A Associated Press acabou de oficializar o que o blog havia adiantado (confira aqui) desde o início da manhã de ontem: Joe Biden foi eleito como 46º presidente dos EUA. Ele venceu o atual presidente Donald Trump tanto no voto popular, quanto no que vale: o do colégio eleitoral dos estados. O que decretou a oficialização foi o estado da Pensilvânia, onde Biden nasceu e bateu Trump por 49,7% a 49,2% do voto popular. Com isso o democrata levou os 20 delegados do estado, somando 284 — 14 a mais que os 270 necessários para definir o ocupante da Casa Branca, a partir de 20 de janeiro de 2021. A vantagem de Biden, no entanto, deve chegar ainda a 306 votos no colégio eleitoral, confirmadas suas vitórias também nos estados da Geórgia (16 delegados) e de Nevada (6 delegados).
America, I’m honored that you have chosen me to lead our great country.
The work ahead of us will be hard, but I promise you this: I will be a President for all Americans — whether you voted for me or not.
— (Estados Unidos da) América, eu estou honrado por você ter me escolhido como líder do nosso grande país. O trabalho à nossa frente será duro, mas eu prometo: serei um presidente para todos os americanos, tenham vocês votado em mim ou não. Com o fim da campanha, é hora de colocar a raiva e a retórica dura para trás e nos unir como uma nação. É a hora de se unir e se de curar. Somos os Estados Unidos da América. E não há nada que não possamos fazer, se fizermos isso juntos — declarou Biden no Twitter sobre a sua vitória, pregando a união de um país dividido nas urnas. Após ser eleito em 1972 como o senador mais jovem dos EUA, aos 29 anos, ele foi confirmado hoje como o presidente mais velho a ser eleito no país. Tem atualmente 77 anos e assumirá a democracia mais longeva do mundo aos 78, após aniversariar no próximo dia 20.
Joe Biden e sua vice, Kamala Harris (Foto: Twitter)
Político moderado em seus 47 anos de vida pública, oito deles como vice-presidente dos dois mandatos de Barack Obama, Biden conseguiu a candidatura após comandar a maior virada da história (relembre aqui) nas convenções do Partido Democrata, onde bateu o socialista Bernie Sanders. Com a confirmação oficial da sua vitória hoje, ele traz na chapa eleita outra novidade: a primeira mulher e primeira negra a ser eleita vice-presidente, Kamala Harris, ex-senadora pela Califórnia, estado em que já tinha atuado como promotora de Justiça.
Derrotado, Donald Trump é o primeiro presidente dos EUA a não conseguir se reeleger desde 1992, quando o também presidente republicano George Bush foi derrotado pelo democrata Bill Clinton. Sem apresentar uma única prova, o atual presidente vem denunciando “fraude” desde antes do pleito de 3 de novembro. Na quinta (05), já ciente da vitória de Biden nas urnas, Trump voltou a denunciar (relembre aqui) “fraude” sem provas. Sem precedente na história dos EUA, mas que deve servir como padrão à mídia do mundo, o pronunciamento presidencial teve a transmissão interrompida pelas principais redes de TV, por conta da divulgação de informações falsas. Assim como vem acontecendo as postagens de Trump no Twitter. Ainda assim, promete recorrer à Suprema Corte contra sua ordem de despejo da Casa Branca emitida pela vontade popular.
Ernesto Araújo, Jair Bolsonaro e Ricardo Salles, emparedados pela derrota de Donald Trump
Com as apostas encerradas sobre o novo presidente dos EUA, outras serão abertas do lado de cá do Equador. Quais serão os reflexos da derrota do trumpismo ao Brasil de Jair Bolsonaro (sem partido)? E quanto tempo mais durarão nos cargos seus ministros Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente? O primeiro se referia a Trump como “enviado de Deus” para salvar o Ocidente. Já Salles é considerado o principal responsável pelas queimadas na Amazônia, criticadas por Biden no debate presidencial de 29 de setembro. Por sua vez, Bolsonaro endossou publicamente as denúncias de “fraude” sem provas de Trump, a quem tem como ídolo. Cujos pés de barro foram erodidos pela democracia, deixando orfã a extrema-direita do mundo.
Fotos de Trump com o bordão “You’re fired!” (“Você está demitido!”) do talk-show de sucesso que ele comandou na TV antes de se eleger presidente em 2016, viralizaram nas redes sociais dos EUA, do Brasil e do mundo, desde a oficialização da sua derrota nas urnas para Joe Biden
Enquanto as dúvidas se instalam no governo Bolsonaro com a derrota de Trump, outras autoridades da República tomaram a frente do Palácio do Planato para saudar a vitória do novo presidente dos EUA e da democracia, com recados velados a Brasil:
— A vitória de @JoeBiden restaura os valores da democracia verdadeiramente liberal, que preza pelos direitos humanos, individuais e das minorias. Parabenizo o presidente eleito e, em nome da Câmara dos Deputados, reforço os laços de amizade e cooperação entre as duas nações — twitou o presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ).
A vitória de @JoeBiden restaura os valores da democracia verdadeiramente liberal, que preza pelos direitos humanos, individuais e das minorias. Parabenizo o presidente eleito e, em nome da Câmara dos Deputados, reforço os laços de amizade e cooperação entre as duas nações.
— Democracia significa eleições limpas, alternância no poder e respeito aos resultados. E, também, civilidade. Cumprimento Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos, e a vice Kamala Harris, primeira mulher eleita para a função no país — disse também no Twitter o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso.
Democracia significa eleições limpas, alternância no poder e respeito aos resultados. E, também, civilidade. Cumprimento Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos, e a vice Kamala Harris, primeira mulher eleita para a função no país.
Joe Biden espera apenas a confimação oficial da sua viória eleitoral sobre Donald Trump na disputa à presidência dos EUA (Montagem: The Wall Street Journal)
Embora hoje dispute com a China a posição de economia hegemônica no mundo, a atenção que a humanidade dedica desde terça (03) às eleições presidenciais dos EUA evidencia a nação que ainda é sua maior referência. No Brasil e em Campos, não foi diferente. E a atenção foi reforçada pelo suspense da apuração lenta da única democracia que elege seus governos há mais de 230 anos. Isto e o fato do seu atual presidente, Donald Trump, ser capaz de atacar essa mesma democracia por não aceitar a ordem de despejo da Casa Branca emitida pelas urnas, inventando “fraudes” e prometendo levar a questão à Suprema Corte dos seu país. Além da celeuma, o que o Brasil governado pelo trumpista Jair Bolsonaro (sem partido) pode esperar dos EUA governados pelo democrata Joe Biden? E, em especial, o Estado do Rio e Campos? Em busca de respostas, a Folha fez perguntas ao advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ao cientista político Hamilton Garcia e à socióloga e advogada Sana Gimenes, professores, respectivamente, da Uerj e Isecensa, da Uenf, e da Uniflu e Candido Mendes.
Professores Carlos Alexandre de Azevedo Campos, advogado; Hamilton Garcia, cientista político; e Sana Gimenes, socióloga e advogada (Montagem: Elaibe de Souza, o Cássio Jr.)
Folha da Manhã – Após a vitória nos estados da Flórida e no Texas na eleição presidencial dos EUA, o mundo que foi dormir na madrugada de quarta (04) com a perspectiva da vitória de Donald Trump, acordou no final da manhã do mesmo dia com as esperanças acesas para Joe Biden, após a conquista do estados do Arizona e da liderança em Nevada, além da virada em Winsconsin e Michigan. Que se confirmariam na sexta com as viradas democratas também na Geórgia e na Pensilvânia? Foram muitas emoções? O que esperar pela razão?
Carlos Alexandre de Azevedo Campos – Sim, anseio pela derrota de Trump. Essa resposta inicial é sintomática: menos do que a vitória de Biden, me alegra o significado do que seja a derrota de Trump. Tenho o dever da sinceridade intelectual em minhas respostas. Daí essa resposta inicial. Vale para o resto de minhas respostas. Porém, por conta dos números, e por conhecer um pouco, por pesquisa, da prática estadunidense de votar, não dormi com a vitória de Trump, e sim com a esperança, sem certeza, da virada de Biden. Por acreditar na razão dos americanos, hora nenhuma dei como marcada a vitória de Trump.
Hamilton Garcia – No contexto de uma sociedade dividida e polarizada, como os EUA deste século, das seis eleições realizadas, somente duas foram resolvidas com folga maior que 3,8%: as que sagraram Barack Obama. É de se esperar eleições disputadas urna a urna e, sob o trumpismo, com muita retórica e algum tensionamento.
Sana Gimenes – Certamente foram muitas emoções e também muita incredulidade diante do fato de que uma das maiores democracias do mundo tenha um sistema eleitoral tão complexo e, ao mesmo tempo, arcaico. Simbolicamente, faz todo o sentido que as eleições talvez se definam pelo Estado das grandes, e arriscadas, apostas que é Nevada. Pelo lado da razão, o resultado vai ser muito apertado, mas acho que com o atual cenário já dá para acreditar na vitória dos democratas.
Suprema Corte dos EUA
Folha – Desde antes da eleição, Trump alegava fraude. E declarou que vai questionar o resultado da eleição até a Suprema Corte, onde garantiu maioria conservadora. O motivo é o voto pelos correios, que existem nos EUA desde a Guerra de Secessão (1861/1865). Os democratas também recorreram à Suprema Corte em 2000, mas não conseguiram reverter a derrota de Al Gore para George W. Bush. Dá para esperar resultado diferente agora?
