Como a Folha adiantou, Fábio Ribeiro vai ao Rio pela benção de Garotinho a prefeito

 

(Facebook de Fábio Ribeiro)

Ontem (25), na matéria em que este Opiniões e a Folha da Manhã adiantaram (confira aqui) que o ex-vereador Fábio Ribeiro (PSD) deve assumir a pré-candidatura do garotismo a prefeito de Campos, no lugar do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD), foi revelado que no mesmo dia um encontro estava marcado no Rio para definir a questão. Nele, sem Wladimir, Fábio foi pedir a benção do cacique do grupo, o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), para disputar a eleição majoritária de novembro na planície goitacá. Neste domingo (26) Fábio divulgou em suas redes sociais uma foto sua do encontro carioca de sábado com Garotinho, na qual admitiu: “Uma conversa sobre o futuro de Campos sim, mas sobretudo sobre amizade, lealdade e paz!”.

Nas redes sociais da planície goitacá, onde a matéria de sábado viralizou e teve conteúdo copiado por sites locais, muitos comentários foram feitos. Inclusive em apoio à pré-candidatura de Fábio, evidência de que esta não começou ontem e já conta com sua base de defensores virtuais. Na página do Opiniões no Facebook, até o início da noite de hoje, o link da matéria já tinha gerado gerado (confira aqui) mais de 144 comentários. Neles, a nova pré-candidatura garotista a prefeito de Campos teve apoio. Mas também críticas:

—  Fábio Ribeiro é o melhor candidato, administrou a secretaria de Administração por longos anos. É o único que tem experiência, é um cara sério, é advogado — defendeu a leitora Ivone Carvalho. E foi questionada abaixo por outro comentarista:

— Ivone Carvalho, administrou o quê? Porque na nossa Campos dos Goytacazes RJ não vejo nada de administração. Há décadas que nossa cidade está sendo destruída com essa turma gafanhotos — criticou Maria de Fátima Crespo Fernandes.

— Fabio Ribeiro é a pior espécie de ser humano que já conheci. Quando foi secretário parecia estar com um rei na barriga. Quer conhecer melhor a fera? Caminhem com ele no lugar onde foi criado, em Rio Preto. Em toda aquela região, ninguém gosta — desafiou o comentarista Maurício Manhães. E foi contrastado logo abaixo por um defensor do ex-secretário da ex-prefeita Rosinha Garotinho (Pros):

— Discordo desse comentário acima citado. Eu pessoalmente não tenho nada a falar do Fábio. Pelo contrário, me atendeu várias vezes no seu gabinete. E me ajudou nas coisas que eu necessitei como servidor da PMCG. Muitas pessoas queriam coisas, além do que ele podia ajudar. Ele era bem sincero. E dizia: isso eu não posso. As pessoas saíam falando mal do cara. Isso eu achava totalmente errado. Pelo ao menos ele sempre foi correto nas palavras. Gosto muito da pessoa dele. Será um bom candidato — defendeu Moyses Lima.

Houve outros que não gostaram da mudança. E chegaram a declarar que só votariam no grupo dos Garotinho a prefeito se Wladimir fosse o candidato:

— Pior que Fábio Ribeiro vai ser igual a Chicão (Oliveira, candidato garotista a prefeito de Campos em 2016). É melhor deixar Wladimir mesmo — aconselhou Isaías Marques.

— Se Wladimir não vier como prefeito de Campos dos Goytacazes RJ não voto em ninguém — firmou posição Lusia Fátima.

— Não acredito nisso. Se Wladimir não for candidato não voto em ninguém! — garantiu Joilma Barbosa.

— Eu só voto na família (Garotinho). Aliado não — diferenciou Marinete Marques.

Em contrapartida, houve não só quem apoiasse Fábio como pré-candidato garotista, como tenha aproveitado para fazer críticas a Wladimir:

— Fábio Ribeiro, um homem honrado, honesto e trabalhador. Diferente do herdeiro dos rosetas, que nunca teve uma carteira de trabalho assinada — alfinetou Heloercio Batista.

O mesmo leitor fez depois outro comentário, definindo o que é apontado nos bastidores como principal motivo para Wladimir desistir da pré-candidatura a prefeito de Campos:

— Vocês acham que Garotinho vai deixar o filho pegar uma Prefeitura falida e endividada como essa de Campos dos Goytacazes? Ele e a Roseta afundaram nossa cidade — complementou Heloercio. E teve o reforço em comentário abaixo, ao criticar Wladidmir pela suposta desistência:

— Heloercio Batista, se (Wladimir) amasse realmente nosso município, aceitaria o desafio. O negócio é que esvaziaram os cofres e agora preferem posar de bonzinhos! — acusou o leitor Valdir Fuly.

— Já estão com medo da decepção mais uma vez. Usaram Dr. Chicão de bucha, agora vem Fábio — concluiu Nilton Rangel.

 

Sai Wladimir e entra Fábio Ribeiro a prefeito? O que muda na conta de Campos?

 

Wladmir Garotinho, Fábio Ribeiro, Edson Batista e Paulo Hirano (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

“Política é como nuvem. Você olha e está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”. A definição do falecido ex-governador mineiro Magalhães Pinto virou jargão da política por ser a sua melhor definição. Entre 31 de agosto e 16 setembro, se darão as convenções partidárias. Em Campos, as movimentações desta semana se intensificaram sobre o que o eleitor vai encontrar como opção nas urnas de 15 de novembro. Se fosse hoje, elas talvez não trouxessem um dos pré-candidatos considerados mais fortes ao Executivo. Quem quisesse votar a prefeito no representante dos ex-governadores Garotinho e Rosinha, poderia ter que fazê-lo não no deputado federal Wladimir Garotinho (PSD), mas no ex-vereador Fábio Ribeiro, do mesmo partido. Que traria como vice um ex-vereador rosáceo de “cabeça branca”: Edson Batista ou Paulo Hirano. Caso se confirme, a troca trará alterações profundas na disputa a todos pré-candidatos a prefeito, inclusive outros também considerados competitivos, como Caio Vianna (PDT) e o atual ocupante da cadeira, Rafael Diniz (Cidadania). Mas a pergunta sem resposta matemática permaneceria a mesma a qualquer um: como administrar uma cidade com orçamento previsto em abril para R$ 1,7 bilhão em 2021, que pode cair até a R$ 1,5 bilhão por conta da crise econômica advinda da pandemia da Covid-19, com R$ 1,1 bilhão já comprometido só com a folha de pagamento dos servidores?

Anthony Garotinho

Em busca de resposta não à indagação fundamental para quase 600 mil almas, mas à chance de poder ser candidato, Fábio Ribeiro hoje vai se encontrar no Rio com Garotinho, que busca impor a candidatura ao filho Wladimir. Este não estará presente, para evitar atritos com o pai. Nos bastidores circula o pensamento: deputado de bom mandato na Câmara Federal, Wladimir perderia a prefeito de qualquer maneira. Menos, todavia, se desistisse da pré-candidatura do que se saísse derrotado nas urnas de novembro. Com uma carreira política promissora, Wladimir poderia perder ainda mais se for candidato em 2020 e ganhar. O que o obrigaria a enfrentar em 2021 a realidade de queda nas receitas do petróleo, mais a crise econômica mundial da Covid, mais a herança financeira ao município deixada por seus pais.

Fred Machado

Parte desta será revelada na divulgação do relatório da CPI do PreviCampos, marcada para às 14h desta terça (28). O rombo deixado, segundo o presidente da Câmara Municipal, vereador Fred Machado (Cidadania), adiantou no Folha no Ar de ontem (24), é de cerca de R$ 500 milhões. Isto em valores não corrigidos.

Arnaldo Vianna

As dificuldades que Wladimir teria pela frente, caso se elegesse a prefeito de Campos em novembro, não seriam diferentes a nenhum outro governante que sair das urnas. Ele só teria a dificuldade adicional das cobranças que o pai poderia fazer, caso não seguisse suas orientações de como governar. O que não seria constrangimento para Fábio, pelo menos enquanto candidato, por não ser dono do capital eleitoral necessário para chegar à Prefeitura. Também sem mandato eletivo, embora bem votado a prefeito em 2016 e a deputado federal em 2018, Caio não tem nada a perder voltando a se candidatar ao Executivo goitacá. Mesmo contra Wladimir, a baixa rejeição do filho do popular ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT) é considerada sua maior arma para vencer a eleição em um eventual segundo turno.

 

Caio Vianna e Rafael Diniz (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A situação de Caio é oposta à de Rafael, com quem disputou e perdeu a crista da onda do antigarotismo em 2016. Vencedor daquele pleito em turno único, o prefeito enfrenta a rejeição por ter prometido na campanha o que não pode cumprir no governo. E hoje parece não ter saída política a não ser se candidatar à reeleição. Com decisões administrativas questionadas nos últimos três anos e meio, em meio a uma crise financeira cuja face mais cruel é a falta de pagamento dos RPAs nos últimos seis meses, Rafael parece ter diminuído a rejeição por conta da atuação firme no enfrentamento à pandemia da Covid. Mas esta reavaliação a partir da inauguração do CCC, em 30 de março, é ainda restrita à classe média. À maioria da periferia, em que se espraiou a “onda verde” de 2016, a reação de decepção é emocional. E consideravelmente mais difícil de ser revertida pela racionalidade dos números.

 

Aberto em 30 de março, o Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC) impediu que o sistema de saúde de Campos colapsasse com a pandemia da Covid-19 (Foto: Divulgação)

 

Rosinha Garotinho

Se Wladimir decidir que não deve ser candidato a prefeito, e conseguir convencer seu pai disto, caberá à sua mãe, a também popular ex-prefeita Rosinha, a tarefa de levar Fábio Ribeiro embaixo do braço na campanha. Sobretudo na periferia, área de maior penetração histórica do garotismo. Se já não seria fácil, a missão terá a dificuldade extra das limitações de contato físico da Covid. Contra a desistência de Wladimir, está o fato de que ela seria encarada e explorada como a confirmação do que Rosinha chegou a admitir, em ato falho, em live nas redes sociais em plena campanha de 2016: “Campos está no buraco”. Constatação reforçada por Garotinho em dezembro daquele ano, com a eleição já perdida, quando “profetizou” que Rafael não conseguiria pagar os salários dos servidores a partir de maio de 2017.

 

Roberto Henriques, Alexandre Tadeu, Odisséia Carvalho, Lesley Beethoven, Cláudio Rangel e Jonathan Paes (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr)

 

Há outros atores com ânsia de protagonismo: o ex-prefeito Roberto Henriques (PC do B), os ex-vereadores Alexandre Tadeu (Republicanos) e Odisséia Carvalho (PT), Lesley Beethoven (PSDB), Cláudio Rangel (PMN) e Jhonatan Paes (PMB). Henriques foi prefeito por 43 dias em 2008, no afastamento temporário de Alexandre Mocaiber do cargo, e se elegeu deputado estadual em 2010, com o apoio do então prefeito Nelson Nahim, que governou mais tempo no afastamento de Rosinha. Tadeu deve contar com o apoio fiel da Igreja Universal e espera ter o apoio do clã Bolsonaro, após o seu partido abrigar o senador Flávio e o vereador carioca Carlos. Odisséia encara a missão de dar visibilidade à sua legenda, na disputa por uma cadeira na Câmara de Campos. Beethoven, após conseguir o comando do PSDB local pelo qual tanto lutou, tentará algo parecido. Cláudio e Jonathan têm pouca densidade. Todos ambicionam chegar lá, o que é legítimo. Como é brigar pelo máximo possível de votos no primeiro turno para cacifar seu apoio entre os dois que forem ao segundo. Mas, com o naufrágio anunciado do governador Wilson Witzel (PSC), a grande surpresa de 2018 é muito difícil de ser repetida.

 

Wilson Witzel ainda candidato a governador em 2018 (Foto: Folha da Manhã)

 

Marcelo Mérida

A situação cada vez mais difícil do ocupante do Palácio Guanabara tem reflexos diretos sobre as outras pré-candidaturas a prefeito de Campos. A mais óbvia é na do líder lojista Marcelo Mérida pelo PSC. Mas também sobre as articulações do relator da comissão que analisa o pedido de impeachment do governador na Alerj, deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD). Ao lançar como pré-candidato o juiz aposentado Pedro Henrique Alves, ele tencionava repetir o fenômeno do ex-juiz federal Witzel. Como não foi registrada, pesquisa recente a prefeito de Campos pelo instituto Paraná não pode ter os números divulgados. Mas não apontou nada que ninguém já não soubesse. E o fato de ter sido encomendada pela Alerj com o nome da médica Cândida Barcelos como prefeitável do SD indica que o magistrado está fora do jogo.

