Artigo do domingo — Meningite: faltou informação e credidilidade ao governo


Por Rodrigo Gonçalves
Uma das práticas mais comuns nas administrações públicas é colocar cadeado após a porta arrombada. E a de Campos deu mais um exemplo disso ao responder tardiamente sobre os casos de meningite ocorridos no município. Só depois de o medo ter se espalhado é que a Prefeitura resolveu intensificar o trabalho de orientação para afastar o “boato” de um possível surto da doença. Para isso, tem contado com profissionais independentes, já que nem mesmo as declarações da própria prefeita Rosinha Garotinho (PR) surtem o efeito necessário.
O fato é que o município já tem confirmados sete óbitos pela doença, entre os 23 casos diagnosticados. Por mais que os números estejam dentro da média anual, conforme informa a secretaria de Saúde, a morte de duas irmãs que estavam vacinadas contra o tipo C, imunização disponível pelo SUS, colocou muito em dúvida a eficácia. Por mais que tecnicamente isso seja possível, para nenhum pai isso é intelegível facilmente, principalmente quando não se sabe ainda de fato que tipo de meningite matou as meninas.
O resultado disso foi uma busca por vacinas contra meningite de outros tipos nas clínicas particulares, além da elaboração de um abaixo-assinado feito por mães que buscam a imunização gratuita para os tipos de meningite A, B, C, W, e Y através da rede pública de Saúde. Bom ressaltar que a exigência não é feita só à Prefeitura, já que cabe ao ministério da Saúde a implantação de vacinas em caso de necessidade real.
Se as mortes já registradas e a preocupação da população não podem ser mais evitadas, a própria prefeita Rosinha, como mãe e avó, foi a primeira a se manifestar publicamente sobre o “boato de surto” de meningite. Talvez não tenha feito isso tão bem ao tentar politizar o assunto, misturando, inclusive, com o “boato da Polícia Federal na Prefeitura”. Ela perdeu uma boa oportunidade, que tem com a abrangência da sua rede social, de tranquilizar os pais, sem tirar o foco do que realmente interessava.
Agora, o grupo rosáceo, que nega o surto de meningite, informou que levou o caso para a polícia. Em programa de rádio na manhã deste sábado, o marido da prefeita informou que há interesse comercial por trás das informações sobre um suposto surto, que ganharam as ruas e redes sociais. Com cada vacina custando cerca de R$ 700,00, ele alega que foram vendidas mais de seis mil doses em 15 dias no município.
Charbell Kury, responsável técnico da Vigilância em Saúde, disse que muita gente está se aproveitando do pânico. “Essa é uma estratégia antiga. E tudo começou após o caso das meninas em maio (cuja mãe foi orientada por ele para não falar com a imprensa). São muitas fofocas e poucos fatos concretos. Eu desafio qualquer pessoa. Se há fundamento, entrego o cargo”, frisou, ressaltando que teve gente deixando de comer para comprar a vacina.
Mas até onde isso também não é fruto da falta de informação e também de descredibilidade deste governo? Tanto que agora para tentar minimizar à proporção que o assunto ganhou a Prefeitura recorre a especialistas independentes para tentar tranquilizar a população. Exemplo disso é que amanhã, às 11h, no Hospital Ferreira Machado, o secretário municipal de Saúde, Geraldo Venâncio, concederá entrevista coletiva sobre meningite, com a presença do médico infectologista Nélio Artiles, do neurocirurgião Mackoul Moussalem e outros especialistas.
A Prefeitura também está intensificando as publicações em seu site oficial desde a última sexta-feira com especialistas para contornar a situação. Numa delas, o depoimento do infectologista e professor Nélio Artles é o que mais chama a atenção: “Sou infectologista há 30 anos e uma das pessoas que atende casos de meningite na rede de urgência e emergência de Campos sou eu. Não tenho nenhum cargo político e não trabalho na secretaria municipal de Saúde. Sou um servidor público e afirmo categoricamente que não existe, neste momento, surto ou epidemia de meningite em Campos”.
Ao ressaltar a independência do profissional, a Prefeitura só confirma a falta de credibilidade de seus gestores, não por incompetência de quem está na pasta de Saúde, mas por quem os comanda e que por muitas vezes é visto como mentiroso.
Publicado hoje (17) na Folha da Manhã









