Suderj informa: Igor Franco entra em campo amanhã no lugar de Marcelo Amoy

 

Com a saída (aqui) do tradutor Marcelo Amoy do time de colabordores do blog, quem está se aquecendo para substituí-lo a partir de amanhã, dia 19, é o jovem especialista em investimentos financeiros Igor Franco, de 29 anos. Ele passará a se alternar nas segundas-feiras com o jornalista e poeta Fernando Leite.

Abaixo, um pouco do que você, leitor, poderá esperar de quem entra no campo do blog para reforçar o jogo dialético na defesa do liberalismo econômico:

 

Igor Franco

 

“Sou campista. Tenho 29 anos, 20 deles dedicados a acompanhar a política brasileira com certa atenção e curiosidade sociológica e antropológica. Minhas melhores lembranças desse tema são as mais vagas. Por certo tempo, acreditei tratar-se do adocicado sabor de tudo que lembra uma infância feliz. Estava errado. Ao longo desses 20 anos, nossa política envelheceu 200. Todos os nossos males se intensificaram. Temos um sistema caquético, doente, esclerosado, em estado terminal.

Não há outra explicação: nosso Estado gigantesco é a maior causa da nossa desgraça. PT, PSDB, PMDB e seus comparsas são apenas contingências de um sistema viciado. Poucas sociedades abertas foram tão eficazes em montar um Leviatã tão incompetente e injusto. Acredito que já tenham percebido que sou completamente avesso a soluções coercitivas para a maioria dos nossos problemas. Temos instrumentos melhores: a sociedade civil, os indivíduos, organizações livres e o mercado — uma extrapolação coletiva da nossa individualidade e suas particularidades.

Espero contribuir para a reflexão sobre o que entendo serem as causas das nossas ruínas em nível nacional, estadual e municipal. Temos adotado uma receita explosiva: confiança cega na capacidade de um Estado onisciente, onipresente e onipotente, controlado por indivíduos egoístas, arrogantes e corruptíveis (não estava falando dos políticos, apenas, mas de nós mesmos).

Ah! Já ia me esquecendo: sou bacharel em Administração de Empresas e especialista em investimentos financeiros. Isso não é grandes coisas, mas, se fosse, também não seria. Confuso? Isso é assunto para outro momento”.

 

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Fabio Bottrel — Andarilhos Literários

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Alessandro Marcello – J.S. Bach – Piano: Anne Queffélec

 

 

 

 

 

 

 

— Ô tempim bom pra esticar os pé debaixo da chaminé… parece inté que a gente tá dentro do texto de Fernando Leite. – Disse Seu Zé, enquanto discutia Mallarmé, assobiando a brisa leve que acariciava o rosto e as palavras ditas a seu amigo, Mané.

— Pois é, Seu Zé… cidade boa é isso ou essa, tanto faz se dessa ou disso, o bom mesmo é que inté nós que somos personagens em um texto, em tão pouco tempo de existência, já temos tanta história pra contar que já começamos citando que é pra dar tempo de terminar.

Enquanto os dois compadres conversavam à beira de um Ipê tão amarelo feito o sol belo na Terra, observando sobre os dedões de seus pés a paisagem que aflora afora o dia, um vento forte incide em suas faces como um sopro trazendo uma voz longínqua: “As cidades são vivas, se movimentam, pulsam, experimentam o frescor de tempos felizes, adoecem, amargam enormes tristezas e morrem também!!”

— Ô Mané, d’onde tá vindo essa voz?

— Acho que daquele homi que tá lá na ponta da rua.

Mané aponta para um homem de barba por fazer, tropeçando pelas calçadas e gritando para o céu: “As cidades são grandes casas comuns. Se bem cuidadas, generosas e confortáveis, se não, insuportáaaaaaaaaaaaaaveis!!!!”

— Mas esse homitá muito brabo, Seu Zé.

— Eu conheço esse texto, Mané, esse homitá falando o texto do Fernando Leite.

— Uai, sô! Mas será que nós que fomos parar no texto de lá ou ele que veio parar aqui?

Outro vento forte sopra na face dos dois e o Ipê amarelo feito o sol belo desaba como cartolina, levando tudo ao seu redor até o céu, desmorona como um edifício implodindo ao chão. Atrás do cenário caído, o céu está cinza como um filme de terror, Mané e Seu Zé percebem que estão no alto de uma montanha e lá embaixo veem uma cidade em forma de avião com edifícios de curvas tão harmônicas, jamais vista. Em um dos imponentes edifícios reconhecem o Congresso Nacional, em frente a ele, milhares de pessoas manifestam com placas contra a corrupção, outras gritam e choram enquanto a polícia bate feroz nos que ali estão.

Enquanto os dois observam abismados, sentem um ligeiro cheiro de álcool envelhecido em corpo humano, quando Seu Zé olha para o lado vê o bêbado, que gritava rua afora, olhando a baderna que se fazia lá embaixo e diz calmo como se a ressaca se transformasse em torpor: “Os aglomerados humanos, se estruturaram, desde sempre, seguindo a lógica do Poder.” –  Aponta para o Congresso Nacional e depois para a população, vítima da corrupção, que se manifesta impotente ao redor – “Do centro para a periferia.”

— Quem é o sinhô? – Pergunta Mané.

Seu Zé analisando bem de perto o homem reconhece na barba rala uma semelhança com Oscar Niemyer.

— Aqui jaz as minhas lágrimas, meus amigos. – Disse o homem antes de um vento forte romper com a conversa, tão forte que fez os olhos de Seu Zé e Mané se fecharem e no acalmar da violência divina os sussurros de ventania nos ouvidos aos poucos foram trocados por vozes suaves de garotos que gritavam em uma partida de futebol. Quando abriram os olhos estavam no alto da torre de uma antena, lá embaixo havia um campo de várzea com crianças brincando e ao longo da rua mulheres carregavam sacolas de compras seguidas pelos cachorros.

— Mané! Eu reconheço esse campo! Mané! É assim que começa o texto do Guilherme Carvalhal!

