Reabertura do Anfiteatro do Alberto Sampaio e futuro de Campos em outro palco

 

Charge de José Renato publicda hoje (07) na Folha

 

 

 

 

Após TB, reabertura do Anfiteatro

Em 27 de março, o governo Rafael Diniz (PPS) já havia marcado pontos com a classe artística de Campos ao reabrir (aqui) o Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira, que havia sido fechado, como vários outros espaços culturais importantes, durante do governo Rosinha Garotinho (PR). Pois ontem (06) a atual administração municipal voltou a marcar pontos com os artistas, depois que o blog “Opiniões”, hospedado na Folha Online, antecipou (aqui) a reabertura de outro espaço cultural na área central da cidade: o Anfiteatro do Parque Alberto Sampaio. Em 1º de julho, ele sediará a Feira dos Povos, evento que será integrado por representantes de diversas etnias.

 

Zezé

Bem verdade que, diferente do TB, do Palácio da Cultura e do Museu Olavo Cardoso, o Anfiteatro do Alberto Sampaio não foi fechado pelos Garotinho. Degradado e inutilizado há mais de 10 anos, o abandono do espaço é anterior ao primeiro governo Rosinha. No entanto, para Rafael, sua reabertura não poderia ser mais emblemática. Construído sobre a parte coberta do canal Campos/Macaé, o Anfiteatro foi inaugurado em 1988, no último ano do governo municipal de Zezé Barbosa (1930/2011), avô do atual prefeito.

 

Kapi

Quando reabriu o TB e o devolveu aos artistas de Campos, Rafael disse que o fazia em cumprimento a uma promessa feita a Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (1955/2015). O diretor teatral, turismólogo e poeta morreu depois de ser relegado ao ostracismo pelos Garotinho. Foi uma vingança mesquinha por Kapi ter gravado vídeo em apoio ao então candidato a prefeito Arnaldo Vianna na eleição de 2008, disputada contra Rosinha. Nessas coincidências que não há, foi também Kapi quem dirigiu a peça que inaugurou o Anfiteatro do Alberto Sampaio, em 1988: “Arena conta Zumbi”, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal.

 

Esforço coletivo

Se o atual governo de Campos já sofreu críticas por centralismo nas decisões, ou elas não procedem, ou foram ouvidas: a reabertura do Anfiteatro é fruto de um esforço coletivo de sete pastas municipais para promover a Feira dos Povos. Com a Superintendência de Igualdade Racial e Codemca à frente, no projeto também estão engajados Entretenimento e Lazer, Turismo, Limpeza Pública, Guarda Municipal e Postura. Já há confirmadas as participações de representantes das comunidades libanesa, colombiana e argentina radicadas em Campos, além de Angola, em parceria estabelecida junto ao consulado do país africano no Rio.

 

Testemunho

Diretora presidente do Grupo Folha, a professora e empresária Diva Abreu Barbosa chefiava o departamento municipal de Cultura (hoje Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima) em 1988. Ao saber da reabertura do espaço inaugurado em sua gestão, ela testemunhou: “Levamos o pleito dos artistas para Zezé, que encampou a ideia. Na inauguração, numa sexta-feira, era só para ser um dia, mas, pelo sucesso de público, foram três. Kapi montou o espetáculo sexta, sábado e domingo, sempre com a arquibancada apinhada de gente. Acho que Zezé vai ficar muito feliz com a reabertura. Assim como Kapi”.

 

Futuro de Campos (I)

Em outros palcos, o município também tem buscado desempenhar seu papel. Depois de assumir a Prefeitura em janeiro e pagar no primeiro mês o que a Caixa Econômica Federal (CEF) queria cobrar pela “venda do futuro”, celebrada pelos Garotinho no apagar das luzes do governo federal Dilma Rousseff (PT), a gestão Rafael se recusou a dar mais que os 10% previstos na disposição do Senado que autorizou o empenho das receitas futuras de royalties e Participação Especial (PE) na exploração de petróleo.

 

Futuro de Campos (II)

Se desde fevereiro a atitude da atual administração goitacá era uma ousadia, para tentar forçar a CEF a uma renegociação, desde abril ela tem respaldo jurídico, a partir de uma decisão liminar favorável do juiz Julio Abranches, titular da 14ª Vara Federal do Rio de Janeiro. A Caixa recorreu e o caso agora está no Tribunal Federal do Estado do Rio (TRF-2). O desfecho da “peça” ainda é uma incógnita, mas dela dependerá, na vida real, o futuro de Campos — independente de já estar assegurado (ou não) o de quem o vendeu em troca da abstenção da então deputada Clarissa Garotinho (PR) na votação do impeachment de Dilma.

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Ricardo André Vasconcelos — República do suspense

 

Marechal Deodoro da Fonseca, eleito presidente pela Assembleia Constituinte de 1891, renunciou em novembro do mesmo ano…

 

 

Getúlio Vargas, o mais longevo presidente do Brasil resolveu a crise com um tiro no próprio peito em 1954…

 

 

Jango (esquerda), sucedeu a Jânio, que renunciou com oito meses de governo, mas foi deposto por um golpe civil-militar em 1964

 

 

Temer, o vice que conspirou para derrubar a titular, é o primeiro presidente investigado por corrupção no exercício do mandato. Seu futuro é imprevisível

 

 

Nas próximas horas o Brasil pode ter o terceiro presidente em pouco mais de um ano. Nada surpreendente para quem passou dos 50 anos e viu dois impeachments e um presidente hospitalizado poucas horas antes da posse ser substituído por quem chefiou, até poucos meses antes, o partido que sustentou o regime anterior. Como o Brasil não é dado a repetir tragédias, desta vez é Tribunal Superior Eleitoral quem pode mandar para casa o presidente pilhado em falcatruas. Mas não por isso, e sim por um processo transverso  que tem como autor, veja que ironia!, o PSDB, partido que veio a ser o esteio do governo Michel Temer após um processo em que, juntos, e mais o ex-deputado Eduardo Cunha, derrubaram Dilma Rousseff. Jobim (o Tom), tem razão: “O Brasil não é para principiantes”.

