Manuela Cordeiro – Movimentos diários

 

Acorda e procura as primeiras luzes. O filme que deixou aceso, as luzes frias ainda por apagar do dia anterior, o celular pisca freneticamente recebendo os primeiros bits do horário comercial. Abre a janela da frente. Por sorte essa não tem chave, tem um só trinco e já consegue, sem tantos intermediários, enxergar o dia descortinando em vermelho e em canto. Do pássaro, do carrinho do vendedor de sorvete — interrompido pelo grito dos carros.
Começa a ronda na casa, a procura pelas chaves das portas, cada uma em um lugar previamente combinado com seu eu de ontem. Perturbado com os humores matinais, promete deixar tudo no mesmo lugar de hoje para amanhã. Mas, na realidade, sabe que a chave da porta de trás só pode estar em cima da ilha da cozinha, da geladeira ou em uma de suas várias cestarias de lembrança de queridos paradouros do passado. A chave da porta da frente também só tem outros dois cantos específicos para estar.
A porta que abre primeiro é a de trás. Não quer se abrir ao dia tão depressa. Vai ver as folhas caídas no chão, como o manjericão e a hortelã pimenta se comportam na luz tímida, o barulho dos vizinhos. Olha o céu e prevê o tempo do dia, mas se perde nos desenhos das nuvens.
Inicia o ritual do café da manhã ensaiado em perfeição — trocar as tomadas para a cafeteira e o liquidificador, ouvindo o tempo de terminar de passar o café, colocar as frutas do suco de hoje, ao mesmo tempo que liga o gás e inventa a tapioca do dia. Nisso, a chave do quarto já saiu da parte de dentro pra fora, junto com o computador, o livro que leu, as roupas para o dia de trabalho. Por um instante, tudo em harmonia e o maestro se dá ao luxo de apreciar o ritual em funcionamento. É interrompido pela espátula que cai e que ao buscar no chão, leva consigo o pano de prato e quase a garrafa de vidro. O susto do barulho interrompe a sequência do ato de fala e, no contexto da ação, a luz do dia e a do gás ficam por dois segundos turvas. Respira e consegue retomar o comando da polifonia. Porque já se aproxima o fim desse movimento da sinfonia. Nem ele gosta disso, mas sabe que deve preparar a próxima peça desse cenário, além de se regozijar ao ver a cena sempre pronta para novo ensaio.
O desfecho não é a simples ordem contrária do que foi feito anteriormente. Tem que ser sentido o tempo das coisas — o que esfria primeiro, enquanto lava o que já foi usado, preenche o finalizado. E novamente a porta de trás, a da frente, os esconderijos de sua mente para as chaves, a porta do quarto, a janela principal. Parado na porta da frente, novamente aberta, olha para mão que tilinta e se pergunta porque tantas chaves naquele molho — que incluem aquelas várias do trabalho, outras de casas de amigos.
Levanta o olhar e decifra o seu quebra-cabeça diário em um rápido olhar investigativo na sala e se pergunta — ficou tudo no seu lugar? E todo o dia sozinho responde, já que só ele domina o código de sua coreografia diária.

Salvar

Salvar

0

Ricardo André Vasconcelos – Um país à mercê das trapaças da sorte?

 

“Trapaças da sorte” ou “urdiduras do diabo”. Foi como dois ministros do Supremo Tribunal Federal reagiram à morte do colega de toga, horas antes num acidente aéreo no litoral de Paraty. O morto era Teori Zavascki, relator do processo que investiga um dos maiores escândalos de corrupção do mundo e a poucos dias de concluir a homologação de colaborações premiadas de 77 executivos da maior empreiteira nacional. Os processos podem redundar no indiciamento de duas centenas de políticos citados, incluindo 128 com mandato, entre eles os presidentes do Congresso e da República.
Ingredientes suficientes para alimentar teorias da conspiração de todos os tipos, à direita e à esquerda. Nas redes sociais o próprio filho de Zavascki levantou suspeita de algo poderia existir de “não acidental” na queda do avião. Em maio do ano passado, o mesmo filho registrou em rede social que se algo acontecesse a sua família, a Polícia saberia a quem procurar. Mais não disse e nem mais lhe foi perguntado.
Em quatro anos na Suprema Corte, Zavascki contrariou interesses diversos: suspendeu o mandato de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tirando-o da presidência da Câmara, cortando assim o suprimento de oxigênio político que o fazia manter em vergonhoso banho-maria o processo de cassação do próprio mandato. Algumas decisões favoreceram ao Lula e outras foram de encontro aos interesses dos ex-presidentes petistas. Com Renan Calheiros (PMDB), também deu uma no prego, outra na ferradura: determinou o indiciamento num processo que se arrastava quase há uma década, mas votou com a maioria para mantê-lo na presidência do Senado, mas fora da linha sucessória da Presidência da República. Um “puxadinho constitucional”.
Teori Zavascki já figura na extensa lista de personalidades brasileiras que saíram de cena de maneira que se tornaram suspeitas porque ocorridas em momentos de proeminência das vítimas e em circunstâncias limítrofes entre a fatalidade e o ardil humano. Acidentes acontecem, da mesma forma que sabotagens, envenenamentos ou homicídios. Ao longo das últimas décadas a história do Brasil está salpicada de casos que podem ser obras do puro e simples acaso ou de sórdidas conspirações. Trapaças da sorte?
Em outubro 1992, Ulysses Guimarães estava no auge da campanha pelo impeachment de Collor e o helicóptero que o levava de Angra para São Paulo, caiu no mar matando todos a bordo. Antes, em 1985, na véspera da posse como primeiro presidente civil após duas décadas de ditadura militar, Tancredo Neves foi internado às pressas no Hospital de Base de Brasília para uma cirurgia realizada num centro cirúrgico improvisado. Tancredo morreu 35 dias depois de uma sucessão de erros, farsas e egos inflados. O livro “O paciente – O Caso Tancredo” (1), do jornalista Luis Mir, é um dos mais completos trabalhos sobre a agonia e morte daquele que seria o presidente que faria a travessia do país de volta à democracia. A conclusão do livro não agrada aos adeptos das teorias conspiratórias. Para Mir, a partir da escolha do local da cirurgia (“território hostil do primeiro ao último minuto em que esteve lá”), o resumo é que houve uma “tragédia médica que colocou a transição democrática à beira do abismo…”. Só para ter um exemplo, na sala de cirurgia onde Tancredo foi operado, estavam 25 pessoas incluindo os profissionais, políticos como Antônio Carlos Magalhães, o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima e a família Neves: a mulher, o filho, duas filhas, dois irmãos, uma irmã, dois netos (um era Aécio Neves) e um sobrinho (Francisco Dornelles).
Nas eleições presidenciais de 30 anos depois, em 2014, o candidato apontado como opção para o rodízio entre petistas e tucanos, morreu, também num desastre aéreo. Eduardo Campos, neto do lendário Miguel Arraes, tinha 45 anos e foi substituído na chapa pela vice, Marina Silva. A eleição foi vencida pela petista Dilma Rousseff.
Ministro da Reforma Agrária no governo Sarney, o advogado e militante histórico do MDB, Marcos Freire era um dos políticos mais promissores naquele alvorecer na “Nova República”. Pernambucano do Recife, chegou ao Senado com pouco mais de 40 anos. Em 1987 era ministro da Reforma Agrária do Governo Sarney quando o avião em que viajava, visitando o conflagrado Sul do Pará, explodiu em pleno ar matando também o presidente do Incra e outros técnicos. A reforma agrária, ainda era (é) um tabu que contribuiu para a queda do presidente constitucional, João Goulart, em 1964.
Goulart, aliás, é outro personagem que protagoniza diversas teorias de conspiração. Jango morreu em dezembro de 1976. O que chama atenção, como é esmiuçado no livro “O Beijo da Morte” (2), de Carlos Heitor Cony e Ana Lee, é que num período de nove meses morreriam, em condições, digamos, inesperadas, os três principais líderes da oposição ao regime militar. Os três, potenciais candidatos ao Planalto, tinham fundado a “Frente Ampla” meses antes com objetivo de restabelecer a democracia no Brasil. Juscelino Kubitschek morreu num acidente de carro na Rio-São Paulo, próximo à cidade de Resende, já no Estado do Rio. O Opala em que estava, dirigido pelo fiel motorista Geraldo Ribeiro, atravessou o canteiro e colidiu com uma Scania que transportava 30 toneladas de gesso. Os dois morreram na hora. Uma semana antes, correu um boato que Juscelino teria morrido em acidente semelhante, próximo a Brasília. Era agosto de 1976. Em dezembro do mesmo ano, João Belchior Marques Goulart, o Jango, morreu no exílio na cidade de Mercedes, na Argentina, oficialmente de ataque cardíaco.
Meses antes, Jango encontrou-se em Montevidéu com o inimigo político Carlos Lacerda, o “corvo”, para fundar a Frente Ampla e andava espalhando que voltaria ao Brasil, de qualquer maneira. Só voltou morto. Era cardiopata em uso de medicamentos e há pouco havia passado por um check-up em Lyon, na França.
Carlos Lacerda — um dos líderes civis do movimento de 64 que passou a combater e, por isso, teve os direitos políticos cassados — deu entrada na Clínica São Vicente, na Gávea, em maio de 1977, com sintomas de febre que, em poucas horas evoluiu para uma septicemia que o matou. Era o terceiro integrante da Frente Ampla morto em nove meses. As mortes de Jango e JK foram investigadas na ditadura e posteriormente já no retorno à democracia. Jango teve o corpo exumado em 2001 e nenhuma tese conspiratória comprovada. Mas sobre as três mortes pairam as asas de certa Operação Condor, conspiração liderada pela CIA para eliminar opositores dos regimes ditatoriais que dominavam a América do Sul com apoio dos Estados Unidos na segunda metade do século passado.
Casos confirmados de tortura e assassinatos de presos políticos pelos agentes do Estado autorizam as teorias conspiratórias. Ora, se assassinaram o jornalista Wladimir Herzog, o operário Manoel Fiel Filho, a estilista Zuzu Angel e muitos outros por se opor ao governo, por que não calar os que eram ameaça real ao regime?
Outro ex-presidente morto em desastre de avião e quase nunca incluído na lista de mortes suspeitas é Castelo Branco. O Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, presidente militar entre 1964 e 1966, perdeu a batalha da própria sucessão para os militares da “linha dura” que impuseram Costa e Silva, que anos depois legaria ao país o famigerado AI-5. Castelo voltava de uma visita à escritora Rachel de Queiroz, sua prima, na fazenda “Não me Deixes”, no Ceará, quando o avião em que voava entrou numa área de exercício da Força Aérea Brasileira (FAB) e foi atingido por um jato.
Num andar mais abaixo, há outras mortes com características mais de “queima de arquivo” do que conspiração política. Paulo César Farias, o ex-tesoureiro e pivô do impeachment de Fernando Collor, foi encontrado morto a tiros ao lado da namorada, Suzana Marcolino, em junho de 1996. Crime passional, foi a versão oficial. Suzana teria matado o namorado e depois posto fim à própria vida. Mais misterioso ainda é o assassinato, em plena rua em São Paulo, em janeiro de 2002, do então prefeito de Santo André, Celso Daniel. Estrela do petismo em ascensão, Daniel estaria prestes a detonar um esquema de corrupção na prefeitura, do qual perdera o controle. Testemunhas e suspeitos foram morrendo como num dominó macabro e a história virou toneladas de papel dos processos judiciais sem conclusão.
De coincidências e conspirações vai-se tecendo a história do Brasil. Sabe lá Deus o que mais nos espera…
Referências:
1. – CONY – Carlos Heitor e LEE Anna. O Beijo da Morte. Rio de Janeiro. Editora Objetiva. 2003.
2. – MIR, Luis. O paciente – O Caso Tancredo Neves. São Paulo. Editora de Cultura. 2010

