Direita sai do armário e lidera pesquisas a presidente sem Lula

 

Por Aluysio Abreu Barbosa e Aldir Sales

 

Em palestra no auditório completamente lotado da Faculdade de Direito de Campos (FDC), no último dia 8, o deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL) já tinha mostrado que o avanço da direita no Brasil não é exceção na planície goitacá. Pré-candidato ao Senado com liderança acentuada nas pesquisas, ele voltou ao município na última sexta (18), quando deu uma entrevista à Folha. Nela, analisou o avanço da pré-candidatura do seu pai, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), à presidência da República, também líder em todas as pesquisas nos cenários sem o ex-presidente Lula (PT). Ele defendeu pontos polêmicos, como endurecimento no enfrentamento contra o crime, redução da maioridade penal, liberação do porte de arma e até a ditadura militar brasileira (1964/85), que ele prefere chamar de “regime”. E credita a popularidade de seu pai ao fato dele ter tirado a direita brasileira do armário.

 

(Foto: Anotnio Leudo – Folha da Manhã)

 

Folha da Manhã – Feita entre 4 e 9 de maio, a pesquisa Paraná foi a primeira ao governo estadual e às duas vagas fluminenses ao Senado. Nesta, você apareceu liderando com 32,3% das intenções de voto. Foram mais de 10 pontos à frente do segundo colocado, o ex-prefeito do Rio, César Maia (DEM), com 20,6%. Observadas as limitações da Justiça Eleitoral, que só permite falar como candidato após as convenções, a que credita tanta vantagem?

Flávio Bolsonaro – Em primeiro lugar, sempre faço uma ressalva com relação a pesquisas oficiais. Quando os institutos não erram propositalmente, jogando o (Jair) Bolsonaro (PSL) para baixo na margem de erro e alguns adversários para cima. Eu sou a prova viva. Aconteceu comigo em 2016 na campanha à Prefeitura do Rio. O Datafolha me deu 7% no sábado e no domingo eu tive 14%, 100% de diferença. Então a gente nunca sabe se é intencional ou se nosso eleitor é difícil de ser captado em pesquisa.

 

Folha – Você acha que pode ser intencional?

Bolsonaro – Acho que pode ser intencional. Em grande parte das vezes, é. Ainda mais quando são institutos ligados a veículos que fazem claramente oposição a Bolsonaro.

 

Folha – Você se refere ao Datafolha e à Folha de S. Paulo?

Bolsonaro – A Folha de S. Paulo, principalmente. O instituto Paraná Pesquisas, eu acho que não tem muitos motivos para desconfiar que faça maldosamente, mas sempre faço essa ressalva, que o nosso eleitor é muito pulverizado. Tecnicamente é difícil de captar. Qualquer candidato que tenha no eleitorado uma parcela grande de público religioso ou público de opinião, a margem de erro é bem maior. Onde os pesquisadores vão, não consegue refletir a realidade. Feita essa consideração, eu entendo que a força do nome do Bolsonaro no Brasil seja o motor para essa diferença tão grande. E nessa pesquisa, especificamente, parece que nem o César Maia e nem a Martha Rocha  (PDT, que teve 20,4% na pesquisa) são pré-candidatos ao Senado.

 

Folha – Eles não são pré-candidatos.

Bolsonaro – Então a diferença para o segundo lugar, não sei se é o Chico (Alencar, Psol) ou o Lindbergh (Farias, PT)…

 

Folha – Chico está na frente, com 16,3%.

Bolsonaro – Acho que as candidaturas ao Senado ainda vão se definir nas convenções. Alguns nomes podem aparecer. Mas eu sempre falo que a gente está trabalhando para dar o maior percentual de votação no Rio de Janeiro ao pré-candidato à presidência da República Jair Bolsonaro. Então, como estou 100% com ele, meu nome acaba aparecendo bem pontuado. E fico feliz com isso.

 

Folha – Depois da vitória de Marcelo Crivella (PRB) à Prefeitura do Rio, com outro ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) bem na consulta Paraná a governador e dois nomes conservadores, você e César Maia, liderando ao Senado…

Bolsonaro – César Maia, um parêntese, não é tão conservador assim. Ele tem umas ideias progressistas que até o colocam no campo da centro-esquerda.

 

Folha – Ele começou com Brizola (1922/2004) e depois foi migrando para o centro e para a direita.

Bolsonaro – Eu coloco na direita sempre conservador nos valores e liberal na economia. Não vejo o César Maia conservador assim nos valores. Ele quer se aproveitar do momento em que falar que é de direita é bonito para ele. O próprio DEM, onde ele está, qual é a inspiração? É o Partido Democrata dos Estados Unidos, que é de esquerda.

 

Folha – Nos Estados Unidos você ser liberal é ser de esquerda.

Bolsonaro – É, lá são os conservadores é que são os republicanos. Então o César Maia trouxe essa inspiração de um partido de esquerda nos Estados Unidos. Mas acho que ele se coloca no campo da centro-direita porque ele é um cara que faz muitas pesquisas. Ele gosta de se posicionar sempre ao lado da maioria. É muito mais nessa linha do que de convicção ideológica mesmo.

 

Folha – Mas com Eduardo Paes, você e César Maia bem cotados, dá para supor que o eleitorado fluminense, tradicionalmente mais à esquerda, virou à direita?

Bolsonaro – Olha, eu acredito que hoje, o que acontece é que pessoas que pensam como nós, mais à direita, estão mais encorajadas de se assumir.

 

Folha – A direita saiu do armário?

Bolsonaro – A direita saiu do armário, muito em função dos posicionamentos do Jair Bolsonaro há tempos no Congresso Nacional, muito em função da atuação muito importante do professor Olavo de Carvalho, que é um filósofo, um grande influenciador de todo esse aspecto que se coloca à direita. E com a internet as pessoas foram se identificando conosco e assumindo essa posição porque antigamente a grande imprensa coloca essas discussões ideológicas de uma forma que parecia que quem era conservador era a minoria. Havia uma imposição do silêncio e as pessoas não se manifestavam. E com a internet é o contrário, com a perda de poder da grande mídia, as pessoas conseguem perceber que a grande maioria é conservadora, inclusive no Rio de Janeiro. Os números estão aí para mostrar o que estou falando.

 

Folha – Com larga vantagem na corrida ao Senado e com seu pai à frente em todas as pesquisas para presidente, sem a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)…

Bolsonaro – E está até inelegível. Acho que agora até os institutos estão tratando sem ele.

 

Folha – Eles trazem cenários diferentes com Lula e sem. E seu pai lidera no cenário sem Lula.

Bolsonaro – E você vê como tem um pinguinho de preferência ideológica dos institutos de pesquisa. Não tem sentido alguém que não vai concorrer continuar nas pesquisas. Inclusive alguns veículos querem fazer sabatina com ele dentro do presídio. É uma forçação de barra surreal.

 

Folha – O Lula pleiteou isso.

Bolsonaro – Eu vi a Folha de S. Paulo falando que quer fazer, acho que o Datafolha, não sei.

 

Folha – A iniciativa veio do PT e não de algum órgão de mídia. Mas, enfim, tendo em vista as situações boas sua e do seu pai em duas eleições majoritárias, não seria um erro estratégico não lançar um nome do seu grupo também a governador do Rio?

Bolsonaro – Não estamos preocupados com disputa de poder. A gente não está nessa batalha por poder, não. O principal projeto que nós enxergamos para tirar o Brasil desse grande mar de lama, corrupção e incompetência que o PT nos afundou e o PMDB não conseguiu tirar. A solução passa por Brasília, pelo Congresso Nacional, pela presidência. E o que a gente enxerga hoje no cenário dos candidatos aqui no Rio de Janeiro, muitos deles terão em suas legendas pessoas que vão pedir voto para Bolsonaro. A partir do momento que ele pede apoio a um candidato, ele perde esse apoio espontâneo que haveria de eleitores desses outros candidatos. Então, neste momento, não posso falar lá na frente, nós não pretendemos lançar ninguém ao governo do Estado. Até porque o governo do Rio está completamente quebrado, o Pezão (MDB) está fazendo de tudo, se endividando até onde não pode para conseguir terminar o seu mandato. O próximo governador terá seríssimas dificuldades, não tem nem mais margem de endividamento. Então, a saída para a crise no Rio vai depender, mais do que nunca, do apoio da União. Tenho convicção de que lá em Brasília poderemos ajudar muito mais o Rio de Janeiro neste aspecto.

 

Folha – Outra pesquisa Paraná, feita entre 27 de abril e 2 de maio, foi a que registrou até aqui a menor diferença entre Lula (27,6%) e seu pai (19,5%) na corrida presidencial. A diferença de 8,1 pontos percentuais pode cair a apenas 4,1, forçando a margem de erro de dois pontos. Como alguém que era considerado o antagonista de Jean Wyllys (Psol) na Câmara Federal se tornou em tão pouco tempo o principal adversário do líder político mais popular do Brasil, desde o ex-presidente Getúlio Vargas (1888/1954)?

Bolsonaro – O tamanho do Bolsonaro não tem nada a ver com Jean Wyllys. Simples assim. Alguns ditos “especialistas” em análise política tentaram forçar essa barra para tentar trazer o Jean Wyllys a reboque do Bolsonaro. E os números estão mostrando que ele é muito maior do que isso, maior do que Lula, do que Jean Wyllys. O tamanho dele tem a ver com todo o cenário nacional que estamos enfrentando, com altíssimo desemprego, grave crise na Segurança Pública, de corrupção desenfreada. A população enxerga que precisa escolher um perfil mais conservador do que já foi apresentado até agora. Os progressistas só afundaram o nosso país, incluindo a Educação. Então estão enxergando no Bolsonaro uma tábua de salvação para o país dar uma endireitada. Dar uma guinada para a ordem, desenvolvimento e progresso. E como se dá isso? Com uma pessoa com independência política, que não vai chegar, se for a vontade de Deus, a uma presidência da República e fazer tudo que os outros estão fazendo. Por exemplo, comprando deputado para aprovar matéria de interesse do governo. Não é nossa linha. Por qual motivo o Bolsonaro está com mais de 20% das intenções de votos e nenhum partido quer se aproximar dele para fazer coligação, já que ele é o principal potencial candidato à presidência? Nós não falamos a mesma língua deles e queremos preservar esse valor até o final de nossas vidas públicas. Se quiserem caminhar conosco, a forma de fazer política é diferente. Garantindo que o Congresso Nacional cumpra o seu papel legítimo de fiscalizar, de participar, sim, do orçamento, trazer as demandas da população que são responsabilidade do presidente para que sejam resolvidas. Você pega qualquer pleito de uma bancada ruralista, bancada da segurança, bancada religiosa. Quais são os pleitos em cada localidade? Vamos resolver, sem toma lá, dá cá. É assim que acreditamos que vamos tirar o Brasil desse buraco.