Qualquer que seja a solução desta que parece a maior das crises políticas desta terra de Santa Cruz desde que os portugueses por cá deram os costados, o desfecho deve ser inédito. Nada de renúncia como fez Jânio Quadros em 1961, nem quartelada (toc, toc, toc…) como a que derrubou João Goulart (1964) e muito menos o suicídio que fez Vargas emergir do “mar de lama” e “entrar para história”. Temer não tem estatura para qualquer gesto de grandeza. O final desta crise se desenha diferente de tudo que se viu antes porque nunca se viu antes os principais personagens do país — governo e oposição, esquerda e direita — tão descaradamente flagrados em corrupção e alvos de processos judiciais que os colocam a um passo da cadeia. Temer e seus dois antecessores imediatos, Dilma e Lula, estão no centro ou dele foram beneficiados, do maior esquema de corrupção já desvendado no país.

Olhando para mais para trás, é verdade que nunca tivemos mesmo períodos longos de estabilidade política a partir da República. A regra por aqui é a exceção, a começar pela própria derrubada do Império. Fundada de improviso, num golpe militar que queria apenas derrubar o governo e não o regime, a República foi uma espécie de vingança das elites da época. Contrariados com a abolição da escravatura sem que fossem indenizados, viraram a casaca da noite para o dia. A elite cafeeira paulista e os barões do açúcar do Nordeste queriam que o governo imperial pagasse, em dinheiro, por cada escravo liberto pela Lei Áurea. Desapontados, juntaram-se à chamada Juventude Militar, abolicionistas e entusiastas da filosofia positivista de Augusto Comte e foram buscar um herói da guerra do Paraguai, velho e doente para liderar o movimento. O Marechal Deodoro da Fonseca, ensina o jornalista e historiador Laurentino Gomes no livro 1889 (1), só teria decidido proclamar a República quando soube, em meio ao golpe para derrubar o gabinete chefiado pelo primeiro ministro Visconde de Ouro Preto, que o imperador Pedro II convidara para chefiar o novo gabinete  o gaúcho Gaspar Silveira Martins, recém eleito senador. Silveira era inimigo pessoal do marechal e o motivo  prosaico era a disputa pelo coração de uma bela viúva.

Duas curiosidades: a improvisação foi tanta naquele 15 de novembro de 1889, que no final do dia percebeu-se que a Monarquia estava deposta mas a República não havia oficialmente proclamada. Alguns líderes foram para a redação do jornal A Cidade do Rio, do campista José do Patrocínio e juntos redigiram uma moção que foi lida no plenário da Câmara Municipal do Rio de Janeiro pelo vereador mais jovem, exatamente o mesmo José do Patrocínio, então com 36 anos. No dia seguinte, como o Congresso Nacional estava em recesso, Deodoro, chefe do Governo Provisório, compareceu à Câmara Municipal do Rio para prestar o juramento de posse. A mesma Câmara seria dissolvida semanas depois pelo marechal e que renunciaria ao cargo….. mas isso é outra história…

De volta ao presente, nenhum dos antecessores de Temer que caíram ou foram derrubados tiveram contra si as graves implicações com corrupção como as que são atribuídas ao ainda presidente da República. Se safar-se do julgamento do TSE, como é muito provável, também pode escapar do processo criminal aberto pela Procuradoria Geral da República, porque para a denúncia ser aceita pelo STF precisa da aprovação de 2/3 da Câmara Federal (342 deputados). A solução do impasse é imprevisível: Corrompido até a medula o Congresso Nacional não tem condições morais de eleger, pela via indireta, um eventual sucessor para o Planalto e uma eleição direta agora, com alteração da Constituição, mais parece um casuísmo para livrar o ex-presidente Lula de uma prisão iminente. Vamos esperar para ver que saída a reconhecida criatividade brasileira vai inventar para mais este capítulo da história nacional.

 

(1) – GOMES – Laurentino – 1889 – Editora Globo Livros – 1ª edição – 2013. Para a moção de José Patrocínio, página 61; para a viúva “Baronesa de Triunfo, página 192 e solenidade de juramento perante os vereadores do Rio,página 284.

 

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Feira dos Povos — Após TB, Anfiteatro do Alberto Sampaio também será reaberto

 

Reunião na tarde de hoje entre representantes da Igualdade Racial, Entretenimento e Lazer, Turismo e Codemca, no palco do Anfiteatro do Parque Alberto Sampaio (Foto: Divulgação)

 

 

degradado e inutilizado há anos, o Anfieteatro do Parque Alberto Sampiao será reaberto em 1º de julho, na Feira dos Povos (Foto: Divulgação)

 

 

Depois da reabertura (aqui) do Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira, outro espaço cultural importante da área central do município voltará a servir novamente à sua atividade fim. Inaugurado em 1988, no último ano do governo municipal Zezé Barbosa (1930/2011), e inutilizado há mais de 10 anos, o Anfiteatro do Parque Alberto Sampaio sediará em 1º de julho (um sábado) a Feira dos Povos.

Com apresentações de música e danças de cada grupo étnico inscrito, além de venda de roupas típicas, a programação do dia se estenderá de 9h às 22h. Já estão confirmados representantes das comunidades libanesa, colombiana e argentina radicadas em Campos, assim como de Angola, em contato fechado pela Superintendência de Igualdade Racial com o consulado do país africano no Rio.

Na tarde de hoje, no próprio Anfiteatro, além de integrantes da Igualdade Racial, se runiram membros das secretarias de Turismo e de Entretenimento e Lazer, além da Codemca, que administra o espaço construído sobre a parte coberta do canal Campos/Macaé. Também fazem parte do esforço coletivo do poder público municipal as pastas de Limpeza Pública, de Postura e a Guarda Civil.

Na semana que vem, a superintendente de Igualdade Racial, Lúcia Talabi, e seu diretor executivo, Rogério Siqueira, estarão reunidos com o setor de Relações Internacionais da secretaria estadual de Cultura, no Rio, para tentar ampliar o leque de expositores. Após esse encontro, a programação com a lista final das etnias representadas será divulgada oficialmente. No ano que vem, a intenção é estender a Feira dos Povos por uma semana.

O Anfiteatro do Parque Alberto Sampaio foi inaugurado em 1988, no último ano da última administração municipal Zezé Barbosa, avô do atual prefeito Rafael Diniz (PPS). À frente do então departamento de Cultura (hoje Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima), a professora e empresária Diva Abreu Barbosa lembrou que o espaço foi aberto com a peça “Arena conta Zumbi”, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, que teve Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (1955/2015), como diretor:

— Levamos o pleito dos artistas para Zezé, que encampou a ideia. Na inauguração, numa sexta-feira, era só para ser um dia, mas, pelo sucesso de público, foram três. Kapi montou o espetáculo sexta, sábado e domingo, sempre com a arquibancada apinhada de gente. Acho que Zezé vai ficar muito feliz com a reabertura do espaço. Assim como Kapi — disse Diva.

