Mulher ferida em explosão de edifício durante ofensiva militar russa em Chuguiv, no leste da Ucrânia, na manhã de quinta (Wolfgan Schwan/Anadolu Agence via Getty Images)
Arthur Soffiati, historiador
A invasão da Ucrânia
Por Arthur Soffiati
Não sei bem se por ter sido professor de história durante 40 anos ou por me intrometer publicamente em assuntos que me interessam, algumas pessoas estão solicitando minha posição sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Esclareço, para decepção dos que me procuraram, que ficarei em cima do muro. Apenas farei considerações para que as pessoas interessadas em se posicionar diante do conflito possam contar com mais base. Creio que essas considerações revelarão, de alguma forma, a minha posição para os que tiverem olhos de ver e ouvidos de ouvir. Não se trata de um postura covarde, mas de respeito às duas posições mais fáceis: sim ou não.
Em 1625, o jurista holandês Hugo de Grotius publicou “O direito da guerra e da paz”, lançando as bases do direito internacional atual. Até então, a guerra se definia por razões pragmáticas, de forma maquiavelista, embora Maquiavel fosse um ilustre desconhecido dos governantes. Não havia regras que norteassem invasões e guerras. Não havia claros motivos ideológicos. A guerra era uma arte exercida por reis e comandantes. As bases do direito internacional também não foram levadas em consideração. Grotius não passou de mais um pensador relegado a plano inferior.
Os motivos ideológicos começaram a se definir no século XVIII, principalmente com a Independência das 13 Colônias da América do Norte, que deu origem aos Estados Unidos, e com a Revolução Francesa, de 1789. Os campos conservador, liberal, progressista e anarquista começaram a ser definidos. A independência das Treze Colônias não era mais um questão do mais forte e sim o direito de uma Inglaterra fora da Europa a se tornar independente livrando-se da monarquia (ainda que a caminho do parlamentarismo) e adotando uma república com base nas ideias do europeu John Locke. A Revolução Francesa consagrava o direito do povo de proclamar uma república progressista contra uma aristocracia monarquista retrógrada.
As guerras do século XIX na Europa assim com as guerras de conquista colonial não invocavam o direito do mais forte, mas razões ideológicas. Invocava-se o progressismo contra o conservadorismo e a civilização contra a barbárie. A conquista de uma colônia era justificada pelo dever de civilizar o bárbaro. A Primeira Guerra Mundial foi a última guerra europeia com repercussões extra-europeias. Ela foi travada por dois blocos. Inglaterra e França consideravam-se países liberais e progressistas, vendo Rússia, Alemanha e Áustria como países atrasados, ainda ligados ao Antigo Regime europeu. O Império Otomano, então, era um país atrasadíssimo por nem sequer ser europeu, mas muçulmano. Era um homem doente. O Acordo de Sikes-Picot, que dividiu o Império Otomano entre Inglaterra e França antes mesmo do fim da guerra, e a Declaração Balfour, que reconheceu o direito dos judeus a um lar nacional na Palestina, justificavam-se por expressarem o moderno contra o atraso.
A Revolução Russa de 1917 usou como justificava tratar-se de uma luta do comunismo contra o capitalismo e o imperialismo. Havia grande sinceridade nos revolucionários, mas logo percebeu-se que não seria fácil livrar-se do capitalismo. Daí a política leninista de um passo atrás para dar dois passos à frente e a política estalinista dos planos quinquenais para tornar a União Soviética competitiva num mundo capitalista. Hitler também se posicionou contra o capitalismo liberal em seu livro “Mina luta” e em seus discursos. Trata-se de criar uma nação forte, até mesmo um império em que empresários, políticos e operários se unissem contra a opressão e a exploração do capitalismo. Tudo indica que havia sinceridade em Hitler na sua luta “revolucionária”. A caracterização do nazismo e do fascismo como regimes reacionários e direitas foi desenhado posteriormente. Edgar Morin, comunista e militante durante a Segunda Guerra, escreve em “Lições de um século de vida”, que a resistência marxista chegou a acreditar que Hitler se estabilizaria na criação do seu espaço vital e terminaria a guerra. Ele escreveu que foi um grande erro da sua parte e que dele se arrepende até hoje.
O pacto nazi-soviético de 1939, dividindo a Polônia entre os dois países, assim como a invasão da União Soviética por Hitler em 1941 foram ideologicamente justificados. Jorge Amado e Joel da Silveira defenderam o pacto. Os Estados Unidos defenderam o lançamento de duas bombas atômicas sobre cidades japonesas em 1945. A Guerra Fria foi justificada por Estados Unidos e União Soviética. Atos indefensáveis contam sempre com justificativas ideológicas.
Geralmente, são mentirosas. Se vale argumentar que a Ucrânia é parte histórica da Rússia, o mesmo país pode reivindicar o Alasca. O Brasil pode reivindicar a Uruguai e a Guiana, pois são países que já integraram o país. As nações colonialistas da Europa Ocidental podem reivindicar suas ex-colônias na África. Por outro lado, podemos condenar a existência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) porque ele foi criado durante a Guerra Fria, que não existe (ia) mais. Alega-se que a organização é o órgão de defesa da União Europeia. Neste caso, Estados Unidos e Canadá deveriam ser excluídos.
Argumenta-se também que, em pleno século XXI (como se tempo fosse argumento sólidos), não cabe mais uma guerra convencional, com invasão de um país por outro. Pode não caber na Europa, mas cabe ainda no Oriente Médio, o maior campo de guerra dos últimos cem anos. França, Inglaterra, União Soviética e Estados Unidos não hesitaram em invadir países do Oriente Médio, considerando uma área atrasada do mundo em que invasões e guerras são justificáveis. Iraque, Afeganistão, Iêmen, Síria, Líbano e Palestina podem ser invadidos e bombardeados. Já Israel, não, por se tratar de um país europeu fora da Europa.
A esquerda sente nostalgia pela União Soviética. Afinal, foi a entidade política que prometeu acabar com o capitalismo e implantar o comunismo mundial. Não conseguiu nem o comunismo num só país. Assim, fica difícil para a esquerda nostálgica admitir que Putin é um político autocrata, conservador e moralista. Fica fácil colocar o selo de nazista no presidente da Ucrânia. A simplificação é uma operação mental que facilita posicionamentos.
Com base nesses argumentos, tenho condição de me posicionar, mas não o farei.
“A Câmara vai ser forte. Diferente dessa presidência (…) de hoje, que tenta jogar contra a população pautando aumento de impostos e servindo de puxadinho da Prefeitura”. Foi o que projetou para o biênio 2023/2024 o vereador de oposição Marquinho Bacellar (SD). Ele venceu a eleição a presidente da Câmara Municipal de Campos por 13 votos a 12 na sessão do dia 15. O resultado chegou a ser proclamado pelo atual presidente, o situacionista Fábio Ribeiro (PSD). Que foi derrotado no voto em sua tentativa de reeleição, junto com o governo Wladimir Garotinho (PSD). Fábio poderia ter marcado o pleito até 15 de dezembro, mas resolveu adiantá-lo nove meses.
Marquinho Bacellar, vereador de oposição eleito no voto presidente da Câmara no dia 15, em pleito anulado pela atual Mesa Diretora no dia 24 (Foto: Divulgação)
Folha da Manhã – O voto de Nildo em você a presidente da Câmara, na sessão do dia 15, não foi registrado em ata. Mas ele declarou na tribuna que era seu, na sua vitória por 13 votos a 12. No dia 24, por 3 votos a 1, a atual Mesa Diretora da Câmara entendeu que o voto dele não valia. E anulou sua eleição a presidente da Casa em 2023/2024. A judicialização agora é inevitável?
Marquinho Bacellar – Estamos vendo uma das maiores vergonhas da história da Câmara de Campos. Perderam no voto, em uma eleição que eles anteciparam, e estão criando essa cortina de fumaça. O resultado não vai mudar. A maioria venceu e isso não tem discussão. Tenho certeza de que não vai mudar. Agora temos que seguir a votação para os outros cargos da Mesa.
