Com Messi, o mundo e um estilo na América do Sul

 

Messi e sua maior conquista (Foto: Fifa)

Histórico é um adjetivo geralmente vulgarizado para classificar fatos do presente ou passado recente. Tanto mais no futebol, quase sempre movido pela paixão. Sobretudo à maioria que supõe que o esporte passou a existir a partir do próprio nascimento e sua tomada de consciência dele. Só quando os ainda não nascidos analisarem os fatos e feitos de hoje, e quem os viveu pulsante nas veias for só nome numa lápide, se terá a perspectiva histórica. Ainda assim, talvez não haja exagero ao afirmar: a final da Copa do Mundo de 2022, no Qatar, vencida no último domingo (18) pela Argentina de Lionel Messi sobre a França de Kylian Mbappé, na disputa de pênaltis (4 a 2), após o empate de 2 a 2 no tempo normal, 3 a 3 na prorrogação, foi a maior em seus 92 anos de história.

DUELO FINAL DOS CRAQUES — Desde que a primeira final de Copa do Mundo foi sediada e vencida em 1930 pelo Uruguai, por 4 a 2, contra a mesma Argentina, muitas finais foram protagonizadas no enfrentamento entre dois grandes craques. Ali, foram o uruguaio Héctor “El Mago” Scarone e o argentino Guilhermo “El Infiltrador” Stábile. Como seriam as finais de 1974 entre a Alemanha de Franz Beckenbauer e a Holanda de Johan Cruijff, de 1994 entre o Brasil de Romário e a Itália de Roberto Baggio, ou a de 1998 entre a França de Zinédine Zidane e o Brasil de Ronaldo Fenômeno. Mas nunca o futebol tinha visto uma disputa com tanto brilho de lado a lado como a final entre Messi e Mbappé.

MESSI x MBAPPÉ — Se os camisas 10 da Argentina e da França chegaram à final empatados na artilharia, com cinco gols cada, os três que Mbappé marcou no domingo, dois de pênalti e o do belo voleio entre eles, deram a ele oito como maior goleador do Qatar. Messi marcou “só” dois gols na final, um de pênalti e outro de oportunismo dentro da área. Como, então, terminou eleito com justiça o maior craque do Mundial?

GOLS EM TODAS AS ELIMINATÓRIAS — Primeiro porque o craque francês passou em branco nas quartas contra a Inglaterra e na semifinal contra o Marrocos. E o argentino balançou as redes adversárias em todos os jogos da fase eliminatória. Na qual nunca tinha marcado, uma vez sequer, em todas as quatro Copas anteriores de que participou. Mesmo a de 2014, quando chegou à final que a Alemanha levou por 1 a 0, e foi também eleito o melhor jogador.

ARCO E FLECHA — Além de mais constante do que Mbappé como goleador no mata-mata, Messi se mostrou um jogador mais completo no Qatar. Que soube também ser arco, não só flecha. Com três assistências a gol, ele terminou a Copa na liderança da estatística mais altruísta do jogo, empatado com o francês Antoine Griesmann, o inglês Harry Kane, o português Bruno Fernandes e o croata Ivan Perisic.

DI MARIA — Mais solidário em seu futebol, Messi teve a retribuição dos seus companheiros na final. Cuja primeira etapa do tempo normal foi marcada pela grande atuação do veterano atacante Ángel Di Maria, que voltava do banco após contusão. E, num lance de gênio fora do campo do jovem treinador Lionel Scaloni, deixou atônita a França do técnico Didier Deschamps. Que não se preparou para escalação mais ofensiva e “invertida” da Argentina, com Di Maria caindo pela esquerda, lado oposto ao que costuma jogar.

NÓ TÁTICO E MEIO DE CAMPO — A quem já ouviu falar em nó tático, sem nunca saber o que é, foi exatamente isso que Scaloni — xará de batismo de Messi e seu conterrâneo da cidade de Rosário — fez com Deschamps no primeiro tempo da final. Cujo resultado se deu também pelo domínio argentino do meio de campo, com excelentes atuações do menino Enzo Fernández, de Rodrigo De Paul em seu melhor jogo na Copa, assim como do incansável Alexis Mac Allister.

ABERTURA DO PLACAR — Aos 20 minutos, Di Maria driblou o atacante Ousmane Dembélé na esquerda para penetrar na área e sofrer o pênalti do francês. Messi converteu com categoria, goleiro Hugo Llorris para um lado, bola para o outro. Aos 35 minutos, Mac Allister iniciou o contra-ataque em seu campo defensivo, tocou de primeira a Messi e correu para receber.

“TOCO Y ME VOY” — Messi deu dois toques de canhota e passou ao jovem atacante Julian Álvarez no meio de campo, que lançou longo e de primeira a um Mac Allister já em progressão pela direita. De primeira, ele cruzou à esquerda a Di Maria, que também de primeira fez 2 a 0. A quem já ouviu falar em “toco y me voy” (“toco e eu vou”), resumo da escola de futebol clássico e de toque de bola da Argentina, sem nunca saber direito o que é, favor rever o lance.

 

 

NUNCA ANTES NA FINAL — O impacto do domínio argentino no primeiro tempo foi tanto que, antes dele ser encerrado, Deschamps substituiu dois jogadores: Dembélé, ainda tonto do baile de Di Maria, e o centroavante Olivier Giroud, que não viu a cor da bola. A alteração tão precoce de dois jogadores também nunca havia acontecido numa final de Copa do Mundo.

FUTURO DE MBAPPÉ? — Vice-artilheiro da França no Qatar, Giroud saiu contrariado, jogando garrafa d’água com força no chão e chutando o banco de reservas. Mas serviu para observar Mbappé jogando não como extrema pela esquerda, ou pela direita, como em 2018. Mas de centroavante, posição à qual deverá migrar, como fez anos atrás e com grande sucesso o português Cristiano Ronaldo.

PRESENTE DE MBAPPÉ — Com as substituições no segundo tempo de Di Maria e De Paul, que fazia bom trabalho de marcação sobre Mbappé, foi a vez do futebol de exceção deste aparecer. Aos 33 minutos, numa infiltração pela esquerda, o atacante Kolo Muani driblou o zagueiro Nicolás Otamendi, ganhou a área a sofreu o pênalti. Mbappé cobrou no canto direito do goleiro Emiliano Martínez, que chegou a tocar na bola, antes dela entrar.

PRIMEIRO EMPATE — O camisa 10 da França buscou rapidamente a bola e correu com ela para reiniciar o jogo em busca do empate. Dois minutos depois, ele viria. Na entrada esquerda da área, ele tocou de cabeça para o atacante Marcus Thuram devolver de primeira com a destra, em bela triangulação. Que foi arrematada por Mbappé também de direita e de primeira, no voleio antes de a bola tocar ao chão.

PRORROGAÇÃO — Apesar do empate arrancado pela França na segunda etapa do tempo normal, a Argentina voltou melhor na prorrogação. E só não marcou no primeiro tempo de 15 minutos porque o atacante Lautaro Martínez saiu do banco para perder duas oportunidades claras de gol, na reedição do que o levou à reserva no decorrer da Copa.

MESSI 3 x 2 MBAPPÉ — No segundo tempo da prorrogação, logo aos dois minutos, o lançamento pelo alto do lateral direito Gonzalo Montiel encontrou Lautaro na entrada direita da área. Ele escorou a Messi, que tocou à esquerda para Enzo Fernández devolver em triangulação à direita com Lautaro. Que concluiu a outra defesa de Lloris, mas dessa vez à sobra atenta de Messi. A provar que sua perna direita não é cega como era a de Diego Maradona, ele concluiu para o lateral Jules Koundé tentar tirar já dentro do gol.

SEGUNDO EMPATE — Oito minutos depois, numa sobra de bola dentro da área da Argentina, Mbappé chutou forte da esquerda e a bola bateu no braço direito de Montiel. Pênalti marcado, o craque francês não mudou o canto da primeira cobrança, mas dessa vez deslocou Martínez ao lado oposto. Que, já nos descontos da prorrogação, fez defesa salvadora com o pé esquerdo, como goleiro de handebol, num chute forte de Kolo Muani sozinho na área.

MARTÍNEZ BRILHA — A estrela de Martínez brilharia novamente na disputa de pênaltis. Após os craques Mbappé e Messi abrirem a série e converterem, o goleiro argentino catou no seu canto direito a cobrança do atacante Kingsley Koman. Foi o mesmo lado em que, para tentar colocar fora do alcance do arqueiro, o bom volante Aurélien Tchouaméni acabou batendo para fora, após o atacante Paulo Dybala converter o seu, como depois o volante Leandro Paredes. Kolo Muani ainda anotou para os Le Bleus, mas tampa do caixão seria fechada na cobrança de Montiel.

RECORDES DE MBAPPÉ — Em 2018, na Rússia, nos 4 a 2 sobre a Croácia, Mbappé tinha 19 anos quando foi o jogador mais novo a marcar um gol em final de Mundial. Desde que Pelé, aos 17, marcou dois na decisão da Copa de 1958, nos 5 a 2 do Brasil contra a Suécia e dentro da Suécia. Já no Qatar de 2022, com 23 anos, Mbappé e seu hat-trick (quando um jogador faz três gols em um mesmo jogo) igualaram o feito do ex-centroavante inglês George Hurst na Copa de 1966. Dentro de casa e único Mundial da Inglaterra, marcou três nos 4 a 2 na final contra a Alemanha. Que também demandou prorrogação.

