Magalha nos anos 1980, jovem e de cabelos compridos, no auge do BRock (Foto: Alcino – Facebook de Fred Landim)
Por Aluysio Abreu Barbosa
A semana que passou, como creio ter sido para vários amigos do advogado, professor e músico Rodrigo Magalhães, foi de reflexão. Sua morte precoce aos 47 anos, durante uma cirurgia de emergência entre o fim de noite de segunda (22) e o início da madrugada de terça (23), por conta de um aneurisma na artéria aorta, trouxe a público o que muita gente talvez sentisse cotidianamente, mas talvez nunca tenha se tocado de forma tão nítida: pela cultura associada à humildade, ao bom humor e jeito sempre afável com todos, Magalha era um dos sujeitos mais queridos da sua geração.
Depois que ele passou mal na manhã de segunda, enquanto dava aula na Universidade Cândido Mendes, soube ainda de tarde, por meio de familiares e amigos médicos, da gravidade da situação. Como escrevi no blog, pelo qual comecei a acompanhar a evolução do seu quadro, conhecia Magalha desde a adolescência, nos anos 1980. Vivíamos o auge do BRock, quando ele, ainda garoto e de cabelos compridos, já brilhava como músico nas bandas locais de rock.
Nosso maior convívio se deu a partir de uma excursão que saiu de Campos para o primeiro show de Paul McCartney no Brasil, no Maracanã, em 1990. Tinha passado os dois últimos anos ouvindo muito os Beatles e, conversando com Magalha durante a viagem, me surpreendi com seu conhecimento de rock inglês, de conjuntos que eu ainda sequer conhecia, mas viraria fã, como Yarbirds (depois Led Zeppelin), John Mayall & the Bluesbreakers e Cream — hoje, minha banda favorita.
Quem também estava naquela viagem era Gilberto Cruz Filho, outro que teria a vida precocemente abreviada, num acidente de carro, em 1993. Lembro após sugerir que, caso alguém se perdesse do grupo, que esperasse os demais na estátua do Bellini, em frente à entrada do estádio, Gilbertinho exclamou:
— Bellini, grande capitão de 50!
Ao que aleguei que Bellini só teria sido capitão da Seleção de futebol em 1950 no juvenil, já que o ex-zagueiro foi de fato capitão da Seleção em 1958, na conquista primeira Copa do Mundo pelo Brasil. Grande amigo de Gilbertinho, Magalha não deixou passar a oportunidade para cair em sua pele, indagando a todo momento, inclusive nos intervalos das músicas do ex-Beatle:
— E o Bellini?
Algum tempo depois, já na primeira década do novo milênio, sobretudo a partir de outro amigo comum, o também advogado Andral Tavares Filho, tive minha fase de maior convivência com Magalha. Não raro nos cruzávamos para dividir mesa, bebidas e papos nas noites campistas. Lembro do encontro com outro amigo comum, médico, gente boa, mas que já tinha bebido um pouco além da conta, no antigo Club, casa noturna que fez sucesso na Pelinca dos anos 2000.
Se não me falha a memória, o cardápio da casa oferecia um prato com palmito de pupunha. E como esse amigo comum começou a querer encher o saco de Magalha com lembranças do passado, “pupunha” virou uma espécie de código particular, montado naturalmente entre nós, para fazer referência velada a quem já bebeu demais e começou a ficar inconveniente. E sem que ninguém mais na mesa entendesse, inclusive o alvo eventual da ironia, ríamos a balde enquanto um indagava ao outro:
— Será que vai rolar pupunha?
Com a idade e mudanças de hábitos, nesses rumos diferentes que a vida segue sem que nem percebamos, nossa convivência foi se espaçando. Mas sempre que nos encontrávamos, demonstrávamos o mesmo carinho recíproco. Depois que se casou com Beatriz, Magalha se tornou um cara caseiro, sobretudo após o nascimento da sua Alice, hoje com 2 anos. Recolhimento que eu levei mais tempo — e casamentos — para finalmente adquirir.