— Mas nós pulamos para outro texto intão, Seu Zé?

— To achando que sim…

— To me sentindo um personagem sem moradia assim, Seu Zé…

— Não seja bobo, Mané. Que outro personagem tem a chance de fazer uma viagem literária assim?

Enquanto os dois conversavam viram uma sombra se aproximar rente à quina direita da torre, prenunciava a aparição de um rapaz sorridente, que como se já os conhecesse disse acenando para que os dois o seguissem: “Vamos, amigos! Aqui não nos escondemos atrás de prédios e grades de condomínio!”

Dito isso o rapaz se pôs a descer a torre da antena pela escada em caracol, tão rápido que se os dois não tivessem captado logo a sua mensagem e se pusessem a descer também, tê-lo-iam perdido de vista.

Seguindo o jovem passaram pelo meio do campo de várzea, onde as crianças jogavam bola, atravessaram a rua que as donas de casa seguiam com suas sacolas e cachorros, viram o rapaz dar esmola para um mendigo e desejar-lhe uma vida com mais benesses.Tudo parecia correr normal por aquela cidade, jardineiros cuidavam do jardim da praça rente ao chafariz onde passavam, pais cuidavam de seus filhos, mas logo entraram numa rua com enorme engarrafamento de carros e motos, que buzinavam incessantemente. Andaram, andaram, andaram e lá no final havia uma ponte, começaram a atravessá-la, o rapaz havia sumido, mas logo notaram bem à frente um personagem cativante, enquanto outros tantos passavam ao seu lado. O senhor de cabelos grisalhos e corpo esbelto olhava fixamente para baixo da ponte, para os rios e as pedras. Quando Seu Zé e Mané se aproximaram ele se espantou.

— O que o sinhô tá olhando tanto aí pra baixo? – Pergunta Mané.

— Vocês não eram para estar aqui… ninguém conversa comigo nesse lugar.

— Não, na verdade nós somos andarilhos literários…

— Estão vendo todas essas pessoas seguindo suas vidas normalmente enquanto uma, ao lado, está prestes a ser ceifada? – Perguntou o senhor ao dois, enquanto demonstrava a apatia dos transeuntes, como se deixassem de ser humanos, estavam todos robotizados seguindo para suas obrigações.

— Sim, mas o sinhô não está pensando em… – Antes que Seu Zé pudesse terminar a fala o homem se joga da ponte em direção ao rio e às pedras. Mané se assusta e ao tentar pegar o pé do senhor que decidiu terminar com a própria vida se desequilibra e despenca da ponte, Seu Zé consegue segurar seu pé, mas logo suas forças se esvaem e os dois caem no fundo do rio.

Quando emergiram do mergulho e constataram que ainda estavam vivos, Seu Zé e Mané não conseguiam identificar onde foram parar. Tudo era branco e da textura de pano, aparentava lá no céu, onde o pano se fechava e formava um saco, estar escrito UTOPIA, ao lado as pessoas cumprimentavam umas às outras, abraçavam, as camisas eram coloridas, os sorrisos sinceros, não havia gente mau-caráter, não havia corruptos. Seus ouvidos foram preenchidos da mais bela música que todos escutavam, todos pareciam estar satisfeitos, Seu Zé logo reconheceu que estavam no texto da Carol Poesia e gritaram na esperança de quem os criou escutasse:

— Não queremos sair daqui!!! Deixa a gente aqui!!

— Seu Zé, quando a esmola é tão boa assim… sei não, hein, será que isso é sonho?          – Mané ouviu a mulher que passava ao lado dizer “Pode ser, quem sabe?”

De repente, como um terremoto, o saco começou a balançar, como se estivesse na mão de um gigante que abriu e virou de cabeça para baixo. Todos os educados, a música bela, os bons de caráter, as cores, tudo começou a cair em câmera lenta, uns esbarrando nos outros, preenchendo de cores pelos esbarrões o que logo se tornaria breu ao caírem todos no mesmo buraco.

Seu Zé e Mané enquanto caíam em queda livre avistaram lá embaixo o continente Sul Americano, tentaram designar o vento com os seus corpos para caírem no Brasil, mas acabaram caindo na Colômbia, em sua capital, Bogotá. Seu Zé logo reconheceu o bairro histórico onde a cidade fora fundada, os principais museus e prédios históricos do governo. Percebeu de imediato: — Mané, estamos no texto da Manuela Cordeiro!

— Nós tamos na Colômbia, Seu Zé?

— Tamos, precisamente em Bogotá.

— Né por nada, não… mas cê num tá com saudade de casa já, não?

— Mané… agora que cê falou… eu to é com uma saudade daquela cabruncada…

— E esse texto da Manuela tem um monte de Cidade pra nós desbravar ainda, mas eu tôcuma saudade…

— Vamo fazer greve então, Mané?

— Vamo. Vamo sentar na escada desse museu aqui e deixar claro que daqui nós num sai enquanto num voltar pra casa.

Os dois sentam na escada do museu de Bogotá com os braços sobre os joelhos dobrados.

— Ouviu, Seu Narrador?! Pode parar de ficar descrevendo a gente que nem movimento nós vamo fazer mais.

Os dois param de fazer movimentos e se põem estáticos tal como uma estátua.

— Que narrador chato, nem com a gente parado ele fica quieto… – Diz Seu Zé falando com o canto da boca.

Passam-se horas e horas e os dois continuam estático na escada do museu, então o autor resolve intervir, pois a história precisa ter fim.

— Estou tentando atender ao desejo dos dois, mas se ficarem parados nada vai acontecer.

— Mas nós não queremos ficar aqui, queremos voltar pra casa, escreve aí que estamos indo pra Campos.

— Querem ir andando?

— Claro que não! – Diz  Mané assustado.

— Então vocês têm que se mexer até eu ter uma ideia para levar vocês de volta.

— Mas que que nós faz? – Pergunta Seu Zé.

— Vão andar pela cidade. – Diz o Autor.

