Debate presidencial entre “satanismo” e “maçonaria”

 

Canibalismo dos índios tupinambás no Brasil do séc. 16 retratado pelo belga Theodore de Dry

 

 

Entre “satanismo” e “maçonaria”, fome e carne humana com banana

 

Maior evento do século 20 e que ainda define estas primeiras décadas do século 21, a II Guerra Mundial (1939/1945) foi decidida na Europa em sua frente oriental, entre a Alemanha nazista de Adolf Hitler e a União Soviética comunista do Josef Stálin. Tão decantada pelos filmes de Hollywood, a invasão anfíbia dos Aliados ocidentais no Dia D, nas praias francesas da Normandia, foi evento coadjuvante das batalhas decisivas travadas em solo russo. Como as de Stalingrado e Kursk, maior enfrentamento de blindados da História. Até elas, os nazistas eram senhores invencíveis da Europa. Depois delas, o Exército Vermelho só parou em Berlim.

Se em todo o mundo, incluindo Ásia, África, Oceania e litoral das Américas, a II Guerra tirou cerca de 80 milhões de vidas humanas, a União Soviética perdeu, só ela, mais de 26 milhões. Que cobrou ao matar mais de 4,4 milhões de militares alemães, entre os cerca de 5,5 milhões que perderam a vida entre 1939 e 1945. O ateu Exército Vermelho encomendou a alma de 80% dos soldados mortos, em sua maioria cristãos luteranos e católicos romanos, sob o altar da suástica nazista. Todos os demais Aliados juntos deram cabo dos outros 20%. A contabilidade macabra não deixa dúvida quanto ao protagonismo da II Guerra. Ou ao caráter do conflito na frente oriental que a definiu: dos dois lados, foi uma guerra de extermínio.

O 2º turno da eleição presidencial do Brasil, em 30 de outubro, daqui a 22 dias, será disputado entre os dois vencedores do 1º turno do domingo: Lula e Bolsonaro. E por seus eleitores, não menos aguerridos que soldados alemães e soviéticos na II Guerra. Que, como nesta, tratam seus adversários pelos mesmos termos: “fascistas” e “comunistas”. No que parece ser também uma guerra de extermínio, com ódio visceral à simples existência do outro. Como provam os corpos dos petistas Marcelo Arruda, Rafael Silva Oliveira e Edmilson Freire da Silva, assim como dos bolsonaristas Hilder Henker e José Roberto Gomes, todos assassinados neste ano eleitoral por apoiarem o candidato a presidente oposto ao de quem os matou.

No mundo da razão, como o PL fez a maior bancada na Câmara Federal e o PT a segunda, respectivamente com 99 e 68 deputados, Bolsonaro e Lula seguirão protagonistas da vida política nacional, ganhem ou percam a eleição a presidente. Sobretudo o capitão, que elegeu no domingo nada menos que 20 aliados entre os 27 novos membros do Senado da República. Adicionados aos que lá já estão e continuarão por mais quatro anos, serão 41 senadores bolsonaristas, num total de 81, a partir de 2023. Que, não mais com bravatas na acefalia das redes sociais, mas como reza a Constituição, poderão passar pedidos de impeachment aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), emparedando-os.

Considerado o último dos três Poderes da República que ainda não foi cooptado pelo Executivo nos últimos quatro anos, após a compra do Legislativo com o “Orçamento Secreto”, o Judiciário em sua esfera máxima do STF terá os ministros Rosa Weber e Ricardo Lewandowski se aposentando em 2023. Caberá ao próximo presidente indicar seus sucessores. Se for Bolsonaro, ele já anunciou que proporá ao Congresso um projeto para criar mais quatro cadeiras do STF, das atuais 11 para 15, com o qual indicaria mais quatro ministros.

Com seus ministros Nunes Marques e André Mendonça, mais os substitutos de Weber e Lewandowski, e outros quatro numa já prometida ampliação, um Bolsonaro reeleito formaria a maioria no STF de oito ministros em 15. E redesenharia as tais “quatro linhas da Constituição” como quisesse. O Brasil se tornaria uma grande Hungria de Viktor Órban, pária hoje na União Europeia, ou a Venezuela de um Hugo Chávez de extrema-direita. Com esta, nossas semelhanças não param por aí. Pois já há uma PEC no Congresso que visa ampliar para 15 as cadeiras do STF. Foi proposta desde 2013, quando Dilma Rousseff (PT) ainda era “presidenta”, pela sua então aliada e deputada federal reeleita em 2022, Luiz Erundina (Psol/SP).

A guerra de extermínio político em que o Brasil está mergulhado desde 2014, quando Lula chamou o PSDB de “nazistas” em comício no Recife, no segundo turno que reelegeria Dilma, foi sendo escalada até 2022. Para além da ruptura institucional de Aécio Neves (PSDB), que há oito anos pediu recontagem de votos da sua derrota presidencial, seria elevada com o discurso golpista do bolsonarismo, a partir de 2018. E chegou ao presente com o capitão creditando a surra que levou do petista no Nordeste, nas urnas do 1º turno, ao… analfabetismo.

Hoje, o fato é que ninguém simboliza melhor os exterminados eleitorais do domingo do que o próprio PSDB. Após capitanear a estabilização econômica do país com o Plano Real, para dali ser o único partido a eleger e reeleger um presidente do Brasil em turno único, com Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998, os tucanos agora choram a perda da sua última cidadela, o poderoso estado de São Paulo, que governavam há 28 anos.

Após não ir nem ao 2º turno, o governador morto-vivo Rodrigo Garcia, tucano só a partir de 2021, anunciou logo na terça (4) seu “apoio incondicional” à reeleição de Bolsonaro e ao ex-adversário Tarcísio de Freitas (Republicanos), mais votado no 1º turno e agora favorito ao Governo de São Paulo. E que disse não querer a presença do adversário convertido em apoiador em seu palanque contra o petista Fernando Haddad.

Humilhado incondicionalmente, Garcia foi também desautorizado pelo PSDB paulista, no racha do que restou do partido. Cujos velhos caciques nacionais, como FHC e o senador Tasso Jereissati, declararam apoio a Lula. Como os economistas Edmar Bacha, Persio Arida, Pedro Marlan e Armínio Fraga, pais do Real. Em contraponto, o apoio a Bolsonaro do governador reeleito de Minas, Romeu Zema (Novo), pode ter ainda mais peso no câmbio eleitoral.