Não pude ir ao seu velório na terça, pois tinha um compromisso prévio e inadiável agendado no Rio, coincidentemente em companhia de outro amigo comum de Magalha. Mas minha namorada, também advogada e sua ex-colega de turma no Auxiliadora, esteve no Caju e me contou do grande comparecimento de amigos, colegas do Direito, alunos e ex-alunos. E testemunhou como dava para se cortar com faca a densidade da consternação geral.
Na tarde de quarta (24), me ligou uma ex-namorada. Presente num dos últimos shows de Magalha, com sua banda Cross Time, há menos de um mês, no pub Republic, ela se reuniu com ele ao final e conversaram um pouco. E fiquei emocionado ao saber que, uma vez que me tornei o assunto, as palavras dele sobre mim foram paridas em três das suas grandes virtudes para com todos: gentileza, carinho e generosidade.
Na noite daquela mesma quarta, outro amigo comum, o biólogo e também professor Marcelo Cordeiro completou 45 anos — exatamente um mês antes de mim, como observamos desde que nos tornamos amigos, ainda aos 3 anos de idade. De volta recentemente a Campos, depois de mais de 10 anos morando na Bahia, ele chamou vários amigos de adolescência e juventude para comemorar a data no Mexicano.
Inevitavelmente, além dos brindes pelo reencontro e a felicidade do aniversariante, o fizemos também em homenagem ao companheiro de um mesmo lugar e tempo, que todos conheciam, gostaram durante boa parte da vida, mas já não estava mais entre nós.
Num solo de guitarra pelo coletivo da nossa geração, vá em paz, Magalha!
Diz o ilustre filósofo político Norberto Bobbio que a regra áurea da justiça social está encerrada na seguinte máxima: “Tratar os iguais de modo igual e os desiguais de modo desigual.” Pensando em justiça distributiva, me pus a pensar sobre como justiça relaciona-se ao ideal de igualdade, e como tal ideal é encarado, historicamente, pelos movimentos à direita e à esquerda do espectro político.
Atualmente, é comum ouvir por aí, nos cafezinhos bebericados inocentemente em padarias, que já não existe mais esse negócio de direita e esquerda. Para estes que o afirmam enfaticamente, a única divisão existente na política é aquela que separa os honestos dos desonestos (o segundo grupo, obviamente, sobrepujando o primeiro, quando existente). Para o filósofo político trazido à cena, os atores políticos ainda se orientam segundo as clássicas definições “direita” e “esquerda” e, portanto, a distinção entre os polos continua bastante viva entre nós. “Num universo conflitual como o da política, que exige continuamente a ideia do jogo das partes e do empenho para derrotar o adversário, a divisão do universo em dois hemisférios não é uma simplificação, mas uma fiel representação da realidade”, afirma Bobbio.
O filósofo italiano explica que a queda do muro de Berlim e o desmantelamento da União Soviética foram o estopim do discurso que busca negar o fim da distinção entre direita e esquerda como categorias-chave para a interpretação dos sentidos das ações políticas; enquanto que os termos antitéticos direita e esquerda ganharam o mundo e os escritos políticos a partir da Revolução Francesa, há mais de dois séculos, dada a oposição entre jacobinos e girondinos.
No Brasil, paralelo ao discurso que nega a importância da distinção “destra/sinistra” no cenário político nacional, crescem também os discursos que reivindicam tais categorias. Cada vez mais torna-se imperativo o posicionamento dos indivíduos atrelando-se a um ou outro lado. A velha dupla também pode ser substituída pelos termos “progressista” e “conservador”. E ainda subdivide-se o progressismo e o conservadorismo por área, tal como se faz em relação à área dos costumes e à área da economia. Desta forma, “conservador de esquerda” seria aquele sujeito que defende uma maior justiça distributiva entre as classes, mas que rejeita ou considera irrelevantes bandeiras típicas dos movimentos sociais “identitários”, tais como o feminismo e o movimento LGBT. Já o “progressista de direita” seria aquele que tende a se opor a intervenções estatais na economia, mas defende as tais bandeiras “identitárias”, apoiando o casamento homoafetivo, o combate ao machismo e mesmo a liberação de drogas ilícitas.