 

Rodrigo Bacellar, Pedro Henrique, Cândida Barcelos, Igor Pereira e Éber Silva (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O problema é que Cândida também teria decidido esta semana não concorrer a prefeita, o que acendeu a luz ao vereador Igor Pereira (SD). No Folha no Ar da última quarta (22), ele reafirmou sua intenção de disputar a reeleição. E não é segredo que sonha suceder a Fred Machado na presidência da nova Legislatura. Mas, no streaming do programa ao vivo, alguns simpatizantes do edil lançaram em comentários seu nome a prefeito, possibilidade que ele não assumiu, nem negou. Seu aliado Rodrigo era considerado o principal articulador da pré-candidatura de Caio, até os dois romperem. Ao que consta, após o pedetista ter se recusado a deixar o deputado indicar o vice da chapa e aceitar um acordo prévio para fazer de Igor o próximo presidente da Câmara. O filho de Arnaldo receava ser feito de refém, como o então prefeito Alexandre Mocaiber foi do pai de Rodrigo, Marcos Bacellar, quando este presidia a Casa do Povo. Enquanto o SD não se define, quem espera na possibilidade de aliança é o DEM do ex-deputado federal Pastor Éber Silva, pré-candidato a prefeito restante.

 

(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Assim foi como as nuvens pareceram esta semana sobre a política goitacá. Dificilmente manterão a forma nos 115 dias que separam este sábado do domingo de 15 de novembro. O que não mudará é o sol real acima das nuvens, que deveria cegar todo o eleitor campista responsável para tudo mais ao redor: como governar uma cidade com R$ 1,6 bilhão de orçamento e R$ 1,1 bilhão comprometido com pagamento de servidor? Na dúvida, uma certeza: sabendo ou não, você vai pagar a conta.

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

Especialistas de Campos projetam vacina contra Covid mais perto dos brasileiros

 

Entre o final deste ano e o início de 2021, uma vacina contra a Covid-19 estará pronta. E o acesso a ela em larga escala se dará no Brasil até meados do próximo ano. Estas foram as projeções feitas no painel com cinco especialistas locais que a Folha buscou para responder às principais perguntas da humanidade, desde que a pandemia parou o mundo e foram anunciados os avanços no desenvolvimento de vacinas. Sobre o que esperar delas, em ordem alfabética, falaram a médica infectologista Andreya Moreira, que tem coordenado o combate ao novo coronavírus em Campos, à frente da Vigilância em Saúde; o biólogo Carlos Bacelar, há décadas à frente do conceituado laboratório Plínio Bacelar; a médica epidemiologista Elizabeth Tudesco, com vasta experiência em Saúde Pública; o médico infectologista Nélio Artiles, entre os mais respeitados da cidade em sua especialidade; e o biólogo Renato da Matta, professor da Uenf que tem trabalhado na parceria da universidade com o governo municipal na testagem da população do Norte Fluminense. O esforço de cada um deles, assim como das enfermeiras Roberta Lastorina e Fernanda Mattos, da Vigilância Epidemiológica, que auxiliaram Andreya nas respostas, é mais um dos tantos exemplos de como a ciência e a perseverança de mulheres e homens contribuem para se responder à indagação que fecha esta entrevista: “existe algo mais valioso que a vida humana?”.

 

Andreya Moreira, Carlos Bacelar, Elizabeth Tudesco, Nélio Artiles e Renato da Matta (Montagem: Eliabde de Souza, o Cássio Jr)

 

 

Folha da Manhã – Entre as mais de 160 candidatas no mundo a vacina contra a Covid-19, 24 já são testadas em humanos. A desenvolvida pela universidade britânica de Oxford, com a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca, e a da empresa chinesa Sinovac, são as mais avançadas, em fase 3, de ensaio em larga escala. E as duas já são testadas no Brasil. Qual a sua expectativa?

Andreya Moreira – Um dos capítulos mais brilhantes da história da ciência é o impacto das vacinas na saúde e na longevidade dos seres humanos. Para isso, normalmente, as vacinas exigem anos de pesquisas e testes antes de chegarem na fase clínica. Contudo, diante do estado de emergência em saúde pública internacional, os cientistas estão se empenhando para produzirem uma vacina segura e eficaz até o próximo ano. As pesquisas com o objetivo de desenvolvimento de uma vacina contra o Sars-CoV-2, da síndrome respiratória aguda grave, começaram em janeiro com a descrição do genoma viral. Os primeiros testes para avaliação da segurança de vacinas em seres humanos começaram em março. Algumas tentativas falharam e outras poderão terminar sem um resultado claro, mas algumas podem conseguir estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos eficazes contra o vírus. Tanto a vacina desenvolvida pela Oxford quanto aquela da AstraZeneca estão na fase 3 de estudos denominados ensaios clínicos. Nessa fase, a vacina é administrada em milhares de pessoas e os pesquisadores esperam para verificar quantos serão infectados, em comparação com os voluntários que receberão um placebo. O objetivo dessa fase é determinar se a vacina protege contra o coronavírus. Após a fase 3, ainda há a última, a fase 4, onde testes de acompanhamento são elaborados e implementados em milhares de pessoas, em vista de possibilitar o conhecimento de detalhes adicionais sobre a segurança e a eficácia da vacina.

Carlos Bacelar – Estou otimista. A evolução da imunologia aliada à genética acelera largamente o horizonte na produção de vacinas e elementos indutores de repostas imunológicas através dos linfócitos “T” (células do sistema imunológico). O tempo final de produção de vacinas é, em média, 22 meses, sendo 70% desse tempo gasto na avaliação das respostas em cobaias e depois no homem. Conseguindo trazer esse prazo para cerca de um ano, é fantástico.

Elizabeth Tudesco – A expectativa é a de que a melhor, a que apresentar maior eficácia mediante estudos epidemiológicos sérios e comprovação científica, deverá ser utilizada. Com todo o cuidado, levando em conta as várias faixas etárias que receberam as vacinas e a possibilidade de surgirem eventos adversos após a aplicação. A ansiedade é grande, mas a certeza de um bom resultado deve ser maior.

Nélio Artiles – Das mais de 160 vacinas em desenvolvimento, cinco vacinas estão em fase 3, que é a última para demonstrar efetividade e segurança. A vacina de Oxford é uma vacina composta de um outro vírus, um adenovírus de chimpanzé modificado, inativado e que foi acrescentado a proteína S da espicula da coroa do coronavírus. Com isto o organismo cria anticorpos efetivos e aparentemente duradouros contra o Sars-CoV-2. A outra, da Sinovac, usa o próprio vírus inativado e, de acordo com as informações, também apresenta uma boa eficácia. A perspectiva é muito boa e com uma boa possibilidade de termos vacina disponível até o fim do ano.

Renato da Matta – A minha expectativa, baseada nos testes iniciais, é boa. Vale lembrar que esses resultados foram anunciados antes, mas publicados em 20 de julho, após os manuscritos das duas vacinas serem analisados por pares em artigos na revista The Lancet, de grande prestígio mundial. O desenvolvimento de vacinas, assim como outros fármacos e procedimentos, segue um protocolo que é dividido em fases. Em cada fase se tem uma avaliação. Se tudo correr bem na fase, o processo segue para a fase seguinte. Esses artigos reportam as fases 1 e 2. As vacinas testadas induziram resposta imunológica entre 90% a 95% do grupo testado. Isso é um ótimo resultado. Portanto, minha expectativa é que em breve teremos vacinas contra o Sars-CoV-2, o coronavírus que causa a Covid-19.

 

Folha – Em entrevista ao Folha no Ar da última segunda (20), o jornalista José Trajano fez as perguntas mais importantes e pragmáticas à maioria de não especialistas: “Quando é que vai chegar a vacina? Ela será eficaz? Será distribuída em larga escala?”. Como você responderia?

Andreya – O fato de termos diferentes vacina em fase 3 nos permite ter expectativas positivas em relação a identificação de um imunobiológico contra o Sars-CoV-2, uma vez que a fase 2 já foi capaz de demonstrar a segurança e a capacidade de estimularem o sistema imunológico. Contudo, apesar dos ensaios clínicos serem uma poderosa ferramenta para a avaliação de intervenções para a saúde, sejam elas medicamentosas ou não, eles apresentam alto grau de complexidade, uma vez que além de investigarem a eficácia ou não de uma intervenção, também são responsáveis por identificarem a segurança da mesma. Logo, a vacina apenas poderá ser disponibilizada após evidencias cientificas claras em relação à eficácia contra o Sars-CoV-2 e segurança para a população.

Carlos – As informações, até o momento, indicam que no final do ano deveremos ter as duas vacinas já comercializadas. Ela só deverá ser aplicada com sua eficácia comprovada como capaz de induzir respostas imunológicas ao vírus. Acredito que depois, durante o próximo ano, haverá um acompanhamento sobre a necessidade de revacinar, e por quais períodos. Mas a vitória inicial foi obtida. É certo que será distribuída em larga escala cumprindo um cronograma inicial que será divulgado. Não haverá, no primeiro momento, vacina para todos, mas a “linha de produção” estará funcionando em pleno vapor. Sem esquecer que existem duas vacinas a mais e outras 166 em fases adiantadas de pesquisas.  Sem comentários, por falta de conhecimentos, a propaganda do governo da Rússia informou que já está com uma vacina pronta, com a qual já teria vacinado todo seu contingente militar. A conferir.

Elizabeth – É preciso levar em conta, apesar da urgência da situação e de toda a tecnologia de hoje, que a vacina é aplicada em seres humanos que apresentam respostas diferentes. Isso implica na necessidade de estudos de acompanhamento às respostas imunológicas específicas de cada grupamento étnico, social e etário. E que atualmente nenhuma vacina é 100% eficaz. Depende da resposta imunológica, da sua conservação, do local de aplicação, de uma série de fatores que interagem.

Nélio – Uma vacina tradicionalmente passa por três fases, separadas entre elas por muita discussão, publicações e planejamentos. Neste momento estes intervalos estão sendo abolidos, com fases contíguas. Existem algumas indústrias mundiais que já iniciaram o processo de produção das vacinas, mesmo sem a conclusão final, acreditando nos resultados positivos até o momento. Acredito que em tempo recorde teremos vacinas disponíveis para toda a população mundial no início do próximo ano.

Renato – Não sou um especialista em vacinas, mas trabalho numa área que permite entender um pouco mais o que está acontecendo. Tudo indica que até o final do ano teremos vacinas! Mas para a população em geral receber a nova vacina é importante levar em conta uma logística complexa. Prever o futuro é missão impossível, afinal não existe bola de cristal. Então, isso é uma opinião. Dentre vários fatores, é necessário levar em conta a capacidade de produzir a vacina e os grupos prioritários que devem receber a vacina. O Brasil tem a tecnologia de produzir vacinas em escala industrial, graças aos investimentos estratégicos: temos a Fiocruz e o Butantan. Portanto, temos condições de ser um dos primeiros países no mundo a produzir as vacinas. Tendo a vacina, existe a problemática de administrá-la, o que não é simples de fazer em 210 milhões de pessoas. Fora isso, quem deve receber primeiro a vacina? Vemos isso com outras vacinas. Segue-se a lógica ética. Portanto, uma estimativa otimista é que em meados de 2021 teremos a população brasileira vacinada. Nesse caso, é crucial continuar educando o povo, focado no letramento científico, para que sigamos o “novo normal”: 1- não saiam de casa; 2- usem máscara; 3- troquem a máscara de duas em duas horas; 4- lavem as mãos com detergente, usem álcool 70% ou álcool gel nas mãos por pelo menos 20 segundos; 5- tenham cuidado extra, evitando levar as mãos a face; 6- mantenham distância de dois metros dos colegas; 7- tapem o espiro ou tosse com papel, ombro ou cotovelo; 7- cumprimente o amigo à distância e sem contato físico. Essas medidas socioculturais devem ser incorporadas no famoso “novo normal”, até que toda a população esteja vacinada. Não existe outra alternativa. Não usar máscara na rua é uma atitude ignorante, irresponsável e arrogante.

 

Folha – A vacina da Sinovac é desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo, maior produtor de vacinas da América Latina e a 4º do mundo. E a de Oxford, em parceria com a Fiocruz, do Rio de Janeiro, referência global em pesquisas de saúde pública. Como essas parcerias facilitarão o acesso do brasileiro a essas vacinas? O fato de o país ser um dos maiores epicentros mundiais da Covid, paradoxalmente, adianta nosso lugar na fila de espera?

Andreya – O que está acontecendo é uma parceria política que envolve interesses em comum. O Brasil tem a grande estrutura para a linha de produção e profissionais de excelência e os laboratórios internacionais possuem a técnica. Isso firma um acordo de transferência de tecnologias, onde um auxilia na descoberta do outro e favorece a grande produção, visando o bem comum. Os critérios para a distribuição em meio a uma pandemia serão extremamente difíceis, no entanto o fato de ter parcerias como estas nos coloca em uma posição de pleito favorável.

