Candangos e arcanjos na Catedral de Brasília

 

Paula Vigneron entre os vitrais de Marianne Peretti na Catedral de Brasília, manhã quente de 7 de abril de 2024 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

“Ajude a ceguinha; opa! Ajude a ceguinha; opa! Se não tiver notinha, pode ser uma moedinha. Se não tiver moedinha, tem o PIX da ceguinha. Ajude a ceguinha; opa! Ajude a ceguinha; opa!” Era o que cantava, incessante, aquela senhora. Estava sentada ao lado direito do início da descida da rampa, à entrada da Catedral de Brasília. Em acordo mudo entre ouvidos e mãos, estendia com a direita o copo plástico, atenta aos barulhos dos passos que se aproximavam.

O acento da ladainha não deixava dúvida: era uma candanga, nordestina. Que, como tantos conterrâneos, construíram com as mãos a nova capital da República. Acompanhado da namorada, o visitante do Sul Maravilha encarou o vazio murcho das órbitas da pedinte e estremeceu. Cerrado nas pálpebras enrugadas de sol, ao seu vácuo anteviu os dois olhos arrancados com um broche por Édipo Rei.

Ícaro Barbosa na entrada da Edícula da Basílica do Santo Sepulcro, onde Jesus foi sepultado e, como Cristo, ressuscitou. Cidade Velha de Jerusalém, tarde fria e chuvosa de 1º de fevereiro de 2023 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Como costumava fazer em cada templo religioso das cidades que visitou, entrou para orar dentro dos ritos ali adotados. Como fizera com o filho ainda criança, como muçulmanos, na Mesquita Azul de Istambul. Ou com ele já feito homem, só os dois, na sinagoga da Fortaleza de Massada, Canudos dos judeus. Como em meio à multidão na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, nos lugares em que Jesus foi crucificado e sepultado. E, como Cristo, ressuscitou.

Com essas lembranças de ecumenismo entre história e fé, desceram a rampa para adentrar à ampla estrutura modernista da Catedral de Brasília, gerada entre a arquitetura do carioca Oscar Niemeyer e a engenharia de Joaquim Cardozo. Também candango e poeta, este seria influência ao conterrâneo recifense João Cabral de Melo Neto. Que, sem favor ou nenhuma dúvida ao visitante do Sudeste, era o maior nome da poesia modernista do Brasil.

Dedicada à Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, a Catedral de Brasília não ganhou vida só na cruza masculina de Niemeyer e Cardozo. Com mais destaque na parte interna está o trabalho de outra candanga recifense, a artista plástica Marianne Peretti. Considerada maior vitralista do país, deu vida em tons de azul e verde no contraste ao branco dos 16 pilares curvos. Inaugurada em 1970, a Catedral só receberia o colorido feminino na reforma de 1987.

O homem se ajoelhou para rezar no genuflexório de um dos bancos da Catedral. E o fez em meio à dúvida: o modernismo da nova capital, embora belo, não servira de epílogo à arquitetura colonial? Presente nos solares de Campos e no Centro da antiga capital, na cidade do Rio? Ou na também fluminense Paraty e nas mineiras Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey e Congonhas? Assim como na goiana Pirenópolis, distante apenas 150 km de Brasília?

Na dúvida se seria só evolução natural, dolo ou destino, como o de Édipo ao matar seu pai, outro pai não teve dúvida após, ajoelhado, fechar os olhos. Pediu a Deus e aos intercessores da sua devoção, Francesco di Assisi e Miguel Arcanjo, proteção à viagem e aos que o homem e a mulher haviam deixado em Campos. Sobre todas as coisas, pediu proteção ao filho único, companheiro de outras tantas viagens. E morto há pouco menos de um ano.

Sempre foi assim ao pai nos 9 meses anteriores e nos 23 anos, 9 meses e 13 dias depois que ganhou da vida do filho. Seria assim até seu último pensamento antes da própria morte. Sem questionamento. Apenas amor, gratidão e pedido de proteção.

Encerrou a oração, abriu os olhos, enxugou-os com os ombros da blusa, e se ergueu. Quando se lembrou da uma passagem de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago. É sobre o retorno, do Rio a Lisboa, do heterônimo mais apegado ao classicismo no poeta português Fernando Pessoa, já após a morte deste: “os mortos servem-se dos caminhos dos vivos, aliás nem há outros”. E, nesse eco ao modernismo “Álvaro de Campos” de Brasília, olhou a mulher.

Naquela manhã quente de 7 de abril no Planalto Central, que Euclides da Cunha chamou de “maciço mais antigo do mundo”, ela usava um vestido curto de brim, com estampas trançadas em linha branca. Recuaram um pouco das cadeiras a um ângulo mais aberto na parte traseira da nave da Catedral. Onde, centralizada, a mulher teve acopladas como asas abertas os vitrais de Marianne Peretti, em combinação exata de azul e branco nessas coincidências que não há.

O homem registrou a imagem. E notou que, nela, a mulher se assemelhava ao intercessor a quem acabara de pedir proteção ao filho. Os turcos otomanos tomaram Constantinopla e decretaram o fim da Idade Média enquanto os teólogos da grande cidade, depois Istambul, discutiam sem conclusão o sexo dos anjos. Como nos debates de gênero humano entre biologia e cultura do pós-modernismo de hoje, enquanto a China bate à porta do Ocidente.

Desde uma Bíblia ilustrada que o pai lhe dera criança, com a qual dominou os argumentos das suas principais histórias, constatou. Entre os arcanjos, foi Gabriel quem anunciou a Daniel a sucessão de potências mundiais e a vinda do Messias, a Zacarias que seria pai de João Batista e a Maria, que seria mãe de Jesus. Como, ao ler o Corão já adulto, descobriu que foi Gabriel quem também revelou a mensagem divina do Islã a Mohammad, enquanto o alfabetizava.