Na época das manifestações que defendiam o afastamento da ex-presidente Dilma, não era incomum que portais de notícias realizassem entrevistas com os manifestantes que se reuniam na Av. Paulista ou em Copacabana. Nessas entrevistas, perguntava-se às pessoas o que elas entendiam sobre direita e esquerda e como elas se definiam segundo esta oposição. A partir das respostas, era possível perceber como esses termos são utilizados com certa imprecisão.
No Brasil, também não é incomum relacionar à esquerda a defesa de temas como direitos humanos, feminismo e programas de distribuição de renda, como o Bolsa Família. Ao analisar a gênese desses movimentos e bandeiras no contexto europeu, é possível notar como os direitos humanos e o feminismo são atrelados a partidos liberais. Da mesma forma, programas de mitigação da pobreza como o Bolsa Família, na Europa, são entendidos como liberais porque apenas provém uma renda mínima às famílias pobres, enquanto mantém intocadas as estruturas de distribuição de renda e riquezas. Neste sentido, esses programas estariam na direção oposta de ideais socialistas/comunistas. Mas por aqui não surpreende que se chame de “comuna” quem defende o programa formulado na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Finalizo retornando a Bobbio, que traz uma clássica definição de direita e esquerda, talvez a mais aceita no escopo da teoria política: a segunda seria mais igualitária que a primeira. A esquerda tende a perceber grande parte das desigualdades presentes no mundo social como injustas, enquanto que a direita entenderia muitas dessas desigualdades como aceitáveis e até mesmo positivas para a sociedade. A direita, segundo o autor, tende a salientar as diferenças existentes entre os indivíduos e a exortá-las. A esquerda, por sua vez, tenderia a atribuir motivações arbitrárias e socialmente construídas a desigualdades presentes na sociedade, ao passo que a direita tenderia a perceber essas desigualdades como parte de uma “natureza” ou de uma “segunda natureza”, ou seja, de tradições e costumes sociais que adquiriram a solidez de uma rocha ao longo do tempo e que, portanto, devem permanecer firmes.
A professora Simonne Teixeira, diligente diretora da Villa Maria, Casa de Cultura da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), enviou convite pela democracia irrefreável das redes sociais e o blog republica. Em meio à crise na Uenf, sem receber verbas de manutenção do governo estadual desde outubro de 2015, a Villa convoca a comunidade para se unir em mais um exemplo de resistência. E o que é melhor: com música de qualidade e entrada franca.
Neste sábado (27), a partir das 16h, ocorre mais uma edição do Choro na Villa. O grupo “Pé de Pitanga” vai fazer uma homenagem ao compositor campista de choro Joventino Maciel (1926/93), que também era torneiro mecânico, além de músico. A programação nos jardins do prédio histórico deve se estender pelo sábado até às 22h.