Do que pode ser daqui a quatro domingos ao que já foi no último, o bolsonarismo exterminou em sua “guerra santa” neopentecostal o centro, a centro-direita e a direita democráticas do país. Cujos últimos remanescentes, como a senadora Simone Tebet (MDB), pularam para Lula também na certeza que só terão chance de sobrevivência sob um novo governo petista. Que, se acontecer, será muito mais ao centro do que delira a esquerda identitária, maior culpada pelo êxito da pauta de costumes do capitão. É a mesma patota festiva que, no estado do Rio, assistiu ao atropelamento previsível do seu dândi Marcelo Freixo (PSB), campeão de rejeição, pelo governador bolsonarista Cláudio Castro (PL), reeleito no 1º turno.

E, com o país de volta ao mapa da fome e o vídeo resgatado do capitão falando ao NYT de comer carne humana com banana, seguiremos os próximos 22 dias no diapasão do quinto dos infernos entre “satanismo” e “maçonaria”. Como, entre “comunistas” e “fascistas”, entraremos em 2023, independente do resultado das urnas de 30 de outubro de 2022. Enquanto o mundo teme outra guerra de extermínio de fato, desta vez com bombas nucleares, no mesmo palco decisório da II Guerra: contra a Ucrânia de Zelensky, pela Rússia de Putin. Para este, o 2º turno do Brasil tanto faz. Lula e Bolsonaro são seus aliados geopolíticos.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

0

Lula sai na frente no segundo turno contra Bolsonaro

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Na disputa do 2º turno de 30 de outubro, daqui a 22 dias, todas as pesquisas desta semana apontaram que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) continua à frente na disputa com o presidente Jair Bolsonaro (PL). Mas, tomado por base o contraste com as urnas do 1º turno, todas as pesquisas sérias acertaram a liderança e a votação de Lula nas urnas de domingo (2), onde teve 48,43% dos votos válidos. Mas todas as também subestimaram, fora da margem de erro, a votação do presidente Jair Bolsonaro (PL). Embora tenham acertado seu 2º lugar, foi abaixo dos 43,20% dos votos válidos que ele teve.

Luciano D’Ângelo, matemárico e petista histórico de Campos

EXPLICAÇÕES NÃO CONVENCEM PETISTA — Segundo os diretores dos institutos, até pela possibilidade apontada de Lula vencer no 1º turno, o que não conseguiu por apenas 1,47%, Bolsonaro recebeu nas últimas 24h o “voto útil” de parte dos eleitores antilulistas do ex-ministro Ciro Gomes (PDT), da senadora Simone Tebet (MDB) e dos indecisos, gerando a diferença da urna para as pesquisas. Se a explicação tem base lógica, ela não convenceu os bolsonaristas. Até porque muitos afirmavam que seu candidato não só estaria na frente na corrida, como a venceria já no 1º turno. Mas também não convenceu lulistas: “Até agora não ouvi uma explicação convincente para o erro nos votos de Bolsonaro pelas pesquisas”, advertiu o matemático, professor, ex-diretor da antiga Escola Técnica Federal de Campos (atual IFF) e petista histórico de Campos, Luciano D’Ângelo.

Geraldo Goutinho, industrial e ex-presidente do PSDB em Campos

ANÁLISE DO TUCANO — “Nunca fiz coro com aqueles que questionam a seriedade dos institutos de pesquisa. Contudo, não há como negar, estamos diante de uma situação até agora não explicada. Os institutos precisam reconhecer o descolamento de resultados e, assumindo os equívocos, mostrar a todos porque devemos voltar a enxergar as pesquisas como retrato fidedigno de um momento. Isso não aconteceu, as fotos foram mal reveladas. Explicar os números de Bolsonaro pela migração de ‘votos úteis’ não esgota a questão. Há muito a ser explicado sobre os pontos cegos das pesquisas e até do comportamento do eleitor. Este pleito será estudado para se encontrar novos parâmetros a orientar pesquisas futuras”, disse o industrial Geraldo Hayen Coutinho, proprietário da Usina Paraíso, presidente do Sindicato da Indústria Sucroenergética do Estado do Rio de Janeiro (Siserj) e ex-presidente do PSDB em Campos. Ele declarou voto no programa Folha no Ar, de 25 de agosto, a Ciro no 1º turno e a Bolsonaro, no 2º turno contra Lula que as pesquisas já projetavam.

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em Estatística no IBGE

ANÁLISE DO ESTATÍSTICO — “Importante destacar que o bolsonarismo tem um padrão particular de comportamento eleitoral, que vai ficando mais claro à medida que o tempo vai passando. Continuamente, esse segmento mobiliza uma campanha cibernética dirigida a um público-alvo bem definido, que ganha um impulso bastante agressivo na reta final das eleições com o objetivo de ‘virar’ o voto dos eleitores, especialmente aqueles ainda em dúvida ou que poderiam votar em branco, anular o voto ou mesmo não comparecer ao pleito. É este movimento que ajuda a explicar a ‘virada’ favorável a Bolsonaro que os institutos de pesquisa não conseguiram dimensionar”, explicou o geógrafo William Passos, com especialização doutoral em Estatística do Setor Público, da População e do Território na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do IBGE.

PESQUISAS DO 2º TURNO — Sob questionamentos, as principais pesquisas ao 2º turno começaram a ser divulgadas com a Ipec (antigo Ibope) de quarta (5). Encomendada pela Globo, foi feita de segunda (3) à própria quarta e ouviu presencialmente 2.000 eleitores. Na quinta (6), vieram mais duas pesquisas: a do instituto Quaest Pesquisa e Consultoria, contratada pelo banco Genial, que também ouviu 2.000 eleitores presencialmente, também de segunda a quarta; e a PoderData, feita com recursos próprios do site Poder360, também de segunda a quarta, mas que ouviu por telefone 3.500 eleitores por telefone. Quarta pesquisa da semana, a Datafolha foi contratada pela Globo e Folha de S.Paulo. Divulgada no início da noite de ontem (7) e feita de quarta à própria sexta, ouviu presencialmente 2.884 eleitores.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

LULA SAI NA FRENTE — Na projeção dos votos válidos ao 2º turno, Lula ficou com 55% a 45% de Bolsonaro na Ipec (10 pontos de vantagem), 54% a 46% na Quaest (8 pontos), 52% a 48% na PoderData (4 pontos) e 53% a 47% na Datafolha (6 pontos). O petista lidera fora da margem de 2 pontos para mais ou menos da Ipec, Quaest e Datafolha, assim como na de 1,8 ponto da PoderData.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

