Picciani e TCE na delação premiada de Jonas Lopes Júnior e Neto


Atualização às 13h24: Aqui, o jornalista Esdras Pereira também tratou das delações de Jonas Lopes Júnior e Neto


Atualização às 13h24: Aqui, o jornalista Esdras Pereira também tratou das delações de Jonas Lopes Júnior e Neto

“Suspeita-se que tenha muita sujeira debaixo do tapete (…) Vamos investigar!” É isso que o deputado estadual Bruno Dauaire (PR) diz pretender com a CPI das Desapropriações para a instalação do Porto do Açu, que propôs e deve presidir na Alerj — tema de reportagem investigativa do jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira, que a GloboNews exibe hoje. Alternando a veemência, sobretudo para falar do líder Anthony Garotinho (PR), Bruno também analisou o momento presente e possibilidades futuras da política campista e sanjoanense.
Folha da Manhã – O deputado federal Paulo Feijó (PR), que vinha se distanciado do ex-governador Anthony Garotinho (PR) desde a votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em abril de 2016, recentemente abriu diálogo com o prefeito Rafael Diniz, a quem se dispôs a ajudar. E você, estaria disposto a dialogar e ajudar o novo governo de Campos?
Bruno Dauaire – Assim que os novos prefeitos assumiram, eu mantive a mesma conduta que tive com os prefeitos que saíram, que foi colocar meu mandato à disposição. Essa é a minha linha política, fazer do meu mandato um instrumento capaz de conquistar benefícios para a população. Não me interessa qual a sigla partidária do prefeito, minha obrigação como parlamentar é atender quem está lá na ponta, que é o cidadão. Só não tem a minha ajuda o prefeito que não quiser e estiver amarrado em uma política ultrapassada.
Folha – Como foi à conversa que você e Rafael mantiveram na tradicional festa de Santo Amaro? Ela rendeu algum resultado prático? Sobre o que falaram?
Bruno – Foi um encontro rápido em dia de festa e de devoção. Foi uma conversa cordial, como sempre tivemos, mesmo antes de exercermos nossos mandatos. Lembramos da convivência política da minha família e a de Rafael, uma vez que meu avô, Alberto Dauaire, foi contemporâneo político de Zezé Barbosa. Me coloquei institucionalmente à disposição pelo povo de Campos.
Folha – Como está sua relação com Garotinho? Você é muito ligado ao filho dele, Wladimir Matheus (PR), que estaria tendo cada vez mais discordâncias com o pai, pela maneira personalista como este conduz seu grupo político. No que você acha que poderia ser diferente?
Bruno – Minha relação com o presidente estadual do PR, Garotinho, é boa e está muito tranquila, até porque comungamos das mesmas ideias em relação ao pacote de maldade do governo do Estado. Ele tem se posicionado firme em defesa do servidor e está muito preocupado com a situação de calamidade do Estado. Inclusive tem apresentado nas reuniões de trabalho algumas sugestões para a saída da crise sem penalizar a população e os servidores. Quanto às discordâncias, sempre haverá pensamentos diversos. Afinal, é um partido vivo e em movimento, em que todos precisam colocar as suas opiniões, nada mais do que isso.
Folha – Independente das eventuais discordâncias, como líder da bancada do PR, você vai votar de acordo com a determinação de Garotinho, contrário às propostas do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) que serão votadas na Alerj no correr da semana. Os demais deputados do PR seguirão sua orientação?
Bruno – Eu entendi e acatei as vozes das ruas, por isso voto contra o pacote. Vou orientar a minha bancada pelo voto contrário ao pacote do Pezão. Não vou mudar minha postura política depois de dois anos de um mandato, que generosamente tem sido bem avaliado pela população. Respeito meus colegas deputados que, para enfrentar a crise, pensam de outra forma. Mas eu não poderia votar a favor de um projeto que quer fazer de fiador de má gestão um inocente que é o povo. Quem quebrou o Estado foram eles. Não vou aumentar desconto de servidor e diminuir salários de categorias que já estão sem aumento há muito tempo. Quanto à Cedae, tem aí um fator histórico agregado, é uma empresa que gera recursos e tem um patrimônio bilionário e que não pode ser negociada em uma canetada.
Folha – Com o quadro falimentar do Estado, ser do contra ajuda? Quanto pior administrativamente ao atual governo, e consequentemente à população, melhor politicamente para quem ainda sonha em voltar ao Palácio Guanabara?