Os dois se levantam e começam a caminhar pelo bairro histórico de Bogotá, passam em frente ao local onde Manuela se hospedou, e sem perceber um bueiro enorme aberto logo à frente caem no buraco tão escuro e tão vazio que pareciam cair por horas!

— Seu Zé, eu acho que a gente já parou de cair.

— Mas está tudo escuro ainda, Mané.

— Mas eu consigo pisar, será que não tem um lugar para acender a luz? – Mané vai apalpando ao lado e percebe que tem paredes, logo acha um interruptor e quando acendem percebem que estão numa sala, abrem a janela e reconhecem a rua Formosa, enquanto os carros passam num dia belo, eles veem o Colégio Eucarístico bem à frente. Sobre a mesa uma folha com o Mapa de Mário Quintana:

 

“Olho o mapa da cidade

Como quem examinasse

A anatomia de um corpo…

 

(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei…

 

Há tanta esquina esquisita,

Tanta nuança de paredes,

Há tanta moça bonita

Nas ruas que não andei

(E há uma rua encantada

Que nem em sonhos sonhei…)

 

Quando eu for, um dia desses,

Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,

Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso

 

Que faz com que o teu ar

Pareça mais um olhar,

Suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

(Deste já tão longo andar!)

 

E talvez de meu repouso…”

 

Os dois sorriram e entenderam: a cidade ideal é onde está nossa casa.

 

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Luciane Silva — Políticas Públicas, Ciência e um debate atual: raça e preconceito no Brasil

 

(Foto: Luciane Silva)

 

 

 

A imagem escolhida para ilustrar minha contribuição foi clicada em um muro da avenida João Pessoa, em Porto Alegre, lá por 2006 no ápice da discussão sobre implantação de cotas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Creio que é auto-explicativa sobre certa visão do tema que trago aos leitores e leitoras hoje. O texto não é leve e não poderia ser diferente no momento em que se intensificam os discursos por mais encarceramento e tortura. Além disto, a festa “Se nada der certo” realizada no colégio Marista, em Novo Hamburgo, aponta para a necessidade urgente de repensar o papel da escola neste debate sobre racismo e sociedade.

Neste mês finalizamos um semestre marcado pela resistência de docentes, técnicos-administrativos  e alunos na Universidade do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. E a sala de aula não poderia ficar fora deste processo em que toda a comunidade está mergulhada. A disciplina sob minha responsabilidade, pensamento social brasileiro, possibilita recuperar algumas idéias presentes na construção de nossa identidade nacional. É sempre fantástico ver alunos que se deparam com as pesquisas de Nina Rodrigues sobre o negro no Brasil e demonstram espanto ao ler as teses de um eminente médico baiano, defensor de teorias lombrosianas para pensar a questão racial no país. Nina defendia um Código Criminal próprio para os africanos, advogando sua “incapacidade mental” para compreensão de preceitos éticos que já estariam bem assentados em outros grupos raciais (notadamente, europeus). Este pensamento evolucionista, base de muitas explicações em nossos principais Museus Etnográficos no fim do século XIX, formou grande parte dos pesquisadores também na Escola de Direito do Recife.  O problema, para estes homens de ciência da época, consistia na urgência de construção de uma nação dentro dos moldes civilizatórios europeus mas  tendo que resolver uma questão: como encaminhar cientificamente o produto da miscigenação brasileira, o mestiço (ou em uma derivação, mulato) ?

Se Casa Grande & Senzala representou na década de 30 do século XX, a instauração de um paradigma oposto às explicações sobre degenerescência racial que imperavam no país, representou também a celebração da mestiçagem brasileira. Nossos problemas mais profundos teriam resolução na arte de transigir, o que colocaria o Brasil na vanguarda mundial de convivência harmônica entre as raças. Não foi á toa que este paraíso racial interessou a UNESCO e levou o Brasil a acolher um grandioso projeto com o objetivo de compreender em que consistia esta “arte da convivência”. Os resultados, no entanto, demonstraram o contrário: existência de conflitos raciais no Brasil, principalmente nas grandes capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e cidades sulistas. Foram empregados métodos de pesquisa inovadores: desde a análise de anúncios de jornal que exigiam “boa aparência” para vagas de emprego até entrevistas com famílias tradicionais italianas e suas relações com os negros na cidade de São Paulo nos idos de 1950.

E qual o objetivo de meu texto? Se considerarmos a criminalização do racismo a partir da Constituição de 1988, parece correto afirmar a existência de preconceito com base na percepção de cor no Brasil. Quando realizei minha pesquisa de mestrado, estava seguindo estas pesquisas iniciadas por Florestan Fernandes. Queria compreender como as delegacias de polícia tratavam dos problemas cotidianos sobre raça. Construí um banco de dados com 531 casos que tinham em seu conteúdo injúrias raciais a partir dos boletins de ocorrência fornecidos pela  Secretaria de Justiça e Segurança do Rio Grande do Sul, entre 1998 e 2001. O fato surpreendente é que na maior parte dos registros, existia uma relação de trabalho entre as partes e uma relação hierárquica estabelecida (enfermeiras e médicos, donos de loja e atendentes, proprietários de imóveis e locatários…) Ou seja, os xingamentos não eram resultado de momentos de briga ou qualquer explosão temporária. Estavam presentes nas interações cotidianas em hospitais, escolas, Universidades, locais de moradia. Mas para o Judiciário no Rio Grande do Sul, estes casos não continham os elementos necessários para um enquadramento como racismo. Poucos viravam inquéritos que levassem à condenação.

Resolvi seguir as sentenças do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no ano de 2014. Analisei junto com outras duas pesquisadoras, 52 sentenças produzidas no Rio de Janeiro. Importa esclarecer ao leitor que um registro sobre injúria racial recebe já na delegacia a sua desconstrução e deve ser mantido  por vontade do denunciante, pois como acentua um dos delegados entrevistados no Rio: “Seria mesmo uma ofensa discriminatória de raça ou seria uma ofensa direta à pessoa, as vezes, não é a raça em geral, mas sim em relação àquela pessoa. Então tem de ter bom senso na hora de registrar”. Duas questões são interessantes nesta fala: a separação feita pelo delegado entre pessoa e coletividade e uma noção da aplicação do bom-senso policial para tipificação dos casos ou sua desconsideração. Dos casos analisados, os que receberam alguma atenção dos juízes estavam enquadrados no Código do Direito do Consumidor. as famosas portas de banco e seu controle para entrada nas agências. Mesmo em casos nos quais seguranças cometeram violência física contra clientes de lojas, supermercados ou bancos, as sentenças não abarcavam positivamente o pedido de indenização.

Em 41 casos analisados as ofensas verbais motivaram a realização do registro, como aqui exemplificado: os autores sustentam que o réu na condição de síndico do prédio onde residiam, praticava racismo contra os mesmos, eis que são de cor negra, chegando ao ponto de ofendê-los dizendo que “deveriam estar no tronco” tratando-se de “negros”.

O desfecho do caso Cássio em 2011, jovem abordado como suspeito dentro de um grande centro de compras de Campos, acompanha a visão geral descrita anteriormente. Sem indenização, os casos caem no esquecimento e o silenciamento segue como cimento social em uma cidade polarizada (basta olharmos os postos de trabalho ou os ônibus nos horários de deslocamento).

Seria fundamental o investimento em pesquisa para qualificação das políticas públicas voltadas aos não brancos. De que forma um morador de Santa Rosa é recebido em uma delegacia quando toma a decisão de registrar os insultos sofridos por seu filho em uma escola de bairro? Ou uma empregada de farmácia, não admitida ao cargo de vendedora por não ter “boa aparência”? Ou um jovem, abordado em uma rua da Pelinca, simplesmente por estar circulando na “hora errada”?

Mais do que a mestiçagem combatida por Nina Rodrigues, parece-me que no século XXI é o não enfrentamento destas questões que compromete certo ideal civilizacional presente em nossas representações como sociedade moderna. Não, não somos tão modernos assim.

 

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Guilherme Carvalhal — Através dos olhos do super-homem

 

(Foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Por cima da torre da antena assisti crianças jogando futebol em um campo de várzea. Corriam descalças mal se importando com as pedras e os choques contra a terra abriam tampos nas pontas dos dedos. Ao longo daquela rua paralela, donas de casa carregavam suas sacolas de compras seguidas pelos cachorros de rua em busca de sobras de miolos e pelancas das carnes do açougue.

A cidade seguia seu curso normal naquela tarde. Os jardineiros cuidavam das flores em torno do chafariz, uma meia dúzia de advogados debatiam uma decisão polêmica na entrada do restaurante, as funcionárias do call center se reuniam na varanda abobadada para a pausa pro café e cigarro. Nada corria fora do seu eixo.

À distância eu me comprazia com o ritmo cotidiano. Algo me infundia felicidade de forma inexplicável, arrebatando-me de inopino de qualquer instinto melancólico me perseguindo. Bastava esse meu passeio, esse lance de olhos sobre pessoas normais levando suas vidas normais e de imediato um sorriso me contagiava.

A cidade, mesmo com seus marginais, mesmo com seus engarrafamentos, com cracolândia, ruas escuras, depósitos de lixo, esgoto a céu aberto, me comovia. O outro lado de um universo complexo se mostrava escondido: a esmola depositada na lata do mendigo, o casal levando o filho para andar de bicicleta no parque, e tantos pequenos atos irrisórios, menosprezados pela imprensa, mostravam o lado obscuro além dos becos e bocas de fumo.

Nem é preciso de visão de raio-x para perceber o quanto se esconde entre os enormes prédios e as grades dos condomínios. Falamos de grandes aventuras, não dessas em que prendemos o bandido ou salvamos o planeta. É uma aventura sem feitos grandiosos, destituídos de nobreza ou abnegação, mas capazes de mexer com o equilíbrio do mundo.

E mesmo entre esses tantos milhões de pessoas indo e vindo, cruzando-se no semáforos, dando bom dia umas às outras nas esquinas, a solidão me incomodava. Por sermos tantos e tão aglomerados, não passávamos de mais um. Mais um no censo, mais um no departamento de trânsito, mas um no obituário dos jornais.

Quem se lembraria de você entre tantas e tantas pessoas? Sua identidade mal existe; sua cara pode ser exposta em um outdoor e dois dias após o arrancarem ninguém mais o reconheceria. Sua identidade o faria um verdadeiro ninguém na multidão.

Por isso um senhor ameaçou se jogar da ponte semana passada. Os bombeiros cercaram querendo retirá-lo, uma aglomeração se juntou incentivando-o a dar cabo. E ele gritava que sua vida não fazia sentido, que era solitário, que ninguém se importava com ele. Desistiu da ideia, mas sua foto saiu em diversos sites e tornou-se motivo de riso. Aproveitou seus breves minutos de fama, e quando o esqueceram novamente, se matou.

Mesmo assim, a cidade seguiu seu curso normal.

 

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Assessoria de Garotinho questiona e Marcão reafirma propina da Odebrecht

 

Charge de José Renato publiada hoje (15) na Folha

 

 

 

 

Questionamento à Folha

Ontem entrou em contato com a Folha o jornalista Antero Gomes, assessor de imprensa do ex-governador Anthony Garotinho (PR). No exercício pertinaz, mas educado da sua função, ele fez a ponderação de que a manchete da Folha de ontem (14) trouxe a público uma afirmação do presidente da Câmara de Campos — “Marcão: Restaurante Popular se Garotinho devolver propina” — que não corresponderia exatamente às delações dos executivos da Odebrecht que denunciaram o repasse de caixa dois ao casal de ex-governadores, em troca da licitação do Morar Feliz direcionada à empreiteira durante os governos municipais de Rosinha (PR).

 

Muitas perguntas

O assessor de imprensa também questionou o fato da redação da Folha não ter procurado Garotinho para repercutir a declaração do vereador Marcão (Rede), embora tenha admitido que a praxe do seu assessorado é não atender ou retornar nenhuma tentativa de contato do jornal da sua própria cidade. Se a atuação profissional da assessoria for um passo na direção do restabelecimento desse contato interrompido unilateralmente pelo ex-governador, será um ponto bastante positivo. Mesmo porque, seja na Lava Jato, na Chequinho, ou no rombo de R$ 2,4 bilhões deixado nas contas públicas do município, são muitas as perguntas a serem feitas.

 

Marcão reafirma

Ouvido pela coluna sobre o questionamento da assessoria de Garotinho, Marcão reafirmou sua posição: “O jornalista poderia ter falado comigo. As delações da Odebrecht revelaram ao Brasil a relação promíscua entre governos em várias esferas e a empreiteira. Se foi de caixa 1, caixa 2, ou caixa 3, foi danoso ao erário público. E os repasses ilícitos no total de R$ 20 milhões ao casal Garotinho foram confirmados pelos executivos Leandro (Andrade de Azevedo) e Benedicto (Barbosa da Silva Júnior), que assinaram a licitação do ‘Morar Feliz’ com Rosinha. Sou advogado e tenho o meu conceito de propina. E foi isso que Garotinho recebeu”.

 

Desde 2009

A operação Lava Jato, que eviscerou as relações entre as principais empreiteiras com muitos nomes da política do Brasil, já instaurou 1.434 processos, prendeu 205 suspeitos, condenou 141 pessoas e recuperou R$ 10,3 bilhões desviados dos cofres públicos. E ela teve início em 17 de março de 2014. Quase cinco anos antes, em 29 de maio de 2009, esta mesma coluna adiantou que a licitação do “Morar Feliz” foi montada para dar a vitória à empresa Odebrecht. Confirmando o “Ponto Final”, o resultado da maior licitação dos 182 anos da história de Campos seria publicado em Diário Oficial (DO) em 23 de setembro de 2009.

 

Com o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa ainda à frente da coluna, o “Ponto Final” adiantou em quase quatro meses que a Odebrecht venceria a licitação do “Morar Feliz” (Reprodução)

 

“Tudo propina”

Ex-secretária da Odebrecht, onde trabalhou de 1979 a 1990, Conceição Andrade deu uma entrevista bombástica ao “Fantástico” em 27 de março de 2016 — antes da “delação do fim do mundo”, que seria feita pelos principais executivos da empreiteira. Nela, a ex-secretária afirmou sobre os pagamentos da Odebrecht a políticos, registrados em planilhas apreendidas pela Polícia Federal (PF) na residência de Benedicto, em 22 de fevereiro de 2016, nas quais também constavam os nomes de Garotinho e Rosinha: “Tudo isso era propina. Tudo que tem dentro, toda essa relação que existe nessa lista foi pagamento de propina, de caixa dois”.

 

Só dinheiro

Segundo o próprio Benedicto, todos os pagamentos aos Garotinho foram em espécie e moeda brasileira. A exigência não era praxe entre os demais políticos. Mas talvez explique o fato de o ex-governador se defender dizendo que nunca teve contas no exterior. Aliás, confirmando o trecho da decisão da Justiça de Campos que apontou Garotinho como “prefeito de fato”, ao determinar sua prisão em novembro de 2016, pela Chequinho, Leandro deixou claro que todas as negociações da Odebrecht eram feitas diretamente com o marido de Rosinha. Com a prefeita de direito, o executivo disse só ter se encontrado para assinar o “Morar Feliz”.

 

Liminar no STF

Uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) tomada, ontem, acolhendo pedido de liminar da Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro (PGE-RJ) impede arrestos, bloqueios e sequestros para pagamento de servidores, fornecedores e prestadores de serviços, com recursos oriundos de operações de crédito para o estado dentro e fora do país, de verbas oriundas de transferências voluntárias da União e de verbas públicas vinculadas a obrigações orçamentárias.

 

Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — A casa que pinta a aldeia

 

 

 

Observem a fotografia que ilustra este texto, por favor. Ela mostra a fachada de uma casa localizada na rua Formosa, em frente do colégio Eucarístico. As diferentes texturas do revestimento construção da frente revela que, alguma vez, foi uma mureta baixa, de aproximadamente 60 centímetros. Posteriormente, a mureta elevou-se mais alguns centímetros, e foi colocada uma grade de ferro. Algum tempo depois, as colunas que seguram a grade também foram elevadas. Finalmente, sobre essas colunas, foi instalada uma outra grade contínua, em cuja parte superior nascem trios de ferros pontudos.

A imagem é fantástica porque evidencia a degradação da vida urbana em Campos, principalmente, produto da insegurança — mas não apenas. Se deduz da sua observação que, aparentemente, em algum instante longínquo do tempo, os proprietários não precisavam criar fortalezas para se isolar do ‘mundo exterior’ que existe fora dos limites da sua moradia.

Já foi dito neste blog que uma cidade é aquilo que são os seus habitantes. Isto é verdade. Mas não nos esqueçamos de que os administradores municipais também moram nela (ou deveriam morar). São eles, como representantes dos vizinhos, os que deveriam estabelecer as condições para criar um ambiente urbanístico mais integrado socialmente, mais seguro, e também — e não menos importante — mais belo. Para mim, essa deveria ser a função principal de um prefeito.

Infelizmente, não é o que temos visto nos últimos anos. Os últimos gestores parecem ter sido especialmente eficazes em fazer de Campos uma cidade cada vez mais feia e mais árdua para o convívio social. Exemplos sobram: a conversão da praça São Salvador num espaço insuportável de permanecer num dia ensolarado e de calor; a ‘revitalização’ do Canal Campos-Macaé, que passou de ser uma vala de esgoto para ser uma vala de esgoto com arcos; a falta de políticas de arborização das calçadas , que somadas ao notável desprezo que os proprietários tem pela vegetação na frente de suas casas — ‘suja muito’; ‘levanta o chão’ — revelam quadras onde as casas obedecem ao exclusivo princípio arquitetônico produzido pela especulação imobiliária (lotes pequenos onde o morador fica obrigado a sacrificar espaços verdes para criar cômodos e sobrados suplementares para sua família).

Os bairros populares criados durante a gestão anterior são outra tragédia urbanística. Os conjuntos habitacionais carecem de praças, de centros de convivência e de comércio  e, claro, de vegetação. Recomendo a releitura do texto de Luciane Silva, publicado neste espaço, cujo título é ‘“Morar Feliz”, um guetto dentro da cidade’.

É desolador comprovar que a única experiência urbanística que produziu um bairro mais ou menos agradável em Campos, o Flamboyant, hoje está sendo degradada pela própria legislação municipal. O bairro tinha conseguido, através de umas escassas premissas, ser totalmente diferente ao resto da cidade: prédios limitados a dois andares, lotes de tamanho razoável, vedação ao comércio, e a imposição de espaços verdes. A última modificação ao plano de zoneamento e uso de solo, de 2007, liberou a construção de edifícios de altura desproporcional, como também permitiu a atividade comercial desordenada. Aquele bairro que deveria ser o modelo para o resto da cidade não resistiu à incompetência e à ignorância — no melhor dos casos — dos gestores públicos. Quem quiser morar num bairro bonito, que vá para um condomínio fechado.

Existe uma espécie de resignação, nas nossas cidades latino-americanas, na noção de que um bairro só pode ser bonito se for de gente rica. Os pobres, e até a população de classe média, estariam fadados a viver em lugares miseráveis ou simplesmente feios. Esta ideia pareceria se confirmar na prática, haja vista, por exemplo, que os prefeitos que governaram Campos nas ultimas décadas foram todos populistas, e nada puderam fazer para mudar essa elitista realidade — como já dissemos, até a pioraram.

Para refutar essa ideia, ou ao menos para limpar nossos olhos, existe essa ferramenta fantástica chamada Google Street View. Com ela podemos percorrer as ruas de várias cidades do planeta, como se lá estivéssemos. Basta clicar em qualquer cidade europeia para confirmar como a beleza urbana independe de classes sociais, e como até o bairro mais humilde pode ter casas simples num entorno ameno e integrador.

A foto que encabeça este post também foi tirada com o Google Street View.

 

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Ataques pessoais de Garotinho colhem diferentes respostas dos vereadores

 

Charge de José Renato publicada hoje (14) na Folha

 

 

 

 

Falta de escrúpulos

Quando o principal líder da oposição de Campos busca fatos e fotos pessoais para provocar seus adversários políticos, é capaz de provocar todo tipo de reação. Que Anthony Garotinho (PR) nunca possuiu escrúpulos de ordem moral para atacar levianamente quem quer que seja, não é novidade para ninguém. Esse foi seu modo de agir desde que iniciou na política, nos anos 1980. E na tumultuada e longa sessão de ontem da Câmara Municipal, colheu diferentes respostas.

 

Níveis

Atacado por um jantar que promoveu pelo Dia dos Namorados, o vereador Cláudio Andrade (PSDC) leu na tribuna a íntegra da resposta publicada antes em seu blog. E nela desceu quase ao mesmo nível de Garotinho, a quem acusou de voyerismo e expôs pessoalmente numa suposta crise conjugal com Rosinha. Outro parlamentar atacado pelo ex-governador, o vereador Neném (PTB) teve reação mais serena. Depois de disputar sua terceira maratona, prova mais difícil do atletismo, ele preferiu ironizar quem deu para posar de atleta nas redes sociais, em contraste visível com a barriga e a papada proeminentes.

 

Reações

Mas coube ao vereador José Carlos (PSDC) a resposta mais contundente que o ex-governador teve na sessão de ontem da Câmara. Citado pela prisão do filho em 2015, por guiar carro roubado com placa adulterada, após tentar fugir da PM, seu pai lembrou que ele está pagando pelo crime que cometeu — diferente de Garotinho, condenado a dois anos e meio de prisão pela Justiça Federal do Rio, em 2010, por chefiar uma quadrilha armada no governo estadual Rosinha (2003/2007). Ademais, lembrou o vereador: “Meu filho entrou de cabeça baixa na viatura que o levou preso. Não foi esperneando como Garotinho ao ser conduzido a Bangu”.

 

Propina de sobremesa

Nas cobranças e respostas entre oposição e situação, talvez antecipando o clima das sessões futuras, os ataques pessoais se mantiveram. Depois que uma proposta do vereador Enock Amaral (PHS) de auxílio aos produtores rurais de Campos gerou uma confusão generalizada, Miguelito (PSL) indagou ao microfone: “E o Restaurante Popular?”. Ao que o próprio presidente da Casa, vereador Marcão (Rede), respondeu: “Fazer o Restaurante Popular voltar é muito fácil. É só Garotinho devolver os R$ 20 milhões de propina que recebeu da Odebrecht”.

 

Três fatores

A permanência do PSDB no governo Temer pode ser explicada por três fatores: Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, João Dória, prefeito da capital paulista, e Aécio Neves, senador afastado. Esses três atores cujos interesses estão em jogo no meio da crise que se instalou em Brasília desde a delação da JBS e levou de roldão o tucanato, têm razões para querer manter o apoio a Michel Temer num momento em que o peemedebista é arrastado para o olho do furacão.

 

Conveniências ao PSDB

Alckmin é pré-candidato à Presidência em 2018. Para o governador, é mais conveniente enfrentar um adversário trôpego, seja ele Rodrigo Maia ou o próprio Temer, a um fortalecido, como poderia ser caso as eleições indiretas fossem realizadas com o afastamento do presidente. Dória, por sua vez, vê no PMDB um aliado para seus projetos, que podem variar conforme o curso da Operação Lava Jato. E, finalmente, Aécio, que luta para não perder o foro e, com isso, ficar mais perto da prisão.

 

Bandeira cobiçado

O Flamengo até pode não estar lá essas coisas dentro de campo, mas o presidente do clube, Eduardo Bandeira de Melo, que tem marcado sua atuação como bom gestor das finanças na Gávea. Assim, está bastante cotado nos meios políticos da capital. Pelo menos três partidos (PSDB, PPS e Rede) querem o cartola rubro-negro para ser candidato a governador do Rio. Os tucanos namoravam a candidatura do técnico de vôlei, Bernardinho, mas o escândalo envolvendo Aécio Neves esvaziou a pretensão…

 

Com a colaboração do jornalista Paulo Renato Porto

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

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Carol Poesia — Poesia dadaísta da cidade ideal por um dia

 

 

 

Sem corrupção. Toca a música preferida, na rua. Ninguém passa fome. Curral eleitoral não existe. Cheia de árvores. Trânsito tranquilo. Respeito e bom humor. Bom dia. Boa tarde. Boa noite. Obrigada. Com licença. Pois não. De nada. Seja bem-vindo. Não tem corrupção. Professores valorizados. Alunos conscientes. Posso ajudar? Sou importante. Sou respeitado. Temos teatros. Não temos corrupção. Movimento. Unidade. Parceria. Coletivos. Público, de qualidade. Sem corrupção. Benefícios ilícitos não. Vamos pra frente. Tem gente. Respiração. Um corpo só. Isso aí. Vamos lá. Vai dar. Posso ajudar. Sem corrupção. Comida. Todo dia. Saúde. Ciclovia. Museu. Memória. Democracia. Violência não. Algo que faça sentido. Líder que deixa legado. Positivo, é claro. Tolerância. Diversidade. Muitas cores. Muitos abraços. Muitos sorrisos. E igualdade. Vamos lá. Vai dar. Um corpo só. Sem corrupção.

 

Pegue tudo isso

Coloque em um saco branco

Escreva com caneta preta

UTOPIA

Mas não descarte

Pode ser que

Quem sabe

 

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Fernando Leite — A melhor cidade do mundo

 

 

 

Não há cidade melhor do que aquela para qual a gente está sempre voltando. Não há outra que substitua a que “(…)não cresce tanto além das chaminés(…)” e que “(…)permita ao seu povo sentar-se à sombra e descansar os pés(…)”.

As cidades são vivas, se movimentam, pulsam, experimentam o frescor de tempos felizes, adoecem, amargam enormes tristezas e morrem também.

Reproduzem na superfície, os choques das placas tectônicas, em maior ou menor intensidade. Mas, intermitentemente, são moldadas pelo homem, que permite o avanço das chagas da miséria, o inchaço da especulação imobiliária, a paralisia urbana, resultante do trânsito desordenado a coletivização do mal estar.

As cidades são grandes casas comuns. Se bem cuidadas, generosas e confortáveis, se não, insuportáveis.

O gênesis das cidades, que à exemplo do criacionismo, foi “feita à imagem e semelhança do seu autor” e até onde a literatura alcança, a era paleolítica, a arquitetura das cavernas e sua interrelação, as aldeias nas florestas, os aglomerados humanos, se estruturaram, desde sempre, seguindo a lógica do Poder. Do centro para a periferia. Os centros se diferem, mas as periferias se igualam na desordem e na carência.

No feudalismo, os núcleos oligárquicos, urbanos, eram protegidos por muralhas, restando aos que não faziam parte dos limites do domínio, se arranjarem nas vilas, solução de moradias que originou o verbete “vilões” para os que moravam fora das fortalezas. Onde morar, como se vê, foi e é credencial.

“O mundo, vasto mundo” é a soma de todas as cidades, que se separam não, apenas, na distância geográfica, mas temporal. Nova Yorque está à muitas décadas de São Fidélis. Tóquio dista aproximadamente um século de São Gonçalo. Paris já atravessou há décadas para o terceiro milênio enquanto Assunção, no Paraguai, ainda se arrasta no desfecho do segundo milênio.

Reza a lenda que o arquiteto Oscar Niemeyer, que, com Lucio Costa, planejou Brasília, teria se arrependido de sua criação, em função dela ter se transformado no cenário oficial, no que há de mais sórdido na vida brasileira. A Brasília funcional, oficial, espaço público federal. Verdade ou mito, a questão atrai a discussão que interessa: a cidade é onde se vive, efetivamente. Onde se vai as compras, ao barbeiro, a banca de jornais, pela manhã, ao cinema, ao teatro, faz-se a caminhada, no final datarde. A cidade com seus espaços ocupados e vazios, que a equilibram e a ajudam a respirar. Viver não se resume a rotina enfadonha de só ir e vir ao trabalho. É um rito completo que inclui umatroca de afeto com a cidade natal, seja ela qual for.

Para reforçar a ideia, recorro a Linguística, para quem o meio influencia nos hábitos, na linguagem, nas relações cognitivas dos citadinos. O homem do litoral fala diferente do homem da montanha, que, por sua vez, fala com seu acervo próprio de expressões e sotaques. São as variações diatópicas. Aqui mesmo, na Planície soberana, temos uma queda pelo r (erre) em lugar do l (ele). Desfilam nas ruas, diariamente, milhares de “bicicRetas”. Vi esta cena “dijaojinha”, expressão própria da nossa mítica baixada da Égua, que com sua dialética influenciou um dos maiores escritores universais, José Cândido de Carvalho.

O histórico e a identidade cultural das cidades são grandes atrações turísticas e movem interesses diversos do turismo, do fluxo cada vez maior de pessoas, da inesgotável curiosidade, mas cidades são, antes, berços memoriais. Para onde estamos sempre voltando, não importa onde estejamos.

 

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Manuela Cordeiro — Trechos e passagens nas cidades

 

Bogotá, Colômbia (Foto: Manuela Cordeiro)

 

 

Conhecida por poucos no centro sul do Brasil, Boa Vista tem muitos destaques positivos. Sua localização é privilegiada em termos de belezas naturais, mas a logística de acesso à cidade não apresenta muitas facilidades. Via terrestre, a BR 174 é o principal eixo de ligação com o Brasil, além do custoso acesso por avião, de produtos agrícolas até o deslocamento de pessoas.

Assim, para planejar a participação em um congresso na cidade de Bogotá, Colômbia; realizei uma pesquisa com relação aos preços das passagens aéreas. Como Boa Vista está localizada em uma tríplice fronteira, sabendo que por vezes as passagens saindo da Venezuela são mais baratas, procurei informações sobre a fronteira Brasil-Colômbia. Ao conversar com amigos colombianos, tive a confirmação do que precisava saber, o altíssimo preço da passagem do trecho Boa Vista/Colômbia poderia ser contornado se escolhesse a rota Boa Vista/Manaus, Manaus/Tabatinga, Letícia/Bogotá. Aproveitando a dinâmica dos trechos, comento sobre alguns aspectos de qualidade de uma cidade.

 

Trecho um — Mobilidade urbana

Já conhecia a grande metrópole da Amazônia. Mas desta vez tive a oportunidade, ainda que a passagem tenha sido breve, de vivenciar a cidade de outra maneira. Amigos me emprestaram uma bicicleta e me aventurei em um sábado ensolarado na região central de Manaus, no cais do porto e no mercado municipal. O transporte público é um dos princípios critérios, seja para políticas públicas, mas também para mim, particularmente, de avaliação​ de uma cidade. Certamente, as linhas de ônibus são muito mais frequentes e abrangentes em Manaus, se em comparação com a também capital Boa Vista.

No entanto, em termos de ciclovia, a capital do extremo norte está melhor equipada. Em algumas ruas no centro da cidade, há uma  sinalização para os ciclistas que não é respeitada pelos motoristas, seja em um passeio rápido como o meu, ou na tentativa cotidiana dos meus amigos. Em comparação ao deslocamento em Boa Vista, onde consigo ir à feira dos produtores locais, universidade e outras atividades de bicicleta, me parece que Manaus poderia ser mais bem preparado para outras modalidades do transporte público.

 

Trecho dois — Violência

Tabatinga está localizada na tríplice fronteira com Colômbia e Peru. Enquanto que, com a Colômbia, o fluxo de pessoas e mercadorias é intenso, o mesmo não acontece com a  primeira cidade peruana localizada na outra margem do rio Amazonas, para a qual é realizado o ecoturismo. Tanto que minha entrada na Colômbia as deu a partir da cidade vizinha chamada Letícia. Apesar da aparente tranquilidade de Tabatinga, fui avisada por diversas ocasiões para ter cuidado com meus pertences ao andar na rua, evitar ruas que não fossem a principal. Por ter nascido no estado do Rio de Janeiro, sempre revisei com cuidado comentários relacionados à violência nas cidades, já que o alarde com relação a violência no Rio era, ao meu ver, condizente com uma realidade macroestrutural que mescla vários elementos, incluindo o tráfico de drogas. Cidades como Boa Vista experimentam uma violência de “pequenos furtos”. A dinâmica é diferenciada com relação a Tabatinga pelo posicionamento entre os países e a interação de produtos entre os mesmos.

 

Trecho três — Cultura

Deve ser um mandamento, chegar em uma capital e se deixar experimentar suas cores, arquitetura, trejeitos das pessoas. Em Bogotá, tive a felicidade de ser muito bem recebida, hospedando-me no bairro histórico onde a cidade foi fundada e, portanto, a cinco minutos de caminhada dos principais museus e prédios históricos do governo. Some-se a isso tudo a grata surpresa do respeito por uma mulher andando sozinha. Ouço por diversas vezes que “Boa Vista não tem cultura”, isso de uma cidade com a sócio-diversidade magnífica que apresenta.

Uma cidade “não possui cultura” é uma afirmação sem sentido nenhum. Em realidade, o que mais acontece é a falta de investimento por ser algo considerado supérfluo. Quando​ não se tratam de grandes centros como Bogotá, os investimentos em cultura ficam escassos e por vezes baseados em viciados mecanismos de troca.

 

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Antes da pausa, blog indica “Milk” com Jean Wyllys e Tietas para o sábado

 

De hoje a domingo (11), por motivos de ordem pessoal, o titular do blog fará uma pausa na atualização do espaço, que ficará por conta dos seus colaboradores. Antes, ficam duas indicações de programação para o próximo sábado (10):

 

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A primeira, começa às 16h deste sábado, no campus Campos Centro do Instituto Federal Fluminense (IFF), quando o Cineclube Marighella exibirá o filme “Milk — A voz da igualdade”. Dirigido por Gus Van Sant, traz um Sean Penn vencedor do Oscar de melhor ator pela interpretação do personagem-tíulo da vida real, primeiro homessexual assumido a exercer mandato eletivo nos EUA. Após o filme, rolará um aguardado debate com outro miltante da causa, o ex-BBB e polemista deputado federal Jean Wyllys (Psol/RJ).

 

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A segunda indicação do blog para o final de semana começa às 21h, no Espaço Casa, na rua Alvarenga Pinto, nº 136: o show “Tietas e a Banda Balacobaco”. Em canto e música, a famosa personagem do escritor Jorge Amado (1912/2001) será interpretada no palco pelas atrizes Gabi Candido, Carol Poesia e Carol Muylaert. A voz e percussão do trio de “Tietas” se fará acompanhar pela bateria de Bosco, o baixo de Bira e a guitarra de Betinho Assad, virtuose goitacá no instrumento.

 

As Tietas Carol Poesia, Gabi Candido e Carol Muyalert na lente de Ricardo Avelino

 

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Posse de Thiago Virgílio, Linda Mara, Ozéias e Miguelito nesta quinta

 

Beneficiados (aqui) por decisão de ontem (06) do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), os vereadores eleitos Thiago Virgílio (PTC), Linda Mara (PTC), Ozéias (PSDB) e Miguelito (PSL), acusados na Chequinho, tomam posse amanhã, quinta-feira (08). No entanto, só poderão ocupar seus gabinetes na Câmara Municipal de Campos no dia seguinte, sexta (09). Presidente da Casa, o vereador Marcão Gomes (Rede) deu tempo para que Carlinhos Canaã (PTC), Cabo Alonsimar (PTC), Geraldinho Santa Cruz (PSDB) e Álvaro Oliveira (SD) desocupem suas salas.

 

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