OBJETO DE DESEJO — Sem descontar os indecisos, os que dizem que votarão em branco, nulo ou não votarão, estes revelam o eleitor a ser disputado renhidamente pelas duas candidaturas nos próximos 22 dias. Somados, são 10% na Ipec, 11% na Quaest, 8% na PoderData e na Datafolha. Estes são os eleitores, diante da pouca chance de mudar os que já declaram voto em Lula e Bolsonaro, que poderão definir quem será o presidente da República a partir de 2023.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

REJEIÇÃO — Índice considerado fundamental à definição do 2º turno, a rejeição segue liderada por Bolsonaro, também fora da margem de erro. Entre os brasileiros que não votariam em um dos dois candidatos a presidente de maneira nenhuma, o capitão tem 50% contra 40% de Lula (10 pontos a mais) na Ipec, 50% a 41% na Quaest (9 pontos), e 51% a 46% na Datafolha. A PoderData desta semana não divulgou rejeição. Quem nela tem mais de 50%, não pode matematicamente vencer uma eleição em dois turnos.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

JUROS DO ERRO COM BOLSONARO — No entanto, nas pesquisas anteriores de cada instituto, todas acertaram a votação de Lula no 1º turno, mas erraram a de Bolsonaro. Este saiu da urna com 6,2 pontos a mais do que as intenções de voto que tinha na Ipec, 5,2 pontos a mais do que tinha na Quaest e PoderData, e 7,2 a mais do que tinha na Datafolha. Caso estes mesmos erros se repetissem nas pesquisas desta semana, o capitão hoje teria ao 2º turno 51,2% de intenções de votos válidos na Ipec e na Quaest, 53,2% na PoderData e 54,2% na Datafolha. Continuaria numericamente atrás de Lula na Ipec e Quaest, mas passaria à frente na PoderData e Datafolha, em empate técnico nas quatro.

George Gomes Coutinho, cientista político e professor da UFF-Campos

ANÁLISE DO CIENTISTA POLÍTICO — “Fundamental continuar acompanhando as pesquisas feitas pelos institutos sérios. Mas apontando aí para o risco de que, no clima do negacionismo e da postura anticientífica, parte do eleitorado de Bolsonaro decidiu até fazer boicote aos entrevistadores, o que pode causar problemas nas amostras. A despeito disso, as pesquisas seguem ‘termômetros’ para medir a temperatura da disputa daqui até as urnas. Os primeiros dias deste interregno do 1º ao 2º turno estão sendo pautados pela guerra cultural: maçonaria, satanismo, etc. Este contexto de guerra cultural, que mobiliza mais elementos irracionais e afetivos do que cálculos racionais, aumenta a imprevisibilidade do resultado final da disputa. Não é uma eleição normal e nem sei se as futuras serão”, advertiu o cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha

 

0

Quaest: Lula 54% com dos votos válidos a 46% de Bolsonaro

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr)

Se fosse hoje, ainda a 24 dias das urnas do 2º turno de 30 de outubro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceria a eleição por 54% dos votos, contra 46% do presidente Jair Bolsonaro (PL), 8 pontos atrás. Índice considerado fudamental à definição do 2º turno, a rejeição segue liderada pelo capitão, em quem 50% dos brasileiros não votariam de maneira nenhuma, contra 41% do petista. É o retrato do presente feito pela nova pesquisa do instituto Quaest Pesquisa e Consultoria, contratada pelo banco Genial. Foi feita com 2.000 eleitores, de segunda (3) a quarta (5) e divulgada hoje, com margem de erro de 2 pontos para mais ou menos.

SOMA DO ERRO NO 1º TURNO COM BOLSONARO — No sábado (1º), véspera do 1º turno de domingo (2), a Genial/Quaest deu 49% dos votos válidos a Lula. E acertou de maneira quase exata os 48,43% que ele teve na urna. Mas aquela pesquisa também deu 38% dos votos válidos a Bolsonaro. E errou fora da margem de erro, dando 5,2 pontos abaixo dos 43,20% que ele teve na urna. Caso se repetissem o acerto do instituto com o petista e o erro com o capitão, este teria hoje 51% dos votos válidos, contra os 54% do adversário. O que configuraria um empate técnico na disputa.

OS 11% QUE PODEM DEFINIR A ELEIÇÃO — Fora dos votos válidos projetados pela Genial/Quaest ao 2º turno, as campanhas de Lula e Bolsonaro disputarão renhidamente os 11% ainda soltos do eleitorado: os 7% de indecisos, mais os 4% que disseram votar branco, nulo ou que não votarão. Virar as intenções de voto de um a outro candidato será muito difícil. O petista tem 92% dos seus eleitores declarando que seu voto é definitivo, percentual que cresce a 94% entre os eleitores do capitão.

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em Estatística no IBGE

ANÁLISE DO ESPECIALISTA — “A primeira pesquisa Quaest deste 2º turno estima, neste momento, 75,1 milhões de eleitores para Lula no próximo dia 30, ou 48% do eleitorado, e 64,1 milhões para Bolsonaro, ou 41% do total. Deste universo, 69,1 milhões, ou 44% do eleitorado, não mudarão o voto em Lula até às urnas, enquanto 60,3 milhões, ou 39% do total, não mudarão o voto em Bolsonaro. De acordo com o instituto, neste momento, restam apenas 17,2 milhões de eleitores em disputa, ou 11% do eleitorado. Metade dos habilitados a votar, ou 78,2 milhões de brasileiros, rejeitam o atual presidente, enquanto 41% do eleitorado, ou 64,1 milhões de pessoas, não votam em Lula de jeito nenhum. A rejeição superior a 50% inviabiliza matematicamente a vitória eleitoral. Todos esses números têm margem de erro de 2 pontos para mais ou para menos. Pesquisas eleitorais são apenas a fotografia do momento e não conseguem dimensionar o ganho eleitoral dos candidatos nas últimas 48h antes da urna”, advertiu William Passos, geógrafo com especialização doutoral em Estatística do Setor Público, da População e do Território na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do IBGE.

