Se ninguém tinha dúvida da popularidade do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PEN), mas muitos questionavam sua capacidade de transferência ao filho Caio Vianna (PDT), esta deve começar a ser levada a sério pelos analistas da corrida pela sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). Com seu próprio nome, sem nenhuma menção a Arnaldo, Caio liderou as consultas espontânea e duas estimuladas feitos pelo instituto Pro4, sob encomenda da Folha da Manhã, ouvindo 620 pessoas entre 8 e 10 de junho. Na espontânea, Caio apareceu com 4,4% das intenções de voto, seguido do vereador Rafael Diniz (PPS), com 3,4%; de Arnaldo Vianna (que ainda diz ser pré-candidato, mas saber estar impedido pela legislação eleitoral), com 2,9%; da própria Rosinha (também impedida de concorrer), com 2,7%; e do vice-prefeito Dr. Chicão (PR), em quinto, com 1,5% e como candidato governista aparentemente mais consolidado junto ao eleitor.
Líder na espontânea, Caio continua a sê-lo nos dois cenários apresentados nas consultas estimuladas. Nestas, como a pré-candidatura do vereador governista Mauro Silva já está confirmada pelo PSDB, ela foi apresentada na pesquisa independente das definições garotistas. Sobre estas, diante da dificuldade de apresentar simulações com cada uma das outras nove pré-candidaturas governistas, A Folha se baseou em fontes do próprio governo Rosinha e escolheu duas para representar o PR nas simulações eleitorais: a de Chicão e a do vereador Paulo Hirano.
Assim, quando entra na disputa estimulada, Chicão se consolida como pré-candidato governista, hoje, de maior popularidade. Com 8,4% ele ficou em quarto lugar. Mas dentro da margem de erro de 3,9% para mais ou menos, alcançou o empate técnico junto a Rafael, terceiro, com 11,3%; ao vereador “independente” Tadeu Tô Contigo (PRB), em segundo com 13,4%; e ao líder Caio, com 15,2%.
Já quando entra Paulo Hirano e sai Chicão, os governistas ficam fora do empate técnico entre os mesmos três líderes: Caio na frente, com 15,5%; seguido por Tadeu, com 14,0%, e Rafael, com 11,8%. Último dos 10 pré-candidatos governistas a entrar no jogo, Hirano não foi além do 1,1%, empatado em penúltimo com o ex-vereador Rogério Matoso (PPL). Mantido em ambas as consultas, Mauro Silva também não foi bem, ficando com 1,9% tanto com Chicão, quanto com Hirano na disputa.
Outro dado relevante, que evidencia como o quadro está ainda indefinido e sujeito a alterações até o pleito de outubro, é o grande número de eleitores indefinidos. Eles chegam a impressionantes 73,1% na espontânea, a apenas quatro meses das urnas. Mas mesmo nas consultas estimuladas, quando somado aos que pretendem votar branco e nulo, o número de quem ainda não tem nenhum candidato chegou a mais de 30 pontos percentuais, em ambos os cenários.
Dado considerado tão importante quanto intenção de voto, no quesito negativo da rejeição o líder além da margem de empate técnico foi Geraldo Pudim, com 15,8%. Entre os que lideraram as consultas espontâneas, quem colheu a maior rejeição foi Tô Contigo, terceiro no placar geral, com 6,5% ; seguido de Chicão, com 6,3%; e Caio, com 4,8%. Já Rafael Diniz teve apenas 1,5% dos entrevistados declarando que não votariam nele de jeito nenhum, com a segunda menor rejeição entre os 12 pré-candidatos apresentados, à frente de Matoso, com 0,2%.
Erosão do mar ameaça interditar estrada municipal que liga Barra do Furado ao Farol (foto: Secom)
A Coordenadoria Municipal de Defesa Civil interditou na noite de sábado (11) a estrada que liga Farol de São Thomé a Barra do Furado, no município de Quissamã. O mar avançou e suas areias já se encontram no mesmo nível da estrada. A informação é do diretor Executivo do órgão, major Edison Pessanha.
Caso se confirme a previsão da Marinha, de ressaca do mar com de ondas superiores a 3 metros para essa noite de sábado, há risco de rompimento do asfalto. Nova sinalização está sendo colocada no local, que fica próximo ao bairro Gaivota.
Duas equipes da Defesa Civil estão no local. Uma do lado de Campos e outra do lado de Quissamã para avaliar a situação e alertar os motoristas. O major Edison orienta que todos evitem trafegar pela via.
Fonte: Assessoria da Defesa Civil de Campos
Abaixo, confira os vídeos enviados pela assessora da Defesa Civil, jornalista Jane Nunes:
Caio Vianna (PDT) lidera a corrida à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR) na consultas espontânea e estimulada. Ambas foram feitas pelo instituto Pro4, entre 8 e 10 de junho, ouvindo 620 pessoas, registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número 00696/2016.
Dentro da margem de erro de 3,9% para mais ou menos, Caio aparece em empate técnico na estimulada com os vereadores Tadeu Tô Contigo (PRB), em segundo, e Rafael Diniz (PPS), em terceiro, assim como com o vice-prefeito Dr. Chicão (PR) — quarto colocado quando colocado como candidato do PR.