“O vereador Thiago Virgilio (PTC), ainda não diplomado por decisão do Poder Judiciário, não deve conhecer muito bem o regimento interno da Casa de Leis da qual ele já fez parte, inclusive sendo membro da mesa diretora na legislatura anterior. Todas as decisões tomadas pela presidência da casa se dão por força regimental e legal. Cabe ainda esclarecer que nos casos de Thiago, Ozéias (PSDB), Kellinho (PR), Jorge Rangel (PTB), Linda Mara (PTC) e Miguelito (PSL), pelo que é de meu conhecimento, até a data de ontem, eles ainda não tinham sido diplomados. E se não possuem ainda o diploma não podem tomar posse. E não sou eu quem digo que há uma pendência cível-eleitoral para não dar posse, é uma decisão judicial quem diz. Se os vereadores conseguirem se livrar dos impedimentos judiciais, encaminharem a documentação necessária à Câmara, irei dar posse como já fiz anteriormente em outros casos. Quanto aos demais comentários do Thiago, ele deve desconhecer ou ignorar que os vereadores são agentes políticos investidos de mandato legislativo municipal e eleitos para participar de todas as discussões políticas, apresentar proposições e sugerir medidas que visem o interesse coletivo, desempenhar fielmente o mandato político, atendendo ao interesse público e às diretrizes partidárias. Eu estou vereador e presidente da câmara, e me manifestarei sobre qualquer matéria que entender ser de minha atribuição por força da lei. Ele precisa aprender a distinguir as decisões do presidente da câmara que são imparciais no estrito cumprimento de suas funções regimentais, das manifestações políticas do vereador Marcão Gomes que não foge ao enfrentamento e aos debates”.
Foi o que o presidente da Câmara de Campos, Marcão Gomes (Rede), enviou por e-mail hoje à tarde ao blog. Ele reagiu ao que disse ontem aqui, também neste “Opiniões”, o vereador eleito, mas ainda não empossado, Thiago Virgílio, que criticou abertamente a postura de Marcão à frente do Legilsativo goitacá, em relação às atitudes diante dos problemas jurídicos com os vereadores condenados na Justiça Eleitoral pela troca de Cheque Cidadão por voto, naquilo que ficou conhecido como “escandaloso esquema”, durante as eleições municipais de 2016.
Numa entrevista publicada aqui na Folha, na edição do último domingo (21), Marcão também já tinha falado sobre o caso.
O Brasil, desde o início das manifestações de 2013, sem dúvida vive um momento de efervescência política única. De lá para cá um número incontável de manifestações da vindas das diferentes correntes políticas, nas quais vimos, inclusive, o levante de pautas que remontam regimes totalitários de esteio popular como fascismo e nazismo.
O nacionalismo oco dos integralistas foi exaltado por vezes na Avenida Paulista e na Avenida Presidente Vargas. O Brasil virou uma panela de pressão. A culminância deste processo multifacetado se desenrola em duas situações traumáticos para a vida política do país: o impeachment do segundo presidente da história da democracia brasileira pós-ditadura, concomitantemente ao desenrolar das etapas da operação Lava Jato.
De certo que este cenário coloca o Brasil em uma mesa de cirurgia na qual, a Lava Jato, em sua condução e espetáculo midiático, parecia querer dissecar as entranhas da política brasileira a todo e qualquer custo. Um processo jurídico nunca antes visto na história tupiniquim, que acirrou ainda mais os ânimos dos dois grandes pólos políticos brasileiros representados aqui nas figuras do PT e do PSDB.
O fato que me parece inegável se arvora na tese de que, seja lá qual for o desfecho da Lava-Jato sob condução de seu “líder carismático” Sérgio Moro, haverá profundas repercussões no modus operandi de judiciário brasileiro. É como se o fim da Lava Jato riscasse no chão uma linha na qual poderia se dizer “até aqui foi assim”, “daqui pra frente vai ser desse jeito”.
A amálgama entre os componentes jurídicos e políticos intrínsecos à operação, faz dela um produto totalmente novo que, ao ser digerido pelas diversas esferas do poder e de representações políticas e civis, provocará reações das mais diversas em nossa sociedade. Se Moro conseguir provar as acusações contra Lula e por conseguinte condená-lo, será herói de parcela da população que enxerga no ex-presidente a encarnação do espírito da corrupção e dos malfeitos, e se, pro fim, não conseguir juntar as provas necessárias à condenação de Lula, sofrerá, como previu o ex-presidente, o mais vil dos açoitamentos públicos que possamos prever em nossa nação e levará consigo, toda fé que está sendo depositada no Judiciário, através do carisma que lhe foi investido.
Em todo caso, a Lava Jato provocará rupturas e tremores, pois trata em seu bojo com elementos de proporções politicamente tectônicas.
