Campista Juliana Carneiro secretaria Lula em Assuntos Federativos

 

Nova secretária secretária especial de Assuntos Federativos da Presidência da República, a campista Juliana Carneiro entre o ministro das Relações Institucionais Alexandre Padilha e André Ceciliano, pré-candidato a vice-prefeito do Rio na chapa à reeleição de Eduardo Paes (Foto: Instagram)

 

A campista Juliana Carneiro é a nova secretária especial de Assuntos Federativos da Presidência da República. Ela assume interinamente o cargo de André Ceciliano (PT), ex-presidente da Alerj que é pré-candidato a vice-prefeito do Rio de Janeiro, em atendimento ao desejo do presidente Lula (PT), na chapa à reeleição de Eduardo Paes (PSD) em 6 de outubro.

Em seu perfil no Instagram, com uma foto sua entre o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, e ao próprio Ceciliano, Juliana postou hoje:

— Muito honrada em assumir a secretaria especial de Assuntos Federativos da Presidência da República, sucedendo, interinamente, o querido André Ceciliano que se afastou para cumprir uma importante missão dada pelo presidente Lula para colocar seu nome à disposição para disputar a vaga de vice-prefeito do Rio de Janeiro. Dar continuidade ao seu excelente trabalho é um desafio que abraço com muita determinação e responsabilidade. Agradeço profundamente ao presidente Lula, ao ministro Alexandre Padilha e ao nosso secretário executivo, Olavo Noleto, pela confiança para essa importante missão. Muito obrigada pela oportunidade! Juntos vamos seguir fortalecendo nosso Brasil e a integração federativa!

 

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Adriano Moura lança “A inocência dos mortos” nesta sexta

 

Adriano e seu “A inocência dos mortos” (Foto: Divulgação)

“O que é a verdade sobre nós mesmos senão só mais uma história de ficção?” É a indagação do romancista, poeta, contista, dramaturgo, membro da Academia Campista de Letras (ACL) e professor do IFF, Adriano Moura. Que talvez melhor resuma seu novo romance, “A inocência dos mortos” (Patuá, 2024). Seu lançamento será às 19h desta sexta (7), na Casa Criativa Santa Paciência, na rua Barão de Miracema, nº 81. Mas já pode ser adquirido aqui, por r$ 50.

No site da Patuá, a história do livro em sinopse:

— “A inocência dos mortos” é um romance que mistura diferentes gêneros narrativos para contar a história de Antônio Prustiano, um escritor que retorna à sua cidade de origem após 20 anos, durante a pandemia de Covid-19, para ficar próximo da família. A notícia do assassinato de um de seus amigos de infância e a descoberta de um diário o levam a uma investigação a fim de desvendar o crime e escrever um livro. Sua vida e os últimos 40 anos da História do Brasil se misturam. Política, homofobia, racismo, pandemia atravessam as reflexões e tecem a teia ficcional do protagonista.

Como o jornalista Matheus Berriel registrou aqui, em seu blog na Folha1, ao anunciar o quinto e último livro de Adriano:

— É o segundo livro de Adriano pela Editora Patuá. O primeiro foi “Invisíveis”, de 2020, com contos que mesclam realidade e ficção para abordar histórias de miséria e abandono. Antes, o autor campista já havia publicado “Liquidificador: poesia para-vita-mina”, de 2007, pela Imprimatur/7Letras; “O julgamento de Lúcifer”, de 2013, pela Novo Século; e “Todo verso merece um dedo de prosa”, de 2016, pela Chiado Books. Sua produção também inclui participações em antologias e coletâneas com outros autores.

Em relação ao livro mais recente, Adriano mapeou a sua gênese em um seu conto premiado:

— A ideia do livro surgiu no início de 2023, quando escrevi um conto intitulado “Cheiro de passado”, premiado em um concurso de contos do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Como no meu livro anterior, “Invisíveis”, Campos é o cenário da trama, com referência a ruas, bares, bairros da periferia e do interior da cidade. Na narrativa, a ficção é instrumento de se pensar o status da verdade em tempos em que o que se conta se torna mais relevante do que o acontecido. Assim como na realidade, os personagens do romance têm muito o que esconder. A hipocrisia moral e social pode, às vezes, custar a vida de alguém. E é isso que ocorre com o personagem amigo do narrador, um sujeito morto por ter ousado ser quem era, sem o falso verniz criado pela família e sociedade.

“A inocência dos mortos” já está sendo adaptado ao teatro, com estreia prevista para o final de julho. Até lá, confira abaixo o conto que gerou e inicia o romance:

 

 

Cheiro de passado

As ruas de Campos estavam desertas naquela manhã de 23 abril de 2020. No mês anterior havia sido decretado lockdown como forma de conter a propagação da Covid-19. Há dois meses tinha iniciado uma série de viagens para lançamento do meu livro, que precisei cancelar, já que não sabia quando iríamos poder voltar ao normal. Pelo menos à ideia que construíramos sobre normalidade. Da janela do apartamento via o silêncio interrompido somente por alguns carros que se movimentavam a despeito da paralisia que assombrava os que, de dentro de suas residências, moviam seus corpos o suficiente para evitar a atrofia física e mental.

Do apartamento ao lado vinha um cheiro que me era bastante familiar. Alguém acabara de retirar do forno uma broa de milho. O aroma era inconfundível. Quando criança, ajudava minha mãe no plantio e colheita de milho no quintal da pequena casa onde morávamos no interior da cidade. Cultivávamos também outros alimentos como aipim, abóbora, batata doce. Grande parte do que comíamos vinha da terra.