 

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Ocinei Trindade — A melhor cidade de todos os tempos

 

Praça São Salvador de outros tempos (Foto: Reprodução)

 

 

Nova York, Paris, Londres, Tóquio ou Berlim? Curitiba, Florianópolis, São Paulo, Rio ou Campos dos Goytacazes? Onde é possível ser mais feliz entre essas cidades nacionais e estrangeiras? Há quem responda sem hesitar ao conhecê-las todas. Há quem nunca tenha pisado em nenhuma delas, mas mesmo assim seja capaz de opinar. Há os que amam as cidades onde vivem, sentem-se pertencentes, assim como existem aqueles que juram não ter cidade pior do que esta ou aquela onde nasceram e moram. Infelizes?

Certa vez, assisti à uma palestra, dessas que os consultores de recursos humanos adoram realizar para empreendedores ou para trabalhadores desmotivados. A palestrante contou uma pequena história de um homem que acabara de chegar à cidade para onde se mudaria. No posto de combustível, perguntou ao frentista se aquele lugar era bom para viver, pois estava de mudança. O frentista quis saber como era a cidade de onde o homem vinha. Este disse que era ótima; que as pessoas eram amáveis e alegres; e que, apesar dos problemas, a maioria vivia satisfeita, pois a cidade funcionava.

O frentista do posto disse ao homem que este deveria se mudar sem se preocupar, pois naquela cidade as pessoas eram muito mais amáveis e alegres, e tudo funcionava maravilhosamente bem. Ali, ele seria tão feliz ou mais. Contente, o homem agradeceu, se despediu cheio de entusiasmo e otimismo com a vida nova que se desenhava.

Dias depois, um outro homem parou no mesmo posto de combustíveis e perguntou ao frentista como era aquela cidade, pois pretendia se mudar para lá. O funcionário do posto fez idêntica pergunta de antes. Quis saber como era cidade natal daquele homem. Este não poupou críticas. Disse que a cidade era horrível, as pessoas não prestavam, a desonestidade imperava e que nada funcionava. Daí, o frentista disse que ali era bem pior; que ninguém prestava, e todos os governantes eram criminosos e corruptos; que a cidade era caótica. Melhor que continuasse na cidade de origem. O homem saiu contrariadíssimo e irritado com a informação que recebera.

Aí, veio a palestrante performática para concluir a narrativa com a moral da história: nós somos responsáveis pelo lugar onde moramos, vivemos e trabalhamos; que não existe lugar perfeito, mas que somos capazes de transformá-lo, tanto para coisas positivas, quanto negativas; fazemos da casa, rua, local de trabalho e cidade ambientes bons para desfrutar a vida ou não. Apesar de simplista, acabei concordando com a ideia. O problema é: ninguém faz ou cuida de uma cidade sozinho. Em uma era onde o individualismo e a falta de colaboração coletiva se destacam, o desafio fica maior.

Aos 18 anos comecei a viajar sozinho pelo Brasil e pelo mundo. Passei por muitas cidades. Costumo compará-las como se fossem pessoas. Há cidades feias, sujas e conturbadas, mas capazes de oferecer algum acolhimento ou abrigo. Já existem cidades lindas e deslumbrantes que não aceitam alguém sem dinheiro ou com aparência “inferior”. Há cidades superpopulosas vazias de alma e há cidades pacatas cheias de calor humano. Há pessoas com as quais a gente se identifica e se apaixona, independentemente dos traços e feições. O mesmo ocorre com uma cidade.

Claro que é bem mais difícil viver em locais onde existem guerra, crime organizado, tráfico de drogas, além da falta de segurança, saneamento, hospitais, escolas decentes e desemprego; onde os governantes e gestores das cidades são corruptos e descomprometidos com o bem-estar social. Por sua vez, a população que não cuida ou não zela pelo lugar que habita, gera cada vez mais insatisfação e infelicidade coletivamente.

A cidade é de todos, mas na prática não tem sido assim. Há áreas de riscos, locais abandonados pelo poder público ou dominados por criminosos que não estão interessados em sociedade mais igualitária e justa. Em Campos, por exemplo, há mais locais sitiados do que se imagina, onde polícia e agentes da Prefeitura não entram ou têm dificuldades para entrar.

Nas cidades brasileiras, sobretudo onde a população é maior, é gritante a diferença entre os mais e os menos favorecidos. As cidades partidas, muradas, gradeadas, cercadas por fios elétricos ou arames farpados representam o quão diferentes somos, apesar das semelhanças; e o quão semelhantes somos, apesar das diferenças de lugar, estado, classe social, etnia ou sotaque.

Se o frentista do posto ou se a palestrante entusiasta têm razão sobre o que falam das pessoas e das cidades, não custa imaginar que a vontade de mudar já é um primeiro passo para que as cidades e as pessoas sejam bem mais felizes, prósperas e corretas no seu existir. Pode ser em Nova York ou em Campos dos Goytacazes. E isso não depende só de mim, mas de cada um de nós.

 

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Novo avanço de mar no Pontal, mistérios de SJB e parceria da Folha

 

Charge do José Renato publicada hoje (06) na Folha

 

 

 

 

Atafona do Planalto à Planície

Ontem, em Brasília, a prefeita sanjoanense Carla Machado (PP) entregou ao presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia (DEM), uma cópia do projeto de recuperação da orla de Atafona, realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias (INPH) e que não tem como ser posto em prática sem verbas federais. Pois, no mesmo dia, o mar avançou ainda mais seus limites sobre a ocupação humana na foz do Paraíba do Sul: o Bar do Santana, no Pontal de Atafona, teve que ser desocupado, depois que a força das ondas abriu uma cratera no piso, expondo os alicerces e colocando toda a construção sob risco de desabamento.

 

Drama de décadas

Blogueiro hospedado na Folha Online, o jornalista Arnaldo Neto, que é morador do Pontal, testemunhou o drama do dono do tradicional boteco atafonense: “Pela manhã, com a ajuda de amigos, Santana já retirava tudo do seu bar (…) À tarde, ele foi procurado para falar sobre o fato (…) Já não foi encontrado. Como muitos moradores de Atafona se acostumaram durante décadas, ao perder a guerra para o mar, Santana foi recomeçar a vida em outro local, ainda na praia sanjoanense. Como todos que já foram atingidos pelo oceano, deve estar torcendo agora para não ser vítima mais uma vez”.

