Flagrante da Kombi da Prefeitura de Campos na Igreja Internacional da Graça de Deus, na rua 13 de Maio (foto do leitor)
Chegou ao blog duas filmagens e uma fotografia que flagraram, na manhã da última quinta (19), uma Kombi da Prefeitura de Campos, ostentando em sua porta o emblema da Defesa Civil, fazendo não se sabe o que na neopentecostal Igreja Internacional da Graça de Deus, na rua 13 de Maio. Em um dos dois vídeos, três homens uniformizados de amarelo aparecem aparentemente transportando algo da igreja para dentro do veículo oficial, até que um deles, de óculos, ao lado da porta do carona, percebe estar sendo filmado do outro lado da rua e a ação é paralisada.
O casal Garotinho é conhecido pela religião (e eleitorado) evangélica, orientação pessoal que já se manifestou em episódios administrativos polêmicos, como na tentativa de introdução (aqui) do criacionismo bíblico na grade científica da rede estadual de ensino, em 2004, quando a hoje prefeita de Campos foi governadora do Rio (2003/07). Por sua vez, a Igreja Internacional da Graça de Deus foi fundada em 1980 pelo televangelista e missionário Romildo Ribeiro Soares, mais conhecido como R. R. Soares, quarto pastor mais rico do Brasil, segundo a revista estadunidense Forbes, com fortuna pessoal avaliada em US$ 125 milhões.
Tudo isso posto, fica a pergunta: o que uma Kombi da Prefeitura de Campos estava fazendo dentro da Igreja Internacional da Graça de Deus? Será que a placa anunciando “oração pelos casais”, ao lado do veículo oficial, oferece alguma pista?
Hoje, duas visões sobre a ocupação do Teatro de Bolso Procópio Ferreira, desde o último dia 9 (aqui), pelos artistas de Campos, foram publicadas. Uma, mais lírica e generosa, de autoria do escritor Fabio Bottrel, foi reproduzida como artigo principal de opinião da edição dominical da Folha, após ter sido publicada originalmente aqui, neste “Opiniões”.
A outra visão, mais objetiva e crítica, por parte do advogado, publicitário e crítico de cinema Gustavo Alejandro Oviedo, que se focou mais na pauta de 11 reivindicações (aqui) protocolada pelos artistas junto ao poder público municipal, foi publicada aqui, na democracia irrefreável das redes sociais. Independente do juízo de valor, interessante observar que, além de complementares na aparente oposição, ambas são visões sobre a cultura goitacá a partir da perspectiva de outras tribos: Bottrel é capixaba, enquanto Oviedo, argentino.
Abaixo, leitor, à sua reflexão, as duas manifestações:
(Foto do blog “Ocinei escreve”)
Advogado, publicitário e crítico de cinema Gustavo Alejandro Oviedo (foto: Folha da Manhã)
Os novos Garotinhos
Por Gustavo Alejandro Oviedo
Após ter lido a lista da pauta de reivindicações elaborada pelo grupo Ocupa Teatro do Bolso, confesso que um calafrio me percorreu a espinha.
Os primeiros quatro pontos da lista exigem (este é o término correto) o seguinte:
1 – Administração compartilhada, ficando a cargo da associação #OcupaTeatroDeBolso a administração artística do Teatro, como pautas, projetos internos e divulgação, através de um contrato de concessão de direito real de uso do espaço. E a cargo da Prefeitura, os serviços de manutenção, limpeza, alvarás de licença, técnicos de luz e som, etc.
2 – Criação de um Fundo do Teatro de Bolso Procópio Ferreira para destinar 1% do IPTU e do ISS para fomentar atividades artísticas do teatro a ser administrado democraticamente pelos artistas.
3 – Até que este fundo seja criado por lei, solicitamos repasse de verba fixa para despesas oriundas da gestão artística do teatro via crédito adicional no Orçamento Público (LOA 2016), no valor de (trinta mil reais)R$ 30.000,00 /mês, conforme contrato que será proposto pelo Coletivo #OcupaTeatroDeBolso.
4 – Que todos anteprojetos de lei apresentados pelos artistas sejam encaminhados à Câmara pelo Gabinete da Prefeita em regime de Urgência.