TÃO JOVEM, SÓ PELÉ — Com a projeção de mais três Mundiais à frente, na próxima, em 2026, quando tiver 27 anos, Mbappé deve estar no seu auge físico. Pelo que mostrou nas duas últimas, sendo campeão em uma e vice na outra, ele impressiona pelos recordes já alcançados. Como por sua velocidade, explosão, visão de gol e, sobretudo, capacidade de decisão. Que, à exceção de Pelé, não se viu em alguém tão jovem nestes 92 anos de Copa do Mundo.

PARIS E BUENOS AIRES — Ainda assim, Mbappé voou do Qatar a Paris após engolir o dito em maio deste ano. Ao renovar contrato com o Paris Saint-Germain (PSG), onde é companheiro de clube de Messi e Neymar, bravateou: “Na América do Sul o futebol não está tão avançado quanto na Europa. Por isso nas últimas Copas, se você olhar, são sempre os europeus que vencem”. Na dúvida, melhor conferir a festa albiceleste ontem em Buenos Aires para receber os campões do mundo. Quando a Copa do Mundo de futebol voltou ao continente que a pariu.

E O BRASIL NO QATAR? — A arrogância de Mbappé, ao menos, tem alguma justificativa no passado recente e no presente. Aos brasileiros, essa recorrente arrogância do “comigo ninguém pode no futebol”, como cometa que passa de quatro em quatro anos, é delírio. No Qatar, a Seleção Brasileira não conseguiu fazer um jogo inteiro bom. Exceções parciais ao segundo tempo dos 2 a 0 contra a Sérvia e ao primeiro tempo dos 4 a 1 sobre a Coréia do Sul.

ESCRITA VAI A 24 ANOS? — Também na disputa de pênaltis, o Brasil parou na Croácia nas quartas de final. Como é eliminado há 20 anos em todo o primeiro jogo eliminatório contra um europeu em Copa do Mundo. Desde a última que conquistou de 2 a 0 sobre a Alemanha, na final de 2002. Até 2026, com as 48 seleções anunciadas pela Fifa com sede no Canadá, EUA e México, serão 24 anos do único pentacampeão mundial fora da elite do futebol.

DE DIEGO A LIONEL — A Argentina estava fora da elite ainda há mais tempo, há 36 anos, desde que a “mão de Deus” tocou a perna canhota de Maradona em 1986, na conquista Copa do Mundo do México, na final por 3 a 2 sobre a Alemanha. Muito embora Dom Diego ainda tenha levado sua seleção à final de 1990, na Itália, vencida pela mesma Alemanha na revanche de 1 a 0.

A ÚNICA MANEIRA — A Argentina volta ao topo do mundo agora, conduzida por outro canhoto tocado por Deus. Com o Barcelona, Messi conquistou 10 Campeonatos Espanhóis, quatro Champions da Europa e três Mundiais de Clubes. E, no PSG a partir de 2021, um Campeonato Francês. Mas, para finalmente resgatar a Copa do Mundo ao seu país, enfileirou na fase eliminatória e bateu em três europeus: a Holanda, a Croácia e a França de Mbappé.

O ESTILO E O GÊNIO — O Brasil abriu mão do tal “futebol arte” que o fez tricampeão em 1958, 1962 e 1970 com Pelé, desde a traumática eliminação de Zico, Falcão e Sócrates para a Itália na Copa de 1982, há 40 anos. Campeã em 1978 e 1986, para depois sofrer três décadas e meia, a Argentina voltou a vencer em 2022 sem nunca abrir mão do seu estilo no futebol, da expressão da sua cultura no “toco y me voy”. Venceu porque, mesmo acima de Romário e Bebeto em 1994, ou de Ronaldo e Rivaldo em 2002, tem um gênio chamado Lionel Messi.

 

Página 8 da Folha da Manhã de hoje

 

Com Mbappé, o úlltimo tango de Messi na Copa do Qatar

 

Lionel Messi e Kylian Mbappé (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Na primeira Copa do Mundo de futebol em uma teocracia islâmica do Oriente Médio, a final entre Argentina e França ao meio-dia (de Brasília) deste domingo (18), no estádio Lusail, pode decidir mais que o título. Se Lionel Messi ou Kylian Mbappé reeditarem as atuações de gala com que têm brindado ao mundo no Qatar, onde dividem até aqui a artilharia com cinco gols cada, conduzindo sua seleção à conquista, os parâmetros do futebol serão reescritos. Ao apito final na mesma Península Arábica em que o Arcanjo Gabriel revelou o Corão ao profeta Muhammad, 1.400 anos depois, outros fiéis reverenciarão um ungido pelos deuses do futebol. Feito que, neste primeiro quartel do século 21, só terá algo superior na comparação com todos os craques do século 20: Pelé.

OS CAMISAS 10 — Como o Rei brasileiro do futebol, Messi e Mbappé envergam a mítica camisa 10. Na Argentina, foi a de Diego Maradona, campeão e estrela da Copa de 1986, e vice na de 1990. Na França, foi a de Zinédine Zidane, campeão e astro da Copa de 1998, e vice na de 2006. Com suas camisas, a vantagem até aqui é de Mbappé. Messi disputou e perdeu a final da Copa do Mundo de 2014, dentro do Maracanã, com atuação individual apagada na derrota de 0 a 1 para a Alemanha. Mbappé disputou e ajudou a conquistar a última Copa do Mundo, na Rússia de 2018, na final vencida por 4 a 2 sobre a Croácia. Na qual fez o último gol francês, quando tinha 19 anos. E se tornou o jogador mais jovem a marcar numa decisão de Mundial, desde os dois que Pelé meteu, com apenas 17 anos, nos 5 a 2 em cima da Suécia, dentro da Suécia, na final da Copa de 1958.

 

 

COMO FOI EM 2018? — Com a lembrança da Copa da Rússia, a final de domingo no Qatar traz uma curiosidade. Há quatro anos, a França cruzou com a Argentina nas oitavas de final. E mesmo se classificando na fase de grupos aos trancos e barrancos, com uma vitória, um empate e uma derrota, a seleção sul-americana vendeu caro sua desclassificação à europeia que sairia dali para ser campeã. O França 4 a 3 Argentina foi o melhor jogo do Mundial de 2018. Naquele confronto, a vantagem também foi de Mbappé, que sofreu um pênalti, convertido por Griezmann, e marcou outros dois gols, enquanto Messi ficou nas assistências aos de Mercado e Agüero. Mas, na comparação, fica a dúvida: se deu tanto calor à França com uma seleção que não convencia, o que a Argentina poderá fazer agora, no embalo de uma bela campanha e com um Messi até aqui decisivo?

 

 

QUEM VEM MELHOR EM 2022? — Se a França de 2022 é considerada um time mais consistente que a Argentina, inegável que esta chega ao domingo em melhor momento. Os franceses penaram para passar pela Inglaterra nas quartas de final, que só venceram por 2 a 1 devido ao pênalti desperdiçado pelo centroavante Kane. Assim como tiveram contra o bravo Marrocos do lateral-direito Hakimi, pela semifinal, um jogo muito mais duro que o placar final de 2 a 0 pode fazer supor. Por sua vez, os argentinos bateram na disputa de pênaltis (4 a 3) a Holanda do grandalhão Weghorst, em um jogo épico nas quartas, após o empate de 2 a 2 em tempo normal e prorrogação. E passearam por 3 a 0 contra a Croácia copeira do maestro Modric na semifinal, que vinha de eliminar do Brasil. Se, quatro anos depois, los hermanos devolveram a derrota pelos mesmos 3 a 0 que sofreram dos croatas na fase de grupos em 2018, ficou a mensagem subliminar à França no domingo.

 

 

OBRAS DE ARTE — Em termos de atuação individual nas quartas e semifinais, Messi impressionou mais. Muito bem marcado pelo lateral-direito Walker, Mbappé não teve nenhuma participação decisiva contra a Inglaterra. Contra Marrocos, se os dois gols franceses nasceram de jogadas suas, foram bolas rebatidas. Por sua vez, Messi não só marcou de pênalti um gol na Holanda e outro na Croácia, como apresentou obras de arte ao mundo em assistências a gol nos dois jogos. Contra os holandeses, achou espaço no meio de cinco ao lateral-direito Molina. Para, dentro da área, abrir o placar. Contra os croatas, ao tirar para dançar o zagueiro Gvardiol, de 20 anos e o melhor da Copa, antes do passe ao gol do centroavante Álvarez, Messi não fez menos com a bola do que Michelangelo com o cinzel ou Shakespeare com a pena.