A broa feita pela minha mãe no fogão à lenha era o perfume que completava o sabor de nossos cafés da tarde. Pela manhã, comíamos aipim cozido, pois era mais rápido o preparo. Meu pai cortava cana. Acordava com o primeiro canto do galo. Na marmita preparada para as refeições do dia, às vezes só não levava carne. De vez em quando um ovo cozido posto por alguma das galinhas criadas no quintal.

Embora não fosse todos os dias, a broa de milho era a estrela do nosso café da tarde; ou angu doce, outra especialidade da minha mãe, que completava a renda da casa lavando roupa para as famílias ricas do lugar.

Quando eu chegava da escola, sabia desde o portão se era dia de broa ou angu. Então sentávamos eu e meus outros dois irmãos. Assistíamos ao ritual cuidadoso de retirada da broa do forno, à delicadeza firme de nossa mãe no manuseio da faca para o corte, à alegria com que entregava a cada filho seu pedaço.

Depois que meu pai faleceu, vítima de infarto, minha mãe precisou ir para o corte de cana, pois só o dinheiro da lavagem da roupa não era suficiente para manter a casa. Meu irmão mais velho parou de estudar para trabalhar. Eu e minha irmã ficamos incumbidos de cuidar da casa quando não estávamos na escola. Ao sair de madrugada para o trabalho, nossa mãe deixava uma lista de afazeres que ela conferia logo que chegava de noitinha. Quase que só lhe víamos o branco dos olhos. Duas lâmpadas acesas no corpo coberto do carvão da queimada de cana.

Deixávamos o banho dela preparado: o balde com água morna, a bucha e o sabão para que, depois de removida a tintura do trabalho, voltasse a ser a nossa mãe. Mas ela precisava adiantar a comida do dia seguinte para, ao acordar, apenas esquentar, colocar na marmita e separar o que ficaria para mim e minha irmã comermos.

Minha mãe era uma mulher muito forte. Com o tempo foi ficando magrinha. As rugas se multiplicavam com velocidade nas bordas dos seus olhos. Um dia, fiquei observando-a arrumando a marmita. Notei que punha pouca comida para quem teria de enfrentar os eitos de cana. Descobri que o dinheiro não estava sendo suficiente. Então ela comia pouco para que eu e minha irmã tivéssemos o que comer.

Os sábados e domingos eram dedicados à lavagem de roupa. Eu ajudava enchendo o tanque e puxando água do poço. Aos poucos ia percebendo o engrossar das mãos provocado pela aspereza da corda. Tudo foi ficando muito áspero à medida que eu crescia.

Minha irmã tinha a incumbência de passar a roupa na segunda-feira; eu, de fazer as entregas.

A tristeza nos olhos dela cresceu no primeiro dia em que meu irmão chegou bêbado em casa. Ele trabalhava num armazém, atendendo no balcão e entregando compras de bicicleta. Um dia, após sair do trabalho, parou no botequim e bebeu sozinho um litro de cachaça. Meu irmão nunca se conformou em ter parado de estudar. Saiu de casa depois de conseguir um emprego um pouco melhor. Virou frentista num posto de gasolina no centro da cidade. Estava livre do peso, mas somente o das compras que carregava. Era oito anos mais velho que eu. Mesmo não morando mais conosco, não deixava de nos ver e ajudar com dinheiro, além de, vez ou outra, levar a mim e minha irmã para passear.

Fechei a varanda e retornei ao sofá da sala. Aquele cheiro de broa de milho me acompanhava. Embora o presente estivesse me convocando as suas demandas, era o passado o ocupante das horas que, no tempo de confinamento, demoravam a passar. Folheava absorto as páginas de Proust. Decidira fazer da leitura de Em busca do tempo perdido uma das atividades que me ajudariam a atravessar a solidão mascarada pelos riscos da Covid. De repente me vi tentando recuperar a lembrança do cheiro macio e colorido da última broa de milho assada pela minha mãe.

Com o passar do tempo, não plantávamos mais milho. Comprávamos fubá no armazém da usina, e a farinha era destinada ao angu, que logo passou a ser uma das nossas refeições mais frequentes. Angu com carne moída, ou com salame, folha de taioba, ou…não foram poucas vezes somente o angu, ralo para que durasse mais tempo a farinha.

Assim me visitou o passado várias horas daquele dia. Eu tentava em vão retê-lo, fazê-lo ficar o máximo possível comigo. Mas me escapava arredio. Fui me dando conta da impossibilidade de prendê-lo à medida que o cheiro ia se dissipando. Resolvi telefonar para minha mãe, também isolada, principalmente devido à idade. Conversamos sobre as lembranças que me visitaram. Disse a ela que decidira escrever sobre o assunto em meu próximo livro.

“Você sempre gostou de escrever. Lembra como aprendeu?”. Ao telefone, disse-me que eu me alfabetizei sozinho, escrevendo com gravetos nos fundos do quintal da casa. Falou que às vezes estava me procurando, quando então se deparava comigo, agachado, rabiscando no chão letras que com o passar do tempo construiriam palavras. A escola só teria aprimorado em mim o ensinamento dos gravetos. A memória de minha mãe estava falhando ultimamente. Surpreendeu-me a precisão com que narrou esse episódio.

Sentei à frente do computador para escrever sobre os aromas da infância, tarefa que me fez atravessar a noite com os dedos nas teclas cujo barulho, embora suave, era música que embalaria o sono que só se consumaria ao amanhecer. Todos os dias, pela manhã ou à tarde, eu ia até a varanda na esperança de que aquele cheiro novamente me visitasse. Mas ele não veio mais. Notei que nem mesmo barulho minha vizinha fazia. Imaginei que tivesse se mudado. Soube depois que falecera, vítima de Covid.