Bruno – Foi ao contrário, foi uma década perdida de má gestão, onde o “pior administrativamente” foi escondido debaixo do tapete para facilitar a permanência deles no Palácio Guanabara. No meu ver foi fraude eleitoral, que serviu apenas para fins de eleição. Esqueceram da população. Aumentaram despesa, se endividaram até não poder mais, abriram mão de receita e não criaram novas receitas, além de acabarem de forma criminosa com fundos vitais, como o Rioprevidência. Esconderam a realidade para o povo, o povo tinha o direito de saber. Não existe torcida, este modelo de governança que está ai é causa e efeito e o único responsável pelo quadro falimentar que se encontra o Estado do Rio. Hoje, nós da oposição somos os que mais apresentamos alternativas para ajudar o Estado.
Folha – Se vai votar contrário às propostas de Pezão, qual seria, em seu entender, a solução para o Estado do Rio? Como e por que ele chegou ao atual ponto?
Bruno – O primeiro passo é estancar o mau uso do dinheiro público. Lógico que a mudança é estrutural, mas já comecei a fazer a minha parte, naquilo que me compete, ou seja, na prática estou fechando as bocas de lobo que queimam o dinheiro publico. Aprovei por unanimidade no parlamento uma lei de acabando com os incentivos fiscais fraudulentos, recheados de vícios e desvio de finalidade. Serão milhões que deixarão de sair e outros milhões que poderão ser recuperados judicialmente. Outra medida é a repatriação e recuperação do dinheiro desviado para os cofres públicos que tem sido oriundo de corrupção. Apresentamos um projeto na semana passada sobre isso. E aí vai ter que devolver dinheiro para a Previdência, para servidores, para prefeituras. Fui também autor de uma emenda que estendeu aos municípios a possibilidade de aumentar a sua receita, através da compensação de ICMS com as concessionárias do Estado. Consegui que prefeituras acolhessem responsabilidades do governo do Estado, como o restaurante popular e outros serviços, para não serem interrompidos.
Folha – Com a prisão do ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB) pelo juiz Sérgio Moro, e do ex-governador Sérgio Cabral e do empresário Eike Batista, pelo juiz Marcelo Bretas, acredita que há algum líder político do PMDB fluminense, no grupo iniciado lá atrás por Garotinho, e depois abandonado por este, que esteja dormindo tranquilo? Na condição de deputado próximo ao presidente da Alerj, Jorge Picciani (PMDB), como está o clima na cúpula da política fluminense?
Bruno – Não tenho intimidade com os políticos do PMDB em relação ao problema e acho que eles nem teriam liberdade comigo para tocar neste tipo de assunto. Afinal, sou um deputado novo, de oposição e estamos de lados opostos. Quanto ao presidente Jorge Picciani, ele tem sido sempre acolhedor, respeita a minha postura política e o meu voto no plenário, mesmo quando diverge da sua posição. Afinal ali é o parlamento, onde as ideias diferentes se enfrentam democraticamente e tem que ser assim.
Folha – Nos meios jurídicos, políticos e midiáticos, há quem diga que Marcelo Bretas é ainda mais rigoroso do que Sérgio Moro? Comunga dessa opinião? Por quê?
Bruno – Existem vários mitos em relação a juízes. Não consigo avaliar e nem comparar o rigor entre eles. Seria leviano. Só sei que ambos são da mesma escola jurídica e estão rompendo paradigmas. São momentos singulares pelos quais passa a história política do nosso país e somente a história, com seu devido tempo, vai poder avaliar melhor esses perfis. Mas que no Estado do Rio o quadro de corrupção é pior que nos demais estados, isso é verdade. Talvez isso possa estar relacionado a um rigor maior do juiz carioca.
Folha – Por conta da Operação Chequinho, na denúncia de utilização de Cheque Cidadão na compra de votos na eleição municipal de Campos, Garotinho já entrou com pedido de habeas corpus preventivo no Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Acredita que ele possa ser preso novamente?
Bruno – Diferente de Sérgio Cabral, que foi preso acusado por corrupção, lavagem de dinheiro etc, a prisão de Garotinho foi por questão eleitoral e que aconteceu em um momento muito confuso, tanto que o plenário do TSE entendeu de modo diverso. Decisão judicial se cumpre. Porém, como advogado, não vejo qualquer elemento para uma nova prisão.
Folha – O que também tem tirado o sono de muita gente, nos meios políticos e empresariais, é a CPI das Desapropriações do Porto do Açu, que você propôs e, se aprovada, deve presidir. O jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira levará ao ar um programa sobre o caso, hoje, na Globo News. Qual será o rito da CPI e o seu objetivo?