 

0

Questionamentos e respostas entre pesquisa e voto na urna

 

Todas as pesquisas eleitorais sérias, de institutos testados no contraste das urnas, projetaram a possibilidade de vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda no 1º tuno do último domingo (2). Que, como ele teve 48,43% dos votos válidos, não se cumpriu por apenas 1,47%. Mas as pesquisas também subdimensionaram, acima da margem de erro, a votação do presidente Jair Bolsonaro (PL). Que teve 43,20% dos votos válidos, enquanto a Datafolha de sábado (1º) lhe deu só 36% de intenções de voto (7,2 pontos a menos); e a Ipec (antigo Ibope) do mesmo dia, 37% (6,2 pontos a menos).

Desde segunda (3), os diretores dos principais institutos de pesquisa explicaram que a diferença entre as intenções de voto e os votos de Bolsonaro teria se dado pelo “voto útil” que ele teria herdado, nas 24h anteriores ao pleito, da desidratação do ex-ministro Ciro Gomes (PDT). Que, na reta final do 1º turno, foi alvo de uma agressiva campanha do PT — maior tiro pela culatra, até aqui, desta eleição presidencial. Mas a explicação basta? Aos bolsonaristas, que passaram o ano todo questionando a liderança de Lula nas pesquisas e confirmada nas urnas, provavelmente não.

Mas e quem baseia seus questionamentos e respostas pela lógica, não pela mera torcida eleitoral? Neste sentido, o blog ecoa duas análises. A primeira, do industrial Geraldo Hayen Coutinho, proprietário da Usina Paraíso, presidente do Sindicato da Indústria Sucroenergética do Estado do Rio de Janeiro (Siserj) e ex-presidente do PSDB em Campos. A segunda, do geógrafo William Passos, com especialização doutoral em Estatística do Setor Público, da População e do Território na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence) do IBGE.

 

 

 

Geraldo Hayen Coutinho

Geraldo Coutinho — “Nunca fiz coro com aqueles que questionam a seriedade dos institutos de pesquisa. Também nunca pus em dúvida a validade científica dos métodos aplicados nas pesquisas. Contudo, não há como negar, estamos diante de uma situação até agora não explicada.

Os institutos precisam reconhecer o descolamento de resultados e as previsões publicadas e, assumindo os equívocos, mostrar a todos porque devemos voltar a enxergar as pesquisas como retrato fidedigno de um momento. Isso não aconteceu, as fotos foram mal reveladas.

Explicar os números de Bolsonaro pela migração de votos úteis não esgota a questão. Foram dezenas de projeções importantes que se afastaram muito dos resultados. E aqui não estou me apegando apenas aos números, mas também à ordem de chegada e a viradas surpreendentes, trazidas como impossíveis pelos levantamentos feitos.

Há muito a ser explorado, e explicado, sobre os pontos cegos das pesquisas e até de comportamento do eleitor. Este pleito será estudado em profundidade para se encontrar novos parâmetros a orientar pesquisas futuras. Não tivemos acesso a pesquisas de boca de urna, seria importante este fecho.

Precisaremos conhecer as primeiras pesquisas do segundo turno que, por regra, replicam o que houve no turno findo. Analisando os estratos dos eleitores talvez tenhamos algumas respostas de como se movimentou os votos entre projeção e realidade.

Por hora o que podemos observar é Lula bem à frente, portanto ainda franco favorito, entretanto passando ideia que está aplicando esforço para numa caminhada em aclive, enquanto Bolsonaro vem bem atrás, porém como se estive sendo ajudado por um declive que lhe facilita ganho de velocidade sem tanto esforço, está mais relaxado.

A única afirmação que podemos fazer, sem que possa suscitar quaisquer dúvidas, é a de que estas próximas semanas serão muito interessantes e movimentadas”.

 

William Passos

William Passos — “Os resultados das pesquisas não são prognósticos eleitorais, isto é, não antecipam os resultados das urnas, mas são ‘fotografias’ do momento das entrevistas aos eleitores. É por isso que os institutos enfatizam que seus resultados refletem o ‘se a eleição fosse hoje’. Importante ressaltar que, no Brasil, pesquisas eleitorais são pesquisas de opinião, isto é, apontam a preferências por candidatos, ou seja, a atitude dos eleitores.

Prognósticos, por outro lado, são antecipações sobre a probabilidade de cada candidato vencer a eleição, com base no seu provável desempenho nas urnas, ou seja, são o comportamento dos eleitores. Embora relacionados, atitudes são diferentes de comportamentos.

Modelos de prognósticos, além de não se basearem na pesquisa de um único instituto, recorrem a agregadores com as médias das pesquisas eleitorais de vários institutos, a provável precisão de cada resultado, o histórico do desempenho de cada empresa de pesquisa nas eleições anteriores e até mesmo variáveis do ambiente econômico e político que impactam na decisão do voto, como desemprego, inflação, avaliação do governo e expectativa de melhora de vida nos anos seguintes, atribuindo diferentes pesos, isto é, diferentes percentuais para cada resultado utilizado nos algoritmos que simularão os resultados finais destes modelos.

Assim, os resultados das pesquisas eleitorais precisam ser olhados ‘por dentro’, valorizando muito mais as curvas de tendência e as possibilidades matemáticas de alteração do resultado fotografado por cada instituto dos que os percentuais numéricos que costumam ser destacados. Até porque, como são feitos por amostragem, estas pesquisas, como sabido por quem as acompanha, têm margens de erro.

Como a preferência dos eleitores é dinâmica, ela pode ser alterada entre o dia da resposta ao entrevistador e o momento do depósito do voto na urna. Por isso, à medida que as eleições vão se aproximando, o olhar por dentro das pesquisas deve ser alterado. Até o início da semana da votação, a pesquisa estimulada, aquela em que os nomes de todos os candidatos são apresentados ao eleitor entrevistado, deve ser a mais valorizada, enquanto na semana da votação, a pesquisa espontânea, aquela em que o eleitor responde na ponta da língua, é o melhor indicador de aproximação da realidade. Isso combinada com o total dos eleitores que declararem que ainda poderão mudar o voto, dado que oferece a possibilidade matemática de alteração dos resultados apresentados por cada pesquisa.

Na Ipec, por exemplo, realizada de 29 de setembro a 01 de outubro de 2022, 33% dos eleitores entrevistados manifestaram intenção de voto no presidente Jair Bolsonaro na pesquisa espontânea, enquanto 15% declararam que a decisão do voto no momento da entrevista não era definitiva e poderia mudar até o momento do depósito nas urnas. Isso significa que, matematicamente, Bolsonaro poderia ir até 48%. Considerando a margem de erro máxima de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, num cenário extremo, o presidente poderia alcançar até 50% dos votos.