Salvar

Salvar

0

Ocinei Trindade – Darcy Ribeiro nu, a universidade e muitos lamentos

Eu não gostava de Darcy Ribeiro. Quando se é jovem, tolice e estupidez não nos faltam. Eu não gostava de Leonel Brizola, demorei compreendê-lo. Eu tinha 12 anos quando ouvi falar de ambos pela primeira vez. Brizola foi eleito governador do Rio de Janeiro em 1982, e teve Darcy como seu vice naquele mandato até 1986. Achava-os chatos e falastrões. Eu achava que eles preferiam o Ciep, quando minha escola estadual estava abandonada. Eu não gostava tanto da escola, nem da ideia de ficar o dia inteiro nela aprisionado sofrendo pressões, assédios e constrangimentos (o que chamamos hoje de bullying). Lembro de ter visto ambos pela primeira vez na Beira-Rio, em Campos, durante campanha eleitoral em carreata. Darcy era candidato ao governo estadual, mas perdeu para Moreira Franco. Eu ainda não tinha idade para votar, mas votaria em Fernando Gabeira, se pudesse.

Eu demorei um bocado para saber quem era de fato Darcy Ribeiro e sua importância valiosa para o Brasil. Ignorantes são assim, demoram compreender muitas coisas. Não sei exatamente se foi em 1991 ou 1992, em uma certa ocasião, fui parar no restaurante do Palace Hotel para um jantar com Darcy Ribeiro. Não me lembro se ele já era senador da República ou candidato ao cargo. O encontro reuniu diversas autoridades do governo municipal, políticos, intelectuais, educadores e professores universitários que ensaiavam a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense sob a égide de Darcy Ribeiro, o mentor genial de tudo que se tornaria a Uenf futuramente. Como fui parar naquele evento? Bem, eu namorava alguém muito importante da primeira gestão de Anthony Garotinho na Prefeitura de Campos, então, fui a reboque.

Lembro que Darcy Ribeiro demorou muito para aparecer, sendo assim, o jantar não podia ser servido enquanto ele não chegasse, e eu faminto. Quando finalmente surgiu, estava de banho tomado, cabelos molhados e escovados para trás e, para variar, a sua metralhadora falante defenestrada entrou em ação. O homem era o centro das atenções e não poderia ser diferente. Eu percebia uma certa bajulação dos convidados, além de um constrangimento dos mesmos ao se dirigirem a ele, ou de interrompê-lo naquela verborragia toda alucinante. À época, a ponte Barcelos Martins tinha sido pintada de verde, o que desagradou a muitos campistas, inclusive integrantes do governo. Porém, Darcy elogiou a pintura com a cor mais representativa da flora brasileira. Bastou Darcy elogiar a ponte verde para muitos mudarem de opinião e concordarem com ele. “Toda cidade que é cortada por um rio como este só pode ser bonita”, disse.

Confesso que eu estava achando um saco aquele jantar. Darcy Ribeiro ria de tudo que ele mesmo contava e eu não conseguia achar a menor graça. Até que relatou de um susto que levara ao se hospedar em um hotel de alguma cidade do mundo onde fora criar ou reformar o modelo de ensino de alguma universidade, talvez no Peru ou Venezuela, não sabia precisar. Darcy disse que, ao sair do banho, deu de cara com um homem pelado de bunda murcha e enrugada no meio do quarto. Custou alguns segundos compreender o que um velho nu, enrugado e de bunda murcha fazia dentro do seu quarto. Foi então que percebeu que o velho era ele mesmo. A bunda flácida e enrugada que via era a sua própria refletida em espelhos. Todos riram, até que eu, tolo, estúpido e mau-humorado o contestei dizendo: “Ah,essa história eu achei muito mal-contada, professor. Afinal, o senhor estava hospedado só ou acompanhado nesse quarto de hotel?”. Alguns segundos de silêncio, ele me olhou por um instante, arqueou as sobrancelhas enormes e alvoroçadas, me ignorou, e voltou a disparar suas histórias. Me dei conta de minha gafe e passei a rir de tudo que ele dizia a partir de então, mas na verdade eu ria de mim mesmo.

Dias depois, a professora Magdala França Vianna, que estava nesse jantar e que me dava aulas no curso de Comunicação Social à época, me abordou na faculdade e disse ter se surpreendido com meu atrevimento ao me dirigir daquela forma ao célebre Darcy Ribeiro. Ela se divertiu. Sinceramente, eu achei que falei algo tão insignificante, mas que de uma certa maneira eu quis, sim, pensando bem, chamar sua atenção. Levei tempo para aprender que quase todos ali queriam ser que nem Darcy Ribeiro, um gênio (com e sem dúvidas) diante da vida. Quando ele morreu de câncer, aos 74 anos, em Brasilia, em 1997, eu já era menos tolo. Contava com 27 anos e tinha um pouco mais de maturidade e informação para saber que Darcy Ribeiro era um homem raro, que defendia a educação e os índios com tamanha nobreza e com grande conhecimento de causas e lutas.

Em novembro último, visitei a conceituada Universidade de Brasília e seu campus gigantesco. A UnB foi concebida por Darcy Ribeiro quando era ministro da Educação durante o governo parlamentarista de João Goulart. Dentro daquele complexo de prédios modernistas com traços de outro gênio, Niemeyer, lembrei desse meu encontro com Darcy Ribeiro e sobre sua última criação, a Universidade Estadual do Norte Fluminense que leva o seu nome, em Campos dos Goytacazes, instituição esta que eu tenho a honra de estar concluindo o mestrado em Cognição e Linguagem. Lamento muito que a Universidade do Terceiro Milênio como ele idealizou, esteja atravessando um momento de abandono juntamente com outras instituições de ensino do estado do Rio de Janeiro, acometido por graves problemas financeiros e por uma gestão desastrosa por parte dos últimos governos que preferiram investir em isenções fiscais para empresas multinacionais, por exemplo, além de superfaturar obras faraônicas e desviar dinheiro público para enriquecimento ilícito, como bem sabemos pelas acusações e prisões de vários políticos fluminenses testemunhadas pelo povo.

