Manuela Cordeiro – Movimentos diários




Eu não gostava de Darcy Ribeiro. Quando se é jovem, tolice e estupidez não nos faltam. Eu não gostava de Leonel Brizola, demorei compreendê-lo. Eu tinha 12 anos quando ouvi falar de ambos pela primeira vez. Brizola foi eleito governador do Rio de Janeiro em 1982, e teve Darcy como seu vice naquele mandato até 1986. Achava-os chatos e falastrões. Eu achava que eles preferiam o Ciep, quando minha escola estadual estava abandonada. Eu não gostava tanto da escola, nem da ideia de ficar o dia inteiro nela aprisionado sofrendo pressões, assédios e constrangimentos (o que chamamos hoje de bullying). Lembro de ter visto ambos pela primeira vez na Beira-Rio, em Campos, durante campanha eleitoral em carreata. Darcy era candidato ao governo estadual, mas perdeu para Moreira Franco. Eu ainda não tinha idade para votar, mas votaria em Fernando Gabeira, se pudesse.
Eu demorei um bocado para saber quem era de fato Darcy Ribeiro e sua importância valiosa para o Brasil. Ignorantes são assim, demoram compreender muitas coisas. Não sei exatamente se foi em 1991 ou 1992, em uma certa ocasião, fui parar no restaurante do Palace Hotel para um jantar com Darcy Ribeiro. Não me lembro se ele já era senador da República ou candidato ao cargo. O encontro reuniu diversas autoridades do governo municipal, políticos, intelectuais, educadores e professores universitários que ensaiavam a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense sob a égide de Darcy Ribeiro, o mentor genial de tudo que se tornaria a Uenf futuramente. Como fui parar naquele evento? Bem, eu namorava alguém muito importante da primeira gestão de Anthony Garotinho na Prefeitura de Campos, então, fui a reboque.
Lembro que Darcy Ribeiro demorou muito para aparecer, sendo assim, o jantar não podia ser servido enquanto ele não chegasse, e eu faminto. Quando finalmente surgiu, estava de banho tomado, cabelos molhados e escovados para trás e, para variar, a sua metralhadora falante defenestrada entrou em ação. O homem era o centro das atenções e não poderia ser diferente. Eu percebia uma certa bajulação dos convidados, além de um constrangimento dos mesmos ao se dirigirem a ele, ou de interrompê-lo naquela verborragia toda alucinante. À época, a ponte Barcelos Martins tinha sido pintada de verde, o que desagradou a muitos campistas, inclusive integrantes do governo. Porém, Darcy elogiou a pintura com a cor mais representativa da flora brasileira. Bastou Darcy elogiar a ponte verde para muitos mudarem de opinião e concordarem com ele. “Toda cidade que é cortada por um rio como este só pode ser bonita”, disse.
Confesso que eu estava achando um saco aquele jantar. Darcy Ribeiro ria de tudo que ele mesmo contava e eu não conseguia achar a menor graça. Até que relatou de um susto que levara ao se hospedar em um hotel de alguma cidade do mundo onde fora criar ou reformar o modelo de ensino de alguma universidade, talvez no Peru ou Venezuela, não sabia precisar. Darcy disse que, ao sair do banho, deu de cara com um homem pelado de bunda murcha e enrugada no meio do quarto. Custou alguns segundos compreender o que um velho nu, enrugado e de bunda murcha fazia dentro do seu quarto. Foi então que percebeu que o velho era ele mesmo. A bunda flácida e enrugada que via era a sua própria refletida em espelhos. Todos riram, até que eu, tolo, estúpido e mau-humorado o contestei dizendo: “Ah,essa história eu achei muito mal-contada, professor. Afinal, o senhor estava hospedado só ou acompanhado nesse quarto de hotel?”. Alguns segundos de silêncio, ele me olhou por um instante, arqueou as sobrancelhas enormes e alvoroçadas, me ignorou, e voltou a disparar suas histórias. Me dei conta de minha gafe e passei a rir de tudo que ele dizia a partir de então, mas na verdade eu ria de mim mesmo.
Dias depois, a professora Magdala França Vianna, que estava nesse jantar e que me dava aulas no curso de Comunicação Social à época, me abordou na faculdade e disse ter se surpreendido com meu atrevimento ao me dirigir daquela forma ao célebre Darcy Ribeiro. Ela se divertiu. Sinceramente, eu achei que falei algo tão insignificante, mas que de uma certa maneira eu quis, sim, pensando bem, chamar sua atenção. Levei tempo para aprender que quase todos ali queriam ser que nem Darcy Ribeiro, um gênio (com e sem dúvidas) diante da vida. Quando ele morreu de câncer, aos 74 anos, em Brasilia, em 1997, eu já era menos tolo. Contava com 27 anos e tinha um pouco mais de maturidade e informação para saber que Darcy Ribeiro era um homem raro, que defendia a educação e os índios com tamanha nobreza e com grande conhecimento de causas e lutas.
Em novembro último, visitei a conceituada Universidade de Brasília e seu campus gigantesco. A UnB foi concebida por Darcy Ribeiro quando era ministro da Educação durante o governo parlamentarista de João Goulart. Dentro daquele complexo de prédios modernistas com traços de outro gênio, Niemeyer, lembrei desse meu encontro com Darcy Ribeiro e sobre sua última criação, a Universidade Estadual do Norte Fluminense que leva o seu nome, em Campos dos Goytacazes, instituição esta que eu tenho a honra de estar concluindo o mestrado em Cognição e Linguagem. Lamento muito que a Universidade do Terceiro Milênio como ele idealizou, esteja atravessando um momento de abandono juntamente com outras instituições de ensino do estado do Rio de Janeiro, acometido por graves problemas financeiros e por uma gestão desastrosa por parte dos últimos governos que preferiram investir em isenções fiscais para empresas multinacionais, por exemplo, além de superfaturar obras faraônicas e desviar dinheiro público para enriquecimento ilícito, como bem sabemos pelas acusações e prisões de vários políticos fluminenses testemunhadas pelo povo.
Tantos anos de luta e investimento por parte de professores, servidores, pesquisadores e estudantes, mas os políticos ainda não sabem ou não aprenderam a importância da educação para o desenvolvimento de um país e de uma sociedade que parece retroceder a cada dia quando não tem acesso ao ensino de qualidade. Há muito o que lamentar, porém é preciso reagir. Quando a Uenf foi idealizada, muitos representantes de setores organizados se juntaram para sua elaboração e consolidação. Agora é hora de todos que acreditam em um Brasil melhor e mais digno por meio da educação voltarem a se unir em favor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Um país que abandona suas escolas e universidades condena a si próprio ao atraso, ao esquecimento, às trevas.
Conta-se que no leito de hospital, antes de morrer, Darcy Ribeiro, sedutor como de costume, pediu à médica que lhe tratava o câncer para que ela o autorizasse a dar aulas ali mesmo. Ele sentia uma vontade enorme de ensinar, Trouxeram-lhe um menino de nove anos de idade para que ele pudesse conversar e dar sua última aula. Dizem que por alguns instantes, Darcy contou várias histórias ao garoto sobre o Brasil, a importância dos índios, das florestas, das culturas todas, do sambódromo e das escolas, e que todas essas coisas deveriam ser respeitadas, Foi um testamento que ele quis deixar.
Na UnB, no prédio lindo em forma de oca indígena construído no local que Darcy Ribeiro apelidou de beijódromo (era um local de encontros amorosos no campus universitário), encontra-se todo o seu acervo pessoal de livros, documentos, discos, prêmios, honrarias e objetos relevantes. Ali, se concentram alguns elementos que ajudaram na formação intelectual do antropólogo, reitor e escritor Darcy Ribeiro. Ele deixou um legado precioso ao país, e esta herança não pode ser esquecida pelos brasileiros, povo que ele amou sem reservas. O homem que amou o Brasil e que se doou de tal maneira nos deu exemplos. A lição está dada.








O ano de 1989 foi o que se pode rotular, sem exagero, de “espetacular”. Praticamente tudo era novidade na Planície Goitacá, desde um prefeito recém-empossado aos 28 anos até a expectativa de eleição direta para a Presidência da República, a primeira da minha vida e do país em três décadas. Pela importância de Campos no cenário político nacional, quase todos os 22 (isso mesmo, 22!) candidatos passaram pela cidade em campanha eleitoral, e eu, repórter da TV Norte Fluminense e Jornal A Cidade, tive acesso à boa parte deles, em revezamento de pautas com os colegas Alrênio Nascimento, Mauro Silva, Antônio Fernando, Sueli Freitas e Ocinei Trindade. Todos sob o comando de Rose David e Gianinno Sossai.
Era tudo novidade e excitação. Entrevistas, caminhadas com Paulo Maluf, Afonso Camargo, Guilherme Afif Domingos, Enéas Carneiro (”meu nome é Enééééas”), além dos semideuses batizados com seus nomes mortais de Leonel Brizola e Ulysses Guimarães. Ninguém passa por estes últimos com a alma impune. A mim não coube acompanhar Lula em sua primeira campanha, tarefa/privilégio de Alrênio. Éramos (quase) todos eleitores do petista… Em compensação, fui a Macaé cobrir o comício de Collor, já no segundo turno disputando contra Lula. Daquela cobertura guardo duas recordações: líder das pesquisas, Collor não dava entrevistas, mas como houve um encontro no auditório do Hotel Ouro Negro, montei trincheira no acanhado elevador junto ao cinegrafista (o falecido Sérgio Batista), tão logo a comitiva deu sinais de se retirar do recinto. Por poucos segundos um homem alto, empertigado, já exalando poder por todos os poros, esteve a dois passos do esconderijo, de minha espreita no elevador e confiante que a logomarca da Rede Globo na canopla do microfone fosse atrair o “caçador de marajás”.
— Governador, governador. Arrisquei.
Com o estilo marcial que marcaria sua postura no curto governo, Collor virou nos calcanhares e desceu a pé os quatro os cinco andares do hotel e deixou-nos sem a entrevista. Tenho outra história de elevador, mas com Leonel Brizola e muito mais agradável. Conto outro dia…
Mal descemos à rua, minha equipe foi cercada por um grupo de petistas que nos dirigiram os piores impropérios. No estreito entendimento daqueles tempos de maniqueísmo (hoje não muito diferente) acharam que, por trabalharmos numa emissora afiliada à Rede Globo, “patrocinadora” de Collor, éramos “colloridos” também. O que nos salvou de uma eventual agressão física foi uma “praguinha”, tipo de propaganda eleitoral, um adesivo, que eu mantinha colada na parte interna do paletó: era branca com o nome de Lula em letras vermelhas, que mostrei aos intolerantes, como prova de minha condição e opção política. Fomos aplaudidos. Ter posições definidas e pagar por elas, aliás, sempre me trouxe mais alegrias que dissabores…
Muito já se falou e ainda muito há que se falar dos gloriosos anos 80, mas aqui nestas lembranças baseadas apenas na memória ainda alcançável, abuso da paciência dos leitores deste Opiniões — porque só aqui me arrisco escrever na primeira pessoa— para dizer que 1989 não foi ano só de eleições. Por aqui, na esteira do alvorecer de um tempo que prometia novo, também vicejava a obsessão do quase centenário Austregésilo de Athayde, presidente da Academia Brasileira de Letras. Ele sonhava fazer, no Solar da Baronesa, então de propriedade da ABL, um centro internacional de formação de lideranças e a maior biblioteca brasiliana do mundo. Até a carta de Pero Vaz de Caminha falavam em trazer de Lisboa para integrar o acervo da instituição. Com seu prestígio de intelectual reconhecido internacionalmente, Athayde angariou recursos para recuperação do velho solar construído para ser residência da baronesa de Muriaé e que frequentava habitualmente, coadjuvado por uma secretária. Poucos foram os repórteres em atividade naquela época que não foram admoestados por aquele velho de cabelos brancos em desalinho, que de tão ranzinza, simpático e inesquecível se transformava.
De chofre, costumava interpelar repórteres antes que sacassem qualquer pergunta óbvia:
— Você sabe quem é o único brasileiro coautor da Declaração dos Direitos Humanos?
Enquanto o pobre repórter balbuciava qualquer resposta, ele emendava.
— Sou seu. Vocês são mesmo uns analfabetos…
Das personalidades que Austregésilo trouxe a Campos para ver sua obra, o então presidente de Portugal, Mário Soares (falecido há poucos dias, aos 92 anos), foi dos mais importantes. Organizou-se uma entrevista coletiva em torno de uma enorme mesa em “U”, o mestre de cerimônia era o jornalista Fernando Leite, à época secretário de Comunicação da Prefeitura de Campos, que abriu a coletiva franqueando mim a palavra para a primeira pergunta. Eu não tinha nada em mente para perguntar ao presidente de Portugal… Perguntar se não seria o caso de ele pedir perdão pela colonização nefasta de seus conterrâneos estava fora de cogitação. Fiz qualquer indagação acerca dos processos de redemocratização entre Portugal e Brasil com dez anos de diferença a favor da antiga metrópole. Soares respondeu diplomaticamente e suspirei aliviado.
Toda essa história em torno de 1989 é para chegar ao último dia da campanha eleitoral. Ulysses Guimarães, o gigante “doutor Ulysses”, que teria grandes chances de ser presidente se a eleição de 1985 tivesse sido direta, amargava uma péssima colocação nas pesquisas entre os 22 pretendentes. Moreira Franco, governador do Estado do Rio, apoiava Ulysses, por isso resolveu encerrar a campanha do PMDB em Campos. Naquela época as eleições ocorriam sempre no dia 15 de novembro e a campanha obrigatoriamente encerrada alguns dias antes. Era domingo, já estava perto da meia noite e Ulysses ainda não chegara ao palanque montado na esquina das avenidas Salo Brand e professora Carmem Carneiro, em Guarus. De plantão no jornal A Cidade, que era o único dos jornais campistas a circular às segundas-feiras, eu estava no alto da escada do palanque quando de repente, vejo uma mão ossuda e branca brandindo em minha direção, pedindo socorro para puxá-lo para cima. Estava meio escuro, mas pude ver claramente o brilho dos olhos azuis daquele homem especial, cuja mão segurei e puxei com firmeza. A adrenalina profissional impediu externar a emoção de fã. Era a mão do Doutor Ulysses, a mesma que semanas antes tinha promulgado a mais liberal e democrática de nossas constituições.
Ulysses sofreu derrota humilhante nas urnas. Teve cerca de 4% dos votos válidos e ficou atrás até do folclórico Enéas. Perdeu poder na Câmara Federal e o comando do partido. Passou por período de depressão e retomou o leme do barco ao liderar a campanha do impeachment de Collor. Desapareceu no mar de Angra dos Reis antes de ver o ex-caçador de marajás enxotado do Palácio. Era 12 de outubro de 1992 o helicóptero que levava Ulysses, Dona Mora e os inseparáveis amigos Severo e Henriqueta Gomes, caiu na viagem de volta a São Paulo. Todos foram encontrados e sepultados, menos Ulysses. Por coincidência era o dia em que os católicos comemoram a Padroeira do Brasil.

Desprezo ditadores. A tirania talvez funcione no cinema ou na literatura para efeito de narrativa ou reflexão, mas na vida cotidiana, não. Não dá para ser feliz sob jugo. Desconfio de quem despreza a História e os fatos. Os militares? São úteis. Os sacerdotes religiosos? Também são. Os criminosos? Ameaças constantes e devem ser combatidos. Os jornalistas? Necessários. O diálogo e o debate? Sempre. O silêncio? Segundo um provérbio árabe é uma grande sabedoria. Li tal provérbio em um livro do Malba Tahan. Nem tudo que se lê interessa, mas o poder atrai muitas atenções, protestos e críticas.
Na semana passada, o texto escrito por Claudio Kezen neste blog despertou (aqui) alguns comentários acalorados (o que acho ótimo) quanto à defesa da democracia. O Brasil e o mundo vêm sendo acometidos por uma onda de extremistas, sejam de esquerda, sejam de direita, além da ultra-esquerda e da ultra-direita. Estes defensores de interesses políticos e religiosos estão em diversos segmentos da sociedade. A cultura, as tradições, as fronteiras do país, a liberdade de expressão, os idiomas e credos devem ser preservados e respeitados, mas hoje em dia estamos discordantes de quase tudo. Estamos convictos de que estamos certos e todos os outros errados. Maniqueísmo já é algo preocupante desde sempre, mas quem é bom e quem é mau hoje no convívio social? Depende do ponto de vista.
O escritor italiano Umberto Eco chegou a dizer que a Internet ajudou a dar voz aos imbecis. As redes sociais ajudam a dilatar essa impressão de bobagens escritas e postadas a todo instante. É muito provável que eu também seja um dos imbecis que escreve ou comenta este texto ou aquela postagem, dependendo do ponto de vista de quem me lê. Todos nós queremos opinar (o que acho ótimo), mas nem todos nós queremos ouvir ou ler a opinião contrária à nossa. Não basta ser contra ou a favor, mas a capacidade de argumentação quase sempre passa pela superficialidade e incapacidade, percebo. Quando critico o PT e outros partidos, lulistas, ativistas em geral, tucanos, líderes religiosos em geral, maus políticos em geral, membros da família Garotinho, Dilma, Temer, um filme, uma obra teatral, a fala de alguém que se expõe em rede, significa correr risco. Se elogio, também corro risco. Posso ser julgado e condenado quando agrado ou quando desagrado. Se o texto for ruim, piorou. Paciência e pagamento compulsório. Percebo claramente quando não agrado e vejo um lado positivo nisto, pois tento conviver com as diferenças, já que não sou igual a todo mundo, apesar de algumas semelhanças.
O mundo já seria violento desde antes do Éden. A violência não deve ser encarada como algo banal para ser tolerado. Porém, se não toleramos tantas ameaças, somos exterminados antes da hora derradeira. Dizer a verdade e o que se pensa custa caro e custa cargos. O ex-secretário nacional da Juventude, Bruno Júlio, caiu depois que defendeu uma chacina por semana nos presídios brasileiros após a explosão de motins em Manaus e em Roraima. “Tinham que ter matado mais”. A declaração do político do PMDB ligado ao gabinete do presidente Michel Temer não deixa de ser um exemplo do que boa parte da sociedade pensa. Certamente, muitos concordaram com ele, mas outros não. Presos e criminosos também têm pai, mãe, filhos, alguém que os ama, mesmo sendo malfeitores. O milagre da regeneração desses bandidos em cadeias infernais espalhadas pelo Brasil e pelo mundo deve ficar mais difícil de acontecer. O Estado é responsável em preservar a vida de todos os cidadãos, inclusive encarcerados, mas não dá conta. E a população carcerária só aumenta.
Se o Brasil não dá conta de hospitais, escolas e universidades públicas, quando poderá contar com prisões adequadas para recuperar e ressocializar condenados? Muitos acham melhor (e creio que sobretudo governantes) que presos se rebelem e se matem, pois assim esvaziam cadeias, policiais e políticos não são tão expostos e é menos complicado botar problemas para debaixo do tapete, visto que nossa sociedade violenta costuma dizer que “bandido bom é bandido morto”. Imagina uma rebelião dessas com Anthony Garotinho, Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, José Dirceu, Marcelo Odebrecht e outros dentro do sistema prisional brasileiro? O crime organizado tem vencido em todas as frentes, e combatê-lo e vencê-lo não tem sido competência de nenhum governo.
A corrupção é tamanha na sociedade, governos e instituições (nem igrejas escapam) que tudo está entregue à sorte, principalmente nossa sobrevivência. O Brasil conta com cerca de 700 mil encarcerados e outro tantos milhões de criminosos do lado de fora à espera de algum tipo de freio, punição ou julgamento. Aqueles que defendem o regime militar de governo de volta ao comando do Brasil devem se lembrar que crimes bárbaros e toda espécie de corrupção não deixaram de existir de 1964 a 1985. Há décadas registramos assassinatos no Brasil com números que superam países que vivem em guerra por anos. Entretanto, recentemente na história do país nunca se viu tanto empresário e político poderosos sofrerem prisões e condenações como temos testemunhado, muito embora alguns acusem esses acontecimentos como perseguição e disputa de poder entre uma suposta elite minoritária de direita contra uma esculhambada esquerda (im)popular e (des)articulada. Vivemos em uma guerra civil não declarada oficialmente faz tempo.
Brasileiro tem um baita complexo de inferioridade. A arrecadação nacional de impostos é trilionária, mas nenhum serviço público funciona como deveria, sem falar no quesito “segurança”. Quase tudo é inferior e de qualidade ruim. O feliz ano novo e o tão aguardado ano 2017 vem enchendo de tapas e tabefes a cara da sociedade brasileira em duas semanas apenas. Nem o governo, nem as instituições republicanas escapam de mais essa (com)provação de desajustes e incompetência no que diz respeito ao sistema prisional e o combate ao crime.
As pessoas de bem já são reféns de maus políticos, traficantes de drogas e armas, além de empresários gananciosos e opressores há muito tempo, bem antes desses motins e matanças dentro dos presídios. Há, talvez, muito mais criminosos perigosos do lado de fora das prisões. E, com quase absoluta certeza, poucos de nós estamos preparados para enfrentá-los sem por vidas inocentes em risco e cabeças a prêmio. Alguns se iludem com a especulação de que ditadores militares (Jair Bolsonaro é um exemplo) ou regimes autoritários como de Adolf Hitler que promoveu matanças atrozes resolvam o problema da violência e da ordem social. Faltam-nos saúde, educação, moradia e segurança dignas, mas nos faltam sobretudo o amor à vida. Existir ou deixar de existir já parecem não ter importância ou significado para as pessoas que têm se desumanizado demais.
Os comentários de postagens em redes sociais e de reportagens em sites de notícias nos dão um bom termômetro o quão preconceituosos, intolerantes, cruéis e mal-informados somos. Porém, precisamos e queremos opinar. Nem que seja para aniquilar o outro (uma pena). A jornalista Paula Vigneron outro dia em sua rede social se mostrou chocada com comentários de pessoas sobre mulheres que sofrem abuso sexual. Eu cheguei a dizer a ela que fico dividido entre ler e não ler os comentários imbecis de internautas, os quais Umberto Eco um dia chegou a criticar. Os imbecis, tiranos e machistas têm na rede o mesmo espaço democrático para se manifestarem que um Prêmio Nobel ou um cientista sério possuem, por exemplo. Mas, infelizmente, muitos desperdiçam tal privilégio, incitando o ódio e promovendo mais intolerância. Donald Trump parece ser o tirano imbecil da vez (mas eleito pelo voto).
Como separar o joio do trigo? Bem, o respeito às diferenças, a começar pelas opiniões, é um tremendo exercício de paciência e sabedoria. Seria mais fácil admitir que cometemos erros e equívocos. Opinar sobre o filme La La Land, de DamienChazelle; ou sobre homens usarem saias (eu defendo firmemente, sobretudo em um país quente como o Brasil) também vale. Em outro momento, quem sabe, falaremos de cinema e vestuário masculino, pois precisamos antes de falar sobre qualquer assunto, sobreviver às ditaduras, tiranias e matanças. Haja bom humor e sorte.