Importante destacar que o bolsonarismo tem um padrão particular de comportamento eleitoral, que vai ficando mais claro à medida que o tempo vai passando. Continuamente, este segmento mobiliza uma campanha cibernética dirigida a um público-alvo bem definido, que ganha um impulso bastante agressivo na reta final das eleições com o objetivo de ‘virar’ o voto dos eleitores, especialmente aqueles ainda em dúvida ou que poderiam votar em branco, anular o voto ou mesmo não comparecer ao pleito. É este movimento que ajuda a explicar a “virada” favorável a Bolsonaro que os institutos de pesquisa não conseguiram dimensionar, apesar de já terem identificado, na reta final, um crescimento da curva de intenção favorável ao presidente”.

 

0

Das pesquisas à urna, aos apoios a Bolsonaro e Lula

 

Bolsonaro recebeu ontem o apoio dos governadores reeleitos de Minas Gerais, Romeu Zema; do Rio, Cláudio Castro; e do atual de São Paulo, Rodrigo Garcia, ao lado do líder bolsonarista no 2º turno do estado, Tarcísio de Freitas (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Pesquisas acertam Lula, Castro e Romário

Na última quarta (28), a quatro dias das urnas de 2 de outubro, esta coluna escreveu: “Como fez em várias outras eleições, a Folha tentou retratar esta da maneira objetiva: pelos números das pesquisas. Que não são infalíveis, mas apontam tendências. Baseado nelas, não na torcida, é possível afirmar que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o governador Cláudio Castro (PL) e o senador Romário (PL) chegam na final como franco-favoritos em suas disputas”. Essas três projeções se cumpriram no voto na urna. Castro, no 1º turno, e Romário se se reelegeram. E Lula ficou a apenas 1,5 ponto de definir a eleição em turno único.

 

Pesquisas erram Bolsonaro

Na véspera da eleição, a pesquisa Datafolha deu Bolsonaro com 36% de intenções dos votos válidos, 37% na Ipec (antigo Ibope). Como o presidente passaria ao 2º turno com 43,20% dos votos válidos, entre 6 e 7 pontos a mais do que o projetado nas duas pesquisas, estas passaram a sofrer ataques do presidente e seus eleitores. Que já sofriam antes da urna, por projetarem a liderança confirmada de Lula. Assim como de Castro e Romário. Segundo os responsáveis por Datafolha e Ipec, como de todos os outros institutos de pesquisa do país, o que houve foi a migração do “voto útil” nas últimas 24h a Bolsonaro.

 

O erro do “voto útil”

Diretor do instituto Quaest Pesquisa e Consultoria, o cientista político Felipe Nunes afirmou na quarta (28), quatro dias antes do pleito de domingo, que o “voto útil” ainda não tinha sido registrado pelas pesquisas. E que, se tivesse que acontecer, seria nas 48h ou 24h antes da urna. Como de fato ocorreu. Só que, no lugar de ir para Lula, como queria a campanha petista pelo “voto útil”, foi para Bolsonaro. Como Lula confirmou na urna a mesma liderança das pesquisas, de onde saíram os votos de última hora ao capitão? É só buscar quem mais desidratou entre pesquisas e urnas para saber: saíram do ex-ministro Ciro Gomes (PDT).

 

“A maior burrada eleitoral”

As pesquisas erraram a projeção dos votos de Bolsonaro. E acertaram a liderança de Lula, Castro e Romário. Três acertos são mais que um erro. Justificado pela mesma diferença entre pesquisa e votos de Ciro. Quem criticava antes as pesquisas, só pela torcida contrariada pela liderança de Lula confirmada na urna, ganhou com ela números mais favoráveis a Bolsonaro para justificar seus questionamentos. Como o PT deveria questionar o tiro pela culatra que foi sua pregação pelo “voto útil”. Como escreveu na segunda (3) a jornalista Madeleine Lacsko, em artigo no UOL: “campanha pelo voto útil em Lula é a maior burrada eleitoral que já vimos”.

 

Após urnas, Paulista com… Dilma

Atacar Ciro e seus eleitores, como fazem os lulopetistas que deles precisam mais que nunca, reflete a arrogância de quem não nada aprendeu com o impeachment do desastroso governo Dilma Rousseff em 2016. Ou com a prisão de Lula por corrupção em 2018. Em 2022, a soberba petista endossa os eleitores que, nas 24h antes da urna, saíram de Ciro a Bolsonaro. Após a apuração, ainda na noite de domingo, pressionado por não concluir a eleição no 1º turno, como pela curta vantagem de 5 pontos (48,43% dos votos válidos a 43,20% de Bolsonaro) que levou ao 2º turno, Lula discursou na avenida Paulista. E, quem foi para ouvi-lo, ouviu… Dilma.

 

Romeu Zema

Em contraste com Lula, um Bolsonaro aliviado também falou na noite de domingo. Em Brasília, atacou o Datafolha, como o voto na urna lhe deu direito de fazer. E acenou com compreensão nele incomum com o eleitor pobre que deu confirmou na urna a liderança de Lula mostrada nas pesquisas. Acenou também ao governador mineiro Romeu Zema (Novo), reeleito em 1º turno. Que respondeu já na tarde de segunda, quando em entrevista ao vivo declarou seu apoio ao capitão. E, como empresário, narrou o que qualquer outro empreendedor do Brasil lembra bem: a dor que foi ser obrigado a demitir funcionários pela recessão do governo Dilma.

 

MG, RJ e SP x Ciro

Ontem, na terça, Bolsonaro saiu bem na foto ao receber formalmente o apoio de Zema e Castro, favoritos nas pesquisas confirmados pela urna. E do atual governador paulista Rodrigo Garcia (PSDB). Que, como também mostraram as pesquisas, ficou fora do 2º turno entre o bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos), a quem apoiará, e o petista Fernando Haddad. Se o ex-governador tucano Geraldo Alckmin, hoje no PSB e vice de Lula, não fizer milagre no interior paulista, a tampa do caixão do Sudeste, com 42% do eleitorado do país, pode pesar sobre o PT. E Ciro? Com os 3,04% dos votos que lhe restaram na urna, declarou apoio a Lula.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

0

Reeleito à Alerj, Bruno Dauaire no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Deputado estadual reeleito no domingo (2), Bruno Dauaire (União) é o convidado desta quarta (5) do Folha no Ar, ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele falará sobre a sua reeleição e suas disputas eleitorais particulares com o também deputado estadual reeleito Rodrigo Bacellar (PL) em Campos, e com a ex-prefeita e deputada estadual eleita Carla Machado (PT) em São João da Barra, além de analisar a proposta de bandeira branca do prefeito de Campos e seu aliado, Wladimir Garotinho (sem partido), respondida hoje pelo ex-vereador Marcos Bacellar (SD).

