Ocupa TB estabelece a pauta da reunião às 22h com Garotinho

“Cadê a pauta?”. Feita e repetida várias vezes, em provocação aos artistas de Campos que ocupam o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, na segunda reunião (aqui) com o Governo Anthony Garotinho (PR), este teve hoje sua resposta por escrito e protocolada junto à Prefeitura de Campos.

Em cima dos 11 pontos estabelecidos pelos artistas, o debate se dará para daqui a pouco, a partir das 22h, no Teatro de Bolso (TB). Quem acabou de confirmar o encontro foi o líder rosáceo na Câmara Municipal, vereador Mauro Silva (PSDB). Além dele e Garotinho, deve participar mais uma vez o vice-prefeito Dr. Chicão (PR), pré-candidato governista a prefeito como Mauro.

Aqui, na página do Ocupa TB e abaixo, a pauta da classe artística ao governo Rosinha Garotinho (PR):

 

Com Garotinho em seu palco de origem, o Teatro de Bolso lotou no último encontro dos artistas com Garotinho e seu estafe, na última sexta (foto de Rodrigo Silveira - Folha da Manhã)
Com Garotinho em seu palco de origem, o Teatro de Bolso lotou no último encontro dos artistas com Garotinho e seu estafe, na última sexta (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

1 – Administração compartilhada, ficando a cargo da Associação‪#‎OcupaTeatroDeBolso‬ a administração artística do Teatro, como pautas, projetos internos e divulgação, através de um contrato de concessão de direito real de uso do espaço. E a cargo da Prefeitura, os serviços de manutenção, limpeza, alvarás de licença, técnicos de luz e som, etc.

2 – Criação de um Fundo do Teatro de Bolso Procópio Ferreira para destinar 1% do IPTU e do ISS para fomentar atividades artísticas do teatro a ser administrado democraticamente pelos artistas.

3 – Até que este fundo seja criado por lei, solicitamos repasse de verba fixa para despesas oriundas da gestão artística do teatro via crédito adicional no Orçamento Público (LOA 2016), no valor de (trinta mil reais)R$ 30.000,00 /mês, conforme contrato que será proposto pelo Coletivo #OcupaTeatroDeBolso.

4 – Que todos anteprojetos de lei apresentados pelos artistas sejam encaminhados à Câmara pelo Gabinete da Prefeita em regime de Urgência.

5 – Destinação 2% do IPTU e ISS para o Fundo Municipal de Cultura (Fundo Geral)

6 – Destinação de 50% da receita dos aluguéis dos equipamentos culturais do município para Fundo Municipal de Cultura — Cepop, Trianon

7 – Reforma e manutenção da parte técnica e estrutura física do teatro permanentemente.

8 – Reativação dos demais aparelhos culturais do Município que encontram-se fechados: Museu Olavo Cardoso, Palácio da Cultura, Solar do Colégio e Casas de Cultura.

9 – Apresentação, no prazo previsto pela Lei Federal de Acesso a Informação do contrato celebrado entre a Prefeitura de Campos e a empresa responsável pela reforma do teatro, já devidamente protocolado no Gabinete da Prefeita.

10 – Presidência Integral do Conselho Municipal de Cultura por um membro da Sociedade Civil.

11 – Criação de uma pasta exclusiva para a Cultura (secretaria de Cultura).

 

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Venâncio pede calma a Pudim em caso de irmãs mortas após HGG

(Montagem de Vitor Marques)
Geraldos Venâncio e Pudim (montagem de Vitor Marques)

 

Aqui, por meio da sua assessoria, o deputado estadual Gerado Pudim (PMDB), também pré-candidato a prefeito de Campos, divulgou que ontem solicitou a investigação do caso da morte das irmãs Ana Vitória Cândido Silva e Joyci Cândido da Silva, respectivamente de 1 e 6 anos de idade, após serem atendidas e liberadas no Hospital Geral de Guarus (HGG) — relembre o caso aqui. O deputado encaminhou pedido de intervenção na Saúde Pública de Campos à Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro, à Chefia de Polícia Civil e à comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

Pois, hoje, a resposta a Pudim por parte do secretário de Saúde de Campos, Geraldo Venâncio, chegou ao blog. Em nome do contraditório, ao qual este “Opiniões” está sempre aberto, sobretudo num caso tão grave, confira abaixo:

 

Joyci e Ana Vitória, mortas na UPA de Campos após serem atendidas e liberadas no HGG (foto: arquivo da família)
Joyci e Ana Vitória, mortas na UPA de Campos após serem atendidas e liberadas no HGG (foto: arquivo da família)

 

— Mais uma vez o deputado Pudim, pré-candidato declarado, que não tem programa de governo nem proposta, tenta fazer críticas à Saúde Pública de Campos. Esse caso das irmãs que faleceram foi uma tragédia. O diagnóstico presuntivo é de meningococcemia. Uma doença extremamente grave, infecciosa e devastadora. Estamos apenas aguardando os laudos da perícia que foi feita para que possamos dar a posição oficial da secretaria de Saúde. Sugiro ao deputado Pudim que se acalme um pouco e aguarde — recomendou Geraldo.

 

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Rede de solidariedade ao Ocupa TB cresce no Rio e nos EUA

Cresce a rede de solidariedade à ocupação do Teatro de Bolso Procópio Ferreira pela classe artística de Campos. Após já ter colhido (aqui e aqui) o apoio de nomes de peso no cenário nacional, como Tonico Pereira e Milton Gonçalves, agora é a vez dos artistas campistas que integram o coletivo cultural Errante, no Rio de Janeiro, e do cantor e bailarino Pericles Emmanuel, radicado há anos nos EUA, também se manifestarem.

Aqui e aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, ou em suas reproduções abaixo, confira o eco do Ocupa TB na voz da galera do Errante e no canto do Pericles:

 

 

 

 

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Cíntia Cristina — Da narração à opinião, a indignação

Não conheci Cíntia Cristina Ribeiro Alcino, 45 anos, professora e bacharel em Direito, que peregrinou 7 horas pela rede  de Sáude Pública, municipal e estadual, e privada de Campos, sem conseguir atendimento devido, até morrer na tarde do último domingo (15). E não preciso!

Aqui, na narração do jornalista da Folha Marcus Pinheiro, o fato. Aqui e abaixo, na opinião do jornalista e blogueiro Fernando Leite, a indignação que, em nome de uma humanidade comum, também tem de ser minha e sua, leitor:

 

 

Cíntia Cristina Ribeiro Alcino (reprodução)
Cíntia Cristina Ribeiro Alcino (reprodução)

 

Que a morte de Cíntia não seja em vão

Por Fernando Leite

 

Chorei enquanto colhia as informações sobre a morte de Cíntia Cristina Ribeiro Alcino, bacharel em Direito, integrante da Ong Orquestrando a Vida, uma pessoa do bem, daquelas que é fácil a gente gostar, amada por sua família e por seus amigos.

Não, não vou chafurdar na lama da demagogia. Ela não merece isso, sua família e seus amigos ainda a estão velando. Mas não posso me limitar ao texto frio, jornalístico, fático, porque nele não cabem o sonho e os planos de alguém que mantinha acesa a crença de uma vida longa e feliz.

Alguém que cumpriu um calvário, lutando pela vida, num Município com orçamento bilionário, encravado numa planície, matriz da maior bacia petrolífera do continente e a menos de 300 quilômetros da cidade maravilhosa, São Sebastião do Rio de Janeiro, capital de um dos estados mais importantes e desenvolvidos do País.

A morte gratuita de Cíntia nos adverte sobre uma verdade cruel: hoje, foi ela e amanhã, pode ser qualquer um de nós.

Sobre nossa fragilidade paira um modelo de atendimento de Saúde necrosado, seletivo, aviltado e que presta-se a dar números à estatísticas eleitorais.

Quando deveria ser universal, racional, detalhista, inclusivo e, sobretudo e sobre todos, MAIS HUMANO.

Mais não demora e assistiremos, pela TV, um Rio do primeiro mundo, com trens pontuais, segurança sob os blindados do Exército, tudo no padrão Olimpíadas. Quando eles querem, eles fazem.

Quanto a nós, bem, podemos continuar a chorar nossos mortos ou erguer a bandeira da indignação civil e construir uma nova forma de cuidar do que é nosso, do que é de todos, como uma Saúde pública decente.

Até, Cíntia.

 

Atualização à 0h48: Aqui, a jornalista Suzy Monteiro foi a primeira na blogosfera goitacá a denunciar o caso.

 

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Vida e obra de Cauby por Savio e Chico

Há pouco, o radialista Savio Gomes enviou seu testemunho da vida e da obra de Cauby Peixoto (1931/2016), morto hoje aos 85 anos, a quem meu pai, ele próprio dotado de afinada voz de baixo, dizia ser o maior cantor do Brasil. Orgulhoso de uma das fonotecas mais completas da planície goitacá, sobretudo do período conhecido como Era do Rádio (no Brasil, entre as décadas de 40 e 50 do século 20), na qual Cauby despontou para o sucesso, segue abaixo o texto sentido do Savio, acompanhado da música que Chico Buarque escreveu ao grande crooner:

 

Cauby em pose de galã nos tempos da Era do Rádio (foto: reprodução)
Cauby em pose de galã nos tempos da Era do Rádio (foto: reprodução)

 

Por Savio Gomes

 

Fiquei sentido com a morte de Cauby Peixoto.

Estou sentido com a morte de Cauby Peixoto.

Ídolo e ícone da Música Popular Brasileira de várias gerações.

Cauby nasceu para a Música com a qual viveu durante 70 anos, sem jamais traí-la, sem jamais haver sido desleal, desigual.

Meus pais o admiravam, minha mãe o conheceu pessoalmente no tempo em que ele iniciava a sua carreira e era conhecido por poucas pessoas. Ele sempre foi amável e parava para conversar com quem o abordasse.

Na matéria da TV que anunciou a sua morte, as pessoas entrevistadas disseram que nestes 8 dias em que esteve internado, mesmo respirando mal, ainda assim cantava para as pessoas no hospital.

Foi para outras paragens o nosso rouxinol Cauby Peixoto, foi juntar-se à Dalva de Oliveira, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Nelson Gonçalves, Elis Regina, Ary Barroso, e tantos outros!

Para o mundo, apagam-se as luzes do cantor Cauby Peixoto, mas renascerá, sempre, em nossos corações.

 

 

 

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Morte de irmãs liberadas do HGG — Pudim aciona MP, Polícia Civil e Alerj

 

Geraldo Pudim (foto de Michele Richa - Folha da Manhã)
Geraldo Pudim (foto de Michele Richa – Folha da Manhã)

 

O deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB), primeiro-secretário da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), protocolou hje (16) três pedidos de providência ao procurador-geral de Justiça, Marfan Martins Vieira, à presidente da comissão de Segurança da Alerj, Martha Rocha, e ao Chefe de Polícia Civil, Fernando Veloso, respectivamente. Os pedidos solicitam intervenção das autoridades e investigação rigorosa no caso da morte das irmãs Ana Vitória Cândido Silva e Joyci Cândido da Silva, após serem atendidas no Hospital Geral de Guarus (HGG), em Campos.

O caso gerou grande comoção na cidade e levantou suspeitas sobre a malversação de medicamentos por agentes de Saúde. “Embora não seja nossa intenção acusar ninguém levianamente, é necessário que todas as suspeitas sejam apuradas com a mais absoluta isenção, seja pelo esclarecimento acerca das reais causas dos óbitos, seja pela identificação do responsável por esta tragédia, caso haja um. A família e a sociedade cobram celeridade e muita correção na elucidação das causas destes trágicos acontecimentos. Eu, como pai de 6 filhos e avô de 4 netos não podia ficar calado diante de um caso desse”, afirmou o parlamentar.

O caso

Na última quarta-feira (11/05), quando a mãe de Ana Vitória e Joice levou as filhas ao Hospital Geral de Guarus (HGG), as duas com apresentando caso de febre.

A mais nova, Ana Vitória, foi atendida primeira.  Após avaliar Ana Vitória a pediatra prescreveu uma injeção de Dipirona e receitou Amoxicilina. Enquanto a mãe, Marinês, estava saindo com o bebê, recebeu uma ligação da escola de Joyci, avisando que a mesma apresentava quadro de febre.  A diretora da escola levou Joyci até o HGG, ao encontro da mãe e da irmã, onde ela foi atendida pela mesma pediatra e tomou mesma injeção que a irmã mais nova. As duas foram liberadas.

No final da tarde, o pai percebeu que Ana estava sem apetite e prostrada, ele e a mãe decidiram levá-la à Unidade de Pronto Atendimento (UPA), no caminho Ana vomitou e deu entrada na unidade com parada cardiorrespiratória. Na UPA, os médicos tentaram reanimar a criança, mas ela veio a óbito.

Enquanto os familiares estavam ainda chocados com a morte de Ana Vitória, receberam a notícia que Joice também estava vomitando e a levaram para a UPA. Apesar dos esforços da equipe médica para reverter o quadro, a criança só piorou, morrendo na madrugada desta quinta-feira (12/05).

 

Fonte: Assessoria do deputado Geraldo Pudim

 

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Artigo do domingo — A espetacular ocupação do Teatro de Bolso de Campos

(Foto do blog “Ocinei escreve”)
(Foto do blog “Ocinei escreve”)

 

Por Ocinei Trindade (*)

 

Brasília pegando fogo com a votação no Senado Federal pela saída de Dilma Rousseff da Presidência da República, o cacete verbal baixando sobre ela, Lula e o PT na tribuna, e em Campos, um grupo de artistas tenta escrever uma página na história política do município também. Desde o dia 9 de maio (aqui), o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, fechado há quase três anos por conta de um ar-condicionado sem reparos, foi ocupado por atores, estudantes, ativistas e artistas em geral. O governo e seus gestores que andam com a popularidade em baixa são confrontados e desafiados. A arte do diálogo pode mesmo revolucionar e transformar atitudes ruins ou equivocadas de um governo?

Entro pela porta lateral do Teatro, converso com alguns ocupantes para saber do movimento. De repente, sai de lá Adeilson Trindade, legendário ator que virou funcionário do TB. Se despede com aquela agitação de sempre para uma reunião no Trianon.  Quando entro, um grupo de artistas muito jovens, desconhecidos por mim em sua maioria, monitoram as redes sociais com postagens sobre a ocupação, uma espécie de relatório em tempo real do que acontece. Elis Regina toca em algum rádio de fundo. Entre os rostos conhecidos, estão os atores Adriana Medeiros, Rosângela Queiroz, Pedro Fagundes e a produtora cultural e ativista Livia Amorim. O clima é tenso, mas duas jovens se revezam ao violão e na percussão na beira do palco, oferecendo uma certa descontração.

Lembrei da primeira vez que entrei no Teatro de Bolso, em 1990. O prédio caía aos pedaços. O lugar não tinha boa fama à época,  território de subversivos, marginais, intelectuais e jovens artistas sonhadores desde o regime militar. Fui para entrevistar João Vicente Alvarenga, diretor lendário de espetáculos na casa, e que futuramente iria assumir cargos de confiança nos governos Garotinho, para mais tarde romper com este, tornando-se um desafeto e crítico. Penso: “o artista e o político são quase sempre incompreendidos, por que será?”. Dizem que Campos é uma cidade de opressão e perseguição. Liberdade de expressão aqui tem seu preço.  Todavia, políticos e artistas têm tanto em comum (interpretam papeis, assumem outras personalidades, ocupam o lugar do outro ficcionalmente, têm como objetivo atingir e convencer o público), que me surpreende quando não há diálogo entre eles.

Faz tanto calor que eu abri os botões da camisa e deixei o peito à mostra. Alguém achou sexy e eu respondo que fui obrigado a ser.  Alexandre Ferram, ator, me cumprimenta. O artista plástico e estudante universitário Victor Santana me convida para uma oficina de arte na parte de cima do prédio. Agradeço, mas estou bem ali sentado na quarta fileira, na cadeira 12, assistindo ao que acontece e puxando pela memória as tantas vezes que entrei naquele teatro. A segunda vez foi em 1991 ou 1992 quando o lugar foi reaberto ao público após uma reforma. Garotinho ou Anthony Matheus era o prefeito. Foi uma era brilhante, entusiasmada e jovial aquele seu primeiro governo. Todos depositavam nele muitas expectativas. Hoje nem tanto, creio. Na reinauguração, o espetáculo de Gianfrancesco Guarnieri, Um grito parado no ar. Diversos grupos teatrais se revezavam nos mesmos papeis a cada cena.  Foi lindo.

Pessoas curiosas com a ocupação entram no Teatro vigiado por alguns guardas municipais e se surpreendem. Acham que o prédio está mal-conservado, sujo e extremamente quente, apesar de alguns ventiladores improvisados e portas e janelas abertas.  É bonito ver os artistas, sobretudo os adolescentes e jovens, fazendo algo que acreditam para mudar uma realidade para melhor. Apesar de tantas crises morais e éticas na política brasileira, eu achava que em um município tão rico como Campos dos Goytacazes merecia estar com sua auto-estima mais elevada com o patrimônio que possui, além de poder contar com pessoas dispostas a colaborar e a realizar projetos nas áreas educacional e cultural. Mas todos se queixam. Se sentem desprestigiados e banidos. Um teatro fechado há três anos tirou o espaço de vários artistas locais, preteridos pelos atores globais que vez ou outra se apresentam no ainda nobre Trianon.

Quem acabou de chegar foi o pintor e artista plástico João de Oliveira, acompanhado da esposa. Lívia Amorim explica sobre a ocupação e as atividades exercidas pelo grupo. Alguns estão se revezando na faxina e retirada de sacos de lixo. Fico pensando quantos talentos Campos possui na literatura, dramaturgia, música, dança, poesia, artes de rua e circo, mas muitos estão escondidos ou desagregados. Fechar o teatro é uma sabotagem, uma afronta, convenhamos. E o dinheiro público previsto para a manutenção desse patrimônio?  Em 1999, o Teatro de Bolso passou por outra reforma. A grande dama Tônia Carrero fez a reinauguração com casa vazia numa noite chuvosa e fria. Outros espetáculos com nomes de expressão nacional foram realizados com a participação do cantor Danilo Caymmi, dos atores Cristina Pereira, Leonardo Vieira, entre outros. Há uns dez anos, entrevistei o genial, icônico e emblemático diretor Amir Haddad que realizou uma oficina para atores no TB. Áureos tempos aqueles. Dizem que a cultura morreu em Campos, mesmo com tanto dinheiro no orçamento bilionário proveniente dos royalties do petróleo (que agora vale cada vez menos). O diretor teatral Fernando Rossi e a pianista e educadora Beth Rocha entram no espaço e cumprimentam os presentes que se espalham na coxia e no palco.

Agora quem chegou foi o vereador Mauro Silva (aqui), além de um representante fardado da Guarda Municipal. Eles escutam dos ocupantes reclamações sobre o tratamento hostil que teriam recebido por parte de alguns guardas que cumpriam a ordem de retirar todos os ativistas do teatro no primeiro dia de ocupação. O chefe da Guarda reage com humor e diplomacia e faz um aceno de desculpas. Mauro Silva traz a mensagem de Garotinho que quer conversar com uma comissão em seu gabinete. Há um pequeno atrito na conversa com integrantes que rejeitam conversa em gabinete fechado. Atrás deles, os atores Thiago Eugênio e Pedro Fagundes passam um texto de uma cena teatral que vão exibir mais tarde. Um deles exclama na interpretação: “canalhas, canalhas, todos são uns canalhas…talvez eles estejam de saco cheio…”. É o teatro. Tudo isto acontece no palco e eu ali assistindo tudo em silêncio. Parece ficção, mas é real. É real, mas parece ficção. Há um intervalo e Mauro Silva me cumprimenta. Peço desculpas por estar de camisa aberta devido ao calor. O gentil vereador não se ofende e comenta: “esse ar-condicionado vai ser consertado, vamos resolver isso…”

Em conversa com Mauro Silva, os ocupantes dizem ter uma pauta para tratar com a prefeita Rosinha ou com o secretário de governo, Garotinho. Lívia Amorim fala que os artistas têm uma série de insatisfações e reivindicações, a começar pela apropriação e utilização do espaço coletivo do teatro. Mauro Silva diz estar disposto a promover a interlocução. Adriana Medeiros disse que a ocupação não é brincadeira e que todos os representantes políticos são bem-vindos para dialogar com os artistas. Ela cita a visita na noite anterior da vereadora Auxiliadora Freitas. Mas todos se queixam da falta de diálogo com a presidente da Fundação Cultural, Patrícia Cordeiro, desaprovam sua gestão e alguns afirmam que ela não têm competência, mas que mesmo assim é mantida no cargo por Rosinha e Garotinho, ex-atores e ex-integrantes de grupos teatrais da cidade. “Cadê Rosinha? Cadê Patrícia?”, perguntam.

As frases vão sendo proferidas e o tom de voz aumenta por parte dos manifestantes: “Este é um ato político sim, mas sem arranjos partidários”; “As pessoas estão se empoderando”; “O governo criou uma barreira com quem é opositor ao governo”; “A arrogância e a elitização prevalecem nos espaços públicos como o Trianon e o Cepop onde são cobrados ingressos caríssimos”; “Carnaval em Campos não acontece há dois anos”; “O projeto cultural de Campos é vergonhoso”; “As pessoas que assumiram o poder se tornaram duras, insensíveis, por quê?”; “Não queremos conversar com os gestores fechados em gabinetes, mas aqui no teatro publicamente”; “Queremos o teatro funcionando a todo vapor”; “Patricia é uma covarde, Rosinha é covarde, Garotinho é covarde”. Os ânimos se exaltam e um impasse se instala. Como resolver?

Em assembleia, os artistas ocupantes reiteram a decisão de não saírem do teatro para conversar com Garotinho em seu gabinete. Telefonemas, discussão interna, nervosismo, algum choro descontrolado acontece devido à pressão das autoridades, mas a palavra é mantida: “Que venha Garotinho, mas que seja de preferência o artista e não o político Garotinho”. Daí, eu penso: mas não são coisas sinônimas?

Tenho fome. Lembro de um chocolate dentro da bolsa. Na embalagem do bombom está escrito; “Surreal”.

Sarau e performances foram programados. Fui embora para casa. Quando chego, tarde da noite, pelas redes sociais fico sabendo que Garotinho apareceu (aquiaqui e aqui) para negociar com os artistas e ouvir suas considerações e reivindicações. Parece ficção, mas é real. Ou melhor, surreal. A vida e arte se imitam e tentam não se limitar. Meu senso crítico está ocupado.

 

(*) Jornalista e poeta

 

Artigo publicado aqui, no blog “Ocinei escreve”, republicado aqui, neste “Opiniões”, e hoje (15) na edição impressa da Folha da Manhã

 

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Rede de apoio à ocupação do Teatro de Bolso cresce fora de Campos

Não foi só o ator campista Tonico Pereira que se solidarizou (aqui) com a ocupação e reabertura do Teatro de Bolso Procópio Ferreira pelos artistas de Campos. A partir da mobilização do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão (Sated), nomes como o diretor José Cisneiro, velho conhecido do TB, além dos atores Milton Gonçalves e Jorge Coutinho também gravaram depoimentos em apoio ao movimento.

Confira abaixo:

 

 

 

 

 

 

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Fabio Bottrel — Convite à Empatia

Quando pela primeira vez adentrei o Cineclube Goitacá, reduto dos intelectuais campistas, senti o sorriso se mostrar no canto da boca sem minha autorização. Havia chegado cedo e vozes excitadas exaltavam pensamentos sobre a peça de teatro Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sentei-me ao lado de Luiz Fernando Sardinha para escutar Marcelo Sampaio, Paulo César Moura e Antonio Luiz Baldan discutir questões existenciais inerentes à sociedade de consumo expostas na dramaturgia de Paulo Pontes, autor da peça escrita em 1962. Logo tiveram a ideia de fazer alguns exercícios teatrais baseados na peça, os quais participei e foi o pontapé para a minha iniciação ao espaço até altas horas da noite com sorrisos carregados de teatro, cinema e observações psicanalíticas de uma vida que vale a pena ser vivida. Além disso, toda minha gratidão é pouca pela honra de apresentar um filme na próxima quarta-feira, dia 18 de maio, no Cineclube Goitacá e aqui estendo o convite a todos, um convite também à empatia.

Lars and The Real Girl, lançado no Brasil em 2007 com o título A Garota Ideal, escrito por Nancy Oliver, roteirista indicada ao Oscar e direção de Craig Gillespie, é um drama disfarçado de comédia e uma aula de construção de personagem. Trata-se de um jovem com graves problemas de sociabilidade ao encontrar uma missionária religiosa, Bianca, que aos poucos extingue as inadaptações sociais, transformando sua vida. Acontece que Bianca é uma boneca de plástico adaptada ao sexo, mas isso a torna menos real? Lars pensa diferente, de fato, só começou a viver após tê-la conhecido. Tal ideia é exposta no início do meu primeiro livro ARC – Academia de Roteiros Cinematográficos, lançado na Escola de Cinema Darcy Ribeiro em 2013 e adaptada a experiência do texto abaixo:

 

a garota ideal

 

A morte marca o renascimento.

Pelo conceito usado na Roma antiga, onde morte significa deixar de estar entre os homens, Lars estava morrendo antes mesmo do corpo padecer. Privar-se do espaço e pessoas norteadoras de sua vida é privar-se da própria existência, pois extinguirá a aparência e o particular por si só não provê realidade. Bianca aparece como um guarda-volumes de todos os seus anseios e uma rota de fuga para quem deseja viver de novo.

Conseguimos sentir empatia por Bianca pelos sentimentos provocados em Lars, pois são comuns a relacionamentos, identificáveis a nós. Essa representação fê-la parecer humana, semelhança que por si contém a diferença (se fosse igual não seria semelhante) dos humanos semelhantes a Deus. Não que exista um divino, mas do conceito de divino cujos mortais conseguem expressar criando fatos imorredouros transcendentes da sua existência. Tal como Deus, alcançam a sua imortalidade. Enquanto os humanos satisfeitos com o que a natureza e vida lhes oferecem, vivem e morrem como animais. Essa ideia defendida por Heráclito, apesar de pouco difundida por filósofos pós-socráticos, teria feito muita diferença se algumas religiões não imbuíssem o ser humano com a ideia da semelhança a Deus pelo simples fato de ter nascido. O que nos preenche de uma cultura resistente e não progressista, possibilitando o homem se eximir de suas próprias ações e culpa, transformando uma nação em conformistas. Uma pessoa imersa em uma cultura resistente ao fazer uma prova e não passar, por exemplo, a causa não é por insuficiência de estudo, devendo maiores esforços para a próxima, foi porque Deus não quis, então ela se conforma. Uma pessoa imersa em uma cultura progressista assume as responsabilidades dos seus atos, analisa, tem ciência da sua falta por não ter estudado o quanto deveria e pensará numa solução para a próxima.

Bianca não podia construir fatos perpetuadores da vida que lhe representariam após sua partida, mas pôde, com ajuda de Lars, dar sentimentos, possíveis somente em detrimento do contexto onde estava inserida. Esses sentimentos assemelham-na aos humanos comuns, uma construção abstrata a dissipar com o tempo, até a morte dos cativados.

Por mais que os dedos cocem para escrever, seria uma pena estragar a parte mais impactante do filme, onde a magia do cinema acontece: o espectador ao perceber que a vida da personagem não é em vão, portanto a dele tampouco. O nome desse sentimento é empatia, mais próximo de “eu sou você” e diferente de simpatia, mais parecida com “eu quero te ajudar”. Simpatia possui compaixão, mas não envolve a paixão da empatia,que nos faz viver as circunstâncias como se estivesse em nossa pele.

Empatia é o que sentimos ao assistirmos um filme e nos comover. O conceito veio justamente da arte, onde o ator, transfigurado, permite à plateia embarcar nessa ilusão como se alguém a tivesse colocado ali, dentro da cena. No entanto, vai além da ilusão, é a emoção gerada pela imagem. Para Freud, empatia é o mecanismo por meio do qual somos capazes de tomar qualquer atitude para outra vida mental. Para Jung é uma projeção a fundir o visualizador do visualizado. Nela descobrimos nós mesmos no objeto de contemplação, diretamente ligado à experiência de vida de cada indivíduo à leitura, discussão de narrativas, pinturas etc. Todas essas experiências contribuem para o discernimento de mundo particular — o qual discernimos o objeto contemplado do todo que ele está incluído — e sentimentos pessoais aflorados de acordo com a vivência de cada um. Sem sentimentos não há empatia, ela é como um radar social nos permitindo entrar na pele do outro, ser o outro sem deixar de sermos nós mesmos.

É imprescindível criar laços de confiança e compreensão com o espectador para ele se entregar à história e se sentir inerte na essência da obra contemplada. É preciso identificar e entender o público-alvo ao qual direciona o roteiro para responder aos seus pensamentos e sentimentos com uma emoção apropriada. E nessa resposta está incluída a verossimilhança. Se numa narrativa é estabelecido que um carro pode voar a 300km/h, é melhor não vermos nenhum carro voando abaixo dessa velocidade sem uma explicação prévia.Se isso acontece nos sentimos trapaceados e perdemos a confiança em quem nos conta a história. Em um roteiro estabelecemos regras que compõem a verossimilhança do mundo criado, nelas está o vínculo com o público. Quebrar essas regras significa cortar os vínculos com a plateia.

Determinadas imagens nos provocam fortes sentimentos mesmo isoladas do contexto da obra. Mas nunca isoladas da nossa percepção de mundo, que por si só contextualiza automaticamente — embasada nas nossas experiências e vivências — as imagens contempladas. Desse modo, conseguimos identificar as emoções em rostos sorrindo, chorando, nervoso etc.

Pegue a foto de uma pobre senhora com as roupas esfarrapadas, moradora de rua, sentada à beira de uma calçada pedindo esmola como exemplo. Nosso cérebro conecta automaticamente a senhora da foto a alguma história triste ou pessoa similar que tenhamos passado pela rua. Percebemos a pobre velhinha à espera de ajuda com algumas moedas, e isso nos indica a possibilidade de fome, frio, dentre outras coisas. A gama de sentimentos ao contemplarmos a figura deriva do contexto da narrativa criada mentalmente, amparada pelas nossas experiências de vida similares, bem como o entendimento do que se passa com a pessoa na fotografia. A intensidade dos sentimentos depende da intensidade de nossas vivências.

Algumas imagens têm a capacidade de levar a sentimentos extremos pelo simples fato da perspectiva, isso acontece ao ver algum filme cujo personagem está prestes a cair de uma grande altura e a câmera nos permite visualizar do ponto de vista do personagem, como em Um Corpo que Cai de Hitchcock.Se adicionarmos uma qualidade essas imagens concretizam um drama por si só, como o homem à beira do precipício ser cego ou a pessoa em cima dos trilhos de um trem prestes a passar em alta velocidade é um bebê.

Empatia ocorre quando suspendemos nosso único foco de atenção e adotamos um duplo foco de atenção, essa habilidade permite identificar o sentimento ou pensamento de outra pessoa. E dessa habilidade surge a capacidade de fazer o outro se sentir valioso, pois a resposta fará com que ele sinta seus anseios escutados, reconhecidos e respeitados. Empatia permite fazer bons amigos.Suspender o único foco de atenção significa deixarmos de pensar somente em nossos próprios interesses e analisarmos os sentimentos e emoções de outra pessoa, ao mesmo tempo que fazemos isso com os nossos.

Enfim, gostaria muito de te encontrar quarta-feira às 19h no Cineclube Goitacá para conversarmos mais!

Entrada franca.