Entre os arcanjos, porém, sempre preferiu Miguel. Além de também aparecer em Daniel como “grande príncipe que defende o povo de Deus”, é ele quem, no Apocalipse de João, comanda as falanges divinas que enfrentam e derrotam Satanás e os demais anjos decaídos. Se Gabriel é o grande RP de Deus, é Miguel quem assume quando a porca torce o rabo. E por essa identificação pessoal, desde criança, destinou-se a tê-lo por anjo da guarda.

Além do judaísmo, cristianismo e islamismo, Miguel Arcanjo é adorado na umbanda e no candomblé, em sincretismo com o orixá Xangô Agandjú. Quem usa o nome de Deus para atacar terreiros, se fosse diferente do anjo caído por se supor a luz que cabia guardar, não ignoraria: além da lei dos homens, age espiritualmente contra o “grande príncipe que defende o povo de Deus” no Velho Testamento. Onde Deus nunca reservou castigo brando.

Como os teólogos de Constantinopla nunca definiram o sexo dos anjos, lhe pareceu adequado, pela coragem de Miguel, que a figura alada pelos vitrais de uma mulher fosse outra mulher. Do Velho Testamento ao Novo, o casal saiu da Catedral de Brasília. E deu novamente com as estátuas de bronze dos quatro evangelistas: Mateus, Marcos e Lucas à esquerda de quem entra; João do lado oposto. Todos tinham pombos pousados na cabeça e ombros.

Com três metros de altura cada, os evangelistas eram obras do mineiro Alfredo Ceschiatti, parceiro de Niemeyer desde Belo Horizonte, no trabalho conjunto que ampliariam em Brasília. Já despida de asas, a mulher lembrou que Ceschiatti também esculpiu a estátua “A Justiça”, em granito, diante do Supremo Tribunal Federal. Que tinham visitado no dia anterior, após desembarcarem, fazerem check-in no flat e tomarem um uber à Esplanada dos Ministérios.

Enquanto ainda digeriam tudo que viram e sentiram na Catedral, antes de seguirem a pé, na mesma margem do Eixo Monumental, ao Museu Nacional da República e à Biblioteca Nacional, ouviram a voz feminina e candanga. Dos que ergueram com as mãos tudo aquilo. “Ajude a ceguinha; opa! Ajude a ceguinha; opa! Se não tiver notinha, pode ser uma moedinha. Se não tiver moedinha, tem o PIX da ceguinha. Ajude a ceguinha; opa! Ajude a ceguinha; opa!”

 

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Rodrigo com Castro no TRE e Wladimir segue líder à reeleição

 

Nos tempos em que inauguraram uma pacificação hoje deixada para trás, os dois maiores políticos de Campos da sua geração: Rodrigo Bacellar e Wladimir Garotinho (Foto: Divulgação)

 

 

Semana de Rodrigo e Wladimir

A semana foi movimentada na política fluminense e goitacá. Na segunda (29), o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) rejeitou por unanimidade o pedido da defesa do presidente campista da Alerj, deputado Rodrigo Bacellar (União), para que seu processo no caso Ceperj, relativo à eleição de 2022, fosse desmembrado dos que respondem, pelo mesmo motivo, o governador Cláudio Castro (PL) e seu vice, Thiago Pampolha (MDB). Quatro dias depois, foi divulgada ontem (3) nova pesquisa Prefab Future à eleição a prefeito de Campos. Que confirmou a larga vantagem de Wladimir Garotinho (PP) à reeleição de prefeito. E a possibilidade de ele fechar a fatura já no 1º turno.

 

De Garotinho à defesa de Rodrigo

No último dia 5, em entrevista ao Folha no Ar, o próprio ex-governador Anthony Garotinho (REP) admitiu a possibilidade do seu rival Rodrigo chegar a governador, se Castro e Pampolha perdessem os cargos com o julgamento da “folha de pagamento secreto” da Fundação Ceperj. Agora, com a decisão do TRE, o que der para o governador e o vice, dará ao presidente da Alerj. “O que se buscou com o recurso foi garantir a ampla defesa, uma vez que o deputado Rodrigo Bacellar não participou das provas produzidas em uma das ações reunidas. O perfil do presidente da Alerj sempre foi marcado pela palavra e pela lealdade”, argumentou sua defesa.

 

Relator vota contra e cobra celeridade

Sustentada pela ex-ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Maria Claudia Bucchianeri Pinheiro, a tese da defesa de Rodrigo foi, no entanto, rejeitada pela Procuradoria Regional Eleitoral (PRE). Como pelo relator do caso no TRE, desembargador Peterson Barroso Simão: “Não posso protelar aquilo que, amanhã, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) pode me cobrar. Já estamos bastante atrasados. O princípio da celeridade processual é tudo o que não está acontecendo neste momento. Temos fatos semelhantes, oriundos do mesmo governo estadual. Não pode haver dois julgamentos sobre fatos oriundos do mesmo lugar”.

 

Nas próximas semanas?

A tese do relator pareceu prevalecer. Seu voto contra o desmembramento do processo de Rodrigo foi seguido pelos seis outros desembargadores presentes na sessão do TRE. A celeridade cobrada também parece ter prevalecido. A expectativa é que o julgamento tenha novidades já nas próximas semanas. Simão estipulou o prazo de 6 de maio, na próxima segunda-feira, para que a PRE apresente suas alegações finais. Em seguida, todas as defesas terão até 10 de maio, na próxima sexta, para se manifestarem. Castro, Pampolha e Rodrigo são acusados de abuso de poder político e econômico, e conduta vedada ao agente público.

 

Wladimir no 1º turno?

Feita a partir de entrevistas presenciais com 1.002 eleitores de Campos, no último dia 26 (sexta retrasada), com margem de erro de 3,1 pontos para mais ou menos e registrada no TSE sob o número RJ-04536/2024, a pesquisa Prefab projetou a reeleição de Wladimir em sua consulta estimulada com 64,5% dos votos válidos. Ou seja, venceria já no 1º turno, se a eleição de 6 de outubro, daqui a exatos 5 meses e 3 dias, fosse hoje. Ele viria seguido nos votos válidos pela deputada estadual Carla Machado (PT), com 22,4%; pela Delegada Madeleine (União), com 8,1%; e pelo deputado estadual Thiago Rangel (PMB), com 3,0%.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Das intenções de voto à aprovação de governo

Os outros prefeitáveis citados na consulta induzida não chegaram a 1 ponto: o odontólogo Alexandre Buchaul (Novo) e o Professor Jefferson de Azevedo (PT) tiveram, cada um, 0,7% nos votos válidos; enquanto o ex-vereador Jorge Magal (SD) teve 0,6%. A quem entende algo de eleição, mais que as intenções de voto, no entanto, interessa a aprovação de governo. E o de Wladimir apareceu aprovado na Prefab por 70,5% da população, contra 14,9% que desaprovam e outros 14,6% que não souberam avaliar. E por que é isso que, de fato, definirá a eleição a prefeito de Campos em 6 de outubro?

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Gordura de 20 pontos a turno único

A questão é matemática: Wladimir teve 42,96% dos votos válidos no 1º turno de 2020. Só não liquidou a eleição ali, tendo que disputar o 2º turno para derrotar seu hoje aliado Caio Vianna (MDB), por 7,04% mais um voto. Isso quando ele não tinha a máquina na mão. Agora, com ela e aprovada por 70,5% dos campistas, subtraídos destes os 42,96% que votaram nele já no 1º turno de 2020, o prefeito só precisa encontrar os 7,04% mais um voto entre os outros 27,54% que aprovam seu governo. Ou seja, o atual chefe do Executivo goitacá tem gordura potencial de mais de 20 pontos para definir a eleição em turno único.

 

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística pelo IGBE

Análise do especialista

“A pesquisa sinaliza grande possibilidade de reeleição em 1º turno de Wladimir, favorecida por mais de 70% de aprovação e pela rejeição abaixo de 10%. O cenário de 2024 é completamente diferente daquele de quatro anos atrás, quando os eleitores campistas foram às urnas no 1º turno com um prefeito mal avaliado (Rafael Diniz, Cidadania). Na segunda colocação em intenção, importante destacar, aparece Carla Machado, que independentemente da confirmação da candidatura, exibe força eleitoral”, analisou o geógrafo William Passos, com especialização doutoral em estatística pelo IBGE.

 

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Felipe Fernandes — “Guerra civil” nos EUA e o jornalismo

 

 

Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema

A natureza do jornalismo de guerra

Por Felipe Fernandes

 

A informação e a desinformação sempre foram importantes ferramentas em qualquer tipo de conflito. Quando se trata de uma grande guerra, tudo se torna ainda mais perigoso, com os tempos modernos e a “democratização” dos meios de registro e de divulgação, a informação se tornou ainda mais valiosa, ainda que mais suscetível a manipulação. Não por acaso, o diretor e roteirista Alex Garland abre seu novo filme com o presidente se preparando para um importante discurso, onde claramente não está seguro de seu conteúdo.

Em um momento histórico onde o extremismo político parece ser uma tendência global, Garland constrói um road movie para mostrar o trabalho de jornalistas de guerra. Ele poderia escolher qualquer conflito armado, do passado ou presente para situar sua trama, mas ele decide narrar sua história em uma hipotética guerra civil dentro dos Estados Unidos. Um elemento interessante é pensar um conflito armado dentro do território estadunidense. Essa escolha pode soar como uma crítica/provocação, que não parece tão absurda no fim das contas.

Garland não busca explicar as origens daquele conflito. O filme apresenta algumas informações de forma orgânica em alguns diálogos ou material de pano de fundo. Não se aprofunda nas causas, mas, sim, nas consequências. Essa é uma decisão acertada, permitindo ao filme não abraçar nenhum tipo de ideologia política, já que não é preciso muito para dentro do contexto atual, compreendermos como as coisas podem sair do controle.

A protagonista Lee (Kirsten Dunst), é uma fotógrafa renomada, experiente, mas que sente o peso dos anos realizando esse tipo de cobertura. Ela pretende junto a seu parceiro Joel (Wagner Moura), atravessar o país até a capital para entrevistar o presidente. Na preparação da viagem, acabam se juntando a eles o experiente Sammy (Stephen McKinley Henderson) e a novata Jessie (Cailee Spaeny), que embarca para aprender sobre o ofício. Todos cientes de que se trata de uma jornada extremamente perigosa.

A inserção de Jessie no grupo funciona em termos de roteiro, pois ela se torna a referência do espectador. Cria-se uma dinâmica de mentora e pupila e vamos aprendendo sobre o ofício através de diálogos que se tornam orgânicos, já que é a personagem quem está aprendendo. Acompanhamos suas motivações, sentimentos e como o desejo pelo registro vai tomando o lugar do medo.

A viagem do grupo acontece em meio a estradas vazias, repletas de carros abandonados, construindo uma sensação de mundo pós-apocalíptico. Todos que encontram pelo caminho estão envolvidos militarmente na guerra, sejam moradores que criaram suas próprias regras e defesas, ou grupos militares. O grupo parece atraído sempre que encontra um tiroteio, acabam se envolvendo buscando apuração e registro e uma busca consciente pela emoção daquele tipo de momento.

O filme é eficiente em construir uma sensação de perigo, como se a qualquer momento algo pudesse acontecer aos personagens. As cenas de ação são bem construídas, fugindo de qualquer estilização. São cenas cruas, que ganham muito devido ao excelente som do filme, que realmente nos transporta para a zona de guerra, potencializando a sensação de perigo.

Chama atenção como em algumas cenas acompanhamos as fotógrafas em meio aos soldados, se movendo e empunhando suas câmeras como se fossem armas. Essas cenas reforçam a ideia da informação como arma de guerra, ainda que ela não seja tão eficaz no momento da ação, são essas fotos que podem causar um impacto maior no quadro geral.

“Guerra civil” é um excelente road movie que consegue nos fazer compreender um pouco da natureza por trás dos jornalistas de guerra e funciona como uma previsão pessimista sobre o futuro do mundo com a expansão da polarização política e do radicalismo. É um blockbuster que não mete o dedo na ferida, mas provoca reflexão. O que já é um diferencial se comparado a tudo que Hollywood vem produzindo nos últimos anos.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira abaixo o trailer:

 

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Missa de 30 dias de Pepenha às 19h desta 2ª, no Sagrado Coração de Jesus

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Às 19h desta segunda (29), será celebrada a missa de 30 dias de falecimento de Maria da Penha dos Santos Abreu, na Igreja da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, na rua Riachuelo, nº 280. Minha querida avó materna (confira aqui), ela faleceu aos 102 anos, no último dia 29 de março.

A missa será celebrada pelo padre Hélio. Os filhos, netos, bisnetos e trinetos de Pepenha — comerciante, produtora rural e uma católica apostólica romana fervorosa em vida — convidam a todos para orar juntos em intenção da sua alma.

 

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Plano Safra de 2024 à agricultutra será lançado em Campos

 

Gilberto Gomes e Victor Tinoco anunciaram ontem lançamento do Plano Safra em Campos (Foto: Reprodução)

 

Em vídeo divulgado ontem (26) nas redes sociais pelo secretário de Comunicação do PT de Campos e assessor do deputado federal Lindbergh Farias (PT/RJ), Gilberto Gomes, o coordenador do ministério do Desenvolvimento Agrário no Estado do Rio de Janeiro, Victor Tinoco, anunciou que o Governo Federal pretende realizar ainda este ano um grande evento de lançamento do Plano Safra em Campos. Que poderá reunir outras entidades como Caixa Econômica Federal (CEF), Banco do Brasil (BB), Emater e universidades.

No vídeo, Victor Tinoco destacou que considera simbólica a possibilidade de realizar este evento em Campos. Que ele considerou “um território estratégico, com 12 assentamentos de reforma agrária e mais de 4 mil agricultores familiares”.

Também pré-candidato a vereador pelo PT goitacá, Gilberto lembrou que, segundo dados do ministério da Cidadania, Campos ainda conta com mais de 100 mil habitantes abaixo da linha da pobreza. O que reforçaria a necessidade, além das políticas de financiamento, do fortalecimento das políticas que “coloquem comida de qualidade na mesa do trabalhador”.

Tinoco reiterou que o presidente Lula (PT) tem pedido atenção para retirar o Brasil do Mapa da Fome, com a produção de alimentos saudáveis e um sistema alimentar sustentável. Em 2023, com o Plano Safra, o ministéio da Agricultura disponibilizou R$ 364,2 bilhões em crédito rural. O Plano Safra é um programa do Governo Federal para apoiar o setor agropecuário, oferecendo linhas de crédito, incentivos e políticas agrícolas aos produtores rurais.

Um dos primeiros atos do presidente Lula após a posse, segundo Gilberto, foi “turbinar” o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) com R$ 1,5 bilhão a mais para a merenda escolar, 30% oriundos da agricultura familiar. Para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) já está iniciando a compra de R$ 250 milhões da agricultura familiar, com meta de atingir até R$ 1 bilhão.

 

Confira abaixo o vídeo:

 

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IFF abre à comunidade estudo e debate da literatura do séc. 19

 

IFF Campos (Foto: Folha da Manhã)

 

Estão abertas, até 9 de maio, as inscrições aos projetos “Grupo de Estudos em Teoria Literária” e “Páginas Brasileiras Oitocentistas: nas entrelinhas dos romances nacionais”. São projetos de extensão, abertos à comunidade, com encontros online regulares e discussões de textos teóricos e de obras literárias. As reuniões ocorrerão via Google Meet e haverá formação de grupos no Whatsapp exclusivamente para informes de interesse acadêmico.

As reuniões do Grupo de Estudos em Teoria Literária ocorrerão semanalmente, às segundas-feiras, às 15h da tarde. O projeto visa discutir textos de relevância à teoria literária de diversas épocas, incluindo autores das mais diversas nacionalidades. Serão ofertadas 20 vagas.

As reuniões do projeto “Páginas Brasileiras oitocentistas: nas entrelinhas dos romances nacionais” ocorrerão mensalmente, aos sábados. O primeiro encontro será no dia 11 de maio, às 10h da manhã. O projeto é um clube de leitura, no qual se discutirá obras literárias brasileiras do século XIX previamente lidas pelos participantes. Serão ofertadas 20 vagas.

Os interessados no Grupo de Estudos em Teoria Literária devem enviar e-mail ao endereço teorialiterariaiff@gmail.com. Já os que pretendem participar das Páginas Brasileiras Oitocentistas: nas entrelinhas dos romances nacionais, devem enviar a: historiadaliteraturaiff@gmail.com. Os e-mails devem conter nome completo, contato telefônico, formação acadêmica e link do currículo Lattes, caso tenha.

 

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Presidente da Câmara de Campos no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Presidente da Câmara Municipal de Campos, o vereador Marquinho Bacellar (União) é o convidado para fechar a semana do Folha no Ar nesta sexta (26), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele analisará a força do seu grupo político (confira aqui) a partir da chegada do irmão, deputado Rodrigo Bacellar (União), à presidência da Alerj, seu futuro no RJ de 2026 e as ressalvas que o ex-governador Anthony Garotinho (REP) fez a essa liderança (confira aqui) em entrevista ao Folha no Ar de 6 de abril.

Marquinho também falará dos enfrentamentos da CPI da Educação (confira aqui), da LOA 2024 (confira aqui) e do nível dos debates (confira aqui) na Câmara Municipal, como poderá responder a críticas do (confira aqui) prefeito Wladimir Garotinho (PP) no Folha no Ar de 22 de março. Por fim, ele analisará as nominatas e os prefeitáveis do seu grupo para a urna de Campos em 6 de outubro, daqui a exatos 5 meses e 11 dias.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook, no Instagram e no YouTube.

 

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Ex-presidente da Câmara de Campos no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Servidor federal, ex-presidente da Câmara Municipal de Campos, ex-deputado federal e pré-candidato a vereador, Marcão Gomes (MDB) é o convidado do Folha no Ar desta quinta (25), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele dará sua versão das críticas que sofreu do ex-vereador e pré-candidato a prefeito Jorge Magal (SD), em entrevista no Folha no Ar (confira aqui) da última sexta (19). E falará da sua passagem de aliado do ex-prefeito Rafael Diniz (Cidadania) a aliado do prefeito Wladimir Garotinho (PP).

Marcão também analisará a montagem da nominata, que integra, do MDB que abriga o vice-prefeito Frederico Paes e, hoje, o ex-deputado federal Caio Vianna. Por fim, ele tentará projetar as eleições a prefeito (confira aqui e aqui) e vereador de Campos em 6 de outubro, daqui a 5 meses e 12 dias.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook, no Instagram e no YouTube.

 

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Arthur Soffiati e o cinema que inspirou a geração de Scorsese

 

 

Arthur Soffiati, historiador, escritor e crítico de cinema

Formigas no esgoto

Por Arthur Soffiati

 

Na década de 1960, os estúdios de Hollywood entraram em crise. Havia muita briga. Chefes de estúdios encomendavam roteiros originais ou adaptados a autores que não se davam com os diretores escolhidos. Havia também briga entre artistas que trabalhavam juntos. Um dirigente chegou a dizer que a atriz escolhida devia lhe provocar desejos sexuais. Foi então que entrou em cena um grupo de cineastas dispostos a renovar o cinema dos Estados Unidos. Eram chamados de “movie brats”. Quentin Tarantino escreve: “O que diferencia os ‘movie brats’ da geração de diretores que veio logo antes deles, mais do que a juventude e a formação em faculdades de cinema, é o fato de que eles eram (em sua ‘maioria’) fanáticos por cinema.”

Seus nomes são por demais conhecidos atualmente: Spielberg, Scorsese, Lucas, De Palma, Hal Ashby, Terrence Malick e Ralph Bakshi. Eles curtiam filmes que os cineastas politizados da geração precedente consideravam horríveis pelo prisma estético e político. Os “movie brats” gostavam de televisão, de “Viagem ao centro da Terra”, de “20.000 léguas submarinas”, de “A máquina do tempo”, de “A cidadela dos Robinsons”, de “Os canhões de Navarone” e consideravam Roger Corman um verdadeiro ídolo com seus filmes B.

Os “movie brats” não eram de produzir filmes “cabeça”. Eles sabiam muito bem que o cinema é uma arte voltada para o grande público. Isso não significa que eles produzissem filmes de qualidade inferior. Com bastante sensibilidade, eles combinavam a qualidade ao gosto popular. Eles foram a primeira geração de cineastas de ponta em Hollywood a assistir ao clássico de ficção de Gordon Douglas, “O mundo em perigo” (“Them”), de 1954. É difícil falar em primeira vez no cinema em se tratando dos Estados Unidos, mas este talvez seja o primeiro filme a declarar que a humanidade entrou em nova era (muito perigosa) com a detonação de duas bombas atômicas no Japão, em 1945.

Admiro este filme, contextualizando-o devidamente. Antes de lançar as bombas, houve experiências no estado norte-americano do Novo México. Essas experiências causaram, no filme, efeitos que poderiam acabar com a humanidade, não fossem a inteligência a ação de um velho cientista. Uma menina é encontrada vagando pelo deserto em estado de choque. Um trailer foi destruído e o dono de um boteco foi morto. A polícia descarta roubo e não encontra explicação para crimes em que uma força descomunal foi usada.

Além da polícia estadual, o FBI entra em cena e também não atina com a motivação do crime. Como o objetivo dos ataques parece ter sido a obtenção de açúcar, decide-se consultar o mais conceituado entomologista do país. Idoso, ele é especialista em formigas. Sua filha, (interpretada por Joan Weldon) é uma daquelas moças lindinhas do cinema norte-americano na década de 1950: alta, belo rosto, penteado da época, sorriso claro, vestido comprido com pregas, bem cintado para mostrar cintura, quadris e seios (tudo com recato). Ela também é iniciada nos mistérios das formigas. Aonde o pai não pode ir, ela vai.

Usando a dedução, o velho cientista não custa a concluir que a experiência nuclear efetuada em 1945, no Novo México, pouco antes do lançamento das duas bombas atômicas sobre o Japão, havia afetado as formigas. A Experiência Trinity, que oficialmente inaugura a era nuclear da humanidade, havia ocorrido apenas nove anos no tempo do filme e estava ainda muito viva na lembrança das pessoas.

Não apenas os japoneses foram vítimas da radiação nuclear. Os Estados Unidos estão ameaçados por formigas gigantes que podem exterminar os habitantes do país e a humanidade. É preciso detê-las. Dr. Medford, o velho cientista, convence policiais, forças armadas e governo federal a combater as formigas mutantes. Vitória da velhice e da ciência. Ele profere frases lapidares, como: “As formigas são as únicas criaturas, fora o Homem, que fazem guerra. Elas fazem campanha, são agressivas e escravizam as prisioneiras que não são mortas” Ou: “Podemos estar testemunhando uma profecia bíblica se realizando: a destruição e a escuridão descerão sobre o mundo e as feras reinarão sobre a Terra”.

Todos se curvam diante de sua sabedoria, iniciando-se uma guerra implacável contra as formigas gigantes. O comando geral está com o Dr. Medford. A batalha final é travada numa galeria de esgoto, onde o cientista faz uma proclamação frontal à era nuclear. Num mundo em que a energia nuclear foi liberada, tudo pode acontecer.

A fotografia em preto-e-branco é muito boa. Os enquadramentos e os planos-sequência estão nas mãos de um bom diretor. Gordon Douglas tinha um grande currículo. O filme se vale de efeitos especiais. Ele concorreu ao Oscar nesse quesito, mas perdeu para “20.000 léguas submarinas”. De fato, as formigas não são muito convincentes.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Conto premiado de Adriano Moura com broa de milho e café

 

 

 

Adriano Moura, escritor, professor de Letras do IFF e primeiro vice-presidente da Academia Campista de Letras (ACL)

Cheiro de passado

Por Adriano Moura

 

As ruas de Campos estavam desertas naquela manhã de 23 abril de 2020. No mês anterior havia sido decretado lockdown como forma de conter a propagação da Covid-19. Há dois meses tinha iniciado uma série de viagens para lançamento do meu livro, que precisei cancelar, já que não sabia quando iríamos poder voltar ao normal. Pelo menos à ideia que construíramos sobre normalidade. Da janela do apartamento via o silêncio interrompido somente por alguns carros que se movimentavam a despeito da paralisia que assombrava os que, de dentro de suas residências, moviam seus corpos o suficiente para evitar a atrofia física e mental.

Do apartamento ao lado vinha um cheiro que me era bastante familiar. Alguém acabara de retirar do forno uma broa de milho. O aroma era inconfundível. Quando criança, ajudava minha mãe no plantio e colheita de milho no quintal da pequena casa onde morávamos no interior da cidade. Cultivávamos também outros alimentos como aipim, abóbora, batata doce. Grande parte do que comíamos vinha da terra.

A broa feita pela minha mãe no fogão à lenha era o perfume que completava o sabor de nossos cafés da tarde. Pela manhã, comíamos aipim cozido, pois era mais rápido o preparo. Meu pai cortava cana. Acordava com o primeiro canto do galo. Na marmita preparada para as refeições do dia, às vezes só não levava carne. De vez em quando um ovo cozido posto por alguma das galinhas criadas no quintal.

Embora não fosse todos os dias, a broa de milho era a estrela do nosso café da tarde; ou angu doce, outra especialidade da minha mãe, que completava a renda da casa lavando roupa para as famílias ricas do lugar.

Quando eu chegava da escola, sabia desde o portão se era dia de broa ou angu. Então sentávamos eu e meus outros dois irmãos. Assistíamos ao ritual cuidadoso de retirada da broa do forno, à delicadeza firme de nossa mãe no manuseio da faca para o corte, à alegria com que entregava a cada filho seu pedaço.

Depois que meu pai faleceu, vítima de infarto, minha mãe precisou ir para o corte de cana, pois só o dinheiro da lavagem da roupa não era suficiente para manter a casa. Meu irmão mais velho parou de estudar para trabalhar. Eu e minha irmã ficamos incumbidos de cuidar da casa quando não estávamos na escola. Ao sair de madrugada para o trabalho, nossa mãe deixava uma lista de afazeres que ela conferia logo que chegava de noitinha. Quase que só lhe víamos o branco dos olhos. Duas lâmpadas acesas no corpo coberto do carvão da queimada de cana.

Deixávamos o banho dela preparado: o balde com água morna, a bucha e o sabão para que, depois de removida a tintura do trabalho, voltasse a ser a nossa mãe. Mas ela precisava adiantar a comida do dia seguinte para, ao acordar, apenas esquentar, colocar na marmita e separar o que ficaria para mim e minha irmã comermos.

Minha mãe era uma mulher muito forte. Com o tempo foi ficando magrinha. As rugas se multiplicavam com velocidade nas bordas dos seus olhos. Um dia, fiquei observando-a arrumando a marmita. Notei que punha pouca comida para quem teria de enfrentar os eitos de cana. Descobri que o dinheiro não estava sendo suficiente. Então ela comia pouco para que eu e minha irmã tivéssemos o que comer.

Os sábados e domingos eram dedicados à lavagem de roupa. Eu ajudava enchendo o tanque e puxando água do poço. Aos poucos ia percebendo o engrossar das mãos provocado pela aspereza da corda. Tudo foi ficando muito áspero à medida que eu crescia.

Minha irmã tinha a incumbência de passar a roupa na segunda-feira; eu, de fazer as entregas.

A tristeza nos olhos dela cresceu no primeiro dia em que meu irmão chegou bêbado em casa. Ele trabalhava num armazém, atendendo no balcão e entregando compras de bicicleta. Um dia, após sair do trabalho, parou no botequim e bebeu sozinho um litro de cachaça. Meu irmão nunca se conformou em ter parado de estudar. Saiu de casa depois de conseguir um emprego um pouco melhor. Virou frentista num posto de gasolina no centro da cidade. Estava livre do peso, mas somente o das compras que carregava. Era oito anos mais velho que eu. Mesmo não morando mais conosco, não deixava de nos ver e ajudar com dinheiro, além de, vez ou outra, levar a mim e minha irmã para passear.

Fechei a varanda e retornei ao sofá da sala. Aquele cheiro de broa de milho me acompanhava. Embora o presente estivesse me convocando as suas demandas, era o passado o ocupante das horas que, no tempo de confinamento, demoravam a passar. Folheava absorto as páginas de Proust. Decidira fazer da leitura de Em busca do tempo perdido uma das atividades que me ajudariam a atravessar a solidão mascarada pelos riscos da Covid. De repente me vi tentando recuperar a lembrança do cheiro macio e colorido da última broa de milho assada pela minha mãe.

Com o passar do tempo, não plantávamos mais milho. Comprávamos fubá no armazém da usina, e a farinha era destinada ao angu, que logo passou a ser uma das nossas refeições mais frequentes. Angu com carne moída, ou com salame, folha de taioba, ou…não foram poucas vezes somente o angu, ralo para que durasse mais tempo a farinha.

Assim me visitou o passado várias horas daquele dia. Eu tentava em vão retê-lo, fazê-lo ficar o máximo possível comigo. Mas me escapava arredio. Fui me dando conta da impossibilidade de prendê-lo à medida que o cheiro ia se dissipando. Resolvi telefonar para minha mãe, também isolada, principalmente devido à idade. Conversamos sobre as lembranças que me visitaram. Disse a ela que decidira escrever sobre o assunto em meu próximo livro.

“Você sempre gostou de escrever. Lembra como aprendeu?”. Ao telefone, disse-me que eu me alfabetizei sozinho, escrevendo com gravetos nos fundos do quintal da casa. Falou que às vezes estava me procurando, quando então se deparava comigo, agachado, rabiscando no chão letras que com o passar do tempo construiriam palavras. A escola só teria aprimorado em mim o ensinamento dos gravetos. A memória de minha mãe estava falhando ultimamente. Surpreendeu-me a precisão com que narrou esse episódio.

Sentei à frente do computador para escrever sobre os aromas da infância, tarefa que me fez atravessar a noite com os dedos nas teclas cujo barulho, embora suave, era música que embalaria o sono que só se consumaria ao amanhecer. Todos os dias, pela manhã ou à tarde, eu ia até a varanda na esperança de que aquele cheiro novamente me visitasse. Mas ele não veio mais. Notei que nem mesmo barulho minha vizinha fazia. Imaginei que tivesse se mudado. Soube depois que falecera, vítima de Covid.

Numa manhã de sábado, meu celular tocou. Era minha mãe. Disse para eu ir até a casa dela à tarde, pois precisava falar urgentemente comigo. Manteríamos o distanciamento social recomendado para evitar risco de contágio, mas que nossa conversa não podia ser por telefone. Não gostei do tom de voz dela.

Apertei a campainha da casa às 17h. Cristina, minha irmã, abriu o portão. Não nos abraçamos. Nem mesmo um aperto de mão. Era um tempo em que o abraço implicava risco de morte. Adentrei a sala. O cheiro de infância dominava todo o ambiente. Minha mãe fizera broa de milho. Ficamos próximos como há muito não nos sentíamos. Cristina prestava mais atenção à televisão ligada na Sessão da Tarde do que na conversa. Guardava certa mágoa de mim e Jeferson. Para ela, eu e ele seguimos nossas vidas enquanto ela teve de ficar cuidando de nossa mãe, que nunca soube das frustrações da filha. Mesmo assim foi uma tarde deliciosa de afetos fisicamente distantes. De vez em quando mamãe esquecia meu nome e perguntava quem eu era. Como eu temia o que aqueles esquecimentos significavam!

À noite, em casa, continuei a escrever um conto iniciado no dia anterior. Atravessei mais uma vez a madrugada. Dormi. Acordei, preparei o café acompanhado por um generoso pedaço de broa que eu trouxera da casa de minha mãe. Aquele gosto e cheiro foram meus companheiros durante o isolamento. Não há solidão quando se tem memórias e é possível escrever sobre elas.

Mesmo com a chegada das vacinas e o fim do isolamento, mantive o hábito do café com broa de milho em casa. Meu novo vizinho (ou vizinha?) costuma acender incensos. Sei pelo cheiro que me remete à…

…isso é outra história.

 

(Texto premiado no Concurso de Contos “Um olhar sobre o amanhã”, da secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e um dos capítulos de “A inocência dos mortos”, novo romance do autor)

 

Folha Letras da edição de hoje da Folha Dois

 

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Pesquisas: prefeito de governo bem avaliado é favorito à reeleição

 

Prefeitos com governos bem avaliados e, por isso, favoritos à reeleição em 6 de outubro: Wladimir Garotinho, em Campos; Marcelo Magno, em Arraial do Cabo; Fábio do Pastel, em São Pedro da Aldeia; e Maira de Jaime, em Silva Jardim (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Wladimir precisa de pesquisa registrada

Favorito em todas as pesquisas de 2023 (confira aqui) à reeleição no próximo dia 6 de outubro, daqui a exatos 5 meses e 12 dias, o prefeito Wladimir Garotinho (PP) ainda não teve essa liderança confirmada em 2024. Que, por se tratar de ano eleitoral, exige que as pesquisas sejam devidamente registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para serem divulgadas. Pesquisas recentes sem esse critério, que por isso não podem ter os números divulgados, indicam que o prefeito de Campos se manteve neste mês de abril em tendência de alta nas intenções de voto. Mas, para confirmar isso, o governo precisa providenciar pesquisas registradas no TSE.

 

Pesquisas na mira dos Bacellar

Enquanto Wladimir não se mexe para aferir e divulgar os números atuais da sua popularidade, o grupo do presidente campista da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), prepara uma pesquisa qualitativa para maio. E sonda com a Quaest Pesquisa e Consultoria, um dos mais conceituados institutos do país, capitaneado pelo cientista político Felipe Nunes, uma pesquisa quantitativa para Campos em junho. Enquanto elas não vêm, outras pesquisas eleitorais, registradas no TSE, em municípios da Região dos Lagos, confirmam uma tendência quase irreversível: governo bem avaliado se reelege ou faz seu sucessor; governo mal avaliado, não.

 

O que mostram as pesquisas registradas

A Folha teve acesso e divulgou pesquisas recentes, registradas no TSE, às prefeituras de Arraial do Cabo, São Pedro da Aldeia e Cabo Frio, em (confira aqui) 21 de março; de Silva Jardim, em (confira aqui) 28 de março; e de Rio das Ostras, em (confira aqui) 2 de abril. As três primeiras e a última, foram feitas do instituto Paraná, de renome nacional, enquanto a de Silva Jardim coube ao instituto Factum, menos conhecido, mas de metodologia confiável. Prefeitos de Arraial, São Pedro e Silva Jardim, respectivamente, Marcelo Magno (PL), Fábio do Pastel (PL) e Maira de Jaime (MDB) são franco-favoritos à reeleição. E todos contam com a aprovação da maioria da população aos seus governos.

 

Aprovação de governo = intenção de voto (I)

Se não, vejamos: em Arraial, o prefeito Marcelo Magno tem 62% das intenções e voto na consulta estimulada (com apresentação dos nomes dos prefeitáveis), como reflexo da aprovação popular de 79,8% ao seu governo. Em São Pedro, o prefeito Fábio do Pastel tem 57,2% das intenções de voto na consulta estimulada, como reflexo da aprovação popular de 73,8% ao seu governo. Em Silva Jardim, a prefeita Maira de Jaime tem 51,2% de intenções de voto na consulta estimulada, como reflexo da aprovação popular de 57% ao seu governo. Por isso, salvo algo muito fora da curva, os três tendem a caminhar à reeleição em outubro.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Aprovação de governo = intenção de voto (II)

Essa tendência quase sempre irreversível em eleições ao Executivo se confirma pelo outro lado da moeda. Na disputa à Prefeitura de Cabo Frio, quem lidera é o deputado estadual Dr. Serginho (PL), com 38,2% de intenções de voto na consulta estimulada. Na qual é seguido pelo ex-prefeito Marquinhos Mendes (MDB), com 23,9%, e da atual prefeita, Magdala Furtado (PV). Com apenas 12,9% de intenções de voto na sua tentativa de reeleição, ela sofre o reflexo da aprovação de apenas 34,6% da população cabo-friense ao seu governo, diante da maioria dos 60,3% que desaprovam.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Aprovação de governo = intenção de voto (III)

O mesmo ocorre em Rio das Ostras. Ex-prefeito do município por três mandatos, Carlos Augusto Balthazar (MDB) teve 50% de intenções de voto na consulta estimulada. Ele foi seguido à grande distância pelo vereador Mauricio BM (PV), com 14,1%, que é apoiado pelo atual prefeito, Marcelino da Farmácia (sem partido). Reeleito em 2020, ele não pode concorrer ao cargo pela terceira vez seguida. E sua baixa capacidade de transferência a quem apoia a prefeito reflete a aprovação de apenas 15,7% da população rio ostrense ao seu governo, diante da maioria dos 55,7% que desaprovam.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Aprovação de governo = intenção de voto (IV)

Como a pesquisa feita em Campos neste mesmo mês abril, por não registrada no TSE, não pode ser divulgada, a correlação entre popularidade do governo e intenções de voto do governante tem como exemplo a pesquisa Iguape (confira aqui) de julho de 2023. Com o teflon de ter sido encomendada pelo grupo dos Bacellar, ela deu 74,7% de aprovação da população campista à administração Wladimir. Que, na mesma relação de causa e efeito registrada nas cinco pesquisas mais recentes na Região dos Lagos, deu ao prefeito de Campos entre 55,4% e 55,7% de intenções de voto em três cenários da consulta estimulada.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Governo aprovado dá 7,04% mais um voto?

Aquela pesquisa de julho não tinha os nomes da delegada Madeleine Dykeman (União), do ex-vereador Jorge Magal (SD), do odontólogo Alexandre Buchaul (Novo), dos empresários Clodomir Crespo (DC) e Fabricio Lirio (Rede), ou da deputada estadual Carla Machado (PT), que toda a jurisprudência do TSE e do Supremo Tribunal Federal (STF) diz não poder concorrer. À própria oposição, Carla no jogo seria a melhor chance de tentar levar ao 2º turno a eleição com Wladimir. Que fez no 1º turno de 2020 42,96% dos votos. Precisaria de mais 7,04% mais um voto para se reeleger no 1º turno de 2024. E hoje tem a máquina bem avaliada para isso.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Violência contra a mulher em Campos no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Delegada de Polícia Civil e titular (confira aqui) da Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (Deam) de Campos, Juliana Buchas é a convidada do Folha no Ar desta quarta (24), ao vivo, a partir das 7h30, na Folha FM 98,3. Ela falará dos quase mil casos (confira aqui) de violência contra a mulher na cidade em 2024, ainda a completar o quarto mês no ano, exemplificados nos 15 homens presos (confira aqui) na última semana por ameaças e agressão contra mulheres.

Por fim, Juliana analisará a criação (confira aqui) do protocolo “Mulher Segura” nos bares, restaurantes e casas noturnas de Campos. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook, no Instagram e no YouTube.

 

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