Amigo em comum do advogado, professor e músico Rodrigo Magalhães, o Magalha, precocemente falecido (aqui) numa cirurgia de emergência entre a noite de segunda (22) e a madrugada de terça (23), o sociólogo e também professor e músico George Gomes Coutinho enviou o convite para a missa de sétimo dia, às 16h do próximo domingo (28), na Igreja Sagrado Coração de Jesus, no Pq. Riachuelo (confiraaqui a localização). O chamamento à oração coletiva pela alma de Magalha é feito pela Cross Time, sua última banda.
Gustavo Machado, tecladista da Cross Time, também informou que uma outra homenagem está sendo organziado pela Universidade Cândido Mendes, onde Magalha era professor do curso de Direito. Ele estava em sala de aula, quando começou a passar mal e teve que ser internado. O evento no será no auditório da universidade, às 19h da próxima segunda (29).
Depois de estrear com grande sucesso, no Sesc, em dezembro de 2015, será encenada a partir das 20h de hoje (26) no palco mais tradiconal do teatro de Campos: o Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira. O espetáculo será reencenado no TB de sábado (27) e domingo (28), sempre às 20h.
Montada com base nos poemas do poeta português Fernando Pessoa (1888/1935), em versos assinados pelo próprio, além de seus heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, a coletânea foi selecionada pelo poeta, dramaturgo, ator e professor Adriano Moura, em parceria com o músico Matheus Nicolau, a quem coube a musicalização de alguns poemas. Além de Adriano, que também dirige o espetáculo, e Matheus, completam o elenco o ator Tim Carvalho e o músico Renato Arpoador.
Para quem não é tão íntimo do vasto universo pessoano, o espetáculo é uma maneira de se tornar mais próximo da obra daquele considerado, não sem razão, como o maior poeta modernista da língua portuguesa. E mesmo para quem conhece de cor alguns dos versos de Pessoa, a peça é também capaz de causar grande impacto, pela sensibilidade com que os poemas são encenados, ofertando novas possibilidades de interpretação a partir da musicalização, como ocorre em “Mar Português”, cujos versos geraram um fado, no blues de “O cão que veio do abismo”, ou no lamento sertanejo de “Carro de bois”.
A maioria dos poemas escolhidos, no entanto, não depende de versões musicais, sustentados apenas na interpretação cênica dos quatro atores. Como explica Adriano:
— Queria muito revisitar a obra do Pessoa. Eu e Matheus fizemos encontros para ler os textos, escolher o que seria música e o que seria recitado. Queríamos algo que não se parecesse com um recital, mas que também não se aproximasse de um musical biográfico.
Pessoa poderia estar certo ao versejar pela pena quase sempre debochada de Álvaro de Campos: “Todas as cartas de amor são/ Ridículas”. Talvez não por outro motivo, seja de Ophélia Queiroz, infeliz noiva do poeta, o retrato que funciona como eixo em boa parte das cenas. Apesar de amar Fernando, a homônima portuguesa da noiva de Hamlet não tinha pudor ao afirmar: “Detesto Álvaro de Campos!”. No amor de Adriano, Matheus, Tim e Renato expresso no palco pelas “Pessoas” em Pessoa, ridículo é não comparecer.