Bruno – Vamos esperar a publicação e consequente aprovação da CPI para que o rito seja iniciado. O projeto de resolução que apresentei prevê 90 dias, prorrogáveis por mais 60, para a conclusão do trabalho. É preciso que muita coisa seja explicada desse processo estranho e truculento das desapropriações em São João da Barra. Suspeita-se que tenha muita sujeira por debaixo do tapete. Ainda tenho esperança que os pequenos produtores do quinto distrito e os cofres do município sejam devidamente indenizados. Vamos investigar!
Folha – Em entrevistas a várias emissoras de TV aberta, como InterTV RJ, SBT e Record, você tem deixado claro não ser contra o Porto do Açu, fundamental à economia da região, mas à maneira como ele teria sido imposto, com indenizações bem abaixo do valor real pagas aos donos das terras desapropriadas. Quem deveria pagar a diferença: O Estado, a Prumo, outras empresas? E de que soma de dinheiro estamos falando?
Bruno – Não sou contra o Porto do Açu de forma alguma. Sua contribuição para a região é indiscutível. A questão é exatamente essa, a forma como foram feitas as desapropriações e que tipo de facilitações ocorreram. Quem deve pagar a diferença são os responsáveis por essa covardia, sejam eles quem forem. Estamos falando é de uma área cheia de vida e muito extensa, com valor de R$ 2 bilhões, que foi desvalorizada para poucos milhões de reais por um suposto esquema denunciado pela PF.
Folha – Além da questão do preço defasado pago na desapropriação das terras para a implantação do Porto, desde que assumiu a parte da LLX no Porto do Açu, a Prumo, como sede nos EUA, tem sido alvo de muitas queixas pela postura “imperial” e a falta de interação com a comunidade na qual se instalou. Concorda com essa visão? Por quê?
Bruno – Concordo que a empresa precisa interagir melhor com a comunidade. Se faz, é em grau muito pequeno. Ela pode e deve desempenhar um importante papel social para São João da Barra e região. Não pode ser isolada do restante da região. O Porto do Açu é da nossa região e não a nossa região que pertence ao Porto. Uma das questões que merecem destaque é o conteúdo local com a contratação de trabalhadores e empresas locais. E, obviamente, uma melhor parceria com as prefeituras da região.
Folha – No grupo de Garotinho, não há nada que garanta que você vá ter novamente o apoio integral de Wladimir, considerado fundamental em sua eleição. Aventa-se que, dependendo da conjuntura, o próprio filho de Garotinho possa concorrer à Alerj em 2018. Do outro lado, há o grupo de Rafael, com alguns nomes já se colocando à disputa de deputado estadual. Por onde tentará sua reeleição? Corre o risco de ficar sem espaço?
Bruno – Meu espaço é consequência do trabalho que desempenho. Estou exercendo um mandato tão intenso, tanto em plenário, como nas comissões que presido, ao ponto de não pensar ainda em eleição, mas existe uma leitura diferente e mais atualizada, feita por pessoas que estão mais próximas do meu convívio e do convívio de Wladimir. Agora, uma reeleição está fundamentada em três pontos: compor partido, apoio político e atuação parlamentar. Graças a Deus, minha atuação como deputado tem se expandido e tenho conquistado novos espaços. Estamos formando um grande arco de alianças com pessoas que foram eleitas em diversos municípios ou foram bem posicionadas eleitoralmente. O que me empolga muito são os segmentos da sociedade e entidades civis espalhadas pelo Estado que estão reconhecendo o meu trabalho e minhas posições. Esse eleitor não pertence a partido e nem às lideranças. Acho que na eleição de 2018 haverá muito voto de opinião. O eleitor está mais atento e mais exigente.
Folha – Com a situação jurídica complicada de Garotinho, confinado num apartamento do Flamengo, no Rio, proibido pela Justiça de voltar à sua cidade natal, e algumas queixas surgindo sobre o governo Rafael, parece haver espaço para uma nova oposição em Campos. Concorda com essa visão? Se espaço vazio é espaço ocupada, quem poderia preencher essa aparente lacuna? E como?
Bruno – Você disse bem, a lacuna é aparente. A política municipal em Campos não aponta para uma novidade política a curto prazo. O ex-governador, mesmo ausente temporariamente, pelo seu histórico e currículo é a liderança de oposição. Porém, as referencias de oposicionistas e governistas, essas sim vão sendo reveladas pouco a pouco e ocupando cada um o seu quadrado. Não existe espaço vazio em política.
Folha – E em São João da Barra, berço político tradicional da sua família? Muito popular, a prefeita Carla Machado (PP) começa a fazer uma administração aparentemente melhor que a de Neto (PMDB), tarefa em parte facilitada pelo contraste com a desastrosa administração anterior. Acredita que os Dauaire possam recuperar o protagonismo no município que já foi governado por seu pai e seu avô? Como?
Bruno – Não se recupera aquilo que não se perdeu. Meu pai ainda é o maior protagonista da oposição em São João da Barra, mesmo ele não querendo ser. Quem falou isso foram as urnas. Na eleição de 2012, afastado do poder, ele teve mais de 10 mil votos e na última disputa entre Carla e Neco, o ex-prefeito, concorrendo à reeleição, não chegou à votação que o meu pai teve em 1997. Agora, não seria justo fazer uma crítica a uma gestão que começa, até porque podem confundi-la como uma defesa da administração anterior, Mas eu espero que a atual prefeita mude o modelo político que ela implantou e que perdura por dois mandatos dela como prefeita e uma do seu candidato Neco. Ou seja, é a mesma coisa há 12 anos. O mundo mudou, evoluiu, e o governante tem que estar antenado, em permanente capacitação. O governo de São João da Barra voltou no tempo. Aonde levou este modelo político atualmente? Em pleno 2017, desemprego, e os políticos celebrando conquistas antigas, garantidas desde 1997, que foram destruídas gradativamente. Vai da retirada de lixo, da comemoração de pagar o servidor em dia, passando por transporte de estudantes e por aí vai, até ao funcionamento da Santa Casa. Algo que é um direito conquistado pelo povo há décadas e que se perdeu. O modelo tem que mudar, não podemos ser a Venezuela do Norte Fluminense. O que eu puder ajudar vou ajudar, sem pensar em protagonismo ou antagonismo.
Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

Na prosa, talvez os dois grandes nomes do modernismo dos EUA tenham sido Ernest Hemingway (1899/1961) e F. Scott Fitzgerald (1896/1940). Amigos, a intimidade da relação entre ambos, junto a outros grandes nomes do modernismo nas artes do mundo, reunidos na capital francesa durante os “loucos” anos 1920, é descrita em detalhes em “Paris é uma festa”, romance inacabado do primeiro, publicado após sua morte.
A grande obra de Hemingway é, no entanto, “O velho e o mar”, na qual ele narra a saga solitária e épica do velho pescador Santiago contra um gigantesco marlim, nos mares da Cuba pré-Revolução de 1959. Publicado em 1952, o livro lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura dois anos depois.
Por sua vez, o romance de Fitzgerald mais aclamado pela crítica é “O grande Gastby”, publicado em 1925, cujos originais Hemingway foi um dos primeiros a ler. A história do jovem veterano da I Guerra Mundial (1914/18) Jay Gatsby, que monta um mundo de fantasia e ostentação para tentar reconquistar um amor do passado, idealizado, mesmo depois de consumado, teve cinco adaptações ao cinema: em 1926, 1949, 1974, 2000 e 2013.
Do modernismo àquilo que, na falta de nome melhor, se convencionou chamar de pós-modernidade, vivemos agora os tempos da pós-verdade (“post-truth”). Eleita a palavra do ano em 2016, pelo conceituado dicionário de Oxford, guardião da língua em que escreveram Hemingway e Fitzgerald, o novo verbete foi assim definido: “relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal”.
No ano recém-encerrado, o termo ganhou popularidade nas campanhas do plebiscito vencido pelo Brexit, que definiu a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, e da eleição presidencial dos EUA vencida pelo fanfarrão republicano Donald Trump. Ambas foram marcadas pela disseminação de notícias falsas, viralizadas na democracia irrefreável das redes sociais, que definiram as duas campanhas.
No tempo da pós-verdade, o que vale não é o fato, mas a versão do fato. É a popular “fofoca de vila”, que existe desde o desenvolvimento da linguagem e da vida sedentária pela espécie humana, ainda na Pré-História, mas só ganharia progressão geométrica em tempo real com o avanço das redes sociais nos últimos anos.
Seu questionamento também não é novo. Já estava presente na Grécia Antiga, berço da Civilização Ocidental e da democracia, na qual a arte retórica passou a definir os destinos da coletividade, sendo desvirtuada pelos sofistas, que se orgulhavam por sustentar convincentemente uma opinião para, em seguida, fazer o mesmo com o ponto de vista oposto. E ensinavam isso por dinheiro, de cidade em cidade, numa prática criticada com veemência pelo filósofo Sócrates (469/399 a.C.), condenado a beber cicuta, vítima fatal das mesmas maledicências e ressentimentos vulgares que combateu.