Na estimulada, foram apresentados dois cenários ao eleitor: um com Chicão como candidato do PR, outro com este lugar ocupado pelo vereador Paulo Hirano. Pré-candidato assumido pelo PSDB, o vereador e também governista Mauro Silva esteve presente, à parte as opções do PR, nos dois cenários. Em ambos, o número de indecisos, somado às intenções de votar em branco ou nulo, supera os 30 pontos percentuais.
Já no quesito negativo da rejeição, quem lidera com folga, além de qualquer empate técnico, é o deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB).
Leia amanhã o resultado da pesquisa na matéria da Folha da Manhã
Sugestão para escutar enquanto lê: SacredSpirits- Ly O Lay Ale Loya
(Reprodução)
“A terra é profunda e a sua sabedoria é grande. Escute as pedras e escute o vento. Se todos fizessem algo pelos outros, não haveria ninguém necessitado em todo o mundo.” — Palavras de um índio Lakota registrada no livro Nem Lobo, Nem Cão — Por caminhos esquecidos com um índio ancião de Kent Nerburn.
O silêncio de quem parte é tão doloroso, que ecoa dentro d’a gente e faz pensar o sentido da vida. Nesse momento estou sentado num banco frio, com os pés sobre a grama úmida, tentando tragar os sentimentos do mundo enquanto olho a fumaça do cigarro se esvair pela noite acima de mim, ao lado meus amigos Marcelo Sampaio e Yoná Alves escutam o silêncio de um homem que caminha para a eternidade. Agora, estamos longe dos que confundem riqueza e alma.
A amizade é o que possuo de mais valioso na vida, procuro nelas alguém para chamar de família,por isso pude sentir o odor da dor de meus amigos ao velar o corpo de quem lhes é querido, Geraldo Gamboa. Por mais valente que desejamos ser, esse será o fim mesmo da vida mais bela, mas na minha breve existência percebi, ninguém viveu a vida que desejou viver. Reflita sobre isso e me diga, se não é indubitável o maior bem da vida estar no intocável? “O mesmo homem que passa tantos dias e tantas noites cheio de cólera e de desespero por ter perdido um cargo, ou por alguma ofensa imaginária à sua honra, sabe também que vai perder tudo com a morte, sem que por isso se inquiete ou se comova. É uma coisa monstruosa ver, num mesmo coração e ao mesmo tempo, essa sensibilidade pelas menores coisas e essa estranha insensibilidade para as maiores.” Já observava Blaise Pascal no século XVII.Amontoados de escravos modernos trabalham sem o direito de perguntar qual o sentido, sem direito ao desejo, fazendo da sua vida o encosto de outrem, disputando a maior relevância quanto mais explora o próximo, passando pela vida como um sopro: parafusos de uma engrenagem enferrujada.
Com o abraço do vento pelo tempo cheguei à casa com a esperança banhada em lágrima. Havia uma vida na geladeira, a ser bebida em goles esparsos na eterna calma dos seus lábios, em palavras aladas que buscam o sentido de uma alma preenchida de vazios. Usando da loucura como antídoto de uma sociedade doente, a solidão se torna a multidão mais densa, gritando a voz rouca de quem já nasceu velho, enganando a mim mesmo como se enganasse o destino, fingindo não saber ser apenas um instante na eternidade, um piscar de olhos entre a vida e a morte. Sentei em frente ao papel e escrevo agora esse texto, minhas mãos dormentes de frio desenhamsem vida os cuspes do meu peito, a cada palavra que sai, sai também uma parte de mim. Ao lado, meus ouvidos respiram as músicas sacras dos indígenas enquanto meus olhos esbarram em alguns dizeres em espanhol do livro de Kent Nerburn, Ni LoboNi Perro – Por Senderos Olvidados con un Anciano Indio, expressando a sabedoria dos índios Lakotas sobre o silêncio, amputada pela engrenagem enferrujada e jamais percebida pelos escravos modernos.
“WakanTanka, Grande Mistério,
Ensina-me a confiar em meu coração, em minha mente, em minha intuição, em minha sabedoria interna, nos sentidos do meu corpo, nas bênçãos do meu espírito. Ensina-me a confiar nessas coisas para que eu possa entrar no meu espaço sagrado e amar além do meu medo, e assim caminhar em equilíbrio com o passo de cada glorioso sol e gloriosa lua.”
(Traduzido do espanhol para português por Fabio Bottrel)
Lá embaixo, o som de funk disputa uma menina para uma selvageria sexual com os berros de um pastor para uma fiel temerosa de um julgamento celestial, se consigo escutá-lo desse lado do rio, penso que Deus deve ser mais surdo que eu. Lá embaixo não há silêncio, não há paz, não há liberdade. Sinto cada vez menos vontade de descer, mas a pureza de Tango, meu cachorro, espera o sol nascer todos os dias para correr atrás dele e o sol se pôr para correr atrás da lua.
Continuo escutando a música sacra, em uma língua que não consigo entender, mas posso sentir perfeitamente. Minhas mãos pararam de escrever por um instante e de novo me veio o pensamento de quando a natureza humana foi corrompida, olho para Campos e pergunto quando a cultura deixou de criar vida e dar espaço para a máquina criar o cimento oco humano. Teatros vazios, cineclubes vazios, mentes vazias, ruas lotadas de bêbados, de badernas, de estupidez. Se a cultura é a mãe de todas as instituições, mas somente a política pode salvá-la dela própria, ao olhar para os nossos políticos, não preciso terminar essa frase.