O primeiro ponto da pauta pretende garantir ao grupo que ocupou o TB a administração exclusiva do espaço cultural; os dois seguintes, dinheiro para os administradores – livres das despesas. O quarto é simplesmente uma confirmação da arrogância.
Pelo visto, para o Coletivo Ocupa Teatro De Bolso, a iniciativa da ocupação outorga direitos pessoais e permanentes. Isto é, dado que foram eles os que ocuparam o espaço, são eles os merecedores da sua direção. Não parece ser uma idéia muito democrática, ainda mais quando consideramos que as pretensões do grupo foram impostas aos representantes do governo municipal sem a menor chance de discussão ou debate. “Nada temos a fazer aqui” teria sido a resposta de Garotinho antes de abandonar a reunião.
Não se pretende questionar aqui o valor e a importância cultural dos projetos dos integrantes que estão ocupando o Teatro de Bolso, nem os de seus simpatizantes. E não se questiona pela seguinte convicção pessoal de quem subscreve: cultura, como religião, não se discute — e, como religião, não se impõe. A cultura, ou bem existe, ou bem não é nada. O que determina a existência de uma manifestação cultural é a sua produção e o seu consumo.
Todo mundo tem direito a produzir cultura, mas ninguém está obrigado a consumi-la. A relevância de um determinado produto cultural está dada pela crítica e pelo público. Quando a arte vive, ela acontece. Seja num galpão, numa praça, numa sala de cineclube ou num vídeo de Youtube. Quando a arte agoniza, por falta de procura, ela precisa de respirar através do aparelho do estado e do ‘fomento cultural’.
O pessoal do Ocupa TB tem todo o direito de exigir a abertura do teatro de Bolso. Mas se arvorar no direito de administrá-lo e ainda pretender receber por isso, apenas por ter tomado a iniciativa de invadir o lugar, tem outra finalidade: é querer se transformar num burocrata da cultura, com verba vinculada.
Se a intenção do movimento fosse verdadeiramente democrática, apenas duas reivindicações deveriam constar na pauta de pedidos: o funcionamento imediato e pleno do Teatro de Bolso, e a disponibilidade da sala para qualquer grupo artístico que ali queira se apresentar, a qualquer dia da semana. Os custos de manter o teatro aberto correriam por conta do Município; o sucesso ou o fracasso daquilo que for colocado no palco seria responsabilidade de seus organizadores.
Nos primeiros dias da ocupação alguns apontaram, e festejaram, a ironia de Garotinho estar sofrendo hoje como governante aquilo que ele próprio fez, como ator, na década de 80, quando comandava a Associação Regional de Teatro Amador. Todos comemoram a reviravolta do destino contra Anthony Matheus, enquanto ninguém se atenta que a história pode se repetir, e que um novo Garotinho pode se esconder por trás de uma pauta autoritária.
Escritor Fabio Bottrel (foto de Daniel Marins)
Bata fora, artista, como os anos pela vida!