 

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Confuso entre oprimido e opressor, Garotinho atribui a Aluysio texto de Bastos

Não sem algum constrangimento, confesso: não ouço a rádio de propriedade do ex-governador, ex-prefeito, ex-deputado, ex-candidato à presidência da República e atual secretário de Governo de Campos, Anthony Garotinho (PR). Mas um amigo, militante na cultura e educação da cidade, me ligou há pouco para dizer que fui honrado pela menção do meu nome por Garotinho, em seu programa de rádio aos sábados. Todavia, parece que o secretário o fez para me atribuir o texto do “Ponto final” da última quinta-feira, dia 12.

Agradeço a Garotinho pela leitura da coluna de opinião da Folha, mas sou forçado a uma pequena retificação: embora tivesse orgulho se fosse, o texto não é meu, mas do jornalista Alexandre Bastos. Não por outro motivo, ele o reproduziu aqui, no seu blog, em assinatura velada. Para quem ainda não leu ou queira reler, no eco do marido e secretário da prefeita Rosinha Garotinho (PR) em suas confusões entre oprimido e opressor, segue abaixo a análise do papel estrelado por este na ocupação do Teatro de Bolso Procópio Ferreira (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui) pelos artistas de Campos:

 

Ponto final

 

Papéis invertidos (I)

Mais de 30 anos após ocupar o Teatro de Bolso como vice-presidente da Associação Regional de Teatro Amador (Arta), o secretário de Governo Anthony Garotinho (PR) viu os papéis se inverterem. Se na década de 80 ele estava ao lado dos oprimidos, dessa vez ele é apontado como o opressor. Ciente da repercussão da ocupação por parte dos artistas locais, com apoio de nomes nacionais como o ator Tonico Pereira (aqui), Garotinho chamou para si a responsabilidade e foi ao espaço dialogar (aqui e aqui) em nome da prefeita Rosinha.

 

Papéis invertidos (II)

Como a Folha Dois informa em sua capa desta quinta-feira (aqui), o vereador Mauro Silva (PSDB) esteve ontem no Teatro de Bolso e dialogou com o grupo que ocupa o espaço. Líder do governo na Câmara de Campos, Mauro tentou (aqui) levar os artistas ao encontro de Garotinho, mas eles disseram (aqui) que esperavam pelo secretário no Teatro. Horas depois, Mauro chegou (aqui) ao teatro ao lado de Garotinho e do vice-prefeito Chicão Oliveira (PR).

 

Alma desarmada

Alegando estar com a “alma desarmada”, Garotinho contou histórias sobre o seu início no teatro e falou sobre o seu encontro com Rosinha, quando os dois frequentavam grupos teatrais diferentes. Ao ouvir alguém dizer que ele “foi ator”, Garotinho rebateu, com bom humor: “Não fui, ainda sou ator”. Ciente das deficiências da política cultural do município, ele deixou de lado o seu personagem agressivo e entrou em cena como o Garotinho Paz e Amor.

 

Qual será a solução?

Após dizer que acha o “movimento bonito”, Anthony Garotinho afirmou que o seu objetivo não era estimular o fim da ocupação, mas a busca por uma solução. Ele prometeu manter o diálogo e solicitou uma pauta de ação, com a possibilidade do grupo assumir a administração do teatro em uma gestão compartilhada. Hoje, às 22h, haverá mais uma reunião no teatro para avaliar a pauta de reivindicações.

 

Dividir para reinar

Mesmo com o seu personagem mais tranquilo, Garotinho não abandonou os seus instintos primitivos. Ao detectar artistas com personalidades fortes, ele passou a tentar dividir o grupo. “Tem gente que quer solucionar, outros pretendem apenas confrontar”. É a velha tática: dividir para reinar.

 

Patrícia na mira

A presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patrícia Cordeiro, foi alvo de diversas críticas dos artistas que ocupam o Teatro de Bolso. Alegam falta de diálogo, desinteresse por ações culturais e foco apenas no entretenimento e gastança com shows. Muitos artistas chegaram a cobrar a exoneração de Patrícia. Neste momento, Garotinho afirmou que não gostaria de “falar sobre pessoas” e deixou essa pauta para a noite de hoje.

 

“Você é o nosso exemplo”

Um dos atores disse que o jovem Garotinho de 1982, que lutou contra os poderosos e liderou a ocupação do Teatro de Bolso, serve como um exemplo para os artistas locais que cobram mais dignidade. No mesmo palco em que encenou e dirigiu muitas peças, o Garotinho de 2016, já grisalho, parecia refletir sobre a grande ironia do destino, como na dramaturgia dos antigos gregos que deu origem ao teatro. Resta saber se como comédia, ou tragédia.

 

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