 

Folha – Sem Lula, seu pai lidera para presidente em todas as pesquisas. A mais recente foi feita pela CNT entre 9 e 12 de maio. Nela, sem Lula, Bolsonaro ficou com 18,5% das intenções de voto. Entre 20% a 20,9%, ele também liderava nos três cenários sem Lula da pesquisa anterior do mesmo instituto, realizada entre 28 de fevereiro e 3 de março. Mesmo dentro da margem de erro, é uma queda de cerca de dois pontos. Mas o fato é que, pela CNT, Bolsonaro não cresceu nos últimos dois meses. Não é muito cedo para bater teto? Como superá-lo?

Bolsonaro – Tenho a convicção de que, primeiro, os números de Bolsonaro não são esses e, definitivamente, são muito maiores. Qualquer pesquisa no Google, no Youtube mostra como ele é recebido em aeroportos, em cidades de onde são muitos dos políticos que estão aí, que mantiveram o povo na pobreza e desempregado. A gente não faz política para agradar ou desagradar alguém ou preocupado com os números. Nosso trabalho é diário. Tijolinho por tijolinho, para construir essa força. Não gosto de ficar analisando esses números friamente. Como falei, tenho muita desconfiança com relação a essas pesquisas. Tenho certeza, o Lula nem está nesse tamanho todo. Você pega a Marina com 12%. Eu não conheço uma pessoa que vote na Marina. Nem o amigo de um amigo que conhece alguém que vote nela. Ninguém. Como que ela está com isso tudo? Dez por cento é muito. Não está. Se, oficialmente, Bolsonaro está mais do que os segundo e terceiro colocados juntos, é sinal de que ele está muito maior. A gente percebe que quanto mais a verdade aparece, mais o Bolsonaro cresce.

 

Folha – Sem falar nos números, vamos discutir a tendência. Como a CNT em duas pesquisas com dois meses de diferença e não indica crescimento, a questão do teto é algo importante em qualquer eleição. Todo candidato tem um teto. Ele pode alcançar antes ou depois, como um atleta, que tem um pico e depois cai. Se essa pesquisa CNT estiver certa e esse teto tiver sido batido, não está muito cedo?

Bolsonaro – Primeiro que se você pegar da CNT, dá 18%, se pegar da Paraná Pesquisas dá 26%, 25%. A diferença é muito grande…

 

Folha – A Paraná deu a Bolsonaro 19,5% com Lula e 20,5%, sem.

Bolsonaro – Na minha avaliação, o que os institutos estão pegando é o piso dele e não o teto. Além disso, tem as pessoas que não declaram voto, o que é uma característica do nosso eleitorado. Vota quietinho. Está mudando esse panorama, esse perfil com a internet. Além dos indecisos também. Hoje, Bolsonaro tem dois aspectos que está buscando e que não tem nenhum outro candidato com essa capacidade. É o perfil, melhor dizendo, para buscar. São os votos nulos. Então, o voto de protesto contra toda essa corrupção pode ser o Bolsonaro.  Acho que isso está muito longe de ser o teto dele.

 

Folha – E qual seria o teto?

Bolsonaro – Não dá para saber. Acredito que, dependendo de como as coisas forem acontecendo até a campanha, os fatores forem influenciando, como Lava Jato, as operações aqui no Rio de Janeiro também, e as alianças que muita gente faz, vendendo a alma ao diabo em troca de tempo de televisão, podem acabar favorecendo ao Bolsonaro também. O único que é contra esse sistema podre, realmente, é o Bolsonaro.

 

Folha – Você falou da desconfiança sobre o Datafolha. Das três últimas pesquisas, falamos da CNT e da Paraná. A Datafolha mais recente, feita entre 11 e 13 de abril, deu seu pai, com 17% das intenções de voto, empatado na margem de erro de dois pontos com a ex-senadora Marina Silva (Rede), que teve 15%. É uma pesquisa mais antiga que a Paraná e a CNT, que deram Bolsonaro isolado, respectivamente, com 20,5% e 18,5%, contra os 12% e 11,2% de Marina. Acha que a próxima Datafolha confirmará essa tendência e trará seu pai já descolado na liderança?

Bolsonaro – Acho que o Datafolha nunca assumirá que o Bolsonaro está disparado na frente desse jeito. Eles manipulam as pesquisas. E se não manipulam, são muito incompetentes, porque eles erram. Dei o exemplo que aconteceu comigo, com 100% de diferença de um dia para o outro. Como o Datafolha é ligado à Folha de São Paulo, que é um veículo que está apontando claramente contra nós com inverdades. Eles não têm a menor credibilidade, são totalmente fake news para mim.

 

(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Folha – Além de Marina, criticada pelos petistas por ter apoiado Aécio Neves (PSDB) no segundo turno de 2014 e o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a esquerda tem ainda Ciro Gomes (PDT), que aparece em terceiro nas pesquisas. Mas depois de ter uma aliança com o PT, que daria a vice, descartada por Lula, o político cearense já teria sondado o presidente da Coteminas, Josué de Alencar, e estaria agora flertando com Benjamin Steinbruch (PP), banqueiro e um dos homens mais ricos do país, para compor sua chapa. Isso sinaliza a demanda de virar à direita, ou pelo menos ao centro, para se eleger presidente?

Bolsonaro – Isso demonstra uma manobra para tentar enganar o grande empresariado do Brasil. O Ciro Gomes é um cara altamente estatista, que tem falado abertamente que vai perseguir os grandes empreendedores e qualquer um que gere emprego e renda neste país e que tenha lucro. Ele acha que o empresário que tem lucro é explorando os trabalhadores de uma forma cruel. Ele diz até que pretende rever o aumento da contribuição de impostos por parte dessas pessoas. O empresariado não é bobo. O Ciro não passa nenhuma credibilidade para esse setor.

 

Folha – Seu pai também tem quebrado ao centro para tentar desfazer a imagem de radical de direita. Após ter proposto em 1999 o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), por conta das privatizações do governo, ele hoje admite privatizar até a Petrobras, como fez em visita aos EUA em outubro. Um dos principais problemas do Brasil, a economia é tida com um dos pontos fracos de Bolsonaro. Em evento de fevereiro em São Paulo, para empresários e investidores, ele admitiu: “não entendo nada de economia”. Basta ter o economista e ex-banqueiro Paulo Guedes na equipe?

Bolsonaro – O radicalismo do Bolsonaro é contra a corrupção, contra os marginais, então, esses rótulos que tentam colocar nele como se fosse uma pessoa desequilibrada são totalmente equivocados. Ele é uma pessoa extremamente preparada, inteligentíssima, passou em um dos concursos mais difíceis do Brasil, na década de 1970, na Academia Militar das Agulhas Negras. Uma pessoa que sempre estudou em escola pública e subiu na vida pelos próprios méritos. E o que ele passa ao falar de economia é a sinceridade. Ele não vai vender uma coisa que ele não é para a população, ele não vai topar qualquer parada pelo voto, ele não vai enganar a população. Se ele não tem domínio profundo, tem entendimento razoável sobre todos os temas. Se na economia não possui um profundo conhecimento, está com um dos melhores economistas do país na equipe, talvez o melhor, que é o Paulo Guedes. É uma pessoa que tem o orientado, o convencido de muitas ideias que ele antes não compreendia muito bem e que agora compreende muito melhor. Mostra que é uma pessoa flexível nesse aspecto. Todos que escolherem Bolsonaro como representante, se assim a convenção partidária definir, vão saber os nomes de muitos de seus futuros ministros porque ele é o único que vai ter independência para escolher os melhores quadros.

 

Folha – Outro dos principais problemas do país, a Segurança Pública é o maior cabo eleitoral do seu pai. Na última quarta (16), completaram-se três meses desde que o Exército assumiu essa pasta com a intervenção federal no Estado do Rio. E a sensação geral não é de melhora. Considerado em 2017 como a 45ª cidade mais violenta do mundo (14ª entre as 17 cidades brasileiras listadas) pela organização mexicana Segurança, Justiça e Paz, Campos teve 103 homicídios em 2018, 13 só em maio. A causa principal é uma disputa entre facções criminosas pelo domínio do tráfico de drogas em Guarus. Qual a solução?

Bolsonaro – Passa por vários setores. Vamos falar só da parte final. Em primeiro lugar, tem que mudar muita coisa dentro da própria corporação. O policial tem dificuldades para trabalhar, tem dificuldades financeiras, o Estado não honra com seus compromissos e, sem falar, que estrategicamente estão muito mal distribuídos. Esse projeto da UPP começou muito bem, mas depois que passou a ter um cunho eleitoral. Quando chegou até 10 UPPs no Rio, a Polícia Militar tinha o controle, dava para abrir mais uma por ter efetivo. Mas chega ao momento, hoje, que temos 39. Todo efetivo que foi empregado em UPPs deixou de ser empregado nos efetivos dos batalhões, que foram perdendo, ao longo do tempo, como aconteceu aqui em Campos. Então, o efetivo do batalhão aqui hoje é muito menor do que o de cinco anos atrás. A criminalidade espalhada por todo o estado, mais uma vez, por uma estratégia das UPPs que anunciava onde iria ser instalada a próxima, dando tempo para os marginais fugirem.São Gonçalo e Niterói viraram um inferno. Niterói era uma das cidades com melhor qualidade de vida do Rio de Janeiro, mas hoje é altamente violenta. Aconteceu também com Macaé, com Campos… E como se resolve isso? Primeiro, é ter coragem de dar um passo para trás para dar cinco para frente. Revendo totalmente as UPPs.

 

Folha – Essa frase “dar um passo atrás para dar dois à frente” é de Lenin (líder da Revolução Russa de 1917).