Bruno também analisará as reeleições do governador Cláudio Castro (PL), ainda no 1º turno, e de Romário (PL) ao Senado, no estado do Rio. Por fim, tentará projetar a eleição ao Palácio do Planalto, das urnas do 1º ao 2º turno de 30 de outubro, entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL).

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

0

Bacellar: “Dá para levar a sério bandeira branca de Wladimir?”

 

Marcos Bacellar e Wladimir Garotinho (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Hasteada ontem (3), pelo prefeito Wladimir Garotinho (sem partido), no dia seguinte às urnas de domingo (2), sua bandeira branca com os quatro deputados estaduais eleitos por Campos, sobretudo Rodrigo Bacellar (SD), líder da maioria da oposição na Câmara Municipal, não foi considerada pelo grupo dos Bacellar. Quem disse não foi Rodrigo, que, procurado desde ontem por meio da sua assessoria, preferiu não comentar. Mas seu pai, o ex-vereador Marcos Bacellar (SD) deu a resposta:

— Dá para levar a sério a “bandeira branca” de quem joga vídeo nas redes sociais, fazendo provocação barata na véspera da eleição e, dois dias depois, quer posar de bom moço? A “paz” dos Garotinho é sempre essa: batem num dia, mesmo sem ser provocados, e depois vêm com essa bravata de “bandeira branca”. Wladimir repete a tática manjada do morde e assopra do seu pai. Nunca funcionou comigo, não funciona com nosso grupo político. Falo por mim, não por Rodrigo, com quem só conversei no domingo, após a eleição. E de quem tenho muito orgulho pela sua votação e por tudo que ele tem feito por Campos e região, no governo Cláudio Castro (PL) — disse Bacellar, que ligou para dar sua posição após a “bandeira branca” de Wladimir ser analisada no programa Folha no Ar da manhã de hoje, na Folha FM 98,3.

O vídeo com a provocação velada do prefeito de Campos foi veiculado por ele na tarde do último sábado (1º). Nele, com um adesivo colado na testa, com as candidaturas dos seus aliados Juninho Virgílio (União) a deputado federal, de Bruno Dauaire (PL) a estadual e de Clarissa Garotinho (PL), a senadora, colado na testa, Wlaidmir disse logo no início:

— Tem candidato fazendo de tudo para chamar sua atenção (do eleitor). Teve candidato hoje que trouxe até cantor de pagode para fazer carreata na rua com ele — provocou o prefeito, enquanto Rodrigo ainda fazia sua carreata em Campos, ao lado do cantor de pagode Belo.

Confira abaixo a foto da carreata de Rodrigo com Belo, mais o ex-candidato a deputado federal Caio Vianna (PSD) e o vereador Marquinho Bacellar (SD). E, enquanto ela ainda acontecia nas ruas de Campos, o vídeo postado no Instagram por Wladimir:

 

Cantor de pagode Belo entre Caio Vianna, Marquinho e Rodrigo Bacellar, na carreata deste nas ruas de Campos, no sábado (Foto: Divulgação)

 

 

0

Urnas do NF, RJ e Brasil sob análise no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Os cientistas políticos George Gomes Coutinho e Hamilton Garcia de Lima, professores, respectivamente, da UFF-Campos e da Uenf, serão os convidados desta terça (4) do Folha no Ar, ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Eles analisarão a eleição de seis deputados estaduais da região, que não fez nenhum federal nas urnas de domingo, assim como o consequente aceno de paz do prefeito Wladimir Garotinho (sem partido) ao deputado Rodrigo Bacellar (PL), líder da maioria de oposição na Câmara Municipal de Campos.

Os dois também analisarão as reeleições do governador Cláudio Castro (PL), ainda no 1º turno, e de Romário (PL) ao Senado. Por fim, tentarão projetar a eleição ao Palácio do Planalto, das urnas do 1º ao 2º turno de 30 de outubro, entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL).

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

0

Após eleição, Wladimir hasteia bandeira branca a Bacellar

 

Wladimir Garotinho e Rodrigo Bacellar (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Após a eleição do domingo de quatro deputados estaduais de Campos, Rodrigo Bacellar (PL), Bruno Dauaire e Thiago Rangel (Podemos), e uma de São João da Barra, Carla Machado (PT), o prefeito Wladimir Garotinho (sem partido) hoje usou o Twitter para cumprimentar aliados e acenar com paz ao seu principal opositor:

— Parabéns a todos os deputados estaduais eleitos pela nossa cidade e região: Bruno Dauaire, Thiago Rangel, Rodrigo Bacelar e Carla Machado. A disputa ficou pra trás, é hora de trabalharmos em conjunto. Não importa as diferenças, o povo sempre em primeiro lugar.

 

 

O esforço do prefeito pela pacificação em nome da cidade e da região é válido. Resta saber como Rodrigo Bacellar e a bancada de oposição na Câmara Municipal de Campos que ele lidera vão encarar a bandeira branca. Tudo passará pela eleição da nova Mesa Diretora do Legislativo goitacá, que tem até dezembro para ser marcada.

 

0

Hamilton Garcia — Por que o bolsonarismo está vivo e forte?

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Hamilton Garcia, cientista político e professor da Uenf

A festa da democracia e o revés do feiticeiro

Por Hamilton Garcia de Lima

 

O Brasil acaba de realizar sua 9ª eleição presidencial direta desde a redemocratização. A “festa da democracia”, todavia, desde 2006, foi lentamente deixando de ser comemorada para ser experimentada como angústia em meio a um sistema político ensimesmado. O ponto mais crítico deste plano inclinado foi alcançado, até agora, com Bolsonaro, mas nada indica que este seja seu piso.

O caldo de cultura deste descenso está não só no encontro pouco virtuoso das forças democráticas com a realidade do poder (Mensalão, Petrolão, Orçamento Secreto, etc.), como também no desencontro da Constituição de 1988, e seu projeto de bem-estar social, com a realidade econômica de 42 anos de semi-estagnação. As expectativas de melhoria de vida, sobretudo das camadas médias, da qual as democracias se nutrem, foram revertidas e as classes médias caíram nos braços da direita radical.