Carlos – A notícia é que o ministério da Saúde se adiantou fazendo a reserva de um grande lote no primeiro momento. Além disso houve um louvável movimento de particulares, como a Fundação Lehman e outras, que investiram recursos consideráveis no Butantan e na Fiocruz, via Instituto Manguinhos, entidades detentoras de reconhecimento mundial em produção e vacinas. Em um movimento sem precedentes no lado de ajuda humanitária, fundos como o Einstein e da Rede D’Or construíram hospitais de campanha em São Paulo e Rio de Janeiro para atender exclusivamente pacientes do SUS.

Elizabeth – Estudos com a vacina de Oxford já saíram em revistas científicas internacionais, conforme exigência da OMS e outras órgãos de controle de saúde no mundo. Vamos aguardar os resultados de cada uma, independente de corrida política, porque vacina precisa ser eficaz e segura, com o mínimo de eventos colaterais após sua aplicação.

Nélio – Essas parcerias são positivas e certamente trarão benefícios ao acesso dos brasileiros à vacinação, visto que parte da produção acontecerá aqui no país. E, pelo fato de estarmos em um momento crítico de transmissibilidade da doença, os testes estão sendo aplicados em vários estados brasileiros, principalmente em profissionais de saúde e pessoas que tem exposição provável, em idades variadas.

Renato – As instituições Butantan e Fiocruz são excelentes. A presença delas nos coloca em um grupo seleto de países que detém a tecnologia e o “saber como” produzir e usar vacinas. Infelizmente ainda não detemos a capacidade de produzir a vacina na velocidade de outros países; precisamos de mais investimentos em ciência. Pelo que vi na imprensa, a tecnologia será transferida, o que é extremamente vantajoso para todos nós. Ontem anunciaram que os EUA já se anteciparam e compraram todas as doses de duas grandes companhias que estão também desenvolvendo vacinas contra o Covid-19. Portanto, a “equação” não é simples. Mas como as instituições Butantan e Fiocruz são públicas, não acredito que esse tipo de ação atrase a vacinação dos brasileiros. Logo, é grande vantagem ter essas parcerias.

 

Página 6 da edição de hoje (25) da Folha

 

Folha – No domingo (19), diante dos seus apoiadores em Brasília cada vez menos numerosos, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) levantou a cloroquina como outros capitães, da seleção brasileira de futebol, fizeram com a Copa do Mundo em nossos cinco títulos. Sem nenhum estudo científico que aponte o remédio como eficaz no tratamento da Covid, como você vê? A vacina virá para sepultar de vez esse tipo de populismo político com a doença?

Andreya – Em um momento de pandemia, uma doença nova em que o mundo se viu de mãos atadas, todo fio de esperança foi e é válido ao pensar como estratégia a ser testada para salvar e proteger vidas. Dentro das prescrições médicas existe uma prática que são os usos off-label (diferentes do aprovado em bula) de algumas drogas que não necessariamente necessitam de aprovações imediatas dos líderes, mas sim de um comitê de ética e do próprio paciente. O emprego na cloroquina foi uma prática não somente brasileira, mas mundial. Fazem parte das práticas em saúde os estudos empíricos não só com drogas recém descobertas, mas também com aquelas já existentes para descobrir novos usos para as mesmas, buscando mecanismos de cura ou que salvaguarde os vulneráveis. Isso é pesquisa. E, claro, quando praticada e direcionada por pessoas técnicas, sempre é melhor. O ato de uma pessoa divulgar aquilo que acredita sempre deve ser observado criticamente para minimizar as chances de insucesso.

Carlos – Os governos com tendência autoritária têm a necessidade de tentar impor suas ideias em questões de interesse público. Mas, neste caso, a resposta foi grande, a ciência prevaleceu e colocou as coisas em seus devidos patamares. Um dos mais reconhecidos imunologistas do mundo, o francês Didier Raoult publicou um artigo em 28 de março mostrando como tratava a Covid-19 com cloroquina e azitromicina. Atendendo em hospital mais de 600 pacientes/dia, disse ele: “Há 13 anos pesquiso a cloroquina em vírus com sucesso absoluto”. Cada profissional médico usa o protocolo que melhor lhe convier, não sendo obrigado ou proibido receitar tal produto, desde que este seja aprovado em seus país.

Elizabeth – A cloroquina e outros medicamentos estão sendo testados, mas o uso desses medicamentos depende da precocidade do tratamento, da presença de outras doenças que afetam e aumento o dano do vírus ao organismo, da idade de quem recebe. Com a vacina será igual: deverá ser eficaz, dar imunidade segura, sem apresentar reações recentes ou tardias.

Nélio – Posturas políticas poderiam mudar caso tivessem uma base de informação científica adequada, ouvindo a sociedade civil especializada como as sociedades médicas de conhecimento específico, como é o caso da Sociedade Brasileira de Infectologia. Ainda não existe nenhuma droga antiviral de efeito comprovado cientificamente. É de fundamental importância que todo ato médico seja baseado em evidências científicas. Caso contrário poderá haver uma infração grave em um dos princípios básicos da bioética, que é não fazer o mal. Já há evidências comprovadas que cloroquina e a hidroxicloroquina não só não funcionam, como colocam em risco a vida das pessoas. Assim como o absurdo de vermos hoje o uso indiscriminado e popular da ivermectina, que funcionou em laboratório, mas não conseguem ser efetivos in vivo, apenas em doses centenas de vezes maiores. Não concordo com uma autonomia médica de prescrever medicações sem comprovação científica e com riscos à população.

Renato – A atitude do nosso atual presidente é lamentável, revela uma profunda ignorância. Algo, infelizmente, difundido por boa parte da população brasileira, revelando como somos atrasados em diferentes aspectos. Uso de medicamentos para tratamento de doenças exige trabalhos científicos longos que aplicam metodologias estatísticas específicas, como seleção de grupos por técnicas randômicas e cegas. Sem isso, o estudo pode indicar algo irreal, pois pode ter “variáveis de confusão”. A cloroquina se encaixa nisso. Não existe ainda um estudo seguindo essas diretrizes. No entanto, o médico tem autonomia e o dever de se informar sobre o uso de qualquer composto em qualquer situação. A vacina virá para nos salvar desse “novo normal”. Para “sepultar de vez o populismo político” é necessário investir na educação.

 

Folha – Além de apostar nas vacinas já em teste, é preciso se resguardar no caso delas falharem. Para tanto, o Brasil precisa aderir à Covax, iniciativa da OMS para garantir acesso às primeiras vacinas que derem certo. O que só foi feito após vencer resistências do governo Bolsonaro, que considera a OMS “globalista”. Partidários do presidente já declararam que não tomariam a vacina da Sinovac porque a China é “comunista”, quando na verdade tem um sistema híbrido de capitalismo de estado. Para salvar vidas, a questão não deveria ser apenas científica?

Andreya – Tudo no mundo abrange um processo político. A imunização é prevista dentro das políticas sociais em saúde e o Brasil sempre foi e é respeitado mundialmente pelas suas instituições públicas produtoras como o Butantan e Fiocruz e pelo Programa Nacional de Imunização (PNI), com mais de 40 anos de vida e distribuição de vacinas, soros e imunoglobulinas a níveis continentais. Atuar diplomaticamente em acordos e compreensão entre diversos países e interesses deve ser uma tarefa árdua, porém o Brasil tem um grande poder de barganha no que tange imunização em acordos de fornecimentos com a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), por exemplo.

Carlos – O presidente também falou: “quem é de direita toma cloroquina e quem é de esquerda toma tubaína”. Seria mais ou menos: os brasileiros que não aceitam seus argumentos, tomam a vacina; os que aceitam… Além de salvar vidas, a vacina é o único caminho da volta à normalidade.

Elizabeth – Existem protocolos internacionais que todos os fabricantes de vacina devem observar e estudos observacionais que devem ser seguidos. Devemos confiar em laboratórios internacionais com comitês científicos de especialistas, cujo compromisso maior é com a saúde pública mundial. Devemos esperar para que tenhamos a melhor vacina do mundo, com o mínimo de erros.

Nélio – Concordo e acredito que qualquer gestão em saúde deve ser em consonância com as evidências científicas atuais. O Brasil precisa de um ministério da Saúde e um da Educação para mudarmos este cenário em que vivemos.

Renato – Deveria ser, mas isso é utópico, pois o mundo é multidimensional e as pessoas têm suas crenças, cultura e atitudes baseadas no que aprenderam e viveram ao longo de suas vidas. No caso do Covid-19, as pessoas deveriam ser mais científicas. No entanto, até alguns colegas meus da Uenf, que foram formados fazendo “ciência” em seus doutoramentos, e fazem até hoje orientando seus alunos, acreditam que cloroquina é válida para tratar Covid-19, ou que o vírus foi uma criação de laboratório. De certa forma, são negacionistas e não procuram entender o que se tem que fazer, qual protocolo seguir, para que um composto usado no tratamento de certas doenças seja validado para outras. Isso faz parte da sociedade, envolve aspectos ideológicos e merece um estudo mais profundo pelas ciências sociais.

 

Folha – Até o momento, a vacina mais rápida produzida pelo homem foi contra a cachumba, que levou quatro anos. Se conseguir a imunização contra a Covid em cerca de um ano, será uma vitória da ciência? Mais, será a aprovação da humanidade em um teste da natureza por sua sobrevivência? Como vê a versão de que o vírus Sars-CoV-2 teria sido criado em laboratório?

Andreya – Caso a vacina contra a Covid-19 seja desenvolvida em um ano e a mesma tenha poder de imunoprevenção, a doença e com elevado fator de proteção do organismo humano com certeza será um dos grandes feitos da humanidade. A luta pela sobrevivência é algo intrínseco dos seres humanos, desde o momento da concepção, aos momentos de observações empíricas que geraram as melhoras das condições sanitárias no Egito Antigo. Ou no século 19, por medidas de cuidado do ambiente de saúde e higienização das mãos, destacados por Florence Nightingale (enfermeira britânica) e Ignaz Semmelweis (médico húngaro); ou John Snow (médico inglês), quando observou o ciclo da cólera ao olhar o comportamento da distribuição da transmissão da doença no território. A luta pela sobrevivência é constante e ultrapassa as gerações. À medida que as tecnologias em saúde se ampliam a expectativa de vida tende também a dar grandes saltos na prevenção das doenças. O grande desafio com o desenvolvimento da vacina será a produção em massa, a distribuição e o acesso.

Carlos – Já circulou também que o HIV foi criado em laboratório. Faz parte do imaginário. O Brasil foi pródigo em grandes nomes na ciência e hoje temos Dr. Pedro Moreira Focegatti, que mora na Inglaterra é um dos responsáveis pela vacina da Oxford. Nos Estados Unidos, o Dr. Fernando Chaves é consultor médico da Ortho Clinical Diagnostics, da Johnson&Johnson, participando em estudos pioneiros do Sars-CoV-2. Conterrâneos nossos colaborando pela sobrevivência da humanidade.

Elizabeth – Esperamos quatro anos, mas hoje praticamente não observamos a cachumba, que pode causar sérias complicações, principalmente em adultos. E a vacina é aplicada na primeira infância. A biotecnologia avançou, mas até hoje não se conseguiu uma vacina contra o HIV. Conhecemos pouco sobre o Covid-19. Se ela veio de laboratório ou não, não é o problema. O importante hoje e amanhã é manter situações que dificultem sua disseminação. A humanidade na Idade Média sobreviveu à peste bubônica. Sobreviveremos a esse novo desafio.

Nélio – O sequenciamento genético do Sars-CoV-2 é muito parecido com o Sars-CoV, responsável pelo Sars de 2002/2003. Com isto, após estudos deste genoma, se pode afirmar que é um vírus que vem sofrendo diversas mutações, principalmente quando passa por outros animais. Esta versão do coronavírus da atual pandemia já vem sofrendo novas mutações, com piora da transmissibilidade e de mortalidade de acordo com os primeiros casos na China. A vacina tão precoce será uma grande demonstração da importância da ciência e da necessidade de uma maior valorização aos pesquisadores e cientistas brasileiros e mundiais, tão desacreditados e renegados.