Bolsonaro – Mas eu falei cinco à frente, então é Bolsonaro. Lenin é atrasado (risos). A questão do efetivo precisa ser revista para áreas onde há maior incidência de crimes. E, segundo, mudar a legislação. Hoje se você perguntar para qualquer policial na rua, ele vai dizer que tem medo de agir. Se ele age contra um cara armado que está assaltando e dá cinco tiros, a chance dele responder por ter agido com excesso é muito grande. O policial pode ir para a cadeia por ter matado um marginal. Ou se ele não age, a chance dele morrer também é muito grande. O marginal o identifica como inimigo e atira para matar, tem certeza da impunidade. Precisamos mudar a legislação para dar segurança jurídica para nosso policial agir sem medo de virar réu. E eu posso garantir uma coisa: implementando isso, o governo Bolsonaro vai ser marcado por aumentar a taxa de homicídios, mas de marginais. Com bandido que está portando fuzil, levando terror para as nossas ruas, não tem que ter pena, tem que ser eliminado, como aconteceu na intervenção militar no Haiti. E além disso, aqui a polícia tem outro complicador, mas aí é culpa do Judiciário. Hoje existe uma coisa chamada audiência de custódia e é uma resolução do Conselho Nacional de Justiça. O que é isso? O policial prendeu alguém em flagrante. Em 24 horas esse policial tem que apresentar esse bandido ao juiz, que vai decidir se ele responde em liberdade ou não. Aqui no Rio de Janeiro, em quase 60% dos casos o marginal sai antes do policial da audiência de custódia e ainda responde em liberdade. Não tem como dar certo com uma legislação assim, por exemplo, que ainda protege o menor de idade. Um bandido, um estuprador, um sequestrador, um assaltante. Com 16 anos, faz o que faz, certo da impunidade e rapidamente está de volta às ruas. Três fatores: segurança jurídica, para o policial ter tranquilidade para trabalhar; fim da audiência de custódia; e redução da maioridade penal.

 

Folha – O discurso é de não fazer qualquer coisa para ganhar o voto dos deputados. O fato é que a Constituição de 1988 é considerada parlamentarista. Entretanto, o regime de governo que venceu o plebiscito de 1993 foi o presidencialismo. Ficamos num hibridismo chamado de presidencialismo de coalisão ou de “cooptação”. Você está falando de mudança na legislação, de Código Penal. Como fazer isso?

Bolsonaro – Quem vai responder é o Congresso, e mais, temos uma eleição pela frente. Estamos batendo na tecla, há algum tempo, da importância do voto em deputados e senadores com os perfis que seriam favoráveis a essas medidas. A bola está com a população. O presidente tem a influência maior de tentar pautar esses projetos com mais prioridade. Então, pautou o projeto sobre a redução da maioridade penal, se o Congresso entender, ao contrário da população, de que não deve reduzir, a responsabilidade não é da presidência, é do Congresso. E como é que o Jair está tentando buscar esse apoio amplo? É não haver troca de voto por ministério, por cargo, por dinheiro. O que ele está propondo é de dar uma real autonomia para os deputados e senadores e trazer o que for de demanda. Por exemplo, a bancada da segurança traz uma demanda para conseguir um convênio da União com o seu respectivo estado para investir na Polícia Militar. Ele, o parlamentar, é o padrinho dessa medida, ele que tem o ganho político. Esse é o papel do parlamentar. Outra medida que ele pretende tomar para diminuir essa margem para negociações espúrias é a redução de ministérios, a extinção de várias estatais.

 

Folha – Ninguém imagina que o PSL vá sair dessa eleição com uma bancada próxima a de MDB, PSDB, PT ou DEM. Vai ter que ter algum tipo de mediação. Muito se fala que se o próximo presidente da República não fizer a reforma da Previdência, não termina o mandato. E se tentar fazer, pode ser que caia também.

Bolsonaro – O erro do Temer foi enviar para o Congresso uma reforma impossível de ser aprovada. O ótimo, nesse caso, foi inimigo do bom. Se ele manda uma proposta mais diluída no tempo, para que as mudanças fossem feitas mais ao longo do tempo, ela passaria. Como você fala para um cara do Nordeste, que tem a expectativa de vida de quase 70 anos, e que ele vai ter que trabalhar até 75? Vai trabalhar até morrer? Aí não passa mesmo. O que a gente tem falado muito é de propor um novo modelo de previdência para aqueles que estão entrando agora, algo que seja autossustentável. Mas os detalhes disso estão nas mãos do Paulo Guedes e em breve todos vão saber na proposta de governo.

 

Folha – Outro dos carros chefes de Bolsonaro é a imagem de probidade em meio à corrupção sistêmica eviscerada pela Lava Jato. Acredita que isso tenha sido arranhado pela matéria da Folha de São Paulo que revelou a evolução patrimonial dele, sua e de seus dois irmãos políticos (Eduardo, deputado federal por SP, e Carlos, vereador no Rio), que hoje são donos de 13 imóveis, no valor de mercado de R$ 15 milhões? O que pode dizer sobre as operações envolvendo 19 imóveis na Zona Sul do Rio e na Barra, que você teria feito?

Bolsonaro – Quem dera (risos). Essa matéria fortaleceu o Jair. Ela é tão ridícula, tão banal, tão amadora, que todo mundo percebe que existe uma perseguição por parte desse veículo de imprensa. Primeiro, eles pegam o patrimônio de quatro pessoas diferentes, de quatro CPFs diferentes e colocam em um bolo só para dar a impressão de que a família inteira enriqueceu ilicitamente junta. Eu sou casado, meu irmão é solteiro, meu pai já foi divorciado. A evolução de nossos patrimônios é completamente diferente. Quem dera meus imóveis valessem tanto assim. Queria vender tudo para a prefeitura e para o governo do Estado para ver se eles vão me pagar um terço disso. Não ia. Uma matéria fraquíssima, que tenta induzir o eleitor como se fôssemos corruptos e enriquecidos ilicitamente. O nosso patrimônio, e digo por nós quatro, são todos declarados no Imposto de Renda. É um desrespeito com os leitores do próprio jornal nessa ânsia de querer atacar Bolsonaro com coisas que não existem.

 

Folha – Bolsonaro e boa parte dos seus eleitores defendem a nossa última ditadura militar (1964/85). Dá para defender um regime em que 434 opositores políticos foram mortos ou desaparecidos, que torturou e exilou outros tantos, suprimiu garantias individuais básicas como a habeas corpus, impediu eleição direta de presidente por 25 anos, censurou a imprensa e as artes, fechou o Congresso, praticou atendados com bombas como no caso do Rio Centro, dissolveu violentamente passeatas coma as que depois levariam ao impeachment de Dilma, além de entregar o país com uma inflação de 239% ao ano?

Bolsonaro – Regime militar, a gente chama. O Brasil deve muito aos militares, inclusive a democracia que a gente vive hoje. Em 1964 o que aconteceu foi o Congresso Nacional, cumprindo as normas constitucionais, declararam vago o cargo de João Goulart e elegeram Castelo Branco presidente do Brasil, com apoio em peso da população, de praticamente todos os veículos de comunicação, OAB, todas as igrejas. Você sabia que Afonso Arinos votou em Castelo Branco? Você sabia que Ulysses Guimarães votou em Castelo Branco? Está publicado no Diário Oficial da União. Só não lê quem não quer. Então se houve golpe em 1964, houve golpe agora com a Dilma. Essa é a narrativa que a esquerda tenta trazer para a população e que é mentirosa.

 

Folha – Você sabia que o general Mourão Filho deslocou suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro, em 31 de março de 1964?

Bolsonaro – Os militares tinham um planejamento e, no final da década de 1960, os militantes terroristas de esquerda começaram a assaltar banco, sequestrar autoridade, roubar fuzil de quartel. Qual tratamento você quer que dê para eles? Rosinhas? Porrada mesmo, era guerra. O mundo vivia a Guerra Fria, o Brasil existia o receio de que virássemos comunistas aliado a países altamente atrasados e autoritários com ditaduras, como União Soviética, Coreia do Norte, Cuba. O brasileiro não queria isso, o brasileiro apoiou os militares para chegarem ao poder. Houve essa radicalização dos terroristas que exigiu por parte do governo uma resposta à altura.

 

Folha – Você tem aparecido com seu colega na Alerj Bruno Dauaire (PRP) e hoje está vindo a Campos com Gil Vianna (PSL), que chegou a ocupar uma cadeira de deputado estadual. Quais são as relações com a política do município e da região? Vai apoiar alguém daqui em outubro, caso sejam confirmadas as candidaturas após convenções?

Bolsonaro – Meu apoio aqui será para os candidatos do PSL. Tem aqui o Gil Vianna, pré-candidato a deputado estadual, tem o (ex-vereador) Papinha, pré-candidato a deputado federal, tem o (policial rodoviário federal) Charles Batista, que esteve recentemente comigo em uma palestra e, apesar de não ser de Campos, tem o apoio da Direita Campos, um movimento de apoio voluntário. A relação que tenho com o Dauaire, primeiro que ele foi meu colega de faculdade. Fizemos Direito juntos na Cândido Mendes. Ele foi meu calouro. Estamos exercendo o mandato e estivemos juntos em um evento dos guardas municipais do Rio, que é uma bandeira que também defendo, a exemplo dele. Mas o nosso apoio institucional será para os candidatos do PSL. É óbvio que se ele quiser pedir voto para mim, não vou negar. Vindo dele, considero uma pessoa qualificada, que exerce um bom mandato, representa bem, inclusive, as guardas e as forças de segurança. Ele pedindo voto para Flávio Bolsonaro para o Senado vou aceitar de bom grado.

 

Folha – Ele está no grupo do ex-governador Anthony Garotinho (PRP). Qual sua relação com ele?

Bolsonaro – Como falei, o eleitor escolhe a pessoa e não o partido, o grupo. Óbvio que isso pode influenciar negativamente no meu candidato. Desde que Rosinha Garotinho (Patri) foi governadora, eu fui deputado de oposição. Garotinho era secretário de Segurança Pública e foi convocado por mim na Comissão de Segurança da Alerj para explicar os problemas que a PM enfrentava.

 

Folha – Foi nesse período que ele foi condenado como “chefe de quadrilha armada”.

Bolsonaro – O Garotinho tem sérios problemas (com a Justiça).

 

Folha – Pela atuação dele como secretário de Segurança foi condenado na Justiça Federal como “chefe de quadrilha”.

Bolsonaro – Não sei se foi uma condenação definitiva ou não…

 

Folha – Foi em primeira instância.

Bolsonaro – Algumas vozes correntes que chegam aos nossos ouvidos dizem que ele mantinha uma “normalidade” no sistema penitenciário muito esquisita, muito suspeita. Acho que se ele fosse um pouco mais rigoroso nas regras do sistema penitenciário…

 

Folha – Tinha o Álvaro Lins na mesma condenação…

Bolsonaro – Votei para ele ser cassado como deputado. Então, obviamente, não tenho nenhum interesse em me aproximar do clã Garotinho e nem ele da gente, acredito eu. Mas o Bruno Dauaire é uma pessoa que exerce um bom mandato, mas está muito mal amparado com o clã Garotinho (risos).