Este é o contexto da apertada vitória de Lula sobre Bolsonaro neste primeiro turno, que demonstrou uma resiliência no poder só comparável a de Lula em 2006; não obstante a discrepância entre os desempenhos governamentais, o que faz a performance conservadora ainda mais significativa.

A razão imediata para a reação bolsonarista no atual pleito, contra a previsão de várias sondagens de opinião, pode ter sido a audaciosa tática lulopetista de tentar ganhar no primeiro turno atropelando o rito democrático dos dois turnos. A arrogância da esquerda e seus novos aliados do centro progressista, ao reeditar o “nós contra eles”, parece ter despertado no eleitorado conservador seus “piores instintos” antipetistas.

A tática lulopetista de fidelização popular, colocando o pobre no orçamento, na universidade e nos aeroportos, parece ter encontrado seu antípoda de direita na farta distribuição de recursos públicos, levada a cabo pelo Governo Bolsonaro, ao eleitorado pobre e remediado fragilizado pela pandemia. Isto para não falar do paradoxo da denúncia petista sobre o assistencialismo como “moeda de troca eleitoral”, fórmula também aplicada por eles, onde a política de amparo à pobreza não encontra porta de saída. Bolsonaro promete abri-la pela via da diminuição dos impostos e do gigantismo do Estado, apesar da aliança com o Centrão.

O projeto político-econômico do petismo, que o bolsonarismo critica, centrado no aumento do consumo das famílias e na ampliação dos direitos sociais – sem lastro na produtividade social e com manutenção de privilégios burocráticos e financeiros –, tendente a deprimir ainda mais o investimento público e privado, e, portanto, mantendo ou aprofundando a estagnação econômica, também foi bem explorado pelas redes de direita, que o acusam de  aprofundar a desigualdade histórica ao contrário de combatê-la.

A frente de esquerda que sustenta o lulismo, embora consciente destas contradições, acredita que a crise do Estado de bem-estar social da Nova República pode vir a abrir caminho para “transformações mais profundas na ordem social brasileira”, a depender da “correlação de forças” pós-eleitoral. E da mobilização do povo nos “comitês populares” que Lula prometeu abrir depois de eleito.

A arrogância estratégica do petismo, agravada pelo fantasma do “exército do Stédile”, e a soberba tática do lulismo, resgatando os náufragos do campo democrático em sua “frente ampla” de esquerda – sem negociação ou acordos programáticos efetivos –, apostando no atropelamento de Bolsonaro no primeiro turno, não surtiu o efeito esperado; e a culpa, evidentemente, não é dos democratas que não aderiram à manobra.

Tal como em 2018, o maior combustível do bolsonarismo parece continuar sendo o programa lulopetista, que combina identitarismo e luta de classes na esperança de ampliar a participação social de negros e mulheres, sem aumentar a oferta geral de oportunidades, alimentando assim sua narrativa anticapitalista.

A estratégia petista, reiterada mesmo após a derrota de 2018, continua sendo de altíssimo risco. Pois, ao invés de buscar reverter o modelo de economia primarizada com exportação de grãos, minérios e carnes, pretende apenas explicitar seus limites – inclusive denunciando a ponderação do aumento do salário mínimo à produtividade social como “elitismo escravista” – mesmo que ao preço do ressentimento das camadas médias em dificuldade.

O segundo turno, sobre este aspecto, deve ser comemorado, pois nos oferece a possibilidade do petismo e do lulismo dialogar efetivamente em torno de um programa de reformas efetivo, que eles recusaram entregar ao eleitorado antes do pleito.

Quer seja o programa desenvolvimentista de Ciro, quer o liberal-social de Tebet, ou um mix de ambos, o fato é que ele vai ser necessário para solidificar uma verdadeira frente democrática no lugar do cheque em branco reivindicado pelo PT e recusado pelo eleitorado.

Parece ter ficado claro que, na era Bolsonaro, não há mais espaço para manipulações ideológicas da esquerda, que agora são neutralizadas pela direita – ao contrário do que ocorria com os tucanos.

A percepção do “mercado” de que o “Lula de sempre” está “precificado” e que seu vice está ao alcance das mãos numa eventualidade, para colocar as coisas no eixo, é pura ilusão e grave equívoco. É preciso pensar no país e abandonar o egoísmo de partido, que é a marca registrada do petismo, se se quer, realmente, o “bem geral da nação” e da democracia. Porque o bolsonarismo está vivo e forte.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

0

Arthur Soffiati — Democracia sob o teste das urnas

 

 

Arthur Soffiati, historiador, professor e escritor

Democracia sob teste

Por Arthur Soffiati

 

A democracia não um regime político criado nas estrelas e descoberto pela humanidade. Ela é fruto de um longo processo de construção situado na Europa ocidental. O Estado Moderno, também chamado de Absolutista, permitiu que seus súditos contassem com algumas instâncias  a que podiam recorrer para assegurar seus direitos.

No final do século XVII, aparecem as primeiras propostas de limitação do poder absoluto do rei por meio de documentos. Consolida-se o constitucionalismo combinado com monarquia e república. Combina-se monarquia e república com limitação do Poder Executivo. Desenvolvem-se monarquias constitucionais e parlamentaristas e repúblicas presidencialistas e parlamentaristas. A democracia pode permear todos esses sistemas políticos. Ela não se resume a uma constituição e ao direito de voto, seja ainda bastante confundida com essas duas prerrogativas.

Democracia é mais. Pode não ser sinônimo de direito a uma sociedade igualitária, mas pressupõe direitos sociais. O estágio mais completo de democracia combina liberdade, direitos civis, direitos políticos e direitos sociais. O Brasil ainda está longe disso. A democracia é um regime frágil. Que se observe o governo de Bolsonaro, aproveitando o direito de voto para chegar ao governo e ameaçar o próprio direito que o elegeu. Que se veja a ascensão do neofascismo na Itália.