Por Fabio Bottrel
Estalava o ventilador numa noite tão quente do ar machucar o pulmão. Com um violão, a esperança na mão, no palco do Teatro de Bolso um artista dormiu, e ao dormir sonhou que era um pássaro. Bateu as asas forte, tão forte, muito forte! E subiu, subiu, subiu. Achou uma fresta num cano escuro, entrou e voou além do teto, subiu, subiu, subiu, viu, toda a cidade iluminada, a ponte verde ao lado do abandono rosa. Enquanto o vento frio soprava no seu bico, sentia o pequeno coração bater acelerado com as asas abrindo altas e donas do céu estrelado atrás de si, sentia o ar entre as penas, a vida longe de ser pequena. Do alto viu sua morada, no telhado do teatrinho, um velho ninho amassado e usurpado por predadores ao longo do tempo. Ali estavam seus filhos gritando, aproximava-se uma trupe de aves de rapina para roubar-lhes a casa. Desceu com toda a força, bateu forte as asas como batem os segundos no tempo, desceu, desceu, desceu enquanto o vento passava como passam os anos pela vida o levando há 48 anos atrás…
…Ainda era sua primeira muda de pena quando levava alguns pedaços de palha no bico para construir um aconchegante e pequeno ninho no telhado do teatrinho, escutava as vozes de Gilda Duncan, Rubens Fernandes, Nely Fernandes, Paulo Roberto, Romilda Nunes e Odilon Martins ecoarem e chegarem aos seus ouvidos através da pequena fresta do cano no teto enquanto a cidade iluminada observava a primeira peça no Teatro de Bolso, onde construiu sua casa às vozes de A Moratória, em 15 de abril de 1968. Sentia nas patinhas os tremores dos aplausos, olhava as ondinhas que o vento fazia no rio Paraíba, arrumava palha por palha alinhavando seu ninho e depois empoleirava-se no muro para ver todo o mundo ir embora, quando o último ia, voltava para sua casa, ficava a observar as estrelas até seus olhos fecharem…
De manhã bateu as asas como batem os segundos no tempo, o vento passava como passam os anos pela vida e após 7 rajadas quebrou a asa num tronco soltando 26 penas no Boulevard Francisco de Paula Carneiro. Banhou seu canto com silêncio, não haveria mais dança nesse terreno, corpos ao relento, sua árvore fora cortada. De peito estufado, que pássaro da arte não se dobra com a dor, viu seu coração ser demolido, pétala por pétala, pena por pena. Ali ficou, demorou, caminhou, voltou para a sua casa, no telhado do Teatro de Bolso, chorou. O tempo derramou três lágrimas de silêncio enquanto a pele do pássaro enrugava, em agosto de 1978, na solidão de seu ninho, pôde voltar a admirar o canto dos atores ecoando pela fresta do cano no telhado, anunciando O Pagador de Promessas de Dias Gomes, numa montagem com Orávio de Campos enquanto o mar de luzes da cidade era o holofote do seu palco. Nesse mesmo dia, um passarinho com cores tão vivas que mesmo no escuro pareciam brilhar pousou no muro do telhado e ficou a olhar, imaginar, enquanto ouvia Marisa Almeida e Roberta Nogueira cantar, dançar nas ondas sonoras do ar. O passarinho se aproximou e o pássaro da arte curvou sua cabeça na alegria de ser, um dia, a saudade de alguém. O passarinho colorido subiu ao ninho, se aconchegou, asa com asa, pena com pena, protegeram-se do frio dobrando as patinhas dentro do ninho, e de que importava o mundo se estavam juntos?
Bateram as asas como batem os segundos no tempo, o vento passava como passam os anos pela vida e no silêncio costumeiro do frio alienador o pássaro voltou para a casa e viu três ovos, que foram se romper com a trilha sonora de poesias nas vozes de Osório Peixoto, Fernando Rossi, Adriano Moura e Kapi em 27 de março de 1991. Nasceram, filhos da poesia e das cores, filhos das vozes eternas que ecoam no vazio das reles rouquidões. Com a alma dos artistas moldaram seus cantos.Cresceram, pássaros da planície imensa, da angústia imensa, da luta imensa, densa, seus cantares pediram bença à arte.
A vida era boa naquele teatrinho, brincavam de descer na fresta do cano no telhado e se empoleiravam ao lado dos refletores que iluminavam o palco. Olhavam os artistas ensaiarem com o coração a vapor, voavam entre eles como um balé encenado, sapecavam de poltrona em poltrona até saírem pela janela para continuarem as brincadeiras nas árvores da avenida 15 de novembro. À noite iam se aconchegar, os três filhotes e os pais dentro do ninho, e ver toda a cidade aplaudir os atores que antes encenavam para as cadeiras vazias. No eco de suas almas bateram as asas como batem os segundos no tempo, o vento passava como passam os anos pela vida levando a 2014…
…Desceu, desceu, desceu! Enquanto batia forte as asas para proteger sua família, lembrava de ter visto os pássaros dissimulados nos entornos, aves de rapina com pele de cordeiro, chegaram até a sua casa pelo inverno, comendo as últimas folhas das árvores que morreram sufocadas. Ouvindo seus filhos gritando enquanto tentavam se defender, batia as asas até quebrá-las de tanta força, desceu, desceu, desceu! Com o bico afiado enfiou no olho da primeira ave que viu, mas eram muitas, e viu, seus filhotes mortos no bico da ave maior, carregados e dissolvidos na noite. Enquanto lutava, suas penas foram arrancadas uma por uma, olhou seu companheiro se debater sem vida no cimento frio do telhado enquanto as cores se tornavam apenas vermelho. Machucado, o pássaro da arte apoiou seu bico no cimento áspero ao lado do pescoço aberto de quem agora é sua saudade, e dormiu. Ao dormir sonhou que era um artista, no centro do Teatro de Bolso, em meio ao silêncio campista, segurava um poema de Eduardo Alves da Costa, com os braços abertos e o pulso sangrando recitava fragmentos da alma para a plateia de cadeiras vazias:
“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”
— Bata forte, artista, como os anos pela vida! — Gritou uma voz sem corpo no meio da escuridão. O artista não teve medo, ocupava sua casa com o coração e a alma abraçada às de outros artistas — cujo tempo já havia levado o corpo — sonhando com o dia em que ali ganhará seu pão.
