Paula Vigneron — Azul turquesa

Pôr do sol de Campos, em 12/07/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Pôr do sol de Campos, em 12/07/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

 

Dez horas da manhã. O relógio apitou duas vezes antes de Estela abrir os olhos. Na juventude, era chamada de Estelinha pelos amigos e parentes. Hoje, poucos usavam o apelido que tanto lhe era caro há anos. A prova de que o tempo passou. Os cabelos esbranquiçados e as rugas de expressão contrastavam com a jovialidade presente no olhar. “Tens a curiosidade em ti, menina”, dizia o avô quando ela era criança. Costumava observar todos os passos, casos e vidas que se desenrolavam ao seu redor.

Novamente, o despertador se dedicava a acordar Estela. Desativou-o. Sempre fazia o mesmo gesto quando o terceiro apito soava, quinze minutos depois da hora programada. Levantou-se. Estava sol. Caminhou até a janela, que oferecia a chance de olhar o jardim antes de sair de casa. Estava bonito. Verde, limpo e bem cuidado. Josias havia preparado-o com carinho no dia anterior. As poucas nuvens combinavam com a nobreza da área externa.

Naquela área, Estela viveu parte da infância e adolescência. Voltou à casa de seus pais somente depois da morte do casal. Era a herança que os dois deixaram para a filha única. Todas as paredes guardavam histórias da menina, que lhes confidenciara amores e maturidade. Elas, silenciosas, escutavam os detalhes narrados sob lágrimas. Outros, entre risos. Sentia-se sozinha. Os pais trabalhavam fora e pouco tempo tinham para dedicar a ela. A mãe, quando podia, ouvia a menina, mas os compromissos levaram-na a se afastar mais de Estela durante a adolescência. E ela tinha necessidade de compartilhar suas vivências.

Seus retratos se mesclavam à tinta encardida da construção. Os recantos da casa escondiam seus segredos, agora desimportantes. Ninguém quer saber. Nem ela. Todas as primeiras vezes registradas: o beijo no quarto, durante os estudos. A transa na casa ao lado, com o vizinho por quem se apaixonara perdidamente. O amor adolescente que parecia ter se desfeito tão rápido quanto surgiu. “Um chato”, contou a uma amiga. Ela concordou. Em pouco tempo, os dois namoravam. O relacionamento magoou Estela, que percebeu a não simplicidade do amor.

“Por que as pessoas nos enganam, mãe?”, perguntou, em um dia de sol como aquele que se apresentava agora. As duas conversaram no jardim, sentada em uma canga sobre a grama, enquanto faziam um piquenique. Era período de férias de Marta, que aproveitava os dias com filha de 15 anos.

“Porque as pessoas nunca vão agir como você espera, minha criança. Nem você agirá de acordo com o que elas querem. E, assim, a vida se torna uma sucessão de erros e decepções.”

A certeza com que a frase fora pronunciada fez com que as palavras nunca saíssem da cabeça de Estela. Mais de 40 anos se passaram, e aquela tarde continuava pintada na paisagem da janela. O sol inundava o quarto quando a mulher se afastou e seguiu em direção ao guarda-roupa. Ele também era parte de seu passado. Ela vestia uma camisola branca. Abriu a porta e pegou o roupão da mesma cor. Dentro do armário, junto aos perfumes, duas fotografias: uma registrava a formatura simbólica da quarta série; a outra mostrava a adolescente sorrindo entre os pais, em seu aniversário de 15 anos. “Tudo parece ter acontecido nessa idade”, pensou. As principais histórias de sua vida. Depois, tudo seguiu o inacreditável marasmo a que estava adaptada: casa, trabalho, afazeres diários e direitos adquiridos.

O único momento diferente ao que estava acostumada aconteceu quando se apaixonou por Orlando. Era alguns anos mais velho do que ela. A amizade se transformou em interesse dos dois lados. Primeiro, o envolvimento sexual. Depois, os sentimentos vieram à tona. Namoraram e se casaram. Do matrimônio, restaram apenas os conflitos.

“Maldita seja a hora em que te conheci”, gritou o então marido, alternando gritos e mãos na arrumação das malas.

“Maldita seja a hora em que aceitei essa merda de casamento.”

“Maldita seja a hora em que subi àquele altar e concordei com o desperdício dos meus melhores anos.”

Orlando segurou a mala em uma mão e abriu a porta com a outra, proferindo palavras misturadas ao rancor. Nunca mais o viu. Soube, poucos dias depois, que ele retornou para a cidade de origem. Estela não chorou. Nem na despedida e nem ao saber da partida. Nesses anos, não se emocionara com o que a vida mostrava a ela. Era considerada fria pelos poucos com quem convivia. Mas, no íntimo, sabia que sentia de forma diferente. Sem sofrimento e ressentimento. Só saudade. Cada canto de sua alma era um resquício das ausências. E a mulher se sentia grata por todas as experiências.

Desistiu do roupão e da camisola. Trocou-os por um vestido azul turquesa que se estendia até a coxa. “Sim. Estou bonita”, e sorriu. A roupa se assemelhava a uma que ganhara em seu décimo quinto aniversário. A diferença estava no comprimento. Usou-o em diversas ocasiões até que ficasse desbotado. Desde então, manteve-o guardado em uma caixa na parte superior do guarda-roupa. Ele era parte de sua história, de seu contato com o passado. Não poderia jogá-lo fora.

Olhou-se novamente no espelho. Os cabelos estavam bagunçados; o rosto; envelhecido; o sorriso, amarelado. Ao lado de Estela, posicionou-se uma jovem. Usava o vestido azul turquesa. Ambas, mulher e menina, sorriam. Os gestos ensaiados. Encararam-se. Deram-se as mãos e rodopiaram no centro do quarto, sobre o tapete marfim. Dançavam. Os passos levavam-nas da esquerda para a direita. Seguiam o ritmo da canção que ecoava entre quatro paredes. Da direita para a esquerda.