Difícil projetar como Sócrates veria hoje, por exemplo, os defensores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) se digladiando com suas pós-verdades nas redes sociais, geralmente com base na ignorância da diferença entre manifestação de pensamento e argumento dialético, entre opinião e fato.
Diante da fartura de evidências, evisceradas pela operação Lava Jato, de que Lula comandou um esquema criminoso nos 13 anos em que o PT governou (e quebrou) o Brasil, prevalece aos seus adoradores a figura do líder proletário que promoveu a ascensão social das classes menos favorecidas — empurradas de volta aonde vieram pela recessão econômica. Já aos fiéis de Bolsonaro, o combate à corrupção se transformou de matéria do Código Penal em monocórdia plataforma política, em detrimento de avanços na paridade de direitos de gênero, orientação sexual, credo religioso, ideologia política, cor de pele e origem social.
Para os primeiros, Lula e o PT não roubaram aos bilhões. Para os segundos, a Ditadura Militar no Brasil (1964/85) não torturou e matou aos milhares. Ou, pior, se cometeram seus crimes, deveriam receber indulgência em nome de um suposto “bem maior”. E dos dois lados se finge esquecer que o produto final de petistas e militares foi um país desperto na mais lancinante ressaca econômica, após a embriaguez delirante da megalomania.
No tempo da pós-verdade, Lula quase pôde ser nomeado ministro pela então presidente Dilma Rousseff (PT) para fugir do julgamento de Sérgio Moro. Assim como Moreira Franco (PMDB), nomeado com mesmo fim pelo atual presidente Michel Temer (PMDB). E o resto do Brasil que se proteja dos cacos afiados projetados aleatoriamente no espaço pelas pedras atiradas, de lado a lado, sobre telhados de vidro separados por um muro moralmente invisível.
Com igual acinte, se elege Edison Lobão, alvo de dois inquéritos na Lava Jato, parceiro de Temer no PMDB e ex-ministro de Lula e Dilma, como presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, composta por mais 13 investigados da mesma operação da Justiça Federal. É o mesmo jogo de cartas marcadas no qual Trump cortou o baralho antes mesmo de ser eleito, pelo colégio eleitoral, não pelos votos dos eleitores: “Se eu perder, é fraude”.
Na tentativa de reconquistar sua paixão, Gatsby construiu sua pós-verdade numa origem aristocrática, quando não passava de um gângster, contrabandista de bebidas durante a Lei Seca nos EUA. Desmascarado, perdeu o amor que idealizou antes de perder a própria vida, sangrando até a morte na piscina da sua mansão, vítima passional de outra pós-verdade.
Num combate sobre-humano, mas real, que quase lhe matou, Santiago conseguiu capturar o peixe. Se no caminho de volta para Cuba, sobre o dorso das ondas, os tubarões devorariam pelas entranhas seu maior feito, a gigantesca carcaça descarnada, amarrada ao pequeno barco já ancorado no cais, revelou aos demais pescadores e aldeões, estupefatos, que a vida, a luta e a glória do velho homem eram a verdade. Exausto, ele dormiu bem com isso.
Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

Num mundo onde tudo deixa de ser a cada instante, como no rio de Heráclito onde jamais seria possível banhar-se duas vezes, as águas correm, o rio já não seria o mesmo e a vida segue o fluxo enquanto nos apegamos a um momento de verdade que deixa de existir num piscar de olhos. Reinventar-se é preciso para se manter vivo, como diz o professor Cláudio de Barros Filho no vídeo acima, mas como reinventar um coração que insiste em amar à mesma maneira?
“A reinvenção de si deve respeitar as próprias características de quem vive e as exigências específicas do cenário em que vive.” Difícil resolver essa equação quando imersos numa sociedade carente de ética e moral, como vimos vir à tona após a greve da polícia militar no estado do Espírito Santo. A falta do exercício da consciência moral, sendo regidos por agentes externos como a polícia, câmeras de segurança ou qualquer artifício que impeça a decisão das ações por sua própria consciência ou agentes internos, deu no que deu quando se retirou as forças externas ao indivíduo e deu-lhe pleno poder. Como lembra Machado de Assis tal como uma premonição: a ocasião não faz o ladrão, ela apenas o revela – a condição de sê-lo é precursora como demonstraram diversos cidadãos que saquearam o comércio capixaba, minha terra natal.
Assim também é no relacionamento, diante da inexistência de forças repressoras como um homem ou mulher que não reprime os desejos de seu cônjuge ou critica uma roupa vulgar, mas tenta entender os anseios de tal atitude, e nutre o outro com os elogios e esperanças outrora escassas para que se sintacada vez mais nobre e pleno, colocando em primeiro plano o sorriso esquecido. Ao imbuir de poder, tal como um líquido que penetra toda a pele, vem à tona o ser como ele é, e às vezes pode ser torpe e degradante de uma maneira que ele nem mesmo se reconheça após a fissura da máscara a tanto impregnada. Como escrevi em tempo pretérito nesse espaço “menina retire a máscara e veja que a tua pele ainda é nova, e se te doer a carne crua chorarei contigo os elogios das suas próprias lágrimas.” A ferida de quem tem bom coração é dar o pleno direito do outro ser o que é ao abrir os braços em abraço se mostrar alguém do qual ele não precisa se defender, e o que pareceria bom se torna a batalha mais árdua, a luta do outro contra si próprio.
No texto Um Grande Homem, Arnaldo Jabor cita a conduta de seu pai ao ver a filha chorando sobre a cama. O pai se aproxima, acaricia o rosto úmido da sua irmã e após conversar por horas diz: “Minha filha, apaixone-se por um grande homem e nunca mais voltará a chorar.” O conselho serve para ambos os sexos.
O homem se constitui com as respostas aos desafios e nesse quesito parece o coração ser separado do corpo, pois por mais que se reinvente o amor, reinvente a dor, reinvente a própria vida, jamais seria possível reinventar o que se tem dentro do coração – colocando o seu significado na mesma categoria da mente. Talvez isso seja o que se chama de essência, para quem não é afeito ao materialismo dialético. Pois apesar de todos os pesares, ele segue inchado de bondade mesmo que sua vazão deságue num aparente abismo.
Na tentativa de tornar o instante dessa leitura pleno, que as pálpebras se fechem nesse piscar de olhos levando a poesia:
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Cecília Meireles

No Espírito Santo
Para concluir que o Brasil vive uma inversão completa de valores, basta olhar o quadro de caos vivenciado no Espírito Santo desde o último sábado, a apenas 60 km de Campos. As cenas de vandalismo, depredações, arrastões, saques e homicídios às dezenas, veiculadas à exaustão na democracia irrefreável das redes sociais, servem para comprovar que vivemos o tempo, melhor definido pela sabedoria popular, de “poste urinando em cachorro”. E quem não quiser sair “molhado”, que se esconda dentro da própria casa.
Em Campos
Em Campos, ainda que a PM não esteja em greve, a coisa não parece ser muito diferente. Por volta das 16h de ontem, um punhado de motoristas de lotadas ilegais, que agiram livremente na cidade durante os oito anos do governo Rosinha Garotinho (PR), não gostaram da apreensão feita pelo Detro de três dos seus veículos. E, à luz do dia, na cara dura, simplesmente fecharam os dois lados da av. XV de Novembro, diante da rua Carlos de Lacerda, espaço público que utilizam diária e folgadamente para seus fins particulares.
Cidade parada duas horas
O resultado, por certo planejado, foi cumprido. O trânsito do Centro ficou parado por cerca de duas horas. Numa reação em cadeia, o tráfego de veículos de toda a área urbana da cidade foi diretamente comprometido durante o mesmo período. Até o fechamento desta edição, não se tinha notícia se algum campista precisando de socorro urgente, como uma parturiente, um acidentado ou infartado, perdeu a vida ou a teve posta em risco por conta da manifestação ilegal, em defesa de uma atividade ilegal. Mas se não houve, foi apenas sorte.
Medo de quê?
O mais grave foi que vários homens da PM e da Guarda Municipal estiveram no local poucos minutos depois que XV de Novembro ter sido fechada. E nada fizeram! Cerceados em seu direito de ir e vir por irresponsáveis que riam debochadamente do caos que criaram, as centenas de motoristas de Campos cerceados em seu direito de ir e vir nada fizeram com medo de contrariar algum manifestante armado — como não é prática incomum na atividade. Resta saber com medo de que ficaram os guardas municipais e, sobretudo, os PMs.
Ação sem reação
Diante da passividade cúmplice dos agentes da lei, o tráfego de veículos em Campos só foi restabelecido no final da tarde de ontem, por volta das 18h, porque começou a chover. E, novamente para atender seus interesses particulares, os motoristas das lotadas constataram estar perdendo dinheiro, deixando de transportar ilegalmente as pessoas que saíam do trabalho. Diante do “sucesso” da ação e sem nenhuma reação efetiva por parte da PM ou Guarda Municipal, prometeram fechar o trânsito da cidade, hoje, mais uma vez.
FDP em pauta
Representantes de entidades como a Associação de Imprensa Campista (AIC) e a Academia Campista de Letras (ACL) se reuniram na manhã de ontem com a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Cristina Lima, para discutir a organização do II Festival Doces Palavras (FDP), de 20 a 24 de setembro, no Jardim do Liceu. Uma ótima iniciativa, que foi um sucesso na sua primeira edição e que tem tudo para repetir a deliciosa combinação entre literatura e doces.
Chance para escritores
E tem oportunidade para escritores. A Essentia Editora, do Instituto Federal Fluminense (IFF), está com inscrições abertas para a seleção de apoio à publicação de livros impressos — Edição 2017 — voltada para o público interno e externo do Instituto. As propostas deverão ser encaminhadas até o dia 6 de maio deste ano, por meio do setor de Protocolo da Reitoria ou pelos Correios, para o seguinte endereço: rua Coronel Walter Kramer, 357, no Pq. Santo Antônio, em Guarus. O resultado final das propostas aprovadas será divulgado no dia 02 de outubro deste ano. Outras informações em www.selecoes.iff.edu.br.
Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves
Publicado hoje (08) na Folha da Manhã





Eu não gostava de Darcy Ribeiro. Quando se é jovem, tolice e estupidez não nos faltam. Eu não gostava de Leonel Brizola, demorei compreendê-lo. Eu tinha 12 anos quando ouvi falar de ambos pela primeira vez. Brizola foi eleito governador do Rio de Janeiro em 1982, e teve Darcy como seu vice naquele mandato até 1986. Achava-os chatos e falastrões. Eu achava que eles preferiam o Ciep, quando minha escola estadual estava abandonada. Eu não gostava tanto da escola, nem da ideia de ficar o dia inteiro nela aprisionado sofrendo pressões, assédios e constrangimentos (o que chamamos hoje de bullying). Lembro de ter visto ambos pela primeira vez na Beira-Rio, em Campos, durante campanha eleitoral em carreata. Darcy era candidato ao governo estadual, mas perdeu para Moreira Franco. Eu ainda não tinha idade para votar, mas votaria em Fernando Gabeira, se pudesse.
Eu demorei um bocado para saber quem era de fato Darcy Ribeiro e sua importância valiosa para o Brasil. Ignorantes são assim, demoram compreender muitas coisas. Não sei exatamente se foi em 1991 ou 1992, em uma certa ocasião, fui parar no restaurante do Palace Hotel para um jantar com Darcy Ribeiro. Não me lembro se ele já era senador da República ou candidato ao cargo. O encontro reuniu diversas autoridades do governo municipal, políticos, intelectuais, educadores e professores universitários que ensaiavam a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense sob a égide de Darcy Ribeiro, o mentor genial de tudo que se tornaria a Uenf futuramente. Como fui parar naquele evento? Bem, eu namorava alguém muito importante da primeira gestão de Anthony Garotinho na Prefeitura de Campos, então, fui a reboque.
Lembro que Darcy Ribeiro demorou muito para aparecer, sendo assim, o jantar não podia ser servido enquanto ele não chegasse, e eu faminto. Quando finalmente surgiu, estava de banho tomado, cabelos molhados e escovados para trás e, para variar, a sua metralhadora falante defenestrada entrou em ação. O homem era o centro das atenções e não poderia ser diferente. Eu percebia uma certa bajulação dos convidados, além de um constrangimento dos mesmos ao se dirigirem a ele, ou de interrompê-lo naquela verborragia toda alucinante. À época, a ponte Barcelos Martins tinha sido pintada de verde, o que desagradou a muitos campistas, inclusive integrantes do governo. Porém, Darcy elogiou a pintura com a cor mais representativa da flora brasileira. Bastou Darcy elogiar a ponte verde para muitos mudarem de opinião e concordarem com ele. “Toda cidade que é cortada por um rio como este só pode ser bonita”, disse.
Confesso que eu estava achando um saco aquele jantar. Darcy Ribeiro ria de tudo que ele mesmo contava e eu não conseguia achar a menor graça. Até que relatou de um susto que levara ao se hospedar em um hotel de alguma cidade do mundo onde fora criar ou reformar o modelo de ensino de alguma universidade, talvez no Peru ou Venezuela, não sabia precisar. Darcy disse que, ao sair do banho, deu de cara com um homem pelado de bunda murcha e enrugada no meio do quarto. Custou alguns segundos compreender o que um velho nu, enrugado e de bunda murcha fazia dentro do seu quarto. Foi então que percebeu que o velho era ele mesmo. A bunda flácida e enrugada que via era a sua própria refletida em espelhos. Todos riram, até que eu, tolo, estúpido e mau-humorado o contestei dizendo: “Ah,essa história eu achei muito mal-contada, professor. Afinal, o senhor estava hospedado só ou acompanhado nesse quarto de hotel?”. Alguns segundos de silêncio, ele me olhou por um instante, arqueou as sobrancelhas enormes e alvoroçadas, me ignorou, e voltou a disparar suas histórias. Me dei conta de minha gafe e passei a rir de tudo que ele dizia a partir de então, mas na verdade eu ria de mim mesmo.
Dias depois, a professora Magdala França Vianna, que estava nesse jantar e que me dava aulas no curso de Comunicação Social à época, me abordou na faculdade e disse ter se surpreendido com meu atrevimento ao me dirigir daquela forma ao célebre Darcy Ribeiro. Ela se divertiu. Sinceramente, eu achei que falei algo tão insignificante, mas que de uma certa maneira eu quis, sim, pensando bem, chamar sua atenção. Levei tempo para aprender que quase todos ali queriam ser que nem Darcy Ribeiro, um gênio (com e sem dúvidas) diante da vida. Quando ele morreu de câncer, aos 74 anos, em Brasilia, em 1997, eu já era menos tolo. Contava com 27 anos e tinha um pouco mais de maturidade e informação para saber que Darcy Ribeiro era um homem raro, que defendia a educação e os índios com tamanha nobreza e com grande conhecimento de causas e lutas.
Em novembro último, visitei a conceituada Universidade de Brasília e seu campus gigantesco. A UnB foi concebida por Darcy Ribeiro quando era ministro da Educação durante o governo parlamentarista de João Goulart. Dentro daquele complexo de prédios modernistas com traços de outro gênio, Niemeyer, lembrei desse meu encontro com Darcy Ribeiro e sobre sua última criação, a Universidade Estadual do Norte Fluminense que leva o seu nome, em Campos dos Goytacazes, instituição esta que eu tenho a honra de estar concluindo o mestrado em Cognição e Linguagem. Lamento muito que a Universidade do Terceiro Milênio como ele idealizou, esteja atravessando um momento de abandono juntamente com outras instituições de ensino do estado do Rio de Janeiro, acometido por graves problemas financeiros e por uma gestão desastrosa por parte dos últimos governos que preferiram investir em isenções fiscais para empresas multinacionais, por exemplo, além de superfaturar obras faraônicas e desviar dinheiro público para enriquecimento ilícito, como bem sabemos pelas acusações e prisões de vários políticos fluminenses testemunhadas pelo povo.
Tantos anos de luta e investimento por parte de professores, servidores, pesquisadores e estudantes, mas os políticos ainda não sabem ou não aprenderam a importância da educação para o desenvolvimento de um país e de uma sociedade que parece retroceder a cada dia quando não tem acesso ao ensino de qualidade. Há muito o que lamentar, porém é preciso reagir. Quando a Uenf foi idealizada, muitos representantes de setores organizados se juntaram para sua elaboração e consolidação. Agora é hora de todos que acreditam em um Brasil melhor e mais digno por meio da educação voltarem a se unir em favor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Um país que abandona suas escolas e universidades condena a si próprio ao atraso, ao esquecimento, às trevas.
Conta-se que no leito de hospital, antes de morrer, Darcy Ribeiro, sedutor como de costume, pediu à médica que lhe tratava o câncer para que ela o autorizasse a dar aulas ali mesmo. Ele sentia uma vontade enorme de ensinar, Trouxeram-lhe um menino de nove anos de idade para que ele pudesse conversar e dar sua última aula. Dizem que por alguns instantes, Darcy contou várias histórias ao garoto sobre o Brasil, a importância dos índios, das florestas, das culturas todas, do sambódromo e das escolas, e que todas essas coisas deveriam ser respeitadas, Foi um testamento que ele quis deixar.
Na UnB, no prédio lindo em forma de oca indígena construído no local que Darcy Ribeiro apelidou de beijódromo (era um local de encontros amorosos no campus universitário), encontra-se todo o seu acervo pessoal de livros, documentos, discos, prêmios, honrarias e objetos relevantes. Ali, se concentram alguns elementos que ajudaram na formação intelectual do antropólogo, reitor e escritor Darcy Ribeiro. Ele deixou um legado precioso ao país, e esta herança não pode ser esquecida pelos brasileiros, povo que ele amou sem reservas. O homem que amou o Brasil e que se doou de tal maneira nos deu exemplos. A lição está dada.