Observando a ganância dos homens pelo poder a ponto de arruinar toda uma sociedade, me veio de imediato a carta do chefe dos índios Duwamish, que habitavam a região onde se encontra hoje o estado americano Washington, endereçada ao presidente dos Estados Unidos Franklin Pierce, em 1854, quando este tentava comprar as terras onde habitava sua tribo.
“O grande chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.
Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano.
Minha palavra é como as estrelas – elas não empalidecem.
Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho.
O homem branco esquece a sua terra natal, quando – depois de morto – vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia – são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem – todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.
Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar d’água é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mãe – a terra – e seu irmão – o céu – como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou miçanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.
Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.
Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou rescendendo a pinheiro.
O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum – os animais, as árvores, o homem.
O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores campestres.
Assim, pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.
Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós – os índios) matamos apenas para o sustento de nossa vida.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.
Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra – fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.
De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.
Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias – eles não são muitos. Mais algumas horas, mesmos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques sobrará para chorar sobre os túmulos um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver, de uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios desejos.
Porém, ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados, pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.
Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.
Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. “Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse”: E com toda a tua força o teu poder e todo o teu coração – conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.”*
Após ler a carta, decidi plantar minhas palavras nesse texto como sementes na alma e permiti crescerem na voz soberana, além do nosso alcance… a voz do silêncio de quem parte banhado nas mudas lágrimas dos que ficaram no caos da engrenagem enferrujada.
* traduzido da publicação americana original do Dr.Henry Smith-1887. Fonte: http://www.geocities.com/rainforest/andes/8032/page16.html
Espaço Diego y Frida do Museu Dolores Olmedo, na Cidade do México, 14/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
A terceira campainha soara. Matheus havia chegado atrasado ao teatro e não conseguia enxergar os rostos que o acompanhariam nas próximas horas de espetáculo. A sinopse da peça chamara a sua atenção: um monólogo no qual um homem falava de suas dores e amores. Sabia que, durante as cenas, viveria momentos de catarse que tornariam mais leve o seu interior. Caminhou vagarosamente entre as cadeiras do espaço. Contou seis pessoas. Sentou-se na segunda fileira, sozinho.
Por cinco minutos, nenhum movimento no palco. Apenas uma cadeira de madeira, pintada de branco, no centro, com uma luz da mesma cor sobre ela. Olhou para trás. Estava aflito. As sombras permaneciam imóveis. Um arrepio percorreu o seu corpo. O vazio do teatro deixava-o ansioso e triste. Virou-se para frente. A cadeira, agora, era ocupada por um homem vestido de preto, com a cabeça baixa e cabelos castanhos caídos no rosto. Matheus se ajeitou e se concentrou. O espetáculo estava prestes a começar.
As respirações dos homens trancados no teatro seguiam o mesmo ritmo. Inspiravam, expiravam, inspiravam e expiravam em conjunto. Os movimentos pareciam premeditados e perfeitamente ensaiados. As luzes se tornaram mais escuras, não sendo possível distinguir as expressões dos rostos ali presentes. Ele se mexia em sua cadeira enquanto observava o ator no palco, que se acomodava melhor. Ambos se olharam por breves minutos. Matheus olhou, também, para os outros. Todos o encaravam. Subitamente, levantou-se. Sua vontade era correr em direção à saída de emergência. A estranheza do espetáculo o apavorou. A propaganda havia sido tão boa, e, de repente, as cenas pareciam grotescas. Passos alternados seguiam os seus. Virou-se para trás. As sombras faziam o mesmo percurso. Somente o ator observava o grupo que andava em busca de uma saída inexistente.
Vencido pela tensão, Matheus se sentou novamente. Todos se acomodaram na mesma fileira. Ele ofegava e transpirava. Não se lembrava de ter vivido momentos tão intensos de angústia. A iluminação do palco clareou o ator, que o olhava atentamente. O rapaz gritou ao enxergar a feição do artista. Era ele. Simultaneamente, as luzes da plateia se acenderam. Olhou ao redor. Os demais não possuíam rostos. Os olhos castanhos percorriam os cantos do teatro. Ansiava por explicações, mas sua voz parecia ter se perdido em um caminho sem volta.
A cadeira branca foi arrastada. O ator escorregou pela madeira e se sentou no chão. A luz estava concentrada nele, que alisava o tablado em um gesto incompreensível. Contrarregras surgiram e modificara m o cenário. Um sofá bege, cujo estofado se assemelhava a veludo, ocupava o lado direito do palco. No centro, um divã azul escuro. Matheus reconheceu o lugar. Levantou-se. Suas pernas tremiam. Temia o que iria encarar. Paradoxalmente, não conseguia desviar o olhar. O homem em cena deitou-se e observou o teto.
Antônia, sua psicanalista, conservava o mesmo aspecto sombrio. Os óculos, sempre tortos, postos sobre a ponta do nariz. O bloco branco e a caneta preta posicionadas para anotar os primeiros devaneios que seriam ditos por Matheus. Ela aguardava as palavras, que ainda se ordenavam dentro do ator. Os pés do homem se chocavam levemente, característica marcante do início das consultas. Inspirou profundamente.
— Conseguiu pensar sobre o que falamos na última consulta? — o ator continuava a encarar o teto enquanto Matheus se preparava para responder. Foi interrompido por um sussurro. “Cabe a ti o silêncio, meu caro.” Não havia ninguém a seu lado. O coração tamborilava com violência.