— Meu bem, não se culpe tanto com o tanto de alma que és feito. Tire do seu rosto essa gordura dos três anos de solidão, tudo na vida deixa de ser, mesmo você. — Disse a atriz ao caos dentro do ator.
Ele correu para a coxia, arrumou-se rápido, era dia de peça na ocupação e sua voz não mais silenciada será escutada. De peito nu, no dia 15 de maio de 2016 o ator abriu os braços ao lado de Yve Carvalho e José Carlos Rosa enquanto encenava a peça Pontal, montada por Kapi. Com o corpo em cruz bateu forte no peito, como batem os segundos no tempo, o vento passava como passam os anos pela vida e quando o grito dos três anos perdidos bateu à porta, acordou!
Para quem quiser formar sua própria opinião a partir da multiplicidade de outras emitidas sobre o Ocupa TB, confira aqui e aqui as visões dos jornalistas e escritores campistas Paula Vigneron e Ocinei Trindade.
Com base em levantamento feito pelo economista Ranulfo Vidigal, entre receitas e despesas do município de Campos de 2009 a 2015, o deputado estadual e pré-candidato a prefeito Geraldo Pudim (PMDB) não tem dúvida: “(O secretário municipal de Governo Anthony) Garotinho (PR) não vendeu o futuro, ele vendeu o presente. O governo Rosinha (Garotinho, PR) quebrou a Prefeitura de Campos. Esse empréstimo que eles pegaram agora (R$ 367 milhões, aqui, com a Caixa Econômica Federal) não foi para a cidade, mas para fazer a eleição”.
Entre 2009 e 2014, os dados foram colhidos por Ranulfo junto à secretaria do Tesouro Nacional. Já os números de 2015 foram tirados do Portal da Transparência da Prefeitura de Campos, ainda que Pudim ressalve que eles só ficaram disponíveis em abril de 2016, com atraso de quatro meses. Os valores de receitas e despesas do município foram corrigidos com base no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), índice oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Com os valores devidamente reajustados pela inflação, a receita de 2015, no valor de R$ 2.033.856.900,00 é a menor dos últimos sete anos da administração Rosinha. A maior foi justamente a do ano anterior, em 2014, quando os rosáceos contaram com R$ 3.027.788.959,49. Nos dois anos, foram contabilizados como “receita de capital” os empréstimos feitos pelos Garotinho usando como garantia os royalties do petróleo — em dezembro de 2014 (aqui), de R$ 250 milhões, com o Banco do Brasil, e em dezembro de 2015 (aqui), com a Caixa Econômica, de R$ 308 milhões.
O segundo empréstimo foi usado para pagar o primeiro, com R$ 108 milhões retidos e só R$ 200 milhões disponibilizados ao município, assim como o mais recente foi feito para pagar o segundo. Dos R$ 562 milhões tomados na Caixa no último dia do governo Dilma Rousseff (PT), o município só pegou R$ 367 milhões, deixando o resto para saldar a dívida anterior. O prazo para o pagamento da operação foi de 10 anos. Somadas, as três “vendas do futuro” pelos Garotinho já ultrapassam R$ 1 bilhão. Só nas duas primeiras, os juros foram de R$ 160 milhões.