 

Folha – Na noite do último dia 8, você fez uma palestra que lotou o auditório da Faculdade de Direito de Campos (FDC). Além da presença maciça de público, o evento também ficou marcado pela parte mais à frente da plateia ter sido composta de policiais rodoviários federais fardados e armados, além de praticantes de jiu-jtsu vestidos com quimonos de luta. Essa é a indumentária que se espera em um evento político? Ou foi pensado para tentar intimidar fisicamente qualquer opositor que aparecesse?

Bolsonaro – Não, intimidar de forma alguma, não. São pessoas, representantes de segmentos que eu respeito demais. Tenho o maior orgulho de tê-los no meu time. Repito, pessoas legalmente armadas trazem segurança para mim e para todo o público que estiver ali. Havia uma pessoa na mesa da categoria, dos policiais rodoviários federais, que convidou aqueles profissionais para estarem ali e eles são muito bem-vindos. Queria que todo mundo no auditório tivesse arma. Seria o sinal de que ninguém ali correria o risco de sofrer qualquer ação de algum bandido.

 

Folha – Falando sinceramente, se um comício de alguém do PT tivesse na plateia pessoas de kimono e armadas, você iria assim mesmo?

Bolsonaro – Mas não podemos ter esse olhar discriminatório para a luta. É a vestimenta deles. Inclusive são as pessoas ali das mais graduadas nesse segmento no estado. Inclusive recebi a faixa preta honorária de um deles, simbolicamente.

 

Folha – Você pratica jiu-jitsu?

Bolsonaro – Não pratico, mas foi uma faixa preta honorária. Eu pratico tiro esportivo (risos).

 

Página 2 da Folha de hoje (20)

 

 

Página 3 da Folha de hoje (20)

 

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

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Flávio Bolsonaro e Marcelo Freixo neste domingo na Folha da Manhã

 

Flávio Bolsonaro na Folha da Manhã (Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Na última sexta (18), respectivamente com os jornalistas Aldir Sales e Paula Vigneron, entrevistei os deputados estaduais Flávio Bolsonaro (PSL) e Marcelo Freixo (Psol). O primeiro é o pré-candidato ao Senado líder nas pesquisas, enquanto do segundo se espera uma bela votação na sua pré-candidatura a deputado federal. As duas entrevistas serão publicadas na edição deste domingo (19) da Folha da Manhã.

 

Depois de Bolsonaro, foi a vez de Marcelo Freixo (Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

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Sérgio Arruda de Moura — Uma contista já pronta

 

Paula Vigneron no lançamento de “Entre outros”, seu segundo livro de contos

 

 

 

 

Conduzindo a palavra

Por Sérgio Arruda de Moura(*)

 

Os 32 contos reunidos em “Entre outros”, da jornalista e escritora Paula Vigneron, publicados recentemente pela editora Mucufo, são exercícios bastante intensos de leitura sob o escopo da imersão psicológica da vida de personagens. Os perfis aqui delineados se debatem na sutileza das relações entre o homem e a mulher, mas não apenas. No cômputo geral, são exercícios literários bastante concisos de linguagem em busca de suas possibilidades de sentido, análise mesmo, de uma contista já pronta e que já definiu caminhos bastante sólidos de sua escritura.

A descrição da cena, do gesto, do sentimento, aliada à análise fina de si é o motor dessas pequenas pérolas, pequenas porque curtas e concisas, em que nada é fortuito ou ocasional, mas minuciosamente encaixado. Os diálogos, as indicações de espaço e tempo, o ritmo, são sempre muito econômicos, definindo mesmo um estilo. A frase curta, porque o pensamento é direto e rápido, não tem tempo a perder com divagações sem foco. Cada frase, nesse formato, estuda o gesto e capta o instante, sem retóricas, sem estilismos adaptados, sem figurações excessivas. É aqui que nasce a poética da jovem autora: a busca da dimensão psicológica dos personagens, que podem ser qualquer um de nós, captado na rua, observado no cotidiano, flagrado em trânsito, evocado e construído no manuseio da sentença precisa. Melhor: da palavra exata.

A contista Paula Vigneron já vinha conquistando essa destreza desde “Sete balas ao luar”, seu livro de contos anterior, sendo que o que temos agora é um progresso, um amadurecimento, na arte de conduzir uma narrativa. Os contos, perfilados, compõem um painel de tipos, de sonhadores e realistas sob a capa de gente comum, não estereotipada, querendo dar conta de uma pequena mostra da humanidade, vivendo conflitos consigo mesmos, compreendendo, avaliando ou matando os pequenos monstros interiores que barram a felicidade. Sim, são contos que buscam o lugar onde estão as coisas pelas quais vale a pena viver.

Os instantâneos da vida real não costumam povoar os livros de conto com tanto realismo, e sem exercícios metalinguísticos, ou de humor. Seria o caso de se perguntar onde a autora, sendo tão jovem, foi buscar tanta vivência. Me arrisco a dizer que nas suas linhas se escondem uma Lygia Fagundes Telles e uma Clarice Lispector, tal o exercício de busca.

Em primeira ou terceira pessoa, não importa, o foco na ilusão do que resta ou do que se perdeu entre os amantes, marca sua escrita intimista, sobre o encontro, o desencontro, a permanência ou a partida. Não é a ilusão que satisfará o personagem de Paula, mas uma decisão.

Em alguns dos contos, como “Resquícios”, o sentido da fatalidade, revela-se em poucas palavras, dispostas em liberdade para que o leitor “viaje” na leitura. Mais sutileza e uso preciso da palavra impossível. Este conto narra a decisão de um suicídio, nada mais pessoal e intransferível.

Em “Retrato”, apenas a primeira e a última frase fechando o breve conto diz sobre como uma fotografia evoca a memória. É a narrativa-síntese sobre a brevidade e a evocação do vivido pela lembrança. Em “Entre estranhos”, o fim de relacionamento com um balanço, um ajuizamento que conduzirá as duas partes dispersas agora com uma experiência dolorida na bagagem, a seu favor. Em “Metades”, a autoavaliação em face de si mesmo, uma súbita tomada de conhecimento, como uma epifania, marca a decisão. Aqui, reforço a convicção que criei de que seus personagens são decididos e se conhecem, ou buscam se conhecer, sem medos ou hesitações.

Enfim, “Entre outros” com sua capa sugestiva no trabalho gráfico de Mara Oliveira, engrandece a ficção campista sem se referir propriamente as suas peculiaridades e aos seus tipos urbanos ou folclóricos. E isso é bom, porque contribui para dar um status cosmopolita a essa cidade, acusada ainda de ser provinciana.

 

(*) Professor de Letras da Uenf

 

Página 2 da edição de hoje (18) da Folha Dois

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

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Guiomar Valdez — “É declarada extinta, desde a data desta lei, a escravidão no Brasil”

 

 

 

No domingo que iniciou esta semana, 13 de maio, completaram 130 anos da Abolição do Trabalho Escravo no Brasil. A cada ano que passa, venho observando que se tornaram ‘anêmicos’ os debates, as manifestações e os eventos sobre o conteúdo dessa data dentro do processo histórico brasileiro. Parece que se esgotaram a importância e também as críticas de suas limitações. Parece que já está tudo compreendido para todos. Como lembra a historiadora Lilia Schwarcz (USP), já um ano meio depois desta lei, a República chegou e no seu hino, de forte poder simbólico, há uma estrofe muito conhecida: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”. Mas, também possui uma, que afirma: “Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país”! Ou seja, já, naquele momento, os republicanos afirmavam não acreditar mais que tivesse havido trabalho escravo. Segundo ela, isto representava um processo de ‘amnésia nacional’.

Pois bem, esta minha observação, sobre a ‘anemia’ ou a ‘secundarização’ desse fato histórico, talvez seja fruto da cultura da ‘modernidade líquida’ em que vivemos. Até porque, nestes tempos, até a História já foi condenada à morte. Para os desavisados (mal-intencionados ou não) só existe o ‘presente contínuo’, versão just-time. É óbvio que nenhum fato histórico deve ser recuperado de forma despolitizada, de maneira messiânica/personalista e desarticulada do espaço, do tempo, da estrutura material e da cultura, ou seja, de forma fragmentada/isolada. Entretanto, tenho a hipótese de que é isso que vem acontecendo sobre os eventos, debates, manifestações, que tratam das mazelas, dos desdobramentos, das permanências, sobre o histórico do trabalho escravo em nosso país.

A ‘amnésia nacional’, passa também por não mais compreendermos a História como processo no espaço-tempo. No que resulta numa atomização temática, presente em muitos movimentos sociais, como, por exemplo, os que tratam do racismo estrutural, perpetuado em nossa sociedade, que, absurdamente, se apresenta em movimentos e lutas, distanciado da realidade das categorias interpretativas, classe e trabalho. E, sendo assim, completamente distanciado da ideia de racismo também como ideologia, tão bem constituída/formulada já no final do século XIX, como uma importantíssima estratégia de expansão e dominação do sistema capital. Sempre atualizada/revisada, seja para atender a mundialização sistêmica, seja para reproduzir/dominar diante da diversidade histórica local/regional/nacional.

As ‘diásporas ou migrações contemporâneas’, com seus racismos e fundamentalismos, estão aí como versão atualizada do contexto das ‘diásporas dos séculos XVI a XIX’ no Ocidente. A partir do século XX até hoje, são agudizadas, tendo a guerra como meio e fim da acumulação sistêmica em busca do domínio das mercadorias estratégicas.

Se nos tornarmos ‘míopes’ na interpretação das lutas contra o nosso racismo, no mínimo, culparemos apenas o passado, nos embaçará a perspectiva da História enquanto processo, dessa barbárie que é o racismo. Neste sentido, é pertinente a compreensão de que, de acordo com o historiador Amilcar Araújo Pereira (UFRJ): “As estratégias racistas para a perpetuação dos privilégios para a população branca no Brasil não são uma herança permanente da escravidão. O que há são diversas formas de atualização desses processos discriminatórios e que vão resultar nas desigualdades raciais com as quais convivemos hoje”. Ou seja, ao longo dos 130 anos da lei que põe fim ao trabalho escravo, demos continuidade e foi se radicalizando o racismo estrutural.

O ‘bom combate’ ao nosso racismo estrutural, potencializando-o para a superação de qualquer forma político-cultural que hierarquize os seres humanos, passa por compreendê-lo como processo histórico, como decorrente de lutas e muitas lutas dos que sofrem o preconceito e a discriminação da ideologia racista, bem como dos que se tornam apoiadores ou se ‘convertem’ a esta causa mesmo não tendo o perfil traçado do racismo em questão. Nessas batalhas marcadas por derrotas, mas, também, por vitórias, é preciso estarmos atentos às construções personalistas e de heroísmos às avessas, já que não estamos tratando de história pessoal, mas, de História coletiva, de um grupo, de uma comunidade, de uma sociedade.