“Marcão (Rede) vem fazendo comentários desnecessários sobre o nosso caso (vereadores envolvidos na operação Chequino).Ele recentemente publicou um ato para reempossar quatro vereadores — Thiago Ferrugem (PR), Vinícius Madureira (PRP), Jorge Magal (PSD) e Roberto Pinto (PTC). Ele não tem poder para isso. Isso é uma prerrogativa do Poder Judicário, não do Legislativo. Ele não tem que se meter no caso dos processos. E quando o faz, não é imparcial, como um presidente da Casa deveria ser. Sobre Magal, depois que ele virou governista, Marcão deu posse sem consultar o TRE, que já o tinha condenado. E comigo, Ozéias (PSDB), Kellinho (PR), Jorge Rangel (PTB), Linda Mara (PTC) e Miguelito (PSL), Marcão diz que há uma pendência cível-eleitoral para não dar posse? São dois pesos e duas medidas. E depois, em entrevista a Folha, ele diz (aqui) que a base governista está preparada para discutir a forma do nosso ingresso, ‘com uma série de denúncias, de ações, seja na esfera eleitoral e na penal’? Ele é presidente da Câmara. Volto a dizer: deveria ser imparcial. Deixe que a bancada do governo venha falar conosco, debater conosco. Se o presidente não que ser imparcial, não tenha dúvida: nós vamos para dentro dele! Vamos querer saber como anda a Casa, as finanças da Casa”.
Foi o que falou ao blog o veredaor Thiago Virgílio (PTC), conhecido na legislatura passada como “pitbull rosa”, pela agressividade no discurso em defesa do governo Rosinha Garotinho (PR). Ele é um dos seis vereadores que tiveram decisão favorável no julgamento (aqui) de habeas corpus criminal pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mas ainda não entraram na Câmara pelo fato de seu presidente, vereador Marcão Gomes, entender que há uma decisão da 99º Zona Eleitoral de Campos, na esfera cível-leitoral, contrária à posse dois seis, que poderia não estar coberta pela decisão do TSE.
Coube a mim a difícil tarefa de escrever sobre Justiça depois dos espinhosos acontecimentos envolvendo a presidência desse país. Se o tema já era difícil de ser encarado, por sua abrangência e responsabilidade ética, tornou-se mais complicado visto as inúmeras análises sobre os rumos políticos, dos mais variados tons.
Realizei trabalho de campo no último fim de semana. Mesmo com as chuvas torrenciais que vêm assolando o estado de Roraima nesse inverno e diante da impossibilidade de cumprir o cronograma inicial, visto que não tinha transporte na sexta-feira, desloquei-me quase 400 quilômetros para uma pequena vila denominada Entre Rios. Essa vila de quase dois mil habitantes, fazendo divisa com os estados do Pará, Amazonas e a República Cooperativa da Guiana. A motivação para a realização do trabalho de campo, com o perdão do academicês, era verificar a interação entre movimentos indígenas e movimentos do campo na região do município de Caroebe. A área indígena Wai-Wai está localizada junto a esse município. No final de cada mês, é comum que os indígenas se desloquem de sua área e passem na vila para fazer compras. Uma espécie de ponto de apoio que ajuda a circulação de informações, bens que não produzem e também passagem para a capital Boa Vista.
Tendo chegado alguns dias antes desse intenso movimento dos indígenas em relação ao município de Caroebe, sempre vem à tona nas conversas (informais e de pesquisa) a demarcação das terras indígenas no estado. Na área de Boa Vista e outros municípios localizados ainda mais ao norte, é comum a referência a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol como um evento marcante, principalmente porque o senso comum de Justiça é motivado a elaborar frases como ‘muita terra para pouco índio’, ‘perdi uma herança de família para esses índios que não trabalharam para ter a terra’. Qual não foi a minha surpresa quando a referência aos Wai-Wai no sul do estado era sempre positiva, mesmo entre os produtores rurais da região. Ouvi inúmeras vezes que nunca tiveram nenhum embate entre os indígenas e os assentados de Caroebe e mais, um produtor rural me afirmou que eles eram “muito trabalhadores”. Ainda que o volume de trabalho seja diferente e os produtos também (ligados principalmente ao extrativismo da castanha e subprodutos da macaxeira), eles não “eram preguiçosos como todo mundo diz”.