Numa manhã de sábado, meu celular tocou. Era minha mãe. Disse para eu ir até a casa dela à tarde, pois precisava falar urgentemente comigo. Manteríamos o distanciamento social recomendado para evitar risco de contágio, mas que nossa conversa não podia ser por telefone. Não gostei do tom de voz dela.

Apertei a campainha da casa às 17h. Cristina, minha irmã, abriu o portão. Não nos abraçamos. Nem mesmo um aperto de mão. Era um tempo em que o abraço implicava risco de morte. Adentrei a sala. O cheiro de infância dominava todo o ambiente. Minha mãe fizera broa de milho. Ficamos próximos como há muito não nos sentíamos. Cristina prestava mais atenção à televisão ligada na Sessão da Tarde do que na conversa. Guardava certa mágoa de mim e Jeferson. Para ela, eu e ele seguimos nossas vidas enquanto ela teve de ficar cuidando de nossa mãe, que nunca soube das frustrações da filha. Mesmo assim foi uma tarde deliciosa de afetos fisicamente distantes. De vez em quando mamãe esquecia meu nome e perguntava quem eu era. Como eu temia o que aqueles esquecimentos significavam!

À noite, em casa, continuei a escrever um conto iniciado no dia anterior. Atravessei mais uma vez a madrugada. Dormi. Acordei, preparei o café acompanhado por um generoso pedaço de broa que eu trouxera da casa de minha mãe. Aquele gosto e cheiro foram meus companheiros durante o isolamento. Não há solidão quando se tem memórias e é possível escrever sobre elas.

Mesmo com a chegada das vacinas e o fim do isolamento, mantive o hábito do café com broa de milho em casa. Meu novo vizinho (ou vizinha?) costuma acender incensos. Sei pelo cheiro que me remete à…

…isso é outra história.

 

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Delegada Madeleine fecha a semana do Folha no Ar nesta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Delegada de Polícia Civil e pré-candidata a prefeita de Campos, Madeleine Dykeman (União) é a convidada para fechar a semana do Folha no Ar nesta sexta (7), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele falará do papel da mulher na política de Campos, que tem uma Câmara Municipal composta só de 25 homens, e no Brasil.

Madeleine também falará o que pode levar da sua experiência na Segurança Pública, sobretudo em defesa dos direitos da mulher, ao Executivo goitacá. Por fim, analisará o apoio político dos Bacellar (confira aqui) à sua pré-candidatura e tentará projetar, com base nas pesquisas (confira aqui), a eleição à Prefeitura e à Câmara de Campos em 6 de outubro, daqui a exatos 4 meses.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook, no Instagram e no YouTube.

 

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Programação dos 85 anos na ACL no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Poeta, professor de Letras e presidente da Academia Campista de Letras (ACL), Ronaldo Junior é o convidado do Folha no Ar desta quinta (6), ao vivo, a partir das 7 da manhã, na Folha FM 98,3. Ele detalhará a programação (confira aqui) para celebrar neste mês de junho os 85 anos da ACL.

Ronaldo também falará sobre o papel da literatura e das academias de letras no tempo do Kindle e das redes sociais. Por fim, ele avaliará a cultura como tema também das eleições a prefeito e vereador de Campos em 6 de outubro, daqui a exatos 4 meses e 1 dia.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook, no Instagram e no YouTube.

 

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Ronaldo Junior — Junho com 85 anos da história de Campos na ACL

 

(Foto: Folha da Manhã)

 

Ronaldo Junior, poeta, professor de Letras e presidente da Academia Campista de Letras (ACL)

85 anos de história

Por Ronaldo Junior

 

O mês de junho marca a passagem dos 85 anos de fundação da Academia Campista de Letras, o que me leva a fazer um convite e uma reflexão.

Primeiro, o convite: ao longo deste mês, a ACL vai receber cinco eventos que marcarão as comemorações dessa data. A começar no dia 8 de junho, às 16h, quando será aberta a exposição de ilustrações do grupo Urban Sketchers Campos, com curadoria de seu coordenador, o arquiteto Ronaldo Araújo. Para marcar esse momento, ouviremos o coordenador do USk Campos e, também, seremos agraciados com uma palestra da professora Maria Catharina Reis Queiroz Prata, do IFF Campos-Centro, responsável pelo projeto Patrimônio Goitacá. O tema será “A cidade no espelho”.

O segundo dia será 13 de junho, às 19h, quando receberemos uma mesa redonda para homenagear a Livraria Ao Livro Verde por seus 180 anos de fundação. Participarão a professora Valéria Crespo — autora de uma pesquisa sobre a Livraria — e os acadêmicos Genilson Soares e Sylvia Paes (mediadora), que possuem reconhecida atuação na preservação de nossa memória. Na ocasião, após a mesa redonda, receberemos o lançamento e a afiliação de membros da Associação de Amigos de Ao Livro Verde (Asalve), que tem como principal pilar a preservação da Livraria enquanto patrimônio cultural, com enfoque em salvaguardar o que ela representa para a nossa cultura. A Associação será fundada a partir da Campanha SOS Ao Livro Verde, da qual a ACL é signatária.

O terceiro evento ocorrerá em 17 de junho, às 19h, quando receberemos uma conferência em homenagem aos 95 anos de fundação da Associação de Imprensa Campista — instituição parceira da ACL —, ministrada pelo acadêmico e jornalista Herbson Freitas. Na ocasião, o evento será aberto por mim e pelo presidente da AIC, Wellington Cordeiro.

Em 21 de junho, dia que marca a fundação da ACL, celebraremos, às 19h, o aniversário da instituição com uma homenagem aos acadêmicos e acadêmicas, que receberão a Comenda da Academia Campista de Letras. Logo após, será apresentado o site oficial da instituição. Nesse dia, ainda, seremos brindados com a presença da Sociedade Musical Lira de Apolo, que fará uma apresentação, seguida de um coquetel.

O encerramento da programação será no dia 29 de junho, às 17h, quando teremos a honra de receber um dos maiores nomes da antropologia brasileira: o professor e escritor Roberto DaMatta, que fará um bate-papo com o acadêmico Carlos Augusto Souto de Alencar.

Durante os dias de evento, o público poderá visitar a exposição do grupo USk Campos — que estará aberta até o final do mês de junho — e, ainda, poderá conhecer peças artesanais do grupo Arte e Identidade do Artesanato Campista. Que tem como proposta valorizar a cultura de Campos por meio do artesanato.

Agora que fiz o convite, quero aproveitar para refletir sobre o que esse momento significa.

Os últimos 85 anos da história campista foram, de alguma maneira, presenciados pela ACL. Seus membros, muitas vezes, participaram de forma ativa dessa história e permitiram que a instituição resistisse ao longo dos anos, para seguir participando da vida cultural, política e intelectual do município.

Mas, para visitar esses anos, entendo ser necessário contar uma história conjunta, que passa por outros olhares e pela história de outras instituições, que também trabalham em prol da preservação da nossa memória. Neste mês de junho de 2024, portanto, celebramos nossa história também sob a ótica de outras entidades que vivenciaram a Campos das últimas décadas, pois entendemos que o papel da ACL passa por salvaguardar nosso patrimônio cultural, o que exige diálogo e trabalho conjunto num mesmo objetivo.

Isso me faz pensar no fundamento da imortalidade evocada pelas Academias de Letras: somente a memória nos permite ao menos simular a perenidade. E isso vale para os nossos símbolos, lugares, fatos e pessoas. Precisamos lembrar para imortalizar. Precisamos lembrar para reconhecer. Precisamos lembrar para refletir sobre os significados. E, com isso, preservar o que compõe nossa identidade campista.

Assim, encerro reiterando o convite para celebrarmos, a partir do dia 8 de junho, em nossa sede (localizada no Pq. Dr. Nilo Peçanha, o Jardim São Benedito), a cultura campista e nossas instituições, responsáveis por contar parte da história de quem somos e fomos.

A programação completa pode ser acessada no perfil da ACL no Instagram: @academiacampistadeletras ou no site: academiacampista.org.br.

 

Folha Letras publicada hoje na Folha da Manhã

 

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Brasil e Vasco em busca da história de grandeza no futebol

 

Vini Jr. levantou a Champions da Europa pela segunda vez, novamente marcando o gol do título ao Real Madrid, na véspera do domingo do Vasco 1 a 6 Flamengo no domingo do Maracanã (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Na Europa, Vini é esperança ao Brasil

Eleito o melhor jogador da Champions League da Europa decidida no sábado (1º), que conquistou com o Real Madrid pela segunda vez marcando o gol do título, feito inédito a qualquer jogador brasileiro, o atacante Vini Jr. é a esperança mais concreta do “melhor futebol do mundo” sair da bravata. Já era desde a Copa do Mundo de 2022, quando a Seleção Brasileira talvez não tenha passado das quartas-de-final porque o jovem atacante, preso pelo técnico Tite na ponta esquerda, não brilhou. Após ser o 6º colocado na Bola de Ouro de 2023, Vini hoje aparece com chance de conquistar o prêmio em 2024, entregue em novembro. A ver.

 

Futebol contra o racismo   

Na Bola de Ouro de 2023, Vini Jr. ganhou o troféu Sócrates — um dos craques da inesquecível Seleção Brasileira de 1982 e conhecido pela militância política — por sua luta contra o racismo no futebol. Exato um século antes, essa luta tinha sido encampada no Brasil em 1923, pelo Vasco da Gama. Que, com um time que aceitava negros e pardos, diferente do Flamengo, Fluminense e Botafogo, venceu estes três para ser campeão da 19ª edição do Campeonato Carioca de Futebol. Logo em seu ano de estreia, na principal divisão do esporte da então capital da República, não há exagero em dizer que o Vasco já nasceu gigante.

 

Vasco: apogeu e decadência

Do “Expresso da Vitória”, que dominou o futebol carioca e nacional entre 1942 e 1953, dando a base do Brasil vice-campeão mundial em 1950, o Vasco cedeu jogadores à Seleção nas conquistas das Copas do Mundo de 1958, 1962 e 1994. E teria suas maiores glórias com a Libertadores da América em 1998 e seus quatro Brasileiros: 1974, 1989, 1997 e 2000. Também ganharia a Copa do Brasil em 2011. Mas esta veio para atenuar a decadência em que o clube já tinha entrado a partir de 2008, quando foi rebaixado a primeira vez à Série B do Brasileirão. Voltaria à Série A, onde hoje está. Mas seria também rebaixado em 2013, 2015 e 2020.

 

6 a 1 e 7 a 1 x história de grandeza

No domingo (2) seguinte à conquista da Europa por Vini Jr, o Vasco abriu o placar contra o Flamengo, no Maracanã, pela Série A do Brasileiro. Foi esperança apagada na virada de 6 a 1. Para figurar entre os maiores vexames do futebol brasileiro recente, com os 7 a 1 da Alemanha na Copa do Mundo de 2014 ou a inverossímil pipocada do Botafogo no Brasileirão do ano passado. Para piorar, no futebol feminino, o Rubro-Negro já tinha dado, em 9 de março, outro 6 a 1 no Cruz-Maltino. Que aplicou, porém, a maior goleada do clássico: 7 a 0 no Flamengo, em 1931. Como o Brasil, o Vasco precisa reencontrar a sua história de grandeza no futebol.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Direita e esquerda em Campos entre urnas e pesquisas

 

Wladimir Garotinho, Cláudio Castro, Lula, Rodrigo Bacellar, Madeleine Dykeman, Alexandre Buchaul, Clodomir Crespo e Carla Machado (Montagem: Eliabe de Souza)

 

 

Governos Wladimir, Castro e Lula em Campos

No segundo bloco do programa Folha no Ar de ontem (4), além dos números já conhecidos da aprovação do eleitor de Campos ao governo do prefeito Wladimir Garotinho (PP), foram também revelados os relativos aos do governador Cláudio Castro (PL) e do presidente Lula (PT). Enquanto a gestão de Wladimir é aprovada por 70,5% (com 14,9% que desaprovam e 14,6% que não souberam avaliar), a de Castro tem aprovação de 41,4% (com 20,8% que desaprovam e 37,8% que não souberam avaliar) e a de Lula é aprovada pela minoria de 28,9% (com reprovação majoritária de 59,5% e 11,6% que não souberam avaliar).

 

Antilulismo goitacá

Enquanto Wladimir tem na alta aprovação ao seu governo a melhor chance de se reeleger em 6 de outubro, daqui a 4 meses e 1 dia, e o de Castro ficou na conta do chá, a reprovação ao Lula 3 entre os campistas é hoje mais que o dobro da aprovação. Foi o cenário desenhado pelos números da pesquisa Prefab Future, que ouviu 1.002 eleitores de Campos em 26 de abril, com base no IBGE e registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número RJ-04536/2024. Se não dá para cravar que o eleitor de Campos é conservador, parece não haver dúvida matemática de que ele hoje tem expressiva maioria antipática ao Governo Federal.

 

Direita lidera na pesquisa

No debate se o eleitor campista se posiciona mais à direita ou à esquerda, uma pergunta mais específica da pesquisa foi feita: “Você se considera ideologicamente um eleitor de?” A direita liderou com 39,6%, com 28,0% se identificando como moderado, 23,7% como apolítico, cabendo a identificação com a esquerda a apenas 8,7% do eleitorado campista. São números que não se traduzem necessariamente em eleições municipais. Sobretudo quando polarizadas por políticos como Wladimir e o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), ideologicamente camaleônicos em suas vitoriosas e ainda relativamente curtas trajetórias políticas.

 

Esquerda à frente na urna

Pode ser que prefeitáveis de direita como a Delegada Madeleine (União), o odontólogo Alexandre Buchaul (Novo) e o empresário Clodomir Crespo (DC) tentem capturar esse eleitor ideológico. Que deu ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) 64,87% dos votos válidos de Campos no 2º turno de 2018 e 63,14%, no 2º turno de 2022. Entre estes dois pleitos nacionais, dois candidatos tentaram surfar o bolsonarismo local no 1º turno da eleição a prefeito de 2020: o ex-vereador Tadeu Tô Contigo levou 2,17% dos votos válidos, e o empresário Jonathan Paes, 0,51%. Candidata estreante do Psol, Professora Natália teve quase o dobro dos dois: 4,68%.

 

Ideologia a prefeito?

Como, pela única pesquisa até aqui registrada neste ano de nova eleição municipal, Madeleine já saiu de 6,8% de intenções de voto na consulta estimulada, isso pode ser tanto voto conservador, quanto moderado e apolítico que admira sua brilhante trajetória como delegada de Polícia Civil. Bem como pelo apoio dos Bacellar. Assim como os 18,7% de Carla Machado, quase certamente, se devem mais aos seus quatro mandatos como prefeita de São João da Barra do que por ser deputada estadual do PT. Com apoio declarado do senador Flávio Bolsonaro (PL) e bom trânsito com o Lula 3, Wladimir liderou a pesquisa com 53,7%.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Edinho Black, redes sociais e marcenaria no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Marceneiro conceituado e figura querida na cidade, Edinho Black é o convidado desta quarta (5) no Folha no Ar, ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele falará como consegue viver e produzir sem celular ou redes sociais. E do papel da marcenaria em Campos e nos dias de hoje.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook, no Instagram e no YouTube.

 

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Patrimônio, direita/esquerda e eleição no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A preservação do patrimônio histórico de Campos e a estátua de Tiradentes há 10 meses decapitada (confira aqui) no Centro. Com base nos últimos pleitos (confira aqui e aqui) e pesquisas (confira aqui), o eleitor campista é de direita ou esquerda? E, por fim, a projeção das eleições a prefeito e vereador (confira aqui, aqui e aqui) de 6 de outubro, daqui a 4 meses e 3 dias.

Esses serão os assuntos em debate no Folha no Ar desta terça (4), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Que serão debatidos pela bancada do programa: os jornalistas Aluysio Abreu Barbosa e Edmundo Siqueira e o radialista Cláudio Nogueira, gerente da Folha FM e âncora do Folha no Ar.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook, no Instagram e no YouTube.

 

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O basquete, como a vida, para além do preto e branco

 

Embora ainda sem título, que disputará contra a excelente equipe do Boston Celtis, uma das melhores duplas de armadores já vista na NBA: o veterano craque Kyrie Irving e o gênio esloveno Luka Dončić, do Dallas Mavericks

 

Era terça, dia 28, quando à tarde chegaram pelos Correios as duas camisas da seleção da Croácia de futebol. Que comprou para si e ao primo materno mais novo, meio filho adotado pelo mais velho.

Uma camisa era a branca, salpicada do tradicional quadriculado vermelho. No padrão croata que o saudoso Bussunda chamava de “toalha de cantina”. A outra era a versão azul marinho do mesmo uniforme.

As duas, a pedido, vinham com o número 10 ao peito e às costas. Nestas, também estava o nome do craque, corretamente escrito, com acento agudo no “c”, que indica a palatização fraca na língua croata: Modrić.

Quem comprou as camisas tinha o jogador franzino, pequeno e narigudo, sem titubeio, como o melhor volante e um dos mais cerebrais meias que vira jogar desde que passou a acompanhar futebol. Como já o acompanhava há 44 anos, não julgava pouca coisa.

 

Modrić sob a marcação do seu então colega de Real Madrid Casemiro, nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022, no Qatar, em que a Croácia eliminaria o Brasil

 

Acompanhava o basquete da NBA há menos tempo, 37 anos. Desde 1987, quando tinha 15, e a Band fez a primeira transmissão, ainda em VT, das finais de 1986. Que foram vencidas pelo Boston Celtics. Foi o terceiro e último título do seu astro, o ala Larry Bird.

Em 1987 e 1988, nos dois últimos títulos dos cinco dos Los Angeles Lakers do armador Earwing Magic Johnson, reconheceu seu time e ídolo na NBA. Negro, Johnson foi o antagonista de Bird, um típico red neck — como se designa nos EUA os brancos de origem pobre e do interior.

Na popularidade da oposição racial entre o ala dos Celtas e o armador dos Lakers, bem como pela exuberância técnica de ambos, não há exagero em dizer que uma decadente NBA foi salva naqueles anos 1980. Enquanto, fora das quadras, Bird e Johnson se tornaram grandes amigos.

 

Larry Bird e Magic Johnson na rivalidade de disputa racial que salvaria a NBA nos anos 1980, mas grande amigos fora da quadra

 

Quatro décadas depois, veria o Boston varrer na noite de segunda (27) o Indiana Pacers, pelo placar de 105 a 102. E, por 4 jogos a 0, vencer a final da Conferência Leste. Não mais com Bird, natural de Indiana. Mas com um quinteto muito homogêneo e nivelado por cima.

Entre o armador Derrick White, o ala-armador Jrue Holiday, o ala Jaylen Brown, o ala-pivô Jayson Tatum e o veterano pivô dominicano Hal Horford, a surpresa veio na escolha do MVP (“Most Valuable Player”, ou “Jogador Mais Valioso”) do Leste.

Não Tatum, considerado o melhor jogador do Boston desde que lá estreou como profissional, em 2017. Mas Brown, que em 2014 ouviu da professora: “Vou procurar você na prisão daqui a 5 anos”. Dez anos depois, como MVP do Leste, o jogador negro recebeu o troféu Larry Bird.

 

Jaylen Brown e Jayson Tatum formam a principal dupla do Boston Celtics

 

Dever de casa feito, o Boston e o mundo do basquete voltaram os olhos para a noite do dia seguinte, terça. Na qual o Dallas Mavericks, vencendo a Conferência Oeste por 3 jogos a 0, enfrentaria novamente o Minnesota Timberwolves.

Após eliminar por 4 a 3 o atual campeão Denver Nuggets, do revolucionário pivô sérvio Nikola Jokić, o Minnesota passou à final do Oeste com ares de favorito. E liderado por uma grande promessa, o explosivo Anthony Edwards, de apenas 22 anos.

 

Anthony Edwards e Nikola Jokić, antes de o primeiro protagonizar a eliminação do Denver Nuggets, atual campeão na NBA

 

Só esqueceram de combinar com o Dallas. E com sua dupla de armadores de qualidade poucas vezes vista na NBA: o veterano Kyrie Irving e o esloveno Luka Dončić. Preparado para encarar o Denver, o Minnesota embaralhou a vista com os Mavericks. Que abriram 3 jogos a 0 na série.

Após vencerem os três primeiros jogos, Dončić e Irving foram também vencidos. Sobretudo por conta da atuação apagada do segundo no jogo 4. No qual Edwards e o ala-pivô Karl-Anthony Towns comandaram a primeira vitória do seu time na série.

Quem assistia de casa, mesmo torcendo pelo Dallas, por conta do basquete diferente de Dončić, escasso em explosão e abundante em técnica, passou a torcer pelo Minnesota do explosivo Edwards. Porque o jogo estava tão bom, mas tão bom, que merecia outro.

Como a Eslovênia de Dončić, a Sérvia de Jokić e a Croácia de Modrić compunham a antiga Iugoslávia, usava a camisa azul do terceiro que recebera pelos Correios, por acaso, naquele dia. Para, trajado do futebol croata, acompanhar o gênio esloveno do basquete nos EUA.

Marechal Josip Broz Tito participando da segunda sessão do Conselho Antifascista de Libertação Nacional da Iugoslávia, em novembro de 1943, contra a invasão da Alemanha nazista

Sempre admirou aquele povo balcânico, ao norte da Antiga Grécia. Que ajudou a formar com os dóricos e os macedônios de Alexandre. Como sua resistência ao nazismo de Hitler na II Guerra, sob o comando de Tito. Comunista que não se submeteria depois à União Soviética.

Após a morte de Tito, em 1980, a Iugoslávia se esfacelaria em guerras fraticidas nos anos 1990. Mas ainda via no presente essa história milenar e secular refletida numa maneira comum de se expressar pelo esporte. Embora incomum aos demais.

Como um jogador de futebol sem explosão, velocidade ou força, como o croata Modrić, pode ter sido o único a furar o monocórdio revezamento entre o argentino Lionel Messi e português Cristiano Ronaldo, na década passada, como melhor boleiro da Terra?

Como dois jogadores de basquete sem explosão, velocidade ou impulsão, como o sérvio Jokić e esloveno Dončić, podem ter tanto destaque num esporte inventado nos EUA, dentro dos EUA? E  que tem no voo de Michael Jordan a sua referência mais elevada?

Quem realmente duvida que o esporte, enquanto expressão também de arte, tem tanto ou mais de intelecto e cultura do que de força física, que veja o primeiro tocar uma bola com os pés. Ou os outros dois com as mãos. E depois dê o braço, ou a perna, a torcer.

Após dar a camisa azul de Modrić ao primo na quinta (30), vestiu a branca para assistir à noite ao jogo 5 entre Dallas e Minnesota. Enquanto refletia se não era jogo de cena a fala de Dončić após o jogo 4: “Acho que a culpa da derrota é minha. Não consegui dar energia suficiente”.

A cena se revelou na abertura do jogo 5. Com apenas 2 minutos e meio, Dončić já havia marcado 10 pontos. Aos adversários e companheiros, deu de cara uma prova da tal energia. Ele terminaria com 20 pontos o 1º quarto. No qual o time do Minnesota, junto, marcou 19.

No placar de 35 a 19, se a vantagem do Dallas ao fim do 1º quarto era confortável, quem a ampliou no 2º foi Kyrie Irving. Quando anotou 15 pontos. Para partir ao 3º quarto com 69 a 40. Nos quais Dončić e Irving marcaram, juntos, 44. Sozinhos, bateram todo o Minnesota.

A vantagem chegaria a ultrapassar os 30 pontos, mas seria reduzida com tentativas de reação do Minnesota, comandadas tardiamente por Towns e Edwards. Nada que impedisse a vitória do Dallas pelo inapelável placar final de 124 a 103. Tanto quanto o de 4 jogos a 1 na série.

Se Dončić e Irving empataram ao marcar, cada um, 36 pontos na conquista da Conferência Oeste, não houve na eleição do MVP a dúvida do Leste entre Jaylen Brown e Jayson Tatum. Também de cara, o anúncio nos EUA foi claro: “O MVP é da Eslovênia”.

Assim como Brown havia recebido três dias antes o troféu Larry Bird, o branco Dončić recebeu o troféu Earwing Magic Johnson. O basquete, como a própria vida, guarda sempre arremessos mais precisos a quem é capaz de distinguir além do preto e branco. Que venham as finais!

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Obra de José do Patrocínio contra a escravidão é relançada

 

Armado da pena da sua escrita na luta contra a escravidão negra no Brasil, o campista José do Patrocínio retratado em charge de Pereira Neto, publicada em 29 de outubro de 1888, cinco meses após a abolição da escravatura no Brasil Império

José do Patrocínio (1853/1905) talvez seja o filho mais ilustre de Campos, ao lado do ex-presidente Nilo Peçanha (1867/1924) e do ex-craque de futebol Didi (1928/2001). Frutos da mãe de obra trazida escrava de África aos canaviais do “viridente plaino goitacá”, os três eram negros.

Jornalista e político, Patrocínio ficou mais famoso como abolicionista. Embora também tenha sido figura de proa na proclamação da República — como outro jornalista de Campos, o Edmundo Siqueira, lembrou aqui.

Parte da  luta de Patrocínio, o “Tigre da Abolição”, pela emancipação dos negros no Brasil e perenizada em seus escritos, está sendo resgatada. Em publicação das editoras britânica Penguin e brasileira Companhia das Letras.

Com o título “Panfletos abolicionistas”, o lançamento será em 11 de junho, na versão impressa (R$ 69,90) e em Kindle (R$ 39,90).  Em ambas, sua pré-venda já está sendo feita aqui, pela Amazon.

O livro reúne textos de Patrocínio com outro negro abolicionista, o engenheiro André Rebouças (1838/1898). Além do diplomata, político, advogado e historiador aboliconista Joaquim Nabuco (1849/1910), o “Leão do Norte”.

São publicações de 1883, cinco anos antes da libertação dos escravos negros no Brasil Império. De Patrocínio e Rebouças, “O Manifesto da Confederação Abolicionista”. De Nabuco, “Reformas nacionais: o abolicionismo”.

No texto que a Amazon disponibiliza na pré-venda do livro, sua melhor definição e relevância: “são documentos de uma época, mas ainda falam de um Brasil que, em muitos pontos, permanece o mesmo”.

Abaixo a sua íntegra:

 

Abolicionistas José do Patrocínio, André Rebouças e Joaquim Nabuco (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

“A campanha pela abolição foi mais longa e arriscada do que em geral se imagina, envolvendo muita ação e política, mas nunca prescindiu da propaganda escrita. Os textos aqui reunidos resgatam essa imensa mobilização, tão distante da idílica imagem da canetada da ‘princesa redentora’.

De 1868 a 1888, centenas de homens e mulheres se engajaram em ações antiescravistas, criando associações civis, fazendo viagens de propaganda, promovendo eventos artísticos, lançando candidaturas eleitorais e pensando rotas de fugas para os cativos. Também escreveram um sem-número de poemas, romances, peças, artigos… e panfletos — dois dos quais coligidos neste volume.

Produzidos no calor do momento e publicados em 1883, ano de grande aceleração da mobilização abolicionista, esses textos defendem o fim do trabalho escravo. O primeiro, de Joaquim Nabuco, ganhou muitas edições subsequentes, tornando-se um clássico. Ficou conhecido por ‘O abolicionismo’, ainda que originalmente tenha sido publicado como ‘Reformas nacionais: o abolicionismo’, título recuperado aqui.

O segundo é assinado por André Rebouças e José do Patrocínio, outras duas figuras resplandecentes da campanha abolicionista. O ‘Manifesto da Confederação Abolicionista’, nunca republicado, apresenta as questões debatidas por quinze associações abolicionistas do Rio de Janeiro, reunidas em assembleia em maio de 1883.

Obras abertas a interpretações, estes ‘Panfletos abolicionistas’ são documentos de uma época, mas ainda falam de um Brasil que, em muitos pontos, permanece o mesmo”.

 

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Felipe Fernandes — Ponto alto da franquia “Mad Max”

 

 

Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema

Areia, selvageria e vingança

Por Felipe Fernandes

Criado por George Miller e lançado em 1979, Mad Max se passa em um futuro próximo onde a sociedade ruiu em uma guerra por petróleo e nesse contexto, um policial rodoviário entra em uma insana jornada de vingança contra uma gangue de motoqueiros que matou sua família. É um filme bem direto, feito com baixo orçamento, que trabalha pouco seu subtexto e impressiona mais pela forma artesanal como tudo é feito.

O filme gerou uma franquia, lançou o diretor George Miller e o ator Mel Gibson ao estrelato e muitas das características mencionadas também estão presentes nos outros filmes. Em 2015, após um hiato de 30 anos, George Miller retornou ao universo distópico e desértico e criou um dos maiores filmes de ação já realizados. “Mad Max: Estrada da Fúria” é um filme frenético, repleto de momentos brilhantes, que além de encantar o público, ganhou 6 Oscars, um feito inimaginável quando pensamos em cinema de ação.

O fascínio do público foi tão grande que gerou um prequel, novamente comandando por George Miller, que retoma a franquia, mas não para seguir na jornada de Max. A protagonista agora é Furiosa, a personagem do longa de 2015 que roubou a cena e se provou uma das melhores personagens femininas do gênero.

“Furiosa: Uma Saga Mad Max” abre com um tom de fábula, característica presentes no segundo e terceiro longas. Que retorna para contar a história da jovem Furiosa, que assim como Eva, foi atrás do fruto proibido e aqui, acaba raptada por uma gangue de motoqueiros. O filme é dividido em capítulos, que reforçam esse tom fabulesco e traz neste primeiro momento uma história que busca situar o espectador dentro daquele universo.

Ao contrário de “Estrada da Fúria”, que era um filme de situação e soltava elementos da história em meio a ação, aqui Miller resolve estabelecer muito do que foi visto no longa anterior: apresentar toda uma nova gangue de motoqueiros e contar a origem de Furiosa. Tudo isso sem perder mão da ação e sem precisar alterar fatos previamente estabelecidos.

Essa decisão torna o filme diferente e enriquece o universo do longa anterior, criando uma ligação forte entre os dois últimos filmes da franquia e fazendo de Furiosa um filme com mais respiros e uma história mais trabalhada. Grande parte do filme narra a história de Dementus (Chris Hemsworth), líder de uma violenta gangue de motoqueiros que é responsável pelo rapto de Furiosa e na busca por gasolina e suprimentos entra em guerra contra Immortal Joe (Lachy Hulme), conflito este que vai permear toda a narrativa.

Dementus se mostra um personagem interessante, que ganha uma história pregressa simples, que com um único elemento narrativo conseguimos entender suas motivações e de certa forma, como ele chegou até ali. É uma espécie de Max, que seguiu por caminhos completamente opostos.

Essa simplicidade narrativa presente desde o primeiro longa faz muito sentido na franquia. Que busca mais trabalhar seus subtextos e questões sociais dentro daquele universo, do que propriamente construir e desconstruir personagens.

A jornada de Furiosa tal qual a de Max no longa original, é uma jornada de vingança. Mas aqui, a jovem precisa mostrar força em um universo dominado por homens, ela precisa provar ser digna de andar por aquelas estradas. Seu crescimento dentro do conflito entre os poderosos acontece de forma exponencial, com ela quebrando etapas, até alcançar sua autonomia e enfim começar sua vingança.

Miller é um cineasta experiente que conhece o jogo. Ele não busca refazer seu longa anterior ou nenhum dos outros longas da franquia, mas ele respeita e reverencia tudo o que foi construído até aqui. O filme não tem a ação desenfreada do longa anterior, mas trabalha um quadro maior, dando profundidade a aquele universo, elemento que enriquece a franquia como um todo.

A ação do filme mantém o nível de excelência de “Estrada da Fúria” e mesmo que o CGI seja mais notório aqui, as cenas de ação entregam momentos marcantes. O longa resgata um nível de selvageria e violência que remetem ao início da franquia. Dementus é um personagem mais cruel e instável, mistura que torna tudo mais perigoso e violento.

“Furiosa” é mais um ponto alto na franquia e na carreira de George Miller. O filme constrói uma origem satisfatória que engrandece uma das personagens femininas mais marcantes do cinema de ação, expande muito dos elementos apresentados no longa anterior, uma questão que inclusive engrandece o filme de 2015. Algo raro quando pensamos em prequels e continuações.

É uma das melhores experiências cinematográficas de 2024. Fruto de um diretor que faz cinema de autor dentro de um blockbuster com uma desenvoltura impressionante, coisa de artista grande.

 

Publicado na Folha da Manhã.

 

Confira o trailer do filme:

 

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