— Pensei, Antônia. Não concluí nada. Não há definições. Definitivamente, sou a perda de tempo que tanto lastimei em minha vida.
Como o ator poderia falar aquilo tão abertamente? Matheus se sentiu desnudado diante dos olhos da plateia e da psicanalista. Eram seus pensamentos mais profundos. Nunca teria coragem de expô-los em voz alta.
— Você é o que enxerga. Você é o que quer, Matheus. Tantas coisas para fazer, e você, homem, permanece apático e insignificante — ralhou Antônia. “Como ela tem coragem de me falar isso?”, questionou-se o homem, que continuava de pé em frente ao palco, apavorado com a grosseria sincera com que era tratado.
— De que adianta ir à luta? Abandonado por uma mulher adúltera a quem continuo amando. Ela, agora, está deitada na cama de outro. Há três anos, amargo essa derrota. O fracasso de não saber lidar com as novidades que a vida me apresenta. Desaprendi a me relacionar. Perdi a capacidade de recomeçar, refazer e recriar. Mesmo com o dia claro, não passo de um notívago. Sobre mim, a sombra de uma nuvem escura prestes a descarregar — a dor de Matheus acabara de ser, pela primeira vez, verbalizada. Desta vez, não entre quatro paredes. Os conflitos foram revelados a outros.
Teve o ímpeto de avançar sobre o ator, que falava sobre suas falhas. “Nem sequer posso deixar herdeiros. Nasci oco. Sou oco. E morrerei oco”, dizia o cruel artista a Antônia, que anotava os relatos. Os movimentos em direção ao palco foram esquecidos quando Matheus olhou ao redor. As sombras estavam coladas ao seu corpo.
— Quem são vocês? O que é isso que acontece à minha revelia? — a voz embargada preencheu o espaço. Desvencilhou-se do invisível e alcançou o homem do divã. Suas mãos pousaram sobre o pescoço do ator, apertando-o. Ansiava pela morte do outro Matheus. À medida que apertava, perdia o ar. Os rostos ficaram vermelhos. As sombras e a psicanalista sumiram. Ele era obrigado a se encarar. Folgou os dedos e se sentou no chão. Homem e ator. Realidade e personagem. Morte e vida. Os dois se olharam por incontáveis minutos.
— Eu sou o que você não tem coragem de assumir. Eu sou a coragem presa a um corpo inerte e fracassado. Uma construção de sua mente. Confronte-se. Procure e encontre, sozinho, o que está perdido — as luzes rarearam. Apenas o divã e Matheus continuavam sob o holofote.
Diante do homem, um espelho havia sido colocado. Ele se encarou. Envelhecido, deitou-se no divã à espera de Antônia para mais um dia de consulta.
Em 28 de maio, o jornalista Alexandre Bastos já havia desnudado (aqui) a ironia da declaração feita no mesmo dia pelo secretário de Governo Anthony Garotinho (PR). Na rádio do seu grupo de comunicação, o ex-prefeito, ex-deputado, ex-governador e ex-candidato a presidente da República disse: “Tem político em Campos que só sabe comprar voto. Não faz obra, não presta serviço, só compra votos”.
Farra dos RPAs
Pois na manhã de ontem, exatos 10 dias depois, o vereador e pré-candidato a prefeito Nildo Cardoso (DEM) cobrou informações sobre a contratação de funcionários por Recibo de Pagamento a Autônomos (RPA) pelo governo Rosinha Garotinho (PR) em 2016: “Quantas pessoas foram contratados por RPA neste ano eleitoral? Solicito uma lista com as respectivas lotações de cada funcionário. As contas bancárias para receber estão sendo abertas agora, faltando menos de quatro meses para as eleições”.
Siga o dinheiro
Político de base eleitoral na Baixada Campista, Nildo disse poder listar pessoas em seu reduto que estão sendo contratadas como autônomos. O primeiro passo será informar ao Ministério Público Estadual (MPE) e depois ao Santander, banco responsável pelos pagamentos da Prefeitura, para saber sobre a abertura das contas dos RPAs, cuja data não pode retroagir. Na última segunda-feira (06), por exemplo, os RPAs que abriram conta tiveram nela seu depósito, enquanto quem ainda não abriu, recebeu na boca do caixa, a partir da lista enviada pelo governo Rosinha ao banco.
Na Justiça do Trabalho
No último dia 12, em audiência na Justiça do Trabalho de Campos, o MPE já havia deixado claro (aqui) que pretende ingressar com ação de improbidade administrativa e pedido de intervenção estadual, caso continue a contratação por RPAs — avolumada neste ano eleitoral. Isto seria um flagrante descumprimento, por parte do governo Rosinha, do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado para substituir terceirizados por servidores concursados no poder público municipal, firmado com o Ministério Público do Trabalho (MPT).
Na Justiça Eleitoral
Além das consequências na Justiça comum e do Trabalho, Nildo advertiu que “os erros de 2016 lembram os de 2004”. O vereador se referiu à contratação de terceirizados pelo então governo municipal de Arnaldo Vianna (PDT). Condenada como captação ilegal de sufrágio (compra de voto, pelo art. 41-a da lei 9504/97), a prática custou o mandato do prefeito de Carlos Alberto Campista. Eleito pela máquina municipal em 2004 e cassado pela Justiça Eleitoral em 13 de maio de 2015, ele abandonou a política e nunca mais se elegeu a nada.