Derrotas e vitórias não devem ser superestimadas, nem subestimadas, como também, os espaços onde elas acontecem, quando analisamos a História enquanto processo, dado ao seu dinamismo e a dialética enquanto seu tipo de movimento. Nesse sentido, não se deve hierarquizar os fatos históricos que concorreram e que concorrem até hoje para as vitórias na luta contra a ideologia do racismo em nosso país. Isso é muito perigoso, pode se voltar contra os movimentos sociais, no sentido da sua absorção aos ditames culturais hegemônicos. Logo, não combatendo o racismo estrutural.

A busca pela Justiça, traduzidas em Leis e num Direito mais includente e democrático, por exemplo, são importantes a serem resgatados, enquanto processo, memória coletiva, dos tantos e tantas que deram vida e sangue para o reconhecimento do problema em questão: o racismo, em seu tempo e espaços. Daí porque, minha preocupação, meu estranhamento, quanto à ‘anemia’, à ofuscação da Lei Áurea, nesse processo. Dada as suas limitações, sei que não há motivos para reduzir tudo a celebração despolitizada e personalizada; mas, e os lutadores e as batalhas, os debates na casa legislativa, as tensões, etc., para chegar até o momento da sua assinatura? Não são importantes?

Recordo agora algumas outras leis/conjuntos de princípios e afins, fruto do processo histórico, com seus atores a continuarem dando vida e sangue nessa construção: a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que em 1948, 60 anos após a Lei Áurea, afirmava que ‘ninguém será mantido em escravatura ou servidão’; a Lei Nº 1.390/1951 – ‘Afonso Arinos’, (63 anos depois), que, por exemplo, inclui entre as contravenções penais a prática de atos resultantes de preconceitos de raça ou de cor;  a Lei Nº 7.437 de dezembro de 1985, que inclui entre as contravenções penais a prática de atos resultantes de preconceito de raça, de cor, de sexo ou de estado civil; a Lei Nº 7.716/1989, a ‘Lei Caó’, que no seu artigo 1º, afirma que “serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, tornando a discriminação racial, crime; a Lei Nº 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira; toda legislação que diz respeito às políticas afirmativas/cotas; a Lei Nº 12.288/2010, que criou o Estatuto da Igualdade Racial, dentre outras coisas, definindo o significado de desigualdade racial: “toda situação injustificada de diferenciação de acesso e fruição de bens, serviços e oportunidades, nas esferas públicas ou privadas, em virtude de raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica”.

Eis o objetivo ao trazer este assunto: defender uma interpretação histórica que leve em consideração a totalidade social; que seja uma interpretação que articule todas as dimensões, jamais hierarquizando as dimensões, os fatos, os símbolos e os ‘personagens’! A fragmentação, muitas vezes presente nos movimentos sociais que combatem o nosso racismo estrutural, podem colaborar, mesmo sem perceber, para perpetuar a Cultura Política conservadora, alimentadora do status-quo e das razões conjunturais e estruturais da ideologia racial, protagonista da reprodução sistêmica. Do ponto de vista da economia-política crítica, tudo pode ser transformado em mercadoria, inclusive, e, principalmente, os símbolos, a capacidade criadora, dos movimentos de resistência e emancipadores!

Reflito com a psicanalista Maria Rita Kehl:

“Cabe perguntar que tipo de cisão do eu permite que o brasileiro ria das feridas sociais do país em que vive, como se estivesse sempre do lado de quem segura o cabo do chicote — como se não percebesse as lambadas e a humilhação que também o atingem. Será o nosso bovarismo social efeito de uma identificação com o opressor não em suas características avançadas (em termos de valores republicanos, lutas igualitárias etc.), mas sim como arremedo das aparências da civilização, conciliadas com a manutenção da versão contemporânea do escravismo em uma sociedade que continua criminosamente desigual?”

É isso! E mais! Como nos alerta Makota Valdina: “Não sou descendente de escravos. Eu descendo de seres humanos que foram escravizados”. As vitórias nestas batalhas existem, são reais, mas inconclusas; são reais, mas, não suficientes; são limitadas, mas, avançam, acumulam forças. Isso é processo! Afinal, as razões para esse ‘fardo do tempo histórico’ no combate ao nosso racismo estrutural, são as mesmas, desde a Lei Imperial Nº 3.353 de 13/05/1888 até os dias de hoje: a profunda, injusta e desumana desigualdade sócio-econômica-racial em nosso país!

 

Observação: Lilia Schwarcz (entrevista – www.bbc.com – BBC Brasil – 10/05/2018); Amilcar Araújo Pereira (entrevista – interceptbrasil.com.br – 11/05/2018); Maria Rita Kehl (livro autoral – “Bovarismo brasileiro” – Boitempo, 2018); Makota Valdina (entrevista – www.palmares.gov.br – 17/04/2013); site JUSBRASIL – jusbrasil.com.br).

 

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Paula Vigneron — Paralelos

 

Atafona, fim de tarde de 21 de janeiro de 2018 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

— Alan!

O homem se moveu rapidamente. Acendeu a luz. Olhou ao redor. Mais uma vez, estava sozinho. Era a segunda noite consecutiva em que acordava com a voz de uma mulher chamando-o. Não se lembrava qual havia sido a última vez em que dividira o quarto com alguém. Havia semanas. Meses. Anos? Não sabia. Apagou a luz e retornou à cama, refletindo sobre a solidão e o que ela estava causando nele.

Estava quase dormindo. Via-se caminhando por um bosque, desacompanhado, enquanto elaborava uma nova história em sua cabeça. O prazo dado pela editora estava expirando. Ele já tinha negociado todos os adiamentos possíveis com Nelson, que o criticava abertamente pela “irresponsabilidade e falta de comprometimento”. Mas o homem nada entendia sobre seu trabalho.

— Alan!

Pulou da cama e correu até o interruptor. Ainda com olhos meio fechados, analisou todo o espaço. Abriu a porta. Caminhou rapidamente por todos os cômodos. E se sentiu bobo. Infantil. “Atormentado por nada”, pensou no momento em que retornava ao quarto. “Me tornei um grande idiota”, concluiu, entre lamentos.

Mais uma vez, fechou os olhos. Retornou ao ponto em que estava. No bosque. Caminhando. Toda a narrativa se formava sem esforço em sua cabeça. O roteiro invisível parecia levá-lo a um descanso sob a árvore. Ele realmente andava exausto. Passava os dias entre possíveis ideias que poderiam ser apresentadas ao editor. Precisava dormir. Se pudesse, profundamente. E seria ali.

— Alan!

— Não é possível! — e acendeu o abajur. Na escrivaninha em que costumava trabalhar, estava sentada uma mulher. Os cabelos claros jogados para trás em uma desarrumação cuidadosa. O perfume doce quase enjoativo tomando o ambiente. As pernas balançando no ritmo de algum som que somente ela escutava. Os olhos vidrados nele.

— Quem é você? Como entrou aqui?

Ela sorriu maliciosamente. As unhas grandes e escuras ajeitavam as folhas deixadas sobre o computador. Ele detestava que mexessem em seus rascunhos.

— Tire a mão daí — e pegou os papéis enquanto a mulher gargalhava com o mesmo malicioso tom. Ele a olhava espantado. Não se lembrava daquele rosto. Não conhecia ninguém com aquelas roupas. Não seria capaz de dizer de onde e quem era nem como havia entrado em sua casa.

— Qual é o seu nome?

— Você sabe. E sabe bem.

Tentou se recordar. Ninguém tinha a chave de sua casa. Era cópia única. Exclusiva.

— Se soubesse, não estaria perguntando. E ainda quero saber como entrou em minha casa. Nunca a vi.

— Não. De fato. Mas me imaginou. Exatamente como sou. Todos os traços de meu corpo. Do cabelo enrolado à pinta nas nádegas, como você disse. Acho que poderia ser mais simples. Poderia ser bunda mesmo.

Ele continuava sem entender.

— Sim. Não me olhe com espanto. Você tem mania de seguir o pensamento politicamente correto em seu trabalho.

— Mas eu não poderia ver suas nádegas em meu ambiente de trabalho. Aqui, este lugar é o meu ambiente de trabalho. E não o compartilho com colegas, muito menos com estranhos.

— Prazer, Estela.

“Estela. O jeito malicioso era uma combinação desajeitada da menina e da mulher que ela conservava em seu interior. Ora, desaforada. Ora, doce. Por vezes, deselegante com quem julgasse necessário. Não hesitaria em invadir o quarto de um estranho que a interessasse.”

— Mas isso não é possível! – disse Alan enquanto corria para a sua mesa de trabalho. Procurou, procurou, procurou. Revirou os papéis desordenados. Lembrava-se de que havia marcado a folha com um traço de hidrocor vermelho.

— É esta que você está procurando? — perguntou a mulher, sacudindo um papel parcialmente escrito.

— Sim. Essa — e pegou da mão de Estela. Leu trechos da história inacabada. Ali estava o nome dela. — Não é possível.

— É, sim. Há tempos, ando chateada com você. Como é possível você começar a traçar as primeiras linhas sobre minha história e deixá-la de lado, dias depois? Ficarei ao seu lado até que você tenha posto o ponto final.

Ele continuava a observá-la atentamente. Devia ter bebido demais naquela noite. Estava se sentindo desanimado pela falta de criatividade que passara a acompanhar seus dias.

— Então? Não vai começar a trabalhar?

— Pelo amor de Deus, me deixa dormir — e andou até o interruptor. Ao olhar para trás, a mulher estava deitada em sua cama. Não tinha espaço para ele. Ela mantinha a malícia. Ele entendeu o recado. Mudou a direção e caminhou até a cadeira, sentando-se. Ligou o computador. Buscou o arquivo. Estava fechado há semanas. Alan não sabia como retomar a história.

Bateu os dedos no teclado. Apagou. Tentou novamente. Apagou. Estava tenso.

— Dessa forma, não terá condições de me deixar seguir em frente, querido — disse Estela, sentando-se perto do homem. Leu a última frase do texto. — Que tal mudar o caminho? Olhe bem para mim. Acha que tenho cara de final feliz?