Carlos Alexandre – Em meu primeiro livro, que foi acerca do ativismo judicial, dediquei um capítulo só para os Estados Unidos, e um espaço grande para a decisão Bush vs. Gore (Bush vs. Gore, 531 U.S. 98 [2000]). A doutrina majoritária chama a decisão, que favoreceu Bush, de partidária, portanto, ilegítima. Não concluí dessa forma. Nas eleições de 2000, houve um impasse na contagem de votos na Flórida, haja vista a primeira apuração ter apontado vitória de Bush, por uma margem menor que 0,5%. Essa margem ínfima, segundo a legislação estadual, autoriza a recontagem manual dos votos. Al Gore pediu essa recontagem nos municípios que normalmente votavam com os Democratas, e à medida que a recontagem ocorria, a margem de vitória de Bush era ainda mais reduzida, com tendência ao final de ser revertida. O problema era que o prazo legal de anúncio do resultado iria expirar. A Suprema Corte da Flórida autorizou que esse prazo fosse estendido. E foi acusada por muitos de praticar ativismo judicial. Mas a Suprema Corte suspendeu a decisão, paralisando a recontagem. Com isso, a Suprema Corte decretou a vitória de Bush. E foi acusada de praticar ativismo judicial. Prazos, por segurança jurídica, deveriam ser respeitados. Hoje, a Suprema Corte ainda tem uma “maioria republicana”. Mas um democrata, Biden, está à frente. Será que a Corte terá o capital institucional para afirmar uma “suposta fraude” para, manifestamente, reverter a eleição em favor de um republicano? Não há base para tanto, e a mesma segurança jurídica que norteou Bush vs. Gore deve hoje iluminar a Corte para sacramentar a derrota do desespero infundado de Trump. É o que se espera do Tribunal Superior mais respeitado do mundo.
Hamilton – Nos EUA, a contestação eleitoral passa pelo sistema judiciário normal, de longa tradição, de modo que é de se esperar que hajam provas para se invalidar votos, o que pode atrasar a proclamação do resultado, mas não deve embaralhar o jogo como se tem especulado.
Sana – Não acredito que a Suprema Corte vá reverter o resultado, seja ele qual for, não apenas porque não me parece haver lastro jurídico para tanto, mas também porque no atual nível de polarização em que a nação se encontra isso seria como apagar um incêndio com querosene e poderia ameaçar a estabilidade institucional de um país que, historicamente, respeita as instituições. Apesar das divisões internas, creio que haveria até algum consenso dentro do Partido Republicano contra alegações totalmente infundadas de fraude que apenas satisfazem ao ego infantil e autoritário de Trump.
Donald Trump e Jair Bolsonaro (Foto: Jim Watson – AFP)
Folha – A alegação de fraude de Trump foi ecoada publicamente pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (sem partido). Após ele ter tentado se meter e contribuir na eleição da Argentina e contribuir para a derrota de Mauricio Macri, a quem apoiou, o que o Brasil tem a ganhar com a nova tentativa de interferência? E a perder, com a vitória de Biden?
Carlos Alexandre – Acho, com toda a sinceridade, que Bolsonaro não é um personagem relevante no cenário internacional. Ele não é levado à sério como liderança, ainda mais considerado o seu ministro das Relações Exteriores. Para mim, a sua opinião é nula sobre a eleição discutida. Não obstante, acredito que Biden é inteligente, e, como os Democratas, de todo sempre, não são os radicais que Trump e sua “trupe” pintam, vai abrir o diálogo com nosso presidente. Bolsonaro, que só pensa em reeleição, não vai se fechar ao diálogo com o mais importante país do mundo. Mudança, se vier, só vai ser simbólica para os radicais e cegos bolsonaristas.
Hamilton – Nada a ganhar: só demonstra o despreparo do atual presidente brasileiro, incapaz de entender um sistema jurídico-político de aparência similar ao nosso, mas radicalmente distinto em seu “espírito”, baseado num individualismo autonomista estranho à nossa tradição do favor/dependência. A possível vitória de Biden deve desestabilizar a política de alinhamento automático com os EUA, inaugurado no governo Bolsonaro, reforçando as vertentes soberanistas majoritárias em nossas elites, inclusive militares.
Sana – O Brasil não tem nada a ganhar com essa interferência, mesmo no caso de uma vitória de Trump. O presidente dos EUA já deixou bem claro, em mais de um episódio, que o “viralatismo” de Bolsonaro só serve, e quando serve, para a concessão de migalhas que em nada alteraram nossa posição geopolítica. Muito ao contrário. Quanto a uma vitória de Biden, isso enfraquece a pessoa do presidente brasileiro e, consequentemente, a sua governabilidade, mas não creio que isso atinja, a princípio, o Brasil enquanto nação, a não ser que Bolsonaro resolva assumir uma postura ainda mais radical, e kamikaze, e se alinhe de forma claramente contrária aos EUA.
Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente, têm cabeças a prêmio com a vitória de Biden (Foto: Arthur Max – AIG – MRE)
Folha – Depois das declarações de Bolsonaro em apoio às teorias da conspiração de Trump, o vice-presidente brasileiro Hamilton Mourão tentou consertar as coisas. Antes da eleição presidencial dos EUA, analistas diziam que, em caso de vitória de Biden, dois ministros olavistas do governo brasileiro estariam com os dias contados: Ricardo Salles, no Meio Ambiente, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores. Como você projeta?
Carlos Alexandre – Essa pergunta é excelente, e só reflete a sensibilidade intelectual do entrevistador. Penso que, para manter boa relação com a maior nação do mundo, faz-se necessário se livrar de imbecis em posições estratégicas de decisão. Os dois ministros citados já demonstraram estar na contramão do que o mundo relevante pensa, sem grande oposição dos Estados Unidos. Agora terão essa oposição, sem dúvidas. Bolsonaro, que já se mostrou pragmaticamente infiel, não terá saída, senão se livrar desses pesos. É uma questão de pragmatismo, sem culpa com o eleitorado doentio.
Hamilton – O filoamericanismo e, mais recentemente, o negacionismo ambiental têm tido dificuldades de aceitação no país devido a vários fatores, o mais notável deles a ortodoxia ideológica que os sustenta e é estranha à nossa cultura. O ministro Araújo, um intelectual preparado, embora desprezado pelas elites acadêmicas, tem sua ascensão na carreira ligada ao bolsonarismo, de modo que deve se adaptar às oscilações táticas exigidas pela política externa. Já o ministro Salles, com problemas na Justiça e suplantado pelo vice Mourão na questão amazônica, parece menos capaz de sobreviver à pressão que está por vir.
Sana – Faz sentido na medida em que estamos falando de um país da magnitude dos Estados Unidos e, independentemente do alinhamento ideológico entre Bolsonaro e Biden, esses ministros dificultariam ainda mais o diálogo entre as duas nações. Por outro lado, é bom lembrar que Bolsonaro vem sistematicamente atacando a China, a despeito da importância que essa relação tem para o Brasil. O problema de governantes bufões como Bolsonaro, ou o próprio Trump, é justamente esse: não dá para esperar razoabilidade.
Incêndio na Amazônia em 2020 (Foto: Mario Tama – Getty Images)
Folha – No debate presidencial de 29 de setembro, Biden chegou a criticar os incêndios criminosos na Amazônia. Que já tinham gerado pesadas críticas de uma Europa com sua cena política cada vez mais dominada pelos Partidos Verdes. Isso sem contar o desgaste brasileiro com a China, de quem Bolsonaro se recusa a comprar as vacinas contra a Covid-19, desenvolvida com o Butantan. Sem Trump no poder, o Brasil vira um pária internacional?
Carlos Alexandre – Bolsonaro perde o seu aliado negacionista mais importante. Na verdade, para o mundo, mais do que um aliado, perde sua base de legitimação. Em relação à Covid, sem Trump, Bolsonaro vira para o mundo aquilo que ele é, para muitos brasileiros como eu: uma piada de mau gosto. E isso porque, para agradar seus eleitores sensacionalistas e nacionalistas, ele sempre insistiu que a crise sanitária fosse uma invenção, talvez uma armadilha dos imaginários “inimigos da esquerda”. Espero que a sua hora de enfrentar a verdade também chegue.
Hamilton – Não, uma nação-pária tem que ter um histórico significativo de maus-feitos à sociedade e ao mundo, o que está longe de ser nosso caso. O que temos é um governo isolado internacionalmente, mas os governos passam.
Sana – Não acho que chegue a esse extremo, mas, de fato, o país ficaria cada vez mais isolado no cenário internacional. De todo modo, isso também faria com que setores menos extremistas da própria base aliada do governo pressionassem Bolsonaro para que determinadas políticas, como a ambiental, por exemplo, fossem revistas. Já vimos isso acontecer antes.
Viktor Órban e Andrzej Duda, presidentes da Hungria e da Polônia, são a extrema-direita no poder que restou a Bolsonaro no mundo, após a derrota de Trump nos EUA
Folha – A eleição presidencial dos EUA foi e é apontada como a mais importante em décadas, pela capacidade de determinar os rumos do mundo. Como analisa isso e o fato dela ter gerado tanto interesse entre os brasileiros? Consumada a derrota de Trump, restará ao Brasil de Bolsonaro o diálogo só com a extrema-direita no poder na Hungria e na Polônia, países menos importantes da Europa?
Carlos Alexandre – É importante, como foi e sempre será, para o Brasil e para o mundo, porque os Estados Unidos são a mais importante nação do mundo, sob todos os aspectos. Porém, considerada a aliança conservadora entre Trump e Bolsonaro, o resultado ganhou cores mais fortes entre nós. Bolsonaro é, para o terror e amnésia de seus idólatras, muito mais pragmático do que fiel às suas bravatas de eleição. Não é liberal, e seu conservadorismo extremo vai até a página dois, ou até as manchetes de carnaval, se isso lhe convier. Não vai se isolar com países desimportantes, considerado o cenário internacional, se isso vier a atrapalhar sua agenda econômica.
Hamilton – O rumo do mundo está sendo definido pela reemergência da Ásia, iniciada pelo Japão e depois engrossada pelos “tigres” e, a seguir, pela China. A ascensão chinesa tem um peso inédito, dado o tamanho de sua população, a tradição de nação fechada ao mundo e ao fato de ser uma potência dirigida por um partido único, comunista, uma combinação desafiadora em termos geopolíticos para as potências ocidentais. A China não precisa fazer muito para se consolidar como potência hegemônica: basta refrear seu ímpeto territorialista, no Sul asiático, até que as contradições inerentes às civilizações decadentes cimentem o caminho de uma nova ordem mundial onde seu poderio econômico passe a dar as cartas, com os desdobramentos militares costumeiros.
Sana – As eleições dos EUA sempre despertaram interesse no resto do mundo em razão da influência internacional que esse país tem. Nessa eleição presidencial, porém, estão à prova dois fenômenos globalmente observados nos últimos anos: a popularidade de políticos que negam a lógica e o decoro da política tradicional, sob a alegação de que seriam mais honestos e eficientes, e também a ascensão de um discurso de extrema-direita que prega a intolerância e a desigualdade. Consumada a derrota de Trump, veremos que esses dois fenômenos, apesar de barulhentos, mostraram muito precocemente os seus sérios limites até para os seus eleitores. Restará a Bolsonaro baixar o tom ou se alinhar com os países mencionados, mas essa segunda opção certamente traria ainda mais dificuldades para o seu governo.
Complexa cédula de votação, com várias escolhas além de presidente, usada para votar nos Correios dos EUA no estado da Carolina do Norte (Foto: Foto: Jonathan Drake – Reuters)
Folha – O interesse dos brasileiros gerou comparações do processo eleitoral dos EUA, com apuração lenta pelos votos em cédula de papel e do complexo sistema do colégio eleitoral, com o nosso, com urnas eletrônicas e que define o presidente pelo voto direto do cidadão. Como avalia essa comparação? Sobretudo com a possibilidade de questionamento das urnas no Judiciário, faz falta aos EUA a existência de uma Justiça Eleitoral?
Carlos Alexandre – Não faz falta. Isso é cultura institucional. Até porque, lá não são definidos apenas cargos de governo. As eleições, que são comandas pelos Estados, não envolvem apenas representantes de governo, mas vários plebiscitos sobre questões morais e políticas cruciais, como aborto, armas, drogas, casamento gay, etc. É impossível a comparação. No mais, o Colégio Eleitoral é uma prática secular que sempre foi aceita como a mais democrática, sem grandes questionamentos internos. Discussões existiram, inclusive na Suprema Corte, sobre o peso do voto em cada distrito eleitoral, mas nunca sobre o método da eleição.
Hamilton – A democracia americana é incomparavelmente melhor e mais sólida que a nossa. Não só pela perenidade de suas instituições, a Constituição deles data da fundação da nação em 1787, numa guerra independentista, enquanto nós tivemos sete delas desde nossa fundação como Estado, em 1822, a partir da cisão da Coroa lusitana. Mas tamém pelo fato dessas insituições derivarem da rica e dramática experiência de um povo majoritariamente livre, o que lhes permitiu sobreviver a uma guerra civil. A vantagem advinda de nosso vanguardismo no voto eletrônico, não nos iludamos, é fruto da corrupção endêmica que existe até hoje e nos impede, por exemplo, de votar pelo correio, o que constitui um nítido e singelo sinal de elevada cidadania.
Sana – O sistema eleitoral dos EUA não faz jus à sua democracia. São inúmeros problemas como: a inexistência de normas eleitorais unificadas em nível nacional, a sub-representação dos Estados mais populosos da Federação, além do próprio modelo de votação majoritariamente por cédulas em uma nação de dimensões continentais. Temos um sistema que também pode ter falhas, mas está muito mais próximo da compreensão popular, que é o cerne da própria democracia, além de ser modernamente operado através de urnas eletrônicas e efetivado por meio de uma estrutura jurídica própria.
Vala comum aberta para enterrar os mortos da Covid na ilha Hart, em Nova York (Foto: Lucas Jackson – Reuters)
Folha – Parece ser consenso que, mais do que Biden, foi a atuação desastrosa de Trump no enfrentamento dos EUA à pandemia da Covid-19 que definiu a eleição presidencial deles. Concorda? E, com atuação igualmente questionada na condução da crise sanitária do novo coronavírus, por que esse mesmo desgaste popular não se deu também com Bolsonaro?
Carlos Alexandre – Concordo que o negacionismo prejudicou Trump em sua reeleição. Porém, discordo que o mesmo negacionismo não tenha prejudicado a credibilidade eleitoral de Bolsonaro. E isso porque, descontando os afetados pelo bolsonarismo extremo, ainda acredito no bom senso, no sentido do ridículo dos brasileiros. Bolsonaro ainda pagará a sua conta.
Hamilton – Trump jogou fora a segurança de sua reeleição porque não tinha como “emparedar” o vírus, precisando fazer algo além da espetacularidade com a qual governou até então. Já Bolsonaro é incapaz até mesmo de qualquer espetacularidade; não só porque pilota um Estado geopoliticamente fraco e economicamente falido, mas, sobretudo, por ter uma dimensão baixo-clericalista do poder, forjada no varejo das “rachadinhas” e nos subterrâneos da corporação onde se formou.
Sana – O posicionamento anti-Trump vem crescendo. Ele reúne, inclusive, alas do próprio Partido Republicano. Essa aversão está ligada a fatores mais amplos do que a questão da pandemia, que vão desde o desprezo às suas posições sexistas, racistas e homofóbicas, até sua condução da política externa e ambiental. De todo modo, é certo que a atuação desastrosa de Trump no enfrentamento à Covid-19 acirrou esse posicionamento, lembrando que os EUA são, hoje, o país mais atingido pela pandemia. Nossa realidade é distinta porque além de termos um sistema de saúde gratuito e universal, o que mitiga os efeitos dessa crise sanitária, também há uma vinculação muito mais direta da população aos serviços de saúde municipais, ou até mesmo estaduais e, consequentemente, aos seus governantes.
Trump e Biden no último debate presidencial dos EUA, na noite de 22 de outubro (Foto: Morry Glass- AP Photo)
Folha – No último debate presidencial dos EUA, em 22 de outubro, Biden prometeu marcar seu governo pela transição da matriz energética do petróleo para alternativas limpas, como a solar e a eólica. Caso isso se cumpra, como poderia afetar diretamente Campos, municípios vizinhos e o Estado do Rio, cuja mais parte da arrecadação ainda é de receitas petrolíferas?
Carlos Alexandre – As coisas boas demoram a chegar aqui. Às vezes, mais de um século! Não vejo qualquer efeito imediato de substituição, nem mesmo a longo prazo. Mas que ótimo seria se esse discurso incentivasse os brasileiros a buscarem fontes mais limpas, e os governos locais a incentivarem essa prática, e a transformarem isso em meio de recursos tributários novos. Em vez de substituição imediata, deveríamos pensar em complementação em médio e longo prazo, e em substituição, se um dia ocorresse, como política de futuro.
Hamilton – A princípio, a saída dos EUA da oferta tenderia a melhorar o preço da commodity, o que beneficiaria os outros produtores no curto prazo. Por outro lado, no longo, aceleraria a substituição das tecnologias demandadoras de combustíveis fósseis por de outras fontes, o que nos prejudicaria.
Sana – Não acredito que haveria efeitos tão diretos, principalmente, a curto ou médio prazo. O processo de transição da matriz energética não se dá forma tão rápida e ainda tendo a achar que o discurso de Biden nesse sentido é um tanto mais retórico do que prático. Ele, de fato, tem a preservação ambiental como uma de suas bandeiras, o que, por si só, já é um grande avanço, mas se não for possível conciliá-la com o desenvolvimento capitalista, é esse último que prevalecerá sem dúvida alguma.
Folha – Goste-se ou não dos EUA, o fato histórico é que eles são a mais longeva e importante democracia representativa do mundo. E são sua principal referência ao Ocidente, por mais que a ditadura da China tenha importância econômica internacional. Como essa influência se manterá em um país que, independente do resultado final, sai de uma eleição presidencial absolutamente dividido? Como projeta o futuro dos EUA para eles e o mundo?
Carlos Alexandre – Essa pergunta vale uma dissertação. Qualquer resposta resumida é historicamente incompleta. Mas vamos lá: essa nação foi forjada em separação de poderes e bipartidarismo forte. Tirando George Washington, neutro, os EUA foram criados por gênios contrapostos: por exemplo, Jefferson e Madison, de um lado, Adams e Hamilton, de outro. Esses quatro maiores teóricos e políticos da história nos ensinaram que uma grande nação se faz sob dois pontos: forte divisão intelectual sobre o que é governar, pois democracia é oposição forte; respeito ao que decidido pelo the people themselves (“as próprias pessoas”) o que significa que, até a próxima eleição, vale a decisão do representante eleito. Essas são as bases da longevidade democrática dos EUA. Sem Trump e seus extremismos, vejo um futuro mais tolerante para todos.
Hamilton – A democracia americana está mais preparada e equipada para enfrentar a crise hegemônica do Ocidente que as demais potências, mas precisará acertar nas respostas para manter seu protagonismo; o que parece difícil a julgar por suas práticas externas desde o fim da URSS e a fixação interna de suas elites intelectuais em pautas centrífugas.
Sana – Independentemente do resultado das eleições, o fato de a disputa estar tão acirrada parece apontar que o discurso virulento e irracional da extrema-direita começa a perder força. Com a vitória de Biden, ainda que a polarização permaneça, ele pode mostrar que, a despeito do que tem prevalecido no imaginário social, uma política mais progressista também pode ser economicamente eficiente. Para que a perda de influência dos EUA sobre o resto do mundo seja realmente palpável, teríamos que ter uma crise institucional interna em níveis nunca antes vistos. Lembrando que, a despeito de qualquer resultado eleitoral, a China hoje já é a maior economia do mundo.
Joe Biden na convenção democrata que o lançou candidato democrata a presidente dos EUA, cuja vitória sobre Donald Trump foi confirmada hoje (Foto: Kevin Lamarque – Reuters)
Agora é oficial: Joe Biden é o próximo presidente dos EUA. Com a virada na Geórgia, estado tradicionalmente republicano, o democrata chega a 280 delegados, 10 a mais que os 270 necessários para determinar o ocupante da Casa Branca a partir de 20 de janeiro. Antes, deve ampliar a vantagem se confirmar os outros 20 delegados da Pensilvânia, mais os 6 de Nevada, somando os 306 de uma vitória incontestável. Donald Trump, que denunciava “fraude” bem antes das urnas de 3 de novembro, sem apresentar uma única prova, voltou a dizer hoje que vai recorrer à Suprema Corte da derrota no complexo sistema do colégio eleitoral. Como é o mesmo que lhe permitiu levar a presidência dos EUA em 2016, mesmo com 2,8 milhões de votos populares a menos que Hillary Clinton, Trump exerce quatro anos depois o famoso jus esperniandi (“direito de espernear”).
Na noite de ontem, Trump usou seus últimos dias na Casa Branca para chamar de “fraude” sua ordem de despejo emitida pela vontade popular. E teve a transmissão do seu pronunciamento interrompida pelos principais canais de TV do seu país, no que deve servir de “novo normal” à mídia do mundo com outros governantes sem pudor de mentir descaradamente. Desde que promulgaram sua única Constituição em 1787, foi a primeira vez em 233 anos que os EUA viram seu presidente atacar sua própria democracia. O atual mandatário republicano foi condenado publicamente por ex-procuradores de governos republicanos, deputados e senadores republicanos. O motivo da “fraude”? Os votos pelos correios, autorizados pela Suprema Corte e prática do país desde a Guerra de Secessão (1861/1865).
Donald Trump e Jair Bolsonaro (Foto: Jim Watson – AFP)
Ao Brasil, cujo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se prestou a ecoar publicamente as denúncias de “fraude” do seu “mito”, restam duas alternativas. Ou acerta o passo em sua política externa e na proteção ao meio ambiente, demitindo os ministros olavistas Ernesto Araújo e Ricardo Salles, ou o país se tornará um pária mundial. Sem Trump, sobraram ao capitão a interlocução com a extrema-direita no poder apenas na Hungria de Viktor Órban e na Polônia, de Andrzej Duda. E, em termos de relações comerciais, as duas pequenas nações do Leste da Europa representam ao Brasil pouco ou quase nada.
Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente, têm cabeças a prêmio com a vitória de Biden (Foto: Arthur Max – AIG – MRE)
Apesar da derrota, ninguém com isenção pode ignorar: Trump foi o eixo no qual girou essa eleição presidencial. Que ele perdeu para a pandemia da Covid-19 e suas graves consequências econômicas, como o desemprego galopante nos EUA, não para Biden. Ainda assim, o eleitor estadunidense branco, de pouca instrução e classe média baixa compareceu em massa para votar na reeleição do seu presidente. Que só não conseguiu levar por conta da perda em estados que acabaram sendo decisivos, como Arizona, Winsconsin, Michigan, Geórgia, Pensilvânia e Nevada. Mas basta olhar o mapa da votação para constatar o país que saiu visceralmente dividido das urnas.
A tarefa de suturar a ferida aberta caberá a Biden, político moderado em seus 47 anos de vida pública, acusado de “socialista” em delírio coletivo que agora terá que despertar à realidade com a cara ardendo pelo tapa. O novo presidente dos EUA não é um orador brilhante como Barack Obama, de quem foi vice por oito anos, nem um comunicador histriônico, mas talentoso, como Trump. Joe Biden é um homem normal que, não por acaso, é chamado nos EUA de “regular Joe”. Mas a quem a História legou a responsabilidade de determinar o futuro do seu país e do mundo. E terá que fazê-lo talvez sem poder atender a contento a juventude que tomou as ruas do mundo no Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”).
Motivado pela morte do negro George Floyd por um policial branco, protesto Black Lives Matter em frente à Casa Branca, em 1º de junho deste ano (Foto: Olivier Douliery – AFP)
Abraham Lincoln, presidente que liderou os EUA em sua Guerra Civil (1861/1865) para libertar os negros da escravidão, e seria assassinado por isso
“O homem é ele e suas circunstâncias”, ressalvava o filósofo espanhol Ortega y Gasset. E as circunstâncias do homem normal, que assumirá a mais longeva democracia representativa do mundo, são enormes. Aparentam também estranhas coincidências. Após conquistar a vaga para disputar a presidência na maior virada da história das primárias do Partido Democrata, contra o socialista de fato Bernie Sanders, Biden chega ao poder após virar a apuração que, até o dia seguinte à eleição, indicava a vitória de Trump. Com a derrota deste, o Partido Republicano, que deu aos EUA a referência presidencial de um Abraham Lincoln, terá que se reinventar para além do trumpismo.
Para não fragmentar ainda mais seu país, Biden terá que buscar o equilíbrio de quem caminha sobre o fio da navalha. Onde é sempre fácil cair, ou cortar o pé. Ainda assim, suas promessas de campanha são ousadas: enfrentar a segunda onda da Covid onde ela tirou o maior número de vidas humanas no planeta Terra, revitalizar o Obama Care dilapidado por Trump em um país sem SUS, taxar as grandes fortunas para bancar a assistência social aos mais pobres e impor um salário mínimo aos EUA de US$ 15 por hora. E o democrata será tão cobrado para implementá-las, quanto se não surtirem o efeito desejado.
Sólon, legislador ateniense a quem é creditada a criação da democracia no séc. VI antes de Cristo
A democracia foi inventada na Grécia Antiga, com as reformas de Sólon na cidade-estado de Atenas, por volta de 590 a.C. Funcionaria depois na República de Roma, antes do maior poder da Antiguidade se tornar o Império Romano. O sistema de governo que significa “poder do povo” só seria resgatado, mais de mil e setecentos anos depois, com a invenção da democracia representativa pelo Iluminismo, no séc. 18. E sua primeira experiência no mundo foi justamente no regime fundado pela Revolução Americana, para unir 13 ex-colônias britânicas que se tornaram independentes à bala. E que, sob a mesma Constituição, hoje somam os 50 estados que deram a vitória a Biden no mesmo sistema do colégio eleitoral que fez George Washington seu primeiro presidente, em 1789.
De lá para cá, não são poucos os analistas que consideraram a derrota de Trump, mais que a vitória de Biden, como a sobrevivência da própria democracia. Foi um teste ultrapassado não só pelos EUA, mas pelo mundo que não enxerga na ditadura da China, apesar da sua pujança econômica, uma opção política aceitável. Algo quase se quebrou neste mundo, na sua nação ainda mais importante. O vitral resultante terá suas cores reveladas pela luz do sol do amanhã. Hoje, as sombras perderam.
Quem quiser saber como os destinos dos EUA e do mundo foram definidos, desde as convenções democrata e republicana, passando pelos debates até a eleição presidencial e sua apuração, pode ler ou reler aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Para quem quiser saber um pouco mais desses tais de americanos, e sobre a nossa relação com eles enquanto brasileiros, seguem abaixo valiosas lições na poesia de Caetano:
Joe Biden teve sua vitória nas urnas confirmadas hoje à noite pelo desespero de Donald Trump (Montagem: The Wall Street Journal)
Joe Biden foi eleito presidente dos EUA. Mais que a apuração em que o candidato só precisa de mais seis delegados estaduais para chegar ao mínimo de 270, e está perto de virar nos estados da Pensilvânia (20 delegados) e Geórgia (16 delegados), sem contar Nevada (6 delegados), em que já lidera, a certeza da vitória de Biden foi dada agora à noite pelo seu concorrente: o ainda presidente Donald Trump. Ele mentiu tão descaradamente ao denunciar “fraude” nas eleições, em pronunciamento na Casa Branca, sem apresentar uma única prova, que as redes de TV do seu país interromperam a transmissão. Como O Twitter já havia bloqueado oito postagens suas pelo mesmo motivo.
Agora resta à apuração oficializar por quanto foi a derrota de Trump. E à Justiça do seu país, a quem prometeu recorrer por ter perdido no voto popular e do colégio eleitoral, responsabilizá-lo criminalmente pelo inédito ataque de um presidente dos EUA à democracia dos EUA. Ex-procuradores de governos republicanos repudiaram as falsas acusações do mandatário republicano, também criticadas publicamente por deputados e senadores republicanos. Os votos pelos correios, denunciados como “fraude”, são praticados nos EUA desde a Guerra de Secessão (1861/1865). Quando o país passou pela mesma divisão violenta que seu ainda presidente busca claramente estimular.
Assim que a vitória de Biden for oficializada e até a sua posse como 46º presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2021, com as apostas encerradas sobre o novo ocupante da Casa Branca, outras serão abertas do lado de cá do Equador. Quais serão os reflexos da derrota eleitoral do trumpismo ao Brasil de Jair Messias Bolsonaro? E quanto tempo mais durarão nos cargos seus ministros olavistas Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente?
Joe Biden confirmou sua vitória nos estados de Winsconsin e Michigan, somou mais 26 delegados no colégio eleitoral e agora tem 264. Se vencer também no estado de Nevada (6 delegados), onde lidera, chega ao total de 270, mínimo necessário para se determinar o próximo presidente dos EUA.
Se isso acontecer, como tudo até agora indica, Biden não precisaria nem vencer em no seu estado natal da Pensilvânia (20 delegados). Embora a diferença que ainda o separa de Trump lá, venha caindo com a apuração dos votos antecipados e pelos correios.
Dormi após às 3h da manhã com a eleição presidencial dos EUA aparentando estar definida para Donald Trump. Acordei agora há pouco e o mapa da apuração, com a virada de Joe Biden no estado do Michigan e sua vitória parcial nos estados de Wisconsin e Nevada, acendem as esperanças por um triunfo final muito apertado do democrata. Tendência endossada pelas denúncias de “fraude” do atual presidente republicano.
Só para lembrar: quem fizer o mínimo de 270 delegados no complexo sistema do colégio eleitoral, leva a Casa Branca. Certeza, além desta, só duas. A primeira? A mais importante e longeva democracia representativa do mundo sai das urnas absolutamente dividida. A segunda é que a definição da eleição vai parar na Suprema Corte dos EUA.
São 2h30 da manhã de Brasília. E para quem, nesta Terra de Vera Cruz, acha que sua torcida contra ou a favor de Donald Trump importa a quem pode ontem tê-lo reelegido presidente dos EUA, a verdade é dura: sua vontade sempre contou tanto quanto o voto de quem recentemente reconduziu a esquerda ao poder na Bolívia. E isso só pode ser encarado como elogio pelo tupiniquim com menos hemácias no cérebro que nunca pisou na orgulhosa República Andina dos Aimaras.
Escrevo sem saber o resultado final da eleição presidencial dos EUA. A bem da verdade, ninguém sabe. Mas, a não ser que o voto pelos correios mude o resultado do swing state (estado pendular e decisivo) da Pensilvânia, onde nasceu Joe Biden, é bem possível que Trump ganhe mais quatro anos de mandato. Caso contrário, a questão deve parar na Suprema Corte, transformada em bastião conservador pelo sucessor de um republicano diferente, Abraham Lincoln.
Confirmada a derrota de Biden, ela não se dará pela derrota em seu estado natal. Mas pela que Trump impôs aos democratas na Flórida, com os votos latinos de cubanos refugiados de Fidel e até de brasileiros entusiastas de Bolsonaro. No complexo sistema do colégio eleitoral dos EUA, o estado tem 29 votos. Mesmo se o candidato democrata vencer na Pensilvânia (20 votos), mais Winsconsin (10 votos) e Maine (4 votos, um dos dois únicos estados com divisão proporcional), ele ficaria 5 votos aquém dos 270 delegados necessários para vencer o pleito. Outro estado com divisão proporcional de delegados (5 votos), Nebraska seria a única alternativa de alternância no poder.
Em um país como o Brasil, onde todos se ungem espessialistas em futebol e política em tempo de Copa do Mundo e eleição, é pedir demais que se entenda um sistema criado pelos Pais Fundadores dos EUA, no séc. 18, para evitar que um populista chegasse ao poder. E que, mais de 230 anos depois, serve para que um populista como Trump possa se perpetuar no poder. Mas, diante de uma mesma Constituição desde aquela época, não tem moral para criticar quem está na sua sétima. E só consegue mantê-la a despeito dos boçais que saem às ruas para pedir a volta do AI-5.
São os mesmos que, da sua irrelevância subequatoriana, comemorarão mais quatro anos para Trump. “Patriotas” que, como seu “mito”, baterão continência à bandeira estrangeira. Enquanto Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e John Adams — que nunca viram mais gordos — se reviram nos seus túmulos.
Se todas as pesquisas pesquisas registradas confirmam a liderança (confira aqui) do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD) na corrida à Prefeitura de Campos, a campanha nas ruas segue disputada — literalmente casa à casa. Nas redes sociais locais, um vídeo viralizou no último final de semana mostrando um militante da campanha a prefeito do Dr. Bruno Calil arrancando na porta de uma casa o adesivo do 55, número de Wladimir, para colocar o 77 do seu candidato.
O militante é Rodrigo Barreto da Silva, também conhecido como “Marreta”. Egresso do grupo político do ex-vereador Magal, ele foi nomeado assesssor parlamentar do deputado Rodrigo Bacellar (SD), que apoia e coordena a campanha de Bruno. O fato gravado em vídeo aconteceu no Parque Guarus, no último domingo (01). Nos grupos garotistas, o vídeo foi divulgado com os dizeres: “Para que esse desespero da turma do Doutor Bruno Calil do deputado Rodrigo Bacellar (SD)????”
Nomeação de Rodrigo Barreto da Silva como assessor parlamentar do deputado Rodrigo Bacellar na Alerj (Reprodução)
Sem os dizeres, confira abaixo o vídeo de Rodrigo Barreto, vestido com a camisa da Seleção Brasileira:
Segundo Rodrigo Barreto, o adesivamento de casas com o número 55, no bairro onde ele reside, teria sido feito no sábado, durante carreata de Wladimir no Parque Guarus, sem a autorização dos moradores, aos quais ele já teria pedido para adesivar o 77. Os adesivos com este número teriam sido arrancados, gerando a reação do militante de Bruno Calil. Em outro vídeo, ele revela seu rosto e aparece literalmente comendo o adesivo do 55, antes de o cuspir. Confira abaixo:
Após o contato do blog para apurar a história, Rodrigo Barreto enviou mais dois vídeos de vizinhos seus no Parque Guarus, que confirmaram sua história. São Antunis da Silva de Souza e Elizabeth Maria da Silva. Confira-os abaixo:
Pensei inicialmente em publicar o poema de 17 anos apenas nas redes sociais. Mas devido ao bom envolvimento lá gerado (confira aqui) e por ser uma maneira diferente de lembrar o feriado de hoje, seguem também abaixo. O dia dos mortos em versos de carne viva:
Joe Biden e Donald Trump (The Wall Street Journal)
A frase já virou lugar comum. Após atravessar o rio Rubicão com suas legiões, para pôr fim à República de Roma, Júlio César vaticinou: “A sorte está lançada”. Com o mundo observando, como talvez nunca tenha feito e dificilmente voltará a fazer, os dados param de girar nesta terça (03) nas urnas dos EUA. E determinarão seu próximo presidente e os rumos da humanidade. Para entender o que está em jogo e o que mudará, a depender da escolha do complexo colégio eleitoral estadunidense entre o presidente republicano Donald Trump e o candidato democrata Joe Biden, tão favorito nas pesquisas como foi a derrotada Hillary Clinton em 2016, o blog ouviu o historiador Arthur Soffiati, o cientista político e sociólogo George Gomes Coutinho e o sociólogo Roberto Dutra. Os dois primeiros, professores da UFF-Campos, o terceiro da Uenf. Eles analisaram o que pode acontecer, caso Trump ou Biden ganhem a eleição. E como isso deve afetar, além do mundo em que a China também acena como superpotência, o Brasil de Jair Messias Bolsonaro.
Historiador Arthur Soffiati, cientista político George Gomes Coutinho e sociólogo Roberto Dutra (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Blog Opiniões – Analistas políticos do mundo têm apontado a eleição presidencial dos EUA como a mais importante em algumas décadas para determinar os destinos do mundo. O que você espera se o democrata Joe Biden se eleger, como apontam as pesquisas? E se, contrariando-as, como em 2016, Donald Trump conquistar a reeleição?
Arthur Soffiati – A eleição é importante porque o mundo se polariza mais entre um progressismo moderado e um retrocesso reacionário, obscurantista, negacionista, anticientífico e propagador de mentiras. Biden não é um candidato carismático como Obama. Sua vitória, contudo, representa a reconquista de uma posição perdida. Não espero que ele faça milagres num contexto tão dividido. Com a reeleição de Trump, antevejo um futuro tenebroso, pois os Estados Unidos, queiramos ou não, é o coração do mundo democrático. A recondução de Trump representará o triunfo do atraso e a sua consolidação.
George Gomes Coutinho – Sem dúvida neste momento se considera que Trump tem um desafio e tanto para ser reeleito. Envolveria simplesmente repetir a “tempestade perfeita” que o elegeu e ainda reafirmar sua identidade de outsider, algo pouco convincente após quatro anos na Casa Branca e um rosário de promessas não cumpridas. O que eu espero, caso ele seja reeleito, é o recrudescimento de sua agenda conservadora nas instituições norte-americanas, o que inclui a Suprema Corte. Também não duvido do aumento do tensionamento dos embates raciais nos EUA e a estigmatização institucional da população latina. Para fora do espaço doméstico, Trump dá fôlego para governos e movimentos de extrema-direita persistirem em suas agendas e discursos. No caso de Biden ser eleito, o que não será surpresa, caso todos os indícios e pesquisas se confirmem e na hipótese de não termos uma bala de prata até lá, o governo norte-americano retoma uma agenda centrista e mais próxima daquilo que achávamos que era, até 2016, um consenso mais ou menos compartilhado em termos civilizatórios por parte importante tanto da direita quanto da esquerda democrática. Consenso este que envolve ao menos a consciência das mudanças climáticas, o discurso pró-ciência e pautado em evidências, políticas de reparação histórica, etc. No âmbito doméstico, Biden promete retomar políticas sociais que nos remetem ao que Obama tentou implementar. A conferir. O status quo norte-americano tem alergia a medidas que enfrentem suas gritantes desigualdades internas.
Roberto Dutra – Pode ser a eleição presidencial norte-americana mais importante em décadas em relação a várias dimensões da política global, como a política de combate ao aquecimento global e as relações com a China e a Rússia. Mas não tenho muitas esperanças de que um governo democrata seja menos agressivo à soberania de outros países que Trump. Um aspecto muito lembrado é o efeito negativo que uma vitória de Biden teria sobre governos de extrema-direita como o de Bolsonaro. Mas a grande contribuição que um novo governo democrata poderia trazer para os destinos globais seria romper com o neoliberalismo humanizado de Clinton e Obama e construir um projeto nacional capaz de atender as demandas e frustrações sociais que alimentam o trumpismo. Uma eventual reeleição de Trump poderia ser uma chance de fortalecer a extrema-direita global, mas as condições nacionais de cada país são sempre mais importantes.
Caixa de correio do Serviço Postal dos Estados Unidos em Washington (Foto: Leah Millis – Reuters)
Opiniões – Por conta da Covid, cerca de 1/4 do eleitorado dos EUA já votou pelos correios. Trump tem denunciado “fraude” por isso. Como o voto pelos correios deve ser computado depois do presencial, opção preferencial dos eleitores do presidente, há o receio que se este sair na frente nos swing states (estados decisivos), a apuração seja interrompida sob alegação de irregularidade. O que poderia levar a questão à Suprema Corte, de maioria conservadora. O que esperar? E por quê?
Arthur – Em certa medida, isso já aconteceu em 2000, com a vitória controversa de George W. Bush sobre Al Gore. A decisão final coube à Suprema Corte. O caso de Trump parece mais premeditado. Ele não admite perder em nada, muito menos a votação para a reeleição. Nesse sentido, ele chama de fraude a eleição pelos correios, quando, nos Estados Unidos, o voto pelos correios é perfeitamente legal e seguro. O diretor dos correios é amigo de Trump. Pode haver atraso na entrega dos votos. Ela já aparelhou a Suprema Corte, indicando uma ministra conservadora da mesma linha dele. Enfim, tudo indica que Trump está com muito medo de perder e está fazendo de tudo para que isto não aconteça. Se acontecer, ele não deve reconhecer a derrota, nem cumprimentar o vencedor.
George – O insuspeito senador republicano Ted Cruz já falou até mesmo em um “banho de sangue” nas eleições em novembro (confira aqui) ao comparar a conjuntura com os perturbadores e disruptivos momentos da época de Watergate. Exagerado ou não, o senador Cruz nos transmite um pouco da temperatura do processo de sucessão eleitoral nos EUA. A grande questão é que processos lentos de apuração podem jogar querosene na fogueira da opinião pública nativa, esta última já devidamente intoxicada por fake news, paranoias, teorias da conspiração e afins há anos. É este repertório que ajudou a eleger Trump. Há alguns analistas que falam em “bananização” das eleições norte-americanas, ou seja, o questionamento invariavelmente fraudulento por parte dos perdedores não só do resultado. O que se questiona na “bananização” é a legitimidade, a solidez do processo em si. Este conjunto de elementos pode trazer tumulto até termos o resultado final e seguro de apuração e uma parte do eleitorado simplesmente adotar uma atitude “insurgente” digamos assim, um eleitorado arredio a aceitar o resultado final. De forma ou de outra será mais um dos muitos testes de estresse para as instituições dos EUA desses nossos últimos tempos. Penso que uma onda conservadora na Suprema Corte tenha uma tendência mais a desestimular pautas progressistas comportamentais. Mas, não apostaria que a Suprema Corte vá aderir a algum tipo de delírio político nesta altura do campeonato. A Corte, em minha perspectiva, tende mais ao papel de bombeiro do que de Nero. Há um capital institucional gigantesco a ser resguardado e, neste momento, uma aventura não me parece que será referendada por esta instituição específica. O que não quer dizer que será a mesma postura a ser exercida pelos eleitores de Trump.
Roberto – Espero a irresponsabilidade conhecida do presidente. Toda sua prática e discurso apontam nesta direção. E não me parece que seu partido consiga demovê-lo dessa investida contra o procedimento eleitoral. Torço para que não haja nenhuma ruptura institucional, mas, ao contrário do que muitos acham, a democracia americana é precária. Por isso não descarto que um ataque do trumpismo ao processo eleitoral, já cheio de problemas oriundos de suas regras, possa acelerar a crise da democracia no EUA. A democracia não é propriedade intrínseca de nenhum país. Quando suas condições sociais e políticas são diluídas, ela pode se apequenar ou se desconstituir em qualquer lugar. Entre as condições sociais, se destaca a crise das formas de inclusão social, como vemos resultar do colapso do fordismo, que sustentaram a democracia ocidental nas décadas finais do século XX. Entre as condições políticas o fator mais importante é a própria falta de adesão aos procedimentos eleitorais e comunicativos da democracia. A possível judicialização da apuração enfraquece a adesão ao procedimento democrático.
Suprema Corte dos EUA
Opiniões – Nos EUA, o voto é facultativo. Em 2016, 90 milhões de eleitores não votaram, o que pode ter gerado o resultado oposto às pesquisas que apontavam a vitória de Hillary Clinton. Ela teve quase 3 milhões de votos a mais que Trump, mas perdeu no sistema do colégio eleitoral. Além dos institutos de pesquisa terem aprimorado suas metodologias, os votos pelos correios e antecipados indicam presença maciça do eleitor em 2020. Isso pode ajudar Biden? Por quê?
Arthur – Caso Trump espere a contagem final dos votos sem alarde, creio que essa votação maciça ajude Biden. Em 2016, quase cem milhões não votaram, na minha leitura, por não simpatizarem com Trump, nem com Hilary. Não importa se esta foi injustiçada, mesmo tendo 3 milhões a mais de votos que Trump. O que conta é o colégio eleitoral. Mas agora acredito que a mobilização está sendo maior porque a população enfrentou quatro anos de um presidente errático. O Trump de hoje não é o Trump de ontem. Agora, ele foi testado no governo. Isso conta e muito. Daí acredito que essa mobilização representa a rejeição de Trump mais que um apoio a Biden.
George – Em minha ótica o que pode atrapalhar Biden é uma bala de prata. É importante olharmos pelo retrovisor e revisitarmos o embate Hillary Clinton versus Donald Trump. Poucas semanas antes das eleições, para além de uma propaganda negativa, misógina e agressiva contra Hillary, houve a alta exploração do mau uso por Clinton de seu servidor de e-mail. Ao utilizar um servidor privado para enviar comunicações de interesse de Estado, Hillary Clinton foi pega por parte da opinião pública como Judas. Em uma nação com interesses declaradamente imperiais e absolutamente neurótica com os riscos de informações sigilosas “caírem em mãos erradas”, Hillary se tornou o alvo, a inimiga preferencial na imaginação da opinião pública. Hillary, como sabemos, contava com uma vantagem até mais expressiva do que a de Biden neste ano de 2020. O que virá? Não sabemos. Mas, por enquanto somente um escândalo de última hora aparentemente pode permitir uma virada importante de Trump em estados importantes na disputa.
Roberto – A abstenção eleitoral em 2016 foi maior entre os eleitores democratas. Se isso se reverter este ano as chances de vitória de Biden aumentam consideravelmente. Mas o eleitorado democrata parece estar mais mobilizado contra Trump do que propriamente a favor de Biden.
Último debate presidencial dos EUA, na noite de 22 de outubro (Foto: Morry Glass- AP Photo)
Opiniões – No final do último debate presidencial, em 22 de outubro, Biden disse (confira aqui) que queria marcar seu governo pela transição dos EUA da matriz energética do petróleo para alternativas limpas, como a eólica e a solar. Como ninguém imagina que um ambientalista vá votar em Trump, mas moderados podem temer as consequências econômicas da mudança da matriz energética, não era uma promessa a ser evitada pelo favorito nas pesquisas, a 10 dias da urna?
Arthur – Claro. Biden podia muito bem que dizer que vai continuar com a matriz energética e desenvolver fontes alternativas de geração de energia. Isto não seria mentira. Seria apenas não fazer uma declaração bombástica que lhe pode ser prejudicial. Sabemos muito bem que a consciência ambiental aumentou nos países em que o capitalismo está mais avançado, mas ela ainda não tem força para eleger um presidente. Seria bem melhor para ele não ter feito esta declaração, que permitiu a Trump aproveitá-la em seu favor. Bastava dizer que voltaria ao Acordo de Paris e a declaração desastrada já estaria implícita.
George – Biden falava para seu eleitorado. É muito importante que tenhamos clareza do seguinte: o discurso dos candidatos nos EUA é um diálogo bastante direto com seus apoiadores e financiadores. É uma forma de “fidelizar” este eleitor e financiador privado oferecendo uma agenda e dizendo o que ele gostaria de ouvir. Os eleitores pragmáticos farão seus cálculos de escolha eleitoral pesando prós e contras entre ambos os candidatos. Contudo, como venho frisando, caso surja um eventual escândalo envolvendo Biden a ser repisado diariamente na mídia norte-americana é algo dotado de potencial mais destrutivo do que a promessa envolvendo as alternativas de energia limpa que precisarão de uma enorme complexidade de negociação para decantarem na realidade.
Roberto – O establishment democrata, do qual Biden é parte visceral, parece ter muitas dificuldades de oferecer um discurso e um programa para a demanda popular de oportunidades e prosperidade econômica que constitui o sonho americano. As políticas sobre a mudança climática são fundamentais, mas elas só terão viabilidade política se vierem sustentadas na recuperação do dinamismo econômico dos EUA, único caminho capaz de arrefecer sustentadamente o sentimento de frustração de amplas camadas médias e populares com os destinos do país. Propor mudar a matriz energética, quando não se tem um caminho crível de reconstrução econômica, pode realmente ser uma decisão muito arriscada.
Presidente dos EUA de 1933 até morrer em 1945, Franklin Delano Roosevelt
Opiniões – Trump já disse que, se reeleito, irá mudar o comando do FBI, da CIA e do Pentágono. Após Franklin Delano Roosevelt, presidente de 1933 até morrer em 1945, os EUA passaram a permitir apenas uma reeleição presidencial. E aqueles que a conquistaram tiveram o segundo mandato mais “ideológico”, sem precisar mais se preocupar com as urnas, como foi com Barack Obama. Quais seriam os limites de Trump em um eventual segundo mandato?
Arthur – Sempre existem instituições que podem estabelecer limites, mas, sem dúvida, Trump estaria mais confortável sabendo que não poderá mais ser eleito. Isso confere a ele mais liberdade. Os eleitores de Biden que se danem. Ele nunca foi o presidente de todos, como costumam proclamar os presidentes eleitos. Trump nunca desejou paz para unir o país. Com a reeleição de Trump, só se pode esperar a radicalização da sua linha ideológica caótica, mas, ao mesmo tempo, reacionária. E não apenas para os Estados Unidos. Sua possível reeleição teria repercussão internacional.
George – Eis uma questão sem dúvida que causa arrepios a analistas políticos comprometidos com a democracia lá ou em qualquer outro ponto do globo. Governos que ganham uma nova chance devidamente referendados por seus eleitores tendem a arriscar mais, serem mais ousados após reeleição. Isto vale para direita ou esquerda. Portanto, teremos menos limites. No caso de um governo de extrema-direita, pois assim situo a gestão Trump, a agenda é regressiva em conquistas sociais que gradativamente lutam para se implementar naquele país desde os movimentos pelos direitos civis que datam da década de 1960 para cá. Nunca é insuficiente lembrarmos que os EUA mantiveram práticas institucionais formais segregacionistas e racistas até ontem em termos históricos… E assim prosseguem de maneira não declarada na contemporaneidade, vide a reação coletiva que é o movimento Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”). Também podemos esperar a agressiva normalização da precarização das relações de trabalho. Altos índices de emprego, mas, majoritariamente McJobs, sem proteção social, garantias, baixo prestígio, etc, etc, etc.Todavia, ao seu eleitorado, há a promessa da manutenção de valores tradicionais, a reação às políticas de ação afirmativa, a redução dos impostos que agradam parte importante de Wall Street… Eis o outro ponto que sem dúvida em nada enfrenta os problemas do mais desigual dos países ricos.