Esse senso de Justiça, gostaria de aplicar o termo, e mais Justiça em relação ao direito de uso da terra e também à alteridade no entendimento que trabalhos diferentes produzem frutos (e efeitos) distintos, em um cenário político extremamente acirrado como o de Roraima, fez até recobrar um pouco do otimismo em relação aos rumos desse país. Sem cair na armadilha de fazer uma análise política, porque acredito que minha contribuição pode ser mais válida se distinta, a cena político-partidária do Brasil também estava presente nos relatos. Depois que comentavam sobre os políticos do estado, perguntavam-me jocosamente se estava gravando, para depois dizerem que desmentiriam toda a gravação. E ainda sobre os indígenas, destaco a fala de um dos produtores rurais, “eles estão ótimos lá na reserva, porque vivem a vida deles, não dependem de ‘política’”.
Em uma das noites no campo, com a tevê ligada, terminando de revisar as anotações do dia, ouvi a chamada inconfundível do plantão de uma rede brasileira que, em um instante, remete aos eventos políticos importantes desses país em uma fração de segundos. Como um (ou vários) eventos traumáticos podem marcar um caminho sináptico de memória e um barulho ativa todas essas lembranças. Soube, “em primeira mão” que a Ordem de Advogados do Brasil (OAB), nossos representantes da Justiça, entrariam com um pedido de impeachment na Câmara de Deputados contra o presidente Temer.
Retomo algumas palavras da antropóloga e professora titular da USP Manuela Carneiro da Cunha, publicadas no Jornal Folha de São Paulo, do último dia dezoito de maio. Ela faz referência ao futuro da Constituição de 1988 e o retrocesso em relação a todas medidas democráticas e progressistas – como a política nacional do meio ambiente, a proteção de pequenos agricultores, liberdade de expressão dos profissionais, incluindo os antropologos. Aplicando sua fala para Justiça: “Um debate baseado em dados e valores não está tendo o peso que deveria”. Nem dados quantitativos e nem valores éticos. Fico com o imperativo final da professora: “Basta!”
Michel Temer ao descer do púlpito do Palácio do Planalto ao fim do segundo pronunciamento após vazamento de sua conversa com o dono da Friboi. A queda é certa (Foto: Internet)
Circula no folclore político que, lá pelos anos 80, o então governador de São Paulo, André Franco Montoro, chegou atrasado para um evento público e sentou-se num canto do auditório até que seu jovem secretário de Segurança Pública interrompeu a solenidade e convidou o chefe para ocupar o centro da cerimônia. O centro, Michel, “é onde está o governador”, respondeu Montoro. A desastrosa conversa de Michel Temer com o dono da Friboi, Wesley Batista, na noite do último sete de março, revelou que passados 40 anos do episódio com Montoro, o hoje presidente da República não aprendeu a lição de que o centro do poder é onde ele está, seja no gabinete do terceiro andar do Palácio do Planalto ou no escurinho da garagem do Palácio do Jaburu. As condições, os temas e a conversa em si conspurcaram o cargo e o chefe da Nação e, mesmo sem condições morais e frágil sustentação, Temer quer seguir sangrando a espera de um milagre.
É nítido o esforço dessa entidade etérea chamada “mercado” para maquiar números, projeções e avaliações de agências de risco com o indisfarçável objetivo de prolongar a sobrevida do governo moribundo. Vão tentar mantê-lo até moldar as condições para sentar no Palácio do Planalto um novo preposto que o substitua como instrumento da vontade dessa minoria. Fiador da política econômica, o ex-presidente do Citibank e do Banco Central da era Lula, o ministro da Fazenda, Henrique Meireles seria o escolhido, caso o que restou da base aliada seja suficiente para dar-lhe os 298 votos necessários para ser eleito numa eventual eleição indireta.
Não há dívidas — ao menos para mim — que os mesmos atores econômicos que manipularam a economia seguindo o script para o impeachment de Dilma Rousseff, há pouco mais de um ano, estão em franca atividade para, em sentido oposto, operar um processo de distanásia do governo agonizante. A diferença é que, ao contrário da unanimidade dos conglomerados financeiros e grande mídia que conspirou contra Dilma, desta vez há clara divergência que é explicitada, por exemplo, pela mídia paulista, pró-Temer (ainda) e a carioca, contra. O Globo, em editorial na edição de 19 de maio, escrito um dia após vazar o áudio da conversa com o dono da JBS é enfático: “a renúncia é um ato unilateral do presidente. Se desejar, não o que é melhor para si, mas para o país, esta acabará sendo a decisão que Michel Temer tomará. É o que os cidadãos de bem esperam dele”.
A crise acentua-se a cada hora e todas as esperanças de solução para o impasse estão nos ombros de onze cidadãos (nove homens e duas mulheres) sob as togas negras que farfalham no Supremo Tribunal Federal. E para aquele prédio, à direita do Congresso Nacional e de frente para o Palácio do Planalto, na Praça dos Três Poderes, que convergem os grandes problemas nacionais em busca de solução. O que poderia ser identificado como hipertrofia do Poder Judiciário nada mais é do que consequência da falência moral do Legislativo e Executivo. Aliás, a judicialização da política é resultado da banditização dos políticos. O que não autoriza ninguém a imaginar um Poder Judiciário inume às fraquezas humanas. Mas isso é outra história…
Mesmo que seja judicial, no STF, onde um processo de investigar o presidente é mais longo ou no TSE, onde a ação que pede a cassação da chapa Dilma Temer está pronta para ser julgada, a decisão será política porque estará subordinada à sucessão de Temer e a forma que se dará a escolha. Há dúvidas: se o registro da chapa for cassado pelo TSE, significa que a posse foi invalidada e, portanto não haverá vacância e o artigo 81, §1º da Constituição determina eleição indireta, pelo Congresso Nacional, 30 dias após a vacância do cargo, se ocorrer nos dois últimos amos de mandato. Aí é o STF é quem vai decidir, a menos que o Congresso Nacional, por consenso, mude a Constituição.
O fato é que, nos próximos dias, ou horas, já estará decidido o destino do presidente flagrado no escurinho da garagem do Jaburu prevaricando com um empresário que àquela altura já andava tão enrolado com a polícia que confessou ao próprio Temer que estivesse pagando mesada a um procurador da República (preso 24 horas após o vazamento da gravação). Disse mais: estava “segurado” um juiz e seu substituto. “Os dois?”, pergunta o presidente, para logo completar, imagino que esfregando as mãos, como lhe é de hábito: “ótimo, ótimo”.
Sem o apoio popular que nunca teve e apoio político cada vez mais reduzido, Temer se pendura no pouco que resta de sustentação no tal mercado, mas como está cada fez mais difícil entregar as reformas que prometeu, está com um pé fora do palácio e da vida pública. Ao contrário do que disse o presidente ao saber que Joesley estava conseguindo manter o silêncio do homem-bomba Eduardo Cunha, engaiolado em Curitiba: “Isso tem que continuar, viu?”, o povo brasileiro decidiu que o que não pode continuar é esse presidente. Viu?
Magalha nos anos 1980, jovem e de cabelos compridos, no auge do BRock (Foto: Alcino – Facebook de Fred Landim)
Não pude ir ontem (23) ao velório de Rodrigo Magalhães. Junto a um outro seu amigo, tinha um compromisso profissional prévio no Rio de Janeiro. Mas pelo que puder saber (aqui) pela reportagem da Folha e pelo relato de outros amigos comuns, que estiveram presentes, a grande quantidade de pessoas que compareceu para dar o último adeus a Magalha evidenciou bem que tipo de pessoa ele foi em seus 48 anos de vida.
Para saber o que ele foi como advogado e professor, basta constatar as muitas manigestações sentidas de seus pares no Direito, de alunos e ex-alunos. Já como músico, quem não teve a oportunidade de ver Magalha em ação com sua guitarra, ou gostaria de rever, fica o vídeo abaixo de um solo dele, coletivo de uma geração, postado pela Cross Time, sua última banda: