plumas

dois meninos sem nome

de fabiano e sinhá vitória

 

em rasteira dada por recebida

um papagaio mudo

comido por gente muda

e devorada crua atrás do sonho

 

(7)

robert deniro, de corpo inteiro

argila de escultura

contraído só no rosto

todo sujeito que passa pela rua

 

alter ego a martin scorsese

mifune de kurosawa

fúria taxista sem bandeira

à do touro indomável do boxe

 

às mãos de palma erigiu al capone

rachou crânio com taco

com coppola e corleone

oscar da paridade a marlon brando

 

missão de mercenário a jesuíta

à espada do curumim

olha a arma, ao menino fita

em silêncio, grita humanidade ali

 

(8)

ernest hemingway fez-se personagem

no limite, pela essência

porre, pesca, caça, guerra

prosa do jornalismo no romance

 

quando seu protagonista foi o outro

velho chamado santiago

os tubarões do mar de cuba

comeram aos ossos a literatura

 

loucos anos de paris como uma festa

ao câmbio de erza pound

pugilato por poesia

viu quem tinha maior com fitzgerald

 

resgatou john donne ao modernismo

nos sinos que dobram por ti

trocou tiro com o fascismo

personagem, deu ponto final a si

 

campos, 09/04/22

 

(*)Jornalista, poeta e membro da Academia Campista de Letras (ACL)

 

Folha Letras da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Garotinhos, Bacellar, bolsonarismo, PT, Psol e placa quebrada

 

Filippe Poubel, Wladimir Garotinho, Carla Machado, Rodrigo Amorim, Marquinho Bacellar, Jefferson Azevedo, Thiago Rangel, Caio Vianna, Natália Soares, Bruninho Vianna e Wainer Teixeira (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Tubo de ensaio

Ontem, o general da reserva e ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo Jair Bolsonaro (PL), Augusto Heleno, deu depoimento tenso na CPMI do 8 de janeiro. Foi um pouco depois do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes votar pela condenação à prisão de mais cinco réus bolsonaristas pelo 8 de janeiro. Ainda assim, o bolsonarismo parece buscar relevância na disputa a prefeito de Campos, em 6 de outubro de 2024. Também ontem, a jornalista Berenice Seara lançou (confira aqui), no jornal Extra, o deputado estadual bolsonarista Filippe Poubel (PL) pré-candidato a prefeito da “capital do Norte Fluminense”.

 

A jogada ensaiada

O Extra afirmou que “o prefeito Wladimir Garotinho (PP) desponta como favorito”. E listou a deputada estadual Carla Machado entre os nomes do PT à Prefeitura de Campos, mesmo que o entendimento do STF a impeça por já ter se reelegido prefeita da vizinha SJB em 2020. Na mesma toada incerta, Berenice também disse que Poubel já é “o pré-candidato a prefeito em Maricá”. Ainda assim, anunciou a visita dele a Campos em 20 de outubro, com os colegas bolsonaristas de Alerj, Alan Lopes (PL) e Rodrigo Amorim (PTB). “Para audiência pública (e, quem sabe, uma operaçãozinha de fiscalização?) da Comissão Contra a Desordem Urbana”.

 

Bolsonarismo, CVC e Wladimir

“A Câmara dos Vereadores, presidida por Marquinho Bacellar (SD), integrante da família historicamente inimiga dos Garotinho, já estendeu o tapete vermelho (ui!) para o trio”, fechou o Extra a sua nota. Que ignorou, além do impedimento de Carla, que o bolsonarismo já tem dois prefeitáveis em Campos. O primeiro é o militante bolsonarista CVC Direita Campos, que já figura nas (confira aqui) pesquisas a prefeito. E chegou a ser preso por suspeita de envolvimento nos atentados de 8 de janeiro, quando era assessor de… Filippe Poubel. O segundo é o próprio Wladimir, que declarou voto a Bolsonaro (confira aqui e aqui) no segundo turno presidencial de 2022.

 

Marquinho com Jefferson

Citado na mídia carioca pelo suposto “tapete vermelho” que estenderia aos deputados estaduais bolsonaristas, Marquinho ontem apareceu mais próximo da bandeira vermelha do PT. Quando postou em suas redes sociais uma foto com o reitor do IFF, professor Jefferson Azevedo, também citado pelo Extra como possível candidato do PT a prefeito de Campos — o que esta coluna adiantou (confira aqui) desde 3 de junho. O encontro teve seu caráter institucional resguardado pelas condições de presidente do Legislativo goitacá e de reitor da maior instituição de ensino da cidade e da região. Mas, logicamente, também tratou de política.

 

Com Thiago Rangel e Caio

Com seu nome aventado nas pesquisas a prefeito, como CVC e Jefferson, Marquinho tem se encontrado com outros. Além de Jefferson, o edil esteve no dia anterior (25) com o deputado federal Caio Vianna (PSD). Assim como com o deputado estadual Thiago Rangel (sem partido), na semana passada. Como o próprio Wladimir teve encontro e gravou um vídeo muito amistoso com Jefferson e outros integrantes do PT, em defesa da Petrobras, na última quinta (21), durante a 6ª Feira de Oportunidades do IFF. O mesmo Wladimir que, no dia seguinte (22), fez críticas em suas redes sociais ao aborto, tentando não se afastar do eleitor bolsonarista.

 

Mão dupla e placa quebrada

Tudo isso faz parte da política. Embora tenham caminhado com Bolsonaro em 2022, os Bacellar nunca esconderam a admiração pelo presidente Lula (PT). Por ser egresso da política sindical, como o patriarca do clã, o ex-vereador Marcos Bacellar (SD). Reunir-se com o petista Jefferson não impede Marquinho de depois receber com “tapete vermelho” um deputado como Rodrigo Amorim. Que se notabilizou na campanha de 2018 por ter quebrado (confira aqui) a placa da vereadora Marielle Franco (Psol), assassinada a tiros naquele ano. Como a bandeira política trabalhista dos Garotinhos não os impediu de apoiarem Bolsonaro, com os Bacellar, em 2022.

 

Lição aos bolsonaristas e ao Psol

Uma eleição não garante outra. Supor que a maioria bolsonarista no 2º turno presidencial de Campos em 2022 (63,14%) vá se repetir na eleição a prefeito em 2024, é ignorar a de 2020. Quando, após Bolsonaro ter 64,87% dos campistas no 2º turno presidencial de 2018, os dois candidatos a prefeito bolsonaristas, Tadeu Tô Contigo (REP) e Jonathan Paes (PMB), tiveram juntos 2,68% dos votos. Foi pouco mais da metade dos 4,68% da estreante Professora Natália (Psol). Que, ainda assim, perdeu com a assistente social Danielle Pádua a eleição a presidente municipal do seu partido, no último sábado (23), vencida (confira aqui) pelo sindicalista Vanderson Gama.

 

Bruninho e Wainer

Ontem, em sessão quente da Câmara e mais um capítulo da tensa novela da pacificação entre Garotinhos e Bacellar, o jovem vereador Bruninho Vianna (PSD) se queixou de secretários municipais que dão entrevistas ao Folha no Ar, mas não atendem a requerimentos dos edis “independentes”. Após o próprio Bruno ter sido convidado e adiado sua ida ao programa, ontem foi a vez do secretário de Administração e RH, Wainer Teixeira. Ele expôs a reestruturação dos servidores e RPAs de Campos, e admitiu que pode concorrer a vereador. Bruninho tem futuro promissor. E pode, já em 2024, surpreender e concorrer a prefeito. A ver.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.