 

Tragédia carnada

Quem já tomou um cerveja ou Coca-Cola no Santana, desde que o estabelecimento era conhecido como Bar do Almir Largado, em referência ao seu antigo dono, impossível não se lembrar de outro dono de boteco no Pontal: o campista Neivaldo Paes Soares. Após ocupar a antiga casa de barcos da família Aquino, ele fez de lá seu bar e residência, até que o mar levou ambas, em julho de 2012, obrigando-o a se mudar para a Ilha do Peçanha. Mais que qualquer um, Neilvaldo encarnou o destino das referências humanas no Pontal de Atafona. Entre as águas do o rio e do mar, ele desapareceria misteriosamente em 21 de junho de 2015.

 

Mistérios (I)

Sem sair de São João da Barra, tão inexplicável quanto o desaparecimento de Neivaldo, há quase dois anos, foi o fato do gerente da agência do Banco do Brasil (BB) na avenida Joaquim Thomaz de Aquino Filho, principal da cidade, não ter ido ontem à 145ª DP registrar ocorrência policial. Assim que o dia amanheceu, PMs numa viatura notaram que a porta de blindex da agência bancária estava toda trincada. Esperaram os funcionários chegar, averiguaram que não havia indícios de tentativa de roubo, mas chamaram o gerente para registrar o fato na DP.

 

Mistérios (II)

O fato foi que até o final da tarde de ontem, o gerente da agência do BB em São João da Barra não havia comparecido à 145ª DP, mesmo que nas fotos, uma perfuração no blindex da agência lembrasse muito um buraco de bala. A dúvida só poderia ser desfeita com o trabalho da perícia da Polícia Civil. Como a ocorrência não foi feita, as imagens das câmeras de segurança não foram solicitadas e a perícia sequer foi acionada. Muito embora se tenha notícia que a porta de blindex tenha sido consertada. Com o flagrante desfeito sem ser periciado, é impossível saber o que de fato houve durante a madrugada.

 

Luta

Desde 2015, a Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic) abraçou a causa do Rotary Clube de Campos São Salvador para batizar trecho fluminense da BR 101 com o nome do ex-presidente Nilo Peçanha. O deputado federal Paulo Feijó chegou a ingressar com um Projeto de Lei. A questão também foi encaminhada ao presidente Michel Temer pela Acic, que esperou por três meses, por uma resposta. No momento, a subchefia de Assuntos Parlamentares/Coordenação Política/PR encontra-se analisando para eventual providência. O presidente da Acic, José Luiz Lobo Escocard, está esperançoso que até outubro deste ano possa homenagear o campista ilustre.

 

Exclusividade

O Grupo Folha e a ISL Produções, empresa responsável pela programação dos shows e eventos da 58ª Exposição Agropecuária de Campos, fecharam uma parceria que garante ao grupo exclusividade em mídia e várias ações dentro do camarote oficial da Expoagro. Entre os eventos já definidos pelo Grupo Folha na Expoagro estão a Noite Plena, onde a direção e os apresentadores da Plena TV receberão clientes e parceiros; o desfile Garoto e Garota Country 2017, em parceria com Nelcimar Pires; e o “Tia Patty no Parque”.

 

Com a colaboração dos jornalistas Dora Paula Paes e Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

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Avanço do mar em Atafona — Santana repete o mesmo destino de Elvis e Neivaldo

 

Bar do Santana perde a briga contra o mar (Foto: Arnaldo Neto)

 

 

Chão do Bar do Santana virou uma cratera aberta por baixo pelas ondas (Foto: Arnaldo Neto)

 

 

Em seu blog, o jornalista Arnaldo Neto registrou (aqui) que mais um limite humano do Pontal de Atafona, na foz do rio Paraíba do Sul, acabou vencido hoje (05) pela força do mar: o Bar do Santana. No chão do bar, um buraco foi aberto pela força das ondas, que erodiu a construção por baixo, deixando expostas suas fundações e iminente a ameaça de desabamento. Seu dono, José Santana, estava à frente do estabelecimento nos últimos oito anos, que antes era conhecido dos atafonenses e veranistas como Bar do Almir Largado.

Arnaldo, que é morador do Pontal, registrou a reação de mais um atafonense desalojado pelo mar:

— Pela manhã, com a ajuda de amigos, Santana já retirava tudo do seu bar. O fechamento era inevitável (…) À tarde, ele foi procurado para falar sobre o fato e o que pretende fazer a partir de agora. Já não foi encontrado. Como muitos moradores de Atafona se acostumaram durante décadas, ao perder a guerra para o mar, Santana foi recomeçar a vida em outro local, ainda na praia sanjoanense. Como todos que já foram atingidos pelo oceano, deve estar torcendo agora para não ser vítima mais uma vez.

Também hoje, o jornalista e blogueiro já havia registrado (aqui) o encontro em Brasília entre a prefeita de São João da Barra, Carla Machado (PP), e o presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia (DEM). Nele, Carla entregou a cópia do projeto de recuperação da orla de Atafona, que foi realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias (INPH), e não tem como ser bancado sem verbas federais.

Ao falar das vítimas do avanço do mar, além de Santana, Arnaldo lembrou também a saga de Jorginho Elvis Presley. Dono de um bar na fase áurea do Pontal, nos anos 1980, ele o perdeu o estabecimento para o mar, montou o segundo mais adiante e teve o mesmo fim.

 

Ruínas do segundo Bar do Elvis no Pontal (Foto: Arnaldo Neto)

 

Além de Santana e Elvis, quem também poderia ser lembrado era o campista Neivaldo Paes Soares, que passou a ser conhecido como “Bambu” depois que se mudou para o Pontal e passou a residir e tocar seu bar na antiga casa de barcos da família Aquino, proprietária do Grupo Thoquino. Neivaldo perdeu o bar e a casa para o mar em 28 de julho de 2012, quando se mudou para a ilha do Peçanha, na foz do Paraíba.

Mais que qualquer um, Neilvaldo encarnou o destino das referências humanas no Pontal de Atafona. Entre as águas do o rio e do mar, ele desapareceria misteriosamente em 21 de junho de 2015.

 

Como fez hoje (05) no Bar do Santana, o mar abriu uma cratera no que era o chão do Bar de Neivaldo, em julho de 2012 (Foto: Mariana Ricci – Folha da Manhã)

 

Ao perder seu bar no Pontal, Neivaldo encarava seu próprio destino enre o mar e o rio (Foto: Mariana Ricci – Folha da Manhã)

 

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Governo Rafael protocola no TCE-RJ auditorias sobre o governo Rosinha

 

Secretário Felipe Quintanilha e procurador José Paes Neto hoje no TCE-RJ (Foto: Divulgação)

 

 

José Paes e Quintanilha protocalam a enrrega das auditorias do governo Rafael no TCE-RJ (Foto: Divulgação)

 

 

O procurador Geral do Município de Campos José Paes Neto e o secretário da Transparência e Controle Felipe Quintanilha estiveram nesta segunda-feira (05) no Rio de Janeiro onde entregaram no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) os relatórios das auditorias realizadas pelo governo Rafael Diniz (PPS) em contratações e gastos considerados irregulares em diversos programas da última gestão Rosinha Garotinho (PR).

Ao todo, foram sete levantamentos realizados pela nova administração municipal sobre a antiga: Dispensa de Licitação, Fundo Municipal de Assistência Social, no Instituto de Previdência dos Servidores do Município de Campos dos Goytacazes (PreviCampos), na Folha de Pagamento, Despesas sem Prévio Empenho, Instituto Municipal De Trânsito e Transporte (IMTT) e Programa Morar Feliz II.

Em todas as auditorias foram encontrados indícios de irregularidades que teriam sido cometidas pelo governo anterior, principalmente em relação ao programa social Cheque Cidadão e Campos Cidadão — programa de passagem a R$ 1,00. O Programa Morar Feliz II, também alvo de auditoria, foram apontadas inúmeras irregularidades, com milhões de reais gastos e pouquíssimas casas entregues.

— Assim como fizemos na Câmara Municipal de Campos, entregamos no TCE as auditorias, como temos feito nos órgãos de controle externo, que agora deverão tomar as medidas cabíveis — explicou Quintanilha, que já havia entregue os relatórios, na semana passada, ao presidente da Câmara de Campos, Marcão Gomes.

 

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Ricardo Rangel e a última do beócio eleito ao cargo mais importante da Terra

 

De segunda a sábado, você, leitor, já se acostumou com os colaboadores deste “Opiniões”. Hoje, seria o dia do tradutor Marcelo Amoy, que se despediu do blog (aqui) no último dia 22. Seu substituto já foi escalado e está se aquecendo para entrar em campo no próximo dia 19.

Até lá, para não perder o hábito, recorramos hoje a uma colaboração compulsória de peso: o diretor de produção da Conspiração Filmes e articulista de O Globo, Ricardo Rangel. Não é de hoje, a luz do seu raciocínio tem ajudado a dissipar as sombras na democracia irrefreável das redes sociais.

Sobre a última trapalhada do beócio que elegeram ao cargo mais importante do planeta Terra, no irrefletido abandono dos EUA do Acordo de Paris, Ricardo escreveu (aqui) e o blog pede licença para republicar abaixo:

 

 

 

A saída dos EUA do Acordo de Paris é lamentável para o mundo e péssimo para os EUA.

O inegável alarmismo e a correção política com que certas tendências políticas tratam a questão climática não mudam o fato de que o aquecimento global é um problema gravíssimo e premente. É preciso manter o debate aberto, e um acordo imperfeito, que pode ser aprimorado, é melhor do que acordo nenhum.

Trump ficou contra todos os países do mundo com exceção de Síria e Nicarágua: eu não sei vocês, mas eu não acho boa companhia. Além disso, como os EUA são uma federação, os estados não são obrigados a seguir a União, e Nova York, Califórnia e outros já avisaram que vão seguir o Acordo.

Trump disse que não foi eleito para representar os cidadãos de Paris, mas os de Pittsburgh, e, imediatamente, o prefeito de Pittsburgh avisou que também vai seguir o Acordo. O maior poluidor do mundo, a China, segue no acordo.

Trump não escolheu Pittsburgh por acaso: a cidade foi o primeiro centro de refinamento de petróleo dos EUA, e o presidente é um vigoroso defensor do combustível fóssil, o maior vilão no aquecimento global. Pois até a Exxon, a maior empresa de petróleo americana, criticou Trump e lamentou a saída do Acordo. Assim como o fizeram todas as empresas comprometidas com o futuro: Apple, Microsoft, GE etc.

Quanto mais Trump se isola, menos importantes ficam os EUA e mais importante fica a China. É péssima notícia porque os EUA são uma democracia que cumpre o combinado e a China é uma ditadura que nem sempre cumpre o combinado.

Não admira que o prefeito de Londres, como lembrou o Idelber Avelar, tenha mais o que fazer do que falar com o presidente americano. Na batida em que vai, em breve só as telefonistas da Casa Branca darão ouvidos a Trump.

Em tempo. Este post não é sobre o aquecimento global, é sobre geopolítica: mesmo que Trump esteja certo sobre o aquecimento global, sua decisão continua equivocada. Mas, já que estamos nisso, para quem acha que o aquecimento global é conversa fiada, digo duas coisas: i) há muito mais motivo para acreditar que ele esteja ocorrendo do que que não esteja. ii) vocês estão num pôquer de alto risco, querem pagar para ver tendo na mão um par de 6, e as fichas são o futuro de nossos filhos e netos.

 

Para saber um pouco mais sobre a lacuna geopolítica aberta no mundo pelos açodamentos unilaterais de Trump, também confira aqui o artigo do jornalista e escritor venezuelano Moisés Naím.

 

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Banco do Brasil de SJB amanhece com porta perfurada e gerente não faz ocorrência

 

Perfuração, aparentando buraco de bala, e trincado na porta da agência do BB em São João da Barra, hoje de manhã (Foto: Elder Amaral – Parahybano)

 

 

(Foto: Elder Amaral – Parahybano)

 

Tiro ou não? Vandalismo ou tentativa de roubo? O fato é que a porta de vidro da agência do Banco do Brasil (BB) em São João da Barra (SJB), na avenida Joaquim Thomaz de Aquino Filho, principal da cidade, amanheceu trincada e com a marca de uma perfuração, como a foto evidencia. E o registro de ocorrência e a perícia no local sequer foram feitos.