Publicado na coluna “Ponto final”, na edição de hoje (08) da Folha
Para quem sabe garimpar em meio ao cascalho do maniqueísmo raso e da egolatria abissal das redes sociais, há muita gente fazendo da sua democracia virtual uma ágora ao melhor estilo da antiga Atenas. Cada um ao seu estilo, é verdade. O do jornalista Tom Cardoso, por exemplo, costuma ser o diálogo satírico, pelo qual confere leveza aos assuntos mais graves.
Foi o caso do pedido de prisão do ex-presidente José Sarney (PMDB), do presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB) e do ex-ministro e senador Romero Jucá (PMDB), por tentativa de obstrução da Lava Jato, feito pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot ao Supremo Tribunal Federal (STF) e vazado hoje pela imprensa, como o jornalista Arnaldo Neto foi o primeiro a divulgar aqui, na blogosfera goitacá.
Na visão irônica do Tom Cardoso, confira os ecos da notícia, aqui e na reprodução abaixo:
Jucá, Sarney e Renan (foto: reprodução)
Sarney, Jucá e Renan chegam à cela:
— Ei, você de bigode: vai dormir perto do “boi”.
— Sarney: eu?
— Não, vovô, o outro. Você cuida da faxina. Por que o senhor veio fantasiado?
— É o meu brasão da ABL. Não sou político, sou escritor.
— Essa é velha, vovô. Aqui todo mundo se diz inocente.
— É sério, tenho 70 livros publicados. Trouxe esse aqui para vocês.
— “O Dono do Mar”?
— Sim, um belo romance.
— Boa vovô, mas aqui o dono sou eu. Comece arrumando meu beliche ali em cima. Cuidado pra não cair.
— Sim senhor.
— Ei, você aí?
— Renan: Eu?
— Sim, tira logo essa peruca vermelha. Tem preso que tem alergia.
Amizade que consome recursos públicos em nome da cultura de Campos: Patrícia Cordeiro e Rosinha Garotinho (reprodução do blog “Eu penso que…”)
Ao falar sobre o Ocupa TB, movimento dos artistas de Campos que obrigou (aqui) o poder público municipal a reformar o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, a coluna “Ponto final”, na edição de hoje da Folha e reproduzida aqui, afirmou sobre a relação entre a prefeita Rosinha Garotinho (PR) e Patrícia Cordeiro, presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), responsável pela cultura de Campos:
— Patrícia não tem intenção ou substância para romper com a política dos shows de pouca qualidade e altos cachês, na prioridade “cultural” dos oito anos de gestão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). Por tragicômico que possa parecer, ter Patrícia ali, para manter as coisas como estão, é uma das poucas coisas que restou a Rosinha dentro do governo Rosinha.
Sem bola de cristal, mas com base na observação por vezes penosa da realidade, esta se confirmou também hoje, no Diário Oficial do município. Nele, como informou aqui o jornalista Alexandre Bastos, foram publicadas novas suplementações determinadas por Rosinha, com recursos da terceira “venda do futuro” de Campos, para agraciar a FCJOL da amiga Patrícia.
Como Bastos informou, com o decreto de hoje, a prefeita Rosinha destinou cerca de R$ 450 mil para eventos. Como o empréstimo vai ser parcelado até 2026, as próximas três gestões vão pagar pela festa.
Show do Milhão – Em três meses a FCJOL contou com suplementações que, somadas, chegam a quase R$ 1 milhão (aqui, aqui, aqui).
“Um passo atrás para dar dois à frente”. Pelo conceito de Vladimir Ilitch Lênin (1870/1924), líder maior da Revolução Russa de 1917, deve ser entendida a decisão dos artistas de Campos em desocupar o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, após 27 dias. Como conta (aqui) a matéria na capa da Folha Dois desta edição, o acordo foi firmado na manhã de ontem (6), numa reunião no Trianon, com a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Patrícia Cordeiro.
As coisas como são
Bem verdade que os artistas só conseguiram agendar a reunião após a intervenção do vereador e pré-candidato governista a prefeito Mauro Silva (PSDB). Como não é mentira que Patrícia não tem intenção ou substância para romper com a política dos shows de pouca qualidade e altos cachês, na prioridade “cultural” dos oito anos de gestão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). Por tragicômico que possa parecer, ter Patrícia ali, para manter as coisas como estão, é uma das poucas coisas que restou a Rosinha dentro do governo Rosinha.
Erros
Prefeito de fato, o secretário de Governo Anthony Garotinho (PR), quando esteve por três vezes (aqui, aqui e aqui) na ocupação do TB, que ele mesmo ocupou em 1982 para se lançar na política, não causou boa impressão — sobretudo ao tentar aplicar sobre os artistas a manjada tática de “dividir para conquistar”. Bem verdade que os artistas também erraram ao pretenderem definir o debate numa pauta de 11 itens (aqui), protocolada na Prefeitura, cujo foco fugiu do TB. Mas, no fim, alguém pode culpar quem se encheu de ouvir Garotinho, sem ser pago para lhe servir de claque?
Salva de palmas
Menos nomes do que fatos, o importante é que a promessa de reabrir o Teatro de Bolso seja cumprida. Não apenas aos que participaram dessa sua última ocupação, ou aos amigos do rei que conquistou sua coroa a partir da ocupação de 34 anos atrás. Segundo o responsável da Planetec Terraplenagem e Pavimentação, que assumiu ontem (6) a tarefa de instalar o novo ar-condicionado do TB, o prazo do trabalho é de 60 dias. Por ora, com um olho do calendário e outro no palco, as mãos ficam livres à salva de palmas devida aos artistas de Campos.
Publicado na coluna “Ponto final”, na edição de hoje (07) da Folha
Dói sofrer abuso sexual. Em tempos de Internet então, nem se fala, pois há dor da exposição pública também. Há quem não sinta nada, nem se importe com o que os outros pensam e sentem, neste caso alguma vítima. Se você é ou já foi vítima dessa violência (des)humana, conhece bem esta dor. Se alguém teve a sorte de não ser (ainda) estuprado, torturado, agredido,constrangido, humilhado e ridicularizado por um ou mais agressores, pelo menos já ouviu falar de alguma história envolvendo pessoas que são submetidas a esta situação de escárnio e vergonha. São mulheres, meninas, adolescentes, jovens e idosas. Mas também há homens, meninos, jovens e adultos que também passam pela agressão de ter o corpo abusado, esfregado, socado, machucado por alguém que tem prazer e satisfação em fazer reféns, por conta de suas perversões e perversidades sexuais.
Em pleno século XXI, os instintos básicos descontrolados por por parte de alguns indivíduos revelam o quão bestial ainda somos. Há quem sofra, mas há muitos que se comprazem, se deliciam com o sofrimento alheio. Queremos detalhes, queremos imagens, queremos fotos, queremos vídeos, queremos testemunhos de quem estupra, de quem é estuprado, de quem investiga denúncias desse crime, queremos todas as novidades possíveis para nos satisfazer. Deixamos de evoluir com saudades das cavernas? A libido ainda é o maior combustível para as relações humanas serem movidas e justificadas? O corpo invadido e tomado sem consentimento é um atentado desolador, devastador, é crime. E crime previsto em leis, mas até que ponto elas funcionam? O estupro é ainda uma das práticas mais comuns, nem sempre veladas por parte da sociedade ou de diferentes culturas e nacionalidades. O estupro tem sido ora fetiche, ora coisa banal na Internet, pois muitas pessoas têm compartilhado de um jeito ou de outro o drama de alguma vítima de violência sexual nas redes, sem se importar ou refletir verdadeiramente sobre o grave problema que é de questão social.
O Brasil e o mundo acompanham pelos noticiários e pelas mídias digitais nas últimas semanas a denúncia sobre a adolescente exposta nas redes sociais que afirmou ter sido violentada por 33 homens em uma favela carioca. Pois é, a Índia também é aqui, além do Haiti. e miséria é miséria em qualquer canto. A maioria de nós já julgou e condenou os envolvidos de algum modo. Alguns especulam que o sexo foi consentido pela garota, outros falam que ela era isso, aquilo e muito além nos termos mais depreciativos e machistas possíveis. É impressionante como muitas mulheres são tratadas com desrespeito quando o assunto é sexo ou prazer sexual. Se elas forem ou não forem recatadas, comportadas, religiosas, legalmente casadas com homens, contidas, o juízo de valor varia para mais ou para menos. Isto depende ainda do tribunal particular de cada acusador e juiz que posta rápida e confortavelmente em seu celular ou computador sentença para punir os outros. O inferno são os outros? Segundo Sartre, a humanidade está condenada a ser livre. Não é a primeira vez que uma notícia sobre estupro feminino ganha as manchetes dos jornais no Brasil e no mundo. Quando acontece, fazem muito barulho, protestam, dizem que vão combater, mas depois da eufórica novidade, o pior é que cai no esquecimento até um novo caso ser revelado e comover as massas. Alguém pode até dizer “que saco, outra história de estupro de mulher” ou “nossa, esses casos de pedofilia já nem dão mais ibope, prefiro ver novelas”. Já ouvi também: “o Brasil e o mundo carecem de orações”. Sim, até concordo, mas acho que estão faltando mais ações, pois a vida tem valido nada.
Vivemos em uma sociedade altamente machista e preconceituosa, mas não devemos esquecer que esse sentimento e essa cultura predominantemente masculinista envolvem também a opinião feminina como formadora. Percebo que muitas mulheres tendem a criticar e a condenar outras mulheres se estas não se enquadrarem em determinados padrões ou conceitos, dando aos homens certos privilégios e concessões. A filha costuma ser mais tolida que o filho, e este ainda conquista muito mais liberdade dentro das famílias que conheço. Tem certas coisas que para “homem pode,”, mas “mulher não pode, não fica bem”. Uma dessas coisas envolvem o sexo. Se muito praticado por eles, é status, prestígio e admiração devido a performances de macho poderoso e viril. Homem têm quer ter pegada, garantem. Entretanto, se elas têm uma vida sexual muito ativa e livre, ser chamada de piranha, safada, puta ou galinha em comentários fechados ou abertos (não esqueçamos a coisa explícita chamada Internet) é fácil, fácil. Já os gays e lésbicas podem ser associados a algum tipo de libertinagem e devassidão pelas mentes mais encaixotadas e preconceituosas. Aliás, preconceito é o que não falta em nossa sociedade online e off line. Tem de todo tipo, gênero, tamanho e cor, além de escrito, filmado, postado e publicado por aí. Preconceito e intolerância andam minando cada vez mais as relações humanas.
Não devemos esquecer que somos criados e educados por mulheres e homens (embora estes ainda não tenham assumido em boa parte, funções com a devida competência no papel de pai educador). Muitas famílias brasileiras são matriarcais e nossas escolas são constituídas em maioria por professoras. Fico curioso para saber como foram educados os 33 homens acusados de estuprar coletivamente a jovem, quais valores e conceitos aprenderam sobre respeito ao próximo, sobre os limites e gestos necessários quando se convive com a mulher, com o velho e com a criança. Culpar as mulheres que os criaram e os educaram é um risco tremendo. Todavia, não seria de todo mal refletirmos como as famílias brasileiras têm se comportado quanto ao cuidado e orientação que dão para seus filhos, independentemente de classe social, escolaridade, etnia ou credo. Sabemos que o Estado tem inúmeras falhas e está praticamente falido; a igreja se esforça, mas não consegue atender as demandas; a escola é outra instituição ameaçada e a saúde pública nem se fala; as polícias e os tribunais de justiça estão sucateados ou sobrecarregados; os parlamentos estão abarrotados de políticos inaptos que fazem leis que pouco servem ou que não servem para nada. Para as famílias sobrará a barbárie? Procura-se um salvador desesperadamente, mas convenhamos, se não nos salvarmos a nós mesmos, dificilmente alguém o fará.
O caso do estupro coletivo nos conduz direta ou indiretamente à posição de juiz ou algoz. Tendemos a condenar tudo e todos de acordo com nossos ânimos mais exaltados e feridos, e nem sempre corretos. Ter uma filha, irmã, mãe ou esposa estuprada é agressivo demais, porém são elas que sabem exatamente o que isto significa. Ser violentado sexualmente, sendo homem ou mulher, criança ou adulto é desafiador, uma ferida exposta difícil de cicatrizar sem marcas. Penso que os criminosos agressores maculam uma das coisas mais belas e prazerosas que é o ato sexual pleno, feito e praticado em comum acordo por aqueles que se amam, se desejam e se permitem. Para o cantor Erasmo Carlos, o sexo é uma das mais sublimes manifestações e materializações de Deus. Há muitos tabus quanto ao corpo, à nudez e à sexualidade. Os dogmas e as tradições religiosas orientam o máximo de cuidados e regras na conduta sexual de homens e mulheres. O que para muitos tem natureza pecaminosa, já para outros é só prazer e diversão, celebração hedonista. Se os textos sagrados oferecem uma vasta lista de condutas e práticas de “boas maneiras”, nossa legislação deixa brechas em muitas ocasiões sobre como tratar do assunto, julgar e condenar os responsáveis por violência sexual. Qual a pena ideal para quem cometer esse tipo de crime? Pena máxima ou a morte sumária? Quem no Brasil obedece às leis?
Em entrevista à jornalista Renta Ceribelli, a vítima do estupro coletivo disse que se sentiu constrangida e humilhada na delegacia onde prestou depoimento com a presença apenas de policiais homens. A repórter perguntou à jovem o que gostaria de dizer para aquelas pessoas que ali estavam para ouvi-la e não para condená-la, e para a sociedade que a criticou pelo estilo de vida que levava, por ser sido mãe aos 13 anos, por frequentar comunidades ou namorar rapazes suspeitos. A resposta foi: “eu espero que eles tenham uma filha”. O desabafo pode não ser consciente e pleno do ponto de vista de uma adolescente de 16 anos, mas parece ser quase uma sentença de martírio ou morte o fato de se nascer em um corpo feminino, que já estaria condenado por natureza ou destino a sofrer todo o tipo de ameaça. Infelizmente, por não querermos ou não sabermos nos colocar no lugar do outro, o mal que nos causam acabamos desejando o mesmo para os nossos opressores. Só que um erro não pode justificar outro erro.
Tornar público um estupro, denunciar alguém que praticou violência sexual é uma tremenda saga, além de correr mais riscos de retaliações e vinganças por parte dos acusados, de seus familiares e apoiadores. Por incrível que pareça, há quem condene a vítima e defenda quem forçou sexo com alguém. Não consigo achar a menor graça de quem faz piada sobre estupro. As redes sociais que alimentaram o vídeo do estupro coletivo também alimentam memes, gracejos e bromas sobre o caso. Enquanto escrevia este texto, eu mesmo recebi uma mensagem via celular sobre o noticiário falar de estupro no café da manhã e no jantar, além da madrugada na televisão, pois estava enchendo o saco essa notícia velha e requentada. Infelizmente, há quem ache pesado demais o tema e prefira fazer gozações humoradas sobre o assunto. Não rio. Sofro quando isso ocorre na rotina diária e também na ficção.
O dramaturgo Nelson Rodrigues escreveu Bonitinha, mas ordinária, obra que ganhou três versões no cinema brasileiro. A mais conhecida talvez seja a do filme dirigido por Braz Chediak, em 1981, e estrelado pela atriz Lucélia Santos. A cena do estupro coletivo é considerada uma das mais desconfortáveis e revoltantes de nosso cinema, posso arriscar. Outro filme perturbador sobre o drama de uma mulher estuprada é o francês Irreversível (2002), de Gaspar Noé, protagonizado pela italiana Monica Belucci. Já o americano Um sonho de liberdade (1995), de Frank Darabont, o personagem do ator Tim Robbins sofre estupros frequentes dentro da prisão (aliás, dizem que as prisões recebem estupradores com o mesmo tipo de tratamento, e não considero esta a melhor solução, se é que existe solução). Nestes três exemplos ficcionais há apenas um retrato mínimo do que passam as vítimas da vida real. Curiosamente, há quem se excite com isso e tenha esse tipo de fantasia sexual, bastante alimentada pela indústria pornográfica e disponível facilmente no primeiro click pela Internet. A tara gera dinheiro e audiência. Não quero e nem posso ser moralista, mas não deixo de questionar sobre o comércio dos corpos nas revistas como a Playboy, que traz Luana Piovanni em um “novo conceito” da histórica publicação; a altíssima exploração da nudez feminina no Carnaval do Brasil; o uso do corpo da mulher nas propagandas de cervejas excessivamente sexistas. Tudo isso me faz pensar qual é a mulher que de fato nos interessa e o que as mulheres querem ser de verdade. Cada um deve ser responsável pelo próprio corpo e fazer dele o que bem entender, mas já com o corpo do outro não temos a mesma autoridade ou liberdade.
E pensar que a maioria dos casos de violência sexual não é denunciada às autoridades, pois os crimes costumam ser cometidos em grande parte entre familiares, vizinhos ou pessoas conhecidas das vítimas. O estupro é um mal silencioso e quase sempre encoberto, seja por vergonha, medo, condenação pública, pressão religiosa ou moral, entre outras razões que só mesmo quem passa pela terrível experiência pode afirmar. Talvez pareça egoísta ou covarde de minha parte, mas eu não desejo ter filhas, nem filhos. Ainda acho este mundo um lugar muito perigoso, cruel, perverso e injusto para colocar em risco algo tão precioso e caro que é a vida de uma criança que deveria se tornar o adulto de melhor caráter e com a mais completa formação possíveis. Toda sociedade e todos os governos deveriam ter como prioridade cuidar do maior bem que dispomos: a vida. Mas sem amor, respeito e consideração, fica bem mais difícil. Para mim, o mundo faz cada vez menos sentido quando achamos coisa normal crimes e violências. Triste.
Numa reunião na manhã de hoje, no Teatro Trianon, entre representantes Ocupa TB e a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patrícia Cordeiro, foi acordada a desocupação temporária do Teatro de Bolso Procópio Ferreira. Após ocuparem o TB desde o último dia 9 (relembre aqui), os artistas aceitaram sair, desde que possam acompanhar e fiscalizar as intervenções do poder público municipal, como a dedetização do prédio (aqui) e a instalação do novo sistema de ar condicionado, cujo serviço já foi publicado (aqui) em Diário Oficial (DO).
Segundo os participantes da ocupação, os problemas estruturais do prédio começaram a se agravar na última quinta (02), quando os ralos começaram a apresentar refluxo. Neste mesmo dia, os artistas tentaram ligar algumas vezes para Patrícia Cordeiro, sem sucesso, mandando depois uma mensagem por whatsapp para o vereador e pré-candidato governista a prefeito Mauro Silva (PSDB), que intermediou (aqui, aqui e aqui) a primeira reunião (aqui) do secretário de Governo Anthony Garotinho (PR) com os artistas, acompanhando-o nas outras duas. Só no dia seguinte ao contato com Mauro, na sexta (03), Patrícia retornou aos artistas, quando o encontro com representantes foi agendado para a segunda (06).
Na segunda reunião entre os artistas e Garotinho, este garantiu (aqui) a reabertura num prazo de 45 dias. Como a promessa foi feita em 13 de maio, o prazo termina no final deste mês. Todavia, o responsável pela empresa Planetec Terraplenagem e Pavimentação, após assumir o serviço hoje, confessou aos artistas que não deve ficar pronto em menos de 60 dias, ampliando o prazo para o começo de agosto. A pauta de 11 itens protocolada (aqui) pelo Ocupa TB, em 17 de maio, junto ao governo Rosinha Garotinho (PR), não foi discutida na reunião entre os artistas e Patrícia Cordeiro.
Abaixo, o texto feito pelos artistas da cidade para comunicar aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, a desocupação do Teatro de Bolso:
COMUNICADO:
Boa tarde, gente.
Estamos arrumando as coisas para suspender a nossa ocupação.
Levamos, hoje de manhã, para a Senhora Patrícia Cordeiro um documento onde nos colocamos como pessoas que acompanharão as obras de manutenção e restauro do ar-condicionado do Teatro de Bolso.
Gostaríamos de dizer que o saldo foi positivo, que teremos o teatro funcionando como deve ser e que as outras demandas estudaremos a partir de agora.
Compreendemos que algumas pessoas não concordaram com o que fizemos, mas precisávamos recuar um pouco e garantirmos a nossa vitória.
Gostaríamos também de agradecer imensamente a todas as pessoas que nos apoiaram levando um pouquinho de conforto, palavras de incentivo e arte durante todos esses 27 dias em que moramos no teatro.
Ocupamos, resistimos, aguentamos, mas não poderíamos deixar esse grito parado no ar.
Estamos negociando. Acordamos isso mesmo sabendo e respeitando a opinião contrária de alguns.
Sejamos valentes e continuemos na luta.
Prazer em estarmos juntos, em sermos muitos.
Gratidão!
ps.: A Assembléia de hoje para tratar da Associação proposta na pauta, será adiada. Em breve marcaremos uma nova data aqui.