Sobre essa rolagem de dívida às custas das divisas futuras do município, Pudim é taxativo:
— Tão logo tomou esse novo empréstimo com a Caixa Econômica, no valor líquido de R$ 367 milhões, o governo Rosinha aumentou (aqui) em R$ 50 milhões a folha de pagamento, com o justo reajuste concedido (de 9,38%) aos servidores. Além disso, anunciou novos gastos de R$ 40 milhões já contratados (aqui) com os hospitais e R$ 50 milhões para (aqui) finalizar as obras paralisadas. A conta não fecha. A estratégia é criar um clima de oba-oba até as eleições e depois passar a conta para a próxima administração e para a sociedade. Sobrarão no máximo R$ 300 milhões para investir em Saúde, Educação, Habitação, área social. Será o caos, parando os serviços públicos e deixando a população órfã de seus direitos. Isso tudo fruto de uma irresponsabilidade da atual administração, que corroeu todos os recursos com um único objetivo: manter-se no poder.
“(O secretário municipal de governo Anthony) Garotinho (PR) não vendeu o futuro, ele vendeu o presente. O governo Rosinha (Garotinho, PR) quebrou a Prefeitura de Campos. Esse empréstimo que eles pegaram agora (R$ 367 milhões, com a Caixa Econômica Federal) não foi para a cidade, mas para fazer a eleição”
Feita a partir de levantamento do economista Ranulfo Vidigal, com base nas receitas e despesas do município de Campos entre 2009 e 2015, a afirmação é do deputado estadual e pré-candidato a prefeito Geraldo Pudim (PMDB). Confira a íntegra da matéria amanhã (22), na Folha da Manhã.
Vinicius Cordeiro veio a Campos, hoje, para garantir o apoio do PT do B à pré-candidatura a prefeito do vereador Mauro Silva (foto: divulgação)
Apesar de ter saído do PT do B para se candidatar à Prefeitura de Campos pelo PSDB, o líder do governo na Câmara Municipal, vereador Mauro Silva, vai ter o apoio do antigo partido para tentar suceder a prefeita Rosinha Garotinho (PR). Hoje, em viagem pela região para preparar sua legenda para o pleito de outubro, o presidente estadual do PT do B Vinicius Cordeiro passou em Campos, onde declarou agora há pouco:
— Teremos chapas completas de candidatos à Prefeitura e Câmara de Vereadores em pelo menos 15 municípios do Estado do Rio. Mas, estamos deixando uma mensagem ao ex-governador Garotinho e à prefeita Rosinha Garotinho: embora ainda não esteja definido o candidato de seu grupo político, em Campos, anunciamos nosso apoio ao pré-candidato Mauro Silva.
Vinicius acrescentou que Mauro “é o nome de predileção” de seu partido, num apoio já comunicado ao presidente do diretório Municipal , Otávio Cabral. Além do apoio na eleição à Prefeitura de Campos, o PT do B vai trabalhar para tentar reeleger dois vereadores: Dona Penha e Cecília Ribeiro Gomes. Satisfeito pela aliança, o líder rosáceo na Câmara comentou que o anúncio do PT do B fortalece o seu nome na disputa pela Prefeitura de Campos:
— Também no PSDB continuamos tendo o mesmo comportamento político de sempre, estimulando o diálogo, a conciliação e a convergência de idéias e propostas suprapartidariamente, aumentando e consolidando alianças — disse Mauro, que na próxima segunda-feira, 23 de maio, vai ao Rio de Janeiro, com o presidente do diretório municipal do PSDB, Robson Cola, para reunião de trabalho com o presidente estadual do PSDB Otávio Leite.