Apesar de ter ressalvado não ser perito e não estar tecnicamente capacitado para definir a questão, o tenente coronel Fabiano Souza, comandante do 8º BPM, disse que “a priori, não teria sido tiro”. Segundo ele explicou, uma viatura da PM percebeu no início da manhã de hoje a porta da agência trincada. Os PMs esperaram a chegada dos funcionários para verificar sinais internos, sem que nada tivesse sido encontrado.

A PM levou o fato à 145ª DP, mas o gerente não quis ir junto para registrar a ocorrência, informando que o faria mais tarde. Até o presente momento, o gerente não apareceu na DP e a ocorrência não foi feita. Sem ela, não foram solicitadas as imagens das câmeras de segurança, nem foi realizada a perícia, única forma de se definir o que houve de fato durante a madrugada. Informações dão conta de que, mesmo sem a perícia, a porta já teria sido consertada, o que torna muito difícil qualquer análise posterior.

 

Atualizado às 17h49

 

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Um ano sem Muhammad Ali — Descanse em paz, campeão!

 

Imagem histórica de Muhammad Ali (de pé) contra Sonny Liston, ex-campeão derrotado no primeiro minuto do primeiro assalto, na luta de 25 de maio de 1965 (Foto: Neil Lefer)

 

 

Na noite de sábado (03), em Atafona, apresentei a uma pessoa querida o texto que escrevi após a morte do lendário pugilista Muhammad Ali, numa forma de dizer o quanto senti de maneira pessoal a sua perda. Pois hoje, numa dessas coincidências que não há, uma lembrança automática de Facebook me indicou fazer um ano que Ali morreu.

Mais que um ídolo, Ali foi o ídolo do meu pai. Num superlativo em pleonasmo: foi o ídolo do meu ídolo.

Ao pesquisar agora no blog, constato que, em prosa e verso, antes e depois da sua morte, já escrevi um pouco sobre ele. Na saudade de um herói real que conheci ainda criança na tradição oral das histórias paternas, muito antes das facilidades do Youtube, seguem abaixo os links desses textos, além do vídeo com um resumo da vida de Ali.

Descanse em paz, campeão!

 

 

 

 

1 – Joe Frazier — “Baixinho” à altura do maior

 

2 – Muhammad Ali — O maior de todos os tempos

 

3 – Vai encarar?

 

4 – Anderson e Ali — De canhota, do pedestal dos deuses à lona dos mortais

 

5 – Artigo do domingo — Nos versos do campeão

 

6 – “Quando éramos reis”, nesta quarta, no Cineclube Goitacá

 

7 – Das lágrimas, versos ao campeão

 

8 – Virá impávido que nem George Steiner

 

9 – Para seguir na luta, após um 2016 que não foi fácil a ninguém

 

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Álvaro Lins critica Chequinho, mas nega qualquer envolvimento

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Jamais tive esse tipo de diálogo com o ex-governador Garotinho”. Foi o que garantiu o advogado Álvaro Lins. Ex-deputado estadual e ex-chefe de Polícia Civil nos governos estaduais Garotinho e Rosinha, ele negou a possibilidade, noticiada pela Folha (aqui) e O Globo (aqui), de que seu escritório tivesse sido contratado pelo ex-governador para levantar informações sobre autoridades públicas responsáveis pela operação Chequinho. Lins confirmou, no entanto, um encontro com Garotinho no final de 2016, mas restrito à mudança de defesa do acusado de liderar um “escandaloso esquema” de troca de Cheque Cidadão por voto na eleição de 2016 em Campos. Para Lins, “Garotinho é um nome forte da política fluminense e sofre uma perseguição implacável de setores da mídia por uma única razão: ele não tem cabresto”. Nesta entrevista, onde também falou da sua condenação e de Garotinho pela Justiça Federal do Rio, além da política fluminense de Segurança Pública, o ex-chefe de Polícia disse ao fim da sua última resposta, aparentemente personalizada: “Se você me conhecer de verdade verá que, comparado a tudo que fizemos, o capitão Nascimento é um simples escoteiro”. Como a entrevista foi feita por e-mail, não deu para perguntar por quê.

 

Álvaro Lins (Foto: Reprodução)

 

 

Folha da Manhã – O senhor foi contratado ou sondado por Anthony Garotinho (PR) para levantar informações sobre o juiz Ralph Manhães, o promotor Leandro Manhães e o delegado federal Paulo Cassiano, nomes à frente da operação Chequinho, que condenou vários nomes do grupo político do ex-governador pela troca de Cheque Cidadão por voto, nas eleições municipais de Campos em 2016?

Álvaro Lins – Não. Jamais tive esse tipo de diálogo com o ex-governador Garotinho.

 

Folha – Como explicar que a possibilidade da sua contratação por Garotinho tenha chegado à Folha através de uma fonte e sido confirmada cinco dias depois ao jornal O Globo, por duas outras fontes? Essas fontes estão mentindo? Por que o fariam? Qual seria o interesse de envolvê-lo, um advogado e político radicado no Rio, nos fatos de Campos?

Lins – No final do ano passado o ex-governador Garotinho mudou de advogado e contratou o dr. Fernando Augusto Fernandes, tendo me pedido para elaborar um resumo das nulidades e demais teses que envolvem nossos processos em comum, sendo esta a razão do contato que mantive com ele e com seu novo defensor. Quanto ao jornal O Globo, este apenas repercutiu a matéria da Folha da Manhã e a busca que foi realizada (em matéria de 17 de março, do jornalista Marcos Grillo, o jornal carioca afirmou: “A contratação de Lins foi veiculada pelo jornal ‘Folha da Manhã’ e, segundo O Globo apurou, foi confirmada a investigadores por duas fontes diferentes”). A repercussão é consequência natural quando se lançam ilações contra pessoas públicas e fontes humanas sempre podem ser movidas por interesses inconfessáveis.

 

Folha – Além da informação das fontes, cujo sigilo é prerrogativa constitucional, um inquérito foi aberto na 100ª Zona Eleitoral sobre suas possíveis relações com Garotinho nos desdobramentos da Chequinho. Em que pé estão essas investigações?

Lins – Nunca fui ouvido em inquérito algum e nem vejo motivo para isso. Não tenho ideia de quem sejam as pessoas acusadas ou dos fatos em apuração, apenas tomando conhecimento pelo que li nos jornais.