Ele a observou. Os traços. A expressão marcante. Encarando-a, notou que havia descrito a personagem de forma superficial. Realmente, não combinava com ela. Como um artista que esculpe seu objeto de trabalho, deslizou, novamente, os dedos sobre o teclado. Desta vez, em ritmo uniforme. Parava vez ou outra para ver o que Estela o dizia com seus movimentos peculiares. Se escrevesse algo que a desagradava, ela reclamava. Em voz alta ou silenciosamente. Acabara de aprender a lê-la.

“Após derrubar a última colher de açúcar, bebeu, de uma só vez, o resto do café amargo. Ponto final”, narrou Alan ao finalizar o texto. Respirou fundo, após fechar os olhos, reabrindo-os em seguida. Admirou o silêncio. Agora, somente agora, fora capaz de perceber que a voz e o cheiro e o gosto da mulher que criara perseguiam-no todas as horas do dia, desde que tentara esquecê-la.

Levantou-se da cadeira. Os primeiros raios de sol invadiam o quarto. Fechou a janela. Sentia-se renovado. Há tempos, não sabia o que era pôr o ponto final em uma história. Deitou-se. Nos últimos momentos de lucidez, sentiu uma respiração em seu pescoço e sorriu ao eco da risada maliciosa.

 

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Disputa entre facções instala guerra civil em Guarus

 

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (17) na Folha

 

Campos: 102 mortos em 2018

A intervenção federal no Estado do Rio dura três meses. E por mais que os militares venham se esforçando, os casos de violência reforçam a sensação de que nada mudou. Campos está longe de ser de ser exceção. Pelos números de 2017, foi considerada (aqui) a 45ª cidade mais violenta do mundo (14ª entre as 17 cidades brasileiras listadas) pela organização mexicana Segurança, Justiça e Paz. Com 102 homicídios em 2018, 12 só nos primeiros 16 dias de maio, o município teve ontem (16) mais dois (aqui): um jovem de 20 anos morto com um tiro na testa no Parque Eldorado e outro de 29, assassinado a tiros em Custodópolis, após ser perseguido por bandidos.

 

Armas contra crianças e gestante

Apesar dos dois novos homicídios, o caso de violência que mais revoltou os campistas, após ser viralizado nas redes sociais, foi (aqui) o de dois adultos e dois adolescentes armados que invadiram duas casas no Parque Santa Rosa. A Polícia Militar (PM) informou que eles queriam matar um homem, que moraria numa das casas. Não o encontrando, roubaram aparelhos eletrônicos e apontaram suas armas para crianças de 2, 4 e 7 anos, ameaçando também várias mulheres, uma delas grávida de seis meses. Os quatro são do Parque Santa Clara, onde foram presos pouco depois, com uma pistola calibre 380, dois revólveres 38 e 39 munições.

 

Do Mediterrâneo ao Paraíba

Os palcos da escalada da violência campista — Parques Eldorado, Santa Rosa e Santa Clara, assim como Custodópolis — integram uma área de disputa entre facções criminosas rivais que seus moradores e os policiais chamam de “Faixa de Gaza”. A referência é a uma estreita área da Palestina, espremida entre Israel, Egito e o Mar Mediterrâneo, palco de constantes conflitos armados entre árabes e judeus. Na margem esquerda do rio Paraíba do Sul, o problema não é religioso, mas sim a união entre as organizações do tráfico de drogas Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando Puro (TCP) na capital do Estado.

 

 

“Terror de Fiúza”

Em Campos, o tráfico da favela Tira Gosto é ligado ao TCP, e o da Baleeira, ao ADA. Ligado a este e apontado como chefe do tráfico do Santa Rosa, Francio da Conceição Batista, o Nolita, não aceitou a união. Após comandar uma série de invasões armadas nas casas populares do bairro, expulsando moradores, ele foi preso (aqui) em 8 de março, se dizendo “o terror de Fiúza”. A referência foi a André Fiúza, preso como chefe do tráfico da Tira Gosto, enquanto Amarildo dos Prazeres, o Tupã, cumpre pena por chefiar o tráfico da Baleeira. Mesmo presos, os dois tiveram áudios que teriam sido trocados entre si, falando de Nolita, vazados pelo WhatsApp.

 

Capa da Folha do último domingo (13)

 

A Síria é aqui

Em sua edição do último domingo, a Folha trouxe (aqui) uma matéria dos jornalistas Aldir Sales e Daniela Abreu sobre a violência em Campos e suas ligações intestinas com o crime organizado. Ela deu a manchete do jornal: “A Síria é aqui”. Do barril de pólvora do Oriente Médio à violência desenfreada na planície goitacá, uma personagem da reportagem foi o refugiado da Síria Haysam Mtanios, de 49 anos. Com a guerra civil em seu país, há quatro anos ele deixou sua capital, Damasco, para morar em Campos. E testemunhou as diferenças da barbárie semelhante: “Aqui bandido mata gente na rua, mas lá você se senta na rua e tem bombas”.

 

Casais Doria e Moro em Nova York na última terça (15)

 

Não basta ser…

“À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. A frase do imperador romano Julio César ao se separar da esposa Pompeia é muito usada nos dias de hoje quando o assunto é honestidade alheia. O juiz Sérgio Moro é responsável por levar a Lava Jato ao patamar de maior operação anticorrupção do mundo. Em Nova York, na última terça (15), recebeu mais um prêmio pelo trabalho, o de Personalidade do Ano da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Nem foi o fato, mas uma foto que ganhou destaque.

 

…deve parecer

Acompanhado da esposa, o juiz posou para foto com João Doria, do PSDB, que também estava com a esposa. As críticas ganharam as redes sociais, recordando outra fotografia, com outro tucano: o senador Aécio Neves. Esses cliques polêmicos endossam o discurso de seletividade da Lava Jato, ecoado por seguidores de políticos como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), condenado em um dos processos da operação.

 

Mulher de Moro

Para a advogada Rosangela Moro, esposa do magistrado, também é aplicada a frase de Júlio César. Informações sobre uma possível ligação dela com o PSDB sempre voltam a circular na internet. E aparecer em uma foto ao lado de um dos nomes de maior destaque do partido é apagar incêndio com gasolina. Ao casal, não basta ser honesto, deve parecer honesto.

 

Com o jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (17) na Folha da Manhã

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — As gambiarras da culpa social

 

“Villa Miséria”, em Buenos Aires

 

 

Não há nada que defina melhor um país subdesenvolvido do que a existência de favelas nele. Elas estão no Brasil e no resto de América Latina (chamadas villas misérias; chabolas, cantegriles, pueblos jovenes, etc.). O seu surgimento, permanência e até aumento mostra claramente a classe de governos que tiveram, e tem, os países onde elas estão: administrações que não são capazes de criar um sistema econômico que favoreça toda sua população, ou que nem sequer conseguem criar um sistema assistencialista eficiente capaz de integrá-las ao resto da cidade.

Em outras palavras, uma sociedade que tem favelas é aquela cujo estado é falho. Independente da visão ideológica que cada um possa ter, não há como não tirar a responsabilidade institucional para o fato de que existam territórios com pessoas largadas à sua própria sorte. Do ponto de vista da direita, pode se culpar ao governo de afogar com impostos e restrições a atividade econômica, diante a necessidade de manter um gasto público que não cabe no bolso do país. Desde a esquerda, se dirá que os governos nunca favoreceram a distribuição da riqueza, ou que deliberadamente decidiram manter a miséria para ter mão de obra barata, etc.

Para simplificar, uma analogia pode ser feita com os moradores de rua. Eles, muitas vezes, ocupam espaços públicos que deveriam ter outra finalidade do que servir de abrigo improvisado. Desde a direita, se protesta pela inação do estado em retirar as pessoas de lá. Desde a esquerda, se lamentam as políticas de exclusão que obrigaram o sujeito a dormir na praça — ou na porta dos Correios, no caso campista. Visto desde qualquer extremo, é o estado que não está fazendo a coisa correta.

Mas, qual deveria ser a coisa certa a fazer? O bom senso indica que é uma mistura das duas posições: oferecer ao indigente uma chance de estar num lugar melhor do que nesse espaço, e também fazer-lhe saber que não se tolerará que continue ali.

A mesma combinação de ações é a que teria que acontecer nas favelas: rigidez para impor a ordem, e ações sociais para criar uma alternativa viável para sair da marginalidade. O grande problema é que para fazer isso os governos precisam de dois elementos: vontade e recursos.

Os recursos, quando existem, vão sendo podados na medida em que passam pelas diferentes instâncias administrativas, com boas e más desculpas, e o que chega ao destino final é uma parte ínfima. Com a vontade acontece mais ou menos o mesmo: ela vai sendo cerceada pela ambição pessoal, as dificuldades da burocracia ou a simples apatia. Quem duvide disto, pode visitar um posto de saúde, uma delegacia, ou uma escola qualquer.

O resultado é o que está aí. É a nossa realidade latino-americana.

O pior é que todos sabem disso. O sabem os políticos, os gestores públicos, os servidores, os magistrados, e os cidadãos em geral. É um óbvio ululante que cria uma espécie de culpa coletiva, mas que em lugar gerar ações para solucionar o problema criam gambiarras institucionais. Desculpas paliativas.

São gambiarras institucionais, por exemplo, o sistema de progressão de pena, que faz com que um condenado saia da cadeia após cumprir um sexto da pena (‘criamos presídios desumanos. Façamos com que o cara fique pouco tempo lá’), a blindagem das escolas cariocas (‘não podemos deter os tiroteios, nem as balas perdidas’), o foro privilegiado (‘não podemos  garantir uma justiça eficiente e rápida para todos’), o sistema de cotas (‘não oferecemos uma educação básica niveladora’), os subsídios eternos a certas indústrias (‘não são capazes de competir’).

As soluções definitivas demandariam uma mudança de mentalidade que, basicamente, contempla austeridade, trabalho, eficiência, eliminação de privilégios e honestidade. Evidentemente, as nossas sociedades não estão dispostas a suportar tamanho sacrifício.

 

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Pichações na Uenf acendem o debate entre protesto e vandalismo

 

 

 

Capa da Folha da Manhã de hoje (16)

 

Pichações na Uenf

Desde o assassinato a tiros da vereadora carioca Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março, a Folha foi um dos tantos veículos de mídia do Estado, do Brasil e do mundo a cobrar a elucidação do crime bárbaro. Assim como tem noticiado todas as denúncias de corrupção do governo Michel Temer (MDB). Por isso mesmo tem independência para ecoar em seu noticiário (aqui) e nesta coluna de opinião os questionamentos feitos às pichações que amanheceram espalhadas ontem (15) nos prédios da Uenf, com palavras de ordem a favor da vereadora executada e contra o presidente em exercício.