As eleições de 2022 não podem ser limitadas a uma disputa entre candidatos. Ela é mais que isso. É a escolha entre um governo que ameaça um golpe de Estado permanentemente, que funciona abaixo da linha democrática o tempo todo, e um governo que assegure minimamente a democracia. Não se trata agora de escolher o melhor projeto, mas de expelir um corpo estranho.  No entanto, esse corpo estranho criou alicerces e ergue seu edifício sobre eles. Esse corpo estranho se fortalece com a eleição de deputados estaduais e federais, senadores e governadores. No Rio de Janeiro, Cláudio Castro se elegeu, mesmo sendo um desconhecido até a cassação de Witzel.

A decisão entre democracia representativa e ameaça permanente de autoritarismo e golpismo fica adiada por mais um mês. As pesquisas parecem ter minimizado a força do bolsonarismo e de ter maximizado a força de Lula. As pesquisas erraram. Teremos de aguardar o desfecho final roendo as unhas. Mas o Brasil acorda com um nove perfil: a nova face do brasileiro é bastante conservadora.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

0

Do 1º ao 2º turno, pesquisas acertam Lula e erram Bolsonaro

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Todos os principais institutos de pesquisa do Brasil acertaram. Com 48,43% dos votos válidos nas urnas de domingo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou muito próximo, a apenas 1,47% + um voto, de definir a eleição no primeiro turno. Mas todos os principais institutos de pesquisa também erraram com o seu principal concorrente. Com 43,20% dos votos válidos, o presidente Jair Bolsonaro (PL) teve, além da margem de erro, bem mais do que era apontado em todas as projeções. Os dois candidatos agora disputarão o segundo turno em 30 de outubro, com diferença de um pouco maior que 5 pontos. Que é 9 pontos inferior à vantagem de 14 que, na véspera do pleito, as pesquisas Datafolha e Ipec (antigo Ibope) deram a Lula.

VOTO ÚTIL? — Vários são os fatores que podem ter contribuído para o resultado da urna do primeiro turno. Entre eles, a chamada migração do “voto útil” ainda no 1º turno. Não dos eleitores do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) para Lula, como pregava o PT, ecoado por artistas como Caetano Veloso. Se houve voto útil neste primeiro turno, independentemente de onde saiu, ele foi para Bolsonaro.

SÃO PAULO — O que contrariou com mais peso as pesquisas foram os votos na urna da região Sudeste, que concentra 42% dos eleitores brasileiros. Na Ipec de sábado, Lula superaria Bolsonaro por 9 pontos (48% a 39%) em São Paulo, maior colégio eleitoral do país. Mas, na urna de domingo em São Paulo, Bolsonaro superou Lula por quase 7 pontos (47,41% a 40,89%).

Como o ex-ministro do capitão, Tarcísio de Freitas (Republicanos) também passou o favorito petista Fernando Haddad nas urnas paulistas do primeiro turno, pelos mesmos quase 7 pontos (42,32% a 35,70%). Agora os dois disputarão o segundo turno ao Governo do Estado de São Paulo, na eleição que pode definir a presidencial. E na qual, diferente das pesquisas, o PT sai atrás a governador e presidente.

RIO DE JANEIRO — Na mesma Ipec de sábado, Lula superaria Bolsonaro por 4 pontos (46% a 42%) no estado do Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país. Mas, no voto dos fluminenses de domingo, Bolsonaro superou Lula por quase 11 pontos (51,09% a 40,68%).

Não por coincidência, o governador bolsonarista Cláudio Castro (PL) também superou todas as pesquisas. E se reelegeu ainda no primeiro turno ao Governo do Estado do Rio, contra o deputado federal lulista Marcelo Freixo (PSB). Campeão de rejeição entre os fluminenses em todas as pesquisas, o ex-psolista fica sem cargo a partir de 1º de janeiro de 2023.

MINAS GERAIS — Só em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, a vantagem de Lula sobre Bolsonaro se confirmou. Mas bem abaixo dos 21 pontos (55% a 34%) projetados pela Ipec de sábado, Lula ficou na frente das urnas mineiras de domingo por menos de 5 pontos (48,29% a 43,60%).

Se continuar valendo a escrita de que só se elege presidente quem ganha em Minas, este é hoje o único dos três principais estados do Sudeste onde Lula tem vantagem. E onde o bolsonarista até aqui acanhado Romeu Zema (Novo) se reelegeu governador também no primeiro turno, por 56,18% a 35,08% do lulista Alexandre Kalil (PSB)

RIO GRANDE DO SUL — Outros estados brasileiros de grande densidade eleitoral contrariaram as pesquisas, em favor não só de Bolsonaro, como de seus aliados. No Rio Grande do Sul, principal colégio eleitoral da Região Sul, o ex-ministro bolsonarista Onyx Lorenzoni (PL) superou todos os levantamentos que apontavam o ex-governador Eduardo Leite (PSDB) como favorito. E agora sai quase 11 pontos à frente (37,50% a 26,81%) dele para disputar o segundo turno ao Palácio Piratini.

BOLSONARISTAS NO SENADO E CÂMARA — Não foi só em aliados a cargos executivos que a expressiva votação do presidente influenciou. Sete ex-ministros do governo Bolsonaro foram eleitos no domingo. Quatro deles ganharam uma cadeira no Senado: Damares Alves (Rep/DF), Marcos Pontes (PL/SP), Tereza Cristina (PP/MS), Rogério Marinho (PL/RN) e o ex-aliado em reaproximação recente Sergio Moro (União/PR). Outros dois conquistaram uma vaga na Câmara Federal: Ricardo Salles (PL-SP) e Eduardo Pazuello (PL), deputado mais votado no estado do Rio.

LULA APÓS A URNA — Depois de concluída a apuração, ainda na noite de ontem, ciente de que precisa virar a eleição no berço do PT de São Paulo, para assegurar sua reeleição em 30 de outubro, Lula foi discursar com Haddad na tradicional Avenida Paulista. E, para atrair os eleitores de centro que não teve no primeiro turno, mas precisa para voltar ao Palácio do Planalto, uma das oradoras destacadas em seu palanque foi… a ex-presidente Dilma Rousseff.

BOLSONARO APÓS A URNA — Bolsonaro falou em Brasília. Atacou a Datafolha, como os votos que teve na urna lhe deram o direito de fazer. Mas acenou com uma compreensão nele incomum ao eleitor pobre que confirmou a liderança de Lula no primeiro turno. Como acenou a Zema, reeleito governador nas Minas Gerais cujo último presidente eleito, sem ganhar lá, foi Getúlio Vargas, em 1950. Logo após a urna, o capitão parecia continuar a tirar a diferença que ainda o separa do petista.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

0