 

Folha – Depois da operação do GAP que, em 17 de março, apreendeu imagens de câmeras do prédio onde Garotinho reside, ele alegou num programa da Rede TV, em 31 de abril, que não está proibido de se encontrar com o senhor. Houve encontros entre os dois durante ou após a eleição municipal de 2016? A Chequinho foi assunto em algum deles?

Lins – Como disse anteriormente, meu contato com ele foi no final de 2016, após as eleições, e apenas em razão da mudança na defesa.

 

Folha – Como ex-delegado e advogado, qual sua opinião da condução da Chequinho nas investigações e no Judiciário?

Lins – Pelo que tenho lido e visto na mídia a ordem para retirar o ex-governador de um hospital contrariando orientação médica não pode ser vista como normal. Não me lembro de ter visto isso acontecer, mesmo quando lidei com a prisão dos mais sanguinários bandidos do Rio, bastando lembrar que naquele mesmo hospital ficou internado ano passado o traficante Fat Family, que fugiu antes de ser transferido.

 

Folha – Na eleição de 2014, foi vazado (aqui) um áudio com o senhor pedindo votos a policiais pelo WhatsApp para Garotinho a governador, que não chegou ao segundo turno daquele pleito. Por que esse seu trabalho político teve que ser vazado para ser conhecido? Isso não pode passar a ideia de algo a esconder?

Lins – Sou filiado ao PR e nada tenho a esconder. Garotinho é um nome forte da política fluminense e sofre uma perseguição implacável de setores da mídia por uma única razão: ele não tem cabresto e não se presta ao papel de marionete de ninguém. Esse tipo de político não interessa a muita gente importante.

 

Folha – O senhor foi chefe de Polícia Civil nos governos estaduais de Garotinho (1999/2002) e Rosinha (2003/07). Qual chegou a ser e é hoje a sua relação com o casal?

Lins – Quando fiz concurso para delegado eu passei em primeiro lugar e já era capitão da PM, onde também terminei na primeira colocação o curso de aperfeiçoamento. Essa qualificação me levou a trabalhar na Divisão Antissequestro e na Polinter, até que fui convidado pelo então secretário Josias Quintal para ser chefe da Polícia Civil no final do ano 2000. Até então eu não conhecia o casal Garotinho e meu contato com eles foi sempre profissional, até que decidi ser candidato e falar também de política.

 

Folha – A partir da operação Segurança Pública S/A, deflagrada pela Polícia Federal em 2008, o senhor e Garotinho foram denunciados pelo Ministério Público Federal por usar a estrutura da Polícia Civil, durante o governo Rosinha, para formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção e facilitação de contrabando. Em 2010, os dois foram condenados pela Justiça Federal do Rio: o senhor a 28 anos de prisão; Garotinho, a dois anos e meio. Atualmente, o caso está no Tribunal Regional Federal do Rio (TRF 2). Como está o processo?

Lins – O processo aguarda julgamento da apelação e essa sentença será revertida. Desafio qualquer um a me mostrar quem me pagou, quanto, onde e como. É uma condenação por ouvir dizer e sem qualquer fundamento.

 

Folha – Diferente de Garotinho, que não sofreu grande consequência prática da denúncia e posterior condenação, o senhor chegou a ser preso entre 2008 e 2009, teve cassado seu mandato de deputado estadual e foi demitido do cargo de delegado de Polícia Civil. Sente-se injustiçado? Por quê?

Lins – Injustiçado é pouco. Mas tenho certeza que tudo isso será devidamente reparado.

 

Folha – O senhor também acabou perdendo a carteira da OAB, que conseguiu recuperar em 2013. Em que se consiste sua atuação hoje como advogado? Vive apenas dela ou mantém também outras atividades? Pretende ainda retomar a carreira política?

Lins – Isso é um equívoco. Nunca tive carteira da OAB porque eu era militar quando terminei a faculdade e havia impedimento. Fiz o exame de ordem como qualquer um e passei. Hoje vivo como advogado atuante em centenas de processos e professor universitário. Me candidatei a deputado estadual em 2006 e fui o 5º mais votado no Estado, mas não penso em voltar à política porque me sinto realizado com a advocacia.

 

Folha – Para quem foi oficial da PM, delegado e chefe de Polícia Civil, como enxergou a política de pacificação das comunidades cariocas, inegável carro chefe dos oito anos de governo Sérgio Cabral (PMDB)? Qual sua herança no governo Luiz Fernando Pezão (PMDB)? Há solução para a Segurança Pública fluminense?

Lins – É muito triste ver esses jovens soldados da PM morrendo dia após dia nas áreas “pacificadas” das UPPs. Isso me lembra o fracasso americano na ocupação do Vietnã, onde os recrutas foram para guerra no lugar das tropas mais bem preparadas. Essa política das UPPs é inviável econômica e operacionalmente. Não há como explicar que a UPP da favela da Rocinha tenha 650 PMs para uma comunidade com menos de 100 mil habitantes, enquanto o 20º BPM dispõe de quase o mesmo efetivo para cobrir os municípios inteiros de Nilópolis, Mesquita e Nova Iguaçu, com população superior a um milhão de pessoas. Além disso, as delegacias legais que inauguramos foram abandonadas e estão voltando a ser sucateadas. Solução para Segurança passa por mais educação e por uma Polícia respeitada e motivada. Mas como conseguir isso se nem o salário dos policiais é pago em dia?

 

Folha – Está acompanhando a situação da escalada da violência no Norte Fluminense? Mesmo com proliferação de assaltos e 86 homicídios em Campos, só nos cinco primeiros meses de 2017, recentemente 40 homens foram retirados do 8º BPM para servir ao Grande Rio. O que pensa sobre isso?

Lins – A política de segurança foi voltada exclusivamente para a capital e se mostrou desastrosa. Estou respondendo esta entrevista e ouvindo rajadas de tiros nos morros de Copacabana, onde moro, o que não existia. As ocupações das UPPs eram anunciadas com larga antecedência, permitindo que os bandidos fugissem para outras áreas. Ou será que alguém achava que os traficantes iriam tirar carteira de trabalho e procurar emprego no dia seguinte? As UPPs somente se sustentavam às custas de muita propaganda e do clima de festa da Copa do Mundo e Olimpíadas. Para piorar, os efetivos eram insuficientes e os Batalhões do interior tiveram que ceder seus policiais para a capital. Me lembro que um dado chamava atenção quando fui chefe de polícia: o 8º BPM era recordista de apreensão de armas e sempre merecia cuidado especial. Depois não acompanhei mais essa estatística, porém é uma irresponsabilidade diminuir o efetivo de Campos justamente na hora em que bandidos da capital se mudaram para lá.