 

 

O MELHOR MBAPPÉ — Até aqui, o melhor Mbappé no Qatar se apresentou na vitória de 3 a 1 pelas oitavas contra a Polônia. Além do belo passe para o centroavante Giroud abrir o placar, os dois que o camisa 10 francês marcou depois revelam um futebol de exceção, muito além da velocidade e da explosão que o tornaram temido por qualquer defesa do mundo. Diante da atônita defesa polaca, na entrada esquerda da área, ele meteu seu primeiro gol num petardo de perna direita no ângulo esquerdo do goleiro Szczęsny, um dos melhores da Copa. E marcou seu segundo, terceiro do França, quase do mesmo lugar e da mesma forma, mas no ângulo oposto. Como se a realidade do esporte bretão pudesse ser transformada em brincadeira de futebol de videogame.

 

 

COADJUVANTES DA ARGENTINA — Futebol é um esporte coletivo. E, dos dois lados, há coadjuvantes que podem se tornar protagonistas. Na Argentina, além do já citado jovem centroavante Álvarez, com 4 gols até aqui no Qatar, há a possibilidade do veterano, mas ainda diferenciado atacante Di Maria voltar ao time, se não no começo, no decorrer da partida. Sem contar o jovem volante Enzo Fernández, que acertou o time ao ganhar a vaga de titular na vitória de 2 a 0 contra o México, na qual marcou um golaço, e os meias De Paul e Mac Allister.

 

 

COADJUVANTES DA FRANÇA — Na França, além do já citado centroavante Giroud, com quatro gols como Álvarez, talvez esteja o grande coadjuvante desta Copa: o atacante Griezmann. Que tem jogado de meia e é tão importante taticamente ao seu time quanto Mbappé é tecnicamente. Além deles, vêm de atuações convincentes o atacante Dembélé, o volante Tchouaméni e o lateral-esquerdo Theo Hernández, melhor da posição no Qatar. Mas que terá trabalho na defesa, já que Messi costuma cair pela direita. Como terá o lateral-direito argentino Molina, para tentar marcar Mbappé avançando como bólido pela esquerda.

 

 

BENZEMA E DÚVIDAS DE SCALONI — Após chegar a ir ao Qatar e ser cortado por contusão, apesar de se manter inscrito pela Fifa e de já estar aparentemente curado, chegando a disputar amistoso pelo Real Madrid na quinta (15), a possibilidade do centroavante Benzema jogar a final pela França, mesmo no decorrer da partida, é remota. Do lado argentino, a dúvida mais real é do treinador Lionel Scaloni, que se caracterizou por usar seis escalações diferentes, para se adaptar aos adversários, nos seis jogos da Copa. A definição, que só se dará neste sábado (17), é se ele escalará três zagueiros, ou um volante a mais no meio de campo, para tentar parar Mbappé e companhia.

O MESSI ESPANHOL — Aos 35 anos, na sua quinta e última Copa do Mundo, Messi faz sem sombra de dúvida a sua melhor temporada com a camisa da Argentina. Após sair aos 13 anos do seu país ao Barcelona, que bancou seu tratamento para o crescimento físico, ele cresceu com o clube catalão. Onde, ao lado dos maestros espanhóis Xavi Hernández e Andrés Iniesta, formou um time histórico nas duas primeiras décadas do milênio. Que conquistou 10 Campeonatos Espanhóis, quatro Champions da Europa e três Mundiais de Clubes. Mas sempre foi cobrado por não reeditar o mesmo protagonismo pela seleção albiceleste.

 

 

O MESSI ARGENTINO — Após se transferir ao Paris Saint-Germain (PSG) em 2021, ao lado de Mbappé e Neymar, a história de Messi com a seleção do seu país começou a mudar com a conquista da Copa América em 10 de julho daquele ano. Seu primeiro título pela Argentina veio na vitória de 1 a 0 sobre o Brasil no Maracanã. De lá para cá, não é incorreto dizer que o menino introvertido e criado na Espanha, onde ganhou sete vezes o título de melhor jogador de futebol da Terra, esperou seu último tango para se “maradonizar”. Não no caráter bem distinto dos dois gênios do futebol. Mas na identificação visceral de cada novo espetáculo da torcida argentina no Qatar com quem conduz a dança de dentro do campo.

 

https://www.youtube.com/watch?v=nRPuDEutrOg

 

LIÇÃO DO TANGO — Em 24 de maio deste ano, ao renovar seu contrato com o PSG até 2025, Mbappé declarou: “Quando chegamos à Copa do Mundo, estamos preparados. Brasil e Argentina não têm esse nível, na América do Sul o futebol não está tão avançado quanto na Europa. Por isso nas últimas Copas, se você olhar, são sempre os europeus que vencem”. Filho de um camaronês e uma argelina, com uma Copa do Mundo já conquistada e mais três ainda pela frente, o jovem gênio francês parece tentar o drible do colonizador. Talvez por ignorar os versos do tango mais conhecido do mundo, “La Cumparsita”, de Carlos Gardel: “Volviendo a tu passado/ Te acordarás de mí” (“Voltando ao seu passado/ Você se lembra de mim”).

 

 

(Página 12 da edição de hoje da Folh da Manhã)

 

Antes da final, campista no Qatar no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Torcedor brasileiro de Campos presente na Copa do Mundo do Qatar, o advogado Fábio Bastos é o convidado para encerrar a semana do Folha no Ar nesta sexta (16), ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele analisará a desclassificação do Brasil em outra quarta de final contra uma seleção europeia, escrita que agora vai para 24 anos. Na última sexta (9), foi na disputa de pênaltis (2 a 4) contra a Croácia do maestro Modric, após o empate de 1 a 1 na prorrogação, que Fábio testemunhou das arquibancadas do estádio Cidade da Educação.

O torcedor brasileiro de Campos no Qatar também tentará projetar a disputa do terceiro lugar entre a Croácia e o surpreendente Marrocos, ao meio-dia deste sábado (17). Além da final do meio-dia deste domingo (18), onde não só será definida a campeã do mundo entre a Argentina e a França, como a história do futebol será escrita na disputa particular entre dois gênios. Que envergam a mítica camisa 10 dos seus times — herdada de outras lendas, como Diego Maradona e Zinédine Zidane — e disputam a artilharia desta Copa, cada um com 5 gols marcados até aqui: Lionel Messi e Kylian Mbappé.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Glaucenir Oliveira reassume 3ª Vara Criminal de Campos

 

Juiz Glaucenir Silva de Oliveira (Foto: Folha da Manhã)

 

Magistrado que marcou a comarca goitacá por sua atitude firme e corajosa, Glaucenir de Oliveira reassume hoje como titular a 3ª Vara Criminal de Campos. Seu retorno às funções foi aprovado por unanimidade no Órgão Especial (cúpula) do TJ-RJ, por decisão do Ministro Corregedor Nacional do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Glaucenir foi temporariamente suspenso do exercício da magistratura em decisão do CNJ de 3 de dezembro de 2019. Ele fez declarações polêmicas em um grupo de WhatsApp contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, em decisão favorável ao ex-governador Anthony Garotinho (hoje, União). Na época, o caso ganhou projeção nacional, com o juiz recebendo amplo apoio de seus pares, promotores e da população em geral.

Ao blog, Glaucenir disse sobre sua retomada das funções na magistratura: “Creio não ter nada a acrescentar, exceto o desejo de continuar fazendo o trabalho que sempre fiz em atenção ao jurisdicionado e à sociedade campista!”

 

Gênios do futebol — Argentina é Messi e Croácia é Modric

 

Lionel Messi e Luka Modric, gênios do futebol (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Às 16h de Brasília desta terça, no estádio Lusail, o Argentina e Croácia, pela semifinal da Copa do Mundo do Qatar, haverá mais em disputa do que uma vaga à final de domingo (18). Será também um confronto entre dois fora de série do futebol. De características diferentes, ambos envergam a mítica camisa 10 das seleções dos seus países. E encantam fãs de todo o planeta por suas técnicas refinadas, capazes de achar espaços no campo invisíveis aos meros mortais. O meia atacante argentino Lionel Messi foi eleito sete vezes o melhor jogador de futebol do mundo. O meia armador croata Luka Modric levou a Bola de Ouro da Fifa em 2018, quando foi o primeiro em uma década a quebrar a hegemonia entre Messi e o atacante português Cristiano Ronaldo. Diferente deste, que foi primeiro ao banco de reservas e depois para casa, Messi e Modric, respectivamente, são a Argentina e a Croácia com mais 10.

COADJUVANTES DE ARGENTINA E CROÁCIA — O futebol é, no entanto, um esporte coletivo. A Messi, sempre será mais fácil brilhar individualmente com o apoio do futuroso volante Enzo Fernández (Benfica), dos meias De Paul (Atlético de Madrid) e Mac Allister (Brighton), do goleiro Martínez (Aston Villa), que pegou dois pênaltis na classificação contra a Holanda nas quartas de final de sexta (9), e com o possível retorno de Di Maria (Juventus) ao ataque, onde Álvarez (Manchester City) tem dado conta do recado. Por sua vez, Modric é o solista de um meio de campo onde não desafinam o volante Brozovic (Inter de Milão) e o meia Kovacic (Chelsea), tendo na frente o perigoso atacante Perisic (Tottenham) e atrás a segurança na zaga da jovem revelação Gvardiol (RB Leipzig) e do bom lateral-direito Juranovic (Celtics), destaque contra o Brasil, como foi o goleiro Livakovic (Dínamo Zagreb), que catou o pênalti de Rodrygo.

CANTO DO CISNE — Com 35 anos, Messi joga sua quinta Copa do Mundo. Com 37 anos, Modric disputa seu quarto Mundial, após a Croácia tão ter se classificado ao de 2010, na África do Sul. Coincidência ou não, ambos estrearam como jovens promessas na Copa de 2006, na Alemanha, na qual se aposentaria como jogador o grande craque de então, o meia francês Zinédine Zidane. Como é quase certo que, 16 anos de muito bom futebol depois, o deserto do Qatar tem a honra de servir de palco ao canto do cisne de Messi e Modric, independente de quem disputar o terceiro lugar no sábado, ou o título, no domingo. Que deve fazer do seu grande craque o melhor do mundo em 2022.

 

Modric e Messi (Arte: Fifa)

 

MAIS UMA FINAL — A Bola de Ouro da Fifa seria, no entanto, um prêmio menor. O craque argentino e o croata querem mesmo é a Copa do Mundo. Messi teve a sua chance, quando disputou e perdeu de 0 a 1 a final para a Alemanha do hoje ex-craque Bastian Schweinsteiger, dentro do Maracanã, a final da Copa de 2014, no Brasil. A chance desperdiçada por Modric foi mais recente. Na final do Mundial de 2018, na Rússia, a Croácia foi atropelada por 2 a 4 pela França do craque Kylian Mbappé, então com 19 anos. Quando foi o jogador mais novo a marcar gol numa final de Copa, desde que Pelé marcou dois, com apenas 17 anos, na final contra a Suécia, dentro da Suécia, em 1958.

O ESTILO DE MESSI — Hoje com 23 anos e artilheiro do Qatar, com cinco gols, Mbappé lidera a França na semifinal desta quarta (14), contra o surpreendente Marrocos. Se passar, o francês fará na final um clássico confronto de leão novo contra leão velho, seja este Messi ou Modric. Na comparação entre estilos, a explosão e a velocidade são as grandes armas de Mbappé. Aos 35 anos, a idade cassou essas características de Messi. Mas, sem as arrancadas de outrora, ele continua mortífero quando perto da área, com provam os quatro gols que já marcou no Qatar, sobretudo com a canhota de exceção que herdou de Maradona. Com a qual tem sobre qualquer outro jogador da história, mesmo Pelé, uma virtude única: a condução da bola colada ao pé, sem jamais olhar para ela, em disparada.

O ESTILO DO MODRIC — Modric é um caso à parte. Baixinho como Messi, mas bem mais franzino, nunca teve força física, explosão ou velocidade. Ainda assim, só com base na técnica e na inteligência, continua sendo um dos maiores meias da história do futebol. Após ser o maestro do Real Madrid na conquista de mais uma Champions este ano, ele foi aos 37 anos o jogador que mais correu no Brasil 1 a 1 Croácia de segunda. Onipresente entre tempo normal e prorrogação, percorreu naquele jogo nada menos que 16,6 km. Menos goleador que Messi ou Mbappé, é ambidestro e tem um chute mortal de fora da área. Como o do golaço que marcou contra a Argentina, segundo dos 3 a 0 da vitória da Croácia na fase de grupos da Copa do Mundo de 2018.

 

Em seus últimos jogos nas quartas de final do Qatar, Messi deixa marcadores holandeses para trás, como Modric a brasileiros (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

DRIBLES DE MESSI — Além dos narizes avantajados, da baixa estatura e do futebol gigantesco, Messi e Modric têm na capacidade de driblar as dificuldades da vida, desde a infância, outra característica comum. Por precisar de um tratamento para o seu crescimento físico, Messi saiu ainda criança da Argentina, aos 13 anos, para o gigante Barcelona. Onde brilhou no maior time de clube das duas primeiras décadas do novo milênio. Curiosamente, o argentino o faria ao lado do talento dos espanhóis Xavi Hernández e Andrés Iniesta, maestros de futebol semelhante ao de Modric. Com a decadência do Barça, o argentino foi para o milionário Paris Saint Germain (PSG), ao lado de Mbappé e Neymar, onde vem de uma boa temporada.

DRIBLES DE MODRIC — Já Modric teve que abandonar aos 7 anos a fazenda do avô, de quem herdou o nome Luka e que morreria executado por soldados sérvios, para se tornar uma criança refugiada com sua família da guerra sangrenta que se seguiu ao fim da antiga Iugoslávia, no início dos anos 1990. Revelado ao futebol pelo Dínamo Zagreb, o maior craque da história da Croácia brilhou em quatro temporadas no inglês Tottenham, antes de se tornar há 10 anos o grande maestro do Real Madrid, maior clube de futebol do mundo. Pelo qual artilheiros como Cristiano Ronaldo e o francês Benzema, cortado do Qatar por contusão, devem muitos dos seus gols.

DILÚVIO DE BOLA NO DESERTO — Messi e Modric são gois gênios do futebol. Não apenas o praticado hoje, mas de todos os tempos. Por ora, a aposentadoria anunciada de ambos em Copas do Mundo, quer a conquistem ou não, será a de dois verdadeiros campeões: aqueles que sabem ainda ter mais um ou dois rounds para lutar no mais alto nível. Do pé canhoto do argentino, ou dos dois do croata, a bola pode fazer chover no deserto do Qatar.

 

Brasil eliminado e semifinais do Qatar no Folha no Ar de 2ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Nesta segunda-feira (12), a partir das 7h da manhã, os jornalistas Matheus Berriel, editor de esporte da Folha da Manhã, e Aluysio Abreu Barbosa, além do radialista Cláudio Nogueira, encerram a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3. Eles analisarão a desclassificação do Brasil em mais uma quarta de final de Copa do Mundo diante de uma seleção europeia, o que se repete sucessivamente, de quatro em quatro anos, desde o Mundial de 2006.

Matheus, Aluysio e Cláudio também tentarão projetar as semifinais da Copa do Mundo do Qatar, entre a Argentina de Messi e a Croácia de Modric, às 16h (de Brasília) desta terça (13); e entre a França de Mbappé e o Marrocos de Hakimi, às 16h de quarta (14). Assim como a final ao meio-dia de domingo (18).

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Croácia de Modric elimina o Brasil e escrita vai a 24 anos

 

Após desperdiçar o primeiro pênalti do Brasil, o jovem Rodrygo é consolado na derrota pelo vencedor Modric, seu companheiro do Real Madrid e craque da Croácia (Foto: Maja Hitij/FIFA/Getty Images)

 

O sonho do hexa acabou em 2022 nas quartas de final da Copa do Mundo do Qatar, no primeiro confronto eliminatório do Brasil contra uma seleção europeia. Foi exatamente o mesmo destino que o futebol brasileiro cumpriu diante da França de Zidane em 2006, da Holanda de Sneijder em 2010, da Alemanha de Schweinsteiger em 2014 e da Bélgica de De Bruyne em 2018. Ontem (9), na disputa de pênaltis (2 a 4) após o 0 a 0 no tempo normal e de 1 a 1 na prorrogação, foi outra vez a mesma coisa diante da Croácia de Modric. Que agora disputa a semifinal às 16h desta terça (13), contra a Argentina do gênio Messi. Esta, também classificada ontem nos pênaltis, após o empate de 2 a 2 de um jogo épico contra a Holanda.

SURPRESA? — Desde a noite da véspera do jogo, a matéria do Folha1 adiantava o que seria a principal alternativa do favorito Brasil e da Croácia para tentarem vencer o jogo de abertura das quartas de final no Qatar. “Se o ritmo do jogo for veloz, com seus dois jovens atacantes abertos pelas extremas e sua maior intensidade de jogo, o Brasil tende a confirmar seu favoritismo. Se o ritmo for mais cadenciado, imposto pelo técnico e experiente meio de campo da Croácia, a atual vice-campeã mundial aumenta suas chances de surpreender”.

SEM SUPRESA — Sem nenhuma surpresa, os croatas repetiram exatamente o que fizeram em 2018 para chegar à final daquela Copa, após levarem à prorrogação todos os jogos eliminatórios. Como voltaram a fazer nas oitavas de 2022, contra o Japão, na última segunda (5). E novamente ontem, quando impuseram seu ritmo cadenciado de toque de bola. Com ele, equilibraram taticamente a velocidade e o potencial ofensivo superior do Brasil, para superá-lo na disputa de pênaltis. Onde demonstraram maior frieza e capacidade de decisão. Diante de jogadores brasileiros que sentiram o baque, após cederem o empate a 4 minutos do fim da prorrogação.

MODRIC, QUALIDADES E LIMITAÇÕES CROATAS —  A Croácia tem um time de grande qualidade na defesa e meio de campo. Onde Modric, mesmo aos 37 anos, brilhou ontem com sua inteligência e passes precisos durante o tempo normal e a prorrogação, achando espaços aparentemente inexistentes em todos os lugares do campo. Mas os croatas também têm um ataque fraco. Ciente das suas qualidades e limitações, eles fizeram a única coisa que poderiam fazer para conquistar a vaga à semifinal da Copa do Mundo do Qatar. Que roubaram do sonho sul-americano por um inédito Brasil e Argentina.

PRIMEIRO TEMPO — Apesar das limitações do seu ataque, a primeira chance de gol foi da Croácia. Um dos destaques individuais do jogo, apoiando o ataque, mesmo tendo que marcar Vini Jr, o lateral-direito Juranovic avançou pelo campo brasileiro aos 12 minutos do primeiro tempo e abriu na ponta a Pasalic, atacante que entrou para jogar mais recuado e ganhar o meio de campo. Ele cruzou e a bola passou diante do atacante Perisic, dentro da área, que não a alcançou.

Aos 19 minutos, Vini Jr. fez a primeira jogada ofensiva com base nas tabelas rápidas que caracterizaram os melhores momentos do Brasil no Qatar. Lançado por Neymar pela esquerda, o jovem atacante driblou duas vezes o mesmo marcador para triangular com Richarlison na área, de quem recebeu de volta, mas concluiu em cima de um zagueiro croata. O primeiro tempo ficaria basicamente nisso.

SEGUNDO TEMPO — No segundo tempo, logo ao 1º minuto, Lucas Paquetá retomou uma bola que abriu na direita Raphinha. Ele avançou passou a Éder Militão, zagueiro adaptado de lateral-direito, que entrou pela área em um dos seus raros apoios ao ataque, e cruzou a bola rasteira. O bom zagueiro Gvardiol tirou antes que Richarlison arrematasse.

PAREDÃO LIVAKOVIC — Aos 9 minutos, uma bola dividida sobrou para Richarlison. Mesmo marcado, ele dominou e girou sobre dois adversários, para achar Neymar desmarcado em penetração pela esquerda da área, que bateu de perna esquerda para a boa defesa com os pés do goleiro Livakovic. Foi a primeira com algum grau de dificuldade que ele faria.

Aos 20 minutos, após entrar no lugar de Vini Jr, Rodrygo serviu da quina esquerda da área a Paquetá. Que, após um bate e rebate da zaga, pegou a sobra e bateu da entrada da pequena área para outra providencial defesa do goleiro croata, dessa vez com as mãos. Aos 34 minutos, após tabela rápida entre Rodrygo e Richarlison, este serviu a Neymar, que chutou em nova penetração na esquerda da área, para outra boa defesa com os pés em saída de Livakovic.

PRORROGAÇÃO E GOL DO BRASIL — Com o 0 a 0, veio a prorrogação, pela qual a Croácia jogava sem nenhum constrangimento, mesmo vinda de outra com o Japão. Aos 15 minutos, já nos descontos do primeiro tempo, Neymar avançou pelo centro do campo croata, tocou para Rodrygo e recebeu na frente, tocou a Paquetá e voltou a receber em progressão pela área, driblou um marcador, o goleiro e bateu para finalmente abrir o placar. E se igualar a Pelé com 77 gols marcados pela Seleção Brasileira.

GOL DA CROÁCIA — O jogo parecia resolvido. Mas esqueceram de combinar com a Croácia. A quatro minutos do fim, Modric driblou Casemiro e iniciou o contra-ataque rápido. Tocou a Vlasic, que avançou ao campo brasileiro e lançou Orsic na ponta esquerda. De onde cruzou para Petkovic — o croata, não o craque sérvio que marcou o futebol brasileiro — empatar o jogo de perna direita, quase da marca do pênalti, numa bola desviada no joelho do zagueiro Marquinhos.

 

 

ÚLTIMA CHANCE E DISPUTA DE PÊNALTIS — Segundos antes do apito final do jogo corrido, após cobrança de falta de Neymar pela direita, o goleiro Livakovic fez outra defesa salvadora, espalmando o chute de canhota de Casemiro, que aproveitou dentro da área uma bola rebatida. Veio a disputa de pênaltis, com Livakovic catando a primeira cobrança de Rodrygo e com Marquinhos carimbando a trave na quarta e última. Como Vlasic, Majer, Modric e Orsic converteram todos os seus, pouco importou que Casemiro e Pedro também o tenham feito. O caixão brasileiro foi fechado em 2 a 4.

A LIÇÃO — Comparada com a França de Zidane em 2006, com a Holanda de Sneijder em 2010, a Alemanha de Schweinsteiger em 2014 e a Bélgica de De Bruyne em 2018, a Croácia de Modric é o time, em tese, menos temível. E ainda assim cumpriu a sina de todas essas seleções da Europa: mandar mais cedo para casa o único pentacampeão mundial de futebol. Desde que conquistou este título, na vitória de 2 a 0 sobre a Alemanha em 2002, a Seleção Brasileira não vence uma europeia em jogo eliminatório de Copa do Mundo. E quem não o faz, não pode voltar a ser campeão. Até a próxima chance em 2026, essa incômoda escrita vai a 24 anos. Que, pelo menos lá, sirva de lição a quem a ignorou ontem e nos 20 anos anteriores.

 

Página 12 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Ritmo do jogo definirá o Brasil e Croácia desta sexta

 

Do meio para frente, os dois maiores craques de cada lado: os brasileiros Vini Jr. e Neymar; e os croatas Modric e Perisic (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

No Brasil e Croácia que abre nesta sexta (9), ao meio-dia de Brasília, as quartas de final da Copa do Mundo no Qatar, no estádio Cidade da Educação, a vaga para as semifinais será decidida pelo ritmo do jogo. Se for veloz, com seus dois jovens atacantes abertos pelas extremas — Raphinha pela direita e Vini Jr. pela esquerda — e sua maior intensidade de jogo, o Brasil tende a confirmar seu favoritismo. Se o ritmo for mais cadenciado, imposto pelo técnico e experiente meio de campo da Croácia — o volante Brozovic, o maestro Modric e Kovacic —, a atual vice-campeã mundial aumenta suas chances de surpreender.

OS 11 DO BRASIL — O Brasil deve levar a campo o mesmo time com que goleou a Coreia do Sul por 4 a 1 nas oitavas de segunda (5): Alisson; Éder Militão, Thiago Silva, Marquinhos e Danilo; Casemiro, Lucas Paquetá e Neymar; Raphinha, Richarlison e Vini Jr. Cogitado para retornar à equipe titular, após se recuperar da contusão sofrida na vitória de 1 a 0 sobre a Suíça, o lateral-esquerdo Alex Sandro treinou na véspera do jogo, mas não teve a escalação confirmada por Tite. Se ele entrasse, o faria em sua posição, com Danilo voltando à lateral-direita, no lugar do zagueiro adaptado Militão.

OS 11 DA CROÁCIA — Já a Croácia deve entrar na disputa das quartas de final com Livakovic; Juranovic, Lovren, Gvardiol e Sosa; Brozovic, Modric e Kovacic; Vlasic, Kramaric e Perisic. Outro lateral-esquerdo, Sosa volta ao time após ter ficado de fora das oitavas contra o Japão por conta de uma virose. Também cogitado para comandar o ataque de um time que tem nos poucos gols marcados um dos seus principais problemas, Orsic não participou dos treinos nos dois últimos dias antes da partida, também por conta de virose.

GOLS OU DISPUTA DO MEIO DE CAMPO? — Se entrar em campo como suposta referência do ataque croata, Kramaric pode buscar mais do que gols para a sua seleção. Embora tenha marcado dois na vitória de 4 a 1 sobre o Canadá, ele deve atuar contra o Brasil como falso centroavante, recuando para compor o meio de campo. Seria uma arma tática do técnico Zlatko Dalic para tentar ganhar o domínio do setor. Na questão numérica, com as limitações de Neymar na marcação, caberia a Casemiro e Paquetá, os dois volantes brasileiros, se desdobrarem para marcar quatro jogadores adversários.

MODRIC E PERISIC — Casemiro terá que estar vigilante a uma arma ofensiva da Croácia, os chutes de fora da área, com força, técnica e com as duas pernas, de Modric. Com quem o brasileiro hoje do Manchester United jogou, lado a lado no meio de campo, por 9 anos no Real Madrid. Entre os atacantes croatas, quem está em melhor fase é Perisic. Caindo sempre pela esquerda, como fez como um dos destaques da sua seleção na Copa de 2018, foi dele o gol de cabeça que empatou em 1 a 1 o jogo das oitavas contra o Japão, vencido na disputa de pênaltis.

O FAVORITO E SUA ESCRITA — Se a Seleção Brasileira conseguir impor a velocidade e juventude dos seus atacantes, além da inegável melhor campanha que tem até aqui na comparação com a da Croácia, ganhará não só a vaga à semifinal de terça, contra o vencedor de Argentina e Holanda. Também poria fim a uma incômoda escrita: há 20 anos, desde a final em que bateu a Alemanha por 2 a 0 em 2002, para se sagrar o único pentacampeão mundial de futebol, o Brasil não vence uma seleção nacional da Europa em jogo eliminatório do Copa do Mundo.

 

Brasil e Croácia pela Copa do Qatar no Folha no Ar desta 6ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr)

 

No Brasil, até as crianças entendem de futebol. Não raro, mais que os adultos. Estudante do 4º ano do ensino fundamental, Pedro Otávio Enes, de 9 anos, é o convidado para encerrar a semana do Folha no Ar na manhã desta sexta (9), ao vivo a partir das 7h da manhã. Algumas horas antes de o Brasil encarar a Croácia do maestro Modric pela Copa do Mundo do Qatar, ele tentará projetar o jogo, bem como dos outros três das quartas de final.

Pedro também analisará as principais zebras e favoritos até aqui da Copa, além de projetar o que espera da fase semifinal. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

As palavras para receber o poeta Adriano Moura na ACL

 

Na noite de ontem (6), o poeta, dramaturgo e professor de Língua Portuguesa e Literatura do IFF Adriano Moura foi empossado como membro da Academia Campista de Letras (ACL), na sua sede no Jardim São Benedito. Escrito um pouco antes, só ouvindo, mas sem poder ver o Portugal 6 a 1 Suíça, no último jogo das oitavas de final da Copa do Mundo do Qatar, transcrevo a pedidos o discurso de recepção do novo imortal goitacá, longo para atender à demanda de tempo exigida pelo protocolo. Ao qual, em se tratando de Adriano, busquei subverter em algumas palavras:

 

Alternando fala de improviso e lida, Adriano Moura fez seu discurso de posse na Academia Campista de Letras (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

Lavra

Dores

Mas colhe gozos

 

Lava

Dores

E suja as mãos

 

Canta

Dores

Mas ouve gritos

 

Maquia

Dores

E diz que não

 

Ora

Dores

Mas diz que é Cristo

 

Saca

Dores

E não sai do chão

 

Chora

Dores

Mas tem lenços secos.

 

Pensa

Dores

E livros vãos

 

Moe

Dores

Mas bebe scotch

 

Salva dores

E não os são(s)

Os perde

Dores

 

Poeta, jornalista e membro da ACL escolhido para fazer o discurso de recepção de Adriano, Aluysio Abreu Barbosa lê o que escreveu para atender à demanda de tempo exigida pelo protocolo (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

Adriano é conduzido à sua posse na ACL por sua colega de magistério de Literatura no IFF, a literata e acadêmica Edinalda Almeida (Foto: Ana Poltroneri)

O nome do poema é “Os donos do poder”. O ouvi pela primeira vez da boca do seu autor, atrás de óculos a compor a carranca de quem não estava aberto a maiores aproximações. Foi numa das edições do FestCampos de Poesia no início dos anos 2000, em que ambos participávamos, no Palácio da Cultura. Lembro de ter sido profundamente impactado por aqueles versos. E, numa época em que eu ainda bebia destilado, fiquei a pensar se o “Moe/ Dores/ Mas bebe scotch” não havia sido escrito sobre ou para mim.

Belchior

O impacto não se deu só pelas belas imagens da poesia de Adriano. Mas porque percebi que era alguém mais ou menos da minha idade, quando éramos jovens como Belchior foi um dia, que estava fazendo uma ourivesaria com as palavras que eu percebia ser diferente, com aliterações e assonâncias, mas ainda não sabia como fazer.

Pensando só agora, enquanto escrevo este discurso a mim pedido para receber Adriano na ACL pelo seu proativo presidente, o advogado, prosador e poeta Christiano Freitas, me ocorre que foi mais ou menos a mesma coisa que senti quando ouvi “Faroeste caboclo” pela primeira vez. Eu tinha 15 anos e estava numa festa adolescente e noturna em uma casa no entorno do Jardim São Benedito, ainda de pé e vizinha daqui.

“Os Sertões”, de Euclides da Cunha

Para mim, a obra maior de Renato Russo, poeta que tanto marcou a geração de Adriano e minha, a saga de João de Santo Cristo bateu no ouvido, na mente e na alma. E ficou remoendo na boca do estômago logo à sua primeira audição, onde e como ficou os “Os donos do poder”. Em relação à música da Legião Urbana, só parou de remoer quando li pela primeira vez “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, testemunha ocular da Guerra de Canudos. E descobri o que é ser sertanejo, periférico e reprimido à bala neste país. Como ter lido depois a obra-prima homônima do jurista, sociólogo, historiador e cientista político Raymundo Faoro aumentou minha compreensão daquele meu primeiro poema de Adriano.

 

 

Ser contemporâneo e conterrâneo de Adriano, que fez da literatura a sua profissão, muito além de atividade diletante, me obrigou a ter que trabalhar mais. Não para alcançar a mesma qualidade dos versos, mesmo porque isso sempre será subjetivo. Mas o esforço de estudo de poesia e teoria literária a que ele involuntariamente me forçou, para dominar os mesmos instrumentos, me fez ser um poeta melhor. Como costumo dizer a ele, brincando: “Cada aldeia tem o Fernando Pessoa e o Mário de Sá-Carneiro que merece”.

Ou, como dizia uma ex-namorada: “Ave Maria, quem dera!”

 

Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, poetas, amigos e fundadores do modernismo em Portugal

 

Cazuza

Com o passar dos anos, venci essa carranca de “caboclo querendo ser inglês” de Adriano, como cantou Cazuza, outro poeta marcante da nossa geração. E me tornei, além de admirador e leitor, seu amigo. Amigo de Adriano; de Cazuza não deu. Somos “camaradas em armas”, como digo também brincando, mas ao mesmo tempo de maneira muito mais séria do que supõe a vã filosofia armamentista do bolsonarismo.

Já deve ter uns 15 anos, estávamos num samba na quadra da Mocidade Louca, quando ele, num momento raro de carinho fraternal, com a carranca já desfeita pela bebida, me abraçou e disse de maneira tão carinhosa, quanto sincera: “Somos dois dândis numa cidade hipócrita”. Na verdade, no lugar do adjetivo “hipócrita”, ele usou o substantivo iniciado com a letra “M”. Mas pensei e talvez não fosse de bom tom reproduzir aqui.

Analice Martins e Adriano Moura, na posse deste ontem na ACL (Foto: Fernando Rossi)

Em conversa virtual recente com a literata e poeta Analice Martins, Cruzeiro do Sul nas letras goitacazes da nossa geração, reforçava o convite para ela analisar um meu poema para publicação futura na página da ACL na Folha Letras. Analice falou generosamente que seria uma “responsabilidade”. Ao que comentei: “Me deram a incumbência de fazer o discurso de recepção do nosso enfant terrible na ACL. Isso, sim, é uma baita responsabilidade”. E ela complementou na tréplica: “Ah, que maravilha!!! Les enfants terribles incendiando a Academia!!!!”

“Au revoir, les enfants”, filme de 1987, de Louis Malle

Nas memórias de menino do cineasta Louis Malle durante a França ocupada pela Alemanha nazista na II Guerra Mundial: “Au revoir, les enfants”. Desde que eles nos acenem de volta, dentro de nós, agora como “mortalmente imortais”, como bem frisou Gilberto Gil após ser empossado na Academia Brasileira de Letras. Em paralelo tão óbvio quanto verdadeiro, e ao diabo com as proporções devidas: não creio que a posse de Adriano na Academia Campista de Letras represente menos.

Se não me falha a memória, foi mais ou menos na época daquele samba fraterno e confessional na Mocidade Louca, que quis tentar incluir outro poema de Adriano, “Com quantas conchas se faz um verso”, no espetáculo “Pontal”, concebido pelo genial teatrólogo e poeta Antonio Roberto de Gois Cavalcanti, o eterno Kapi. Mas Kapi já tinha morrido e o grande ator Yve Carvalho, hoje também saudoso, tinha assumido a direção da peça. Que é arquitetada em poemas meus, de Kapi, de Artur Gomes e de Adriana Medeiros, sobre Atafona ou nela ambientados, como se fossem causos contados entre pescadores.

 

Antônio Roberto de Gois Cavalcanti, o Kapi (Foto: César Ferreira)

 

Yve Carvalho na primeira montagem de “Pontal”, no verão de 2010, no Pontal de Atafona (Foto: Diomarcelo Pessanha)

Mesmo depois de ter encenado e protagonizado “Meu querido diário”, monólogo de Adriano, em montagem dirigida por Kapi no Teatro de Bolso, Yve sempre implicou com o acréscimo do trabalho do poeta em “Pontal”. Nunca perguntei a ele, mas sempre desconfiei que por motivos mais pessoais do que literários ou teatrais. Como reza o vero dito popular: “Dois bicudos não se beijam”.

Capa de “Liquidifica(dor) — Poesia para vita mina”, primeiro livro de Adriano, de 2007

Gostaria de dizer também os versos de Adriano em “Com quantas conchas se faz um verso”, que também sempre me impactaram em seu lirismo marinho. E foram publicados em seu primeiro livro de poemas, “Liquidifica(dor) — Poesia para vita mina”, pela Imprimatur, em 2007, cujo orelha tive a honra de escrever, com prefácio da grande Analice.

Com as bênçãos e o perdão de Yve, como o de vocês por não ter um milésimo do talento dele para interpretar:

 

Com quantas conchas se faz um verso

 

Apanhar palavras no vento

É como ouvir os segredos do mar

Nas conchas dos caramujos,

São notas perdidas no tempo

À espera de composição.

 

Palavras cato no vento

Que não me lança contra rochedos em dias de fúria

Mas segredos….

Não há como os do mar!

 

Então eu ouço os segredos de um,

Colho palavras do outro

E conto para o mundo:

Eis minha infidelidade.

 

Queria aventurar-me a maiores turbulências

Mas sou poeta de horas vagas e concursos literários,

Subtraído pelos livros de ponto

E prestações de conta.

 

Deito à tranquilidade das brisas

E guio o leme dos meus versos.

Vez em quando cato uma concha das grandes

E fico sentindo saudade do Ulisses que não fui.

 

O vento sabe da minha preferência pelo mar,

Por isso em dia de fúria

Varre todos os caramujos de minha margem.

 

João Cabral de Melo Neto

Com o passar dos anos e o aprofundamento da amizade, muitos caramujos ficaram em nossas margens, nessa afluência entre dois rios diferentes que correm para desvendar os segredos do mesmo mar. Como o Capibaribe de João Cabral de Melo Neto, meu capitão, e o nosso Paraíba do Sul. Que emblematicamente separa as origens de Adriano, criado em Travessão, e as de muita gente aqui, criada como eu na margem socialmente mais generosa do rio que corta e muitas vezes segrega a nossa aldeia. Entre cães com e sem plumas. Como ocorre em todo esse Brasil entre Euclides e Conselheiros de volta ao mapa da fome. E novamente governado, com a devida licença poética a Renato Russo, por “generais de 10 estrelas/ Que ficam atrás da mesa com o cu na mão”. Como “Os cus de Judas” do escritor e psiquiatra português António Lobo Antunes, na lusofonia tão cara ao literato, professor e pesquisador Adriano.

Castro Alves

Pude acompanhar o crescimento de Adriano como literato e autor. No auge da pandemia da Covid, que tirou no Brasil 680 mil vidas humanas, 400 mil delas de forma absolutamente desnecessária, lembro que estava em Atafona, minha “musa libérrima, audaz”, como a dos versos de Castro Alves em “O Navio Negreiro”. E de ter ficado orgulhoso como num jogo do Brasil na Copa do Mundo do Qatar, ao acompanhar pela live da internet a defesa de Adriano da sua tese de doutorado pela Universidade Federal de Juiz de Fora: “Romance nação e devires identitários em literaturas de língua portuguesa: Angola e Portugal”.

Era o verão de 2021. E quando acabou, após os elogios rasgados da bancada, como depois de uma goleada conquistada em exibição de gala do seu time de futebol, abri uma cerveja para comemorar com o vento nordeste de Atafona.

Adriano conheceu a poesia quando aluno do IFF, então ainda Escola Técnica Federal de Campos, com o vulcânico Artur Gomes. Como ele cursava à época Instrumentação Industrial, perdeu a indústria e ganhou a literatura. Adriano é um dos sete filhos de dona Juracy de Moura Guimarães, que cortou cana e criou muito bem a todos, colocando dois na faculdade. Adriano é o Brasil de verdade, da periferia, impresso com melanina na pele. Não teve, como eu e muitos aqui, a facilidade de quem se interessou por literatura e pôde puxar Machado de Assis ou Fernando Pessoa da estante de casa. Coube só a ele encurtar seu caminho mais longo. E, em muitos sentidos, nos ultrapassar.

Capa de “Otelo, o Mouro de Veneza, de William Shakespeare

No particular, o trato de Das Mouras. Além da brincadeira fonética com o sobrenome herdado da mãe, é uma maneira também de lembrar de “Otelo, o Mouro de Veneza”. Maior personagem preta da dramaturgia ocidental, é uma maneira de reconhecer que, Desdemonas e Iagos à parte, a tal meritocracia continua condenando a um fim trágico quem nasce com pele negra e na periferia, em um mundo ainda dominado por brancos. Com sua vida e seus versos, Adriano de uma certa maneira reescreveu Shakespeare.

Capa de “Gertrudes e Cláudio”, de John Upidke, em ousada revisão de “Hamlet”

Nessa tarefa nada fácil, termino com um poema de Adriano ainda não publicado em livro. E que, quero crer, tenha sido influenciado pela leitura dele de “Gertrudes e Cláudio”, do escritor estadunidense John Updike, com o qual o presenteei em um seu aniversário. E que ousa revisar o bardo, transformando Hamlet em menino mimado, contrariado com o amor verdadeiro entre sua mãe e seu tio paterno. Sentados nos tronos da Dinamarca como as órbitas vazias do crânio do bobo Yorick:

 

Infância de Hamlet

 

Ser ou não ser

não é a questão.

Tem de ser.

Entre nascer e morrer,

o intervalo:

onde estão tuas brincadeiras agora, Yorick?

quando recordo que devo morrer,

brinco pra não ser o crânio

com saudade.

 

Capa da Folha da Manhã de 2 de julho de 2006 dispensou título, chamada ou legenda para contar o França 1 a 0 Brasil nas quartas de final da Copa do Mundo na Alemanha

Adriano nasceu em 1972, o mesmo que eu, completando meio século neste ano da Graça de 2022. Brinco com ele que, como foi o mesmo ano de nascimento do ex-craque francês de origem argelina Zinédide Zidane, nossa safra não foi das piores. Em tempo de Copa do Mundo, tão comum quanto lembrar dos seus vencedores do passado, como foi Zidane, é lembrar também dos grandes craques que não a conquistaram. Do húngaro Ferenc Puskás, ao holandês Johan Cruijff, ao brasileiro Zico, a lista não é pequena. Como não são poucos os seus fãs no mundo a sentenciar que, sem tê-los como campeões, perderam a Copa e o futebol.

Quando entrei nesta Casa, em 22 de outubro de 2018, disse em meu discurso de posse que entendia o estar fazendo em nome também da minha geração. Quando citei Adriano e Analice como expoentes meus contemporâneos nas letras de Campos que entendia e entendo que também deveriam integrá-la. Agora com Adriano, na pavimentação do caminho à Luluzinha desse clube de Bolinhas cinquentões e fugazmente imortalizados, a Academia Campista de Letras faz justiça ao seu nome. Quem ganha hoje não é Adriano. Com o seu reforço, quem bate um bolão é a ACL.

 

Após a posse de Adriano Moura, o público se juntou aos acadêmicos da ACL para receber o seu novo membro (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

Brasil baila entre a Coreia de Son e a Croácia de Modric

 

Vini Jr, Raphinha, Lucas Paquetá e Neymar bailaram no Qatar após os quatro gols marcados na segunda para despachar a Coreia do Sul (Foto: Carl Recine/Reuters)

 

Maestro da Croácia e do Real Madrid, Modric foi eleito o melhor jogador de futebol do planeta em 2018, após levar o seu país à final da Copa do Mundo com a França

O Brasil arrasador que goleou a Coreia do Sul por 4 a 0 no primeiro tempo, ou o time burocrático que tomou um gol e não marcou nenhum do segundo tempo, encerrado em 4 a 1? Esta é a pergunta cuja resposta definirá as quartas de final em que a Seleção Brasileira encarará a Croácia nesta sexta (9) , ao meio-dia de Brasília, no estádio Cidade da Educação, na Copa do Mundo do Qatar. Cujo resultado terá outro elemento aparentemente contraditório na equação. Baixinho, franzino e narigudo, o maestro croata Modric não tem força física, explosão ou velocidade. Mas só com base na inteligência e na técnica, ele é, aos 37 anos, um dos maiores meias da história do futebol. E brilhou recentemente na conquista da Champions como maestro também no Real Madrid, ao lado dos brasileiros Vini Jr, Éder Militão e Rodrygo.

RAIO CAIU DUAS VEZES — Na disputa das oitavas de segunda (5), no Estádio 974, o dito popular “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar” teve exceção na formação que o técnico português da Coreia do Sul, Paulo Bento, levou a campo para enfrentar o Brasil. Do qual já tinha levado de 5 a 1, no amistoso disputado em 2 de junho deste ano em Seul, capital sul-coreana, após assumidamente tentar enfrentar o único pentacampeão mundial de futebol de igual para igual. Aparentemente, ele não aprendeu a lição. E, contra a força do mesmo adversário, no lugar da equipe retrancada que se esperava na disputa de um jogo oficial e eliminatório de Copa do Mundo, armou um time preparado para também agredir, com o ataque comandado pelo craque Son e o centroavante Cho. Para quem esperava repetir a fórmula e obter algo diferente, o resultado saiu muito parecido. E, após tomar de 4 a 1 e ser eliminado do Qatar, Bento se demitiu.

GOL DE VINI JR — O motivo da demissão do treinador luso da Coreia do Sul mostrou seu cartão de visitas logo aos 6 minutos de jogo. Após triangulação com Lucas Paquetá, em boa jogada de Raphinha pela direita, ele cruzou. A bola passou por Neymar na entrada da pequena área, mas acabou nos pés de Vini Jr na esquerda. Mesmo com quatro jogadores coreanos entre ele e o gol, o jovem atacante teve calma e categoria para colocar com categoria, com a parte interna do pé direito, no canto oposto das redes. O atacante titular do Real Madrid e da Seleção Brasileira desencantou no Qatar, marcou seu primeiro gol na Copa e abriu a porteira à boiada que passaria depois.

GOL DE NEYMAR — Quatro minutos depois, aos 10 do primeiro tempo, Vini Jr tentou cruzar da esquerda. A bola foi prensada pela zaga coreana e Richarlison mostrou a malandragem, no bom sentido, que destaca os grandes atacantes dos meramente normais. Ao antever que o volante Jung iria espanar a bola rebatida em sua área com um chutão, o centroavante brasileiro correu para se colocar entre a ação do adversário e a bola, sofrendo o pênalti, na frente do bom árbitro francês Clément Turpin. Dono do time e também precisando desencantar numa Copa em que seus parceiros do PSG Mbappé e Messi têm brilhado, o camisa 10 do Brasil bateu com paradinha e colocou no canto esquerdo do goleiro Kim para marcar gols em três Mundiais.

“GOL” DE ALISSON — Aos 16 minutos, após ter sido um mero espectador das vitórias de 2 a 0 sobre a Sérvia e de 1 a 0 sobre a Suíça, e de ter assistido do banco a derrota de 0 a 1 para Camarões, Alisson provou porque é titular do Liverpool e considerado um dos melhores goleiros do mundo. Ele espalmou pela linha de fundo o belo chute de fora da área do atacante Hwang, que iria morrer no ângulo esquerdo do gol brasileiro.

GOL DE RICHARLISON — Aos 28 minutos, se deu o lance mais marcante do jogo, tanto pela habilidade individual que o iniciou, como pela virtude coletiva e polivalente da sua linha de passe. Após uma bola ser rebatida de cabeça, Richarlison a disputou e ganhou com o “drible da foca”, que depois de segunda pode passar a se chamar “drible do Pombo”, apelido do atacante. Com três toques malabaristas de cabeça, ele driblou um coreano, depois outro com os pés e passou a Marquinhos. Como faz diante da área de defesa, ele passou diante da área de ataque ao colega de zaga, Thiago Silva. Com a categoria de meia, não de zagueiro, ele enfiou ao ambidestro Richarlison, que matou de direita e bateu de canhota para fazer 3 a 0. Após correr para comemorar com o banco, até o técnico Tite entrou na “dança do Pombo”.

 

 

GOL DE PAQUETÁ — A tampa do caixão da Coreia do Sul e a demissão do seu técnico seriam seladas aos 35 minutos de jogo, em outra bela linha de passe. Na transição rápida do contra-ataque que deveria a ser arma adversária, também se apresentou no arsenal brasileiro. Richarlison serviu à corrida de Neymar pela esquerda, que serviu adiante a Vini Jr. Como nos tempos das divisões de base do Flamengo, em que ambos foram formados, o atacante deu uma bofetada na bola para levantar da esquerda da área à penetração de Lucas Paquetá. Em sua primeira grande exibição no Qatar, o meia canhoto bateu de primeira com a perna direita para fazer 4 a 0. E se pôs a bailar diante do mundo, como ele, Neymar, Vini Jr e Raphinha, todos também com boas atuações com a bola, fizeram após os gols brasileiros.

 

 

FAVORITO CONTRA A CROÁCIA — Com sua classificação garantida, a atuação burocrática da Seleção Brasileira no segundo tempo, com o gol de honra sul-coreano marcado em belo chute fora da área do meia Paik, pode ser até justificada. Mas, mesmo com as várias tentativas de Raphinha de também fazer seu primeiro gol no Qatar, não deixou de ser um anticlímax à exibição exuberante da primeira etapa. Com seu time classificado após a disputa de pênaltis contra o Japão, o técnico da Croácia, Zlatko Dalic, disse em coletiva após o Brasil ser definido como seu adversário nas quartas de final de sexta:

— Olhando realisticamente, o Brasil é o melhor time da Copa do Mundo. Eles têm um time brilhante, um grande elenco, é aterrorizante. Estão jogando um futebol aberto, ofensivo, possuem muita qualidade, velocidade, então temos que nos preparar bem. Não temos medo. Vamos jogar contra o Brasil numa Copa do Mundo… Não fica melhor do que isso. Claro que queremos chegar à final, estamos pensando nisso, então não vamos nos render antes do jogo começar, obviamente. Queremos jogar futebol e enfrentar o Brasil.

DESAFIO SEM FAVORITO SÓ NA SEMIFINAL — Jogar e deixar jogar, característica da Croácia como maior herdeira da escola de futebol clássico da antiga Iugoslávia, é o problema que Dalic tem até sexta para resolver. Com seu favoritismo admitido pelo treinador adversário, só se o Brasil conseguir confirmá-lo dentro do campo sobre a atual vice-campeã do mundo, irá se credenciar ao seu primeiro desafio sem favoritos na semifinal de terça (12), contra o vencedor de Argentina e Holanda, que disputam as quartas às 16h também na sexta.

A DANÇA — Até lá, além da goleada sobre a Coreia do Sul, o assunto é a dança dos jogadores brasileiros após os gols. Que foi alvo de crítica do ex-jogador da Irlanda e do Manchester United, Roy Keane, que considerou a repetição das coreografias como “desrespeitosa”. Outro ex-jogador, que marcou a seleção dos EUA na Copa de 1994 sediada naquele país, eliminada em um duríssimo jogo com o Brasil nas oitavas de final daquele Mundial, definido no passe de Romário para Bebeto, Alexis Lalas inverteu o jogo:

— Se você é alguém por aí que resmunga sobre jogadores de futebol dançando depois de marcar um gol ou sobre jogadores de futebol brasileiros dançando depois de marcar um gol, tenho um conceito equivocado sobre espírito esportivo em uma Copa do Mundo. Sinto pena de você, sinto muito pela vida que você leva, que não tem alegria, nem amor, nem paixão.

REI NEGRO E BRASILEIRO DO FUTEBOL DO MUNDO — O irlandês Keane, não o atacante da Inglaterra Harry Kane, deve conhecer o Maracanã. Mas provavelmente nunca leu a grande obra do jornalista Mário Filho, que batiza o maior estádio do mundo, “O Negro no Futebol Brasileiro”. Que foi muito bem representada na homenagem dos jogadores brasileiros a Pelé, internado por conta de um câncer, após a goleada sobre a Coreia do Sul. E seria melhor resumida por outro jornalista, Pedro Bassan, no Jornal Nacional de segunda, após a Seleção Brasileira garantir sua classificação às quartas de sexta no Qatar: “O Brasil não dança porque faz gols, o Brasil faz gols porque dança”.

 

Página 8 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Brasil titular com Neymar encara Coreia do Sul no contra-ataque

 

Neymar volta com titulares ao Brasil, que pega a Coreia do Sul do atacante Son (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Como adiantado na manhã de ontem pela Folha, para encarar a Coreia do Sul pelas oitavas da Copa do Mundo do Qatar, o Brasil entra em campo às 16h de hoje, no 974 Stadium, com: Alisson; Éder Militão, Thiago Silva, Marquinhos e Danilo; Casemiro, Lucas Paquetá e Neymar; Raphinha, Richalison e Vini Jr. No último confronto entre as duas seleções, no amistoso em 2 de junho deste ano preparatório ao Qatar, o Brasil deu uma goleada de 5 a 1 nos sul-coreanos.

Além da volta dos titulares, após a derrota dos reservas por 0 a 1 contra Camarões, no último jogo da fase de grupos, a grande novidade é o retorno ao time de Neymar e do lateral-direito Danilo. Os dois se contundiram no jogo de estreia do Brasil na Copa, na vitória de 2 a 0 sobre a Sérvia. A contusão também do lateral-esquerdo titular Alex Sandro na vitória de 1 a 0 sobre a Suíça, e do reserva Alex Telles na derrota para Camarões, fez com que Danilo volte ao time adaptado à lateral-esquerda. Na direita, o técnico Tite vai manter o zagueiro Militão, também adaptado. Com contusões mais graves, Alex Telles e o atacante Gabriel Jesus não jogam mais no Qatar.

Antes da goleada brasileira no amistoso de junho, o técnico português da Coreia do Sul, Paulo Bento, declarou que iria jogar com o Brasil de igual para igual. Eel bem que tentou, mas abriu espaços para levar os cinco gols e só marcar um. Hoje, em jogo oficial e elimintório de Copa do Mundo, não cometerá o mesmo erro. Armará seu time fechado na defesa, tentando explorar os contra-ataques, sobretudo com seu hábil e veloz atacante Son.

Destaque do inglês Tottenham na Premier League, no mais disputado campeonato nacional de clubes do mundo, Son é parceiro de ataque de outras estrelas, como o centroavante Harry Kane, centroavante e líder da Inglaterra, e do centroavante brasileiro Richarlison. Ele é considerado o maior jogador da Ásia em todos os tempos. E fez uma jogada de craque selar a virada de 2 a 1 sobre Portugal, que deu a vaga nas oitavas à Coreia do Sul. Que, como Thiago Silva bem observou na coletiva de ontem, tem também como destaque o volante Hwang. Jogador do Olimpiacos, da Grécia, ele é o maestro da sua seleção no meio de campo.

Por sua vez, vindo de contusão, Neymar não volta ao time com 100% das sua condições físicas. E não deve jogar todos os 90 minutos da partida, que pode ir à prorrogação e disputa de pênaltis, em caso de empate. Com a ajuda da arbitragem, que não deve se repetir hoje, a Coreia do Sul foi a 4ª colocada na Copa do Mundo de 2002, que sediou junto com o Japão. E, há 20 anos, teve o Brasil dos craques Ronaldo Fenômeno e Rivaldo como campeão.