Sugestão para escutar enquanto lê: Silêncio – Ludwig Van Beethoven
O Terapeuta, de René Magritte
Estalava o ventilador numa noite tão quente do ar machucar o pulmão. Com um violão, a esperança na mão, no palco do Teatro de Bolso um artista dormiu, e ao dormir sonhou que era um pássaro. Bateu as asas forte, tão forte, muito forte! E subiu, subiu, subiu. Achou uma fresta num cano escuro, entrou e voou além do teto, subiu, subiu, subiu, viu, toda a cidade iluminada, a ponte verde ao lado do abandono rosa. Enquanto o vento frio soprava no seu bico, sentia o pequeno coração bater acelerado com as asas abrindo altas e donas do céu estrelado atrás de si, sentia o ar entre as penas, a vida longe de ser pequena. Do alto viu sua morada, no telhado do teatrinho, um velho ninho amassado e usurpado por predadores ao longo do tempo. Ali estavam seus filhos gritando, aproximava-se uma trupe de aves de rapina para roubar-lhes a casa. Desceu com toda a força, bateu forte as asas como batem os segundos no tempo, desceu, desceu, desceu enquanto o vento passava como passam os anos pela vida o levando há 48 anos atrás…
…Ainda era sua primeira muda de pena quando levava alguns pedaços de palha no bico para construir um aconchegante e pequeno ninho no telhado do teatrinho, escutava as vozes de Gilda Duncan, Rubens Fernandes, Nely Fernandes, Paulo Roberto, Romilda Nunes e Odilon Martins ecoarem e chegarem aos seus ouvidos através da pequena fresta do cano no teto enquanto a cidade iluminada observava a primeira peça no Teatro de Bolso, onde construiu sua casa às vozes de A Moratória, em 15 de abril de 1968. Sentia nas patinhas os tremores dos aplausos, olhava as ondinhas que o vento fazia no rio Paraíba, arrumava palha por palha alinhavando seu ninho e depois empoleirava-se no muro para ver todo o mundo ir embora, quando o último ia, voltava para sua casa, ficava a observar as estrelas até seus olhos fecharem…
De manhã bateu as asas como batem os segundos no tempo, o vento passava como passam os anos pela vida e após 7 rajadas quebrou a asa num tronco soltando 26 penas no Boulevard Francisco de Paula Carneiro. Banhou seu canto com silêncio, não haveria mais dança nesse terreno, corpos ao relento, sua árvore fora cortada. De peito estufado, que pássaro da arte não se dobra com a dor, viu seu coração ser demolido, pétala por pétala, pena por pena. Ali ficou, demorou, caminhou, voltou para a sua casa, no telhado do Teatro de Bolso, chorou. O tempo derramou três lágrimas de silêncio enquanto a pele do pássaro enrugava, em agosto de 1978, na solidão de seu ninho, pôde voltar a admirar o canto dos atores ecoando pela fresta do cano no telhado, anunciando O Pagador de Promessas de Dias Gomes, numa montagem com Orávio de Campos enquanto o mar de luzes da cidade era o holofote do seu palco. Nesse mesmo dia, um passarinho com cores tão vivas que mesmo no escuro pareciam brilhar pousou no muro do telhado e ficou a olhar, imaginar, enquanto ouvia Marisa Almeida e Roberta Nogueira cantar, dançar nas ondas sonoras do ar. O passarinho se aproximou e o pássaro da arte curvou sua cabeça na alegria de ser, um dia, a saudade de alguém. O passarinho colorido subiu ao ninho, se aconchegou, asa com asa, pena com pena, protegeram-se do frio dobrando as patinhas dentro do ninho, e de que importava o mundo se estavam juntos?
Bateram as asas como batem os segundos no tempo, o vento passava como passam os anos pela vida e no silêncio costumeiro do frio alienador o pássaro voltou para a casa e viu três ovos, que foram se romper com a trilha sonora de poesias nas vozes de Osório Peixoto, Fernando Rossi, Adriano Moura e Kapi em 27 de março de 1991. Nasceram, filhos da poesia e das cores, filhos das vozes eternas que ecoam no vazio das reles rouquidões. Com a alma dos artistas moldaram seus cantos.Cresceram, pássaros da planície imensa, da angústia imensa, da luta imensa, densa, seus cantares pediram bença à arte.