Mulher e menina. Olhos nos olhos. Os traços jovens e velhos em perfeita harmonia. Os vestidos balançavam juntos. Rodopiaram outras vezes até pararem. Estela caminhou para frente do espelho. Era menina. Era adolescente. Era mulher. Um misto de todas as Estelas. Da menina curiosa. Da adolescente inexperiente. Da mulher vivida. Das lágrimas vertidas. Do riso frouxo. Contida em certos momentos. Em outros, alvoroço pela casa agora silenciosa.

“E como está a sua vida?”, perguntou a moça.

“Está tranquila. Sempre aqui, sempre à espera.”

“Sei. Conheço seus passos e caminhos. Do passado ao futuro, ando por eles.”

“Sim, querida. Por essas trilhas, já caminhei.”

Abraçaram-se. Estela abriu novamente o armário. Despiu-se. Escolheu o roupão branco. Vestiu-o e retornou à cama. À menina, sorriu em despedida. Mas ela continuaria pelos cantos, no quarto, com seu vestido azul turquesa a clarear os dias.

 

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Da Lapa a Brasília para tirar o tempo do PT de Caio ou Rafael

Ponto final

 

 

Secretário de Rosinha com Rui Falcão

Na terça (19), o marido e secretário de Governo na prefeita Rosinha Garotinho (PR) se reuniu em Brasília com o presidente nacional do PT. Na mesa, o político da Lapa jogou o fato (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) de ter obrigado sua filha, a deputada federal Clarissa Garotinho (PR), mesmo grávida, a se ausentar na votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, cujo afastamento já tinha recebido (aqui) apoio público da parlamentar. E cobrou: quer o PT na coligação Frente Popular Progressista para eleger o candidato da situação a prefeito de Campos. Ironicamente, se aceitar, o PT será o 13º partido da aliança rosácea.

 

Caio, Rafael e propaganda

Falcão argumentou que a “paga” já havia sido dada. Mais precisamente com o empréstimo (aqui) de R$ 367 milhões concedido Caixa Econômica Federal no último dia de governo de Dilma — responsável, além de quebrar o Brasil, por empenhar as receitas de Campos até 2026. O secretário de Rosinha insistiu. Se não puder caminhar com o PR, reivindicou que o PT pelo menos confirme a pré-candidatura própria de Hélio Anomal a prefeito, impedindo (aqui e aqui) um pré-candidato de oposição com chances, como Caio Vianna (PDT) ou Rafael Diniz (PPS), de ficar com o generoso tempo de propaganda petista.

 

Impopular fiel da balança

Caio e Rafael estão (aqui) à frente nas intenções de voto de todos os candidatos governistas — incluindo os dois que disputam de verdade: o vice-prefeito Dr. Chicão Oliveira (PR) e vereador Paulo Hirano (PR). Na última pesquisa feito pelo instituto Pro4, se o candidato for Chicão, ele teria 8,4%, contra os 15,2% de Caio e os 11,3% de Rafael. Se for Hirano, ele teria 1,1%, contra 15,5% de Caio e 11,8% de Rafael. Numa campanha curta de 35 dias, entre 27 de agosto e 30 de setembro, o minuto de propangada eleitoral de TV à tarde e noite, mais oito spots de 30 segundos diários, transformam o impopular PT em fiel da balança — como esta coluna adiantou (aqui) desde o último dia 2.

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

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Arnaldo reafirma candidatura a prefeito e diz contar com apoio de Caio

Arnaldo e Caio Vianna, na inauguração da sede do PDT em maio, quando o ex-prefeito sinalizou apoio ao filho, desmentido dois dias depois (foto: divulgação)
Arnaldo e Caio Vianna, na inauguração da sede do PDT em maio, quando o ex-prefeito sinalizou apoio ao filho, desmentido dois dias depois (foto: divulgação)

 

 

“Vou disputar a eleição para prefeito. Mas é muito pouco provável que haja uma disputa de pai para filho. Tenho certeza que, quando chegar a hora, Caio (Vianna) vai se engajar na minha campanha. Seria até melhor para ele, no sentido de adquirir experiência, do que já querer começar se lançando a prefeito”.  Foi o que disse agora há pouco ao blog o ex-prefeito Arnaldo França Vianna (PEN), que confirmou o lançamento da sua candidatura a prefeito, na convenção marcada para o próximo dia 30, às 10 da manhã, na sede do Sindicato dos Comerciários.

Questionado sobre suas condições de elegibilidade, que  perseguem desde a eleição para deputado federal em 2006, Arnaldo disse que hoje teria “90% dos problemas jurídicos resolvidos”. Quantos aos outros 10%, na sua conta, ele resolverá até a convenção. Cao contrário, garantiu: “Não concorro mais sub judice. É muito desgastante”.

Como o jornalista Alexandre Bastos registrou aqui, no dia 12 de maio, durante a inaugração da nova sede do PDT, seu ex-partido pelo qual Caio é hoje pré-candidato a prefeito, Arnaldo chegou a sinalizar que apoiaria o filho:

— O nosso país vive um momento dramático. Em nossa cidade não é diferente. Os que prometeram a mudança quebraram o município. Por isso, é hora de apostar nos jovens com capacidade para enfrentar grandes desafios. Troquei o PDT pelo PEN, mas deixou o melhor de mim no partido que carrego em meu coração.

No entanto, dois dias seguintes, Arnaldo e diretório municipal do PEN (relembre aqui) desmentiram a desistência do primeiro, reafirmando sua pré-candidatura a prefeito.

 

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Em quem você votaria?

Platão e Rafael, Caio e Aristóteles (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Platão e Rafael, Caio e Aristóteles (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Anteontem (18), escrevi aqui sobre os gregos Platão (428/348 a.C.) e Aristóteles (384/322 a.C.), sobre as diferenças básicas entre as escolas de pensamentos dos dois filósofos. O primeiro priorizava o mundo moral das ideias. O segundo, dava mais importância ao mundo físico dos homens. A metáfora se fez em cima de um debate, aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, entre o advogado Gustavo Alejandro Oviedo e o professor da UFF George Gomes Coutinho, mais alguns outros.

Um pouco antes disso, tomado como ponto de partida Tales de Mileto (623/543 a.C), considerado o primeiro filósofo, sua herança em Platão seguiu à teologia cristã de Agostinho de Hipona (354/430 d.C.). Já através de Aristóteles, deixou legado tanto no islamismo de Averróis (1126/1198 d.C.), quanto no cristianismo de Tomás de Aquino (1225/1198 d.C.).

Para quem acredita que o mundo, os homens e as ideias sempre foram como são, ou talvez tenham passado a existir a partir do dia em que nasceram, os nomes podem parecer esquisitos; como os tempos e realidades, muito distantes. Para quem tem noção do que foi e projeta com mais segurança o que é e pode vir a ser, o debate, no entanto, nunca deixou de ser atual.

Um exemplo?

No mundo das ideias de Platão, o vereador e pré-candidato a prefeito de Campos pelo PPS, Rafael Diniz, apalavrou há meses com o também vereador Gil Vianna (PSB), que este seria seu vice. No mundo moral, a chapa de Rafael estaria garantida.

No mundo dos homens de Aristóteles, Caio Vianna, pré-candidato a prefeito de Campos pelo PDT, mostrou habilidade ao costurar por cima sua aliança com o PSB. Pelo partido, Gil rompeu sua palavra pessoal e compôs como vice de Caio. No mundo real, a chapa de chapa de Caio está garantida.

Entendeu?

Então me diga agora, leitor, nessa invenção grega da democracia, em quem você votaria? Platão ou Aristóteles?

 

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PT de Anomal deve ceder seu tempo de propaganda para Caio

 

Ponto final

 

 

PT de Anomal mais para Caio

Ou candidatura própria, ou aliança com a chapa encabeçada por Caio Vianna (PDT) e Gil Vianna (PSB) de vice. Foi isso que o pré-candidato petista a prefeito de Campos, Hélio Anomal, garantiu à coluna que será um dos caminhos do partido do ex-presidente Lula (e da quase ex Dilma Rousseff) na sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). A 70 dias do pleito, os bastidores dão como quase certo: o PT cederá seu generoso tempo de propaganda eleitoral ao filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PEN), de quem Helinho foi candidato a vice em 2008.

 

Apesar do “golpe”

Ainda assim, além de Caio, os também pré-candidatos a prefeito Rafael Diniz (PPS) e Rogério Matoso (PPL) participaram de sabatinas junto à executiva municipal do PT de Campos. Matoso, inclusive, chegou a oferecer a vice em sua chapa. Quem atraiu mais simpatia pessoal, no entanto, foi Rafael, cujo encontro foi aceito a despeito do seu PPS sempre ter estado à vanguarda do impeachment de Dilma, ainda chamado de “golpe”, entre risos alheios, pelos petistas quem nunca viram tanques na rua, como no golpe sem aspas fracassado na Turquia.

 

Rafael, mas dentro dos limites

Tido como um dos principais simpatizantes de Rafael, o Professor Alexandre Lourenço é uma das apostas de renovação local no PT, que deve sofrer uma nova grande debandada nacional em novembro, tão logo acabem as eleições municipais. Todavia, apesar da identificação com as propostas de renovação no modo de se fazer política do jovem vereador do PPS, Alexandre garantiu que não vai demonstrar isso na campanha além das determinações impostas por seu próprio partido.

 

Transporte coletivo (I)

Um dos muitos problemas apresentados pelo transporte coletivo de Campos é a última saída dos ônibus do Terminal Rodoviário Luis Carlos Prestes. Muitos usuários que chegam ao local quando o relógio ainda sinaliza faltar alguns minutos para a meia-noite são surpreendidos pela informação e que o ônibus que atende seu bairro já deixou o terminal. A solução é seguir caminhando para casa ou ser obrigado a pagar uma corrida de taxi.

 

Transporte coletivo (II)

O próprio terminal rodoviário de Campos precisa ter sua estrutura física revista, no sentido de dar maior conforto ao usuário, em qualquer período do dia. Posicionado às margens do rio Paraíba do Sul, deixa aqueles que esperam as chegadas e partidas dos ônibus muito expostos ao vento forte e até mesmo às chuvas. O terminal possui uma cobertura muito alta, ineficiente, sobretudo no caso de chuva.

 

Com a colaboração do jornalista Antunis Clayton

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

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Hoje, 80 anos de um jornalista que viveu à frente do seu tempo

Ponto final

 

 

Aluysio Barbosa, o Bom (I)

Hoje, completaria 80 anos o criador desta coluna e deste jornal, Aluysio Cardoso Barbosa, morto (aqui) a 15 de agosto de 2012. Vítima do tabagismo que marcou o jornalismo clássico, sem computador ou internet, foi nele o primeiro a noticiar no Brasil e no mundo a descoberta de petróleo na Bacia de Campos. Homem à frente do seu tempo, introduziu os conceitos de pauta e lead na imprensa goitacá, sendo pioneiro também ao dotar o interior fluminense do seu primeiro jornal em impressão off set: a Folha. Mais que a técnica ou a tecnologia, não envelheceu na didática que melhor aprendeu e lecionou: jornalismo é trabalho coletivo.

 

Aluysio Barbosa, o Bom (II)

Apaixonado por sua terra, deixou uma carreira de sucesso no Rio como repórter do Jornal do Brasil, à época o maior do Estado, para voltar como correspondente e fundar o próprio jornal. Ao lado da esposa, Diva Abreu, e um bando de outros sonhadores, batizou e fez da Folha da Manhã o maior jornal de Campos com apenas dois meses — liderança mantida nos 38 anos seguintes. Foi figura de proa na luta pela criação dos royalties do petróleo e pela implantação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Projetou sua profissão, sua empresa, sua cidade e sua família ao futuro. E viveu a vida presente como poucos.

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

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Lava Jato mais próxima de Lula, Cabral, Pezão e Garotinhos

Com seu busto no fundo, à esquerda, rscritório da casa de Trotsky na Cidade do México, onde ele foi assassinado pelas costas, com golpes de picador de gelo contra seu crânio, pelas mãos de Ramon Mercader, em 1940 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Com seu busto no fundo, à esquerda, rscritório da casa de Trotsky na Cidade do México, onde ele foi assassinado pelas costas, com golpes de picador de gelo contra seu crânio, pelas mãos de Ramon Mercader, em 1940 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

Alguns comentaristas do blog se notabilizam, além da frequência, pela insistência. Alguns, quando se contrapõem à lógica, tentam levar a discussão não pela variedade e valor dialético dos argumentos, mas pelo número de vezes que são capazes de repetir a mesma coisa, com um mantra, ad nauseam.

Foi o caso recente do leitor identificado como Paulo Henrique, após fazer várias intervenções recentes pró-PT, nem que seja pra dizer que “foi culpa do FHC”, nos comentários de algumas postagens. A última (aqui), naquela em que o blog reproduziu a carta póstuma fictícia do assassino do líder russo Leon Trotsky (1878/1940) ao ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, condenado a 15 anos de prisão na Lava Jato.

Escrito na verdade por Elio Gaspari, o decano jornalista usava da sua fina ironia para aparentemente antecipar uma delação que prometeria ser a (última?) pá de cal sobre o ex-presidente Lula e o que restou do PT, já que quanto ao governo afastado de Dilma Rousseff, ninguém que consiga respirar e falar sozinho tem ainda alguma esperança.

Mas o fato foi que nosso Paulo Henrique comentou aqui a postagem:

— Bezerra da Silva dizia que  “Era caguete sim”. Podemos dizer que temos a indústria bem lucrativa no Brasil. O indivíduo pode roubar a vontade, se for descoberto faz as contas, devolve um certo valor, seleciona alguns ex-companheiros e entrega, sua pena é reduzida em 90%, usa uma tornozeleira em uma casa de campo e etc.

Ao que o blogueiro tentou aproveitar a ritmo para não atravessar e responder aqui:

— (…) Daqui a ainda mtas delações e operações, qd a Lava Jato estiver pelo menos próxima do fim, o que por ora parece mt distante, para o desespero de Cunhas, Lulas, Dilmas, Aécios, Renans, Cabrais e Garotinhos, veremos quem cantará com mais propriedade os versos mais famosos de Bezerra da Silva: “Malandro é malandro/ E mané é mané/ Diz aí!/ Podes crer que é…”

 

Bezerra da Silva, que nunca foi santo, e seu mais famoso lema
Bezerra da Silva, que nunca foi santo, e seu mais famoso lema

 

Pois se escrevi isso ontem, hoje a Odebrecht, maior empreiteira do país, saiu na frente da concorrente OAS e se anunciou prestes a fechar o acordo de delação premiada de seus executivos, entre eles o ex-presidente Marcelo Odebrecht, preso desde 19 de junho de 2015 e condenado a 19 anos e 4 meses de prisão, com o Ministério Público Federal. A assinatura do acordo, porém, depende de acertos finais, entre eles que a Odebrecht recupere e apresente arquivos digitais da empresa contendo provas do pagamento de propina a políticos e autoridades — confira todos os detalhes aqui, na matéria de O Globo.

Para quem já se esqueceu das extensões da corrupção muito além do PT evisceradas pela Lava Jato, basta atentar como ela pode chegar ao ex-governador Sérgio Cabral e ao governador licenciado Luiz Fernando Pezão (ambos do PMDB), como hoje anunciou aqui a “Coluna do Lauro Jardim”, de O Globo, replicada aqui pelo jornalista Alexandre Bastos na blogosfera goitacá.

 

Nota de hoje da coluna do Lauro Jardim
Nota de hoje (19) da coluna do Lauro Jardim (reprodução)

 

Sempre atento, foi o mesmo Bastos que também repercutiu aqui, no último dia 9, a nota da coluna “Radar Online”, da revista Veja, na qual anunciou aqui que a “munição” de outro ex-presidente da Odebrecht, Benedicto Barbosa da Silva Júnior, além de atingir Cabral e Pezão, pode causar também grandes estragos em Anthony Garotinho (PR), marido e secretário de governo da prefeita Rosinha.

 

Nota do Radar Online de 09/07/16 (reprodução)
Nota do Radar Online de 09/07/16 (reprodução)

 

Para que não se lembra, Benedicto foi quem assinou aqui), junto com Rosinha, o contrato da primeira etapa do programa “Morar Feliz”, em 1º de outubro de 2009, para a construção de 5,1 mil casas, no valor total de R$ 357,4 milhões — numa licitação cujo resultado favorável a Odebrecht foi antecipado (aqui) pela coluna “Ponto final”, da Folha, em quase quatro meses.

 

Página 2 da edição de 03/04/16 da Folha, com a cópia do contrato do “Morar Feliz” assinado por Rosinha e Benedicto
Página 2 da edição de 03/04/16 da Folha, com a cópia do contrato do “Morar Feliz” assinado por Rosinha e Benedicto

 

E, coincidência ou não, foi também na residência de Benedicto que a Polícia Federal (PF) apreendeu (aqui), em 22 de fevereiro, na 23ª fase da Operação Lava Jato, as hoje famosas planilhas com nomes de mais de 300 políticos, de 22 partidos, que recebiam doações da Odebrecht — incluindo Garotinho (aqui), sua mulher, a prefeita Rosinha Garotinho (aqui), e filha e deputada federal Clarissa Garotinho (aqui).

No inquérito assinado pelo delegado federal Filipe Hille Pace, fica claro (aqui) o papel de Benedicto como elo do dinheiro que circula entre a Odebrecht e os políticos:

— É possível verificar que Benedicto é pessoa acionada por Marcelo (Bahia Odebrecht) para tratar de assuntos referentes ao meio político, inclusive a obtenção de apoio financeiro — disse o delegado da Lava Jato.

Após fazer companhia ao chefe Marcelo na carceragem da PF em Curitiba, Benedicto foi solto pelo juiz Sérgio Moro em 26 de fevereiro, ao término dos cinco dias da prisão temporária, com a condição de não deixar o país ou mudar de endereço.

A nota da Veja revelou que, mesmo tendo Benedicto sido igualmente flagrado nas constrangedoras fotos do então governador Sérgio Cabral (PMDB) em Paris, no episódio que popularizou como “Gangue dos Guardanapos”, Garotinho nunca ousou publicar a imagem de Benedicto. Por que será?

 

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Após Caio e Gil, sucessão de Rosinha agora espera PR, Tô Contigo e PT

Ponto final

 

 

Tabela anunciada de Gil e Caio

Num mês de definições de chapas, cujo prazo finda em 5 de agosto, esta penúltima semana de julho começou cheia de novidades. A mais relevante delas, foi antecipada (aqui) pelo blog “Opiniões”, desde o dia 8: Gil Vianna (PSB) roeu mesmo a corda com o vereador e pré-candidato a prefeito Rafael Diniz (PPS), trocando-o por Caio Vianna (PDT), de quem será vice na luta pela sucessão do governo Rosinha Garotinho (PR). Apesar da palavra empenhada anteriormente com Rafael, Gil seguiu a orientação estadual do seu PSB, cujo presidente e senador Romário posou ontem (18) no Rio, entre os dois campistas, como padrinho do casamento com o PDT.

 

Chance real?

Das outras novidades anunciadas também nesta coluna, se o ex-vereador Rogério Matoso (PPL) prometeu (aqui) uma “surpresa partidária”, ela não deixou de se confirmar com revelação da aliança com a ex-candidata a prefeita e atual pré-candidata a vereadora Odete Rocha (PC do B), anunciada (aqui) e confirmada (aqui) no blog “Na curva do rio”. Se vai ser ou não suficiente para dar alguma chance real na eleição de um, outra, ou ambos, o tempo dirá. Mas, por enquanto, a relevância não parece exceder a do anúncio (aqui) do Psol em desistir de lançar candidatura à sucessão da prefeita Rosinha.

 

Nildo reagiu

Quem reagiu rápido à ameaça de perder o DEM, e com ele uma pré-candidatura a prefeito que ainda pode ser usada para cacifar sua tentativa de reeleição a vereador, foi Nildo Cardoso. Após já ter perdido (aqui) o PMDB de Campos ao deputado estadual Geraldo Pudim, bastou este se reunir (aqui) em Brasília, no dia 14, com o recém-eleito presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia, para Nildo ir ao Rio (aqui) no dia 16 e também posar aos fotógrafos com o filho do vereador carioca César Maia (DEM).

 

O que resta a Tô Contigo

Enquanto o governo não revela se lançará o vice-prefeito Chicão Oliveira (PR) ou o vereador Paulo Hirano (PR), a única novidade com a mesma importância da confirmação de Gil na chapa de Caio é o destino do vereador e pré-candidato a prefeito Tadeu Tô Contigo (PRB). Num partido sem estrutura, minado politicamente pelo interesse comercial da emissora de TV na qual trabalha e com a desistência do PSC do vereador Genásio numa aliança, como anunciou (aqui) o “Blog do Bastos”, as chances do apresentador parecem bifurcadas entre vir de novo à Câmara Municipal, ou aceitar (aqui) ser vice na chapa de Rafael — o que daria um gás também à pré-campanha deste.

 

PT para Caio ou nada

Bem verdade que, além de anunciar o apoio do PC do B de Odete, Rogério também foi sabatinado pela executiva municipal do PT, no último sábado, como tinham sido nos anteriores, respectivamente, Caio e Rafael. Embora este tenha causado boa impressão pessoal, por ser filiado ao PPS, deve no máximo levar (aqui) o apoio pessoal de algum pré-candidato petista a vereador, como o Professor Alexandre. O tempo de propaganda de TV, real interesse (aqui) na sucessão de Rosinha, ou vai ficar também com Caio, por conta (aqui) do PDT, ou servirá para nada numa candidatura própria de Hélio Anomal a prefeito.

 

Publicado hoje (19) na Folha da Manhã

 

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Meningite mata crianças e governo “reinventa” como espalhar boatos

Um dos maiores erros do jornalismo, sobretudo na vertigem da velocidade digital, é aceitar como verdade a informação passada pela fonte, sem questionamento crítico. Se o erro pode atingir até jornalistas mais experientes, o que dizer quando se trata de alguém mais jovem que, por simples ingenuidade, pode cair no Ctrl+C/Ctrl+V do que uma autoridade pública de Saúde, por exemplo, afirma quando associa a boatos uma doença contagiosa, transmissível pelo ar, cujo ciclo até a morte é rápido e atinge preferencialmente crianças?

Bem, para quem leu ou não a obra do jornalista e escritor britânico George Orwell (1903/50), orgulha topar aqui, na democracia irrefrreável das redes sociais, com a dialética irretocável em defesa da vida humana por parte de uma jovem colega de trabalho, como é o caso da subeditora da Folha Online Camilla Silva. Na paráfrase a outro “coleguinha” mais velho e famoso, o carioca Millôr Fernandes (1923/2012): “Isso é jornalismo, o resto é armazém de secos e molhados”.

Confira abaixo:

 

Joyci e Ana Vitória, de 6 e 1 ano, mortas na UPA de Campos após serem atendidas e liberadas no HGG (foto: arquivo da família)
Joyci e Ana Vitória, de 6 e 1 ano, mortas na UPA de Campos após serem atendidas e liberadas no HGG (foto: arquivo da família)

 

 

Jornalista Camilla Silva
Jornalista Camilla Silva

 

Tentando entender o significado de “espalhar boatos” — O responsável por um setor da saúde municipal vai a público dizer que a morte de duas meninas de meningite foi causada porque os pais das mesmas foram negligentes e não estavam em dia com o cartão de vacinação. Os pais são hostilizados na rua, procuram a Folha e mostram o cartão em dia. Alguns dias depois, a autoridade em questão volta atrás. Mas isso não é boato. Boato é outra coisa.

Chegamos, 1984. O idioma oficial de Campos é a Novilíngua.

 

 

Relembre o caso aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui

 

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Ocinei Trindade — Os gays, os negros, as lágrimas e o menino português

Ocinei 19-07-16

 

 

“Qual homossexual mataremos hoje? E se, de quebra,  a gente espancar e assassinar um negro também? Gays podemos perseguir e matar no Brasil, na Rússia ou em qualquer cidade de qualquer país do mundo. Já os negros, pode ser nos Estados Unidos mesmo, para não fugir tanto da rotina. Mas, quem quiser matar e perseguir preto e pobre no Brasil ou fora, também está valendo”. Há quem chore por estas barbaridades. Há quem não se importe. Há também os que se comovem com a voz embargada do deputado federal Eduardo Cunha ao renunciar o mandato de presidente do Congresso Nacional, queixando-se de perseguição e falta de compaixão para com sua família. Há quem morra de pena de Dilma Rousseff e chore por seu afastamento do governo da nação por “um crime que não é crime e que ela não cometeu”. Há quem prefira que eles se lasquem e apodreçam na cadeia. Abraçar bandidos, criminosos, corruptos ou derrotados alguém consegue? Consolar os que choram em tempos duros e desumanos soa quase impossível. Quase. Amor ainda há em meio à tanta maldade.

O noticiário de todo lugar do mundo costuma destacar as tragédias, catástrofes, acidentes, violências todas, crises políticas e econômicas, desgraceiras em geral (como se a vida fosse boa e perfeita para quase toda gente do planeta). Quando o inusitado ou aquilo que foge da rotina comum acontece, ganha-se uma repercussão às vezes surpreendente. Com tanta informação que passamos a consumir depois do advento da Internet, tenho a impressão que filtrar horrores está ficando cada vez mais difícil, pois quase tudo parece horrendo e abominável. Por uma morbidez qualquer, nós nos apegamos mais ao que é negativo e infernal do que aquilo que é bom, bonito ou agradável. Entre o pavor e a calmaria, há os que prefiram exercer seu lado abutre-morcego-urubu. Estamos tão envolvidos com carnificinas, roubos e corrupções, que quando alguém toma a iniciativa de abraçar uma pessoa, isto parece algo até merecedor de uma nota no jornal: “Menino português consola torcedor da França que perdeu a Eurocopa”, foi a manchete de destaque de vários sites de notícias mundo afora. Houve quem achasse a notícia totalmente banal e dispensável, perda de tempo. Será mesmo?

Ao ler a notícia, fiquei procurando descobrir a identidade do menino, mas ainda não consegui até escrever este texto (12/07). O vídeo do garotinho de dez anos confortando o torcedor francês que chorava a derrota de sua seleção para a equipe de Portugal ganhou a rede mundial de computadores e se espalhou. Fiquei comovido não só pela cena, mas porque alguém que trabalha nas mídias se sensibilizou com aquele gesto simples, puro e amável de uma criança que parecia estar disposta a não humilhar o derrotado, mas sim de ser solidário a ele. Fico intrigado por tanta gente se comover com algo que seria tão natural que é o abraço entre pessoas. O gesto do menino não deveria causar espanto, pois o ideal seria que todos os seres humanos, de qualquer nacionalidade ou classe social,  se tratassem com respeito e cordialidade. O portuguesinho teria dito ao rapaz francês: “Não fique assim, não chore, pois foi apenas um jogo”. Nas imagens, dá para ver a gentileza do nobre menino ao emitir poucas palavras ao perdedor, e também a gentileza e a nobreza do rapaz francês que acolhe o consolo do pequeno, retribuindo-o com um abraço afável e generoso entre adversários no futebol. Creio que anônimos amigáveis ou fraternos, todos, merecessem abraço, O menino português me fez lembrar o Menino Jesus de Alberto Caeiro, heterônimo do poeta português Fernando Pessoa. O sonho de um mundo melhor e infantil não é só poesia ou versos lusos. Gestos também transformam o mundo e os sentimentos vis. Abraçar o adversário ou o inimigo: quem o haverá?

Com tanta notícia ruim que nos deixa atônitos e impotentes, há que se filtrar aquela ou aquelas que precisamos descartar mesmo para não morrermos antes da hora (por infarto, depressão ou enlouquecimento, já que há muita coisa pesada para a gente administrar em termos de notícias). Todavia, há que se eleger fatos que nos agridem e que nos roubam a paz de espírito para podermos combatê-los. Não é possível que nos conformemos com corrupção na política e na sociedade, com assassinatos e mortes de inocentes, com intolerância racial, sexual, política ou religiosa. Há cinco anos, escrevi em meu blog (Ocinei Trindade escreve) um artigo o qual intitulei O mundo é gay, mas também é tristeApesar de datado, constatei ao relê-lo, que o assunto é atual em potencial, e que em meia década, em vez de evolução, tivemos retrocesso sobre os temas homossexualidade intolerância.

Faz poucos dias que as mídias sociais e a imprensa brasileira repercutem a cena de sexo (pioneira?) entre dois homens na televisão brasileira. Foi na novela Liberdade, Liberdade, da Rede Globo. Houve quem aplaudisse e se emocionasse, mas muitos torceram nariz, condenaram, xingaram e se enojaram dos atores Caio Blat e Ricardo Pereira, além da emissora e dos fãs que apoiaram a realização da cena homoafetiva na dramaturgia. Os comentários nas redes nos dão provas do que pensamos, sentimos ou somos. Fico matutando: se a vida imita a arte ou se a arte imita a vida, representação com cenas de beijo, amor e sexo até que ponto nos são úteis para refletir, mudar ou agir? Ou, quando o sexo e o amor encenados são descartáveis ou (in)dispensáveis para nossa excitação masturbatória ou admiração do belo? Nudez ainda é tabu. Sexo então nem se fala (apesar do sexo ser uma das práticas mais exercidas explícita ou veladamente, independentemente da cultura, raça, credo e de qualquer combate ou repressão que se queira fazer).  A Nova Idade Média nunca esteve tão bárbara e evidente nas questões sexuais e religiosas em pleno século XXI. Se pudéssemos retroceder à Antiguidade Grega em termos de democracia, filosofia, sexualidade, cidadania e política, haveria uma barbárie nazista ou neonazista a bloquear o túnel do tempo dos ideais e das utopias. O paraíso edênico, apesar da paisagem, não tem sido aqui (com concordâncias e discordâncias disto ou daquilo, tanto faz). As opiniões são bilhões na Internet, com ou sem argumentação, com achismos ou teses de doutorado fundadas. Não ter uma opinião ou posição bem definida sobre qualquer tema também pode ser um risco social e discriminatório, já pensou nisto?

No último dia 2 de julho, o estudante Diego Vieira Machado foi encontrado morto  no entorno do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Há suspeitas do crime ter sido cometido por razões homofóbicas, pois existem relatos de perseguição ou ataques verbais e virtuais ao jovem universitário que era gay e negro. Extremistas de direita ou de esquerda têm ocupado os espaços destinados à educação e ao aperfeiçoamento do conhecimento e da ciência, mas a intolerância às diferenças vem promovendo cada vez mais rachas e ondas de ódio. Na Rússia de Vladimir Putin, onde homossexualidade pública é tratada como crime, o adolescente Sergei Casper, de 17 anos, foi morto em Moscou semana passada dentro da sala de aula. O jovem  foi amarrado e asfixiado com saco plástico pelos colegas de classe e diante da professora que nada fez para impedir o ato que acabou em morte. Disseram que seria apenas uma brincadeira para servir de lição para que o estudante gay se tornasse um “homem de verdade”.

Nos Estados Unidos, protestos voltaram a ocorrer por conta da morte de Philando Castile semana passada, em Minesotta. Ele foi morto a tiros por policiais brancos (até quando?), o que gerou uma onda de indignação por lá. Vídeos comprovam que houve excesso e abuso por parte dos “homens brancos da lei”. Curioso isso ainda acontecer depois de discursos e mortes de líderes e ativistas como Martin Luther King e Malcom X, e após Barack Obama, primeiro presidente negro a governar o país por quase oito anos. Estas coisas seguem em práticas frequentes, ganham destaque na imprensa, mas em vez de cessar, parecem alimentar ainda mais a tensão entre brancos e negros. No país mais rico e desenvolvido do planeta, também há muitas misérias humanas. É de chorar.

Em agosto, o mês olímpico, saberemos se Dilma Rousseff será afastada definitivamente da Presidência do Brasil, e se o deputado Eduardo Cunha perderá também o seu mandato. No país do foro privilegiado, resta saber quantas fases virão da Operação Lava-Jato para combater a corrupção e o roubo de dinheiro público, quantos ainda serão denunciados e presos, e quantos farão acordos de delação premiada. Para Cunha, que esboça reagir com choro suas prováveis derrotas de práticas criminosas para a justiça (divina?), fica o seu próprio bordão de palanque demagógico “o povo merece respeeeeito”. Para Dilma, talvez, reste pessoalmente alguma lição moral ou popular com seu provável impedimento por meio de um provérbio português: “quem se mistura com porcos, farelo come”. Provavelmente, eles chorem. Não sei se com a mesma dor que nos tem causado lágrimas diante da crise econômica, ética e moral no Brasil.

Aos corruptos, assassinos, racistas e homofóbicos russos, americanos, brasileiros e de toda parte, quem sabe, um abraço de um menininho português pudesse tocar o coração e a alma da gente. O rumo da história humana poderia ser outro se houvesse mais compaixão e afeto por parte de quem ganha e de quem perde, por aqueles que divergem nas opiniões. Bom seria se a vida não fosse um jogo de sobreviventes apenas, mas que pelo menos, a paz com que tanta gente sonha coubesse em um abraço.

 

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Da Grécia a Campos dos Goytacazes, o mundo dos homens e o das ideias

Foz do Paraíba do Sul, no último sábado (16) de Atafona (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Casario no entorno da foz do Paraíba do Sul, no último sábado (16), em Atafona (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Eu e as torcidas juntas do Olympiakos e do Panathinaikos, principais clubes gregos de futebol, já escrevemos sobre a diferença básica entre as escolas de pensamento do ateniense Platão (428/348 a.C.) e seu discípulo de Estagira, Aristóteles (384/322 a.C.).

Muito marcada pela influência do seu mestre Sócrates (469/399 a.C.), na filosofia de Platão o principal era o mundo das ideias. Daí sua grande influência no Cristianismo, já na Antiguidade Tardia (300/ 476 d.C) e por toda a Idade Média (sécs. V a XV d.C.), a partir do neoplatonisno aproximado com a religião pelo teólogo e santo católico Agostinho de Hipona (354/430 d.C.).

Já a Aristóteles se deve a própria segmentação da filosofia grega em ciências particulares, a partir da enciclopedização do conhecimento produzido desde Tales de Mileto (623/543 a.C.), considerado primeiro filósofo. Filho de um médico, o pensamento de Aristóteles era mais voltado ao homem que à alma. Ainda assim, foi nele que outro santo católico e pensador da fé, Tomás de Aquino (1225/1274), buscou basear sua teologia cristã, tomando por exemplo o que Averróis (1126/1198), dentro da Europa, já havia feito no islamismo.

Dia considerado sagrado para muitos, o domingo, ontem, reservou uma boa surpresa para quem acha que política e fé devem jamais se misturar em conteúdo, tampouco em forma. Se o advogado e publicitário Gustavo Alejandro Oviedo, argentino caído em Campos, tem se revelado na circunscrição goitacá das redes sociais um defensor do liberalismo político e econômico, além de crítico contumaz dos regimes de esquerda na América do Sul, ele encontrou aqui, nos cometários das suas postagens, um respeitável (em todos os sentidos) adversário: George Gomes Coutinho, professor de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos.

Naquilo de melhor que as redes sociais têm reeditado da ágora grega, berço da democracia que sempre destaco como “irrefreável” em sua expressão virtual, lendo atentamente cada um dos comentários de Gustavo e George, em dado momento fui involuntariamente teletransportado à ágora real de Atenas.

Afinal, quem falava era Alejandro, mas soava (aqui) a Aristóteles:

— eu justifico o existente, você justifica o que não existe.

E respondeu Coutinho, como se ecoasse (aqui) Platão:

— eu prefiro o não existente por uma questão moral.

A discussão não teve fim na Grécia Antiga, logo depois esticada pelo rei Alexandre da Macedônia (356/323 a. C.), aluno de Aristóteles, até o rio Indo, na Índa. E, mais de 23 séculos depois, convenhamos, seria uma pretensão amazônica se conhecesse sua foz conosco, nesta terra de planície parida e cortada pelo Paraíba do Sul.

Mas enquanto seguir seu curso no nível mantido por Gustavo, George e alguns outros participantes, num debate instigante que afluiu em dezenas de outros comentários, também pelo dia de hoje, ainda há esperança de que possamos atravessar essas águas agitadas sobre as quais navegam o Brasil e o mundo, desembarcando no porto do outro lado como naquele em que entramos: diferentes, mas juntos.

 

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Do assassino de Trotsky ao ex-tesoureiro do PT

O artigo publicado (aqui) na postagem anterior, da lavra do jornalista Rodrigo Gonçalves, não carecia de companhia domingueira. Aborda com lucidez a sequência de erros do governo Rosinha Gartinho (PR) até os boatos de surto de meningite no município, gerados a partir da omissão de quem depois mostrou desespero (e despreparo) ao negar. Mas da planície ao Planalto, acabei de ler só agora o texto principal da coluna dominical do decano Elio Gaspari, em O Globo, e fiquei igualmente impressionado sobre as várias caras que essa questão da negação é capaz de assumir.

Já disse mais de uma vez que tenho o jornalista brasileiro nascido na Itália como o (ainda) maior na mídia escrita por tupiniquins viventes sob a última for do Lácio. Pela contudência sem maniqueísmo, memória impressionante, criação de personagens impagáveis, como “Eremildo, o Idiota”; pelo estilo quase literário, ainda que sempre objetivo; uma das coisas que Gaspari gosta de fazer é “psicografar” missivas de personalidades históricas falecidas para remetê-las aos ainda carnados que parecem demandar conselhos do além.

A carta “póstuma” publicada hoje é “assinada” pelo catalão Ramon Mercader (1913/78). Espião a soldo do genocida soviético Joseph Stálin (1878/1953), ele assassinou covardemente, pelas costas, com golpes de picador de gelo sobre o crânio, o ex-líder da Revolução Russa (1918) e criador do Exército Vermelho, Leon Trotsky (1879/1940), dentro da casa deste, em exílio na Cidade do México.

Mercader cumpriu 20 anos de cadeia sem contar o que todos sabiam (que Stálin lhe mandara executar seu opositor) e sua história pode ser melhor conhecida no bom livro “O homem que amava os cachorros”, do cubano Leonardo Pandura. Redivivo na coluna de hoje do Gaspari, o assassino de Trotsky “escreveu” para aconselhar ao ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, condenado a 15 anos de cadeia na Lava Jato, mas com tendência de aumentar a pena, a falar o que todos também já parecem saber, sobretudo os poucos que ainda insistem negar.

Se você ainda não leu, vale a pena investir alguns minutos desse início de noite de domingo para conferir abaixo:

 

Com seu busto no fundo, à esquerda, rscritório da casa de Trotsky na Cidade do México, onde ele foi assassinado pelas costas, com golpes de picador de gelo contra seu crânio, pelas mãos de Ramon Mercader, em 1940 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Com seu busto no fundo, à esquerda, escritório da casa de Trotsky na Cidade do México, onde ele foi assassinado pelas costas, com golpes de picador de gelo contra seu crânio, pelas mãos de Ramon Mercader, em 1940 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Jornalista e escritor Elio Gaspari
Jornalista e escritor Elio Gaspari

De ramon.mercader@edu para j.vaccari@pol

Por Elio Gaspari

 

Companheiro Vaccari,

Você não é Ramon Mercader. Como eu, houve poucos no mundo. Matei o Leon Trotsky em 1940, passei 20 anos na cadeia e não contei o que todos sabiam: acabei com o velhote a mando do Stálin. Quando saí da prisão, você tinha dois anos e quando morri, em 1978, você tinha acabado de se filiar ao sindicato dos bancários de São Paulo. Eu era um velho de 65 anos e você, um garoto de 20. Não vou tomar seu tempo contando minha história porque se você não leu “O Homem que Amava Cachorros”, do cubano Leonardo Padura, peça-o a sua família. O final do livro não presta, mas de resto é coisa fina, sobretudo para quem está preso.

Vaccari, eu era do aparelho de segurança soviético, você era do braço do sindicalismo bancário petista, coisas inteiramente diversas. Daqui, já percebi que você, o José Dirceu e dois diretores da Petrobras (Duque e Zelada) estão em silêncio. No seu caso, a condenação está em 15 anos e deve aumentar. Se você tiver que pagar cinco anos em regime fechado, sairá da cela, em 2020, aos 62 anos. Admiro sua resistência e seu vigor ideológico, mas escrevo-lhe para dizer que são fúteis.

Na cadeia, eu sabia que tinha sido condecorado com a Ordem de Lênin. Ao sair, fui proclamado “Herói da União Soviética”. Vivi bem em Moscou e em Cuba. Você nunca será um “Herói do PT”. Sua família sofre com sua prisão, enquanto minha mãe estimulava meu silêncio.

Tudo o que o PT pode lhe oferecer são algumas visitas discretas de parlamentares. Não ouvi ninguém louvar publicamente seu silêncio.

Durante os 20 anos que ralei, eu sabia que no dia 1º de Maio a União Soviética desfilava seus foguetes na praça Vermelha. Graças a artes do PT (e suas), o presidente do Brasil chama-se Michel Temer e Dilma Rousseff vai morar em Porto Alegre.

Os empreiteiros que atendiam teus pedidos disseram coisas horríveis a teu respeito. Estão no conforto de suas tornozeleiras eletrônicas e posso supor que as solícitas OAS e Odebrecht colocarão mais cadeados nas tuas grades. Todos viverão com patrimônios superiores ao teu.

Eu morri com saudades de Barcelona, a cidade onde nasci, mas quando os comunistas espanhóis ofereceram-me ajuda para visitá-la, queriam que eu contasse minha história. Morri em Cuba sem rever a Catalunha e minhas cinzas foram para Moscou.

Valeu a pena? Não sei, mas garanto que no teu lugar, eu chamaria o Ministério Público para uma conversa exploratória.

Saudações socialistas

Ramon Mercader

 

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