Marcelo Freixo, Rodrigo Neves e Cláudio Castro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Orlando Thomé Cordeiro, consultor em estratégia
PT pode deixar Freixo na mão
Por Orlando Thomé Cordeiro
No domingo passado, o diretório do PT-RJ aprovou o nome de Marcelo Freixo como pré-candidato a governador. O resultado da votação foi 52 a 3. O interessante é verificar que esses três votos contrários foram dados por dirigentes ligados à política de Niterói, mais especificamente às administrações de Rodrigo Neves e de seu sucessor, Axel Grael.
Considerando o padrão dominante no partido, pode-se afirmar que foi uma reunião muito rápida, com duração de apenas 2 horas. A pressa teve uma justificativa formal: o enterro do filho da deputada Benedita da Silva. Mas o que se tinha em mente era se antecipar ao anúncio que seria feito dias após pelo PSB, confirmando a manutenção da candidatura de Alessandro Molon ao Senado.
Ora, todo mundo sabe que será impossível o PT engolir uma chapa “puro sangue” de outro partido. E, nesse caso, contam também os atritos históricos com os dois deputados socialistas ambos ex-petistas.
Freixo vem atuando fortemente contra as pretensões de Molon, incluindo repetidas declarações públicas de apoio à candidatura de Ceciliano ao Senado. Porém, até o momento, suas ações não tiveram êxito. E tudo indica que o impasse permanecerá.
Um dado relevante é a prioridade que Lula vem dando à eleição para o Congresso Nacional, particularmente o Senado Federal. Ressalte-se que na recente visita ao nosso estado, o ex-presidente teve um encontro reservado com o governador, onde ficou acertado um pacto de não agressão. E gerou reações iradas de bolsonaristas, que passaram a acusar Castro de traição.
No mesmo sentido, o presidente da Alerj vem realizando um trabalho sistemático de articulação, cujo resultado é o compromisso assumido por muitos prefeitos e prefeitas. Estima-se que a adesão à sua pré-candidatura, até o momento, já tenha chegado a 70 alcaides, independentemente de filiação partidária.
Contribui para isso o público e notório clima de camaradagem que marca a relação de Ceciliano com Cláudio Castro. Aliás, é comum ouvir entre apoiadores dos dois que a chapa ideal é “Castro-Lula”. Até mesmo Quaquá, ex-prefeito de Maricá e influente liderança petista, gravou um vídeo no ano passado em sua cidade ao lado do governador defendendo essa ideia.
Segundo pude apurar junto a fontes petistas, um dos argumentos já circulando nos bastidores para justificar o abandono de Freixo mais à frente é sua histórica elevada rejeição, candidato conhecido por ter piso alto e teto baixo. Ninguém se esquece de que ele conseguiu a proeza de ser derrotado por Crivella na disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro em 2016.
A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira reforça esta percepção. Nela, o pré-candidato do PSB é o segundo com maior índice de rejeição (26%), ficando atrás apenas de Garotinho (49%), enquanto Cláudio Castro aparece com 18% e Rodrigo Neves apenas 12%. Já no quesito intenção de voto, o socialista lidera com 22% seguido por Castro com 18% e Neves com 7%.
Outro fator relevante é a necessidade imperiosa de aproximar a campanha de Lula dos evangélicos que hoje, majoritariamente, caminham ao lado de Bolsonaro. É verdade que o pré-candidato do PSB tem feito um esforço para diminuir as resistências a seu nome nesse segmento. Em dezembro Freixo chegou a se apresentar para 90 bispos e 900 pastores na Assembleia de Deus de Madureira, mas pouco progresso foi obtido. Certamente, uma aliança com ele não ajudaria muito o projeto presidencial do PT nessa área.
Adicionalmente, diversas pesquisas têm revelado que, se o apoio de Lula a Freixo pode representar um ganho de escala para o socialista na disputa pelo governo estadual, a recíproca não se confirma. Pouco acrescenta às intenções de voto para o ex-presidente aqui no estado.
Não bastassem esses obstáculos, a atitude de Molon indica que sua decisão é esticar a corda até a convenção. Afinal, ele tem o controle do PSB no estado e tem procurado formar alianças em torno de sua pré-candidatura. A última é a aproximação com o PDT, que poderia abrir mão do nome de Daciolo para apoiá-lo na disputa pela vaga no Senado.
Por outro lado, se, como tudo indica, Eduardo Paes se acertar com Carlos Lupi e resolver apoiar o ex-prefeito de Niterói na disputa pelo Palácio Guanabara, essa pré-candidatura ganha um impulso relevante. Permitiria atrair os votos daquela parcela do eleitorado que considera Freixo um representante da esquerda radical. Línguas ferinas dizem que ele saiu do Psol, mas o Psol não saiu dele.
É nesse cenário que cada vez mais vem ganhando força nas hostes petistas a ideia de dar o chamado “cavalo de pau”, levando o partido a trabalhar para substituir Freixo por Rodrigo Neves. Até porque Paes e Lupi mantêm relações amistosas com Lula e não fariam objeção de oferecer-lhe esse palanque aqui no estado.
Os próximos meses serão de fortes emoções e tudo isso pode ou não se confirmar. Porém, é bom registrar que não seria a primeira vez em que Freixo e Molon ficariam a ver navios na relação com o PT. Só nos resta acompanhar e conferir.
Por Aluysio Abreu Barbosa, Arnaldo Neto, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel
Não há nenhuma possibilidade de aliança do PSD do prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, com o governador Cláudio Castro (PL). A afirmação foi feita no início da manhã de ontem, no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, pelo pré-candidato a governador do PSD, Felipe Santa Cruz. Ex-presidente nacional da OAB, ele definiu a situação fluminense como a do “rico, mas no Serasa”. Referiu-se aos mais de R$ 14,4 bilhões que a venda da Cedae rendeu aos cofres do Estado do Rio de Janeiro, que se encontra em regime de recuperação fiscal com a União. Não descartou, no entanto, a possibilidade de aliança do seu PSD com o PDT do também pré-candidato a governador Rodrigo Neves, ex-prefeito de Niterói.
Santa Cruz ressaltou a importância de projetos ao estado, sobretudo voltados à recuperação de empregos formais, no que usou como exemplo o Porto do Açu, em São João da Barra. Sobre Campos, embora tenha elogiado o prefeito Wladimir Garotinho (sem partido), que deixou o PSD, ele saudou a entrada na legenda de Caio Vianna e do vereador Bruno Vianna. Também falou de Campos como provável último destino do seu pai, o militante de esquerda Fernando Santa Cruz, preso pela ditadura militar (1964/1985) em 1974. Segundo a livro “Memórias de Uma Guerra Suja”, do ex-delegado Cláudio Guerra, o corpo de Fernando teria sido incinerado nos fornos da antiga usina Cambaíba. Atacado por isso pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), ele disse o que aprendeu no episódio: “Ele (Bolsonaro) é basicamente uma pessoa que não ama o próximo. Ele é um grande porta-voz do ódio no país”.
Felipe Santa Cruz (Foto: Divulgação)
Na Datafolha, 3% das intenções de voto – Primeiro, falta que eu seja conhecido. Eu sou conhecido de um pequeno setor, setor de classe média basicamente, setor da advocacia, pessoas que têm interesse maior pelo debate público. Nós sabemos que não é essa a realidade da grande maioria da população do Rio de Janeiro, que hoje está mais preocupada em sobreviver. Ela tem problemas maiores para tratar do que saber quem é o Felipe Santa Cruz. A pesquisa de ontem (quinta, dia 7) mostra, e isso é muito preocupante para nós que somos apaixonados pelo nosso estado, que quase 50% dos fluminenses não têm candidato ou não vão votar. Isso já tem acontecido nas últimas eleições, uma abstenção maciça, voto em branco e nulo maciços. O Rio de Janeiro é um dos piores estados, talvez o com o pior percentual, mais baixo percentual de jovens tirando título entre 16 e 18 anos. O que a pesquisa mostra basicamente é desesperança. Nós estamos muito convictos de que, na hora em que a comunicação se der dos projetos que temos para o Rio de Janeiro, da experiência administrativa que o PSD tem, principalmente da Prefeitura do Rio de Janeiro, nós vamos subir nas pesquisas. Já vamos ter agora um espaço para isso, que são as inserções partidárias, que começam no início de maio, onde certamente eu serei mais conhecido. Então, as pesquisas nesse momento não nos preocupam. O que elas mostram para nossa preocupação é essa desesperança.
Liberdade de expressão x fake news – São as contradições do nosso país. Uma qualidade: a liberdade. Nós todos aqui somos filhos de uma geração que lutou pela liberdade de imprensa plena. Na Rússia, Putin controla as notícias sobre a guerra, e a sua popularidade aumenta, mesmo com o descalabro que ele está cometendo. O Brasil tem plena liberdade. Graças a Deus, as pessoas falam o que querem. O Judiciário, claro, quando chamado, pontua e responsabiliza. Não é um território sem lei, mas há uma liberdade, especialmente a liberdade de imprensa, liberdade de manifestação, liberdade de expressão. Também temos aí as nossas contradições: é um país com baixo percentual de formação cultural, formação acadêmica, baixa qualidade pedagógica. As nossas escolas vivem um processo de decadência muito marcante nos últimos 30 anos. Quem de nós aqui não ouviu falar da lembrança dos nossos pais da escola pública? Eu sou filho da escola pública, eu cresci no Rio Grande do Sul, estudei em escola municipal até o terminar o meu primeiro grau. Há essa decadência marcada nos últimos anos, especialmente no Rio de Janeiro, que está nos últimos postos nas avaliações nacionais. E as pessoas têm dificuldade de ler e interpretar a realidade. Então, o Brasil viveu e vive cenas surreais. Nós tivemos no Brasil aliados do vírus. As pessoas foram contra a vacina, foram contra o isolamento. Morreram quase 700 mil brasileiros. Eu, como presidente da Ordem, tive que fazer, em menos de 24 horas, uma ação que garantia aos estados e municípios a capacidade de combater a Covid. Hoje, eu me pergunto quantas pessoas teriam morrido se, naquele momento em que o vírus tinha tantos aliados no Brasil, nós não tivéssemos conseguido aquela liminar.
Critérios para definir candidatura própria do PSD ou aliança com Rodrigo Neves – O critério é político. O critério é uma discussão que passa pelo palanque nacional. O PSD do Rio, hoje, está disposto a apoiar o candidato do PDT. É óbvio que o PSD não pode ser um apêndice do PDT. O prefeito Eduardo Paes, que é o nosso presidente estadual, entende que o PSD deve ter a titularidade da campanha para governador. É esse o impasse hoje. Nós gostaríamos muito de caminhar com os companheiros do PDT, com o Rodrigo Neves. Eu, pessoalmente, sou amigo do Rodrigo, conheço o Rodrigo há mais de 20 anos, desde jovem. Eu sei da capacidade dele, foi um grande prefeito de Niterói. Agora, o critério pesquisa para nós não parece correto. Como eu te disse, nunca fui candidato a um cargo majoritário, nunca fui prefeito de uma grande cidade. E eu tenho dito até para os amigos que eu estou envaidecido com meus 3%, porque eu sou conhecido de 6%. Eu brinco: de cada dois que me conhecem, um está votando em mim. Então, dado esse critério, não seria eu candidato, necessariamente. Então, o critério é político. Espero que siga essa conversa, é importante para o Rio de Janeiro que se construa. Eu não gosto do termo terceira via, porque está ficando meio pejorativo nacionalmente. Mas, se há um estado onde é possível montar uma via alternativa entre a polarização do bolsonarismo e uma visão também polarizada, digamos assim, no campo do presidente Lula, mais à esquerda, é o Rio de Janeiro. Um campo em que é possível construir um palanque progressista. Eu me entendo uma pessoa progressista. Um palanque de centro, centro-esquerda, centro-direita, com chances de vitória.
Por que se candidatar a governador? – Eu, na verdade, fui chamado por pessoas em quem eu confio muito, em especial pelo Eduardo. As pessoas brincam se eu seria deputado federal. Digo que seria para mim um sacrifício ir a Brasília toda semana, eu sou aquela pessoa que ama o Rio de Janeiro. Sofro muito com a decadência do estado. O Brasil está em decadência, mas o Rio de Janeiro, uma decadência muito grande. O que eu posso trazer para esse debate é isso aqui: o que eu entendo do mundo, representação das forças políticas que eu represento, e essa vontade de contribuir com o debate público. De mim, não se espera ataque pessoal. Eu sou um advogado, essencialmente. As pessoas estranharam que eu fui ao aniversário do governador. Existe profissão mais caracterizada pela capacidade de conviver com a divergência que a advocacia? Então, é isso que eu falo em construir uma alternativa à polarização. Eu não estou diminuindo as pessoas que estão polarizadas, mas nós temos que voltar o debate público para o que importa. É isso que me atrai nesse momento. Com o apoio do Eduardo, com a força do PSD e, espero de outros partidos, já tem o PSDB se aproximando, o Cidadania, nós vamos construir uma candidatura forte.
Possibilidade de aliança de Paes com Cláudio Castro – Com Cláudio Castro? Nenhuma. Primeiro que o governo do Cláudio fez uma opção de sobrevivência pela entrega do governo às forças políticas. Eu acho que faz parte, é uma escolha legítima. Mas é um governo que tem muito pouco a oferecer do que nós queremos. Nós queremos um governo com capacidade de realização, um governo técnico, com política também, mas com política voltada a resultados. E nós estamos vendo aí os resultados. Você vê: entregou a secretaria de Transporte unicamente para o mundo da política, e há o colapso na SuperVia. Ele vendeu seu último quadro de valor, que é a Cedae. Se vai dar certo ou não a privatização da Cedae, nós vamos descobrir em poucos anos. A população vai descobrir. Agora, o dinheiro da Cedae já está no caixa do estado. Ele passa a fazer um discurso de riqueza quando está em regime de recuperação fiscal. Rico, mas está no Serasa. Ele está rico, mas está sem crédito. Ele está rico, mas é a União Federal quem está pagando suas dívidas. Então, nos parece que esse projeto não é um projeto a médio e longo prazo aceitável. E, além de tudo, o Cláudio fez uma opção, com todo o respeito, mas uma opção para nós que, parece, não é cabível no PSD, que é a opção pela continuidade do governo Jair Bolsonaro. Volto a dizer: nada pessoal contra o presidente Jair Bolsonaro, mas é o pior governo da história do país. O governo aliado do vírus, o governo que não entregou nada. O presidente Jair Bolsonaro fez uma reunião de ministério no ano de 2022. Para quê? Para tratar da desincompatibilização dos seus ministros. É um governo que faz a política pela política, não tem qualquer projeto para o Rio de Janeiro. O PSD quer e tem projeto para a população. Então, nós não teríamos como apoiar o governador Cláudio Castro, de forma muito franca, de forma direta, e esperamos o apoio ainda do PDT, como vamos ter do PSDB, do Cidadania e de outros partidos que queiram fazer conosco esse movimento de recuperação do estado.
No PSD de Campos, sai Wladimir Garotinho, entram Caio e Bruno Vianna – Estamos muito confiantes com Caio, com Bruno. Como eu disse, é um partido novo, renovado. Quero mandar um abraço ao nosso diretório aí de Campos, aos nossos companheiros do PSD. E, com todo o respeito ao prefeito (Wladimir), uma pessoa muito gentil; nas poucas vezes em que estive com ele, tive uma ótima impressão; nós temos um projeto e esse projeto está, em Campos, muito bem representado pelo Caio e pelo Bruno. Estamos muito animados com a perspectiva do ingresso dos dois ao partido. O Eduardo tratou disso pessoalmente. Para nós, foi uma grande vitória a entrada do Caio e do Bruno em Campos.
Porto do Açu – Eu já ouvi a frase de que esse porto é o verdadeiro projeto do Rio de Janeiro para o século XXI. Ele tem que ser central para a recuperação do nosso estado. Essa frase eu já ouvi de empresários que entendem do tema muito mais do que eu. Então, essa centralidade de emprego e renda eu acho que é a grande resposta que a gente tem que dar para o nosso projeto. No Rio de Janeiro, o que falta é emprego. Segurança pública é um grave problema do Rio de Janeiro. Se nós não dermos esperança e emprego, principalmente à juventude do nosso estado, nós vamos ter um estado em permanente decadência social e um estado que vai gerar um ambiente de violência, necessariamente. Então, é essa centralidade que primeiro vai ser resgatada, com transparência e honestidade. Parece pouco, mas eu fui conversar com empresários de São Paulo, chamado para uma dessas mesas onde você conversa com o PIB, eu e o Eduardo, e as pessoas têm medo de investir no Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro é um estado hostil ao investimento privado. Nós precisamos atrair esse investimento para que a gente possa gerar emprego. A gente tem que fazer uma profunda reestruturação do nosso mapa de crescimento das regiões do estado do Rio de Janeiro. Quais são as nossas vocações? Essas vocações estão esquecidas. O Rio de Janeiro vive hoje uma ausência de projetos a médio e longo prazo. O Porto do Açu foi um dos últimos grandes projetos. Quando o Rio de Janeiro mergulha na crise em 2014, some do nosso mapa a possibilidade de pensar novos projetos para o futuro. Então, nós temos que dar essa centralidade ao Porto do Açu, atrair esse empresariado. Qual é a grande última notícia de geração de empregos do Rio de Janeiro? Não tem. Nós estamos há quase oito anos quase submersos numa realidade negativa, de pessimismo. Vamos recuperar isso. Esse é o grande ponto que nos faz não ter hoje o número de empregos que tínhamos em 2014, com carteira assinada, que possam acudir a nossa população.
Ataques do presidente Bolsonaro, pela morte do pai, Fernando Santa Cruz, na ditadura militar, cujo corpo teria sido queimado na usina Cambaíba, em Campos – Na minha posse (como presidente nacional da OAB) eu falei uma frase de Marcos Freire (advogado, ex-deputado federal, ex-senador e ex-ministro, morto em 1987) que foi um grande resistente à ditadura militar, também da terra originária da minha família, que é de Olinda (PE): “Sem medo, sem ódio”. Eu acho que as pessoas não têm que ter ódio. É olhar para o futuro. Mas eu tenho muito orgulho da história do meu pai. Meu pai resistiu à ditadura. Meu pai não foi da luta armada, era um militante da Juventude Católica. A Juventude Católica funda a Ação Popular, já na ditadura, e parte dela vai depois, nos anos 1970, para a APML, que é a Ação Popular Marxista Leninista. Meu pai nunca foi um militante da resistência armada à ditadura. Não que se justifique o assassinato desses militantes sob guarda do Estado. Mas nunca foi. Meu pai era um estudante de direito, prestes a se formar, com filho pequeno. Ele era funcionário público da companhia de águas e esgotos de São Paulo e tinha vindo ao Rio de Janeiro visitar um amigo de infância dele, da AP, que militou com ele, chamado Eduardo Polier. Os dois desapareceram e os corpos teriam sido incinerados em Campos. Essa história para mim é uma história bem resolvida, com os traumas de qualquer filho que perdeu, muito pequeno, o pai. O presidente da República é uma pessoa cruel, e aí eu acho isso marcante do que penso sobre Jair Bolsonaro, acho que esse episódio me ensinou isso. É uma pessoa sem empatia. Ele é basicamente uma pessoa que não ama o próximo. Ele comunica o ódio. Ele é um grande porta-voz do ódio no país. Ele é o grande porta-voz dos ressentimentos, é muito hábil nisso. Então, ele nos leva a debates superados. O debate da ditadura é da História, pertence aos historiadores. A população tem que saber dele através desses historiadores. Pois o presidente reabre essas antigas feridas, traz para o presente, muito para não ter que responder. O que, por exemplo, ele fez por Campos? O que o presidente Bolsonaro trouxe para o Rio de Janeiro? Me diz aí uma linha férrea, uma estrada, um hospital. Nada. Ele estava debatendo comigo um tema (em julho de 2019) que não tem absolutamente nada a ver com isso (proteção ao sigilo telefônico dos advogados de Adélio Bispo, que esfaqueou Bolsonaro em Juiz de Fora, na campanha presidencial de 2018). A todos os advogados que possam estar nos ouvindo (lendo): é óbvio que é inviolável o telefone do advogado, porque o advogado não trata ali apenas daquele cliente. O telefone de um advogado hoje é um escritório de advocacia. Muitos desses assuntos são sigilosos. É a garantia da democracia, é uma obrigação da Ordem, que o presidente não entende ou finge não entender. Daí ele faz um ataque pessoal a mim, à minha família, extremamente cruel. Não tanto a mim, que sou uma pessoa pública. Mas, por exemplo, em relação às minhas tias, em relação à minha avó, que ainda era viva. Ele pratica um segundo homicídio contra o meu pai. Primeiro, ele distorce a vida do meu pai, que nunca pegou numa arma. Era um estudante de Direito. Usa essa máquina que ele tem de pessoas ignorantes que ficam reproduzindo as coisas nesses grupos de WhatsApp, sem conhecer a História. O meu pai estava sob guarda do Estado, e isso foi reconhecido pelo Golbery do Couto e Silva, que era o principal general de sustentação do governo (Ernesto) Geisel (1974/1979). Então, o presidente reabre essas feridas, leva a discussão a um campo que não interessa a ninguém. Faz isso como estratégia para fugir do debate que importa. Assim, eu aprendi muito sobre Jair Bolsonaro, inclusive sobre a sua covardia. É um presidente extremamente covarde. Ele ataca e depois recua. Como fez no 7 de setembro.
“Quem é Bolsonaro?” – Quem é o Jair Bolsonaro? É o Jair Bolsonaro que pediu desculpas escritas ao Alexandre de Moraes? Ou é o Jair Bolsonaro que quer o fechamento do Supremo? Qual é o Jair Bolsonaro que vai surgir no 1º de janeiro, se ele for reeleito? Esse Jair Bolsonaro que entregou o governo para o Centrão e para os deputados, através do Orçamento Secreto, ou o Jair Bolsonaro pitbull que quer o golpe militar? Mas, o presidente ele ataca e depois ele recua. Então, eu fiz uma peça, assinada por todos os presidentes vivos da OAB, fui ao Supremo e pedi que o presidente me contasse. Ele não disse que ia me contar? Tudo o que eu quero na minha vida é saber o que houve com o meu pai. Eu sei que o meu pai não volta mais. Minha mãe sabe isso. Minha avó sabia isso. Mas para saber o que aconteceu no desfecho, nos últimos momentos da vida do meu pai. Quem perdeu um parente sabe a importância disso. Se chama fechar o luto, encerrar a história, saber o que aconteceu. As pessoas querem essa verdade. O presidente disse que sabia. Ele é o presidente da República, é o supremo mandatário do país. Então, eu fui ao Supremo, e o Supremo pediu que o presidente dissesse. O presidente fez o quê? Como costuma fazer: “não foi bem isso”. O presidente foi covarde, foi mentiroso. Ele explora a ignorância e nos obriga a fazer um debate que não tem mais o menor cabimento. Mas, em vez de estarmos debatendo o que vai acontecer no Porto do Açu, os 700 mil empregos que o Rio de Janeiro perdeu em uma década, nós estamos debatendo o que aconteceu na ditadura militar.
Confira em vídeo, nos três blocos abaixo, a íntegra da entrevista de sexta (08) com Felipe Santa Cruz ao Folha no Ar:
Pré-candidato do PSD a governador do Estado do Rio e ex-presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz é o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, a partir das 7h da manhã desta sexta (08). Ele falará do apoio do prefeito Eduardo Paes (PSD) à sua pré-candidatura, assim como da possibilidade de aliança do seu grupo com o também pré-candidato a governador Rodrigo Neves (PDT), ex-prefeito de Niterói.
Felipe analisará também a influência da eleição presidencial, hoje polarizada nas pesquisas entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL), sobre a eleição ao Palácio Guanabara. Por fim, falará da OAB e das rusgas públicas, enquanto presidente nacional da instituição, com o ocupante do Palácio do Planalto.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Se o grupo político dos Garotinho é muitas vezes marcado pela irascibilidade do ex-governador que o batiza e lidera, há juízo quase comum que o jornalista e advogado Mauro Silva é um dos seus nomes mais equilibrados. Articulador, tem experiência na iniciativa privada e já ocupou vários cargos públicos, por nomeação e voto popular. Agora, saído do PSDB ao PP, ele almeja outro: é pré-candidato a deputado estadual em outubro. A troca partidária se deu a convite do deputado federal macaense Christino Áureo, com quem Mauro deve fazer dobrada no Norte e Noroeste Fluminense.
A partir da confirmação da candidatura em convenção, Mauro pretende ter como bandeira da campanha o desenvolvimento do Norte e Noroeste. Com especial atenção à agropecuária, vocação secular das duas regiões fluminenses. E reuniu um time de peso para ajudá-lo no projeto que pretende, se eleito, defender na Alerj. Ele não é o único pré-candidato do grupo, que pode ter inclusive o próprio Anthony Garotinho (União Brasil) como pré-candidato a deputado federal ou estadual, a depender da situação jurídica. Hoje, está prevista a divulgação de uma pesquisa Datafolha com o nome Garotinho na disputa a governador do RJ.
Formado em jornalismo e direito, Mauro tem pós-graduação em gestão de cidades pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi repórter da TV Globo em Campos, secretário de Comunicação do Estado do Rio e de Campos, e vereador eleito em 2012 com 4.615 votos. Consultor empresarial e especialista em relações institucionais e governamentais, atuou na assessoria de grupos privados e instituições do setor produtivo. Recentemente, ele foi assessor de relações institucionais do gabinete do prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (sem partido).
Márcio Nogueira, segundo colocado na eleição a prefeito de SJB em 2020 e pré-candidato a deputado estadual em 2022 (Foto: Divulgação)
“A prefeita Carla Machado (que saiu do PP da base do presidente Jair Bolsonaro para voltar ao PT do ex-presidente Lula) no seu quarto mandato, gerenciando orçamentos milionários em São João da Barra, abandona o barco e entrega o município com carência de 62% de esgotamento sanitário, carência de 68% de água potável, com a metade da população dependente de benefícios sociais e uma educação precária e inferior a alguns municípios do Noroeste Fluminense”. Foi como analisou o empresário Márcio Nogueira, pré-candidato a deputado estadual por SJB. Após renunciar no sábado (02), Carla Machado passou o cargo à vice, Carla Caputi (sem partido), que assumiu na noite de ontem (05) a Prefeitura.
— A população precisa acordar desse pesadelo e escolher lideranças sem vícios políticos e com propostas concretas. O novo posicionamento do Legislativo e a renúncia da prefeita em São João da Barra, que será candidata a deputada estadual, só confirmam o desrespeito e o abandono da população por esses mesmos políticos — concluiu.
Carla saiu do PP, da base de apoio de Jair Bolsonaro, para voltar no 1º de abril ao PT de Lula (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Volta ao PT no 1º de abril
O pedido da renúncia de Carla foi entregue no sábado, dia de Câmara fechada, à vereadora aliada Sônia Pereira (PP). Há juristas que questionam a legalidade do ato, o que pode ser feito formalmente no pedido de registro de candidatura. O fato é que dois dias antes, na quinta (31), ela já tinha de desfiliado do PP. Foi o partido em que se elegeu prefeita as duas últimas vezes e integra a base do presidente Jair Bolsonaro (PL). Na sexta, 1º de abril, ela se filou mais uma vez ao PT do ex-presidente Lula. Foi a legenda pela qual se candidatou a deputada estadual em 2014. Quando foi a mais votada em São João da Barra, mas perdeu a eleição.
Fake news de Carla Machado em janeiro contra a vida das crianças de SJB ganharam a mídia nacional (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
De Neco a Caputi
Os objetivos de Carla não são nacionais. Em seu discurso de posse na noite de ontem, ao lado da Machado, Carla Caputi disse que “contará com os conselhos” de quem a levou ao cargo. A cena e as palavras foram bem semelhantes à posse de Neco (MDB) como prefeito em 1º de janeiro de 2013. Para fazê-lo seu sucessor, Carla chegou a ser presa em outubro de 2012 pela Polícia Federal, acusada de compra de votos na operação Machadada. Mas após deixar os seus dois primeiros mandatos como prefeita de SJB, ela levou menos de três meses para romper como o aliado. Após a festa da posse, quem tem a caneta na mão não costuma aceitar canga.
Prefeita Carla Caputi e ex-prefeito Neco (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Alvos são Bruno e Elísio
Se confirmar a candidatura a deputada estadual, Machado precisará de Caputi por pelo menos mais cinco meses, para tentar ser novamente a mais votada em SJB. Como o município não tem eleitores para fazer um representante na Alerj, o objetivo real é derrotar dentro de casa adversários como o deputado estadual Bruno Dauaire (União Brasil), que vai tentar o terceiro mandato. Além do vereador Elísio Rodrigues (PL), presidente da Câmara Municipal comprometido com a reeleição do deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD). Bruno e Elísio são cogitados a prefeito em 2024. A depender dos votos que terão e darão em 2022.
Deputado estadual Bruno Dauaire e o atual presidente da Câmara de SJB, vereador Elísio Rodrigues (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Vereador Alan de Grussaí, presidente eleito da Câmara de SJB
Alan manda recado
Presidente eleito da Câmara de SJB, o vereador Alan de Grussaí (Cidadania) também deu seu recado à nova prefeita: “espero que faça o que a ex-prefeita não fez”. A manchete da Folha de 27 de outubro continua atual: “Procura-se governo em SJB”. Caputi merece o crédito de confiança. Desde que ouça mais os conselhos da população e do Legislativo, do que os de quem lhe passou o que não conseguiu resolver. Com quase R$ 260 milhões no caixa, o problema da iluminação pública do município não foi resolvido porque, segundo o proprietário da empresa contratada para executar o serviço, o material comprado e fornecido pela Prefeitura foi de péssima qualidade.
No final de semana, moradores de Roça Velha fizeram o que pagam e o governo de SJB não faz (Foto: Facebook)
Ação e revolta popular
Diante da incompetência do governo, o povo sanjoanense cansou de esperar. No fim de semana, moradores de Roça Velha, no distrito de Barcelos, passaram a trocar as lâmpadas das ruas por conta própria. Nas redes sociais, postaram as fotos da ação e o testemunho: “Com um município milionário, a gente faz a nossa parte, que é pagar os impostos em dia. Pagamos nossa Taxa de Iluminação Pública para termos iluminação, mas esse é o descaso com os moradores de SJB. A gente sai de madrugada para trabalhar e chega a ficar com medo de abrir o portão. Essa é a minha insatisfação com esse péssimo governo da senhora Carla Machado”.
Por Aluysio Abreu Barbosa, Cláudio Nogueira e Aldir Sales
“A renúncia de Carla Machado (que saiu do PP da base do presidente Jair Bolsonaro em 31 de março, para voltar no 1º de abril ao PT do ex-presidente Lula) surpreendeu porque ela vivia o pior momento político dos seus quatro mandatos à frente da Prefeitura de São João da Barra”. Foi o que disse no início da manhã de ontem ao Folha no Ar, na Folha FM 98,3, o deputado estadual Bruno Dauaire (União Brasil). Ele é o representante do mais tradicional clã político sanjoanense, nos últimos 17 anos marcado pelo enfrentamento ao domínio da política do município por Carla. Que, em 2 de abril, renunciou para se tornar pré-candidata a deputada estadual em outubro. Bruno condenou a política carlista no município, embora tenha admitido ser exitosa eleitoralmente, de fazer caixa nos três primeiros anos de administração, para abrir as torneiras no ano eleitoral. “Não é uma lógica que ajuda a população, tanto é que hoje ela (Carla) sofre com o desgaste imenso. Que pesou muito na decisão de renunciar para tentar a sua sobrevivência política”, analisou Bruno. Pré-candidato ao terceiro mandato na Alerj em 2022, em eleição que deve disputar mais uma vez contra Carla, ele também pregou o diálogo e a união para 2024 com o vereador Elísio Rodrigues (PL), atual presidente da Câmara de SJB.
Bruno Dauaire (Foto: Divulgação)
Reação à renúncia de Carla — Na verdade, como todos, fui pego de surpresa. Já havia um burburinho de que no último dia da janela, um dia antes da própria renúncia, que isso poderia acontecer. Mas pelo momento político que a ex-prefeita vivia, eu achava que seria isso difícil porque ela vivia o seu pior momento dentro dos seus (quatro) mandatos à frente da Prefeitura de São João da Barra. Por isso que pegou de surpresa ela não tentar a sua recuperação durante o restante do mandato de prefeita. Se ausentar, nesse momento, da Prefeitura para concorrer em uma eleição regional. Ela está mal politicamente, mal administrativamente não fez nenhum tipo de entrega à população, as ruas completamente esburacadas, falta de iluminação, problema para todo lado. Mas aí somado ao problema da derrota política na Câmara (a oposição levou a eleição da Mesa Diretora em 23 de março). Eu achei que, pelo perfil da própria prefeita, pelo que a gente conhece um pouquinho da sua trajetória na vida pública, que ela fosse tentar recuperar a sua imagem durante esses próximos três anos de mandato. Quem anda por São João da Barra e seus distritos, percebe claramente a insatisfação da população com a prefeita. Desde da sua assunção ao (terceiro) mandato, depois de Neco (MDB), e na sua reeleição, ela tem deixado muito a desejar.
Derrota na eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal — Acredito que a prefeita se inviabilizou politicamente diante das suas ações à frente da Prefeitura. Isso refletiu na eleição da Mesa. Não é de hoje que os vereadores, tanto aqueles que são independentes, quanto aqueles que são de oposição, já haviam criticado a falta de ações da prefeita. A gente podia dizer hoje que era uma surpresa, mas previsível porque a prefeita estava inviabilizada politicamente e administrativamente. Está claro, a prefeita não conseguia governar ou não queria governar. Fica muito evidente a falta de vontade da própria prefeita em tocar o município. Mas eu tenho, obviamente, a opinião de que a eleição da Mesa, com a sua derrota, tenha acelerado sua desistência de governar para povo de São João da Barra.
Inação e “saída honrosa” — O Governo do Estado, pelo menos nos (mais de cinco) anos que eu estive como deputado estadual, nunca teve um cofre tão recheado, podendo fazer investimentos importantes nos municípios. Eu não via e a Prefeitura de São João da Barra, muito menos a ex-prefeita Carla Machado, colocar a cidade para receber esses investimentos. Nas secretarias (estaduais) que eu batia, perguntando sobre as nossas indicações para várias obras inacabadas, perguntava se havia algum projeto da Prefeitura para realização de obras de infraestrutura como acontece no município de Campos. E os secretários e diretores das secretarias me diziam que não, que São João da Barra estava muito aquém na apresentação desses projetos. Para estar à frente do município, tem que ter vontade de governar. E parecia que ela não tinha vontade de governar mais São João da Barra. Acabou saindo achando uma saída, podemos dizer, honrosa. Para que ela não continue governando o município e tente aí um mandato de deputada estadual.
Com arrecadação 3,6 maior que Campos, para onde vai o dinheiro de SJB? – É muito dinheiro. São João da Barra, per capita, recebe 3,6 vezes mais que Campos. São João da Barra não é um município grande, extenso, e as dificuldades de se administrar esse município são menores do que as de São Francisco de Itabapoana e de Campos. Queremos ver o município se desenvolver. Sempre digo que o município cresceu, mas não se desenvolveu. Hoje, São João da Barra investe menos de 1% do seu orçamento. A gente não vê obra de infraestrutura, a gente não vê um modelo administrativo que reverbere isso em qualidade de vida para população, em aumento do potencial de compra do seu cidadão, para que isso gere consequência no comércio, gere empregos fora da realidade do Porto do Açu. O que a gente vê é um modelo de anos que funciona no município, onde se muda o prefeito, mas não se muda o grupo político. E a realidade é muito clara, a prefeita disse que deixou dinheiro em caixa. Deixou mais de R$ 250 milhões (R$ 259 milhões). E dinheiro público, com todo respeito, não é para fazer poupança quando a população precisa de investimento e de entrega. Conversando ontem com o meu pai, o ex-prefeito Betinho Dauaire, sobre administração, chegamos à conclusão muito interessante. Qual pai de família ou mãe de família e que tenha lá dinheiro em caixa, mas está sem comida na dispensa, com encanamento furado, com vazamento, com o chão todo quebrado? Ele não é um bom administrador. Ele está sem vontade de tocar as coisas dentro da sua casa, dentro da sua Prefeitura. O município em situação precária faz com que a gente entenda que não existia mais vontade de se governar.
“Imagem de boa gestora acabou” — No mandato passado (de Carla) muitos comparavam ao mandato ao então prefeito de Campos Rafael Diniz (Cidadania). Então, se tiravam algumas conclusões. Mas tudo foi por água abaixo diante dos números e da realidade da população sanjoanense, que hoje não vê nenhum tipo de investimento público. Aquela imagem da prefeita de São João da Barra, de boa gestora, acabou. Acabou. É muito triste, lamentável que a gente chegue a esse ponto, mas eu repito aqui: a prefeita deixa o município de São João da Barra não com os números que deixou quando foi candidata a deputada estadual (em 2014, após os dois primeiros mandatos de prefeita), quando teve 30% da votação no município. Hoje, a realidade é completamente diferente, vide a eleição da Câmara, que há algum tempo atrás era inimaginável.
Modelo de governo desgastado? — A lógica do modelo administrativo que foca apenas em tornar a Prefeitura uma máquina eleitoral para que a própria prefeita ou os seus indicados ganhem as eleições, sempre se perpetuou nas administrações Carla Machado. E quando a gente fala que a Prefeitura ficou hoje com mais de R$ 250 milhões, isso só reforça a nossa tese desse modelo administrativo. Como que em cinco, seis anos de gestão, a gente tenha dinheiro e não se veja investimento no município? É óbvio que ela estava esperando chegar próximo ao período eleitoral para que ela pudesse começar a investir no município. Obviamente um ou outro milhão desse com uma verba carimbada, mas nós sabemos que a maioria desse dinheiro, não. Então, poderia ter projetos, poderia se investir em infraestrutura, em qualidade de vida para população. É óbvio que ela esperava o período eleitoral para poder colocar tudo isso na rua. Esse ponto, a gente consegue ligar e entender. Não é um ponto que eu estou dizendo agora. Eu sempre digo isso. É uma análise minha em relação ao modelo administrativo que a ex-prefeita Carla Machado implementa quando assume os seus mandatos, de fazer ali o arroz com feijão durante três anos e no último ano do seu governo colocar para fora esses recursos. Não é uma lógica que ajuda a população, tanto é que hoje ela (Carla) sofre com o desgaste imenso. Que pesou muito na decisão de renunciar para tentar a sua sobrevivência política. Essa lógica eleitoral engoliu a ex-prefeita Carla Machado e engoliu também o seu indicado Neco, que disse à época que pegou a Prefeitura com milhões de dívida e inúmeras obras inacabadas. E a ex-prefeita Carla Machado depois vem candidata contra o indicado dela e com álibi de consertar e voltar com as obras, equilibrar o município, voltar com as obras que o ex-prefeito Neco não deu continuidade, ou não fez. Isso é predatório para população do município.
Outubro e desenvolvimento de SJB — Tenho um desafio ainda aí pela frente, que é outubro. A hora de buscar a prestação de contas e tentar buscar um novo mandato. Eu acho que essa é minha prioridade hoje. Minha prioridade hoje é mostrar um pouquinho do que a gente fez durante esses anos para que a gente possa, no momento certo, poder disputar as eleições proporcionais de deputado estadual. Mas, obviamente, a vontade de ver o município de São João da Barra se desenvolver, de ver os investimentos acontecendo, os programas acontecendo, tanto os programas sociais, como outros, para o município se desenvolver, com a melhora na qualidade de vida do cidadão sanjoanense. Aquele que que viveu desde lá de trás, quando São João da Barra sequer arrecadava royalties de petróleo. Esse cidadão, o filho dessa geração, o neto dessa geração precisa ser absorvido pelos investimentos do poder público de São João da Barra. Não pode ficar só à mercê do investimento privado, que também é muito importante.
Elísio ou Bruno a prefeito? — Acho que nenhum tipo de vaidade pode atrapalhar um projeto para município de São João da Barra. Tenho o carinho e o respeito muito grande pelo ex-presidente da Câmara, Elísio, que tem, sim, a vontade de concorrer à Prefeitura de São João da Barra. Eu acho que tem tudo para que os nossos projetos coincidam lá na frente. É óbvio que cada um desenha um projeto para o município, mas a verdade é que o atual modelo não pode mais se perpetuar. Acredito que, no momento certo, os nossos projetos vão coincidir. E teremos um disputando as eleições municipais. Desde que a gente tenha certeza que o verdadeiro projeto é cuidar do povo de São João da Barra. O presidente da Câmara tem todo o meu carinho, meu respeito. A gente conversa sobre política, não temos barreira para dialogar sobre São João da Barra. Então cada um deve tocar o seu projeto. E eu espero que lá na frente essas forças coincidam pelo bem do município. Se for da vontade da população, a gente vai ter um disputando uma chapa majoritária, com programa voltado para a qualidade de vida da população sanjoanense, o fortalecimento do comércio e geração de emprego. Mas também não descarto, de maneira alguma, poder apresentar nosso projeto, que a gente desenha há tanto tempo.
Elísio com os Bacellar e Bruno com os Garotinho? — É óbvio que, para quem faz uma análise agora de uma eleição em 2024, não seria interessante ver oposição dividida. Isso favorece, sem sombra de dúvidas, o lado governista. Que é o lado que nós precisamos livrar da história recente política do município de São João da Barra. Mas acredito que, se for possível coincidir os projetos políticos, não vejo nenhum tipo de problema de compor uma chapa, como também não vejo nenhum tipo de problema de apresentar os projetos. Obviamente, cada um liderando o seu grupo, mas não seria interessante dividir. Não é inteligente para que esse governo seja derrotado, até porque não é uma Prefeitura sem dinheiro. É um modelo que funciona bem para as eleições. Então, dividir esse palanque da oposição, ao meu ver não seria interessante para que a gente pudesse colocar para fora, de uma vez por todas, esse modelo predatório que a ex-prefeita vem implantando com seu grupo político em São João da Barra.
Como unir a oposição? — Olha, eu sou um homem público de muito diálogo. Obviamente, firmando minhas posições, que são claras, sinceramente não vejo nenhum tipo de problema fazer qualquer tipo de união com figuras públicas consideradas independentes no município de São João da Barra. Até porque o próprio presidente da Câmara, mais alguns outros vereadores, foram base do governo da ex-prefeita Carla Machado. Mas eu não tenho nenhum problema em fazer algum tipo de composição. E acredito que o Elísio, pela maturidade política que eu conheço, também não tem nenhum tipo de barreira que possa obstar uma união. A gente tem que é deixar as vaidades de lado para poder pensar o bem de São João da Barra. E aí, as pessoas que me conhecem sabem do meu perfil político de diálogo, compreensão e pacificação. E o Elísio também tem um perfil muito parecido.
Especulação que Carla poderia ser vice na chapa de Marcelo Freixo a governador — Não acredito que a ex-prefeita vá compor uma chapa majoritária, justamente por não acreditar que alguém colocaria uma pessoa que vive um mau momento político no seu próprio município depois de ter ganhado as eleições com 70% dos votos. Acredito também que a ex-prefeita não possui essa densidade eleitoral aqui na região. Apesar, como eu disse na época, comparadas às administrações de Campos a São João da Barra à do ex-prefeito Rafael, que ela tenha tido uma avaliação um pouco mais positiva. Mas isso cai por terra depois que se percebe a falta de investimento e que o município de São João da Barra não caminhava como se imaginava.
Disputa com Carla a deputado estadual em 2014 — Eu acredito que a prefeita vai tentar essa saída honrosa de ser uma parlamentar estadual. Já tentou uma vez, em 2014. A gente disputou as eleições juntos e, embora ela tenha sido a mais votada em São João da Barra, como é uma campanha estadual e regional, ela não conseguiu obter a votação para se eleger deputada estadual e a gente teve esse êxito. Nas eleições de 2022, eu acredito que ela vá, até pelo projeto político que a gente entende dentro desse novo contexto de polarização nacional, ser candidata a deputada estadual para ajudar justamente o candidato pré-candidato Marcelo Freixo (PSB) aqui no interior.
Confira abaixo, em vídeo, a íntegra da entrevista de Bruno Dauaire ao Folha no Ar de terça (05) sobre a renúncia de Carla Machado e suas consequências em São João da Barra:
O servidor federal e blogueiro do Folha1 Edmundo Siqueira é o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, a partir das 7h desta quarta (06). Ele analisará a crise que se arrasta na Câmara Municipal de Campos, desde a anulação da eleição a presidente do vereador de oposição Marquinho Bacellar (SD), na esteira da polarização entre o grupo político do prefeito Wladimir Garotinho (sem partido) e o liderado pelo deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD).
Ele também analisará a renúncia da ex-prefeita Carla Machado (do PP da base do governo Jair Bolsonaro de volta ao PT do ex-presidente Lula) em São João da Barra e as urnas da região a deputado estadual e federal em outubro. Por fim, Edmundo falará da disputa eleitoral a governador do Estado do Rio e a presidente da República.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
“Guernica”, óleo sobre tela de 1937 sobre a Guerra Civil Espanhola (1936/1939), de Pablo Picasso
Geroge Gomes Coutinho, cientista político, sociólogo e professor da UFF-Campos
A paz e seus descontentes
Por George Gomes Coutinho
Não se deve esperar de um humanista qualquer apoio à guerra enquanto resposta para crises ou disputas. Já disse Georg Lukács (1885-1971) em contexto bélico: “quanto melhor, pior”. Ou seja, batalhas vitoriosas, de qualquer dos lados, não se dão sem morticínio. Falo evidentemente do contexto ucraniano em andamento. Mas, o mesmo se aplica a todos os outros conflitos armados em paralelo no mundo, de guerras civis a violações de um Estado-Nacional por outro. Chocante mesmo é que estes tantos conflitos simultâneos fora da Europa prossigam sendo quase que ignorados e não contem com a mesma comoção. Não é mera conjectura afirmar neste contexto que, para parcela relevante da população mundial, determinadas vidas valem mais do que outras. Lastimável e moralmente repugnante.
Retomando, penso que a primeira providência, diante de conflito armado, é lutar desesperadamente para restaurar a solução pela palavra e salvar vidas civis e militares. Portanto, defendo que nossos melhores esforços devem estar no apoio irrestrito ao encaminhamento de um desfecho negociado pela diplomacia profissional ou qualquer outra. Para agora, para já! Não creio que seja defensável moralmente ou politicamente qualquer outro encaminhamento. A questão é que o que julgo ser a única posição humanista possível parece não seduzir parte da opinião pública em Europa, EUA e até mesmo em nosso quintal.
Daqui por diante irei problematizar uma das respostas cognitivas ao conflito, um ponto de partida do entendimento humano facilmente sequestrado por interesses ideológicos ou econômicos. Falo da simplificação quase pré-reflexiva produtora de maniqueísmo. O problema é que terem parado preguiçosamente no ponto de partida cognitivo torna a defesa da paz na opinião pública uma causa difícil. Mas, antes eu gostaria de convidar o(a) leitor(a) a um exercício de imaginação.
Imagine uma praça onde há muitos e diferentes jogos sendo jogados ao mesmo tempo. Há a mesinha do pessoal do jogo de damas. Há outra com os concentrados num dominó. Mais adiante há o pessoal do carteado. Seria estúpido avaliar a performance dos jogadores de damas utilizando as regras de buraco. Ou incorporar os traquejos e jogadas ensaiadas do enxadrista ao participar de uma partida de gamão.
Nesta nossa praça lúdica imaginada vamos acrescentar um elemento fantástico: imagine que os resultados das mesas, dos jogos independentes, tenham potencial de produzir mudanças de impacto na praça, nos jogadores e na dinâmica dos próprios jogos. Mudanças não esperadas inclusive. Sem falar das consequências não desejadas.
De alguma maneira, e guardadas as devidas proporções, o mesmo procede no contexto da guerra no leste da Europa. Há níveis regionais, nacionais e transnacionais de interação entre os agentes. Há entes que são grupelhos atuantes e barulhentos. Também encontramos atores de grande porte, a indústria armamentista e instituições multilaterais robustas. Temos elementos geopolíticos, econômicos e ideológicos que incrementam em complexidade as interações e os processos de tomada de decisão.
É um secos e molhados sangrento do sistema internacional. Tem de tudo. Só não há factualmente anjos e demônios nitidamente identificáveis por quaisquer critérios que queiramos utilizar
Resumidamente o contexto implica o crime de invasão de um país soberano por outro, erros grosseiros de caráter geopolítico da Comunidade Europeia, a proximidade com as eleições de meio de mandato (mid term elections) nos EUA, a imprudência de uma Otan de existência indefensável, etc, etc, etc.. As variáveis são tantas, tão variadas e com tantos níveis de densidade, que é simplesmente incompreensível o alinhamento automático a qualquer dos lados. Quem dizer, incompreensível a todos que não tenham ganhos assegurados e interesses contemplados diretamente com a derrota ou destruição de um ou mais dos envolvidos no conflito.
O risco da excessiva simplificação, que não considera a complexidade de uma realidade organizada em diferentes níveis de interação, redunda nas aberrações que estamos vendo na grande mídia e nas redes sociais. Ocorre o esdrúxulo, vide os cancelamentos do estrogonofe ou de Dostoievski. Mas, temos muito mais. O consumo acrítico das informações disseminadas por agentes com interesses claros no tabuleiro da guerra, a narrativa desumanizante e o adesismo quase que por imitação, produzem o ambiente da opinião pública refratária a discussões e pressões em prol da paz.
A tragédia do momento é infinitamente mais manejável pela ação humana do que a pandemia e precisaria da colaboração dos tomadores de decisão direta ou indiretamente envolvidos. Estes, por seu turno, são sensíveis aos outros Estados-Nacionais, organismos multilaterais e, claro, aos diferentes níveis possíveis de atuação da sociedade civil em escala regional, nacional e transnacional. Neste cenário, uma opinião pública que clama pela paz é uma grande arma de dissuasão em cenário de guerra. Mas, a paz sempre teve seus descontentes, tal como agora.
Infelizmente o que a humanidade tem conseguido produzir de paz perpétua, como assinalou em triste ironia o maior filósofo de Königsberg, é ainda a paz dos cemitérios.
Grandes amigos e referências que Atafona perdeu recentemente, Monica Paes e Ronaldo Cravo, no saudoso bar deste, o “Não Me Viu” (Foto: Facebook)
De férias em Atafona, deixei de acompanhar o noticiário local. Ontem, após uma tarde de peixe e cerveja na ilha da Convivência, dormi cedo. Só no início da manhã de hoje, ao acordar, fui ver no WhatsApp o aviso do meu filho, o jornalista Ícaro Barbosa, da morte ontem (24) de Monica Paes. Que confirmei na sequência com o jornalista atafonense Arnaldo Neto. Aos 58 anos, ela foi encontrada em sua casa já sem vida, vítima provavelmente de um infarto. Seu corpo foi velado na capela em frente ao cemitério São João Batista, em São João da Barra, onde foi enterrado na manhã de hoje. Monica deixa a mãe, dois filhos e três netos.
Adolescente nos anos 1980, já conhecia Monica de fama, como uma das mulheres mais belas da região. Foi musa nos desfiles de carnaval sanjoanense na escola de samba O Chinês e da Turma do Brim, descoberta aos desfiles e passarelas pelo saudoso colunista José Carlos Pereira Campos, o Caquinho, à época no extinto jornal A Notícia, antes de migrar à Folha da Manhã. Monica sempre falava com um orgulho danado desses tempos em que era figurinha carimbada da redação de A Notícia, comandada pelo saudoso jornalista Dr. Hervé Salgado — mestre, entre outros, do meu pai, o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa.
Meu contato pessoal com Monica não se deu em redações, mas por conta de outra paixão comum, no início dos anos 1990. Foi quando passei num concurso público para a Uenf, saí da casa dos meus pais e passei a residir em uma Atafona pré-Porto do Açu, de aluguéis mais baratos que Campos, pelo menos fora do verão. Desde que me entendo por gente, desejava ter um cão, mas minha mãe, Diva Abreu, tem cinofobia, o medo irracional de cachorros. Como precisava de um para tomar conta da casa enquanto estava na Uenf, comprei ainda filhote um rottweiler, raça destinada à guarda. Que batizei de Rommel e com quem, seguramente, construí a relação de maior cumplicidade que tive ou terei com qualquer outro ser vivo.
Quando não estava na Uenf, passeava com Rommel por Atafona. Atraída pela beleza e imponência física do cão, assim como pela relação baseada apenas no olhar que eu mantinha com ele, Monica, também apaixonada por cachorros, se aproximou de mim no convívio atafonense. Muito simpática, articulada e boa gente, embora intransigente na defesa dos direitos dos animais, construímos ao longo desses últimos 30 anos uma relação de amizade. Nestas três décadas, que eu me lembre, nunca marcamos de nos encontrar. Mas perdi as contas de quantas vezes esbarramos num boteco ou na Festa da Penha, do profano ao sagrado, sempre comungando um papo e umas cervejas.
Disse acima que, nos últimos 30 anos, Monica e eu sempre nos encontramos em Atafona, sem nunca marcar. O que, percebo também só agora, não é integralmente verdade. Na última sexta (18), ela me mandou por WhatsApp o anúncio de um luau à beira-mar, no final à esquerda da rua dupla da antiga Caixa d’Água, no Erosão Bar, de outra amiga comum, a Inês Vidipó. Que foi minha professora de educação física no meu último ano de curso primário na Escola Santo Antônio, em 1982.
Quarenta anos depois, a última sexta teve noite de lua cheia, que eu já havia combinado com meu afilhado, Aquiles, passando o final de semana comigo em Atafona, de ver nascer na praia. Cumprimos o acordado e depois fomos caminhando pela noite, à beira do mar prateado, até o luau. Ironicamente, na única vez em que marcamos antes, encontrei Monica pela última vez.
Sempre sorridente e falante, tivemos nossa comunhão derradeira de papo e cerveja. Ela me contou com orgulho de um vira-latas preto abandonado que tinha encaminhado à adoção pela Inês, que passeava feliz pelo bar. Como tinha que acordar bem cedo na manhã seguinte, para agir uma caranguejada na minha casa no sábado, me demorei pouco, apesar do clima agradabilíssimo do luau.
E me despedi de Monica diante das ruínas da antiga Caixa d’Água e do Atlântico, à margem direita da foz do Paraíba do Sul, sob a lua cheia.
No domingo (20), último dia do verão, soube por meio de uma amiga comum que Dorinha Vianna, referência em Campos como bailarina, havia perdido seu pai, o comerciário aposentado Ivan Ribeiro Vianna. Ele morreu no sábado aos 87 anos, na UTI do Pronto Cardio, vítima de um câncer de próstata, contra o qual lutava há dois anos. Foi sepultado às 13h30 do domingo, no Campo da Paz. Viúvo desde 2010, deixa filha e neto únicos.
Tentei ligar a Dorinha ainda no domingo. Sem sucesso, enviei um áudio para prestar solidariedade. A de quem perdeu seu próprio pai há quase 10 anos e sabe de antemão que nada dito pode preencher o buraco enxadado no peito. Ela me respondeu com outro áudio na segunda, emocionado e emocionante, falando de como o pai sempre a incentivou em sua vida e carreira.
Como o final de semana na minha casa, na Atafona de lua cheia, foi movimentado para receber minha própria família, fui ouvir o áudio de Dorinha só no cair da tarde de segunda. Já com a casa vazia, saí de carro para observar a chuva que caía forte na praia. Uma a um, percorri os mirantes ao final das ruas transversais ao oceano interrompidas em barrancos pela erosão marinha.
Ouvi Dorinha falando do pai, enquanto observava as ondas revoltas da maré alta açoitando os barrancos. Diante do mar tingido de verde pelo vento sudoeste, de chuva, brigando contra o castanho do rio Paraíba e do vento nordeste, do sol vencido, mas ainda em luta contra a virada do tempo. Que era anunciada há mais de uma semana em Atafona pela presença das fragatas, chamadas pelos pescadores de tesoura, por conta dos seus rabos bifurcados.
De frente ao Atlântico, sob chuva torrencial, olhei por cima do meu ombro à direita e vi que também chovia pesado em Campos. Virei a cabeça no sentido oposto e percebi que as nuvens negras, em interseção momentânea entre céu e terra, iam até a serra do Imbé, fazendo fundos com Gargaú, do outro lado do Paraíba. Parte da Serra do Mar, soube depois que o efeito seria novamente pior ao sul, em Petrópolis, onde mais cinco vidas foram perdidas.
Em solidariedade à dor de uma amiga de tantos verões, inclusive o que tinha virado memória, e em respeito ao ciclo inexorável da natureza, agravado pela ação humana, vieram versos. Mas não sem antes deitar a prosa de Dorinha sobre seu pai, que chamava sempre pelo apelido carinhoso de “Papete”:
“Meu pai era comerciário. Trabalhou na sapataria A Social, onde era gerente. Começou a trabalhar na loja aos 16 anos. Entendia tudo de sapatos e chapéus! A loja era da nossa família. Saiu de lá aposentado. Sou filha única e Mariano, neto único. Era um m boêmio, mas nunca chegou atrasado no trabalho. E tinha orgulho disso! Ele abria a loja. Gostava de samba e carnaval. Ele e os amigos saíam no “Bloco Ninguém É de Ninguém”, que abria o carnaval de Campos na sexta-feira percorrendo o Boulevard e seguindo pela rua 7 de setembro. Muita história, muita história. Era de uma turma que gostava de viver a vida com intensidade”.
(Dorinha Vianna)
Ivan Ribeiro Vianna, o Papete, e Dorinha Vianna (Foto: Facebook)
pranto a papete
(a dorinha)
há oito dias de céu azul e sol a pino antes da chuva
fragatas anunciavam a virada do tempo em porvir
de atafona ao imbé, fundos de gargaú, e pela serra
sacrificou mais cinco vidas humanas em petrópolis
pensava nessas existências cortadas, menos íntimas
que as fragatas e suas birutas bifurcadas no rabo
sob a chuva, dentro do carro, outro verão é memória
ao açoite da maré alta em lua prenhe de outono
ouvia no iphone áudio da filha em pranto a papete
na peleja entre verde e castanho das ondas revoltas