 

Manifesto x integridade

Depois de brigar por sua implantação nos anos 1990, a Folha tem acompanhado atentamente a vida da instituição mais importante de ensino de Campos e região. A partir do fechamento (aqui) da Casa de Cultura Villa Maria, em 18 de abril do ano passado, este jornal cobrou da comunidade e do poder público (aqui, aqui e aqui) a reação devida à maior crise enfrentada pela Uenf em seus 27 anos, que se arrasta até os dias de hoje. Reitor da universidade neste momento de penúria financeira do Estado, Luis Passoni disse ontem sobre as pichações: “Embora compreenda a necessidade da juventude se manifestar, a gente tem que preservar a integridade do campus”.

 

Opiniões uenfianas

A fala do reitor da Uenf foi ecoada pelo professor de ciência política Hamilton Garcia: “Poderiam ter usado cartazes porque não danifica o patrimônio. É o espírito da época que entende que pichar não é um problema, mas é um equívoco”. Entre o corpo discente, houve divisão. Membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Gilberto Gomes disse: “Não houve depredação, mas tiveram o intuito de sujar. É uma forma de manifestação pacífica”. Outro universitário, Gabriel Marques ponderou: “Alguns dizem que é uma forma de se expressar, mas eu acho totalmente errado. Devemos agir com cautela e respeitar nosso patrimônio”.

 

Vida e morte

Todos os entrevistados ressaltaram o clima de Fla x Flu político vivido no país, do qual as pichações foram frutos. O “Marielle vive” merece ser ecoado. Sobretudo enquanto sua execução covarde não for devidamente solucionada, como o deputado federal Chico Alencar (Psol) cobrou (aqui) em entrevista exclusiva à Folha. Mas não sem o equilíbrio de uma parlamentar de esquerda, negra, lésbica e feminista, que também dava assistência às famílias dos PMs mortos da cidade do Rio. Já o “Fora Temer”, pichado em vários outros prédios de Campos, se refere a um governo talvez já morto e que só espera 1º de janeiro de 2019 para ser sepultado.

 

Sem clima?

Mesmo com a Copa do Mundo sendo na Rússia, a expectativa de faturamento em solos tupiniquins é grande. A estimativa é que 33% das micro e pequenas empresas esperam faturar com a torcida pela Seleção Brasileira. O comércio está pronto, só esperando os clientes. Nas ruas é que a empolgação anda devagar. Em tempos bicudos, com desemprego batendo a casa dos 13 milhões, está difícil encontrar em Campos, por exemplo, ruas enfeitadas já no clima para torcer. Até mesmo para se vestir para a Copa, com a sonhada camisa oficial, está puxado.

 

Negociações suspensas

A Coreia do Norte suspendeu as negociações com a Coreia do Sul e expõe como motivo os eventuais exercícios militares entre sul-coreanos e estadunidenses. Paralelamente, o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, informou que pode cancelar a reunião de cúpula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, marcada para o dia 12, em Cingapura.

 

Com os jornalistas Dora Paula Paes e Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

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Bolsonaro lidera sem Lula, PT queima navios e Ciro navega à direita

 

 

 

Lula e Bolsonaro lideram

Divulgada ontem, a pesquisa CNT/MDA confirmou duas tendências relevadas nas consultas anteriores: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda é o político mais popular do Brasil, com 32,4% das intenções de voto ao Palácio do Planalto. Mas preso pela Lava Jato e provavelmente fora da eleição pela Lei da Ficha Limpa, sem Lula o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) lidera a corrida presidencial. Com 18,3%, ele foi seguido fora da margem de erro pela ex-senadora Marina Silva (Rede), com 11,2%; pelo ex-ministro Ciro Gomes (PDT), com 9%; e pelo ex-governador paulistano Gerado Alckmin (PSDB), com 5,3%.

 

Sem Lula, Bolsonaro

Feita entre 9 e 12 de maio, com 2.002 pessoas de 137 cidades brasileiras e margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou menos, a pesquisa CNT foi a primeira já sem o nome do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa (PSB), que anunciou no dia 8 sua decisão de não concorrer em outubro. A liderança de Bolsonaro fora da margem já havia sido constatada na consulta anterior, feita pelo instituto Paraná entre 27 de abril e 2 de maio. Nela, a vantagem do presidenciável de extrema direita foi ainda maior: 20,5% das intenções de voto, enquanto Marina ficou com 12% — 8,5 pontos, contra os 7,1 da CNT.

 

Capitão bateu teto?

Apesar da liderança, a série da CNT indica que Bolsonaro já pode ter batido seu teto. Na pesquisa anterior do mesmo instituto, realizada entre 28 de fevereiro e 3 de março, ele liderou entre 20% a 20,9% nos três cenários sem Lula. Mesmo dentro da margem de erro, o ex-capitão do Exército registrou queda de cerca de dois pontos na comparação com a consulta divulgada ontem. O fato é que, pela CNT, ele não cresceu suas intenções de voto nos últimos dois meses. Mesmo com sua prisão neste período, Lula também caiu pouco: dos 33,4% do início de março aos 32,4% de agora.

 

Prisão justa para 51%

Apesar de, dentro da margem de erro, ter mantido seu percentual de intenções de voto nas duas consultas CNT, a última registrou um dado preocupante ao líder petista: sua prisão em 7 de abril, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, foi justa para 51% da população. Outros 38,6% a consideraram injusta, enquanto 10,4% não souberam ou quiseram responder. Diante de uma pergunta diferente, 49,9% dos entrevistados disseram não acreditar que Lula disputará o pleito presidencial de outubro. Mas 40,8% ainda apostam na possibilidade, enquanto 9,3% não souberam ou quiseram responder.

 

PT queima navios

Desde 6 de fevereiro, ao tomar posse da presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Luiz Fux garantiu que a “Justiça será irredutível na aplicação da Lei da Ficha Limpa”. Foi apenas 12 dias após o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) ter condenado Lula a 12 anos e um mês de prisão, em decisão unânime, no caso do triplex do Guarujá. Preso há cinco semanas, o ex-presidente teria dado a ordem para o PT descartar a aliança com a vice na chapa de Ciro. Ex-porta-voz do governo Lula, André Singer escreveu na Folha de São Paulo do dia último12: “Ciro começou a carreira no PDS (ex-Arena) e militou por muito tempo no PSDB”.

 

Ciro à direita

Descartado pelo PT numa união das esquerdas, Ciro já se declarou favorável à prisão após condenação em segunda instância e agora busca um vice ligado ao centro-direita político e ao grande capital nacional. Após ter sondado o presidente da Coteminas, Josué de Alencar (filho de José de Alencar, falecido ex-vice-presidente de Lula), o presidenciável do PDT agora flerta com Benjamin Steinbruch para compor a sua chapa. Filiado ao PP, ele é banqueiro, presidente do consórcio privado que controla a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e um dos homes mais ricos do país.

 

Esquerda mal

Contradições ideológicas à parte, Ciro pode não estar pragmaticamente equivocado. Apesar de líder na pesquisa CNT, Lula ainda não parece ser capaz de transferir seu imenso capital eleitoral ao petista mais provável para substitui-lo: o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad não foi além dos 2,3%. Presidenciáveis mais à esquerda foram ainda pior: a deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB) cravou 0,9%, enquanto o líder do MTST Guilherme Boulos (Psol) anotou 0,6%. Mas como os indecisos, brancos e nulos chegaram a 45,7%, 2,5 vezes mais que as intenções de voto em Bolsonaro, tudo pode estar ainda em aberto.

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

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Alexandre Buchaul — Cavalo Paraguaio

 

 

 

À medida que transcorre o tempo nesse ano eleitoral, postulantes a cargos políticos vão surgindo e lançando suas pré-candidaturas, algumas com maior estardalhaço, outras sem repercutir mesmo entre os familiares dos próprios pré-candidatos. Candidaturas como a do ex-ministro Joaquim Barbosa, detentora de bom percentual de intenções de voto não são comumente abandonadas, entretanto, já havia os que apostavam nisso, fazendo um paralelo com a aposentadoria do então ministro ainda durante o julgamento do mensalão.

Muitos lançam suas pré-candidaturas apenas para, no jargão do meio, por um termômetro, medir o tamanho da própria envergadura política, para em seguida abrir mão da disputa em favor de outrem, não raras vezes por motivos nada republicanos. Sejam cadeiras do executivo, sejam do legislativo a prática é recorrente e alguns aspirantes a políticos acabam por ficar mesmo marcados pelo hábito de o fazerem.

Com a última pesquisa publicada sobre as intenções de voto para o governo do Estado do Rio de Janeiro ficou evidente a vantagem do ex-jogador de futebol e atualmente senador Romário sobre os demais pré-candidatos. No entanto, a notícia de investigações do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sobre movimentações financeiras suspeitas envolvendo a família do senador, nos conduz a lembrar do episódio em que Romário, se colocando como postulante à disputa da Prefeitura do Rio de Janeiro, fora atingido por suspeitas envolvendo movimentações financeiras em bancos suíços e desistira da candidatura.

A eventual desistência de Romário na disputa deixaria o ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes, em situação bastante confortável e desenharia um possível segundo turno entre ele e Índio da Costa, já que o campeão de rejeição, Garotinho, provavelmente morreria na praia mais uma vez. Com esse cenário a aposta na vitória de Eduardo Paes, só agora decisão que o permite eleger-se, parece barbada e o baixinho, campeão dos gramados, assim como o Bernadinho, precisam abrir os olhos para não acabarem com a alcunha de cavalos paraguaios.

 

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Jornalismo ruim, mortes de Geisel e “tapa” de Bolsonaro

 

 

 

Lições do jornalista

Fundador desta coluna, o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa (1936/2012) era crítico ao desdém dos repórteres dos grandes centros com a imprensa do interior. Ele sabia bem do que estava falando, pois trabalhou na redação do Jornal do Brasil dos anos 1970, considerada uma das grandes escolas de jornalismo do país, antes de voltar a Campos, fundar a Folha e continuar trabalhando como correspondente do diário carioca — à época, o maior do Estado. Seu trabalho como repórter no “furo” internacional da descoberta de petróleo na Bacia de Campos está no livro “Jornal do Brasil — História e Memória”, da jornalista Belisa Ribeiro.

 

Jornalismo ruim

Episódios recentes demonstraram como — por incompetência ou, pior, dolo — é ruim a cobertura jornalística dos grandes centros sobre os fatos de Campos. Foi o caso da série de três reportagens do SBT Rio sobre as denúncias da delegada federal Carla de Mello Dolinski contra a operação Chequinho, veiculadas entre 30 de abril e 2 de maio. Foi o caso também da nota publicada na última sexta (11) pela jornalista Berenice Seara no jornal carioca Extra,  sobre o processo de infidelidade partidária movido pelo Rede contra o vereador Marcão Gomes (PR), presidente da Câmara de Campos.

 

Indução a erro

Logo em sua primeira matéria, o SBT Rio chegou a induzir a pensar que as operações Chequinho e a Caixa d’Água fossem a mesma coisa. Na verdade, a primeira nasceu da troca de Cheque-Cidadão por voto na eleição municipal de 2016, denunciada por assistentes sociais da própria Prefeitura. Já a Caixa d’Água foi derivada das delações do empresário Ricardo Saud à Lava Jato, confirmadas pelo empresário local André Luiz da Silva Rodrigues, o “Deca”, relativas ao repasse de R$ 3 milhões não declarados à campanha de Anthony Garotinho a governador, em 2014. Em comum, as operações só tiveram o fato de terem gerado a prisão de Garotinho.

 

105 dias depois…

Mas a pauta das três reportagens do SBT Rio girou mesmo em torno de requentar as denúncias da delegada federal Carla Dolinski contra a Chequinho. Graves, elas já haviam sido investigadas pela Polícia Federal (PF) e Tribunal Regional Eleitoral (TRE), antes de serem arquivadas pelo desembargador Carlos Santos de Oliveira, do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), em 15 de janeiro. Foram exatos 105 dias antes do SBT-Rio levar ao ar sua primeira matéria, cujo arquivamento só foi informado, bem de passagem, na segunda reportagem, após a verdade ser devidamente estabelecida nesta coluna.

 

Nove dias depois…

Na sexta foi a vez de Berenice Seara noticiar no Extra sobre o processo de infidelidade partidária contra Marcão. Ela chegou a especular que “vereadores já falam no retorno de Marcos Bacellar (PDT) ao cargo de presidente”. Mas não se deu ao trabalho jornalístico básico de confirmar a informação com Bacellar, que afirmou a esta coluna: “Não passa de especulação”. A jornalista também não informou que o pedido liminar pelo mandato de Marcão foi negado no TRE pelo desembargador Antônio Aurélio Abi Rami desde 2 de maio. Comparado ao SBT, o gap entre o fato e sua sonegação até que foi menor: “apenas” nove dias.

 

Abertura e assassinatos

Por ter preparado o processo de reabertura política do país com sua “distensão lenta, gradual e segura”, Ernesto Geisel (1907/96) era o general-presidente da nossa última ditadura militar (1964/85) visto com mais complacência. Mas sua memória ficou irremediavelmente maculada com a revelação de um memorando da CIA dando conta que, 15 dias após sua posse na presidência, ele soube da execução de 104 opositores políticos e autorizou que a prática continuasse. A CIA descreveu uma reunião da cúpula militar do governo Geisel em 30 de março de 1974. Depois dela, pelo menos outras 89 pessoas foram executadas pelo Estado.

 

Bom jornalismo

Num bom trabalho jornalístico da grande mídia, ontem O Globo publicou uma entrevista com o pesquisador brasileiro Matias Spektor, que encontrou o documento do serviço de espionagem dos EUA. Professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, ele disse: “Eu acho que ilustra, com a nova evidência, aquilo que o (jornalista) Elio Gaspari já mostrou: que o Geisel, apesar de ser o presidente da abertura, também reprimia”. Em seu livro “A Ditadura Escancarada”, Gaspari lembrou a justificativa dada pelo general aos historiadores Maria Celina d’Araujo e Celso Castro, que publicaram o livro “Ernesto Geisel” em 1997.

 

Geisel e Bolsonaro

Enquanto ainda era vivo para tentar se defender por suas mortes, Geisel disse: “Era essencial reprimir. Não posso discutir o método de repressão, se foi adequado, se foi o melhor que se podia adotar. O fato é que a subversão acabou”. A quem sobreviveu ou não viveu a história agora recontada, a lição do passado pode ser válida quando um presidenciável líder nas pesquisas exibe orgulhoso em seu gabinete os retratos de todos os generais-presidentes. Na sexta (11), sobre Geisel, Jair Bolsonaro (PSL) disse: “Errar, até na sua casa, todo mundo erra. Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e depois se arrependeu? Acontece”.

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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Hamilton Garcia — A democratização do Estado

 

 

 

 

A democracia representativa no Brasil é uma experiência historicamente recente, cuja inauguração pode ser associada ao fim da monarquia-escravista (1888-89) e ao processo de urbanização e diversificação econômico-social que a partir daí se encorpou. Se comparada à da Inglaterra, bem mais antiga, é também bastante mais irresoluta. Os ingleses, depois de um longo período de disputas religiosas (1547-58), conflitos políticos agudos e guerras civis (1640-89) — com um Rei decapitado (1649) e uma República autoritária (Cromwell, 1653-58) —, encontraram seu modelo numa Igreja reformada (1559) e numa Monarquia Constitucional governada por um Parlamento representativo sob a égide da Declaração de Direitos (1689), que afirmava a liberdade dos indivíduos como base inalienável das formas de governo.

No nosso caso, nem a Igreja foi reformada, nem o poder absoluto do Estado foi decapitado; tudo se deu, como reza nossa tradição, de maneira segura e sincrética, mantendo-se os indivíduos subjugados ao poder oligárquico, fonte primeira do poder de Estado. Depois de derrubada a Monarquia por uma conjuração militar-civil (1889), no qual o povo assumiu o papel de expectador — tanto ativo, como passivo —, inaugurou-se um período (Primeira República) onde as oligarquias agrárias ganharam autonomia (federalismo) e as burguesias voz ativa no cenário político das mais importantes cidades (liberalismo) sem, contudo, ameaçar o poder estabelecido sobre o vasto território — inclusive os currais eleitorais, beneficiados pela vigência do voto aberto e a ausência de autoridade corregedora isenta — e as mentalidades (Igreja Católica).

Não obstante o conservadorismo do pacto elitista inaugural da República — com a fracassada pretensão reformista de certos segmentos militares (positivistas) —, as novas classes sociais urbanas manifestariam seu descontentamento político, mesmo tendo contra elas o liberalismo de fachada instituído pela Constituição de 1891 e a dura repressão das forças policiais. Medidas como o fim do voto censitário, dos privilégios nobiliárquicos e da dominância eclesiástica sobre as localidades e a educação — entre outras iniciativas legais modernizadoras —, mesmo descasadas de reformas econômico-sociais progressistas (agrária, urbana, tributária, financeira, etc.), foram suficientes para, pelo menos, inaugurar um período de aspirações democráticas, que acabaria por desnudar o descompasso entre a superestrutura jurídico-política e as mudanças econômico-sociais, de sentido democratizante, provocadas pelo avanço do capitalismo — descompasso este que, não obstante os avanços percebidos desde 1985 (Nova República), está na base da instabilidade política dos nossos dias.

As curtas experiências liberal-democráticas vividas após as intervenções civis-militares de 1930 e 1945 — logo descontinuadas por intervenções análogas de polaridade invertida e sentido diverso, em 1937 e 1964 —, demonstraram a fragilidade (e força) de nossa tradição republicana. Nelas, podemos enxergar as marcas profundas do nosso modo de ser contemporâneo, radicado na formação social polarizada por quatro séculos de latifúndio, onde tanto a sociedade civil se forjou comprimida pelo esmagador peso do agrarismo colonial, como a sociedade política (Estado) se amalgamou ao compromisso neopatrimonial, mesmo quando sob a liderança de seus segmentos dissidentes (populismo).

Enquanto 1930 e 1945 nos revelaram uma sociedade civil trabalhadora frágil, incapaz de conter os arroubos jacobinos de suas lideranças — rupturismo que propiciou o retrocesso autoritário após a aventura “revolucionária” de 1935, e, depois, em sentido inverso, levou os comunistas a apoiar o ditador que antes queriam derrubar, precipitando a intervenção militar redemocratizadora —, 1937 e 1964 mostraram a inapetência da sociedade civil burguesa em lidar com as pressões legítimas (e ilegítimas) pela democratização vindas de baixo, cedendo ou estimulando o protagonismo conservador de caserna ao invés de pactuar a reforma das instituições republicanas da qual participavam — dentre elas o Parlamento e o Judiciário —, de modo a reverter seu embotamento histórico (patrimonialismo).

A semelhança com a crise de hoje não é mera coincidência: a sociedade civil trabalhadora continua presa fácil de lideranças retrovisoras (bolivarianistas) e de um populismo que, embora descido às fábricas, ainda veste o manto sagrado dos pais dos pobres, enquanto as principais instituições republicanas (redemocratizadas) claudicam pela insuficiência das reformas até aqui efetuadas, abrindo amplo espaço para o conservadorismo de caserna, agora autonomizado pela fórmula político-eleitoral do bolsonarismo.

De auspicioso, apenas a emergência de uma nova sociedade civil burguesa disposta a renovar as lideranças políticas do liberalismo, contra a vontade de seus partidos tradicionais; um novo ativismo do Ministério Público e do Judiciário, que — dentro de seus limites funcionais e ainda adstritos à esfera federal — permitem o avanço das reformas institucionais que Executivo e Legislativo tentam barrar; e uma liderança militar (Alto Comando) até aqui inclinada a apoiar ambas as novidades e agir, se necessário, apenas na condição de última instância.

Tal conjunção, que tem constituído até aqui a verdadeira âncora de nossa ainda frágil liberal-democracia — diga-se de passagem, contra a vontade de boa parte das esquerdas, inclusive a desconfiança de certos segmentos seus de viés liberal —, carece, é verdade, de uma concertação política mais ampla do que a permitida pelos parâmetros corporativos dos operadores do direito; mas isto parece estar sendo superado, não obstante sua mais nítida expressão eleitoral, Joaquim Barbosa, ter desistido da postulação por conta de uma aparente falta de vocação.

O que é importante nisso tudo, é que a sociedade civil, por meio da política bem pensada e articulada, pode vencer a pesada herança semirrepublicana que resiste no Estado, nas corporações e nas mentes de todos os quadrantes ideológicos, mas para isso vai ter que se livrar dos mitos e das concepções ideológicas anacrônicas e pseudorrealistas que impedem-na de enxergar o cenário em toda a sua inteireza e complexidade, inclusive contemplando os remédios contra a pior de todas as heranças: a marginalização social por meio da pauperização econômica e da alienação laboral-educacional, que exigem a reinvenção do liberalismo (liberalismo-social) e do progressismo-nacional (neodesenvolvimentismo).

 

Atualizado às 16h16 de 13/05 para edição de imagem.

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