Tantos anos de luta e investimento por parte de professores, servidores, pesquisadores e estudantes, mas os políticos ainda não sabem ou não aprenderam a importância da educação para o desenvolvimento de um país e de uma sociedade que parece retroceder a cada dia quando não tem acesso ao ensino de qualidade. Há muito o que lamentar, porém é preciso reagir. Quando a Uenf foi idealizada, muitos representantes de setores organizados se juntaram para sua elaboração e consolidação. Agora é hora de todos que acreditam em um Brasil melhor e mais digno por meio da educação voltarem a se unir em favor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Um país que abandona suas escolas e universidades condena a si próprio ao atraso, ao esquecimento, às trevas.

Conta-se que no leito de hospital, antes de morrer, Darcy Ribeiro, sedutor como de costume, pediu à médica que lhe tratava o câncer para que ela o autorizasse a dar aulas ali mesmo. Ele sentia uma vontade enorme de ensinar, Trouxeram-lhe um menino de nove anos de idade para que ele pudesse conversar e dar sua última aula. Dizem que por alguns instantes, Darcy contou várias histórias ao garoto sobre o Brasil, a importância dos índios, das florestas, das culturas todas, do sambódromo e das escolas, e que todas essas coisas deveriam ser respeitadas, Foi um testamento que ele quis deixar.

Na UnB, no prédio lindo em forma de oca indígena construído no local que Darcy Ribeiro apelidou de beijódromo (era um local de encontros amorosos no campus universitário), encontra-se todo o seu acervo pessoal de livros, documentos, discos, prêmios, honrarias e objetos relevantes. Ali, se concentram alguns elementos que ajudaram na formação intelectual do antropólogo, reitor e escritor Darcy Ribeiro. Ele deixou um legado precioso ao país, e esta herança não pode ser esquecida pelos brasileiros, povo que ele amou sem reservas. O homem que amou o Brasil e que se doou de tal maneira nos deu exemplos. A lição está dada.

Salvar

Salvar

Salvar

0

Marcelo Amoy – A saída é por ali! (?)

 

Mal enterramos os ossos da ceia de réveillon e fevereiro já se anuncia com recomeços de colocar os do ano novo no bolso e que ameaçam nos deixar de ressaca. Se a modernidade é líquida, os sustos no Brasil são sólidos e as expectativas, tantas vezes… se dissipam no ar como um avião caindo no mar de Paraty, para mim, para todos nós.
A segunda temporada de 2016 – também conhecida como 2017 – já começou massacrando nos presídios e na massiva cobertura midiática daquilo que, há décadas, não sabemos como fazer: oferecer segurança à sociedade via recuperação de infratores presos em locais que não sejam universidades do crime – mas jogamos todos lá indiscriminadamente desejando que se consertem sozinhos (quem sabe por obra e graça do Divino Espírito Santo?) e, se assim não acontecer: lavamos nossas mãos e pensamos como seria bom se todos se matassem para eliminar nosso problema. Para um liberal como eu, uma das (poucas) funções precípuas do Estado é a segurança pública. Resolver o problema da segurança é responsabilidade do Estado; mas o Estado, o fazemos nós – pelo menos assim deveria ser. De alguma forma, falhamos. Reconhecer isso, sem vitimismos vulgares, é o primeiro de muitos passos na busca de soluções efetivas para alcançarmos aquele bem estar típico da civilização: o incrível, mas eventualmente alcançável avanço de podermos andar tranquilos pela rua. Qualquer rua, mesmo sem iluminação adequada – viu ex-candidato?
O Brasil é um projeto que precisa entrar em obra; pra isso, tem que sair da prancheta – se fôssemos modernos, eu falaria em Autocad. Mas… vá lá que seja: entrar em reforma já adianta – desde que urgente! Existem algumas na fila de espera faz tempo e o retorno das atividades do Congresso Nacional agora no comecinho de fevereiro aguça expectativas – ainda que as decepções estejam garantidas. Sim, eu sei da baixa qualidade de nossos políticos, assim como de muitas de suas intenções duvidosas – o que leva muita gente a desejar expulsá-los da vida pública como se isso trouxesse solução. Mas estou convicto de que não há saída fora da política porque até pode haver ditadura com Congresso aberto, mas não há democracia com Congresso fechado. O que cabe a nós é a responsabilidade de melhorarmos a qualidade de nossos representantes – não a covardia de um dar de ombros nem a desculpa de que “eles nunca vão prestar”. Se nós prestamos, eles hão de prestar também. É nossa responsabilidade.
As reformas da previdência e do ensino médio; as tributária, trabalhista e política… independentemente da ordem, precisam ser levadas adiante. Já sabemos que nenhuma será feita de uma forma ideal até porque o ideal é inatingível por definição – quanto mais quando as partes mais afetadas por cada uma delas (tantas vezes antagônicas) sempre terão pleitos atendidos parcialmente e expectativas frustradas totalmente. Espero, contudo, que o saldo seja positivo na média. Sou favorável a todas, mas não sem críticas.
A da previdência, como proposta pelo governo, é draconiana demais: defendo uma idade mínima menor e regras de transição mais suaves e paulatinas, mas concordo com o fim de praticamente todas as aposentadorias especiais por uma questão de isonomia – e acho que o fim da aposentadoria especial dos políticos é questão de honra para o país. A reforma do ensino médio é urgente: seja para diminuir a evasão escolar e o desinteresse dos alunos pelos estudos; seja para habilitar as próximas gerações para os desafios de uma vida profissional cada vez mais exigente, especializada, difícil e longa – detalhes como qual disciplina fica ou sai é trabalho para os especialistas (mas a demanda é que o objetivo de modernizar o ensino suplante interesses particulares). Num país em que 2/3 dos cidadãos sonham em abrir seus próprios negócios (individuais ou com 2 ou 3 funcionários no máximo), as reformas tributária e trabalhista são evidentemente necessárias: não dá mais para esses microempresários (aquelas pessoas que geram a maioria dos empregos nacionais – só pra lembrar aos “distraídos”) gastarem horas a fio tentando decifrar códigos tributários impenetráveis; nem pode ser normal que alguém ainda ache “bacana” que leis septuagenárias vijam hoje como vicejaram no passado – flexibilizá-las é do interesse dos próprios trabalhadores, que ganharão oportunidades sem perder direitos. A reforma política – urgentíssima! – é a que nos dará o maior trabalho e trará as maiores decepções dada a atual composição pouco republicana de nosso Congresso. Torço pelo estabelecimento do voto distrital (puro ou misto: baratearia as campanhas, diminuindo a corrupção; e facilitaria a cobrança e o controle da atividade parlamentar), além do fim do sistema proporcional (que elege gente sem voto) e dessas esdrúxulas coligações contraditórias e mercantilistas. No entanto, não arrisco palpite sobre o que resultará dessas discussões.
Logo no começo de fevereiro, Câmara e Senado escolherão seus novos presidentes e mesas diretoras: os candidatos favoritos já chegam maculados por motivos diversos e seus concorrentes não animam ninguém. A velha política não larga o osso. É osso, pessoal! Enquanto isso, o suspense continua quanto à Lava Jato e se agrava com a morte de Teori – mesmo com (ou até por causa de) sua substituição. Delações se sobrepõem exigindo retratações e complementações nesse roteiro de intrigas que nem Fellini ousaria filmar. Com um pote imenso de pipoca no colo, assistiremos a cada dia mais gente dizendo: “Moro em Curitiba” (ou em Bangu). Além disso, o TSE vai julgar a chapa Dilma-Temer: aquela formada, segundo alguns dos que nela votaram, por uma “cabeça de chapa legítima” e um “vice golpista”. Abomino esse discurso tanto quanto a intolerância que ele cultiva desde sua gênese até suas presentes consequências: o aprofundamento das divisões nacionais. O fato de que o feitiço do “nós contra eles” tenha se virado contra o feiticeiro me apraz – mas não me basta nem deve se encerrar em si. Ao contrário: todos nós que o denunciamos como um feitiço populista altamente danoso aos interesses nacionais, temos a obrigação de não replicá-lo, mas de fazer o certo e continuar a combatê-lo – agora mais do que nunca.
Enquanto o diálogo com defensores de uma visão divergente estiver impossibilitado ou prejudicado, falemos aos flexíveis – essa é a maioria a conquistar: nos corações e nas urnas. Não nos esqueçamos, porém, de buscar o diálogo com a divergência: “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” – e isso vale tanto “para eles” quanto “para nós”. Há sempre algo a aprender com quem pensa diferente. Não falo aqui de dar a outra face, mas de assumir a postura correta de trabalhar para o fim da intolerância – aquela que tantos “deles” se esforçaram para exacerbar e muitos “de nós”, inadvertidamente, cultivam para o azar do futuro do país. Chega disso: esse “nós contra eles” não está com nada, nunca esteve. Façamos melhor: o Brasil agradece.
Aliás, sem que nos sirva de consolo, o crescimento da intolerância não é um demérito só brasileiro. Radicalismos de todas as espécies só crescem mundo afora – ameaçando, no meu entender, as liberdades individuais, o liberalismo econômico e, no final das contas, a própria democracia. Neste momento, para a maioria das pessoas, a figura que mais se associa a essa ameaça é Trump – mas não é meu objetivo entrar nesse mérito agora (falta até espaço). Ao contrário, o que me interessa é como fazer desse limão uma limonada docinha pro Brasil inteiro beber. Se Trump fizer metade do que prometeu, nosso país terá uma boa chance de se reposicionar no comércio internacional. Somos deficitários no comércio com os EUA e isso nos exclui do alvo preferencial de prováveis ataques protecionistas norte americanos (o NAFTA e a PTP) – com margem inclusive para aumentarmos nossas exportações pra lá via novos acordos comerciais bilaterais. Paralelamente, os países que perderão mercado nos EUA precisarão de novos destinos para seus produtos com uma urgência que talvez os force a fechar acordos com o Brasil em condições favoráveis para nós. Agora é a hora do Brasil flexibilizar certas regras do Mercosul para poder fechar esses acordos bilaterais sem a obrigatoriedade de fazê-lo em bloco. O próprio Brexit pode nos abrir mais uma bela porta. Não podemos deixar nenhuma dessas portas se fechar antes de passarmos.
Assim, que venha fevereiro: com a certeza do carnaval em seus últimos dias – mas com a esperança de que escolhamos caminhos que não nos façam continuar dançando depois que a folia de Momo terminar.

Salvar

Salvar

0

Fabio Bottrel – O Espinho da Rosa

“Como afirmou Lévi-Strauss, o encontro dos sexos é o terreno em que a natureza e cultura se deparam um com o outro pela primeira vez.”
Ao ler esse pensamento no livro Amor Líquido – Sobre a fragilidade das relações humanas, de ZygmuntBauman, unindo às palavras do autor no vídeo acima, foi inevitável a reflexão: eu sou de uma geração incapaz de amar.
Essa impotência amorosa talvez engane logo após algum certame, mas não dura nessa “sociedade do espetáculo”, título do livro de Guy Debord pensando essa inversão de mundo, onde o verdadeiro é um momento do falso. Nesse grande teatro os personagens são julgados pelos figurinos aquém dos textos, pelo cenário além dos mesmos, nunca pelo que és, mas pelo que conseguem carregar no corpo e no viés de seus destinos. Somos frutos de uma relação frágil, superficial, construímos nossas vidas à distância através de rede social, crescemos achando que um “delete” é a solução do nosso desgosto, tão simples e fácil como amanhã terá outro a preencher o posto de uma ponte pro vazio.
“E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço.” (Bauman)
Com a delicadeza desses laços humanos que aparentam solidez, constroem-se relacionamentos com o pensamento utópico baseado numa cultura que reprime a tristeza a ponto de negá-la a sua existência, criando uma imagem falsa da vida, vangloriando uma linha do tempo só de sucessos como se não houvesse uma contrapartida nem mesmo como parâmetro. Esquece-se que a felicidade são momentos e a maturidade é capacidade de aproveitar as oportunidades que a vida lhe proporciona ser feliz, apenas o idiota ou alienado é feliz o tempo inteiro. Mas o cinismo virtual não faz mal a ninguém, não é o mesmo do relacionamento, que fere a confiança e desrespeita o outro.
Nesse padrão há exceção, gosto de acreditar, talvez só os tolos amem ou talvez no amor seja onde os fracos de fato não tenham vez, pois apesar de tudo quem ainda acredita no amor foi feito para durar e não apenas passar pela vida, como os frios que não choram, não amam e não vivem.
O amor é belo tal como uma rosa, enquanto sente o doce perfume os espinhos sujam de sangue as mãos de quem a colhe.

Salvar

Salvar

0

Guilerme Carvalhal – Vergonha

 

Andando pela estrada de ladrilhos coberta pelo acúmulo de areia dos anos sem uso sedimentando um assoalho compactado e liso, o guia explicou:
“Por aqui saíram correndo em fuga. Pegaram os objetos mais simples e hábeis, as roupas, e partiram sem nenhuma plano. Evadiram e seus pertences de ouro, suas máquinas caras e tudo mais permaneceram para os salteadores futuros”.
Continuamos adiante. O ar pesado me causava calafrios. De alguma forma os espíritos do passado sussurravam em meu ouvido, cantando as lástimas de seus momentos de agonia. Por entre o alto matagal ladeando a passagem poderia surgir um não-sei-o-quê assustador e eu vasculhava por cada canto, vigilante.
Diante do pórtico, o guia detalhou:
“Os viajantes de antigamente logo se vislumbravam diante da opulência da cidade. Ali, ao lado, vocês veem as duas pernas que restaram do colosso que espantava os bandoleiros e impunha o respeito e a ordem. Os moradores queriam que quem nessas bandas pusesse um pé baixasse a cabeça diante de sua superioridade. Daí a pompa efusiva logo na entrada”.
Logo adiante das pernas de mármore revestidas por uma camada viscosa de limo predominava a decadência. Sobre o chafariz de azulejos descorados desfilavam filas de ratazanas. As antigas luminárias das ruas jaziam podres de ferrugem. Das casas restavam seus alicerces de madeira e pedras, umas poucas com as colunas, tetos e paredes preservados apesar do total aspecto de ruína. Andar dentro de uma deles consistia em atitude de grave perigo, pois os tremores de passos poderiam afetar os caibros e comprometer definitivamente a estrutura.
Virando à direita, uns bons metros em seguida, havia uma praça com coreto. A armação metálica havia se desprendido e as varas de ferro retorcido formavam um mosaico surreal apavorante. As folhas cobriam todo o piso cimentado da praça e qualquer pessoa com bom senso evitaria pisar ali, tão evidente a presença de animais peçonhentos camuflados no tapete ressecado.
“Aqui deram o anúncio. Diante das palavras apocalípticas do prefeito, a multidão debandou em prantos. Quem conseguiu carregar alguma coisa, carregou. Cuidaram dos detalhes derradeiros e sumiram para nunca mais retornar”.
A caminhada desenrolou um tanto quanto a esmo. Contemplávamos o esfacelamento em uma experiência extática. Contrariando a atmosfera fúnebre, certa alegria nos contagiou, empolgados com o espírito arqueológico da empreitada. Posávamos para fotos e apontávamos com vivacidade para os utensílios antigos como o ferro de passar a carvão.
Quando nos cansamos de rir, pedimos ao guia que nos acompanhasse até o ponto fundamental desse roteiro. Taciturno, ele caminhou batendo com uma vara ao chão, ao estilo de quem marca o ritmo tocando gado. O clima de enlevo dos últimos instantes se converteu em cumplicidade, mutuamente assumindo um risco consciente.
Ali, ao fundo da vila, avistamos o grande armazém sobre o qual tanto se comentava. Ao contrário do restante das construções locais, mantinha-se inteiro e resistente, corroído apenas pela voracidade dos cupins formando alguns buracos. Na lateral, em uma enorme pichação se lia a palavra “vergonha” em letras garrafais, obra de um bando de adolescentes revoltados.
À porta, paramos todos reticentes, amedrontados. A área externa já assustava o suficiente e muitos deram um passo atrás, negando-se a assistir o espetáculo que nos aguardava. Integrei o grupo dos ousados, daqueles que desejavam atravessar o corredor de martírio apesar da promessa de automutilação.
Entramos no armazém. Os pés vacilavam, as mãos tremiam. Fazíamos ideia do que encontrar, mas não imaginávamos o desespero e o arrependimento seguintes. Ali, as ossadas de dezenas de crianças, todas com menos de dez anos, jogadas pelos cantos, os crânios que sustentaram uma expressão de pavor quando a morte veio as ceifando, tão pequenas, tão inocentes e já encararam os infortúnios dignos dos velhos.
“Quando todos fugiram da peste, deixaram para trás as crianças, o principal vetor da doença. Elas foram a primeiras a apresentar os sintomas, e para que não os seguissem, trancafiaram-nas nesse armazém e as abandonaram para morrer”.
O impacto daquela cena abalou a todos os visitantes. As lágrimas saltaram aos olhos e vários perderam a força mediante tal quadro desolador. Apostamos e recebíamos a recompensa, nosso quinhão particular de sofrimento. Apenas o guia não se emocionava, já calejado de tantas e tantas visitas, com as quais se tornou imune.
Eu mesmo caí de joelhos durante meu testemunho da crueldade humana, da omissão, do egoísmo. Chorei com um clamor pelo meu jamais conhecido irmão, um daqueles esqueletos anônimos, e por minha sorte de ter chegado ao mundo muito depois, pois caso nascido antes jazeria naquela necrópole superficial sem uma sepultura cristã.

Salvar

Salvar

0

Carol Poesia – Inquérito Poético (parte 1)

 

Inspetora – Senhor Adalberto, o senhor pode me dizer o seu nome todo?
Suspeito – Adalberto Lemos da Costa Carvalho.
Inspetora – Lemos da Costa Carvalho… O senhor tem três sobrenomes, seu Adalberto?
Suspeito – Tenho.
Inspetora – E por quê?
Suspeito – Porque os meus pais quiseram assim.
Inspetora – Os seus pais. Lemos certamente da sua mãe e da Costa Carvalho do seu pai.
Suspeito – Não. Lemos da Costa é da minha mãe e Carvalho do meu pai.
Inspetora – Lemos da Costa da sua mãe e Carvalho do seu pai. Sua mãe não tem Carvalho no nome?
Suspeito – Não.
Inspetora – E por quê?
Suspeito – Porque ela quis assim.
Inspetora – E seu pai não se opôs?
Suspeito – Não.
Inspetora – Certamente uma família governada pela mulher. Me diga uma coisa, seu Adalberto… A senhora sua mãe trabalha fora de casa?
Suspeito – Sim.
Inspetora – E qual é a profissão dela?
Suspeito – Ela é professora.
Inspetora – Como eu imaginei… Professora de…
Suspeito – Literatura.
Inspetora – Obviamente.
Suspeito – Mas por que…
Inspetora – E quanto ao senhor, senhor Adalberto: qual é a sua relação com a literatura?
Suspeito – Eu? Nenhuma. Eu…
Inspetora – Então não gosta da Literatura?
Suspeito – Gosto, mas não é que…
Inspetora – Odeia Literatura!
Suspeito – Não! Eu gosto!
Inspetora – Gosta, mas diz que não tem nenhuma relação. Um tanto quanto contraditório, concorda senhor Adalberto?
Suspeito – Não, a senhora não entendeu! Eu não gosto nem desgosto, eu não tenho nada contra, só que também não ligo muito. Literatura é a vida da minha mãe!
Inspetora – “Literatura é a vida da minha mãe”, uma declaração um tanto quanto suspeita, senhor Adalberto? Eu não consigo acreditar que algo que, segundo o senhor, é a vida da tua mãe não tenha nenhuma relação com você. Das duas uma: ou a vida da tua mãe não tem a menor relevância para o senhor ou o senhor está mais envolvido com a Literatura do que me contou até agora. Ham?
Suspeito – Ham? Foi só maneira de dizer… Olha eu não estou entendendo por que a senhora está me perguntando isso tudo. Eu nem sei por que eu estou aqui. Eu trabalho numa empresa, eu me dou muito bem com a minha mãe e eu até tirava nota boa em português na escola.
Inspetora – Empresa?
Suspeito – É, empresa de finanças. Trabalho com contas, empréstimos, renda, cobranças, entendeu? Nada a ver com Literatura.
Inspetora – Entendi. O senhor se ocupa de contar dinheiro?
Suspeito – É, mais ou menos né.
Inspetora – O senhor é feliz nesse trabalho? Se sente realizado?
Suspeito – Ham? Sou, quer dizer, sinto, quer dizer, mais ou menos.
Inspetora – Não é feliz.
Suspeito – Sou sim, às vezes.
Inspetora – E o seu pai, senhor Adalberto?
Suspeito – O que que tem meu pai?
Inspetora – Também trabalha com finanças?
Suspeito – Meu pai foi militar, agora está aposentado. Posso ir embora?
Inspetora – Militar. Linha dura? Me diga uma coisa seu Adalberto, o seu pai foi duro com você na infância? Ele te privou de muitas coisas? Qual é o olhar do seu pai para a arte? O seu pai gosta de teatro, música ou pintura? Qual é a relação do seu pai com a literatura? Por acaso ele acha que arte é coisa de mulherzinha?
Suspeito – Que? Que história é essa?
Inspetora – Confessa!
Suspeito – Eu não estou entendo aonde a senhora quer chegar!
Inspetora – Confessa!
Suspeito – Mas confessar o que? Eu não estou entendo nada.
Inspetora – Confessa!
Suspeito – O meu pai queria que eu fosse militar e eu não quis. Isso é crime? O que que está acontecendo aqui hein? Eu tenho os meus direitos!
Inspetora – Ah o senhor não sabe o que está acontecendo?
Suspeito – Não.
Inspetora – Não faz idéia?
Suspeito – Não.
Inspetora – Então eu vou te lembrar: o fato, senhor Adalberto Lemos da Costa Carvalho, é que a poesia está morta! E eu tenho razões para acreditar que o senhor seja culpado.
Suspeito – Eu? Mas eu não fiz nada!
Inspetora – Filho de professora de literatura – provavelmente conhece o que é poesia! Filho de militar aposentado – provavelmente conhece o que não é poesia! No entanto, nega qualquer envolvimento com a lírica. Não sabe se gosta ou não gosta. Respostas imprecisas, indecisas, contraditórias… Não é feliz no trabalho.
Suspeito – Mas porque eu faria isso? Um atentado contra a poesia!
Inspetora – Eu disse que a poesia está morta!
Suspeito – Mas eu juro que não fui eu! Por que eu?
Inspetora – O senhor pode muito bem ser um poeta frustrado que resolveu se vingar.
(continua)

Salvar

Salvar

Salvar

0

Fernando Leite – O barqueiro fidelense e o Fórum de Davos

“Enquanto houver um oprimido no mundo, haverá o socialismo”
(Oscar Niemeyer)
O seu nome é José. É negro, está com 37 anos e sua compleição física me autoriza a imaginar que sua ancestralidade é da etnia bantu:alto, pernas longilíneas, magro, nação soberana na África subsaariana, até a chegada dos mercadores de escravos. Mas, ele cumprindo o destino atávico dos seus zilavôs, é um homem desatado de qualquer nó social, livre, solitário, meu vizinho na república autônoma da Bicuíba, às margens do rio do Colégio, nas cercanias de São Fidélis de Sigmaringa,mora embaixo de uma ponte e, de vez em quando, de acordo com rio Paraíba do Sul, “do calendário das águas que vêm de cima”, sai no rústico barco, a remo, para uma pescaria artesanal.
Casar não está nos seus planos. “Arranjar parceira para passar fome comigo? Larga isso!”. Avesso a fotografias, evita festas e aglomerações. Sobrevive com o mínimo e faz qualquer sacrifício para conseguir uma boa barganha. Às vezes, em menos de uma semana, apanha de volta o objeto que barganhou, que, em seguida, será, de novo, fruto de negociação. O prazer é o ato de barganhar. Pode ser uma bicicleta por 10 quilos de robalo; um fusca, de ano indeterminado, por uma vaca que dá 10 litros de leite por dia; um canivete suíço por uma gaita. E assim vai “gastando a vida, na humildade”, como gosta de dizer.
Trouxe meu amigo Zé aqui para falar do comunicado da Oxfam – uma organização não governamental – que divulgou um dado estarrecedor, durante o Encontro das maiores economias do mercado planetário, em Davos, na Suíça, na semana que passou: que, apenas e tão somente, 8 magnatas detêm o mesmo capital que 3 bilhões e 600 milhões de habitantes da Terra, metade do total da população economicamente pobre.
Este é o melhor dos mundos para os democratas que defendem o regime das liberdades individuais acima da harmonia coletiva. A Democracia seletiva, aquela que permite, rigorosamente, tudo que há de melhor, desde que você tenha dinheiro pra comprar. Pouco lhes importa que só há bilionários, quase trilhiardários, porque há bilhões de Zés espalhados pelos continentes, em moradias indignas, dependurados de cabeça pra baixo na linha da miséria. Estão se lixando para a verdade incontestável que a economia é uma só e que os abismos sociais são, neste sistema, absolutamente, “consequências naturais”.
Os capitalistas inveterados usam sempre o mesmo bordão, como auto-defesa do establishment:
— Se não estás satisfeito, vá para Cuba, China, Coréia do Norte ou à Puta que lhe pariu! Lá, não estarias escrevendo estas mal traçadas linhas. Estarias no paredão.
É esse argumento que sustenta sua estupidez; ignoram, por conveniência, a lição basilar do filósofo inglês Thomas Hobbes, no século 17, segundo a qual, “o homem é o lobo do homem”. E que, se não houver uma força concentradora capaz de arbitrar comportamentos sociais, restará impune a autofagia social. Ainda mais quando não há freios para as fortunas criminosas.
Fingem que não vêem os paredões das ruas das cidades conflagradas, dentro dos presídios, nos hospitais sucateados, no trânsito descontrolado, na infância violentada, na escola preparada para impedir a construção do homem novo. Carpem seus pecados capitais à sua maneira, socorrendo, nas datas santas, a miséria abjeta, que avistam pelos vidros dos carros ou pela tela curva da TV. Distribuem bolas de plástico e cestas de Natal, uma vez, por ano e acham que assim ficam quites com seu deus nômade.
Não me detenho no pensamento reles de esquerda e direita, do Estado que fuzila ou do Estado que se omite diante do fuzilamento diário, sobretudo, de crianças inocentes. Ao invés da ocupação de lados ideológicos, grandes causas.
Falo de alternativas para esta dicotomia anacrônica, este maniqueísmo conveniente. Sobre a ideia do socialismo fraterno, “pairam as sombras aterradoras de Fidel e do ouro de Moscou”, “a madame de Mao e a revolução cultural”, “Lênin e os assassinatos em massa”. Porca miséria. De outro lado, contamos os mortos e desaparecidos das ditaduras sul-americanas, as mães da Praça de Maio, a Revolução dos Cravos, a Comuna de Paris, o Holocausto. Há um prazer mórbido dos ideólogos de mensurarem as dores atrozes do mundo. E não aprender com elas e evita-las no futuro. Ficaremos até quando nessa masturbação intelectual, contando nossos mortos?
O planeta, Gaya, pede socorro “estamos maltratando, por dinheiro, a Terra, que é a nave, nossa irmã”
O futuro quer novidades, senhores. Os países que já resolveram suas aberrações políticas, encurtaram os fossos sociais e, como resultado, reduziram a violência, melhoraram o sistema de saúde e avançam para conquistas humanas e respeito às liberdades. O Brasil ainda é um país cafona. Porque a corrupção é cafona. É anacrônica, atrasada, demodê. Chique é ser honesto. O nosso parlamento é um antro, uma ilha próspera, cercada de lixo, inoperante, perdulária, uma caterva, um valhacouto de bandidos.
Aqui, em Pindorama, estamos a léguas do razoável.
Há que se instituir, com a urgência que a fome e a dor coletivas impõem, uma nova ordem mundial. Zé, sob a ponte, em sua “humílima residência” e seus iguais esperam esse gesto de nós.

Salvar

Salvar

0

Vanessa Henriques – Ex-alunos se mobilizam para salvar a Uenf: patrimônio de Campos e do Norte Fluminense

Hoje utilizarei este espaço para chamar a atenção para a lamentável situação em que se encontra a Universidade Estadual do Norte Fluminense, a nossa Uenf.
Fundada em 1993, a Uenf constituiu-se como uma grande conquista para a cidade de Campos dos Goytacazes e para a região do Norte Fluminense, como um todo. A criação de uma Universidade na região significou, sobretudo para aqueles que não teriam condições de se deslocar para os grandes centros, a oportunidade de se graduar em uma instituição pública de excelente qualidade. Desde então, durante seus 24 anos de existência, a Uenf foi responsável por propiciar a ascensão social de milhares de estudantes.
Depois de cerca de um ano operando em condições precárias, mais uma vez a comunidade acadêmica uenfiana encontra-se em estado de alerta: há muita incerteza quanto ao futuro das Universidades estaduais Uerj, Uenf e Uezo. Desde o ano passado, alunos, professores, técnicos e servidores vêm se empenhando para manter o funcionamento da Uenf, mesmo a despeito dos enormes atrasos de salários, bolsas e da escassez de recursos básicos necessários para a boa execução das tarefas ligadas ao trabalho e ao estudo. Ao todo, a Universidade acumula cerca de 55 milhões em dívidas devido à carência de repasses governamentais.
Parte considerável dos alunos da Uenf é oriunda de municípios circunvizinhos. Como aluna da instituição, no último ano, pude presenciar boa parte dos meus colegas que dependem das bolsas para promover seu sustento em Campos, precisando retornar as suas cidades de origem, por não terem condições de pagar seus aluguéis. Alguns não possuíam sequer dinheiro para comprar alimentos. Mesmo com o moral abalado, a comunidade acadêmica resistiu e está se preparando para enfrentar novas dificuldades neste ano de 2017.
Neste contexto de insegurança, ex-alunos da Uenf começaram a se organizar na semana passada para desenvolver uma agenda de atividades que visa impedir o total sucateamento da Universidade. Na quinta-feira, dia 18, o grupo se reuniu pela primeira vez e encaminhou as primeiras ações que serão tomadas para tentar evitar o desmantelamento da instituição. Foi decidido que realizarão uma Semana de Mobilização – a primeira de fevereiro – que contará com aulas públicas ministradas na Rodoviária e na Praça São Salvador, além do recolhimento de assinaturas para um abaixo assinado. Essas atividades pretendem sensibilizar a população campista para a fragilidade da atual situação da Uenf, reforçando a importância da preservação desse patrimônio que é tão caro a nossa cidade. Também foi criada uma comissão de fiscalização da verba pública, que ficará encarregada de acompanhar os gastos do governo do Estado.
Outra forma de chamar atenção para o problema se dará através de uma campanha nas redes sociais: o recém-formado movimento conclama os ex-alunos da Uenf a postar em seus perfis no Facebook, depoimentos que narrem a sua relação com a Universidade, salientando o quanto a passagem pela instituição foi transformadora e valiosa para cada um. Os depoimentos podem ser postados em formato de texto ou vídeo, seguidos pelas “hashtags” #ExAlunosNaLutaPelaUenf e #UenfResiste.
Além disso, na próxima terça-feira, 24, haverá uma mobilização, às 10h, na própria Universidade, visando agregar alunos, técnicos e professores a essa tão necessária mobilização.
Finalizo com um vídeo produzido na ocasião do vigésimo aniversário da Uenf, que também reúne belos depoimentos de alguns dos alunos egressos da Universidade.
Deixo também um apelo à sociedade campista: não deixemos ruir uma instituição com tamanho potencial de promover o desenvolvimento da nossa cidade e da nossa região.

Salvar

Salvar

0

Manuela Cordeiro – Freedom fries: a liberdade fast food das redes sociais

Quis sair da zona de conforto poética e também acadêmica para escrever uma pretensa crônica abordando assuntos pertinentes no momento. Há apenas um dia de assumir o governo da maior potência mundial, assistimos com uma boa dose incredulidade Donald Trump se tornar presidente dos Estados Unidos. Mais uma das barbáries que procuramos (re)significar nesses dias. Os recentes massacres nos presídios federais, incluindo Roraima, são de outra ordem, mas podem ser incluídos na lista do que procuramos digerir nesses primeiros dias de 2017. Na medida em que essa notícia foi ganhando repercussão nacional, procurei notar qual era a reação das pessoas no sudeste ao ouvir falar no estado do extremo norte do país. Pude perceber algumas constatações – Boa Vista não é capital do Acre, o constante questionamento sobre qual lugar Roraima está localizado no mapa e, particularmente para mim, estranhei a pronúncia com “a” anasalado, já aqui no norte se fala “Roráima”.
Nos dias seguintes, recebi em uma das redes sociais de três diferentes amigos uma mensagem que começou a circular por conta da atenção voltada ao estado. Trata-se de uma opinião pessoal (assim vem propriamente assinada, diga-se de passagem) de uma recém contratada, à época, servidora pública a respeito de sua chegada e estabelecimento em Roraima. Esses mesmos amigos quiseram saber a minha reação sobre tal “textão”, como se diz desses comentários longos que invadem a internet, geralmente com bastante assertividade do autor.
Teria muitas observações a serem feitas, mas me aterei a pelo menos duas principais. Logo no início do “textão”, a servidora pública explica que o mais difícil que tem por aqui é encontrar um roraimense, emendando com essa constatação que falta uma “identidade com a terra”. Ora, sem levar em conta a população indígena, sendo que se trata do estado do país com a maior proporção desta (segundo o Atlas Brasil do IBGE de 2016, mais de oitenta por cento da população indígena de Roraima vive em áreas demarcadas), mas somente a zona ‘nobre’, desprezando os ‘bairros’ – parte mais recente da cidade ou periferia, certamente só encontrará outros servidores públicos como quem escreve o texto, que vem de inúmeras partes do Brasil. Mas isso não é suficiente para concluir que falte uma identidade com a terra – seja cearense, maranhense, gaúcho ou carioca, muitos e muitas, inclusive servidores públicos, já adotaram o estado de Roraima como a sua casa. Em termos de construção de uma identidade local, há inclusive um movimento cultural chamado Roraimeira que foi iniciado em 1984 por músicos e poetas locais que se inspiram em três matrizes – a cultura indígena, a proximidade com os países caribenhos (Guiana e Venezuelana) e também a presença maciça nordestina.
Seguindo adiante, há uma afirmação de que setenta por cento do estado é coberto por áreas indígenas, restando “apenas 30%, descontando rios e as terras improdutivas que são muitas” para a agricultura e as cidades. De fato, as terras indígenas cobrem boa parte do estado, mas somam pouco mais de quarenta por cento da área e, ainda assim, existem muitas terras que podem ser denominadas produtivas localizadas em antigos projetos de colonização, assentamentos de reforma agrárias e áreas privadas. Além disso, o clima do norte do estado é similar ao cerrado, por estarmos numa área de transição entre a floresta ombrófila densa e o lavrado, isto é, a savana. Inclusive por isso o cultivo de soja vem ganhando força, sobretudo, na área de Boa Vista e outros municípios localizados na porção norte de Roraima. Aliás, ontem o ministro da Justiça Alexandre de Moraes publicou uma portaria que altera o sistema de demarcação de terras indígenas no país, em vigor desde a década de 1990. Com esta medida, o ministério da Justiça passa a poder rever todo o processo de demarcação realizado pela FUNAI, fragilizando o trabalho técnico realizado pela Fundação, para dizer o mínimo. Então, os reducionismos não tem muito espaço – nem tanto à terra improdutiva e muito menos a “muita terra pra pouca gente”.
O título dessa curta crônica se refere a uma frase que ouvi no seriado Mr. Robot. Trata-se de uma série que aborda uma sociedade hackativista que procura desmontar o sistema de bancos, órgãos federais e outras importantes instituições do mundo ocidental. Freedom fries pode ser explicado como uma mistura do item mais comum da comida fast food americana – as batatas fritas (french fries em inglês) e a liberdade, um dos itens mais comuns, e diga-se de passagem, celebrados no estilo de vida americano. As redes sociais possibilitam a divulgação de vozes que antes não eram ouvidas, inclusive de “áreas remotas”, como o extremo norte do país. Mas, ao mesmo tempo, garante a liberdade do quase anonimato e o não debate de ideias que, com a rápida disseminação, podem se tornar “verdade” seja pelo desconhecimento ou pela repetição. Liberdade de expressão, sim, mas com menos gordura no texto, por favor.

Salvar

Salvar

0

Ricardo André Vasconcelos — A noite em que acudi o Dr. Ulysses em Guarus

 

Ricardo André 18-01-17 (Fernando Maia 09-10-1992 Agência O Globo)
Ulysses e o mar de Angra, na última sessão de fotos, em 09/10/1992 (Foto: Fernando Maia – Ag. O Globo )

 

 

O ano de 1989 foi o que se pode rotular, sem exagero, de “espetacular”. Praticamente tudo era novidade na Planície Goitacá, desde um prefeito recém-empossado aos 28 anos até a expectativa de eleição direta para a Presidência da República, a primeira da minha vida e do país em três décadas. Pela importância de Campos no cenário político nacional, quase todos os 22 (isso mesmo, 22!) candidatos passaram pela cidade em campanha eleitoral, e eu, repórter da TV Norte Fluminense e Jornal A Cidade, tive acesso à boa parte deles, em revezamento de pautas com os colegas Alrênio Nascimento, Mauro Silva, Antônio Fernando, Sueli Freitas e Ocinei Trindade. Todos sob o comando de Rose David e Gianinno Sossai.

Era tudo novidade e excitação. Entrevistas, caminhadas com Paulo Maluf, Afonso Camargo, Guilherme Afif Domingos, Enéas Carneiro (”meu nome é Enééééas”), além dos semideuses batizados com seus nomes mortais de Leonel Brizola e Ulysses Guimarães. Ninguém passa por estes últimos com a alma impune. A mim não coube acompanhar Lula em sua primeira campanha, tarefa/privilégio de Alrênio. Éramos (quase) todos eleitores do petista… Em compensação, fui a Macaé cobrir o comício de Collor, já no segundo turno disputando contra Lula. Daquela cobertura guardo duas recordações: líder das pesquisas, Collor não dava entrevistas, mas como houve um encontro no auditório do Hotel Ouro Negro, montei trincheira no acanhado elevador junto ao cinegrafista (o falecido Sérgio Batista), tão logo a comitiva deu sinais de se retirar do recinto. Por poucos segundos um homem alto, empertigado, já exalando poder por todos os poros, esteve a dois passos do esconderijo, de minha espreita no elevador e confiante que a logomarca da Rede Globo na canopla do microfone fosse atrair o “caçador de marajás”.

— Governador, governador. Arrisquei.

Com o estilo marcial que marcaria sua postura no curto governo, Collor virou nos calcanhares e desceu a pé os quatro os cinco andares do hotel e deixou-nos sem a entrevista. Tenho outra história de elevador, mas com Leonel Brizola e muito mais agradável. Conto outro dia…

Mal descemos à rua, minha equipe foi cercada por um grupo de petistas que nos dirigiram os piores impropérios. No estreito entendimento daqueles tempos de maniqueísmo (hoje não muito diferente) acharam que, por trabalharmos numa emissora afiliada à Rede Globo, “patrocinadora” de Collor, éramos “colloridos” também. O que nos salvou de uma eventual agressão física foi uma “praguinha”, tipo de propaganda eleitoral, um adesivo, que eu mantinha colada na parte interna do paletó: era branca com o nome de Lula em letras vermelhas, que mostrei aos intolerantes, como prova de minha condição e opção política.  Fomos aplaudidos. Ter posições definidas e pagar por elas, aliás, sempre me trouxe mais alegrias que dissabores…

Muito já se falou e ainda muito há que se falar dos gloriosos anos 80, mas aqui nestas lembranças baseadas apenas na memória ainda alcançável, abuso da paciência dos leitores deste Opiniões — porque só aqui me arrisco escrever na primeira pessoa— para dizer que 1989 não foi ano só de eleições. Por aqui, na esteira do alvorecer de um tempo que prometia novo, também vicejava a obsessão do quase centenário Austregésilo de Athayde, presidente da Academia Brasileira de Letras.  Ele sonhava fazer, no Solar da Baronesa, então de propriedade da ABL, um centro internacional de formação de lideranças e a maior biblioteca brasiliana do mundo. Até a carta de Pero Vaz de Caminha falavam em trazer de Lisboa para integrar o acervo da instituição. Com seu prestígio de intelectual reconhecido internacionalmente, Athayde angariou recursos para recuperação do velho solar construído para ser residência da baronesa de Muriaé e que frequentava habitualmente, coadjuvado por uma secretária. Poucos foram os repórteres em atividade naquela época que não foram admoestados por aquele velho de cabelos brancos em desalinho, que de tão ranzinza, simpático e inesquecível se transformava.

De chofre, costumava interpelar repórteres antes que sacassem qualquer pergunta óbvia:

— Você sabe quem é o único brasileiro coautor da Declaração dos Direitos Humanos?

Enquanto o pobre repórter balbuciava qualquer resposta, ele emendava.

— Sou seu. Vocês são mesmo uns analfabetos…

Das personalidades que Austregésilo trouxe a Campos para ver sua obra, o então presidente de Portugal, Mário Soares (falecido há poucos dias, aos 92 anos), foi dos mais importantes.  Organizou-se uma entrevista coletiva em torno de uma enorme mesa em “U”, o mestre de cerimônia era o jornalista Fernando Leite, à época secretário de Comunicação da Prefeitura de Campos, que abriu a coletiva franqueando mim a palavra para a primeira pergunta. Eu não tinha nada em mente para perguntar ao presidente de Portugal… Perguntar se não seria o caso de ele pedir perdão pela colonização nefasta de seus conterrâneos estava fora de cogitação. Fiz qualquer indagação acerca dos processos de redemocratização entre Portugal e Brasil com dez anos de diferença a favor da antiga metrópole. Soares respondeu diplomaticamente e suspirei aliviado.

Toda essa história em torno de 1989 é para chegar ao último dia da campanha eleitoral. Ulysses Guimarães, o gigante “doutor Ulysses”, que teria grandes chances de ser presidente se a eleição de 1985 tivesse sido direta, amargava uma péssima colocação nas pesquisas entre os 22 pretendentes. Moreira Franco, governador do Estado do Rio, apoiava Ulysses, por isso resolveu encerrar a campanha do PMDB em Campos. Naquela época as eleições ocorriam sempre no dia 15 de novembro e a campanha obrigatoriamente encerrada alguns dias antes. Era domingo, já estava perto da meia noite e Ulysses ainda não chegara ao palanque montado na esquina das avenidas Salo Brand e professora Carmem Carneiro, em Guarus. De plantão no jornal A Cidade, que era o único dos jornais campistas a circular às segundas-feiras, eu estava no alto da escada do palanque quando de repente, vejo uma mão ossuda e branca brandindo em minha direção, pedindo socorro para puxá-lo para cima. Estava meio escuro, mas pude ver claramente o brilho dos olhos azuis daquele homem especial, cuja mão segurei e puxei com firmeza. A adrenalina profissional impediu externar a emoção de fã. Era a mão do Doutor Ulysses, a mesma que semanas antes tinha promulgado a mais liberal e democrática de nossas constituições.

Ulysses sofreu derrota humilhante nas urnas. Teve cerca de 4% dos votos válidos e ficou atrás até do folclórico Enéas. Perdeu poder na Câmara Federal e o comando do partido. Passou por período de depressão e retomou o leme do barco ao liderar a campanha do impeachment de Collor. Desapareceu no mar de Angra dos Reis antes de ver o ex-caçador de marajás enxotado do Palácio. Era 12 de outubro de 1992 o helicóptero que levava Ulysses, Dona Mora e os inseparáveis amigos Severo e Henriqueta Gomes, caiu na viagem de volta a São Paulo. Todos foram encontrados e sepultados, menos Ulysses. Por coincidência era o dia em que os católicos comemoram a Padroeira do Brasil.

 

0

Ocinei Trindade — Ditaduras, imbecilidades, motins e matanças

 

Ocinei 17-01-17

 

 

Desprezo ditadores. A tirania talvez funcione no cinema ou na literatura para efeito de narrativa ou reflexão, mas na vida cotidiana, não.  Não dá para ser feliz sob jugo. Desconfio de quem despreza a História e os fatos. Os militares? São úteis. Os sacerdotes religiosos? Também são. Os criminosos? Ameaças constantes e devem ser combatidos. Os jornalistas? Necessários. O diálogo e o debate? Sempre. O silêncio? Segundo um provérbio árabe é uma grande sabedoria. Li tal provérbio em um livro do Malba Tahan. Nem tudo que se lê interessa, mas o poder atrai muitas atenções, protestos e críticas.

Na semana passada, o texto escrito por Claudio Kezen neste blog despertou (aqui) alguns comentários acalorados (o que acho ótimo) quanto à defesa da democracia. O Brasil e o mundo vêm sendo acometidos por uma onda de extremistas, sejam de esquerda, sejam de direita, além da ultra-esquerda e da ultra-direita. Estes defensores de interesses políticos e religiosos estão em diversos segmentos da sociedade. A cultura, as tradições, as fronteiras do país, a liberdade de expressão, os idiomas e credos devem ser preservados e respeitados, mas hoje em dia estamos discordantes de quase tudo. Estamos convictos de que estamos certos e todos os outros errados. Maniqueísmo já é algo preocupante desde sempre, mas quem é bom e quem é mau hoje no convívio social? Depende do ponto de vista.

O escritor italiano Umberto Eco chegou a dizer que a Internet ajudou a dar voz aos imbecis. As redes sociais ajudam a dilatar essa impressão de bobagens escritas e postadas a todo instante. É muito provável que eu também seja um dos imbecis que escreve ou comenta este texto ou aquela postagem, dependendo do ponto de vista de quem me lê. Todos nós queremos opinar (o que acho ótimo), mas nem todos nós queremos ouvir ou ler a opinião contrária à nossa. Não basta ser contra ou a favor, mas a capacidade de argumentação quase sempre passa pela superficialidade e incapacidade, percebo. Quando critico o PT e outros partidos, lulistas, ativistas em geral, tucanos, líderes religiosos em geral, maus políticos em geral, membros da família Garotinho, Dilma, Temer, um filme, uma obra teatral, a fala de alguém que se expõe em rede, significa correr risco. Se elogio, também corro risco. Posso ser julgado e condenado quando agrado ou quando desagrado. Se o texto for ruim, piorou. Paciência e pagamento compulsório. Percebo claramente quando não agrado e vejo um lado positivo nisto, pois tento conviver com as diferenças, já que não sou igual a todo mundo, apesar de algumas semelhanças.

O mundo já seria violento desde antes do Éden. A violência não deve ser encarada como algo banal para ser tolerado. Porém, se não toleramos tantas ameaças, somos exterminados antes da hora derradeira. Dizer a verdade e o que se pensa custa caro e custa cargos. O ex-secretário nacional da Juventude, Bruno Júlio, caiu depois que defendeu uma chacina por semana nos presídios brasileiros após a explosão de motins em Manaus e em Roraima. “Tinham que ter matado mais”.  A declaração do político do PMDB ligado ao gabinete do presidente Michel Temer não deixa de ser um exemplo do que boa parte da sociedade pensa.  Certamente, muitos concordaram com ele, mas outros não. Presos e criminosos também têm pai, mãe, filhos, alguém que os ama, mesmo sendo malfeitores. O milagre da regeneração desses bandidos em cadeias infernais espalhadas pelo Brasil e pelo mundo deve ficar mais difícil de acontecer. O Estado é responsável em preservar a vida de todos os cidadãos, inclusive encarcerados, mas não dá conta.  E a população carcerária só aumenta.

Se o Brasil não dá conta de hospitais, escolas e universidades públicas, quando poderá contar com prisões adequadas para recuperar e ressocializar condenados?  Muitos acham melhor (e creio que sobretudo governantes) que presos se rebelem e se matem, pois assim esvaziam cadeias, policiais e políticos não são tão expostos e é menos complicado botar problemas para debaixo do tapete, visto que nossa sociedade violenta costuma dizer que “bandido bom é bandido morto”. Imagina uma rebelião dessas com Anthony Garotinho, Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, José Dirceu, Marcelo Odebrecht e outros dentro do sistema prisional brasileiro? O crime organizado tem vencido em todas as frentes, e combatê-lo e vencê-lo não tem sido competência de nenhum governo.

A corrupção é tamanha na sociedade, governos e instituições (nem igrejas escapam) que tudo está entregue à sorte, principalmente nossa sobrevivência. O Brasil conta com cerca de 700 mil encarcerados e outro tantos milhões de criminosos do lado de fora à espera de algum tipo de freio, punição ou julgamento. Aqueles que defendem o regime militar de governo de volta ao comando do Brasil devem se lembrar que crimes bárbaros e toda espécie de corrupção não deixaram de existir de 1964 a 1985. Há décadas registramos assassinatos no Brasil com números que superam países que vivem em guerra por anos. Entretanto, recentemente na história do país nunca se viu tanto empresário e político poderosos sofrerem prisões e condenações como temos testemunhado, muito embora alguns acusem esses acontecimentos como perseguição e disputa de poder entre uma suposta elite minoritária de direita contra uma esculhambada esquerda (im)popular e (des)articulada. Vivemos em uma guerra civil não declarada oficialmente faz tempo.

Brasileiro tem um baita complexo de inferioridade. A arrecadação nacional de impostos é trilionária, mas nenhum serviço público funciona como deveria, sem falar no quesito “segurança”. Quase tudo é inferior e de qualidade ruim. O feliz ano novo e o tão aguardado ano 2017 vem enchendo de tapas e tabefes a cara da sociedade brasileira em duas semanas apenas. Nem o governo, nem as instituições republicanas escapam de mais essa (com)provação de desajustes e incompetência no que diz respeito ao sistema prisional e o combate ao crime.

As pessoas de bem já são reféns de maus políticos, traficantes de drogas e armas, além de empresários gananciosos e opressores há muito tempo, bem antes desses motins e matanças dentro dos presídios. Há, talvez, muito mais criminosos perigosos do lado de fora das prisões. E, com quase absoluta certeza, poucos de nós estamos preparados para enfrentá-los sem por vidas inocentes em risco e cabeças a prêmio. Alguns se iludem com a especulação de que ditadores militares (Jair Bolsonaro é um exemplo) ou regimes autoritários como de Adolf Hitler que promoveu matanças atrozes resolvam o problema da violência e da ordem social. Faltam-nos saúde, educação, moradia e segurança dignas, mas nos faltam sobretudo o amor à vida. Existir ou deixar de existir já parecem não ter importância ou significado para as pessoas que têm se desumanizado demais.

Os comentários de postagens em redes sociais e de reportagens em sites de notícias nos dão um bom termômetro o quão preconceituosos, intolerantes, cruéis e mal-informados somos. Porém, precisamos e queremos opinar. Nem que seja para aniquilar o outro (uma pena). A jornalista Paula Vigneron outro dia em sua rede social se mostrou chocada com comentários de pessoas sobre mulheres que sofrem abuso sexual. Eu cheguei a dizer a ela que fico dividido entre ler e não ler os comentários imbecis de internautas, os quais Umberto Eco um dia chegou a criticar. Os imbecis, tiranos e machistas têm na rede o mesmo espaço democrático para se manifestarem que um Prêmio Nobel  ou um cientista sério possuem, por exemplo.  Mas, infelizmente, muitos desperdiçam tal privilégio, incitando o ódio e promovendo mais intolerância. Donald Trump parece ser o tirano imbecil da vez (mas eleito pelo voto).

Como separar o joio do trigo? Bem, o respeito às diferenças, a começar pelas opiniões, é um tremendo exercício de paciência e sabedoria. Seria mais fácil admitir que cometemos erros e equívocos. Opinar sobre o filme La La Land, de DamienChazelle; ou sobre homens usarem saias (eu defendo firmemente, sobretudo em um país quente como o Brasil) também vale. Em outro momento, quem sabe, falaremos de cinema e vestuário masculino, pois precisamos antes de falar sobre qualquer assunto, sobreviver às ditaduras, tiranias e matanças. Haja bom humor e sorte.

 

0