A vida era boa naquele teatrinho, brincavam de descer na fresta do cano no telhado e se empoleiravam ao lado dos refletores que iluminavam o palco. Olhavam os artistas ensaiarem com o coração a vapor, voavam entre eles como um balé encenado, sapecavam de poltrona em poltrona até saírem pela janela para continuarem as brincadeiras nas árvores da avenida 15 de novembro. À noite iam se aconchegar, os três filhotes e os pais dentro do ninho, e ver toda a cidade aplaudir os atores que antes encenavam para as cadeiras vazias. No eco de suas almas bateram as asas como batem os segundos no tempo, o vento passava como passam os anos pela vida levando a 2014…
…Desceu, desceu, desceu! Enquanto batia forte as asas para proteger sua família, lembrava de ter visto os pássaros dissimulados nos entornos, aves de rapina com pele de cordeiro, chegaram até a sua casa pelo inverno, comendo as últimas folhas das árvores que morreram sufocadas. Ouvindo seus filhos gritando enquanto tentavam se defender, batia as asas até quebrá-las de tanta força, desceu, desceu, desceu! Com o bico afiado enfiou no olho da primeira ave que viu, mas eram muitas, e viu, seus filhotes mortos no bico da ave maior, carregados e dissolvidos na noite. Enquanto lutava, suas penas foram arrancadas uma por uma, olhou seu companheiro se debater sem vida no cimento frio do telhado enquanto as cores se tornavam apenas vermelho. Machucado, o pássaro da arte apoiou seu bico no cimento áspero ao lado do pescoço aberto de quem agora é sua saudade, e dormiu. Ao dormir sonhou que era um artista, no centro do Teatro de Bolso, em meio ao silêncio campista, segurava um poema de Eduardo Alves da Costa, com os braços abertos e o pulso sangrando recitava fragmentos da alma para a plateia de cadeiras vazias:
“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”
— Bata forte, artista, como os anos pela vida! — Gritou uma voz sem corpo no meio da escuridão. O artista não teve medo, ocupava sua casa com o coração e a alma abraçada às de outros artistas — cujo tempo já havia levado o corpo — sonhando com o dia em que ali ganhará seu pão.
— Meu bem, não se culpe tanto com o tanto de alma que és feito. Tire do seu rosto essa gordura dos três anos de solidão, tudo na vida deixa de ser, mesmo você. — Disse a atriz ao caos dentro do ator.
Ele correu para a coxia, arrumou-se rápido, era dia de peça na ocupação e sua voz não mais silenciada será escutada. De peito nu, no dia 15 de maio de 2016 o ator abriu os braços ao lado de Yve Carvalho e José Carlos Rosa enquanto encenava a peça Pontal, montada por Kapi. Com o corpo em cruz bateu forte no peito, como batem os segundos no tempo, o vento passava como passam os anos pela vida e quando o grito dos três anos perdidos bateu à porta, acordou!
Campos sediará, das 14h às 22h de amanhã (21) e domingo (22), no estacionamento do Boulevard Shopping, a primeira edição do “Breja_”. O festival de cerveja artesanal que reunirá não apenas a venda de cervejas de várias cervejarias e importadoras, mas também alimentos típicos desse universo, exposição de fotografias, food trucks e muita música, com os DJs da “Rádio Breja_”, além do gaitista campista de blues Ângelo Nani. Crianças podem participar, desde que acompanhadas dos pais. Animais de estimação também têm entrada liberada.
No festival, também estará o grupo “Acerva campista”, que fará, ao vivo, uma brassagem de panela — ou seja, a equipe mostrará ao público uma das etapas da produção de cerveja artesanal. O coletivo Casinha, organizador e curador do festival, entende que a presença destes grupos mostra que é possível a valorização das iniciativas e a criação de vínculos mais afetivos entre empresas e consumidores.
O “Breja_” começa em Campos e ganhará mais cinco edições, que devem ocorrer até dezembro deste ano – e sempre de forma colaborativa, reunindo produtores, mestres cervejeiros, sommeliers e amantes de cerveja. O festival chega para encurtar a distância entre a pequena produção cervejeira e o consumidor final, e também para estimular a economia colaborativa e independente da produção artesanal de cervejas no Brasil.
Havia uma rua de classe média, do estilo mais clichê possível de uma rua de classe média. Paralelo a ela, havia um beco de casas mal ajambradas ao estilo de uma favela, do estilo mais clichê possível de casas de favela.