Renato – Certamente é uma vitória da ciência. O desenvolvimento de uma vacina em tempo recorde é mais um claro sinal de que o avanço tecnológico, boa parte baseado na ciência, tem contribuído de forma definitiva ao avanço da expectativa de vida do ser humano. Não entender esse desdobramento é ir além do negacionismo. Esse avanço é certamente mais uma prova de que a humanidade se mantém apta para sobreviver nesse mundo que “usamos” de forma descabida e ignorante. Até onde conseguiremos fazer isso, é complexo de prever, pois a tendência biológica é de a espécie crescer até um determinado ponto máximo e depois se extinguir. No entanto, o conhecimento gerado nas ciências da vida tem, de forma sistemática, melhorado a condição de vida do ser humano. Isso mostra que ciência merece mais investimento, assim como a educação. As evidências levantadas até agora sugerem fortemente que o Sars-CoV-2 veio do morcego. É muito improvável que tenha sido criado em laboratório e escapado, propositalmente ou não.

 

Folha – O governo Rafael Diniz tem uma atuação considerada boa no enfrentamento à pandemia da Covid. Mas tem sido criticado por ter reaberto os shoppings centers na última segunda. Em Campos e no mundo, qual seria o ponto de equilíbrio entre pressão dos empresários, para preservar a economia, e a necessidade de preservar vidas humanas?

Andreya – A abertura de shoppings somente se mostrou adequada após análise criteriosa dos indicadores do plano “Campos Daqui Para Frente”. Especialmente no que diz respeito aos reflexos após 20 dias de abertura do comércio de rua, sem nenhum registro de diferença no comportamento da disseminação do vírus desde então. Aliado a isso, protocolos rigorosos foram seguidos, como a vedação de acesso a crianças e idosos, e aumento na fiscalização, para que não haja maiores riscos aos consumidores. Entendemos que há uma luta constante, em todo mundo, em uma balança que de um lado figura a sobrevivência econômica e de outro a preservação de vidas, após análise científica criteriosa em vista de garantias de segurança. Desde a abertura dos shoppings temos monitorado e não houve qualquer denúncia de aglomeração ou de descumprimento às normas do plano.

Carlos – Considerando o momento atual e a falta de recursos federal e estadual, o governo municipal vem fazendo o que pode nesse enfrentamento. A abertura dos shoppings, assim como todas as aberturas sociais, depende de algoritmos que avaliam o momento, baseados entre outros itens, no número de leitos de UTI e enfermarias, bem como outras capacidades de atendimento. Campanhas educativas devem ser somadas a essas iniciativas e a vigília de abusos devem ter rigor. Algumas manifestações ocorridas em São Paulo, e avaliadas 15 dias após, mostraram que não houve aumento de casos. Já no Maranhão e, agora, em Minas Gerais, na capital Belo Horizonte, tiveram que fechar tudo novamente. A preservação de vidas está acima dos desejos de preservar a economia.

Elizabeth – O confinamento apresenta uma série de resultados negativos para crianças, jovens, adultos e idosos. Precisamos balancear o estresse, síndrome do pânico, falta de lazer, de atividades físicas. Campos tem acompanhado as características da epidemia e o município precisa seguir seu caminho produtivo. O correto é que aqueles que não cumprirem medidas de prevenção sejam punidos. A cidadania implica em direitos e deveres. A Vigilância em Saúde do município tem trabalhado com precisão. Sua ação vai acompanhar e controlar a doença em nossa cidade e no entorno.

Nélio – Não é fácil. Visto que a economia dita vários parâmetros em uma sociedade. Porém, tenho visto que as atitudes têm sido de acordo com parâmetros técnicos de diversas variáveis. Com a progressiva flexibilização aumenta a responsabilidade do cidadão, pois há necessidade mais que nunca de manter todo o processo de prevenção que é comprovado cientificamente. Se todos usassem as máscaras de forma correta, haveria uma redução importante de disseminação do vírus no ambiente. Reforçar a lavagem das mãos e manter sempre um distanciamento seguro, mesmo com o uso de máscaras. E buscar uma maior testagem da população. Assim, cada um de nós, além do poder público, poderemos preservar vidas humanas, principalmente os idosos e as pessoas de grupos de riscos.

Renato – Respondo com uma pergunta: existe algo mais valioso que a vida humana?

 

Página 7 da edição de hoje (25) da Folha

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

Caio Vianna costura aliança com o PSB de Molon que iria apoiar Rafael Diniz

 

PDT de Caio Vianna disputa o PSB de Alessandro Molon com o Cidadania de Rafael Diniz para a eleição a prefeito de Campos (Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O PSB sairá da base de apoio à pré-candidatura à reeleição do prefeito Rafael Diniz (Cidadania) para à de Caio Vianna (PDT)? Desde o final da noite de ontem (23), essa movimentação tem agitado os bastidores do pleito municipal de 15 de novembro. Com base na aliança nacional entre PSB e PDT, o acordo tem sido tentado desde 2019 por Caio junto ao deputado federal Alessandro Molon, presidente estadual do PSB. E parece estar próximo de um desfecho, que segundo o pré-candidato a prefeito de Campos pelo PDT, será oficializado por Molon:

— Estou construindo a aliança com o PSB há algum tempo, fomos parceiros na eleição de 2016. Existe um entendimento nacional do PDT e PSB, e venho conversando muito com o deputado Federal Alessandro Molon para termos essa parceria importante para a recuperação da nossa cidade. Precisamos unir esforços por Campos. No momento que o deputado achar adequado, ele vai se manifestar — disse Caio Vianna.

Roberta Barcellos, presidente do PSB em Campos (Foto: Facebook)

Presidente do PSB em Campos, a professora de História Roberta Barcellos disse também ter tomado conhecimento da possibilidade através da sua divulgação nas redes sociais locais, desde a noite de ontem. Ela admitiu que uma possível aliança do seu partido com o PDT de Caio é uma orientação nacional para as eleições municipais de novembro. Mas que ainda não foi comunicada de nada oficialmente pelo deputado Molon. Para ela, a aliança com Rafael continua valendo:

— Nem Molon, nem ninguém da executiva estadual entrou em contato comigo sobre o assunto. Sabemos que é algo que Caio vem tentando desde 2019, seguindo uma diretriz nacional de coligação com o PDT. Mas toda nossa conversa com Molon sempre foi em torno da aliança com o prefeito Rafael — disse Roberta, presidente da comissão municipal provisória do PSB, condição que se tornaria fixa justamente a partir da convenção municipal do partido para definir apoio a uma candidatura a prefeito de Campos, além das nominatas. Em tese, o fato da executiva goitacá ser ainda provisória, facilitaria a imposição de um acordo costurado por cima.

 

Brand Arenari, Enock Amaral, Fabinho ALmeida, Alonso Barbosa e Rogério Siqueira (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Se o a aliança entre PSB e PDT for confirmada em Campos, teria reflexo direto na nominata de vereadores que o primeiro partido monta para disputar as eleições. Nela, estão dois vereadores que buscam a reeleição; Enock Amaral e Fabinho Almeida. Além de outros nomes considerados pré-candidatos de boa densidade, como do sociólogo Brand Arenari, do jornalista Rogério Siqueira e do estudante de Direito Alonso Barbosa. Este é filho do falecido ex-vereador Renatinho Barbosa. Já os dois primeiros foram integrantes do governo Rafael, até dele saírem recentemente, no prazo de seis meses antes do pleito fixado pela Justiça Eleitoral. É provável que Brand e Rogério abandonem suas pré-candidaturas a vereador, caso o PSB caminhe com Caio a prefeito.

Quando secretário de Educação de Campos, Brand trabalhou junto com Roberta, presidente municipal do PSB. Os dois eram considerados os principais articuladores da aliança do partido com a pré-candidatura de Rafael à reeleição. O blog, assim como a executiva do PSB em Campos, vêm tentando contato com a direção estadual da legenda, até agora sem sucesso. Fontes ligados ao partido consideram que Molon, líder da oposição ao governo Jair Bolsonaro (sem partido) na Câmara Federal, poderia estar ressentido da falta de um contato mais direto com o governo de Campos. O que poderia contribuir para empurrar o PSB para Caio.

— É sabido por nós, do PSB, que existe essa aliança com o PDT em nível nacional. Ainda não fui informado quanto a essa decisão final. O que o PSB acabar por decidir, vamos sentar e analisar. Nosso grupo político tem tido muita garra e animação para darmos continuidade ao lindo trabalho e bela trajetória que meu pai, Renato Barbosa, teve na política. Continuidade esta com muitas ideias, a força de vontade da juventude e sempre com muito caráter e honestidade, princípios que aprendi com meus pais e que todos na política deveriam ter. Queremos uma Câmara mais renovada e honesta, que produza mais do que procrastine — disse Alonso Barbosa, indicando que manterá sua pré-candidatura a vereador, independente do apoio do PSB na eleição a prefeito de Campos

 

Atualizado às 14 25 para colocar a posição de Alonso Barbosa, pré-candidato a vereador do PSB

 

Fred Machado analisa eleições de Campos e SJB no Folha no Ar desta sexta

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta, quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o presidente da Câmara Municipal de Campos, Fred Machado (Cidadania), vereador e pré-candidato à reeleição. Ele falará sobre a atividade política e legislativa em tempo de pandemia da Covid-19, sobre a CPI recém-concluída do PreviCampos e da eleição a vereador. Aliado político do prefeito de Campos, Rafael Diniz (Cidadania), e irmão da prefeita de São João da Barra, Carla Machado (PP), ele analisará também a disputa ao Executivo dos dois municípios.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Ivan Machado fala de G-8, eleição a vereador e prefeito no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta (23), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador Ivan Machado (PDT). Ele falará sobre política e retomada das sessões ordinárias da Câmara Municipal em tempo de Covid-19, além do seu abandono (confira aqui) do G-8, grupo legislativo “independente” que virou G-7 e se extinguiu com a sua saída. Analisará também o tabuleiro das eleições de novembro, a vereador e prefeito de Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Igor Pereira fala sobre eleição a vereador e prefeito no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (22), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador Igor Pereira (SD). Ele falará sobre política e retomada das sessões da Câmara em tempo de pandemia da Covid-19, além do grupo legislativo “independente” G-8, que liderava, virou G-7 e foi aparentemente extinto. Analisará também o tabuleiro das eleições a vereador e prefeito de Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

José Trajano: críticas a Bolsonaro, nota 8,5 a Jesus e lembrança a campistas

 

José Trajano (Foto: Reprodução)

 

“Nós temos um vírus, que todo o mundo enfrenta. E temos um verme e seus vermezinhos, em um país onde o presidente nega a ciência, a OMS, os grandes infectologistas do país. Se você tem que sair para trabalhar, é um serviço essencial, se tem que sair para comprar alguma coisa na farmácia, no supermercado que saia, preparado. Agora, o que eu tenho visto é gente achando que já acabou, que o vírus já se mandou do país. Isto é incentivado pelo Capitão Corona lá de Brasília. Se o exemplo lá de cima é esse, que você não precisa usar máscara, que você tem que tomar cloroquina, que é um remédio repudiado e sem efeito científico nenhum comprovado, o resultado é que o número de mortos e infectados aumenta sempre. Nós temos 2 milhões de infectados e hoje (20) deveremos passar dos 80 mil mortos. É um momento muito difícil para todos nós. Até quando vai durar? Quando é que vai chegar a vacina? Ela será eficaz? Será distribuída em larga escala?”. Com sua contundência característica, foi o que afirmou e indagou no início da manhã de hoje o jornalista José Trajano. Conhecido nacionalmente por sua atuação na ESPN Brasil, da qual foi fundador e diretor por muitos anos, ele abriu esta semana o programa Folha no Ar, na Folha FM 98,3. Falando de São Paulo, mas atento ao regionalismo fluminense, Trajano completou sobre a pandemia:

—  O momento que nós vemos agora é preocupante, porque a pressão do comércio está vencendo. Então, na hora que vocês noticiam (na abertura do Folha no Ar) que os shoppings centers aí em Campos abrem hoje, eu não entendo. Eu vi aqui em São Paulo. As academias de ginástica abrindo em São João da Barra (risos)… ontem (19) eu vi um programa no Fantástico, com vários especialistas dos Estados Unidos, que deram uma nota de perigo de contágio, de você conviver com abertura de academias, ir ao shopping. E depois quatro especialistas brasileiros, ligados a Fiocruz, que é uma instituição seríssima, analisaram essas pontuações. E uma das coisas que falaram é que academias de ginástica são um dos lugares mais perigosos de contágio que existem. Então acho inacreditável você reabrir essas academias na cara de pau.

Na abertura do último bloco do programa, grande conhecedor da cultura dentro e fora do futebol, Trajano saudou grandes vultos de Campos:

— Já falei do querido (jornalista) Péris Ribeiro, grande biógrafo do Didi (meia bicampeão mundial pelo Brasil em 1958 e 1962), Valdir Pereira, um dos orgulhos do futebol campista. Assim como Pinheiro (zagueiro, Copa de 1954), Evaldo (atacante, com passagem pela Seleção em 1968), Amarildo (atacante, campeão mundial em 1962), até o Odvan (zagueiro, com passagem pela Seleção na segunda metade dos anos 1990), que até hoje mora aí em Campos. Outro registro que eu gostaria de fazer é sobre a Música Popular Brasileira. Outro dia eu falei de Wilson Batista (sambista de Campos), que morreu num dia 7 de julho. E hoje estaria completando 80 anos um dos maiores cantores da Música Popular Brasileira: Roberto Ribeiro. Era de Campos, ligado ao Império Serrano e gravou grandes discos de samba (…)

O jornalista seguiu na transição da política ao futebol. Lembrou da Itália de Mussolini para traçar um paralelo com a aliança entre o Flamengo do presidente do clube, Rodolfo Landim (carioca com família em Campos), e o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), contra quem já tinha feito e repetiu duras críticas. Torcedor apaixonado do America, ele disse, no entanto, que gostaria de ser flamenguista por um dia:

— Futebol e política sempre se misturaram. E futebol sempre foi utilizado por vários regimes. Quando a Itália foi para a França, disputar a Copa de 1938, Mussolini (ditador fascista italiano) foi ver o jogo final e o capitão italiano, Meazza, que deu o nome ao estádio de Milão, fez o gesto fascista para saudá-lo. Para não ir tão longe, vamos dar um exemplo do que está acontecendo agora no Brasil, com o Flamengo (…) Eu gostaria de um dia só na minha vida ser Flamengo. Porque eu, como torcedor do America (..) você vai ver os jogos da série B do Rio, onde estão Americano, o Goytacaz do grande (ator campista) Tonico Pereira, são 300, 400 pessoas espalhadas pelo estádio (…) Então que queria um dia só ter essa sensação de ser Flamengo, porque deve ser uma coisa vibrante, emocionante e inesquecível (…) Mas o Flamengo hoje através do seu presidente, esse Landim, tem feito, é o aproveitamento pela política do esporte. Se abraçou ao Capitão Corona, conseguiu que o Capitão Corona lançasse uma MP (do Futebol), que tem umas coisas até interessantes, mas não teve discussão suficiente entre os clubes. Foi uma coisa açodada, com o objetivo claro de afrontar a TV Globo, que tem feito várias críticas ao Capitão Corona, com o apoio do presidente do Flamengo (…) O retorno apressadíssimo do futebol carioca também foi uma pressão política feita principalmente pelo Flamengo.

Sobre o Flamengo dentro de campo, Trajano analisou a saída do técnico português Jorge Jesus, que voltará para o Benfica, maior clube do seu país. Ele reconheceu as virtudes do treinador, mas as relativizou, creditando os muitos títulos recentes conquistados pelo Rubro-Negro também à qualidade do seu elenco:

— Como diria o nosso Leonel de Moura Brizola, eu andei fazendo uma reflexão sobre tudo isso. Sobre a revolução, vamos chamar assim, que ele fez à frente do Flamengo. Com essa reflexão, eu cheguei a uma conclusão, com a qual muitos podem não concordar. Que ele (Jesus) foi importantíssimo, foi; na maneira de jogar do Flamengo, marcação sob pressão, marcação mais adiantada. Ele incutiu nos jogadores esse espírito, os jogadores atenderam às recomendações dele. Agora, nós vamos dizer o seguinte: o Flamengo que eu critiquei, de Landim, ajudou muito, contratando jogadores. Não é o Vasco, que não tem dinheiro para contratar ninguém; não é o Fluminense, que tem uma folha limitada. O Flamengo trouxe jogadores muito importantes, que deram certo ali. Então, o elenco do Flamengo possibilitou que o Jorge Jesus pusesse em prática o esquema de jogo que ele acreditava. Conseguiu colocar alguns conceitos, deu certo, sai endeusado. Sem desmerecer o trabalho dele, tem que colocar na balança: se estivesse no Fluminense, ou no Vasco, teria tido o mesmo sucesso? (…) Eu acho que ele sai do Brasil, volta para Portugal, deixando um trabalho admirável, mas não vejo ele com essa bola toda. Eu daria a ele não nota 10; daria oito e meio, para ser rigoroso (…) Porque a história apaga muita coisa. Talvez o maior técnico estrangeiro do Flamengo não tenha sido Jorge Jesus. E, sim, (o paraguaio) Fleitas Solich, tricampeão (carioca) pelo Flamengo. Ganhou três títulos seguidos em (19)53, 54 e 55, dois em cima do America. Então, devagar com o andor.

 

Confira abaixo os três blocos do Folha no Ar com o jornalista José Trajano:

 

 

 

 

Bruno Vianna, filho de Gil, fala de PSL e eleições de Campos no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (21), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Bruno Vianna (PSL), filho mais velho e herdeiro político do deputado estadual Gil Vianna (PSL), morto pela Covid-19 (confira aqui) em 19 de maio. Ele falará sobre a vida, a morte e o legado do seu pai, das eleições a vereador no município, nas quais é pré-candidato, e do destino do partido no pleito a prefeito de Campos sem a pré-candidatura de Gil.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Um mês após a morte de Guto Leite, flagrante de redes ilegais em Barra do Furado

 

Sufistas fagraram no sábado (18) instalação de várias redes de pesca ilegais em Barra do Furado, no mesmo local onde o publicitário Guto Leite morreu embolado em uma delas (Imagem: Reprodução de vídeo)

 

Ontem (18), completaram-se 30 dias da morte (confira aqui) do publicitário Guto Leite. Ele tinha 50 anos, era casado e deixou três filhos, ao morrer afogado na praia de Barra do Furado, no município de Quissamã, enquanto praticava surfe, após se embolar e ficar submerso em uma rede de pesca instalada de maneira ilegal. Exatos 30 dias depois da tragédia, surfistas filmaram o sábado a colocação de várias redes de pesca no mesmo local em que Guto morreu por conta de uma delas.

No dia 26, na semana seguinte à morte do publicitário, a Folha publicou (confira aqui) uma matéria denunciando a falta de fiscalização da instalação de redes de pesca, que ameaça a vida de praticantes de surfe, bodyboarding e natação em mar aberto. No dia 24, a Associação dos Surfistas da Região Norte Fluminense (Asrenf) protocolou representação junto ao Ministério Público Estadual e Federal de Campos, cobrando atuação eficaz e permanente dos órgãos ambientais. Em nota, a Marinha do Brasil informou que tomou conhecimento pela imprensa sobre o caso e esclareceu que realiza fiscalizações. Mas tudo indica que, um mês após a morte de Guto, nada mudou.

 

Confira abaixo os flagrantes em vídeo:

 

 

 

 

No mundo sem boteco, Covid, Bolsonaro, Gilmar, Exército e futuro de Campos

 

 

“Saturno devora um filho”, óleo sobre tela de Peter Paul Rubens, 1636/1638, Museu do Prado (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

— E a tal da Covid-19? — abriu os trabalhos Adriano, enquanto tomava o primeiro gole de cerveja na visita à casa do amigo.

— Sem botequim aberto, é o pior dos mundos! — resumiu Aníbal, sem nenhum traço de ironia na voz ou expressão facial.

— Ainda não tinha parado para pensar nisso.

— Mesmo em países islâmicos teocráticos, onde o álcool é proibido, há bares para turistas, nem que seja nos hotéis. Essa pandemia é pior que fundamentalismo religioso. Clássico dos anos 80, em “Platoon”, o protagonista de Charlie Sheen diz ao final do filme: “O inferno é a impossibilidade da razão”. É com isso que um mundo sem boteco se parece: com o inferno!

— Se o inferno é a impossibilidade da razão, o que dizer desse governo Bolsonaro?

— Aí é o que Polônio, conselheiro do rei, diz sobre Hamlet: “Parece loucura, mas há método”.

— Método no genocídio, como Gilmar Mendes acusou o Exército Brasileiro de estar se associando?

— Polônio queria dizer o seguinte: se havia método na simulação da loucura do seu genro Hamlet, é porque não era loucura. Pode haver método no genocídio. Quer prova maior que a linha de montagem da Alemanha nazista na II Guerra, para exterminar gente em câmaras de gás e queimar seus corpos em fornos, em escala industrial?

— E como o Exército se associa a uma loucura dessas? Ter um general da ativa como Pazuello, sem a menor experiência em Saúde Pública, dois meses à frente do ministério da Saúde, na maior pandemia dos últimos 100 anos? Que já produziu mais de 76 mil mortes no Brasil?

— Já soma três vezes mais mortos que a Guerra de Canudos, maior guerra civil brasileira. No genocídio promovido pelo Exército contra os seus próprios civis no sertão da Bahia.

 

Mulheres e crianças sobreviventes de Canudos, com os soldados do Exército Brasileiro ao fundo, no sertão da Bahia de 1897 (Foto: Flávio de Barros)

 

— Logo com Prudente de Moraes, primeiro civil que tivemos como presidente da República.

— Naquele final do século 19, foi o genocídio do positivismo de Comte e Benjamin Constant, quando o Exército produzia a intelectualidade brasileira. Era o “Ordem e Progresso” da nossa bandeira. Com o qual o ex-militar Euclides da Cunha rompeu ao dar seu testemunho da Guerra de Canudos em “Os Sertões”. E sabe o que é mais irônico?

— Ainda não sei. Mas acho que agora vou saber. Não dá é para ter orgulho da própria ignorância, como os bolsonaristas.

— Não sei o que é pior. Orgulhar-se da ignorância ou posar de intelectual e embarcar no mesmo negacionismo, como fizeram e fazem os lulopetistas. Antes deles, a ironia é que o positivismo se anunciava pela prevalência dos fatos científicos sobre a religião e a superstição. Mais de 100 anos depois, o Exército e sua tradição positivista se associaram a um governo eleito na promiscuidade entre religião e política, com o anticomunismo como superstição em torno de um “mito”. Que o mundo condena pela negação dos fatos científicos.

— Foi a ferida em que Gilmar colocou o dedo. Por isso provocou tanta reação das Forças Armadas. Até da Marinha e da Aeronáutica, que nem foram citadas. Citação boa foi a de Mandetta: “É como colocar médicos para comandar uma guerra. Ou como tirar os jogadores da Seleção e escalar 11 coronéis numa Copa do Mundo. O Brasil não vai tomar outro 7 a 1, vai tomar de 20”.

— A leitura dos atos e falas de Gilmar varia de acordo com o gosto político do intérprete. Foi inimigo público nº 1 do PT, quando impediu que Dilma nomeasse Lula ministro, para ganhar foro privilegiado e fugir da Lava Jato. Depois virou aliado, quando Lula foi condenado em segunda instância e preso. E o ministro passou a defender que a prisão só se desse após o transitado em julgado. O que eu penso de Gilmar é impublicável. Mas, na trincheira em que o STF se transformou contra o autoritarismo, ele é a prova de que as instituições e sua defesa podem ser muito maiores que os eventuais “homens honrados” que as compõem.

— Homens honrados?

 

“A morte de Júlio César”, óleo sobre tela de Vicenzo Camuccini, 1804/1805 (Foto: Reprodução)

 

— Aí é outra tragédia de Shakespeare, “Júlio César”. O discurso depois que ele morre esfaqueado no Senado de Roma. Inclusive por Brutus, que tratava como filho. E Marco Antônio, sobre o corpo ensanguentado de César, fala ao povo: “Quando os pobres sofriam, César chorava. Ora, a ambição torna as pessoas duras e sem compaixão. Entretanto, Brutus diz que César era ambicioso. E Brutus é um homem honrado”.

— Se é para comparar Gilmar com Marco Antônio, quem seria Cleópatra?

— A comparação é com Brutus. E Gilmar está mais para seu sósia João Plenário, de “A Praça é Nosssa”, que para Shakespeare. Ou, na obra deste, menos para Cleópatra que Lady MacBeth. Pode ser para bravatear um “Supremo voltando a ser Supremo”, ao livrar Zé Dirceu da cana dura. Mas pode ser também para tombar a lona verde-oliva e fazer o Exército se tocar da tremenda furada em que se meteu.

“Saturno”, óleo sobre parede de Francisco de Goya y Lucientes, 1820/1823, Museu do Prado (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

— E o que você acha que vai ser da pandemia?

— No Brasil, não chegamos ao dilema shakespeariano de ter que escolher qual doente vai viver ou morrer, por falta de leito de UTI e respirador. Como foi no Irã, na Itália, na Espanha ou em Nova York. Salvo, talvez, em Manaus e Belém, nosso sistema de saúde não colapsou. E, complexo de vira-latas à parte, serviu para provar como o SUS, com todas as suas mazelas, é um grande avanço da Constituição de 1988 sobre países do primeiro mundo.

— E Campos?

— Também não colapsou. Pelo menos até agora. E muito graças ao CCC, que o governo Rafael inaugurou na Beneficência. Ironicamente, após uma médica bolsonarista aloprada divulgar áudios alarmistas com fake news sobre a doença.

— Verdade. Deve ter confundido cirurgia estética de vagina para dondoca com Saúde Pública. Mas sabe qual é a outra grande ironia dessa história toda?

— “Ainda não sei. Mas acho que agora vou saber”… — ironizou, desta vez, Aníbal.

— É o que Rafael, Caio, Wladimir, ou qualquer outro candidato a prefeito eleito em novembro vai enfrentar. Na crise econômica que já era grande e vai piorar muito antes de melhorar, no efeito colateral da pandemia, administrar a máquina pública de Campos, inchada na época das vacas gordas dos royalties, será escolher entre qual paciente fica vivo e qual vai morrer. Inclusive na categoria médica, heroica no enfrentamento da Covid e que não tem quase ninguém fora do serviço público municipal, será a mesma história de sempre: farinha pouca, meu pirão primeiro! — profetizou Adriano, sentindo a cerveja descer mais amarga à garganta.

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

Como será a eleição a prefeito de Campos? Quais serão os critérios do eleitor?

 

Enquanto a pandemia da Covid-19 ainda é a pauta principal do Brasil e boa parte do mundo, uma indagação começa a também viralizar na planície goitacá: como serão as eleições a prefeito de Campos, daqui a menos de quatro meses? Geralmente feita junto a outras: por quais critérios o eleitor vai orientar sua escolha? E: o que é possível se esperar do governo que for eleito? Na busca de respostas, em ordem alfabética invertida na metade da entrevista, perguntas foram feitas ao cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf; ao especialista em finanças Igor Franco, professor da Estácio; ao advogado João Paulo Granja, com vasta experiência em legislação eleitoral; e ao jornalista político Ricardo André Vasconcelos, ex-secretário de Comunicação de Campos. Em comum, os quatro apontaram as imensas dificuldades financeiras que o prefeito que sair das urnas vai encontrar a partir de 1º de janeiro de 2021. Ele(a) e as quase 600 mil almas que governará.

 

Hamilton Garcia, Igor Franco, João Paulo Granja e Ricardo André Vasconcelos (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Folha da Manhã – Em painel da semana anterior (confira aqui), com o historiador Arthur Soffiati, os advogados Carlos Alexandre de Azevedo Campos e Cristiano Miller, o cientista político George Gomes Coutinho, o especialista em pesquisas Murillo Dieguez e o sociólogo Roberto Dutra, a incerteza sobre a eleição a prefeito de Campos, daqui a menos de quatro meses, foi uma unanimidade. Como você enxerga?

Hamilton Garcia –  O relativo fracasso, no campo político, da renovação/inovação, da gestão Rafael, torna, de fato, a eleição algo incerta, na medida em que a aposta pela mudança gorou, mas a pressão pela mudança só aumentou. O modo como os eleitores vão se comportar diante deste paradoxo é que é o busílis.

Igor Franco – Concordo com o diagnóstico. A morte do deputado (estadual) Gil Vianna (PSL) e a iminente queda do governador Witzel adicionaram ainda mais incerteza ao pleito. Perdemos o candidato que, talvez, pudesse encarnar com mais proximidade o figurino da direita “lei e ordem”, tão bem exercido por Witzel na eleição estadual de 2018. Além disso, mesmo sendo político há muitos anos, acredito que a tentativa de encarnar uma “renovação” também poderia render frutos. Por outro lado, a crise do coronavírus não pode ser menosprezada, uma vez que a postura do governo municipal gera um contraste muito favorável a Rafael quando comparada à atuação estadual.

João Paulo Granja – Provavelmente, será a primeira eleição em que teremos, com chances reais de serem eleitos, um representante de cada dinastia política que, nas últimas décadas, governam, ou ajudaram a governar, o nosso município. O fato de nenhum dos três despontar como franco favorito, o que talvez venha a ser medido pelo confronto do índice de rejeição de cada qual, permite que outros aspirantes ao cargo máximo do Poder Executivo se somem a esses, com chance de serem escolhidos como a quarta via ao pleito. Cansada de promessas, a população há de esperar que os discursos de cada qual se adeque à realidade financeira de nosso município, já combalido pela crise que se iniciou em 2014, agravada com a pandemia ainda em curso, assombrada, ademais, com a possível repactuação da partilha dos royalties, em julgamento a ser realizado pelo STF.

Ricardo André Vasconcelos – A única certeza aparente é que teremos poucos candidatos. Certos mesmos na disputa são o atual prefeito Rafael Diniz e dois herdeiros brigando pelo espólio garotista em, por enquanto, trincheiras diferentes. Caio Vianna e Wladimir Garotinho têm muito mais semelhanças que diferenças, a começar pela dependência da herança política dos pais. Aliás, é interessante notar que Caio se apoia na popularidade do pai Arnaldo mas, se eleito, quem vai ter influência no governo é a mãe, Ilsan; enquanto Wladimir conta com a boa imagem da mãe, Rosinha, mas na Prefeitura quem vai mandar é o pai, Garotinho. No entanto, há espaço ainda para um candidato que defenda o ideário conservador e falso moralista do bolsonarismo, e para uma candidatura do PT.

 

Folha – A proposta orçamentária para 2021 entregue pelo governo Rafael Diniz (Cidadania) à Câmara, em abril, foi de R$ 1,7 bilhão. Com a queda das receitas do petróleo, arrecadação própria e repasses, por conta da pandemia, estima-se que vá cair para R$ 1,6 bilhão até a proposta da LOA ser encaminhada em agosto. Com R$ 1,1 bilhão para pagamento de servidor e quase a totalidade do resto para custeio, qual a solução aritmética para Campos?

Hamilton – Cortar gastos com a máquina, também legislativa e judiciária, e aumentar os investimentos públicos para o desenvolvimento, atraindo capitais privados e melhorando a utilização dos recursos aplicados em todas as esferas de governo. O que exige também reformas constitucionais, em todos os níveis, que dificilmente terão curso na “normalidade política” do atual sistema de poder.

Igor – A solução aritmética para nosso orçamento beira o impossível. A tese da falência dos municípios vem sendo debatido pelo menos desde 2015, tendo Mansueto Almeida, atual secretário do Tesouro Nacional, como o grande divulgador. O orçamento público brasileiro possui regras que tornam muito difícil realizar qualquer corte profundo de gastos. A recente decisão do STF, que determinou ser inconstitucional a redução salarial dos servidores mesmo quando realizada por redução de jornada, acabou por enterrar de vez o ajuste da folha de pagamento. O corte possível no gasto discricionário já vem sendo feito há alguns anos, convertendo o gestor público em um gerente de caixa, postergando pagamentos ao longo do ano para que seja possível priorizar determinadas despesas.

João Paulo – Talvez o maior pecado de nossos últimos governantes tenha sido supor que os royalties do petróleo fossem infinitos. E, pensando que esta receita iria abarrotar os cofres públicos eternamente, os tenha feito inchar a máquina pública de uma tal forma que, atualmente, não se consegue arcar com os mais básicos compromissos, sem prejudicar o orçamento. A solução do problema não comporta teorias complexas. A máquina há de diminuir de tamanho para voltar a se encaixar no orçamento existente. Aquele que vier a assumir o comando da Prefeitura terá de desempenhar a impopular função de gestor da coisa pública, buscando reduzir os cargos supérfluos ou acumulando mais de uma atribuição em um único servidor. Infelizmente, como dizem os antigos, o cobertor é curto.

Ricardo André – A redução orçamentária é o principal motivo para o baixo número de pretendentes à Prefeitura. Com poucos recursos e os existentes já comprometidos, poucos se aventuram na tarefa árdua de administrar uma massa falida. Não tem receita mágica. Quando o dinheiro sobrava os prefeitos esbanjaram com obras desnecessárias e pouco ou nenhum investimento em projetos que dessem frutos depois que acabasse a era das “vacas gordas”. Mas o que fazer, se do R$ 1,6 bilhão/ano a folha de pagamento consome R$ 1,1 bilhão? O mérito do prefeito Rafael Diniz foi arrumar as contas da Prefeitura, ao mesmo tempo que foi seu maior pecado, porque trabalhou para dentro, não fez política e tem uma alta taxa de rejeição para entrar uma campanha difícil pela reeleição. Difícil, mas não impossível, por causa da falta de experiência dos adversários.

 

Rafael Diniz, Wladimir Garotinho e Caio Vianna (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha – Em entrevistas ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, respectivamente em 26 de junho, 9 e 10 de julho, os pré-candidatos a prefeito Caio Vianna (PDT), Wladimir Garotinho (PSD) e Rafael falaram em “redução da máquina pública”. Mas nenhum deu detalhes. É uma realidade inevitável? Quando, onde e como deveria se dar essa redução?

Hamilton – O setor público vai sofrer uma retração em termos, mais em função do inchaço da máquina pública e sua ineficiência, salvo algumas exceções, porque a crise pandêmica abalou a dinâmica da globalização e lançou um incentivo à volta da produção nacional. O que, no Brasil, deve fortalecer a tradição desenvolvimentista, significativamente presente no pensamento militar, e responsável pelos grandes avanços do país desde 1930. O problema é o quanto esta tradição efetivamente aprendeu com o autoritarismo e o neopatrimonialismo, ou parasitismo político, que afetaram diretamente a capacidade do Estado de agir racionalmente e concentrar recursos na direção do desenvolvimento humano e material ao longo de todo esse período.

Igor – Em nível municipal, a redução significativa da máquina pública é quase impossível no período de um mandato. Como o gasto de folha e o custeio das funções de saúde e educação são praticamente imunes a cortes, resta reduzir a quase zero todos os gastos não obrigatórios. Isso não significa que não se deve buscar tornar mais eficiente a máquina pública, porém, a solução, só virá no longo prazo aliada a um rígido controle do crescimento das despesas. Entendo que o principal esforço deveria vir através da melhoria na prestação dos serviços públicos. Precisamos de metodologia, indicadores a serem perseguidos e, principalmente, implementar políticas públicas que já tenham sido executadas com sucesso em outros locais; o que se chama de políticas baseadas em evidências, cada vez mais discutidas em cursos de preparação de novas lideranças políticas.

João Paulo – Trata-se de um consenso entre todos os candidatos, bem como de qualquer um que tenha uma mínima noção de economia, ainda que doméstica, não havendo fórmula mágica que permita equacionar a receita, em vertiginosa queda, com o atual tamanho da máquina pública, inchada ao alvedrio dos últimos governantes. Valendo-se do popular jargão, há de se fazer mais com menos. Neste sentido, há de se pensar na fusão de secretarias, bem como na reunião do máximo de atribuições no menor número de servidores, de forma a otimizar o trabalho e permitir a economia necessária.

Ricardo André – Essa história de “reduzir a máquina” e “máquina inchada” tem muito de discurso eleitoral para quem está na oposição. Mas, chegando ao governo, vê que para manter os serviços públicos com um grau médio de eficiência precisa dos servidores. Além disso, os servidores são estáveis e demiti-los é muito difícil. Aqui cabe uma pergunta: se a máquina está inchada porque todos os últimos governos de Campos contrataram servidores eventuais como os chamados “folha de linha” e agora os RPAs?

 

Roberto Henriques (Foto: Folha da Manhã)

Folha – Em 21 de outubro de 2019, o também pré-candidato a prefeito Roberto Henriques (PC do B) foi ao Folha no Ar. Conhecedor do garotismo por dentro, que governou Campos com variantes de 1989 até 2006, ele chamou de “modelo perdulário” o inchaço da máquina pública que disse ter sido inaugurado na gestão Arnaldo Vianna (PDT). E mantido nas administrações Alexandre Mocaiber (sem partido) e Rosinha Garotinho (Pros). Concorda? Por quê?

Hamilton – Tem razão Roberto Henriques, uma liderança autêntica da velha cepa brizolista, que assistiu ao eclipse do reformismo do Muda Campos no transformismo Garotista. E acabou, de alguma forma, levado a tangenciá-lo, em função da despartidarização/despolitização sistêmica da Nova República, agravada, no Estado do Rio, pela Lei dos Royalties de 1997. É a partir desta lei que passamos a viver intensamente, sobretudo em Campos, aquilo que a literatura sobre a divisão internacional do trabalho designava como “maldição do petróleo”, uma realidade que transcende os atores. Mas que eles estão agora obrigados a enfrentar na maré vazante da economia de carbono.