Roberto – Não me parece que Obama tenha feito um segundo mandato mais ideológico. Pelo menos não o foi na dimensão da política econômica. No caso de Trump, os limites podem ser estabelecidos pelo Congresso. Acredito que o maior risco que ele representa à democracia é sua possível recusa em reconhecer uma eventual derrota. Em termos de agenda, Trump não tem programa para tornar a “América grande novamente”. Ele não entende que é impossível reconstruir a economia dos EUA refundando o modelo fordista que garantiu bem estar social e inclusão econômica no passado. Por isso, o ganho de liberdade de um segundo mandato pode não ser um recurso tão interessante assim pra ele. Ele sobrevive de identificar inimigos. Na falta de alternativas do que fazer, de como governar e entregar resultados econômicos e sociais, talvez aprofunde a guerra cultural contra o China.
Incêndio de Washington em 1814 pelos britânicos (Reprodução de óleo sobre tela de Paul de Thoyras)
Opiniões – Os EUA são o único país do mundo que elege seus governos de quatro em quatro anos, desde 1789. Tradição que mantiveram mesmo quando Washington foi incendiada pelos britânicos na Guerra de 1812, na divisão fraticida do país na Guerra de Secessão (1861/1865), nas I e II Guerras Mundiais (1914/1918 e 1939/1945), Guerra da Coréia (1950/1953), do Vietnã (1955/1975), nas duas Guerras do Golfo (1990/1991 e 2003/2011) e na do Afeganistão (2001 até hoje). Não são provas de fogo demais para uma democracia temer por Trump? Por quê?
Arthur – Por esse aspecto, a República dos Estados Unidos é notável: teve apenas uma Constituição com emendas, enquanto o Brasil teve sete, também com emendas e nem sempre resultantes de assembleias constituintes livres e populares. Idem para o Chile, que acaba de dar um bom exemplo. Os Estados Unidos também repeliram historicamente golpes de Estado. Mas a democracia dos Estados Unidos não é plena por conta da eleição indireta. Nem sempre que ganha nas urnas se elege. O colégio eleitoral foi criado para evitar o governo de aventureiros e acabou elegendo um. Confesso que vejo em Trump uma ameaça muito grande à democracia dos Estados Unidos. Ele já vem manchando a Constituição sem precisar rasgá-la. Vejamos o caso da indicação de uma juíza conservadora já empossada como mais um trunfo para sua reeleição. E o tempo todo ele põe à prova a Constituição do país. Estaríamos, então, vivendo uma distopia.
George – O ponto fora da curva na história norte-americana na conjuntura Trump é justamente o questionamento da legitimidade tanto do rito periódico eleitoral de sucessão de governantes quanto das instituições em si. Parte do eleitorado mais radical de Trump o projetou justamente por seu discurso de quebra do establishment. E por establishment me refiro a tudo o que eu comentei anteriormente. Establishment pode ser substituído por Estado de Direito. A democracia representativa é um regime fascinante justamente por promover periodicamente a possibilidade de circulação de elites políticas no poder sem que a violência seja ingrediente desejável a participar do jogo. Para tanto, aceitar resultados, seja você o ganhador ou perdedor, é componente fundamental para manter o jogo sucessório. Por tudo isso ironicamente ter um homem que é também establishment, branco, rico, empresário, que se apresenta como a “negação de tudo que está aí”, o que deve ser traduzido como um agente pouco afeito às regras do jogo, é preocupante. Trump tem um potencial incendiário importante e conta com uma base social mobilizada, radical, fiel e violenta.
Roberto – Não acho que Trump seja a principal ameaça a democracia dos EUA. Ele é muito mais o resultado da principal ameaça: a crise programática decorrente da adesão dos progressistas ao programa econômico das elites financeiras e rentistas. No período entre o começo da II Guerra Mundial e meados de década de 1970, os americanos vivenciaram, apesar de todos os problemas e conflitos externos e internos, processo de ampliação e melhoria das oportunidades de inclusão social e econômica. Isso criou, para as pessoas comuns, um horizonte dominante de esperança na melhoria de vida e garantiu as condições sociais da democracia, que hoje estão se diluindo. Trump é uma ameaça adicional, mas que se alimenta de uma ameaça perene e mais forte, indicada especialmente pelo colapso do horizonte de mobilidade social para a maioria dos americanos.
Socialista Bernie Sanders foi derrotado por Biden nas primárias democratas (Foto: Mike Blake – Reuters)
Opiniões – Acusado por Trump de “socialista”, Biden sempre foi um moderado em seus 47 anos de vida política. A despeito de ter feito promessas bem progressistas nesta campanha presidencial, como taxar as grandes fortunas para custear a assistência social aos mais pobres e impor um salário mínimo de US$ 15/hora nos EUA. Como entender os liberais como a esquerda dos EUA, quando a ótica latino-americana sempre coloca os liberais à direita?
Arthur – Nos Estados Unidos, o ponto de referência para as tendências políticas é muito particular. O que lá se entende por esquerda, na França, por exemplo, não passa de liberalismo. Existe um partido comunista nos Estados Unidos, mas ele não tem o mínimo peso político-eleitoral. Acusar Biden de comunista é uma arma de retórica que pode causar algum estrago. O próprio Biden se saiu bem no debate ao dizer que ele derrotou as tendências mais progressistas e que a sua posição é centrista. Talvez até demais e já comprovada ao longo da sua vida política. Quanto a taxar fortunas, é um desafio para Biden, muito embora já exista um movimento de milionários mal vistos pela sua ambição pedindo taxação sobre suas fortunas.
George – A história das ideias políticas é caprichosa. O repertório político ocidental, seja este liberal, socialista, social-democrata, conservador, etc, não se move no vácuo. Estas tradições do pensamento político são recepcionadas e aclimatadas em estados nacionais concretos, dotados de uma cultura política concreta, tendo efeitos e interpretações para além dos seus locais de nascimento e de suas expressões “puras”. Desta maneira faz sentido dizermos que há um “liberalismo norte-americano” ou uma recepção particular do ideário liberal. No campo da história política dos EUA a atual configuração nos remete aos anos 1960 onde os democratas vestiram a camisa da luta pelos direitos civis. Isto faz com que os membros deste partido, na média, tenham uma faceta social acrescida da mescla com princípios de liberalismo político, onde há a forte defesa dos direitos civis, com liberalismo econômico, a firme defesa da economia de mercado. O que os coloca na esquerda da política por lá é o sentido relacional da classificação esquerda/direita: os republicanos são muito mais resistentes a mudarem os fundamentos da cultura política e jurídica dos EUA. Os republicanos, em termos relativos, estão mais do lado direito do espectro político. O debate sobre armas, por exemplo, conta com um consenso mais ou menos compartilhado entre os democratas sobre a necessidade de maior regulação. Os republicanos são infinitamente mais conservadores neste tema e em outros tantos… E sobre isso falamos “na média”. Dado o bipartidarismo, onde há dois únicos partidos competitivos nacionalmente, estes, até por falta de outras opções, acabam agregando uma diversidade política concreta. Pode ocorrer agentes como Sanders, muito próximo de uma socialdemocracia clássica, ou até mesmo republicanos que flertam perigosamente com a KKK, supremacismo branco, etc. De maneira ou de outra definitivamente “esquerda” e “direita” têm significações no contexto norte-americano que não cabem necessariamente para o resto do mundo.
Roberto – Nos EUA ser liberal é sinônimo de ser progressista. Em termos de conteúdo, as políticas keynesianas e social-democratas do século XX foram sempre identificadas como liberais, o que indica que lá o liberalismo era mais político que econômico. Outro fator importante é que o termo socialista sempre foi impopular nos EUA, embora hoje menos. Na América Latina, o liberalismo foi predominantemente econômico, se aliando a tendências e regimes autoritários com muita facilidade.
Ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama
Opiniões – Os governos do PT no Brasil foram considerados progressistas, assim como o governo Obama nos EUA. E, a despeito da grande popularidade que chegaram a alcançar, eles foram sucedidos no voto por governos de espectro político no extremo oposto. Considerada a diferença do impeachment aqui, como o PT de Lula e Dilma e os Democratas de Obama contribuíram nas ascensões respectivas de Trump e Jair Bolsonaro (sem partido)?
Arthur – Não tenho dúvidas de que o PT contribuiu para colocar Bolsonaro no governo, mesmo que de forma indireta e sem intenção. O PT não conseguiu sequer unir os progressistas. Pelo contrário, as vaidades partidárias e pessoais levaram o PT a acreditar que tinha o monopólio das esquerdas e a liderança delas. Quanto aos Estados Unidos, entendo que Obama fez um bom governo em termos de política interna e externa, com os excessos típicos do país. Teve boa atuação na questão ambiental. Revelou-se um grande estadista. Mas Trump acordou forças sombrias que sempre existiram no país. Elas engoliram Hilary e o elegeram. Creio que o globalismo de Obama contribuiu para os discursos de Trump em favor do América first.
George – Se podemos falar em colaboração devemos falar de colaboração indireta ou involuntária. Digo isso pelo seguinte: os eleitores decidem em democracias representativas. Eles têm uma média de preferências que variam nas conjunturas daquilo que consideram mais adequado para aquele momento. A questão é que todo e qualquer grupo político no poder pode sofrer de “fadiga de material” com o passar do tempo, o que pode ter sido o caso dos democratas e dos petistas, além de erros cometidos pelas gestões. Erros estes cometidos por governos passados e pelos que virão. Também a percepção do eleitor comum de deterioração das condições de bem-estar naquela sociedade indica o rechaço ao que podemos chamar de situação e a aposta em grupos que estejam na oposição. Em momentos mais radicais a aposta em grupos opositores pode redundar até mesmo nos outsiders. Note que na minha resposta falo propositalmente em “percepção”, algo não infrequentemente equivocado, distorcido, etc. Portanto, pasmem, o eleitorado tanto pode acertar quando errar em suas decisões. E não raro pode ser induzido ao erro.
Roberto – O PT e os Democratas têm em comum a rendição ao programa econômico de seus adversários. Trata-se de uma crise programática que afeta partidos e organizações de esquerda em vários países, inclusive na Europa. A esquerda promoveu o apagamento e moderação das principais diferenças na esfera da política econômica. Ao se render ao neoliberalismo, a esquerda abdicou das condições para juntar politicamente as classes médias e as classes populares. Na prática, o PT e os Democratas desconectaram as agendas da inclusão social e da redistribuição de renda da agenda da mudança da política econômica, combinando política identitária para minorias, política compensatória de transferência monetária para os pobres e política regulatória de serviços privados de educação e saúde para a classe média, ao preço de executar e ampliar a política rentista das oligarquias financeiras. Este caminho destruiu os horizontes de oportunidades econômicas e mobilidade social ascendente para as maiorias e contribuiu para a ascensão da extrema-direita que soube instrumentalizar politicamente a frustração social.
Obscurantismo que ganhou força no mundo com as eleições de Trump e Bolsonaro tem seu ápice na afirmação de que a Terra é plana
Opiniões – Negacionismo científico, flerte com o racismo, a misoginia e a homofobia, aliança com os neopentecostais no limite do estado laico, armamentismo entre civis, anticomunismo generalizado a qualquer adversário ou crítico, guerra contra a imprensa, a intelectualidade e classe artística, governar em eterno modo campanha, com disseminação de fake news nas redes sociais para insuflar suas bases mais radicais. A caixa de Pandora aberta por Trump em 2016, clonada no Brasil em 2018, ficará mais próxima do fim se ele não se reeleger?
Arthur – Do fim, não creio. Nos Estados Unidos, a caixa de Pandora parece aberta desde a independência. Embora todos os males tenham saído dela, eles não conseguem sempre se concentrar para se tornar uma ameaça à democracia. Mas quando os guetos fundamentalistas encontram um gênio do mal, eles mostram sua garra. Nenhum presidente, por mais progressista que tenha sido, conseguiu controlar a indústria das armas. Elas representam uma faceta forte da cultura do país. Essas forças macabras continuarão existindo, mas não vão se expressar com a mesma liberdade no desejado governo Biden, pois não serão estimuladas. Espero que essas forças sombrias sejam contidas, pois um país não pode viver em clima de ódio constante.
George – Sendo bastante sincero eu antevejo algum tipo de retraimento desta lata de lixo semiótica que você narra em sua pergunta. Mas, retraimento não significa o fim. O que precisamos com urgência em nossas sociedades, tanto lá quanto cá, é algum tipo de reorientação da opinião pública e o firme compromisso com o enfrentamento sem tréguas de todo tipo de obscurantismo que rebaixa o nível das narrativas em disputa. Isto a despeito de esquerda ou direita. É preciso uma frente ampla que recoloque o debate público na direção do avanço civilizatório e em prol da democracia. Estamos retrocedendo com a pelada de várzea que se tornou a nossa discussão pública onde as grandes questões, as decisivas, estão soterradas pelo que há de mais abjeto aqui ou nos EUA. E por abjeto incluo o comportamento público de muitas das autoridades na ativa.
Roberto – A derrota de Trump pode tornar mais próximo o fim dessa caixa de Pandora no mundo todo, mas as frustrações sociais que alimentam a política e a guerra cultural de extrema-direita continuam determinantes, em cada país que vivenciou ou é ameaçado pela ascensão da extrema-direita, mesmo com eventual derrota do bufão norte-americano. O efeito de uma possível derrota de Trump vai depender da situação social e política de cada país. No Brasil, por exemplo, vai depender da capacidade governativa de Bolsonaro em promover a recuperação da economia, o que parece cada vez mais improvável.
Incêndio na Amazônia em 2020 (Foto: Mario Tama – Getty Images)
Opiniões – Com uma Europa e seus Partidos Verdes cada vez mais fortes, a “boiada” do ministro brasileiro Ricardo Salles “passando” nas queimadas na Amazônia e no Pantanal parece não ter mais vez. Com a China, após as restrições até à vacina contra a Covid em parceria com o Butantan, para salvar vidas de brasileiros, as coisas também não andam bem. Se Biden se eleger nos EUA, o Brasil de Bolsonaro se torna de vez um pária mundial? Por outro lado, e se Trump vencer, o presidente brasileiro ganha força na sua reeleição em 2022?
Arthur – Parece que o Brasil de Bolsonaro deseja ser pária. Jornalistas disseram que a vitória de Biden representará a queda de Ernesto Araújo e de Ricardo Salles. Eles fazem parte do núcleo ideológico, agora mais enfraquecido. Tem havido muita pressão interna e externa para enquadrar o governo de Bolsonaro, mas ele tem se mostrado recalcitrante. É de pasmar um governo tão retrógrado como o dele. Não houve um regresso de duzentos anos. Afinal, D. Pedro II tinhas ideias progressistas e gostava da ciência, embora vivendo um contexto escravagista. Bolsonaro vive num lugar que não existe fora dos seus fãs. Foram poucos os presidentes progressistas no Brasil, mas Bolsonaro vive num casulo fora do mundo. Tem e não tem vida própria. Fala para seus eleitores e sobrevive com apoio de Trump. Se este perder, Bolsonaro deve perder também em 2022. Não se pode esperar nada digno de um estadista da parte dele. Apenas que não se reeleja.
George – A tradição da política externa brasileira era de relativa independência aos movimentos do sistema internacional, algo absolutamente funcional para as ambições de um país na periferia do capitalismo que precisa de uma balança comercial favorável tanto quanto o ser humano precisa de oxigênio. Ernesto Araújo em seu famoso artigo “Trump e o Ocidente”, texto que mescla devoção quase religiosa e delírio geopolítico, já prenunciava um encaminhamento absolutamente acrítico do Itamaraty chefiado pelo atual chanceler. Saímos do pragmatismo independente para um alinhamento automático com os EUA que atinge os píncaros do constrangimento. Sendo Biden qualquer coisa menos um “Novo Templário” capaz de salvar o Ocidente, imagem que talvez passe na inventiva mente de Araújo, com certeza teremos uma política externa que precisará se reinventar. Confio na capacidade dos quadros altamente qualificados do Itamaraty nessa missão. Não será fácil reestabelecer diretrizes e até mesmo dignidade para nossa política externa. Mas, não é tarefa impossível. Sobre Bolsonaro, na hipótese Biden, a mudança de tom “para fora” será automática. Transitará entre o cômico e o ridículo. Com Trump sendo reeleito a sabujice seguirá a despeito dos interesses brasileiros.
Roberto – Como Bolsonaro vinculou seu governo muito fortemente ao de Trump, inclusive na insana briga com China, uma derrota do presidente dos EUA é um baque muito forte para o brasileiro. Pode ter impactos negativos concretos sobre o Brasil e com isso fragilizar ainda mais Bolsonaro, inclusive porque Biden parece não eleger a China como principal inimiga. Uma vitória de Trump, ao contrário, provavelmente teria impactos positivos de pouca concretude. Seria apenas um problema a menos para sua reeleição em 2022. Mas não resolve os principais impasses de seu governo que comprometem suas perspectivas de reeleição.
Opiniões – Ninguém mais parece duvidar que a China tende a se tornar a principal potência econômica do mundo. Mas pelo poder bélico e cultural, além do econômico, os EUA ainda são e serão por algum tempo o mais próximo ao Ocidente do Império Romano na Antiguidade. Em que esta condição pode ser reforçada ou abreviada pela vitória de Biden ou Trump? Como analisa o fato de nenhum dos dois prometer armistício na guerra comercial com Pequim?
Arthur – Em termos de equilíbrio bipolar, a China substituiu a URSS com uma diferença: trata-se de uma potência capitalista com uma ditadura de partido único que se intitula comunista. Mas os marxistas não entendem esse governo como marxista. A China se tornou uma potência econômica e política sem caráter proselitista. Não há mais como ignorá-la. Não cabe mais colocá-la como bode expiatório. Não é mais possível excluir a China. Trump a colocou como inimigo número 1 dos Estados Unidos. Não convém a Biden, nesse momento, declarar que vai manter boas relações com a China, mas, se eleito, creio que relaxará as tensões entre os dois países, ao mesmo tempo restabelecendo a Parceria Transpacífica. Se Trump fosse verdadeiramente anti-chinês, não teria desfeito este acordo nem mantido uma conta em banco da China.
George – Eis uma questão curiosa. Muito curiosa. Enfrentar a influência crescente da China é o ponto de consenso entre republicanos e democratas. A despeito das ambiguidades concretas da relação China e EUA, a potência no Oriente coloca em risco as ambições imperiais dos norte-americanos. Mesmo que seja algo indisfarçável o quantitativo de empresas e capital norte-americanos atuando na China neste momento, o que gera uma simbiose entre as duas potências muito mais profunda do que qualquer retórica eleitoral poderia ser capaz de admitir. Ao mesmo tempo, tal como você coloca, há o “problema geopolítico”. A influência chinesa, a despeito da simbiose que citei, já é algo incontrolável há bastante tempo, justamente fazendo com que o grande dragão do Oriente perigosamente continue se movimentando e fazendo um tipo de movimento que os EUA não fazem: disposição e dinheiro para investir em infraestrutura nos países em desenvolvimento. Penso que poderemos ver a continuidade da disputa entre as duas potências. Mas, ao menos há a possibilidade da redução do barulho, do ruído discursivo se Biden for o vencedor da disputa pela Casa Branca. No caso de Trump reeleito, a gritaria enquanto performance se mantém, ignorando as ambiguidades concretas que indiquei há pouco nas relações econômicas entre os dois países.
Roberto – Gostando ou não, a China promove um projeto de desenvolvimento nacional que difunde ganhos de produtividade por quase os setores da economia. A superioridade bélica e a hegemonia cultural dos EUA não parecem ser suficientes para superar um concorrente que é superior em economia política. Apenas uma reorientação radical da economia americana, que rompa com o rentismo e democratize os ganhos de produtividade restritos à vanguarda da economia do conhecimento, seria capaz de mudar a tendência de a China se tornar e permanecer a maior potência econômica mundial. A vitória de Biden ou Trump fará alguma diferença se um ou outro for capaz de promover esta reorientação. O fato de nenhum dos dois sinalizar o fim da guerra comercial indica que ambos não possuem uma estratégia econômica para os EUA, o que os leva a atribuir as dificuldades da economia norte-americana apenas ao comércio injusto com a China.