Ali morava Isaura. Trabalhava como doméstica até um problema gástrico a levar a uma série de operações e a incapacitar para suas atividades. Funcionária sempre informal, não conseguiu receber nenhum direito previdenciário e caiu em estado próximo à mendicância. Morava em seu barraco e vivia da caridade das senhoras de classe média, além de uns parcos benefícios da assistência social da prefeitura. Comparecia fielmente à igreja católica e isso demarcava o único laço de proximidade com sua benfeitoras: definia-se através da fé como boa pessoa e digna de misericórdia alheia.
Seu filho, Januário, acabou seguindo passos semelhantes aos da mãe. No começo da adolescência, ali nos seus 13 anos, tentou adentrar no grupo de garotos de classe média. Com seu short remendado e chinelo ajeitado com tachinha, procurou conversa em seu linguajar ruim de quem mal estudou junto aos garotos educados na escola particular.
Um dia, convidaram-no à casa de um dos meninos de classe média. Parecia um sonho, o reconhecimento, tornando-se um igual. Os pais não estavam em casa, apenas Januário e outros cinco, todos um pouco mais velhos. Sacaram um relógio digital, daqueles de pulseira de borracha comprado em barraquinha de camelô. Perguntaram se ele queria de presente e ele disse que sim:
— Então baixa as calças e vira para cá — ordenaram com olhar ameaçador.
Hereditariamente submisso, rendeu-se às enrabações dos garotos e retornou para casa recompensado com o relógio. Essas sessões continuaram, fosse uma camisa esburacada ou meia-hora jogando vídeo game como pagamento. Assim, desvencilhava-se de seu próprio corpo, não havendo um querer ou um não querer, apenas um compromisso com o qual precisava lidar para conquistar algo negado pela vida.
O passar dos anos afastou Januário daquela rua de classe média e do beco, frequentando cada vez mais a favela propriamente dita. Ali, submeteu-se ao crack e o contato com traficantes tornou-se mais constante (e os abusos sexuais permaneceram). Logo começou a traficar e parou na cadeia, onde seu corpo caiu nas mãos dos demais detentos.
Um dia, repercutiu a notícia de um tiroteio entre grupos rivais do tráfico. Januário levou dois tiros e foi parar na UTI. Um dos garotos da classe média, agora já graduado, casado e bem empregado, viu a notícia sem mais lembrar-se da identidade do baleado. Revoltou-se pelo fato da sociedade andar violenta demais.
Garotinho e seu estafe ouvem do representante do movimento que, enquanto os 11 itens da pauta não forem atendidos e publicados em Diário Oficial, a ocupação do Teatro de Bolso permanecerá (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Uma reunião curta e sem diálogo. Assim foi aquela que, iniciada alguns minutos antes, se encerrou pouco depois das 11h da noite de ontem, entre o secretário de governo de Campos, Anthony Garotinho (PR), e os artistas de Campos que ocupam o Teatro de Bolso Procópio Ferreira desde o último dia 9 (relembre aqui).
Mais uma vez acompanhado do líder rosáceo na Câmara Municipal, vereador Mauro Silva (PSDB), e do vice-prefeito Dr. Chicão (PR), além de todo o estafe da cultura do governo Rosinha Garotinho (PR) — à exceção da presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patrícia Cordeiro, mais uma vez ausente —, Garotinho perguntou aos artistas qual era a pauta. Foi respondido pelo advogado Alexis Sardinha (PT), que a pauta era aquela protocolada na Prefeitura de Campos, divulgada pelo blog aqui.
Garotinho propôs, então, que se discutisse a pauta. Alexis respondeu que não estava autorizado a lê-la, mas que a ocupação do Teatro permaneceria enquanto seus 11 itens não fossem atendidos integralmente, com a publicação de cada um em Diário Oficial (DO). O secretário de Governo disse que, se era assim, não tinha porque estar ali para o debate, levantando-se e se retirando com seus acompanhantes.
Por telefone, após a reunião, o vereador Mauro Silva lamentou ao blog que, “por intransigência, se tenha perdido uma chance ao debate e chegado ao impasse”.
Com informações do jornalista Celso Cordeiro Filho