Igor – É tentador apontar um ou alguns culpados pela situação atual. Porém, ainda que entremeada por períodos de maior responsabilidade, a história do orçamento público brasileiro tem muito mais páginas escritas com seus excessos por políticos de diversos partidos e ideologias. Em lugares privilegiados por recursos naturais ou em período de bonança, esse fenômeno foi intensificado. A euforia do Pré-Sal do governo Lula só teve fim na crise de 2015. O governo FHC também aumentou a despesa federal primária, financiada por uma grande elevação da carga tributária. É ingenuidade confiar apenas na virtude dos políticos para salvaguardar as finanças públicas. Do ponto de vista de qualquer agente público eleito, os incentivos são para gastar o máximo possível em busca de sua manutenção no poder, mesmo que isso signifique a ruína econômica no longo prazo. A responsabilidade pela fiscalização, exercida nos termos da lei pelo Poder Legislativo, deve ser de toda a sociedade civil, maior interessada no equilíbrio das contas públicas

João Paulo – O conforto que os royalties do petróleo e a consequente sensação de perpetuidade trouxeram aos nossos últimos gestores uma espécie de ostracismo intelectual, não vislumbrando a necessidade, nem formas de majorar a arrecadação. Nem preocupando-se com o aumento da estrutura municipal, hoje abarrotada por cargos que, se na iniciativa privada, estariam concentrados em menor número de funcionários ou restritos àquelas funções essenciais. Não resta dúvida que políticas baseadas no populismo e no empreguismo são conhecidas, embora irresponsáveis, formas de perpetuação no poder, adotada como mantra por gestores no Brasil afora.

Ricardo André – Os filhos de Rosinha e Ilsan Vianna podem falar de perdulário com conhecimento de causa. No poder, as duas foram promotoras de gastanças como Cepop, Beira-Valão e aquele contrato da Odebrecht de R$ 1 bilhão para fazer 10 mil casas populares, como foi com Rosinha. Ilsan, por sua vez, como primeira-dama de Arnaldo instalou um governo paralelo na secretaria de Planejamento e de lá saíram projetos como o projeto da Praça Salvador, sem falar nos shows milionários. Quanto à máquina não sei se é inchada e ou mal gerida quanto ao aproveitamento do pessoal em determinadas áreas, como na Educação e Saúde, as que demandam mais servidores. Há um controle meio frouxo quanto à produtividade e frequência, que nem a implantação do ponto eletrônico resolveu.

 

Folha – Campos é uma cidade de quase 600 mil habitantes. E quase todos têm pelo menos alguém na família que sobrevive do poder público municipal. O que gera um dilema: não se governa a cidade sem fazer cortes profundos, mas quem se dispuser a fazê-los enfrenta resistências e cresce a taxa de rejeição popular. Como foi com Carlos Alberto Campista (sem partido) e parece ser agora com Rafael. Está certo o dito: “o campista pede, mas não quer”?

Hamilton – Agora não vai ter espaço para “não querer”, sobretudo diante da possibilidade do revés das rendas petrolíferas. A magnitude da crise pode acabar forçando uma mudança drástica de atitude de todos, eleitores e candidatos.

Igor – Montada uma estrutura que distribua benefícios a tantas pessoas, os grupos de interesse passam a ter uma capacidade de mobilização muito grande. Ainda que se suponha que 80% da população não tenha para si ou parente próximo algum tipo de vantagem garantida pelo poder público, o contingente mobilizado de 20% tende a ser muito mais organizado, gerando a impressão de um tamanho maior que o real. É um grande desafio tentar controlar gastos, porém, a alternativa a isso é um ponto em que veremos a incapacidade do cumprimento de obrigações básicas, como os salários. Por fim, esse comportamento não é exclusivo do campista. O inchado Estado brasileiro gera dependência econômica em diversos grupos, dos mais abastados aos mais pobres.

João Paulo – Esse será o desafio daquele que vier a ser eleito para governar o maior município fluminense nos próximos quatro anos: reduzir a inchada máquina pública, bem como a dependência da população por dela extrair seu sustento. Qualquer solução diversa, será mais do mesmo. Setores como a indústria e o agronegócio devem ser priorizados e estimulados, por meio de incentivos, de forma a gerar mais postos de trabalho, diminuindo o impacto que a desmobilização do Estado trará à população. Cabe ao futuro governante decidir se o sacrifício de hoje vale a recuperação econômica de nosso município, além da herança que será deixada para futuras gerações.

Ricardo André – É bem verdade desde o final dos anos 80 quando Campos começou a receber royalties e nos 90 as gordas participações especiais, foram oferecidos à população novos serviços públicos que demandaram mais servidores e mais custos, como escolas, creches, postos de saúde, hospitais. Cortar significa reduzir a oferta de serviços públicos. Foi o que o prefeito Rafael teve a coragem de fazer, ou seja, cortar os dois programas mais populares do governo Rosinha: o Restaurante Popular e a passagem a R$ 1,00. Se o prefeito optou por esses cortes porque entendeu que seriam menos traumáticos financeiramente, foram um desastre politicamente. A falta de recursos pode ser vista nas ruas mal cuidadas. Há anos as faixas de pedestres e toda a sinalização horizontal não têm manutenção.

 

Folha – A rejeição de Rafael é apontada como principal obstáculo à sua tentativa de se reeleger. Ela é ou não justificada? Foi atenuada pela atuação considerada boa no enfrentamento à pandemia da Covid-19? E como a alta taxa de rejeição também do ex-governador Anthony Garotinho (sem partido) pode atrapalhar a pré-candidatura de Wladimir? Os dois têm alguma alternativa política além de se lançarem candidatos a prefeito?

Hamilton – A rejeição de ambos pode representar sérios limites nas respectivas pretensões políticas, o que torna o cenário mais competitivo. Mas, como sempre nesses casos, tudo vai depender do protagonismo dos candidatos e sua capacidade de convencimento. A relação entre eleitores e candidatos é muito dinâmica e também instável, até certo limite, e a crise histórica e a atual jogam um papel, tornando cada eleição uma nova eleição, em termos dos contextos diferenciais.

Igor – Não há discussão de que a situação econômica da população, de modo geral, e, em específico, grupos importantes no xadrez eleitoral, como servidores, RPAs, beneficiários de programas sociais e empresários, está pior hoje do que há quatro anos. Se isso ocorreu por culpa da gestão atual ou se ela impediu uma tragédia ainda maior será o grande embate em termos de narrativa. A magnitude da crise da Covid-19 pode representar uma virada aos 45 do segundo tempo, a depender de como os próximos meses se desenvolvam e, principalmente, da capacidade dos cofres públicos de arcar com o funcionamento da máquina até a eleição. Quanto à rejeição de Garotinho, ela sempre se transportará em certa medida ao seu candidato de apoio, mas Wladimir parece possuir carisma próprio, ajudando a diminuir o efeito negativo. Inclusive, ainda tem a possibilidade de construir uma versão plausível para a desistência do pleito. Já a Rafael não me parece haver alternativa senão concorrer à reeleição.

João Paulo – Não há notícia em nossa história de alguém que tenha sido eleito, contando com maciço apoio popular, nele depositando tanta expectativa e esperança de um futuro promissor. Baseado no discurso, nas promessas e nas soluções apontadas na campanha de 2016, Rafael hoje está sendo julgado. O aval popular conferiu a ele legitimidade para adotar as medidas, que desde o início do governo faziam-se necessárias e prementes, o que não aconteceu. Não se olvida a herança recebida dos gestores anteriores, nem o decréscimo orçamentário, se comparado com anos pretéritos. Tal fato, entretanto, não pode servir de muleta ou justificativa, mas incentivo, para que medidas fossem tomadas de forma a reduzir o aparato estatal. A pandemia, por sua vez, caiu como um balão de oxigênio no governo, tirando o foco dos problemas enfrentados, podendo reequilibrar o páreo de uma eleição que será marcada precipuamente pela análise do índice de rejeição dos candidatos.

Ricardo André –  Rafael está, desde que assumiu, enfrentando uma tempestade perfeita: queda vertiginosa na arrecadação; três empréstimos tomados no apagar das luzes do governo Rosinha e que teve seus efeitos minimizados com a limitação de 10% dos royalties; crise econômica gerada pelo governo Dilma e a pandemia da Covid-19 que ainda assusta Campos e o mundo. Tirando a Covid-19 e a crise econômica, o que não é pouco, a equipe do prefeito Rafael não teve criatividade ou vontade suficiente para e retribuir a confiança da população que o elegeu no primeiro turno. A rejeição que vai encontrar, justa ou não, deve ter mais efeito negativo para Rafael do que a de Garotinho para Wladimir e a de Ilsan para Caio.

 

Página 2 da edição de hoje (18) da Folha

 

 

Ricardo André Vasconcelos, Igor Franco, João Paulo Granja e Hamilton Garcia (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha – A rejeição à ex-vereadora Ilsan Vianna (PDT), grande sobretudo quando foi secretária no governo Arnaldo, está distante no tempo para atrapalhar Caio? Sua alegada menor rejeição, na comparação com Rafael e os Garotinho, seria sua grande arma em um eventual segundo turno? Vê chance de a eleição ser definida em turno único, como foi em 2016?

Ricardo André Vasconcelos – Acho difícil uma eleição no primeiro turno. Dificilmente o eleitor vai se empolgar ao longo da campanha, que começa em setembro, quando não se sabe ainda se a pandemia terá passado ou não. E como uma eleição com dois dos principais candidatos herdeiros dos legados dos pais vão suportar os ônus e os bônus da atuação política destes pais. Uma impressão que tive ao ouvir a entrevista do deputado federal Wladimir Garotinho na Folha FM é que ele é hábil o suficiente para tentar uma composição com Caio Vianna já no primeiro turno. A mesma composição que fizeram com o ex-deputado (federal) Feijó na primeira eleição de Rosinha em 2008.

João Paulo Granja – Não há dúvida que dos três pretensos candidatos, Caio Vianna terá menor dificuldade em lidar com a rejeição, tendo em vista os percalços que Ilsan trará a sua candidatura, compensada com o viés positivo que a imagem deixada na população por seu genitor. Talvez, o distanciamento do município de Campos e a falta de experiência na gestão pública, sejam os principais entraves a sua eleição. Diante do grande número de pré-candidatos com reais chances de serem eleitos, dificilmente teremos a eleição definida em turno único.

Igor Franco – A gestão Arnaldo, com presença influente de Ilsan Vianna, terminou antes que eu começasse a votar, por exemplo. Para eleitores abaixo dos 40 é provável que não haja influência alguma. A menor rejeição fará com que Caio tenha um impulso inicial favorável, mas acredito que o eleitor de 2020 estará muito mais crítico após ter entregado uma vitória a Rafael no primeiro turno. Embora importantes, as narrativas deverão ser acompanhadas de medidas concretas. Além disso, com as restrições de locomoção, o engajamento nas redes sociais deve fazer a diferença para qualquer candidato.

Hamilton Garcia – A eleição de 2016 em Campos foi avant la lettre na política nacional, diante do que se veria em 2018, no que tange à derrota das oligarquias. Todavia, do mesmo modo, talvez ela revele as frustrações diante desta mesma renovação, o que deve abrir espaço para o retorno das velhas oligarquias.

 

Folha – No Folha no Ar, Wladimir criticou o juiz Ralph Manhães e o delegado da Polícia Federal Paulo Cassiano, que estiveram à frente da “Chequinho” em 2016 e coordenarão a fiscalização eleitoral em 2020. O deputado disse temer, se candidato a prefeito, que “seja transferida para mim o que houve com a minha família e meu grupo político”. Há quem tenha visto como tentativa de criar suspeição. Ele também questionou o juiz Glaucenir Oliveira. Como você viu?

Ricardo André – Ali foi o dedo da raposa política, possivelmente por sugestão do pai Garotinho. Ao admitir não disputar a eleição temendo a atuação deste ou aquele juiz e do delegado da PF, o deputado tentou na verdade, criar uma narrativa de suspeição por parte das autoridades e se blindar ou procurar inibir a atuação dessas autoridades. Nada mais que isso.

João Paulo – A autonomia e a independência são características que hão de ser preservadas em todos os poderes constituídos, em especial no Poder Judiciário. Por mais que suas decisões não tenham nenhum condão de agradar a todos, os juízes Ralph e Glaucenir são tidos no meio jurídico como referências por seus julgamentos técnicos e bem fundamentados, não havendo como se colocar sobre seu trabalho responsabilidade maior do que possui, pressão injustificada ou desculpa por eventual decisão que venha a ser proferida, a contragosto dos interesses de quem quer que seja. A esfera recursal se presta a corrigir eventuais equívocos interpretativos porventura praticados, não possuindo, portanto, o juiz, palavra final nos julgamentos proferidos.

Igor – Seja como provocação, seja uma preocupação genuína do deputado, todos homens públicos, eleitos ou de carreira, devem estar sujeitos a críticas. As palavras de Wladimir, justas ou não, ficaram muito longe de serem consideradas inaceitáveis. Excetuando casos extremos, como o cometimento de crimes ou condutas manifestamente antirrepublicanas, espero observar uma atuação discreta do Poder Judiciário nas eleições. Mais do que nunca, precisamos de ampla capacidade de discutir abertamente os problemas da cidade e, principalmente, as soluções propostas para os próximos quatro anos. Que, tudo indica, serão tão ou mais desafiadores que os últimos quatro.

Hamilton – O discurso da “perseguição política” é velho conhecido de todos e foi ressignificado pelo PT depois do Mensalão, mas sempre se prestou ao mesmo inequívoco papel: atenuar a repercussão política da descoberta de malfeitos por parte das elites políticas. A questão decisiva não é tanto o que falam os malfeitores e seus círculos, mas o que se está fazendo no STJ, STF, MPF, Congresso Nacional e presidência da República, só para ficarmos na esfera federal, contra as autoridades de Estado que representam uma ameaça a tais práticas antirrepublicanas; muitas vezes sob o silêncio, ou pior, aplausos de importantes formadores de opinião.

 

Folha – Vê entre os demais pré-candidatos alguém com chance de surpreender? Ou o aparente insucesso precoce do governador Wilson Witzel (PSC), fenômeno eleitoral em 2018, dificultou essa alternativa? Como vê a possibilidade do seu impeachment, com denúncias de desvios na saúde durante a pandemia, que inviabilizaram, inclusive, o Hospital de Campanha de Campos?

Ricardo André – Tenho ouvido falar em outros pré-candidatos, mas acho difícil a construção de um nome que ganhe musculatura suficiente até a eleição. O empresário Joílson Barcelos chegou a se colocar como candidato, mas consta que desistiu. Ele talvez pudesse desequilibrar a disputa. Quanto ao governador, ele seguiu o mesmo caminho dos antecessores. A abertura de impeachment com apoio de 69 deputados foi indício de que dificilmente vai conseguir reverter sua cassação. Aliás, é o segundo juiz federal a desiludir os que apostaram que, por ser oriundo do Judiciário, ele estaria acima do bem e do mal. O outro foi o Sérgio Moro, ex-juiz da Lava Jato que tirou o ex-presidente Lula da eleição e depois largou a toga para ser ministro do vencedor da mesma eleição.

João Paulo –  Embora ainda não tenhamos uma definição dos nomes que concorrerão ao cargo máximo do Poder Executivo, dentre aqueles que manifestam essa pretensão temos uma eclética lista de aspirantes a quarta via, nenhum deles que possa contar com apoio do governo estadual, maculado pelas acusações de corrupção; ou do Governo Federal,  que prometeu se manter distante do pleito municipal. Não apenas os desvios na Saúde, mas o distanciamento popular e da Assembleia Legislativa, além dos embates com o Governo Federal, marcaram a gestão do governador Wilson Witzel, encontrando-se em vias de ter sua breve carreira política encurtada. Por mais que não existam provas de que teria diretamente participado dos desvios da Saúde, o governador está sendo julgado pelo conjunto da obra, no julgamento político a que será submetido.

Igor – Após o falecimento de Gil Vianna e sem um sucessor natural, entendo que a disputa se dará entre Rafael Diniz, Wladimir Garotinho, ou seu indicado, e Caio Vianna. Embora com menor rejeição, a ausência de base e um discurso histórico dos outros pré-candidatos deve impedir um crescimento mais forte para a disputa do segundo turno. A queda contratada de Witzel e a inominável gestão de Bolsonaro na pandemia também devem manter a tradição de grandes questões nacionais não afetarem o pleito municipal.

Hamilton –  A Alerj tem vasto histórico de más práticas políticas, mas parece inclinada a não sustentar um governador que mostrou mais apetite pelo poder do que pela gestão pública, como se viu no atropelo/desmazelo das políticas de combate à pandemia no Estado do RIo. Isto subtrai força de quem pretendia se projetar à sombra do poder estadual, mas não interfere radicalmente no potencial das oligarquias tradicionais, cujos desafiantes maiores, em tese, estariam no campo da postulação renovadora, de direita ou centro-esquerda ou esquerda. Estas últimas pulverizadas em pelo menos três candidaturas: Rafael, Odisséia e Roberto.

 

Folha – Desde o pleito presidencial de 2014, o Brasil vive um clima de polarização política que se acentuou com o impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016 e com a eleição de Jair Bolsonaro (sem partido), em 2018. Se as redes sociais são sua chama e termômetro, os muitos comentários nos streamings do Folha no Ar com Caio e, sobretudo, nos dias seguidos com Wladimir e Rafael, são um indicativo de que os ataques raivosos e de baixo nível se sobreporão à discussão de propostas? A democracia vive esse dilema? Há solução?

Ricardo André – A polarização é tanta que, em plena pandemia, um medicamento virou objeto de disputa política. Quem apoia Bolsonaro não acredita na pandemia, mas quando tem qualquer sintoma já chega ao hospital pedindo cloroquina. E os que não gostam do presidente insistem que o remédio é inócuo. Em algum outro momento da vida a gente já foi ao médico já escolhendo o que tomar ou não? A facilidade de acesso às redes sociais propicia um paradoxo: ao mesmo tempo em que democratiza a informação, põe em risco a própria democracia com a criação de realidades paralelas, fake news e manipulação de dados de internautas. Como ocorreu nas eleições de Trump e Bolsonaro.

João Paulo – A mudança de postura do presidente e dos seus filhos nas redes sociais, verificada nas últimas semanas, somada ao julgamento pelo TSE e STF acerca das fake news, denotam que os ataques não são a forma mais correta e republicana de agir. Infelizmente, algumas pessoas, com a falsa impressão de segurança, destilam sua cólera. Como se o “pseudo” anonimato lhes conferissem escudo para seus atos, por mais nefastos que sejam. Verifica-se que as redes sociais ganham relevante papel, como veículo de formação da opinião da população, sendo o principal local onde manifestações pouco democráticas e republicanas ganham relevância. E merecem o tratamento adequado da Justiça, já atenta aos excessos praticados, que certamente atuará com rigor nas eleições que se avizinham.

Igor – A polarização observada nas redes parece longe do fim. Por uma condição inerente à sua essência, as redes sociais sabidamente fomentam comportamentos que repelem a discussão racional. Esse problema vem sendo abordado com mais ênfase pelo menos desde a última eleição presidencial americana e qualquer solução parece longe de ser obtida. No entanto, nenhuma saída será ideal e entender tais ambientes e suas dinâmicas como parte de uma nova fase da democracia é essencial. Assim como em outros momentos históricos a organização centralizada em forma de partidos, sindicatos e entidades de classe determinou os rumos dos países, a descentralização e horizontalização das redes terá vida longa.

Hamilton – Não há dilema: o atual sistema político, em função de sua despartidarização e despolitização, vem, crescente e consistentemente, depauperando o nível da representação política, em todos os níveis, o que a democracia virtual apenas agrava em meio à baixa e má escolarização geral. A solução está numa reforma política que induza à partidarização e à politização do sistema, a par de uma reforma na gestão da educação que mude o perfil do professorado e premie quem alcance bons resultados.

 

Folha – Se as eleições a prefeito de Campos serão acirradas, as de vereador, onde ainda se vota por amizade pessoal, devem ser ainda mais. E serão as primeiras sem coligações proporcionais. Como você vê? Qual será a importância delas, diante da necessidade de medidas duras e impopulares do próximo governo? Seria capaz de projetar uma taxa de renovação?      

Ricardo André – A montagem das nominatas é um trabalho de engenharia política numa equação em que a maioria dos pretendentes serve de cabos eleitorais dos candidatos mais fortes. E vai ficar mudar com a vedação às coligações que vai enfraquecer as legendas de aluguel e fortalecer a representatividade dos eleitos. O ideal, na minha opinião, é que categorias e segmentos da sociedade lançassem candidatos representantes das áreas de cultura, educação, servidores, além de grupos étnicos e sociais específicos para defender suas pautas no Legislativo. Não sei se o eleitor consegue identificar como cada vereador votou na atual legislatura, por isso não vejo impacto das medidas impopulares na eleição deles, nem arriscaria um palpite quanto ao índice de renovação.

João Paulo – A maior quantidade de partidos políticos contribuirá para a pulverização dos votos válidos, permitindo-se, assim, que a representatividade popular possa ser exercida em sua plenitude, contribuindo para que a Câmara desempenhe, de fato, o seu papel de órgão fiscalizador e auxiliar do Poder Executivo na gestão da coisa pública. Em especial neste momento em que medidas duras demandam ser adotadas pelo futuro prefeito.

Igor – O fim das coligações proporcionais pode significar uma menor renovação da Câmara, o que não parece bom no longo prazo. Por outro lado, o antigo sistema distorcia completamente o voto popular. Sou bastante cético em relação à possibilidade de a nova Câmara atuar como controladora do Poder Executivo em relação ao orçamento. Se o fizer, provavelmente não será por convicção ou vocação, mas como barganha para algum tipo de negociação. O que não é, de modo algum, ilegal ou necessariamente imoral. Porém, à sociedade não interessa que a atuação do governo se dê sem uma vigilância constante e rigorosa.

Hamilton – Seja qual for a taxa de renovação ela terá baixo impacto na mudança estrutural das relações entre Executivo e Legislativo, visto que a ausência de conteúdo partidário do atual sistema político tende à anomia política. No nível local e nacional isto somente é reversível por meio do sistema de cooptação, quando o Executivo cede poder na máquina aos representantes políticos, como os vereadores.

 

Odisséia Carvalho, Cãndida Barcelos, Carla Machado e Fátima Pacheco (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha – Embora Rosinha tenha saído do governo para se tornar inelegível, não há dúvida de que, diferente de Dilma no Brasil, ela ainda é muito popular em Campos. Que tem duas pré-candidatas a prefeita: a ex-vereadora Odisséia Carvalho (PT) e a médica Cândida Barcelos (SD). Como avalia estas duas e, na região, as prefeitas e pré-candidatas à reeleição Carla Machado (PP), em São João da Barra, e Fátima Pacheco (DEM), em Quissamã?

Ricardo André – Dos oito anos de Rosinha, em seis ela nadou em dinheiro de royalties e participação especial. A redução dos repasses se deu a partiu de 2014 e ela recorreu a empréstimos sucessivos na Caixa Econômica comprometendo o futuro da cidade por vários anos. Odisséia foi uma vereadora combativa e produtiva. É um quadro de valor dentro do PT. Quanto às prefeitas Carla Machado e Fátima Pacheco, eu conheço pouco da política dos seus municípios. Mas em regra, saem com vantagem na campanha pela reeleição, porque estão no poder e ambas tiveram crescimento de recursos de royalties nos últimos quatro anos.

João Paulo – Cada vez mais participativas na vida política, nas mais diversas esferas de atuação, as mulheres têm mostrado sua importância e sua competência no cenário eleitoral de nossa região. Não apenas Carla Machado e Fátima, mas Francimara (Barbosa Lemos, SD, prefeita de São Francisco de Itabapoana) e Christiane (Cordeiro, PP, prefeita de Carapebus), apresentam-se como fortes candidatas à reeleição, mercê do elogiável trabalho realizado à frente de suas respectivas Prefeituras. As pré-candidaturas de Odisséia Carvalho e Cândida Barcelos ajudam a oxigenar o pleito, conferindo mais opções aos eleitores. Não apenas por se tratar de pessoas de moral ilibada, mas por se destacaram em suas atividades profissionais.

Igor – Odisséia deve sofrer bastante pela rejeição ao PT, ainda latente em muitas camadas da população. Por sua vez, a Dra. Cândida pode faltar alguma bandeira histórica ou proposta de impacto que mobilize uma base eleitoral capaz de lhe dar sustentação para buscar novos votos. Porém, desde as eleições municipais de 2016, nos acostumamos a reviravoltas e resultados surpreendentes. O que me não me faz descartar sumariamente nenhum candidato. Quanto às administrações de Carla Machado e Fátima Pacheco, não me sinto à vontade para opinar, uma vez que não acompanho detidamente o que acontece em São João da Barra e Quissamã.

Hamilton – Gênero e raça são elementos simbólicos na política, que ganharam inevitável destaque com a crescente democratização, mas não substituem os interesses fundamentais que operam por trás dos atores políticos. Odisséia representa o PT sindicalista; Cândida, provavelmente, o tradicionalismo; Carla, a velha política, sempre com sérios problemas na Justiça, mas com inegável capacidade administrativa; e Fátima, uma renovação política qualificada, derivada das crescentes demandas sociais do país, que deu certo.

 

Pàgina 3 da edição de hoje (18) da Folha

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã