A preservação do patrimônio histórico de Campos e a estátua de Tiradentes há 10 meses decapitada (confira aqui) no Centro. Com base nos últimos pleitos (confira aqui e aqui) e pesquisas (confira aqui), o eleitor campista é de direita ou esquerda? E, por fim, a projeção das eleições a prefeito e vereador (confira aqui, aqui e aqui) de 6 de outubro, daqui a 4 meses e 3 dias.
Esses serão os assuntos em debate no Folha no Ar desta terça (4), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Que serão debatidos pela bancada do programa: os jornalistas Aluysio Abreu Barbosa e Edmundo Siqueira e o radialista Cláudio Nogueira, gerente da Folha FM e âncora do Folha no Ar.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook, no Instagram e no YouTube.
Embora ainda sem título, que disputará contra a excelente equipe do Boston Celtis, uma das melhores duplas de armadores já vista na NBA: o veterano craque Kyrie Irving e o gênio esloveno Luka Dončić, do Dallas Mavericks
Era terça, dia 28, quando à tarde chegaram pelos Correios as duas camisas da seleção da Croácia de futebol. Que comprou para si e ao primo materno mais novo, meio filho adotado pelo mais velho.
Uma camisa era a branca, salpicada do tradicional quadriculado vermelho. No padrão croata que o saudoso Bussunda chamava de “toalha de cantina”. A outra era a versão azul marinho do mesmo uniforme.
As duas, a pedido, vinham com o número 10 ao peito e às costas. Nestas, também estava o nome do craque, corretamente escrito, com acento agudo no “c”, que indica a palatização fraca na língua croata: Modrić.
Quem comprou as camisas tinha o jogador franzino, pequeno e narigudo, sem titubeio, como o melhor volante e um dos mais cerebrais meias que vira jogar desde que passou a acompanhar futebol. Como já o acompanhava há 44 anos, não julgava pouca coisa.
Modrić sob a marcação do seu então colega de Real Madrid Casemiro, nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022, no Qatar, em que a Croácia eliminaria o Brasil
Acompanhava o basquete da NBA há menos tempo, 37 anos. Desde 1987, quando tinha 15, e a Band fez a primeira transmissão, ainda em VT, das finais de 1986. Que foram vencidas pelo Boston Celtics. Foi o terceiro e último título do seu astro, o ala Larry Bird.
Em 1987 e 1988, nos dois últimos títulos dos cinco dos Los Angeles Lakers do armador Earwing Magic Johnson, reconheceu seu time e ídolo na NBA. Negro, Johnson foi o antagonista de Bird, um típico red neck — como se designa nos EUA os brancos de origem pobre e do interior.
Na popularidade da oposição racial entre o ala dos Celtas e o armador dos Lakers, bem como pela exuberância técnica de ambos, não há exagero em dizer que uma decadente NBA foi salva naqueles anos 1980. Enquanto, fora das quadras, Bird e Johnson se tornaram grandes amigos.
Larry Bird e Magic Johnson na rivalidade de disputa racial que salvaria a NBA nos anos 1980, mas grande amigos fora da quadra
Quatro décadas depois, veria o Boston varrer na noite de segunda (27) o Indiana Pacers, pelo placar de 105 a 102. E, por 4 jogos a 0, vencer a final da Conferência Leste. Não mais com Bird, natural de Indiana. Mas com um quinteto muito homogêneo e nivelado por cima.
Entre o armador Derrick White, o ala-armador Jrue Holiday, o ala Jaylen Brown, o ala-pivô Jayson Tatum e o veterano pivô dominicano Hal Horford, a surpresa veio na escolha do MVP (“Most Valuable Player”, ou “Jogador Mais Valioso”) do Leste.
Não Tatum, considerado o melhor jogador do Boston desde que lá estreou como profissional, em 2017. Mas Brown, que em 2014 ouviu da professora: “Vou procurar você na prisão daqui a 5 anos”. Dez anos depois, como MVP do Leste, o jogador negro recebeu o troféu Larry Bird.
Jaylen Brown e Jayson Tatum formam a principal dupla do Boston Celtics
Dever de casa feito, o Boston e o mundo do basquete voltaram os olhos para a noite do dia seguinte, terça. Na qual o Dallas Mavericks, vencendo a Conferência Oeste por 3 jogos a 0, enfrentaria novamente o Minnesota Timberwolves.
Após eliminar por 4 a 3 o atual campeão Denver Nuggets, do revolucionário pivô sérvio Nikola Jokić, o Minnesota passou à final do Oeste com ares de favorito. E liderado por uma grande promessa, o explosivo Anthony Edwards, de apenas 22 anos.
Anthony Edwards e Nikola Jokić, antes de o primeiro protagonizar a eliminação do Denver Nuggets, atual campeão na NBA
Só esqueceram de combinar com o Dallas. E com sua dupla de armadores de qualidade poucas vezes vista na NBA: o veterano Kyrie Irving e o esloveno Luka Dončić. Preparado para encarar o Denver, o Minnesota embaralhou a vista com os Mavericks. Que abriram 3 jogos a 0 na série.
Após vencerem os três primeiros jogos, Dončić e Irving foram também vencidos. Sobretudo por conta da atuação apagada do segundo no jogo 4. No qual Edwards e o ala-pivô Karl-Anthony Towns comandaram a primeira vitória do seu time na série.
Quem assistia de casa, mesmo torcendo pelo Dallas, por conta do basquete diferente de Dončić, escasso em explosão e abundante em técnica, passou a torcer pelo Minnesota do explosivo Edwards. Porque o jogo estava tão bom, mas tão bom, que merecia outro.
Como a Eslovênia de Dončić, a Sérvia de Jokić e a Croácia de Modrić compunham a antiga Iugoslávia, usava a camisa azul do terceiro que recebera pelos Correios, por acaso, naquele dia. Para, trajado do futebol croata, acompanhar o gênio esloveno do basquete nos EUA.
Marechal Josip Broz Tito participando da segunda sessão do Conselho Antifascista de Libertação Nacional da Iugoslávia, em novembro de 1943, contra a invasão da Alemanha nazista
Sempre admirou aquele povo balcânico, ao norte da Antiga Grécia. Que ajudou a formar com os dóricos e os macedônios de Alexandre. Como sua resistência ao nazismo de Hitler na II Guerra, sob o comando de Tito. Comunista que não se submeteria depois à União Soviética.
Após a morte de Tito, em 1980, a Iugoslávia se esfacelaria em guerras fraticidas nos anos 1990. Mas ainda via no presente essa história milenar e secular refletida numa maneira comum de se expressar pelo esporte. Embora incomum aos demais.
Como um jogador de futebol sem explosão, velocidade ou força, como o croata Modrić, pode ter sido o único a furar o monocórdio revezamento entre o argentino Lionel Messi e português Cristiano Ronaldo, na década passada, como melhor boleiro da Terra?
Como dois jogadores de basquete sem explosão, velocidade ou impulsão, como o sérvio Jokić e esloveno Dončić, podem ter tanto destaque num esporte inventado nos EUA, dentro dos EUA? E que tem no voo de Michael Jordan a sua referência mais elevada?
Quem realmente duvida que o esporte, enquanto expressão também de arte, tem tanto ou mais de intelecto e cultura do que de força física, que veja o primeiro tocar uma bola com os pés. Ou os outros dois com as mãos. E depois dê o braço, ou a perna, a torcer.
Após dar a camisa azul de Modrić ao primo na quinta (30), vestiu a branca para assistir à noite ao jogo 5 entre Dallas e Minnesota. Enquanto refletia se não era jogo de cena a fala de Dončić após o jogo 4: “Acho que a culpa da derrota é minha. Não consegui dar energia suficiente”.
A cena se revelou na abertura do jogo 5. Com apenas 2 minutos e meio, Dončić já havia marcado 10 pontos. Aos adversários e companheiros, deu de cara uma prova da tal energia. Ele terminaria com 20 pontos o 1º quarto. No qual o time do Minnesota, junto, marcou 19.
No placar de 35 a 19, se a vantagem do Dallas ao fim do 1º quarto era confortável, quem a ampliou no 2º foi Kyrie Irving. Quando anotou 15 pontos. Para partir ao 3º quarto com 69 a 40. Nos quais Dončić e Irving marcaram, juntos, 44. Sozinhos, bateram todo o Minnesota.
A vantagem chegaria a ultrapassar os 30 pontos, mas seria reduzida com tentativas de reação do Minnesota, comandadas tardiamente por Towns e Edwards. Nada que impedisse a vitória do Dallas pelo inapelável placar final de 124 a 103. Tanto quanto o de 4 jogos a 1 na série.
Se Dončić e Irving empataram ao marcar, cada um, 36 pontos na conquista da Conferência Oeste, não houve na eleição do MVP a dúvida do Leste entre Jaylen Brown e Jayson Tatum. Também de cara, o anúncio nos EUA foi claro: “O MVP é da Eslovênia”.
Assim como Brown havia recebido três dias antes o troféu Larry Bird, o branco Dončić recebeu o troféu Earwing Magic Johnson. O basquete, como a própria vida, guarda sempre arremessos mais precisos a quem é capaz de distinguir além do preto e branco. Que venham as finais!
Armado da pena da sua escrita na luta contra a escravidão negra no Brasil, o campista José do Patrocínio retratado em charge de Pereira Neto, publicada em 29 de outubro de 1888, cinco meses após a abolição da escravatura no Brasil Império
José do Patrocínio (1853/1905) talvez seja o filho mais ilustre de Campos, ao lado do ex-presidente Nilo Peçanha (1867/1924) e do ex-craque de futebol Didi (1928/2001). Frutos da mãe de obra trazida escrava de África aos canaviais do “viridente plaino goitacá”, os três eram negros.
Jornalista e político, Patrocínio ficou mais famoso como abolicionista. Embora também tenha sido figura de proa na proclamação da República — como outro jornalista de Campos, o Edmundo Siqueira, lembrou aqui.
Parte da luta de Patrocínio, o “Tigre da Abolição”, pela emancipação dos negros no Brasil e perenizada em seus escritos, está sendo resgatada. Em publicação das editoras britânica Penguin e brasileira Companhia das Letras.
Com o título “Panfletos abolicionistas”, o lançamento será em 11 de junho, na versão impressa (R$ 69,90) e em Kindle (R$ 39,90). Em ambas, sua pré-venda já está sendo feita aqui, pela Amazon.
O livro reúne textos de Patrocínio com outro negro abolicionista, o engenheiro André Rebouças (1838/1898). Além do diplomata, político, advogado e historiador aboliconista Joaquim Nabuco (1849/1910), o “Leão do Norte”.
São publicações de 1883, cinco anos antes da libertação dos escravos negros no Brasil Império. De Patrocínio e Rebouças, “O Manifesto da Confederação Abolicionista”. De Nabuco, “Reformas nacionais: o abolicionismo”.
No texto que a Amazon disponibiliza na pré-venda do livro, sua melhor definição e relevância: “são documentos de uma época, mas ainda falam de um Brasil que, em muitos pontos, permanece o mesmo”.
Abaixo a sua íntegra:
Abolicionistas José do Patrocínio, André Rebouças e Joaquim Nabuco (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
“A campanha pela abolição foi mais longa e arriscada do que em geral se imagina, envolvendo muita ação e política, mas nunca prescindiu da propaganda escrita. Os textos aqui reunidos resgatam essa imensa mobilização, tão distante da idílica imagem da canetada da ‘princesa redentora’.
De 1868 a 1888, centenas de homens e mulheres se engajaram em ações antiescravistas, criando associações civis, fazendo viagens de propaganda, promovendo eventos artísticos, lançando candidaturas eleitorais e pensando rotas de fugas para os cativos. Também escreveram um sem-número de poemas, romances, peças, artigos… e panfletos — dois dos quais coligidos neste volume.
Produzidos no calor do momento e publicados em 1883, ano de grande aceleração da mobilização abolicionista, esses textos defendem o fim do trabalho escravo. O primeiro, de Joaquim Nabuco, ganhou muitas edições subsequentes, tornando-se um clássico. Ficou conhecido por ‘O abolicionismo’, ainda que originalmente tenha sido publicado como ‘Reformas nacionais: o abolicionismo’, título recuperado aqui.
O segundo é assinado por André Rebouças e José do Patrocínio, outras duas figuras resplandecentes da campanha abolicionista. O ‘Manifesto da Confederação Abolicionista’, nunca republicado, apresenta as questões debatidas por quinze associações abolicionistas do Rio de Janeiro, reunidas em assembleia em maio de 1883.
Obras abertas a interpretações, estes ‘Panfletos abolicionistas’ são documentos de uma época, mas ainda falam de um Brasil que, em muitos pontos, permanece o mesmo”.
Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema
Areia, selvageria e vingança
Por Felipe Fernandes
Criado por George Miller e lançado em 1979, Mad Max se passa em um futuro próximo onde a sociedade ruiu em uma guerra por petróleo e nesse contexto, um policial rodoviário entra em uma insana jornada de vingança contra uma gangue de motoqueiros que matou sua família. É um filme bem direto, feito com baixo orçamento, que trabalha pouco seu subtexto e impressiona mais pela forma artesanal como tudo é feito.
O filme gerou uma franquia, lançou o diretor George Miller e o ator Mel Gibson ao estrelato e muitas das características mencionadas também estão presentes nos outros filmes. Em 2015, após um hiato de 30 anos, George Miller retornou ao universo distópico e desértico e criou um dos maiores filmes de ação já realizados. “Mad Max: Estrada da Fúria” é um filme frenético, repleto de momentos brilhantes, que além de encantar o público, ganhou 6 Oscars, um feito inimaginável quando pensamos em cinema de ação.
O fascínio do público foi tão grande que gerou um prequel, novamente comandando por George Miller, que retoma a franquia, mas não para seguir na jornada de Max. A protagonista agora é Furiosa, a personagem do longa de 2015 que roubou a cena e se provou uma das melhores personagens femininas do gênero.
“Furiosa: Uma Saga Mad Max” abre com um tom de fábula, característica presentes no segundo e terceiro longas. Que retorna para contar a história da jovem Furiosa, que assim como Eva, foi atrás do fruto proibido e aqui, acaba raptada por uma gangue de motoqueiros. O filme é dividido em capítulos, que reforçam esse tom fabulesco e traz neste primeiro momento uma história que busca situar o espectador dentro daquele universo.
Ao contrário de “Estrada da Fúria”, que era um filme de situação e soltava elementos da história em meio a ação, aqui Miller resolve estabelecer muito do que foi visto no longa anterior: apresentar toda uma nova gangue de motoqueiros e contar a origem de Furiosa. Tudo isso sem perder mão da ação e sem precisar alterar fatos previamente estabelecidos.
Essa decisão torna o filme diferente e enriquece o universo do longa anterior, criando uma ligação forte entre os dois últimos filmes da franquia e fazendo de Furiosa um filme com mais respiros e uma história mais trabalhada. Grande parte do filme narra a história de Dementus (Chris Hemsworth), líder de uma violenta gangue de motoqueiros que é responsável pelo rapto de Furiosa e na busca por gasolina e suprimentos entra em guerra contra Immortal Joe (Lachy Hulme), conflito este que vai permear toda a narrativa.
Dementus se mostra um personagem interessante, que ganha uma história pregressa simples, que com um único elemento narrativo conseguimos entender suas motivações e de certa forma, como ele chegou até ali. É uma espécie de Max, que seguiu por caminhos completamente opostos.
Essa simplicidade narrativa presente desde o primeiro longa faz muito sentido na franquia. Que busca mais trabalhar seus subtextos e questões sociais dentro daquele universo, do que propriamente construir e desconstruir personagens.
A jornada de Furiosa tal qual a de Max no longa original, é uma jornada de vingança. Mas aqui, a jovem precisa mostrar força em um universo dominado por homens, ela precisa provar ser digna de andar por aquelas estradas. Seu crescimento dentro do conflito entre os poderosos acontece de forma exponencial, com ela quebrando etapas, até alcançar sua autonomia e enfim começar sua vingança.
Miller é um cineasta experiente que conhece o jogo. Ele não busca refazer seu longa anterior ou nenhum dos outros longas da franquia, mas ele respeita e reverencia tudo o que foi construído até aqui. O filme não tem a ação desenfreada do longa anterior, mas trabalha um quadro maior, dando profundidade a aquele universo, elemento que enriquece a franquia como um todo.
A ação do filme mantém o nível de excelência de “Estrada da Fúria” e mesmo que o CGI seja mais notório aqui, as cenas de ação entregam momentos marcantes. O longa resgata um nível de selvageria e violência que remetem ao início da franquia. Dementus é um personagem mais cruel e instável, mistura que torna tudo mais perigoso e violento.
“Furiosa” é mais um ponto alto na franquia e na carreira de George Miller. O filme constrói uma origem satisfatória que engrandece uma das personagens femininas mais marcantes do cinema de ação, expande muito dos elementos apresentados no longa anterior, uma questão que inclusive engrandece o filme de 2015. Algo raro quando pensamos em prequels e continuações.
É uma das melhores experiências cinematográficas de 2024. Fruto de um diretor que faz cinema de autor dentro de um blockbuster com uma desenvoltura impressionante, coisa de artista grande.
Ambos servidores federais, o jornalista Edmundo Siqueira e o cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Campos é conservadora?
Integrante da bancada do Folha no Ar que ontem entrevistou Christiano, o jornalista e servidor federal Edmundo Siqueira escreveu um artigo sobre o comportamento pendular do eleitor de Campos, entre esquerda e direita. Com o título em instigante indagação, “Campos é mesmo conservadora?”, foi publicado no último sábado (25) na Folha da Manhã. Nele, dialogou com outro artigo, do cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos. Que, com o título “O campista, este swing voter! – ou, da insustentável natureza conservadora do eleitor goytacá”, tinha publicado na última terça (21) em seu blog, “Autpoiese e virtu”.
Eleitor pendular
Com base no conceito do “swing voter” (“eleitor pendular”), criado nos EUA para designar o mesmo voto que se alterna entre Democratas (mais progressista) e Republicanos (mais conservador) e geralmente decide as eleições presidenciais daquele país, George fez um recorte da votação do eleitor campista nos últimos 13 pleitos. Inquestionável no levantamento dos números das urnas, o cientista político concluiu: “Se nos ativermos a todas as eleições majoritárias de 2000 até 2022, o que totalizou 13 eventos eleitorais variando entre eleições locais e gerais, o eleitor (de Campos) deu vitória aos dois lados do espectro político”.
Voto à esquerda do campista
Por sua vez, Edmundo registrou em seu artigo que, na manhã do mesmo dia em que George publicaria o seu, “o jornalista Aluysio Abreu Barbosa, lembrou que ‘Campos já votou majoritariamente em Lula e Dilma’, citando o fato de que se ‘o primeiro turno presidencial (em 2014) fosse em Campos, o segundo turno seria entre Dilma e Marina (Silva, hoje ministra do Meio Ambiente do governo Lula 3)’”. Foi durante o Folha no Ar ao vivo com o petroleiro Tezeu Bezerra, presidente do Sindipetro NF e pré-candidato do PT a vereador. Que era entrevistado por Edmundo, Aluysio e Cláudio Nogueira, gerente da Folha FM 98,3 e âncora do programa.
Voto goitacá enrijecido à direita
Na polarização muitas vezes acéfala das redes sociais, o diálogo gerou questionamentos em comentários de quem, de direita ou de esquerda, é igualmente incapaz de enxergar a realidade política além da sua visão binária de mundo. Como a espremida entre os antolhos dos muares que ainda puxam carroças diariamente nas ruas de Campos. O movimento pendular do eleitor goitacá nas eleições presidenciais é, sim, válido no recorte mais amplo de 2000 a 2022. No mais curto, de 2018 para cá, as urnas e todas as pesquisas mais recentes provam, no entanto, que a cintura ideológica de expressiva maioria do eleitor campista está enrijecida à direita.
Christiano Abreu Barbosa, Wladimir Garotinho e Rodrigo Bacellar (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Aprovação de governo = reeleição
“Comparando (a corrida eleitoral a prefeito de Campos) com a prova de Ironman, Wladimir (Garotinho, PP) está indo para completar a prova em 9h e o segundo, em 11h. Acho muito difícil tirar essa vitória dele, porque o governo é bem avaliado. Cada um está na sua bolha, mas no meu entorno e de todos com que converso, o governo é amplamente aprovado. Essa pesquisa (Prefab, de 26 de abril, registrada no TSE sob o nº RJ-04536/2024) deu a ele 70% de avaliação positiva”. Foi o que disse no Folha no Ar de ontem (28) o empresário, blogueiro, radialista, diretor do Grupo Folha e campeão brasileiro de triathlon, Christiano Abreu Barbosa.
A força de Rodrigo e a de Wladimir
O atleta de alto rendimento reconheceu, no entanto, a força do principal opositor do prefeito de Campos: “Normalmente, a intenção de voto acompanha a aprovação de governo (quando o governante é candidato à reeleição). Então, acho muito difícil para a oposição. Acho que o trabalho de Rodrigo Bacellar (União, presidente da Alerj), que alcançou uma dimensão enorme e está indo muito bem no estado, é tentar diminuir a vitória de Wladimir. Vai ganhar com 70%, vai ganhar com 60%, vai ganhar com 50% (dos votos válidos)? Mas não vejo como tirar a vitória de Wladimir, no meu ponto de vista”.
Retomada do setor imobiliário
Com seu blog, Ponto de Vista, dedicado à atividade empresarial da planície, Christiano também apostou no reaquecimento da economia: “Estão voltando os lançamentos imobiliários. Campos, desde 2014, sentiu muito a crise quando Dilma (Rousseff, PT, ex-presidente) quebrou o país. O estado (do Rio) teve muita dificuldade também, atrasou salários, e a Prefeitura perdeu muita arrecadação pela queda dos royalties. Vários imóveis hoje têm valor nominal igual ou mais baixo do que tinham em 2014. Mas hoje há uma retomada do mercado imobiliário na cidade. O que é sempre positivo porque movimenta e gera emprego”.
A idade de recomeçar
Após conquistar o Ironman Brasil, na categoria age group, com quebra de recorde, no último dia 19, em Florianópolis (SC), Christiano também deu seu testemunho de que nunca é tarde para retomar a prática de atividade física: “A idade não é um obstáculo nenhum. Isso foi um paradigma quebrado nessa prova: eu fui a primeira pessoa no Ironman Brasil, em seus 24 anos de existência, a fazer sub-9 (abaixo de 9h). Há 10 anos, esse era o tempo do ganhador profissional. O que motivou muita gente na nossa faixa etária (50 anos), porque viu que é possível. A idade é um número; depende de como você encara ele”.
Atleta e campeão brasileiro de triathlon, empresário, blogueiro, radialista e diretor financeiro do Grupo Folha, Christiano Abreu Barbosa é o convidado do Folha no Ar desta terça (28), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele falará da sua conquista (confira aqui) do Ironman Brasil na sua categoria, com quebra de recorde pessoal, no dia 19, em Florianópolis (SC).
Christiano também falará da sua experiência mais recente como radialista, no programa “Interação”, das 18h às 19h de toda terça, na Folha FM, e dará um panorama empresarial de Campos e região. Por fim, com base nas pesquisas (confira aqui, aqui e aqui), ele tentará projetar as eleições a prefeito e vereador de Campos em 6 de outubro, daqui a exatos 4 meses e 10 dias.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook, no Instagram e no YouTube.
Petistas Elaine Leão, Carla Machado, Jefferson de Azevedo e Helinho Anomal (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Elaine a prefeita pelo PT?
Presidente do Sindicato dos Profissionais Servidores Públicos Municipais de Campos dos Goytacazes (Siprosep), Elaine Leão pode ser a candidata do PT a prefeita? No caso, viria inicialmente como vice na chapa encabeçada pela deputada estadual Carla Machado (PT). E, se esta for obrigado a se retirar da disputa até o prazo legal de 16 de setembro, por toda a jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) que impede uma terceira candidatura consecutiva a Executivo municipal, Elaine assumiria a chapa. É a possibilidade que vem sendo ecoada nos bastidores políticos da planície ao PT estadual.
Elaine ou Jefferson?
À coluna, Elaine confirmou que já ouviu a possibilidade, junto a contatos seus no PT do Rio. “Mas não recebi o convite. Se vier, estudo a possibilidade. Por ora, o que há de concreto é a minha pré-candidatura pelo PT a vereadora de Campos”, disse a presidente do Siprosep. Oficialmente, o PT tem três pré-candidaturas à Prefeitura de Campos: de Carla, do professor Jefferson de Azevedo e do sindicalista Helinho Anomal. Ao comando goitacá do partido, o mais provável, hoje, seria uma chapa encabeçada por Carla, com Jefferson de vice. Que assumiria se a ex-prefeita reeleita de SJB em 2020 não puder concorrer a prefeita de Campos em 2024.
Densidade eleitoral de Carla Machado em Campos
Tanto Jefferson quanto Helinho são petistas orgânicos. Diferente de Carla, nunca integraram nenhum outro partido. Só que a ex-prefeita de quatro mandatos em SJB, cujo último renunciou para concorrer à Alerj em 2022, se elegeu com 34.658 votos, 17.936 deles só em Campos. E, na única pesquisa até aqui registrada no TSE neste ano eleitoral de 2024, feita pelo instituto Prefab Future em 26 de abril, Carla foi a única, à exceção do prefeito Wladimir Garotinho (PP), a pontuar (confira aqui) com dois dígitos na consulta estimulada. Onde ela teve 18,7% de intenção de voto, contra 53,7% de Wladimir. Por sua vez, Jefferson ficou no 0,6%.
Para juristas, Carla não pode vir a prefeita
Embora todas as pesquisas de 2023 (confira aqui) e a única de 2024 apontem à possibilidade de Wladimir se reeleger já no 1º turno de 6 de outubro, daqui a 4 meses e 12 dias, a candidatura de Carla é encarada, até dentro do grupo dos Bacellar, como a única possibilidade real de levar a eleição ao 2º turno. Em entrevista ao Folha no Ar de 7 de dezembro, o advogado Cleber Tinoco (confira aqui) foi assertivo: “Uma mudança que libere a candidatura da Carla Machado não vai acontecer. A prefeita, não pode”. Ele endossou o que já tinham dito (confira aqui) a esta coluna, na edição de 28 de outubro, os advogados Pryscila Marins, João Paulo Granja e Gabriel Rangel, e o promotor Victor Queiroz.
Troca de nome a 20 dias da urna?
Sem ligação com nenhum grupo político, Cleber desnudou o que entende ser a intenção real da oposição com a candidatura de Carla a prefeita de Campos: “Por que alguém se arriscaria a colocar um candidato correndo risco de se tornar inelegível e ter os votos anulados? Isso pode ser uma estratégia, porque a legislação eleitoral permite a alteração do candidato até 20 dias antes (16 de setembro) do pleito. Você teria o nome (de Carla), que faria toda a campanha, e outro candidato assumiria o posto dela”. Indagada diretamente sobre essa fala em entrevista que deu ao Folha no Ar em 17 de maio, Carla não confirmou ou negou a possibilidade.
Nova Pracinha do Sossego
A Pracinha do Sossego, que tem nela e em seu entorno alguns dos melhores botequins da cidade, vai receber uma grande reforma, sendo repaginada e ganhando um “mini” boulevard, com a pequena rua situada entre a Álvaro Tâmega e Luís sendo fechada ao tráfego de carros. A informação é do Blog Ponto de Vista, assinado por Christiano Abreu Barbosa na Folha 1. Ele destaca que a rua, desde 2019, recebe o nome do saudoso veterinário Maron El Kik Jr, o Kiko. A obra está em fase de licitação e a previsão é que até o final do ano a praça esteja remodelada. O Quiosque do Sossego também será amplamente modernizado.
Reeleito
A Associação Fluminense dos Plantadores de Cana (Asflucan) terá Tito Inojosa como presidente e Frederico Veiga como vice-presidente por mais três anos. A eleição para a composição da mesa diretora aconteceu na semana passada, quando o nome de Tito foi referendado por unanimidade. Ele diz que o trabalho será de continuação e focado nas ações que contribuem para a modernização do setor sucroalcooleiro. “Nosso sentimento é continuar realizando e trazendo coisas novas para o setor. Inclusive, em 25 de junho, faremos um evento na Coagro para apresentar uma cana mais resistente à seca”.
Saúde da mulher
Neste sábado (25), a Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia (SFMC), com apoio da secretaria municipal de Saúde, por meio do programa Hiperdia, vai promover a Caminhada da Vitalidade, um evento focado na saúde cardiovascular feminina. A concentração será às 9h, na sede da SFMC, localizada na Faculdade de Medicina. A caminhada terá como destino a Praça do Liceu. No local, a equipe do Hiperdia irá oferecer diversas ações gratuitas, como aferição de pressão arterial, glicose, peso, além de orientações nutricionais e sobre mudanças de estilo de vida. Para incentivar a prática de exercícios, será oferecida uma aula de ginástica ao ar livre.
Edmundo Siqueira, servidor federal, jornalista, integrante da bancada fixa do programa Folha no Ar e blogueiro do Folha1
Campos é mesmo conservadora?
Por Edmundo Siqueira
“Como contamos nossa própria história? O que descrevemos diante do que vemos no espelho?”, é o que indaga o cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos, no início de seu recente texto “O campista, este swing voter! — ou, da insustentável natureza conservadora do eleitor goytacá”, onde traz uma reflexão sobre a escolha pendular dos campistas nas últimas eleições, nas escolhas entre o conservadorismo e o progressismo.
George é o que chamamos de “intelectual público”, o que Tocqueville define, na gênese desse intelectual moderno, como os hommes de lettres: filósofos, escritores e livres pensadores. Frequente debatedor nos meios de comunicação de Campos — já lido e ouvido na Folha da Manhã, no Folha1 e na FolhaFM em diversas oportunidades —, sempre traz ponderações instigantes sobre o cenário político local. Nesta, o professor questiona o que parece ser inquestionável: o conservadorismo campista.
Na última terça-feira (21), foi entrevistado no Folha no Ar o presidente do Sindipetro-NF Tezeu Bezzerra, e entre outros assuntos foi tratado sobre as eleições em Campos e a suposta resistência ao PT, partido que Tezeu é militante e se colocou (confira aqui) como pré-candidato a vereador. Em sua resposta, citou alguns números da eleição passada (2020), onde Lula foi a escolha de 36,86% dos eleitores, recebendo 100.427 votos no segundo turno.
Embora Bolsonaro tenha sido a escolha da maioria naquele pleito (171.999 votos, o equivalente a 63,14%), em uma cidade tida como amplamente conservadora, Lula ter recebido mais de 100 mil votos e somados os 26,38% (97.612) de eleitores que não votaram ou votaram em branco ou nulo, é algo interessante para refletirmos.
O jornalista Aluysio Abreu Barbosa, lembrou, na bancada do mesmo programa, que “Campos já votou majoritariamente em Lula e Dilma”, citando o fato de que se “o primeiro turno presidencial [em 2014] fosse em Campos, o segundo turno seria entre Dilma e Marina”.
Ambos intelectuais públicos, Aluysio e George, não podem ser considerados como pensadores de posições ideologizadas. Embora tenham suas convicções, por óbvio, não deixam suas análises encobertas por nuvens polarizantes. Fazem, inclusive, críticas constantes ao PT e seus governos. E parecem convergir aqui: o eleitor de Campos é pendular.
“Se dependesse do eleitor campista, o segundo turno para presidente teria Dilma, pelo PT, concorrendo com Marina Silva naquele momento no PSB. Duas mulheres, ambas mais pela esquerda que Aécio Neves, PSDB. Na cidade, no primeiro turno, Dilma conquistou 87.703 votos, Marina com 76.786 votos e Aécio 66.753, respectivamente”, informa George em seu texto, falando o mesmo (em mesmo tempo e sem combinar) que disse Aluysio.
O que parece ser evidente, olhando para o recorte histórico até 2018, é que o eleitor campista consegue definir seu voto refletindo sobre o momento que é chamado para ir às urnas. E consegue, diferentemente de outras cidades de mesmo porte, decidir de forma oposta entre conservadorismo e progressismo.
Não quer dizer que isso persiste até hoje, contudo. Com a presença do bolsonarismo ainda forte em Campos e no Brasil, e com números de aprovação do governo Lula em queda (aprovado por 52% dos brasileiros em janeiro de 2023, e por 47% em março de 2024), o eleitor cristalizado, que vota com a direita, e agora com o bolsonarismo, sob qualquer circunstância posta, pode ter crescido.
Vale lembrar que Campos dos Goytacazes foi berço de abolicionistas históricos, de relevância nacional, e do primeiro — e único até aqui — presidente negro do Brasil. Do mesmo modo, vale ressaltar que a cidade foi uma das maiores produtoras de cana-de-açúcar como seus senhores de engenho, e abrigou um importante núcleo integralista, o movimento fascista brasileiro dos anos 1930-40.
Se há algo a se comemorar diante dessas análises e números eleitorais, é que Campos não segue, necessariamente, os rótulos impostos. Mostra-se, pelo menos em alguns recortes históricos, como uma sociedade complexa e crítica o bastante para fugir de determinismos. E para ser contra-majoritária quando necessário. Campos consegue pensar por si mesma.
Vice-prefeito de Campos e pré-candidato à reeleição na chapa do prefeito Wladimir Garotinho (PP), Frederico Paes (MDB) é o convidado para fechar a semana do Folha no Ar nesta sexta (24), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Também presidente da Coagro e engenheiro agrônomo, ele analisará o início da moagem (confira aqui) na Coagro e Canabrava, além do projeto (confira aqui) de retomada da usina Paraíso.
Frederico também avaliará a conturbada relação entre Executivo e Legislativo goitacá, com seu mais novo capítulo: o relatório da CPI da Educação pela oposição na terça (21) e (confira aqui, aqui, aqui eaqui) a reação de Wladimir. Por fim, com base nas pesquisas (confira aqui, aqui e aqui), ele tentará projetar as eleições a prefeito e vereador de Campos em 6 de outubro, daqui a exatos 4 meses e 14 dias.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook, no Instagram e no YouTube.
Publicitário com experiência em Campos e nos grandes centros, Douglas Oliveira é o convidado do Folha no Ar desta quinta (23), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele analisará as diferenças do mercado publicitário de Campos e interior às maiores praças do país.
Douglas também falará de publicidade e comunicação social em tempo de redes sociais e pós-verdade. E da importância da publicidade neste ano de eleições municipais pelo Brasil em 6 de outubro, daqui a 4 meses e 15 dias.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook, no Instagram e no YouTube.
Alcimar das Chagas Ribeiro, economista, professor da Uenf e membro da Academia de Letras de Campos (ACL)
Rio de Janeiro de contradições: ineficiência que permite o espraiamento da riqueza para além do território
Por Alcimar das Chagas Ribeiro
Diferentes autores fluminenses apresentam justificativas consensuais sobre a crise estrutural do estado do Rio de Janeiro. São ancoradas na perda de receita e, consequente, incapacidade de investimento, em função de questões históricas e mudanças institucionais. Dentre elas, a transferência da capital do antigo estado da Guanabara para Brasília, a isenção fiscal sobre exportações de produtos primários e semielaborados (Lei Kandir) e na distorção fiscal sobre a extração do petróleo no território que ocorre no destino e não na origem.
Estes argumentos parecem se fragilizar no contexto da análise conjuntural das duas últimas décadas. Já nos anos 2000, a dinâmica da conjuntura econômica mundial, puxada pela China, exerceu forte pressão na demanda por commodities, especialmente petróleo bruto, com reflexos no aumento do preço do barril internacionalmente.
Em meados de 2008 o preço do petróleo chegou a ser negociado em torno de US$ 138 por barril. Dois anos depois, o estado detentor da maior bacia petrolífera do país, a Bacia de Campos, atingiu o ápice de 87% da produção de petróleo no país.
A importância do estado na produção de petróleo possibilitou uma consistente transferência de rendas petrolíferas para o executivo estadual e para os municípios produtores. Estes ampliaram de sobremaneira a sua dependência orçamentária das mesmas rendas petrolíferas finitas.
Já na segunda década dos anos 2000, com a descoberta e avanço da exploração de petróleo no pré-sal (Bacia de Santos), a Bacia de Campos inicia um processo de declínio da produção e produtividade. Tal fato incentivou a transferência gradativa de investimentos para a Bacia de Santos, cujos campos petrolíferos sinalizavam melhor qualidade do produto, maior produtividade e garantia de maiores taxas de lucros para as operadoras.
Apesar do amadurecimento da Bacia de Campos e maior afluxo de investimentos em direção à Bacia de Santos, o estado do Rio de Janeiro continuou se beneficiando das rendas petrolíferas pela proximidade dos municípios de Maricá — hoje o maior beneficiário de rendas petrolíferas do país —, Saquarema, Niterói e Rio de Janeiro. Quatorze anos depois da descoberta do pré-sal, a bacia de Santos é responsável por aproximadamente 80% da produção nacional, enquanto a bacia de Campos é responsável por menos de 20% do total. Tal inversão não tirou a condição do estado do Rio de Janeiro de maior produtor de petróleo do país.
Complementarmente, quando são observados os resultados do processo de execução orçamentária nos últimos anos, contradições importantes são afloradas corroborando com a hipótese de fragilidade dos argumentos usados na justificativa da crise econômica do estado.
Importante resgatar a crise econômica no país em 2015 e 2016 que levou o estado a aderir ao Regime de Recuperação Fiscal em 2017. A forte recessão atingiu frontalmente o estado dependente das rendas petrolíferas. O desajuste das contas públicas foi acentuado com um déficit fiscal de R$ 5,4 bilhões em 2016, o qual levou o estado a decretar estado de calamidade em 2017.
Neste ano as receitas correntes realizadas em termos reais caíram 27,62% em relação a 2014, puxadas pela queda de 21,53% no ICMS no mesmo período. Já no grupo das despesas a parcela das ‘correntes liquidadas’ caiu 21,72% em relação a 2014.
Entretanto, é importante elucidar a movimentação contábil relativa à transferência de um valor real correspondente a 70,25% da conta de custeio para a conta de pessoal e sua contrapartida de redução de 60,64% na conta de custeio, na execução orçamentária em 2017.
Um primeiro indicativo é de que a movimentação executada possa representar um instrumento de pressão do estado sobre a União, já que o fato demonstra eficiência na gestão das despesas operacionais e dificuldade com a obrigação constitucional de remuneração com o servidor público.
Nos anos seguintes a observação é de que as receitas correntes seguem um processo de recuperação gradativa, atingindo em 2023 uma leve queda de 4,46% em relação a 2014, ano referência da conjuntura econômica de alta dinâmica. As despesas correntes também evoluem ao longo do tempo sem sobressaltos, chegando em 2023 com uma queda de 14,73% em relação a 2014.
Com isso, o problema contábil persiste na conta de pessoal que registrou um crescimento real de 84,42% em 2023 com base em 2014, impulsionado pelo crescimento de 70,25% de 2017, ano de ingresso do estado no Regime de Recuperação Fiscal. Adiciona-se a este quadro o crescimento real da folha de pessoal de 11,35% no triênio 2021/2023 em classes especiais, já que a massa dos servidores não se beneficiou de qualquer aumento salarial.
Situação inversa pode ser vista na avaliação do custeio. Ao contrário da evolução da conta de pessoal, a conta de outras despesas correntes apresentou queda acentuada de 59,93% em 2023 com base em 2014. Tal pressão veio da pedalada mostrada acima.
Quanto ao questionamento do exagerado juros da dívida que, segundo o governo, inviabiliza a prestação de serviços e o investimento público, a execução orçamentária não mostra tal dificuldade. O gasto com o serviço da dívida executado pelo governo atingiu um valor médio correspondente a 1,6% das receitas correntes no período de 2017 a 2023.
Já o investimento público atingiu um valor equivalente a 2,73% das receitas correntes no mesmo período, o que indica a perda de capacidade de investimento, apesar da venda da empresa pública de água e esgoto (Cedae).
Outra justificativa do estado de forte pressão sobre o Governo Federal diz respeito à possível paralização de prestação de serviços estratégicos. A evidência empírica é de que educação, saúde, infraestrutura, segurança, etc., não têm avançado no padrão esperado pela população fluminense.
Conclusivamente, considerando as ocorrências de recuperação das receitas correntes que atingiu quase o nível de 2014, do avanço das receitas patrimoniais com a venda da Cedae, do insuficiente padrão de investimento público e do baixo impacto dos gastos de serviços da dívida, o problema está na ineficiência da gestão pública. Conforme têm afirmado o Governo Federal e o Tribunal de Contas do Estado (TCE) do Rio de Janeiro.