Marquinho – O grupo de Garotinho vive um canibalismo eterno. É um querendo engolir o outro o tempo todo. Mas eles adiantaram porque são prepotentes, arrogantes e achavam que iriam vencer. Tudo foi feito na calada e com o consentimento do prefeito, que também é, desde o início do governo, um exemplo de prepotência, soberba e incompetência.
Marquinho – Há um entendimento até pelo jurídico da Câmara de que essa eleição deve continuar para que a pauta, posteriormente, siga seu rumo natural.
Folha – A sua eleição se deu com a traição de Maicon, que assinou termo de compromisso pela eleição de Fábio, mas votou em você. Agora veio essa anulação, no tapetão, do resultado do voto dos vereadores. Quando a política de Campos vai se pautar por parâmetros mais dignos?
Marquinho – Disputei a eleição para a presidência da Câmara e venci com o apoio de (outros) 12 vereadores. Quem antecipou e perdeu foi o grupo do prefeito. Antes da votação, membros do grupo do prefeito xingaram e atacaram o vereador Maicon Cruz. E depois choram porque ele votou contra? Enquanto houver um Garotinho no poder não vamos ver parâmetros dignos em Campos. Essa é a verdade. Qualquer campista sabe que eles fazem de tudo pelo poder. E quanto à “traição”, o vereador foi colocado dentro de uma sala fechada, sem acesso ao próprio celular, sendo coagido a votar em um candidato. Ele assinou um documento sem validade alguma, por medo. Eu não trato o caso como traição. Trato como coragem de quem se coloca de frente para encarar um grupo político que já fez tanta maldade na cidade.
Folha – Após sua eleição a presidente da Câmara, você agradeceu por ela à articulação do seu irmão, o secretário estadual de Governo Rodrigo, e de Caio Vianna, secretário municipal de Niterói. Como se deu o trabalho deles?
Marquinho – Ao contrário de Wladimir, que é um menino mimado e birrento, que só desagrega, meu irmão Rodrigo Bacellar e Caio Vianna sabem que o momento pode união de forças. Prova disso é que temos o apoio de novas e antigas forças políticas da cidade. Já o prefeito segue cada vez mais sozinho com sua arrogância. Quem achava que ele era diferente do pai, agora está vendo. Se bobear, Wladimir é pior do que Garotinho. O nível de imaturidade dele é assustador. E cabe lembrar que, em 2021, na eleição para o primeiro biênio, tanto o Caio (que, na verdade, fez um acordo com o grupo de Wladimir para dar ao governo a vitória na Mesa Diretora no biênio 2021/2022) quanto o meu irmão orientaram os seus grupos políticos a votarem como quisessem, com o objetivo de dar governabilidade ao governo que iniciava. Mas os dois viram que o prefeito não queria governabilidade, e, sim, uma Câmara que fosse subserviente às ordens dele.
Folha – Rodrigo e Caio chegaram a anunciar uma aliança para 2020, que se desfez antes de começar a campanha. Se ela tivesse se mantido, o resultado daquela eleição a prefeito teria sido diferente? Refeita agora na Câmara, essa união pode durar até o pleito de 2024?
Folha – Em 2020, a aliança com Caio teria se desfeito porque Rodrigo queria indicar o nome a vice-prefeito e, após a eleição da Câmara, o nome para presidi-la. O que tornaria o pedetista, se eleito, refém do seu grupo. Para 2024, quais termos deveriam ser buscados a um acordo?
Marquinho – A aliança se desfez porque nosso grupo optou por lançar uma candidatura (na verdade, a ruptura de Rodrigo com Caio se deu em março de 2020 e, só cinco meses depois, em agosto daquele ano, a candidatura de Dr. Bruno Calil foi lançada). Sempre tive uma excelente relação com Caio e todos amadurecemos muito. Agora temos que seguir juntos, mas sem ficar pensando em eleição de 2024. Temos eleição este ano com Rodrigo buscando a reeleição na Alerj e Caio como pré-candidato a deputado federal. O pensamento agora é no fortalecimento de um grupo para trazer recursos e ajudar o nosso município.
Folha – Campos saiu de 2020 dividida em três polos políticos: Wladimir, prefeito; Caio, que fez um segundo turno muito duro; e Rodrigo, deputado estadual que, em 2021, ganhou a musculatura do Segov. Se dois desses polos se unirem, o terceiro perde? Há espaço para um quarto?
Marquinho – Como eu disse, não se trata de uma união contra o prefeito. O maior adversário de Wladimir é ele, mesmo. A derrota ali é de dentro para fora. Vamos dialogar não só com Caio, mas com outros quadros que ofereçam alternativas e nos ajudem a conduzir Campos para um caminho de desenvolvimento e libertação.
Folha – A perda de popularidade de Rafael em 2020 impressionou tanto quanto a votação que o elegeu prefeito no turno único em 2016. O ex-prefeito pode voltar ao jogo como protagonista? Como reage às acusações de que grupo político dele hoje estaria abrigado no seu?
Marquinho – Rafael encontrou uma cidade destruída, quebrada, saqueada. E cometeu erros. Poderia ter escolhido alguns quadros diferentes e dialogado mais com a população. Sobre ele voltar ao jogo, depende dele, de forma gradual. Mas vamos pensar aqui. Garotinho foi preso cinco vezes e está aí, querendo voltar ao jogo. E Rafael, que teve seus erros, não pode voltar? Em relação aos quadros, é natural alguns que estejam não só em nosso grupo, como também na Prefeitura.
Folha – Dos 25 vereadores, até maio de 2021, você era a voz de oposição mais forte na Câmara. Caso você confirme na Justiça sua eleição, confirmando depois uma Mesa toda da oposição, Wladimir deve temer ser engessado ou até um impeachment?
Marquinho – Ele vai ver que não estamos aqui para perseguir. Vai ver que não precisa nos medir pela régua deles. Nosso mandato será pautado pela firmeza, mas com respeito. E por falar em respeito, foi o que faltou por parte do poder público até agora. O prefeito trata vereadores como capachos. Isso vai mudar. A Câmara vai deixar de ser um puxadinho da Prefeitura e fazer valer a sua força em defesa de Campos.
Marquinho – Essa aí é a narrativa de Wladimir e do Chucky (nome do personagem que batiza uma franquia de filmes de terror, com o qual o então vereador Marcos Bacellar apelidou o ex-governador) Garotinho. Veja como Mocaiber trata o meu pai até hoje. Com carinho e respeito. Pergunte na Câmara aos funcionários da Casa sobre o carinho que todos têm pelo meu pai. O que aconteceu ali foi que o meu pai não aceitou entrar na armação de Garotinho contra Mocaiber (mesmo com policiais federais tentando intimá-lo a não o fazer, Bacellar garantiu na Câmara a recondução de Mocaiber ao cargo de prefeito, após este ser afastado na Telhado de Vidro). Eles perderam no voto na suplementar de 2006 e tentaram tomar Campos no tapetão. Veja então quem são os que gostam de golpe e de emparedar. Quem emparedou e extorquiu alguém em Campos foi Garotinho, que mandou segurança armado na casa de um empresário para pedir R$ 500 mil (como foi denunciado na operação Caixa D’Água, derivada da Laja Lato, que rendeu a Garotinho a terceira das suas cinco prisões). Quem diz isso é próprio empresário, e isso foi amplamente divulgado. Entre nós não existe tática para emparedar o prefeito. Isso é choro de quem quer justificar o fracasso que é o seu governo.
Marquinho – Esse senhor tem credibilidade para falar o quê? Preso cinco vezes, alvo de centenas de processos, ficha suja e quadrilheiro. Ele só está criando desculpas para justificar seu instinto de escorpião e para fazer chantagens.
Folha – Além de tentar reeleger Rodrigo com uma bela votação a deputado estadual e Castro a governador, quais são os objetivos do seu grupo nas eleições de outubro? Seu pai, Marcos Bacellar, veio do sindicalismo, como Lula. E a aliança de Castro com o presidente Bolsonaro?