 

Folha – Outro município também atendido pelo 8º BPM e que tem sofrido com assaltos, tanto a residências, quanto a carros em estradas, é São Francisco de Itabapoana, vítima também da falta de fiscalização de sua fronteira com o Espírito Santo. Com os dois Estados vizinhos em graves dificuldades financeiras, qual o caminho?

Lins – O caminho está na integração dos órgãos de segurança e no compartilhamento de informações, inclusive com as Guardas Municipais. Uma quadrilha rouba carros, cargas e trafica drogas dos dois lados da divisa e as Polícias não dividem o conhecimento entre si. Lembre-se que o orçamento da Segurança em nosso Estado saltou de R$ 2 bilhões para quase R$ 9 bilhões nestes últimos anos e os resultados são cada vez piores, pois o dinheiro é mal investido. O governo federal, por sua vez, não fornece ajuda efetiva e se descuida das fronteiras, portos, aeroportos e estradas por onde passam toda a maconha, cocaína e armas que chegam ao Rio.

 

Folha – Na enciclopédia virtual Wikipédia (aqui), a última informação em seu perfil é que, no popular filme “Tropa de Elite 2” (2010), de José Padilha, o personagem do “secretário de Segurança do RJ, depois eleito deputado federal, é apontado por muitos como sendo inspirado no ex-chefe de polícia e ex-deputado estadual, Álvaro Lins”. Como vê tal referência?

Lins – Deve ter sido escrito por algum idiota, pois nunca fui secretário e muito menos deputado federal. Se você me conhecer de verdade verá que, comparado a tudo que fizemos, o capitão Nascimento é um simples escoteiro.

 

Publicado hoje (04) na Folha da Manhã

 

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Crônica do domingo — Presidencialismo x parlamentarismo

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

— Relação com mulher é presidencialista, percebe? Relação com menina é parlamentar — sentenciou Aníbal à mesa do botequim dividida com o velho amigo de data recente.

— Como assim? — indagou Jorge, com a dúvida ainda molhada do gole de cerveja gelada.

— Depois que a gente passa dos 30, a relação com alguém da nossa idade é entre você e a pessoa. Pode até ser complicada. Mas são vocês que resolvem entre os dois. É uma relação presidencialista.

— Até aí tudo bem. E a parlamentar? — indagou, ainda sem matar a segunda analogia.

— E se você for se relacionar com uma menina mais nova? E se ela ainda morar com a família? Pais, irmãos, amigos se acham no direito de também opinar. Aí a sua relação deixa de ser presidencial e passa a ser com um parlamento.

Jorge sorriu, sinalizando apenas na expressão da face sua compreensão integral e concordância com a distinção do amigo. À deixa muda, Aníbal tomou um gole longo de cerveja e emendou:

— Depois de certa idade, a gente não tem mais de saco pra lidar com parlamento. E vai que tem aquele cunhado pedante que você não votava nem pra servir cafezinho frio à oposição? A paciência acaba depois dos 30. E a gente já tá com mais de 40.

— Tem coisas que só o tempo. Família é importante. Talvez a coisa mais importante da vida. Mas cordão umbilical é patologia — diagnosticou Jorge.

— A menina pode até ser madura. Mais do que eu ou você, na idade dela. Mas tem coisa que não dá pra pular.

— Tipo?

— Tipo, ela é de confiança, aquela pessoa que você poderia confiar até sua vida. Confiaria cegamente.

— Então qual é o problema?

— Mesmo sendo de confiança e madura para a idade dela, ela tem a idade dela. E, pela falta de cancha, fala tudo com a mãe. E a mãe fala tudo com o mundo. Nem é por mal. Só a força de um hábito que você nunca teve.

— É o que falei do cordão umbilical. Dá pra imaginar bem como é…

— E aí você acorda um belo dia e vê que seu parlamento virou o mundo. Abriu o olho ainda com remela e bochecha marcada da dobra da fronha do travesseiro. E deu de cara com a corte do Luís XIV dando palpite na sua vida a dois — descreveu Aníbal, antes de virar o restinho de cerveja no fundo do copo.

— É, deve ser um susto. O mundo é muita gente. Com os regimes, o presidencialismo deveria evoluir ao parlamentarismo. Com as relações talvez seja o contrário — filosofou Jorge.

— Aí você enche o saco e toca fogo no Reichstag. Você até chegou a gostar da menina, não do entorno. Afinal, a gente fica seletivo com a idade. E o que acontece? O parlamento não aceita perder poder e trabalha pra te derrubar. Tá destinado a virar uma Dilma ou um Collor.

— Melhor a gente não desviar o rumo da prosa. Política, no Brasil de hoje, é assunto mais passional que relação.

— Sem entrar nessa outra política, foi por isso que troquei de sistema de governo.

— Sim, depois de certa idade, o presidencialismo é menos complicado.

— Um poeta amigo meu disse que é fácil saber quando a relação está condenada pela imaturidade: qualquer erro lírico ganha proporções épicas.

— Resumiu a ópera! Ninguém melhor que um poeta para fazer o libreto.

— A gente é macaco, bicho de bando. Todos temos nosso parlamento. Mas só viramos adultos depois que evoluímos o suficiente para pendurar a placa de não perturbe na maçaneta do outro lado da porta da relação. Quem é seguro de si deixa o resto do mundo gramando, lá fora!

— E que coma capim até a barriga ficar verde!

— Menina sempre idealiza um príncipe. Mulher vê o homem… ou a outra mulher.

— O príncipe não virou um chato?

— Que dá no saco real e imaginário!

— Grande Cássia Eller! — saudou Jorge, enquanto ia levantar um brinde, até notar vazios o copo do amigo e a garrafa comum.

— Sabia que Cazuza e Frejat fizeram essa música para a Angela Ro Ro? Mas ela disse que não gostou. Aí apareceu a Cássia, gravou e virou o que virou.

— Malandragem! Literalmente!

— Amigão, vê mais uma cerveja e dois bolinhos de feijoada? Mas bem sequinhos, valeu?! — ressalvou Aníbal ao garçom que passava ao lado da mesa do boteco.

 

Publicado hoje (04) na Folha da Manhã

 

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