Marquinho – Vamos trabalhar muito para reeleger Cláudio Castro e Rodrigo. E temos que reconhecer a importância do governador para Campos e região. Fez em pouco tempo o que não fizeram em décadas. Reabriu o Restaurante do Povo, envio recursos para colocar salários dos servidores de Campos em dia, ajudou a Saúde, limpou canais, trouxe com Rodrigo Bacellar o Segurança Presente, campo do Farol, recuperou estradas, entre muitas outras ações em curso, como a reforma do HGG. Sobre a política nacional, temos aliados que pensam de uma forma, outros com outras linhas. Mas somos grupo e vamos debater com nossas lideranças.
Folha – Caso confirme sua eleição na Justiça, ou numa nova eleição, qual seria seu principal objetivo como presidente da Câmara?
Marquinho – Nossa eleição está confirmada. O resto é choro, jogo sujo e tentativa de golpe. Nosso objetivo é acabar com essa história de Câmara ajoelhada aos pés do prefeito. A Câmara vai ser forte e participar de debates sobre desenvolvimento, geração de empregos, Saúde, Segurança e Educação. Diferente dessa presidência da Câmara de hoje, que tenta jogar contra a população pautando aumento de impostos e servindo de puxadinho da Prefeitura.
Prefeito Wladimir Garotinho e os vereadores Maicon Cruz, Fábio Ribeiro, Marquinho Bacellar e Luciano Rio Lu (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
“Vou mandar vereadores para a Ucrânia”
“Vou mandar os vereadores lá para a Ucrânia. Vocês têm o Wladimir de boa e lá tem o Vladimir Putin. Mas, se precisar, a gente vira o Putin também”. Foi o que disse na noite de quinta (24) o prefeito Wladimir Garotinho (PSD), em discurso na inauguração da Vila Olímpica Valdir Pereira, no Parque Guarus. Com o mundo inteiro atento à injustificada invasão da Rússia de Vladimir Putin à nação vizinha e independente da Ucrânia, se foi uma brincadeira, foi de péssimo gosto. Gostando ou não da decisão dos vereadores, sobretudo da oposição, o prefeito é obrigado a respeitá-los. Como a democracia à qual seu xará russo tem tão pouco apreço.
Wladimir falou mais: “Tem outros por aí, como o vereador do grau, que teve a chance de ouro de estar ao nosso lado para ajudar ao povo do Eldorado, mas preferiu se vender. Ele esteve na minha antessala, na véspera da eleição, pedindo dinheiro. E eu falei: ‘Pode ir, pode ir com Deus, pois o dinheiro que nós temos é para fazer obra e cuidar do povo’”. Referiu-se ao edil Luciano Rio Lu (PDT), que tem sua base no Eldorado e já apresentou requerimento para oficializar a prática do “grau”. Ou conduzir motos empinadas numa só roda. Rio Lu chamou de “esporte” o que é crime pelos artigos 291, I e 308 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB).
Apressado come cru
De São João da Barra, Maicon foi lá candidato a vereador derrotado duas vezes. Ganhou projeção em Campos como coordenador do secretário estadual de Educação do governo Wilson Witzel (PSC), Pedro Fernandes, preso em setembro de 2020. Aos 31 anos, Maicon talvez ainda não tenha projetado seu ato. Trair sua palavra pode ser hoje até defendido pelos beneficiados. Mas será lembrado quando o aliado virar opositor. Foi tão ingênuo e imediatista quanto o experiente Fábio Ribeiro. Por ter apostado sua eleição na palavra de alguém que foi avisado antes, por quem conhece Maicon desde criança, que não tinha motivo para confiar.
Ônus da prova é de quem acusa
A acusação mais grave de Wladimir, no entanto, foi ao “vereador do grau” do Eldorado. Como a referência parece clara, afirmar que o parlamentar “preferiu se vender” e que “esteve na minha antessala, na véspera da eleição, pedindo dinheiro” são gravíssimas. Ainda que a segunda versão estivesse sendo ventilada nos bastidores e redes sociais, antes mesmo da votação do dia 15, o ônus da prova é de quem acusa. Sobretudo quando tal denúncia é feita por uma autoridade, publicamente, em um ato oficial. Se tem provas do que diz, deveria ter feito a denúncia oficialmente. Se não tem, pode ter que responder judicialmente sobre isso.
“Às vezes, se fala na brutalidade animal do ser humano, mas isso é incrivelmente injusto e insultante para as feras; um animal nunca poderia ser tão cruel como o ser humano, tão artisticamente cruel”
(Fiódor Dostoiévski, em “Os Irmãos Karamazov”)
Vladimir Putin, faixa-preta de judô, exibe sessentão o torso atlético sem camisa, como costumava fazer o ditador fascista italiano Benito Mussolini (Foto: Ria-Novosti/AFP)
Morto no último dia 15, o cineasta e jornalista Arnaldo Jabor definiu talvez a grande lição sobre os atentados do terrorismo islâmico às Torres Gêmeas do World Trade Center, na Nova York de 11 de setembro de 2001:
— Deus está vivo. E se chama Alá.
Nova York, 11 de setembro de 2001 (Foto: Reprodução de TV)
Arnaldo Jabor, cineasta e jornalista
Descendente de imigrantes judeus libaneses, educado em colégio de jesuítas e ateu, Jabor alertava que o ataque ao coração do novo Império Romano era a realidade esbofeteando a cara de todo o Ocidente. Soberbo na leitura porca do filósofo alemão Friederich Nietzsche, que no século 19 decretou: “Deus está morto”. Arrogante com o “fim da História” decretada pelo filósofo e economista liberal Francis Fukuyama, logo após a dissolução da comunista União Soviética em 1991.
Para quem passou por Renascimento, Reforma, colonização das Américas e Iluminismo, talvez. A quem, sem passar por nada disso, chegou às mesmas revoluções industrial e digital, não. Cada qual com suas particularidades, são os casos das civilizações Islâmica, Chinesa e Indiana. Que dividem o mesmo mundo e tempo conosco, Ocidente greco-romano-judaico-cristão. Fruto também deste, muito antes de ser a principal herdeira soviética, a Rússia é também um hibridismo geográfico e antropológico: enclave europeu espraiado por toda a latitude gigantesca da Ásia. Nela, é tão eslava, viking e católica ortodoxa, quanto mongol, tártara e islâmica.
As civilizações são diferentes. Como não são iguais os países. Prova disso foi dada na noite de ontem, quando o Conselho de Segurança da ONU, reunido na Nova York capada das Torres Gêmeas, vetou a resolução pela condenação da invasão injustificada da Rússia de Vladimir Putin, na madrugada brasileira de quinta, à vizinha e até então soberana Ucrânia. Dos 15 países votantes, 11 foram a favor, incluindo o Brasil de um Bolsonaro com medo de outubro, três se abstiveram. Como, então, foi reprovada? Simples. Só cinco têm assento permanente no Conselho e o poder unitário de veto: EUA, Grã-Bretanha, França, China e Rússia. Esta, por óbvio, vetou.
Embaixador da Rússia no Conselho de Segurança da ONU, Vasily Nebenzya vetou na noite de ontem a resolução pela condenação da invasão injustificada à Ucrânia
Glauber Rocha, cineasta baiano
A Ucrânia não é só vizinha da Rússia. É sua irmã mais velha. Está para Rússia como a Bahia ao Brasil. Foi lá que tudo começou. E para quem acha que todo baiano é brasileiro, fica a autodefinição do cineasta Glauber Rocha aos seus anfitriões no tempo de exílio em Cuba, no auge da ditadura militar no Brasil, retratada no documentário “Rocha que Voa” (2002), dirigido por seu filho Eryk Rocha: “Eu não sou brasileiro, eu sou baiano”. A primeira vez que o nome Rússia surgiu nos mapas, na Idade Média do século 9, foi como Rússia de Quieve — e Kiev, desde ontem cercada pelo rápido avanço militar russo, é até hoje a capital da Ucrânia.
Ucrânia e Rússia de hoje nasceram juntas na Rússia de Quieve, juntando eslavos orientais e vikings suecos no século 9 (Mapa: Wikipédia Brasil)
No tempo dos czares de todas as Rússias, do século 18 à Revolução Russa de 1917, Rússia e Ucrânia formaram o mesmo país. E continuaram juntas na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que chegou ao fim em 1991. Foi justamente quando três destas repúblicas se tornaram independentes: Ucrânia, Rússia e Bielorússia (ou Belarus). Esta, hoje governada pelo autocrata tresloucado Aleksandr Lukashenko, aliado de Putin e chamado de “o último ditador da Europa”, que franqueou o caminho para os russos a Kiev. Confiante na fraternidade ancestral da sua relação com a Rússia, a Ucrânia se separou e passou a ela todo o arsenal nuclear instalado em seu território pela URSS. Quando o fez, de bom grado, a Ucrânia era a terceira potência atômica do mundo, atrás apenas da Rússia e dos EUA.
Após sair da União Soviética como terceira potência atômica do mundo, a Ucrânia desmontou seus silos de mísseis nucleares nos anos 1990, passando-os para a Rússia
Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia
Se a Ucrânia tivesse mantido seu arsenal nuclear, do qual era tão herdeira quanto a Rússia, Putin hoje desinflaria o peito de pombo, arrulhando enquanto finge rosnar. O país foi ingênuo há 31 anos. Como foi ingênuo seu ainda presidente, o ex-comediante Volodymyr Zelensky. Por acreditar que, sem pertencer à Otan, o Ocidente viria em sua ajuda na guerra contra o Golias que a Ucrânia enfrenta sozinha. Como Davi, mas sem as mesmas virtudes bélicas do rei da Antiga Israel, Zelensky é judeu. E é acusado por Putin, ex-agente da Gestapo soviética da KGB, de ser neonazista. Se a URSS perdeu 20 milhões de vidas para derrotar a Alemanha Nazista na II Guerra, 8 milhões dessas almas eram ucranianas. Foi às margens do mesmo rio Dniepre que os tanques russos cruzam agora na Ucrânia, que os avôs dos antagonistas de hoje, juntos, derrotaram os nazistas em 1943, numa das maiores batalhas de blindados da História.
Avôs dos soldados que hoje se enfrentam em lados opostos, russos e ucranianos atravessam juntos o rio Dniepre na Ucrânia de 1943, para vencer o nazismo na II Guerra
Capaz de matar dissidentes russos envenenados até na Inglaterra, de proibir que as russas deem queixa se agredidas fisicamente pelos maridos e de agora reprimir com a polícia as centenas de manifestações na Rússia contra sua invasão à Ucrânia, Putin é moralmente indefensável. A Rússia, não. Após a queda do Muro de Berlim em 1989, os EUA e a Alemanha temiam que a URSS fosse reagir militarmente, como fez na invasão da Hungria em 1956 e da ex-Tchecoslováquia em 1968. Último presidente soviético, Mikhail Gorbatchov ouviu o pedido, feito em 1990 por James Baker, então secretário de Estado dos EUA no governo George Bush pai, e pelo então chanceler da Alemanha, Helmut Kohl, de não intervir na reunificação germânica. A URSS prometeu não se meter. E cumpriu. Em troca, Gorbachov pediu que a Otan não agregasse países da área de influência soviética. Os EUA não cumpriram. Onze países do extinto Pacto de Varsóvia, feito pela URSS em resposta à Otan, hoje integram esta.
James Baker, secretário de Estado dos EUA, discute em 1990 a reunificação da Alemanha com o último presidente soviético, Mikhail Gorbachov (Foto: The Baker Institute)
Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia
Os interesses geopolíticos da Rússia são moralmente justos. Os métodos de Putin, não. Mas, ainda que seja um canalha amoral, ele também mostrou ser uma águia geopolítica nestes seus 22 anos no poder. Como seu ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, tem só meio século de experiência. Com uma aliada China para chamar de sua e o recorde de US$ 630 bilhões em reservas cambiais, a Rússia guardou gordura para sobreviver às sanções econômicas do Ocidente sem passar fome no inverno da guerra. Esta sempre tem por característica a imposição cruel da realidade esbofeteando a face das idealizações.
Presidentes da Rússia e da China, respectivamente, Vladimir Putin e Xi Jinping (Foto: Sputnik/Ramil Sitdikov/Kremlin via Reuters)
Em se tratando de um combate, olhar para Putin e Lavrov em um canto do ringue e, no outro, um Emmanuel Macron preocupado com as eleições presidenciais da França em abril, um Boris Johnson aliviado por desviar as atenções dos comes e bebes que promoveu enquanto determinava à Grã-Bretanha isolamento social na pandemia da Covid, um Olaf Scholz que acabou de assumir como chanceler da Alemanha sob a sombra densa da sua antecessora Angela Merkel, e um Joe Biden humilhado pela retirada desastrosa dos EUA do Afeganistão, quem apostaria contra os dois primeiros? Biden, que derrotou nas urnas de 2020 um Donald Trump aliado de Putin, parece ser o adversário perfeito para este. Aos 79 anos, é moderado, empático, defensor da energia limpa, das minorias étnicas e de orientação sexual.
Emmanuel Macron, Boris Johnson, Olaf Scholz e Joe Biden (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Assertivo, frio, exportador do gás que aquece o resto da Europa durante o inverno rigoroso deles, pragmático com as minorias étnicas e perseguidor da sua população LGBT, na defesa da “família tradicional”, Putin ainda assim consegue ser defendido por parte da esquerda mundial. Que é viúva, como a própria Rússia, do Muro de Berlim e da URSS. Na paráfrase de Jabor, a figura e os atos do autocrata russo bradam:
— O macho alfa está vivo. E se chama Putin.
Irmãos ucranianos e campeões mundiais peso pesado de boxe profissional, Vitali e Wladimir Klitchsko dominaram o esporte por mais de duas décadas
Ao se alistarem heroicamente na defesa armada do seu país contra a invasão russa, os irmãos e ex-campeões Vitali e Wladimir Klitschko dominaram o mundo do boxe peso pesado profissional entre os anos 1990 e 2010. Vitali é o prefeito de Kiev. Seja na política ou no ringue, os dois sabem bem que luta não é briga. A contagem já está aberta. Na lona, como depois do 11 de setembro, o mundo que se levantar nunca mais será o mesmo.
Helinho também analisará qual será agora o caminho político da oposição no Legislativo goitacá. Por fim, ele dará sua projeção às urnas de outubro a deputado estadual e federal, governador do RJ e presidente da República.
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Dona Aída da Rocha Siqueira faleceu no último sábado, dia 19, mesmo dia em que completou 98 anos. Fez a passagem em casa, como queria e onde toda a estrutura hospitalar tinha sido instalada. Após uma infecção por Covid — para a qual tinha tomado as três doses de vacina — cerca de um mês antes de morrer, ela não resistiu à falência múltipla dos órgãos. Foi velada e sepultada na tarde de domingo (20), no Campo da Paz.
Dona Aída deixou os filhos Francisco Roberto, Sebastião José, Jayme Cézar, Silvana Dorotéa e Sheilla Siqueira; 15 netos e 16 bisnetos. E o legado de uma vida digna. Que hoje foi lembrado por sua filha Silvana, a SilSiqueira, amiga muito querida e escritora, em texto que segue abaixo na transcrição pungente do que foi e permanecerá sendo a sua mãe:
Silvana e Aída Siqueira (Foto: Arquivo de Família)
Mãe
Foi num dia de domingo, como cantava Tim Maia, de quem ela era fã.
Foi depois de uma vitória por 3 x 0 do Fluminense, “o melhor time”, como ela dizia.
Praticante de yoga até os seus 90 e poucos anos, colecionava imagem do Ganesha e lia sobre a vida de Yogananda. Fomos a San Diego, nos Estados Unidos, para ela visitar a casa onde o Yogue passou os seus últimos dias. Um sonho realizado.
Católica, devota de São José, contribuía religiosamente com a Canção Nova. Também lia a sorte no tarô e via o futuro na bola de cristal. Era múltipla!
Considerava o mundo um celeiro de oportunidades no qual deveríamos estar abertos ao conhecimento e às novas experiências.
Corajosa. Independente. Ousava!
Nos anos 60 montou um estúdio de beleza na casa da rua do Gás onde atendia às amigas: limpeza e tratamento da pele. Vendia Avon. Sempre foi muito vaidosa.
Academia de ginástica, musculação, pilates. Era puro movimento!
Quando menina, tinha sonho de ser bailarina. Mas a família desaprovava: moça direita não dança.
Um cafezinho era sempre bem-vindo. Só não podia ser “café rosita” — uma das expressões criadas por ela para designar um café frio. Criou outras, que somente a família entendia: chapelão, amara, catatau, caboio, balançou a roseira, Chico Russo, entre tantas.
Comia pouco. No passado foi adepta da alimentação macrobiótica e nos ensinou que açúcar e sal não são benéficos à saúde.
Não gostava de sol. Afirmava que envelhecia. E se besuntava de cremes e mais cremes, chapéu, óculos escuros para proteger e preservar a beleza da pele. Ir à praia era um sacrifício para ela.
Por onde passava deixava um rastro de alegria. Era um espírito livre de preconceitos, muito humana, sempre acolheu as pessoas sem rotular, sem julgar.
Carregava uma bondade inocente.
Tinha alma de artista! Tinha talento nato.
Começou a desenhar quando ainda era muito pequena; usando carvão queimado, ensaiava os primeiros traços. Saltou do carvão para os pincéis e deixou um acervo magnífico de porcelanas e telas assinadas com muito orgulho.
Com o passar dos anos foi perdendo a audição, mas não a vaidade. Aparelho auditivo? Apenas intra-auricular. E, contrariando todas as premissas, comprou um violão e contratou um professor particular. Sonhava tocar “Como é grande o meu amor por você”.
Ficou viúva aos 83 anos. Viveu o luto honrando o grande parceiro de vida. Deu a volta por cima dedicando-se aos filhos, netos, bisnetos e, principalmente, a si mesma.
Viajou meio mundo. Do calor de Corumbá ao frio da Suíça, aproveitou cada oportunidade.
“Esquenta a cabeça, não!” era quase que um mantra. Muito otimista, tinha sempre uma palavra suave, um conselho sábio, uma saída certeira para um problema que nos afligisse.
Era detentora da sabedoria das crianças.
Deixou no cavalete uma tela inacabada. São rosas que não falam, mas exalam o perfume da pessoa maravilhosa que foi.
Finalizo com o trecho de uma canção que eu costumava cantar para ela:
“ Não se admire se um dia, um beija-flor invadir a porta da sua casa, te der um beijo e partir … fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo, faz tempo que eu não te vejo, ai que saudade d’ocê”.
Juninho falará também da suspensão da eleição do resto da Mesa Diretora e de como isso tem deixado a Câmara sem sessões, como ocorreu ontem (22) e hoje (23). Por fim ele dará sua projeção às urnas de outubro a deputado, governador do RJ e presidente da República.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Geraldo Sarno na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em 2020 (Foto: Leo Lara/Universo Produção)
“Eu sou baiano. Lógico que também adoro Castro Alves. Mas não dá para escrever poesia, como os românticos do século 19, à beira do século 21. Você tem que ler o João Cabral, tem que ler o João Cabral. Aqui, aqui, pegue e leia, pegue e leia”. Naquela primeira metade dos anos 1990, foi o que me disse o cineasta Geraldo Sarno, em seu apartamento no edifício Salete, tomado por prateleiras de livros até nos banheiros. Falou com seu acento baiano e repetindo as palavras, como fazia quando queria reforçar a importância do que dizia, enquanto me dava para ler, página do livro aberta, o poema “O Cão Sem Plumas”, do mestre pernambucano João Cabral de Melo Neto. Foi meu primeiro contato com o grande poeta modernista brasileiro. Depois do qual meus versos e minha vida, então com pouco mais de 20 anos, nunca mais seriam os mesmos.
Poetas baiano Castro Alves e pernambucano João Cabral de Melo Neto (Montagem; Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Glauber Rocha, diretor de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964)
Soube na manhã de hoje pela imprensa nacional que Geraldo morreu na noite de ontem (23) aos 83 anos, por complicações de Covid, no Hospital Copa D’Or, no Rio. Amigo, conterrâneo, contemporâneo e camarada em armas de Glauber Rocha, a quem considerava o único gênio que conheceu em vida, era ele mesmo considerado o maior cineasta documentarista do Cinema Novo, movimento dos anos 1960 e 1970 que, influenciado pelo neorrealismo italiano de a Nouvelle Vague francesa, buscava romper com a influência do cinema comercial de Hollywood para retratar e discutir nas telas as abissais diferenças socioeconômicas do Brasil. Em uma entrevista, o diretor Héctor Babenco, argentino naturalizado brasileiro, revelou que decidiu sair da Argentina ao Brasil após assistir ao curta de documentário “Viramundo” (1965), de Geraldo, que trata da migração dos nordestinos como ele ao centro-sul do país.
Confira abaixo “Viramundo”, com direção e narração de Geraldo Sarno:
Darcy Ribeiro, antropólogo e idealizador da Uenf
Enquanto trabalhou na Uenf, de 1993 a 1998, Geraldo também marcou a história recente de Campos. E, talvez irrelevante, a minha. Ele meio que meio que me “adotou” como filho quando trabalhamos juntos na Uenf. Pouco depois que a universidade idealizada pelo antropólogo Darcy Ribeiro se instalou em Campos, prestei concurso para auxiliar de fonoteca naqueles tempos pré-Spotfy, para a Casa de Cultura Villa Maria. Cinéfilo, minha intenção era, uma vez dentro, tentar me aproximar do projeto do Escola Brasileira de Cinema e Televisão (EBCTV). Do qual Geraldo era figura de proa e ao qual o Solar do Colégio, primeira construção de Campos, no século 17, pelos jesuítas, seria reformado no governo estadual Marcello Alencar (PSDB). A ideia era reproduzir aqui o modelo de internato da Escola de Cinema de Cuba. Muito antes de abrigar o Arquivo Público Municipal, estive presente na inauguração da reforma do prédio histórico. Como teria a chance de visitá-lo em várias outras oportunidades.
Arquivo Público de Campos, instalado no Solar do Colégio, construído pelos jesuítas no séc. 17 e reformado nos anos 1990 para abrigar a Escola Brasileira de Cinema e Televisão (EBCTV) da Uenf (Foto: Folha da Manhã)
Joca Muylaert, jornalista e ex-diretor da Villa Maria
Dos canaviais cubanos aos campistas, eram três vagas incialmente. E fiquei em quarto lugar, entre algumas centenas de candidatos. Alguns meses depois, cruzei por acaso com o hoje falecido jornalista e amigo Joca Muylaert no Oásis, numa parada entre Campos e o Rio de Janeiro. Diretor à época da Villa Maria e sabendo que eu havia prestado o concurso, raspando na aprovação, ele me disse que estava pensando em reconvocar mais pessoas para trabalhar. O que se cumpriu pouco depois, facultando minha entrada na Uenf.
Orlando Senna, cineasta, ex-diretor da Escola de Cinema de Cuba e da EBCTV
Aproximei-me do Geraldo, que frequentava a Villa Maria. Por coincidência, ele estava buscando realizar lá vários cursos preparatórios aos candidatos campistas para a vinda da Escola de Cinema, em áreas como direção, produção, roteiro, montagem, iluminação, fotografia, interpretação. Para os quais trouxe a Campos várias referências dessas áreas no Brasil e na América Latina. Colei com Geraldo e fui me integrando às suas atividades, ao lado também do produtor cubano Alfredo Calvino e da diretora argentina Patricia Martin. Quem estava à frente do projeto era outro cineasta baiano, Orlando Senna, amigo já de longa data de Geraldo e ex-diretor da Escola de Cinema de Cuba.
Cena do documentário “O Homem de Aran”, de Robert Flaherty
Apesar de feito como filme de propaganda nazista, “Olympia”, de Leni Riefenstahl, imortaliza o herói da Olimpíadas de 1936 em Berlim, o negro dos EUA Jesse Owens, que conquistou quatro medalhas de ouro
Além de Cabral na poesia, lida a que sempre me estimulou, Geraldo me apresentou outros mestres, que ampliariam muito a minha visão ainda juvenil do mundo. Na sua especialidade, que era o cinema documentário, me apresentou o mestre estadunidense Robert Flaherty, cuja obra prima “O Homem de Aran” (1934), sobre a vida dura de pescadores dos gigantescos tubarões Basking numa ilha irlandesa, seguramente está até hoje entre os 10 melhores filmes que assisti. Também me apresentou à estética revolucionária dos filmes de propaganda nazista da mestra alemã Leni Riefenstahl, nos documentários “Triunfo da Vontade” (1935), sobre o Congresso do Partido Nazista de 1934 na cidade de Nuremberg, e “Olympia” (1938), sobre as Olimpíadas de Berlim de 1936. Seu cineasta preferido era o mestre soviético (hoje, letão) da ficção Serguei Eisenstein, do qual já conhecia o aclamado “Encouraçado Potemkin” (1925). Mas Geraldo me mostrou também “Outubro” (1927), refilmagem 10 anos depois da revolução Russa de 1917, com os mesmos protagonistas do fato real.
“Outubro”, de Serguei Eisenstein, diretor preferido de Geraldo Sarno, filmado em 1927 para celebrar os 10 anos da Revolução Russa de 1917, com seus atores reais
Alberto Salvá, diretor de “A Menina do Lado”, sucesso brasileiro de 1987
Entre um filme e outro, um livro e outro, uma dica sobre a arte e a vida aqui e ali, Geraldo me propiciou também outros encontros. Nos cursos preparatórios gratuitos na Villa Maria para a vinda da EBCTV, lembro de uma conversa longa que mantive com o hoje falecido cineasta Alberto Salvá, espanhol radicado no Brasil, diretor do grande sucesso “A Menina do Lado” (1987), com Reginaldo Faria e que lançaria Flávia Monteiro, musa “Lolita” dos anos 1980 e 1990. Salvá conferia a exibição do filme que tinha preparado para ministrar o curso, com várias cenas marcantes do cinema. Na escolhida por ele do clássico musical “Cantando na Chuva” (1952), de Stanley Dolan e Gene Kelly, no lugar da cena icônica com o canto e a dança de Kelly que batiza o filme, ele optou por outra. Após alguns segundos de exibição, no início da melodia, cravei: “‘Make ‘Em Laugh’ (“Faça-os Rir”), com Donald O’Connor”. Impressionado, Salvá aprovou: “Você também é um cinéfilo!”. Algumas horas depois, no meio do curso, ele reforçou meu orgulho quando contou a história a todos os presentes ao exibir a cena. Quando o diretor morreu, em 2011, já com as facilidades do YouTube, coloquei a cena de O’Connor para lembrar daquele feliz encontro, quase 20 anos antes, na Villa. E, no lugar de chorar sozinho pelo que tinha ficado para trás, ri.
Tito Almejeiras, ator e produtor argentino
Lembro também que era uma noite de 1993, novamente no apartamento de Geraldo no Salete, porque assistíamos na TV da sala, em sua primeira exibição naquele ano, a minissérie da Rede Globo “Agosto”, ficção sobre o entorno do suicídio de Getúlio Vargas baseada no romance homônimo de Rubem Fonseca. Estávamos Geraldo, eu e um amigo dele, o produtor e ator argentino Tito Almejeiras, que tinha vindo a Campos dar um curso de produção na Villa. Mesmo sendo os dois de uma geração que, com o Cinema Novo, rompeu com a influência anterior de Hollywood nas populares chanchadas brasileiras da Atlântida, da qual Carlos Manga, produtor da minissérie global, era egresso, Geraldo exclamou sobre ele, enquanto observava atento a TV: “O velho está afiado!”. Ao que Tito concordou, no braço geracional a torcer: “É verdade!”.
Com a deixa, provoquei os dois, afirmando que o mestre John Ford, ao estabelecer a mitologia dos EUA com seus westerns, tinha marcado mais o cinema do que o marxismo também genial de Eisenstein. Geraldo era zen e não comprou a briga. Mas Tito reagiu em seu portunhol: “John Ford glorificou a matança sangrenta dos índios nos EUA”. Ao que respondi: “Se é para falar de derramamento de sangue, não há ninguém melhor que os espanhóis”. O descendente de espanhóis baixou a guarda e aquiesceu, reflexivo, com o mesmo: “É verdade!”.
Gênios do cinema da União Soviética e dos Estados Unidos, respectivamente, Serguei Eisenstein e John Ford (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
“Perfume de Gardênia”, de Guilherme de Almeida Prado, lançado pelo diretor no antigo Cinema Goitacá
No auge daqueles cursos preparatórios para a EBCTV, todos amarrados por Geraldo com seus contatos no mundo do cinema, chegamos a realizar o lançamento em Campos do filme “Perfume de Gardênia” (1992), de Guilherme de Almeida Prado, no já então decadente Cinema Goitacá, antes de ser convertido como cristão novo à heresia de se tornar templo da Igreja Universal do Reino de Deus. Como a exorcizar sem consciência o futuro daquele espaço, eu e Guilherme saímos juntos após a exibição do seu filme, prestigiado com casa lotada, para lhe apresentar a noite campista, até quase o nascer do dia.
“Rocco e Seus Irmãos”, clássico do neorrealismo italiano do mestre Luchino Visconti
Bem mais suave era a sensibilidade de Geraldo. Um dia chegou à casa que eu tinha alugado para sair da casa dos meus pais e morar sozinho numa Atafona pré-Porto do Açu, e me gritou do portão. Como estava treinando boxe no saco de pancadas, nos fundos, gritei que ele poderia ir entrando. Atraído pelo barulho dos murros sucessivos no saco, ele chegou observou e nada disse, aparentemente indiferente, voltando para me esperar na sala. Na sua visita seguinte à minha casa, ele trouxe de presente uma fita de VHS. Era “Rocco e seus Irmãos” (1960), clássico do neorrealismo italiano do mestre Luchino Visconti, com o galã francês Alain Delon ainda jovem como boxeador, que pude assistir pela primeira vez. O carinho paternal de Geraldo se sobressaía mesmo em meio à aparente violência. Como podia ser também sintetizado no livro “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, do filósofo alemão Eugen Herrigel, com que ele era invocado e também fez questão de me presentear.
“A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen” livro do filósofo alemão Eugen Herrigel
Um final de semana alongado por feriado, que não me lembro qual, Geraldo convidou a mim e a minha namorada de então para irmos com ele e sua esposa à época, Helô, ao sítio dele na área rural de Friburgo. Tomamos vinho, comemos fondue de carne e conversamos bastante. Num passeio pela propriedade, caminhamos pelo curso do riacho de águas transparentes que o cortava até uma piscina rasa que ele tinha instalado, sem interromper o curso d’água. E me contou, como se revelasse um grande segredo, que a função era de bebedouro aos animais silvestres que habitavam aquele pedaço preservado de mata atlântica. Depois, caminhando entre as árvores já altas que ele também tinha plantado, me disse: “Eu plantei elas ainda mudas. Hoje são árvores. Quando eu passeio entre elas, me olham de cima para baixo e conversam: ‘Olha Deus caminhando lá em embaixo. Olha como ele é pequeno e careca!’”, disse, rindo como criança.
Vitor Sendra, produtor e diretor de TV
Pelas dificuldades de adaptação do Solar dos Jesuítas, espaço tombado pelo Iphan, para instalação de um sistema de hotelaria que permitisse um regime de internato como a Escola de Cinema de Cuba, além de disputas internas por equipamento com o curso de cinema já existente na UFF-Niterói, o projeto de EBCTV acabaria abandonado. Quando percebi isso, fiz o que achava digno fazer: pedi exoneração do cargo público e voltei ao jornalismo, que nunca havia abandonado de todo. Depois de mim, Geraldo “adotaria” outro filho campista, o produtor e diretor de TV Vitor Sendra, filho da grande literata e dramaturga Arlete Sendra. Os dois trabalhariam juntos no Laboratório de Pesquisa e Tecnologia da Imagem do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Uenf e, depois, no Projeto Rede Escola, junto à secretaria estadual de Educação e a TVE, produzindo conteúdos para teleducação.
“Tudo Isto Me Parece um Sonho” (2008), filme que deu a Geraldo Sarno o prêmio de melhor diretor no Festival de Brasília
No final dos anos 1990, com Geraldo já fora da Uenf, ele me chamou para um almoço na sua casa no Rio, na rua do Píer da Barra da Tijuca. Não pude ficar muito tempo, mas deu para bater um papo, mais ouvindo que falando, como o diretor cearense Zelito Viana, irmão do grande Chico Anysio e pai do ator Marcos Palmeira. Após, me despedi de Geraldo, que estava ocupado, dando atenção a outros convidados. Em 2008, soube e fiquei muito feliz com sua premiação como melhor diretor no Festival de Brasília, pelo filme “Tudo Isto Me Parece Um Sonho”, sobre a história do general pernambucano Ignácio Abreu e Lima, que lutou ao lado de Simon Bolívar, nas guerras de batalhas de libertação da Colômbia, da Venezuela e do Peru, da Coroa Espanhola no século 19. Seu último filme foi outra ficção, “Sertânia” (2020), que roteirizou, dirigiu e montou, com sua história não linear sobre os delírios do jagunço Antão.
Na última fase formativa da minha vida, quando iniciava a vida adulta, Geraldo foi para mim um mestre. Sem condescendência, sempre instigando o meu próprio olhar crítico, ensinou o que ler e como ler, o que ver e como ver, enquanto tentava apontar possíveis obstáculos e atalhos. Entre os que tive chance de conviver, talvez só o historiador Arthur Soffiati e o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa tiveram tanta influência intelectual e sensitiva sobre o homem que me tornei. Curioso é que Aluysio parecia saber disso. E, no lugar de ciúme, sempre demonstrou gratidão a quem serviu ao seu filho durante um tempo como “pai”.
Meu último encontro com Geraldo, com meu próprio filho já nascido, de quem lhe mostrei a foto, foi nos anos 2000. Entre um chope e outro, passamos a tarde conversando num bar à beira-mar de Copacabana. Em certa altura do papo, já mais soltos pelos chopes, ele parou num daqueles transes zen de quando se abstraía em pensamento. Após uns segundos, olhou por cima dos óculos de grau, observando o zoológico humano que desfilava na avenida Atlântica, entre nós e o oceano. E me indagou, em nosso último diálogo que guardo na memória:
— Está vendo todas essas pessoas, Aluysio? Está vendo todas essas pessoas indo pra lá e pra cá?
— Estou vendo, Geraldo. O que é que tem?
— São todos ovelhas, entende? São todos ovelhas balindo “bé”, balindo “bé, bééé”, entende? São ovelhas que seguem e balem felizes, a maioria sem saber, ao abate no matadouro!
O mapa da ex-república soviética da Ucrânia sob o avanço da Rússia de Vladimir Putin (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Entenda a crise da Ucrânia (I)
Vladimir Putin abriu a semana na segunda (21) com o discurso de um líder russo ao Ocidente mais duro há mais de 30 anos, desde que chegaram ao fim a Guerra Fria e a comunista União Soviética. Saudoso desta, na qual serviu como agente da polícia política da KGB, Putin disse não reconhecer a existência da Ucrânia como nação independente da Rússia. Mas reconheceu a independência das regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk, que já eram parcialmente ocupadas por forças pró-russas, dando início à invasão militar do leste do país vizinho. No poder há 22 anos, Putin já tinha anexado em 2014 a península da Criméia, no sul da Ucrânia.
Entenda a crise da Ucrânia (II)
Putin está certo na origem comum dos dois países. Mas errado ao creditar a criação da Ucrânia ao líder da Revolução Russa de 1917, Vladimir Lenin. Mais de mil anos antes de Lenin viver, o nome Rússia surgiu entre Europa e Ásia na Idade Média do século 9, juntando eslavos e vikings suecos, quando foi chamada de Rússia de Quieve — e Kiev é, até hoje, a capital da Ucrânia. A partir do século 16 se tornaria o Império Russo dos czares, com a transferência da sede do poder a Moscou e São Petesburgo. E, a partir da Revolução de 1917, União Soviética. Que chegou ao fim justamente quando Ucrânia e Rússia decretaram suas independências em 1991.
Ucrânia e Rússia de hoje nasceram juntas na Rússia de Quieve, juntando eslavos orientais e vikings suecos na Idade Média do século 9 (Mapa: Wikipédia Brasil)
Entenda a crise da Ucrânia (III)
Com 12 séculos de história comum, Putin também não está errado ao afirmar que a maior parte da população das regiões ucranianas de Donetsk e Luhansk são de etnia e cultura russas, como também na Criméia. Mas o mesmo não ocorre no centro e no oeste do país, fisicamente mais próximos às democracias da Europa Ocidental. Com as quais a maioria da população da Ucrânia deseja se alinhar, deixando para trás as ditaduras dos czares, da União Soviética e de Putin. Que, apesar de incensado por parte da esquerda latino-americana, hoje tornou impossível a uma mulher prestar queixa na Rússia se sofrer agressão física do marido.
Entenda a crise da Ucrânia (IV)
(Infográfico: BBC Brasil)
Abaixo só dos EUA, a Rússia tem as Forças Armadas mais poderosas do mundo, com seis mil ogivas nucleares. E o histórico de quem já pôs para correr, à bala, as até então imbatíveis França de Napoleão Bonaparte e Alemanha de Adolf Hitler, respectivamente, nos séculos 19 e 20. No 21, EUA e Europa Ocidental não enviarão forças militares se a invasão for restrita à Ucrânia. Mas a coisa mudará se a Rússia quiser depois avançar também sobre outras ex-repúblicas soviéticas, como as bálticas Letônia, Lituânia e Estônia, todas hoje na Otan. Como a maioria da Ucrânia deseja ser, contra a palavra empenhada pelos EUA em 1990, e Putin não admite.
Napoleão Bonaparte em retirada com as tropas da França após ser derrotado na Rússia em 1812 (Óleo sobre tela de Adolph Northen)
Entenda a crise da Ucrânia (V)
(Infográfico: BBC Brasil)
Putin é um autocrata amoral, frio e calculista, capaz de matar dissidentes russos envenenados até na Inglaterra. Na idealização da “Grande Mãe Rússia” do passado czarista e soviético, refez a aliança do Estado com a Igreja Católica Ortodoxa, herança dos gregos bizantinos, e os valores da “família tradicional”. O que o faz ser também admirado pela neodireita mundial do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, e o atual do Brasil, Jair Bolsonaro (PL). Governa com mão de ferro um país exportador de petróleo e gás, com que aquece a Europa Ocidental no inverno. E só canta de galo quando essas commodities estão em alta. Como em 2014 e agora.
Entenda a crise da Ucrânia (VI)
Potência militar, mas não econômica, a Rússia se escora nas suas boas relações com a China, cujo capitalismo de Estado faz frente aos EUA. O adiamento da invasão da Ucrânia para esta semana não se deve aos delírios bolsonaristas pela visita do presidente do Brasil à Rússia na semana passada. Foi só para esperar que a China encerrasse as Olimpíadas de Inverno de Pequim, no último domingo. Na segunda, Putin partiu para o ataque. E se preparou antes de fazê-lo. Esperando as sanções econômicas anunciadas ontem pelos EUA e União Europeia, acumulou munição para a guerra. Em reservas cambiais recorde de US$ 630 bilhões.
Vereadores Nildo Cardoso, Marquinho Bacellar, Fábio Ribeiro, Juninho Virgílio e Maicon Cruz (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Nildo e a eleição de Marquinho (I)
“O único que ocupou a tribuna da Câmara e declarou o seu apoio (a presidente) a Marquinho Bacellar (SD) foi Nildo Cardoso (PSL). Isto é fato, está registrado. Por que o presidente (Fábio Ribeiro, PSD), após o término da votação, deu a vitória, está lá gravado, a Marquinho Bacellar como presidente em 2023/2024?”. Foi o que explicou e indagou ao Folha no Ar na manhã de ontem (22), na Folha FM 98,3, o próprio vereador de oposição Nildo Cardoso. Ontem, saiu o parecer da Procuradoria da Câmara de Campos que negou o pedido do edil governista Juninho Virgílio (Pros) para anular a eleição de Marquinho, por 13 votos a 12, na terça passada.
Nildo e a eleição de Marquinho (II)
O parecer sobre o voto de Nildo ainda não saiu. E, segundo o atual presidente Fábio Ribeiro, não tem prazo. Ele tinha prazo regimental até 15 de dezembro para marcar a eleição da nova Mesa Diretora, mas decidiu iniciá-la na última terça. “Na minha opinião, Fábio colocou para votar porque corria o risco de, ali na frente, ele não ser o candidato (do governo a presidente)”, avaliou Nildo. Ele também falou da traição do vereador Maicon Cruz (PSC), que assinou termo de compromisso com a reeleição de Fábio, mas votou em Marquinho, definindo a vitória deste: “Eu não faria isso de maneira nenhuma. Mas eu sou eu, respondo por mim”.
Confira no vídeo abaixo o primeiro bloco da entrevista do vereador de oposição Nildo Cardoso ao Folha no Ar da manhã de ontem:
Faleceu por volta das 21h de hoje, aos 90 anos, de uma pneumonia após infecção por Covid-19, o médico Dr. Geraldo Gusmão. No final do ciclo do vírus, ao qual tinha tomado as três doses de vacina, o quadro evoluiu para pneumonia. Para tratá-la, estava internado há 20 dias no Hospital da Unimed. A partir da manhã desta quarta (23), seu velório ocorrerá na capela do Cemitério do Caju, das 10h da manhã às 15h, quando se dará seu enterro.
Dr. Geraldo deixa cinco filhos: Geraldo José (in memoriam), Beatriz, Bernadette, Ana Teresa e Artur Gusmão; além de 9 netos. Ele era viúvo da professora Ariema Gusmão, com que foi casado 59 anos, falecida em 2017. Formado em Medicina em 1956, pela UFF de Niterói, era decano da Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia de Campos. Leitor assíduo e, nas suas próprias palavras, “fã número 1 da Folha da Manhã”, foi também amigo do meu pai, o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa, falecido em 2012. Com os dois tive o prazer de comungar vários cafezinhos e muita sabedoria, no Boulevard dos anos 1980 e 1990.
O carinho e o respeito que tinha por Dr. Geraldo também eram reforçados por minha amizade de adolescência com o advogado Artur Gusmão, procurador do município e seu filho caçula. Que herdou do pai o temperamento polido e gentil, além do cristianismo praticante na fé da Igreja Católica Apostólica Romana. Em 29 de outubro do ano passado, Artur e as irmãs publicaram na Folha uma homenagem para Dr. Geraldo, que completaria seu 90º aniversário no dia 31 daquele mês. Para honrar esse homem de bem que Campos perde, segue republicada abaixo:
Parabéns ao nosso pai, nosso grande amor!
Por Beatriz Maria, Bernadette, Ana Teresa e Artur Gusmão
Hoje nosso coração está em festa! É tempo de celebrar e agradecer ao Senhor a vida do nosso pai que completa 90 anos!
Em 31/10/1931 nascia nesta cidade Geraldo Arthur Gusmão Rodrigues, filho de Zita Gusmão Rodrigues e João Higino Rodrigues. Aqui cresceu sob os cuidados e o colo amoroso da sua tia avó materna, D. Josefa Gusmão. Sua infância foi também marcada pela formação religiosa, que teve início na Catedral de São Salvador, onde atuou como coroinha junto ao saudoso Pe. Rosário. Nascia aí uma história de fé, entrega e amor aos ensinamentos do Pai.
Papai iniciou sua escolaridade nos colégios da cidade, tendo sido marcante na sua vida a passagem pelo Liceu de Humanidades de Campos, onde cursou o antigo ginasial e o curso clássico. Tamanha identificação fez dele um liceísta apaixonado, carregado de memórias e saudade, sempre cantando os versos do Hino do Liceu: “Liceísta sempre avante pela glória do Liceu… Que evocamos com orgulho, ó Liceu, Liceu, Liceu!”
Com a maioridade, mudou-se para o Rio de Janeiro onde foi servir ao Exército, em 1950. Em seguida passou a residir em Niterói, a fim de cursar Medicina na Universidade Federal Fluminense. Niterói foi palco não só da sua formação profissional, mas também do encontro com o grande amor da sua vida, Ariema Barbeitas Gusmão. Ali começava a nossa história.
Com o término dos cursos, ele formado em Medicina e ela em Letras, retornaram a Campos onde se casaram em 1958 na Capela Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, sob o manto protetor de Maria. Foi mamãe quem possibilitou a construção do maior sonho da sua vida: nossa família. Somos cinco filhos frutos de um imenso amor, de uma profunda fé e retidão em todos os passos e escolhas feitas por eles ao longo da vida.
Como médico traumato-ortopedista trabalhou em diversos hospitais: Hospital Ferreira Machado, Santa Casa de Misericórdia de Campos, Sandu, Plantadores de Cana e Beneficência Portuguesa, sempre comprometido com a vida humana.
Ao se aposentar realizou o sonho de voltar ao Liceu novamente como aluno nos cursos de Francês, Inglês e Espanhol. Essa paixão por aprender preenche os seus dias até hoje, se dedicando com afinco às palavras cruzadas, leitura de livros, jornais e do Evangelho. Nesse período ele também aproveitou para intensificar as suas caminhadas pela cidade, percorrendo as pontes que cruzam o rio Paraíba.
Cada caminhada na planície goitacá, sobretudo nas manhãs de sol e céu azul, enchem os seus dias de emoção, ânimo e luz! Encontrá-lo caminhando é sempre uma alegria contagiante! Tamanha paixão por Campos, revivida em pequenos passeios, o faz recitar outros versos, aqueles do hino da nossa cidade: “Campos intrépida Formosa, terra feita de luz e madrigais”, além de lembrar histórias que nunca saíram do seu coração.
Papai é um eterno apaixonado pela natureza. Seu encanto pela lua e suas fases, pelas estrelas que brilham e saltam na imensidão da noite, o tornam uma pessoa simples, desprendida, tomado pela esperança. Olhando para ele, a gente pensa que a felicidade está logo ali, ao alcance da mão.
Difícil em meio a tantas lições que ele nos dá diariamente, falar apenas de algumas. Mas talvez uma das maiores seja o exercício permanente da sua fé em Deus. Parece que quanto mais surgem os imprevistos e dificuldades da vida, maior é a sua fé! Guiado pelo Salmo 22, do Bom Pastor, ele segue firme, amparando todos nós.
Um outro presente que guardamos em nós é o seu amor por mamãe, um amor cuidadoso, companheiro, eterno e cheio de encanto pela mulher admirável que ela sempre foi. E ainda o seu amor pela família, por nós, seus filhos e netos, um amor sempre carregado de preocupação, comprometido com a nossa felicidade, respeitoso com as nossas escolhas e atento às nossas necessidades, mesmo depois que crescemos e nos tornamos pais.
Papai chega aos 90 anos com uma autonomia admirável, uma memória cristalina e com o mesmo encanto pela vida, que tanto nos apaixona, apesar das perdas imensuráveis vividas ao longo desses anos. Ao celebrar 90 anos ele continua sendo um exemplo e uma força incomparáveis nas nossas vidas!
Hoje nós escolhemos um verso da canção “Oração pela Família”, para o seu aniversário: “Que seus filhos vejam a força que brota do amor”. Sua história de vida, papai, traduz essa força que brota do amor. Nós, seus filhos, netos, genros e noras, somos testemunhas deste amor. Não há no mundo presente como esse! Seu amor e a sua oração nos acompanham e nos inspiram todos os dias!
Para o senhor, a nossa admiração sem tamanho, a nossa gratidão mais profunda e o nosso eterno amor!
Dos seus filhos,
Geraldo José (in memoriam), Beatriz Maria, Bernadette, Ana Teresa e Artur.
A partir das 7h da manhã desta quarta (23), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o historiador João Monteiro Pessôa, professor do IFF-Guarus. Ele falará sobre a crise na Ucrânia, com o reconhecimento da independência de regiões separatistas do país pelo presidente russo Vladimir Putin, e suas consequências ao mundo.
O historiador também analisará a visita do presidente Jair Bolsonaro (PL) à Rússia na semana passada. Assim como a queda de braço entre a grande potência militar do Leste Europeu e da Ásia com os EUA e a Europa Ocidental. Por fim, dará sua projeção às eleições de outubro no Brasil, a deputado, governador e presidente.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.