Acabou. Nestes 30 dias, noites e madrugadas entregues quase que exclusivamente ao futebol, conheça abaixo o que o blog viu de melhor: a seleção da Copa, com técnico, craque, revelação e gol(s) mais bonito(s)…
Goleiro: Manuel Neuer (Alemanha)
Lateral-direito: Phillip Lahm (Alemanha)
Zagueiro: Mats Hummels (Alemanha)
Zagueiro: Ezequeil Garay (Argentina)
Lateral esquerdo: Daley Blind (Holanda)
Volante: Bastian Schweinsteiger (Alemanha)
Meia: Toni Kroos (Alemanha)
Meia: James Rodríguez (Colômbia)
Meia: Lionel Messi (Argentina)
Atacante: Thomas Müller (Alemanha)
Atacante: Arjen Robben
Técnico: Louis van Gaal (Holanda)
Craque da Copa: Arjen Robbem
Revelação da Copa: James Rodríguez
Quanto ao gol mais bonito da Copa, não tive como escolher entre dois: o de cabeça do centroavante holandês Robin van Persie, o primeiro da sua Holanda na goleada de 5 a 1 imposta contra a Espanha, ainda na fase de grupos; e o golaço à la Pelé de James Rodríguez, primeiro dos 2 a 0 sobre o Uruguai, nas oitavas de final. Confiram:
Para revisitar as seleções do blog fase a fase, confira a dos grupos (aqui), das oitavas (aqui), quartas (aqui) e semifinais (aqui).
“Se a gente for depender do Futebras para resolver a situação, realmente estamos em apuros. Essa Copa ensinou muita coisa. A primeira é que um craque sozinho não ganha Copa. Isso não foi só para o Brasil. Isso foi para a Argentina, isso foi para Portugal, talvez, muito mais do que para qualquer outra seleção. A segunda é que sequer você precisa ter um craque para ganhar a Copa. A Alemanha não tem um grande craque, mas tem vários bons jogadores. Talvez a terceira e mais importante delas todas, é que o resultado da Alemanha vem de planejamento, de uma boa estrutura, o que é o inverso do Futebras. Se o governo quer fazer alguma coisa que melhore o futebol brasileiro, o que precisa fazer é melhorar a economia brasileira, porque com isso, a gente vai ter menos jogador indo embora. Se o nosso campeonato for mais forte, tiver mais público, der mais resultado, com menos jogador indo embora, pode acontecer como a Alemanha, que tem seis jogadores que vêm de um único clube, que é o Bayer (de Munique). Então, intervenção no futebol, que é o que estão pregando, é o pior dos caminhos”
(Ricardo Amorim, agora há pouco, no programa de TV “Manhattan Connection”)
Conheça aqui mais sobre a proposta do governo Dilma Rousseff (PT) de intervenção estatal no futebol, batizada de Futebras, após a humilhação brasileira na Copa do Mundo
Tudo bem, a Alemanha venceu a Copa com todos os merecimentos, mostrando ser a melhor, tanto dentro quanto fora do campo. Ademais, impediu que nossos tataranetos tivessem que ouvir dos argentinos da sua época o mesmo cântico “Brasil, decime que se siente” (confira aqui, aqui, aqui e aqui), que certamente sobreviveria ainda mais tempo do que o fantasma de 1950, ecoando para nos assombrar indefinidamente pelo futuro.
Mas, apesar de tudo isso, se você, caro leitor, ainda está revoltado com os 7 a 1 que os germânicos nos enfiaram goela abaixo, no Mineirão, na semifinal da da última terça (08/07), confira o vídeo abaixo:
A comemoração alemã abafou o coro ofensivo contra Dilma no Maracanã, tão logo a presidente brasileira entregou a taça aos verdadeiros donos da festa (Foto: Eddie Keogh / Reuters)
Com a presidente Dilma Rousseff vaiada a cada vez que seu rosto apreensivo aparece no telão do Maracanã, a Fifa anunciou aqueles que considerou o melhor goleiro, o craque a a revelação da Copa do Mundo. Os eleitos, respectivamente, foram Manuel Neuer (Alemanha), Lionel Messi (Argentina) e Paul Pogba (França). Concordo com apenas com Neuer.
Por mais que ainda considere Messi o maior gênio do futebol mundial, desde que o francês Zinédine Zidade se aposentou em 2006, o craque deste Mundial de 2014, na minha opinião, foi o atacante Arjen Roben, que voltou a brilhar ontem no Mané Garrinhca, em Brasília, quando conduziu sua Holanda à conquista do 3º lugar do Mundial, na vitória de 3 a o sobre a Seleção Brasileira. Ademais, foi o próprio blog que apostou aqui, antes da Copa começar, que Pogba, aos 21 anos, seria a revelação da competição. Todavia, ainda que o francês tenha realmente jogado muito bem, é também a opinião deste “Opiniões” que ele ficou uma oitava abaixo do colombiano James Rodríguez, que ontem completou 23 anos, depois de marcar seis gols e terminar a Copa como seu artilheiro.
Do campo às arquibancadas, a Copa das Copas foi encerrada como começou. Depois de já ter sido vaiada, no momento em que a presidente do Brasil, visivelmente constrangida, entregou junto ao presidente da Fifa, Joseph Blatter, a taça o mais rápido possível ao capitão alemão Phillip Lham, se repetiu o mesmo coro ofensivo da abertura do Mundial, no Itaquerão (relembre aqui) e bisado duas vezes no Mineirão (confira aqui e aqui): “Ei, Dilma, vai tomar no c(…)”
Mas foram poucos segundos. Depois foi as ofensas à governante brasileira foram sufocadas pela festa dos jogadores alemães e sua torcida, mais uma vez com a presença da chanceler Angela Merkel, que já tinha sido aplaudida e teve o nome gritado pela torcida na Fonte Nova, em Salvador (reveja aqui), quando a Alemanha fez sua primeira apresentação na Copa, goleando Portugal de 4 a 1.
E o reserva Lucas Podolski e o craque Bastian Schweinsteiger, maior jogador em campo na final de hoje, foram reger a festa da torcida com a taça na mão, esbanjando simpatia como os mais brasileiros dos jogadores alemães (recorde aqui, aqui, aqui e aqui). Na comeoração, teve até dança da tribo dos germânicos, em torno da taça, como índios pataxós, com os quais conviveram durante a Copa na sede que construíram e deixaram de presente para funcionar como escola no sul da Bahia.
Com a Copa com totem da tribo, os alemães dançarem como índios pataxós em torno da sua maior conquista
“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade”
(Álvaro de Campos/ Fernando Pessoa)
“Vi coisas que vocês nem imaginariam.
Vi naves em fogo na encosta de Orion.
Vi raios cósmicos cingindo o espaço em Tanhauser Gate.
E esses momentos ficarão perdidos para sempre…
como lágrimas na chuva!”
(Do filme “Blade Runner”)
Heróis do meu pai: Em pé: Barbosa, Augusto, Danilo, Juvenal, Bauer e Bigode; agachados: Friaça, Zizinho, Ademir Menezes, Jair Rosa Pinto, Chico e o massagista Mário Américo
Sou filho de um adolescente de 14 anos, cuja grande frustração foi não ter ido, junto com seu pai e irmão mais velho, à final da Copa de 50, em 16 de julho, no recém-inaugurado Maracanã. Daqui de Campos, pelo rádio, o garoto (?) vibrou com o primeiro gol do jogo, de Friaça, que certamente abriria a contagem para mais uma goleada, igual a dos dois últimos jogos — 7 a 1 sobre a Suécia, campeã olímpica de 48, e 6 a 1 diante da Espanha, quando um coro demais de 200 mil pessoas cantava “Touradas de Madri” das arquibancadas.
O belo gol, emendando de primeira, de Juan Alberto Schiaffino — cracaço da Celeste Olímpica, integrante da lista oficial dos dez maiores camisa 10 que o mundo já viu, mesmo 50 anos após sua maior conquista — fez com que meu velho (?) e toda uma nação despencassem de nuvens soberbas com a cara no chão, passando a torcer como doidos pelo empate que garantiria o título. Dez minutos mais tarde, aos 34 do segundo tempo, após uma arrancada pela direita, veio aquele chute fatal de Ghiggia, quase sem ângulo, entre Barbosa e a trave, selando a história que todo brasileiro já ouviu falar e que os uruguaios, chamando-a “Maracanazzo”, até hoje se ufanam ao contar.
Com a dimensão, desde muito novo, desse fantasma do imaginário nacional, “tragédia maior que a de Canudos”, nas palavras de Nelson Rodrigues, me interessei pela história até esgotar as narrações de meu pai. Além, passei a ler o que me caísse à mão sobre aquele grande time marcado pela fatalidade. Tomei ciência, por exemplo, de que nosso scratch — para usar um anglicismo recorrente à crônica da época — era regido por um meia direita que a crítica internacional, aqui presente pela Copa, elegeu como jogador mais completo que já havia surgido no mundo até então: Zizinho, o Mestre Ziza.
E olha que naquela Copa ainda jogaram, além de Schiaffino, craques do porte dos também uruguaios Alcides Ghiggia e Julio Perez, do iugoslavo Rajko Mitic, do inglês Stanley Matthews, além dos próprios brasileiros Jair Rosa Pinto, Ademir Menezes, Danilo e Bauer. Como disse nosso tacanho Felipão e o Fernando Calazans vive satirizando em sua coluna: eram aqueles (bons) tempos em que se amarrava cachorro com linguiça.
Quando Péris Ribeiro, amigo daquele adolescente de 50, lançou seu “O Brasil e as Copas”, em 86, me presenteou, além dele, com um livro sobre a vida do Mestre Ziza, cujo título e autor não recordo, pois fiz a besteira de depois emprestá-lo. O primeiro livro me deu a base histórica de todo deslumbramento que colhi em 82, nos injustos gramados de Espanha, com Zico, Sócrates, Falcão, Leandro, Júnior, Luisinho, Cerezzo e cia. — “Maracanazzo” da minha geração. Já o segundo, me proporcionou a dimensão completa daquele grande mestre do futebol de que tanto ouvira falar.
Além da tragédia épica de 50, descobri ter sido Zizinho o grande ídolo de Pelé e, muito mais importante, herói da primeira grande conquista de meu time, construída ao lado de gente como Domingos da Guia, Jurandir, Biguá, Valido e Vevé: o tri estadual do Flamengo de 42/43/44. Vendido ao Bangu numa dessas imutáveis sacanagens dos cartolas, foi depois, já velho, jogar pelo São Paulo, ao qual conduziu ao título estadual de 57.
Algum tempo depois, quando Péris lançou seu “Didi, o gênio da folha seca”, em 93, numa livraria do Leblon, fui ao Rio prestigiar o amigo. Comigo foram Luiz Costa — que cobriu o evento pela Folha — e Adelfran Lacerda, todos conduzidos pelo hábil volante de (de carro) Leonardo Moreira. Pegando chuva desde Rio Bonito, chegamos ao Rio e paramos em Copacabana, para apanhar Christiano, meu irmão, então estudante universitário da PUC/RJ.
Ouvindo as impagáveis histórias de Leonardo, fui durante a viagem me preparando psicologicamente para o encontro cara a cara com o campista Didi, maior jogador da Copa de 58, na Suécia, nosso primeiro Mundial; bicampeão pela Seleção, em 62, no Chile; e, não fosse mais nada, herdeiro de Mestre Ziza. Aí eu entro na livraria e vejo não só Didi, mas também Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto, Nilton Santos, Vavá, Belini, Gerson, Afonsinho e… Zizinho.
Num dos poucos momentos em que despertei do meio transe no qual permaneci durante quase todo o coquetel, em meio a todos aqueles semi-deuses da bola, vi Luiz Costa indagar a Zizinho: “Você foi tido em sua época como o maior jogador do mundo e muitas pessoas hoje não têm essa dimensão. A que credita isso?”.
Ele respondeu: “O Brasil não sabe preservar sua história. Os jovens de hoje só querem saber de ouvir música americana no rádio e ver televisão. E eu não joguei na época da televisão!”.
A amargura do ídolo entrou pelo meu ouvido e ficou como fel salivando na boca. Talvez por isso não tenha tirado os olhos dele até que saísse do evento, acompanhado da esposa. Passaram pela porta, e, enquanto ela abria a sombrinha para protegê-los da chuva, enfrentei a timidez, saí também, me dirigi a eles e gritei: “Zizinho!”
Ele se virou. Eu disse: “Ouvi o que você falou lá dentro para o repórter. Pois eu sou jovem, gosto de música americana, mas ouvi e li muito sobre você. Você foi o melhor do mundo, jogou no meu time e foi campeão por ele. Nunca te vi jogar, mas você é um dos meus ídolos no futebol”.
Em meio à chuva fina, olhos marejaram e sorrisos se revelaram. Nos demos as mãos e o cumprimento virou um abraço. Após, ele deu um tapinha paternal na minha face e disse: “Valeu, garoto!”. Virou-se pela última vez, se abraçou à mulher, que também sorria com olhos infiltrados, e juntos saíram pela noite chuvosa, caminhando com a mesma classe que sempre atribuí, em minha imaginação, às suas passadas nos campos.
O Mestre morreu, mas nunca vou esquecer essa tabela que a vida nos deu.
(Publicado na edição de 17/02/2002 da Folha da Manhã, nove dias após a morte do Mestre Ziza)
Os brasileiros que hoje torcerão pela Argentina, na final da Copa, o farão em nome de uma “fraternidade americana”. Quem torcer pela Alemanha, o fará pela rivalidade com Argentina. A conclusão? “Ninguém simpatiza, ou detesta uma seleção estrangeira apenas pelo seu jogo”. É o que pensa o argentino Gustavo Alejandro Oviedo, publicitário e advogado radicado na planície goitacá desde 2001, após se casar com a campista Anna Karina. O torcedor do Racing questiona a lógica futebolística do cântico “Brasil, decime que se siente”, hit da torcida argentina na Copa que hoje certamente ecoará nas arquibancadas do Maracanã. Embora admita que os alemães tenham uma equipe mais equilibrada, ressalva que todo o time mais brilhante tem um mau dia. Em contrapartida, lembra que Messi já teve o seu, na semifinal contra a Holanda, que ontem derrotou o Brasil por 3 a 0 na disputa do 3º lugar. Se a Argentina ganhar, o hermano mapuche e goitacá aposta: “vamos ouvir aqui em Campos os gritos de alegria de Buenos Aires”.
Oviedo, com a camisa da seleção argentina (de rugby)
Folha – Como os argentinos estão encarando essa primeira final em 24 anos? Se ganhar uma Copa no Brasil, dentro do Maracanã, acha que isso poderá ser considerado na Argentina como um novo “Maracanazzo”?
Gustavo Oviedo – Não, seria um novo “Maracanazzo” só se Argentina vencesse o Brasil, o que, no fundo, imagino era o desejo de todo argentino, da mesma forma que os brasileiros queriam uma final com Argentina. Nunca vamos perdoar os alemães por ter nos tirado essa possibilidade. De toda forma, há na Argentina uma euforia muito grande por ter chegado à final depois de 24 anos. Quem tem menos de 28 anos nunca viu Argentina ser campeão, o que corresponde aproximadamente à metade da população. Se Argentina levar a Copa vamos ouvir, aqui em Campos, os gritos de alegria vindos de Buenos Aires.
Folha – Sucesso nas arquibancadas da Copa, o cântico “Brasil, decime que se siente” teve origem na rivalidade das torcidas do Boca e River. Como um torcedor do Racing vê a provocação aos brasileiros?
Oviedo – Sou do Racing, mas prefiro não ver nada sob a ótica do torcedor, pois é uma visão limitada e subjetiva do futebol. Ademais, considerando o desempenho do Racing nos últimos 30 anos, minha visão de torcedor seria amarga e rancorosa. Sobre a canção dos torcedores argentinos, me parece ao mesmo tempo fantástica e patética. Que os argentinos tentem provocar os brasileiros evocando uma eliminação acontecida há 24 anos, quando nesse intervalo de tempo o Brasil conquistou mais duas Copas, só pode ser considerada surreal e inofensiva. Nem dá para se indignar! Mas as provocações são o condimento que deixam o futebol mais gostoso. Só não pode passar disso, senão azeda.
Folha – Neymar disse que vai torcer pela Argentina, por conta do Messi e do Mascherano. Acha que isso ajuda a angariar a simpatia brasileira na final?
Oviedo – É bem provável que ajude. Muita gente aqui em Campos já tinha me falado que iria torcer pela Argentina, o que realmente me surpreendeu. São pessoas evidentemente malucas: o normal é torcer contra! Falando sério, quero destacar uma coisa: tanto aqueles brasileiros que torcem a favor da Argentina, quanto os que torcem contra, argumentam razões completamente extra futebolísticas. Quem é pró-Argentina fala da fraternidade americana; de não querer que a Alemanha seja tetracampeã, ou até do confronto político-econômico entre países emergentes e desenvolvidos. Já os que torcem a favor da Alemanha, o fazem porque não gostam da Argentina, ao ponto tal de apoiar os seus algozes. Uma espécie de Síndrome de Estocolmo (apego do sequestrado ao sequestrador). Conclusão: ninguém simpatiza, ou detesta, uma seleção estrangeira apenas pelo seu jogo.
Folha – Na Argentina, a transmissão dos jogos da seleção foi estatizada pela Cristina Kischner. Após o vexame contra a Alemanha, Dilma quer intervir no futebol. Até onde a “pátria em chuteiras” pode ir nessa associação entre política e futebol?
Oviedo – Foram declarações emitidas sob o trauma do 7 a 1, e penso que isso não irá prosperar. É que nem a ‘mini-constituinte’ que Dilma propôs depois dos protestos de junho do ano passado; lembra? O governo pode até pressionar para que aconteça uma mudança na cúpula da CBF, o que seguramente isso fará, mas não poderá ir mais longe. Mas não deixa de ser interessante observar que está se promovendo toda uma transformação na administração do futebol brasileiro derivada do resultado de um único jogo. Ou seja, se o Brasil tivesse ganhado contra Alemanha, as falcatruas da cartolagem não seriam tão graves assim. Na Argentina, como você disse, o governo comprou os direitos de transmissão do futebol local. Pagando caro, logicamente. Assim, o que se vê durante as emissões é propaganda oficial o tempo todo, tanto nos intervalos quanto na narração dos jornalistas esportivos. E o futebol local está a cada dia pior. Os jogos acontecem em estádios sem torcida visitante, por conta da violência. Não é um modelo a seguir.
Folha – Di María joga ou não? Se o fizer, não pode repetir Diego Costa pela Atlético de Madri, na final da Liga dos Campeões, onde o brasileiro naturalizado espanhol entrou para não conseguir jogar e sair, queimando uma substituição?
Oviedo – Parece que joga. Vi hoje no jornal que está treinando para isso. Ele faz tanta falta ao time argentino que, ainda jogando um tempo, será lucro para Argentina.
Folha – Não é irônico que a Argentina tenha chegado com fama pelo ataque, mas temendo pela defesa, e nos últimos jogos venha se destacando mais pela segunda do que pelo primeiro? Na semifinal, o volante Mascherano e o goleiro Romero foram os craques do time?
Oviedo – O que demonstra que, em se tratando de futebol, é temerário tentar dar algum palpite. Lembre-se que depois da primeira fase todo mundo dizia que o Mundial tinha se transformado na Copa América, pela quantidade de times da região classificados. Mas, ao chegar às semifinais, ficaram dois times de América e dois da Europa, e nenhum deles foi uma zebra.
Folha – De novo a Alemanha no caminho da Argentina. Quem leva esse tira-teima de 1986 e 1990? Que lembranças você e seu povo guardam daquelas duas finais seguidas de Copa?
Oviedo – Em 1986 Argentina tinha uma grande seleção, embora costuma-se dizer que era apenas Maradona mais 10. Os jogadores não eram craques, mas funcionaram de forma eficiente e o time mostrou um grande futebol. Para mim, essa Copa foi ganha de forma incontestável. Já na Copa de 90, a Argentina chegou à final graças apenas a duas pessoas: Maradona, eliminando numa única jogada o Brasil, que havia jogado melhor; e o goleiro Goycoechea, decisivo nos pênaltis contra Iugoslávia e Itália. A final de 1986 foi um jogaço, com Alemanha empatando depois da Argentina ir à frente por dois gols, e no final Burruchaga definindo o jogo. Por sua vez, a definição de 1990 foi bem mais chata, com apenas um gol de pênalti alemão, bastante polêmico para os argentinos. Espero que este novo encontro seja tão emocionante como aquele de 86, e com o mesmo resultado.
Folha – Considera a atual geração alemã melhor do que aquela de Matthäus, Klinsmann, Brehme e Völler? Depois do que fizeram com o Brasil, como parar Schweinsteiger, Müller, Kroos, Klose e cia? À bala?
Oviedo – Parece-me que a seleção alemã de hoje é sem dúvidas melhor que aquela de Beckenbauer (como técnico). Pense que Joachim Low já era técnico na Copa anterior, que eliminou Argentina por 4 a 0, e nessa partida jogaram três dos quatro jogadores que você menciona, o que revela um time que se conhece e está bem engajado. Um jornalista argentino definiu o time alemão como uma seleção que joga sem se importar em como vai jogar o seu adversário, mantendo suas características, que são a boa administração da bola, a firmeza na marcação e a solidariedade, que faz com que a bola chegue ao jogador melhor posicionado na hora de definir.
Folha – Parece consenso que os alemães têm o melhor time, enquanto os argentinos, o melhor jogador do mundo. Num esporte coletivo o primeiro não tem que prevalecer? Ou vingará a capacidade de desequilíbrio do grande craque?
Oviedo – Vamos ver. A lógica determina que uma equipe bem associada deveria ser mais eficiente do que outra cujos talentos são irregulares. Mas isto talvez funcione melhor em campeonatos de pontos corridos, onde o bom desempenho prevalece no longo prazo. Toda equipe, por mais brilhante que for, em algum momento tem um dia ruim. E se esse dia for uma final da Copa do Mundo, derruba o sucesso dos seis jogos anteriores. Por sua vez, Messi não jogou bem contra a Holanda. O dia ruim dele já passou.
Folha – Se Messi ganhar esta Copa, dentro do Brasil, poderá ser maior que Maradona? Algum dos dois é melhor do que Pelé?
Oviedo – O critério de quem é o foi o melhor jogador da história é completamente subjetivo, pois depende não apenas do jogador, mas também da pessoa que o avalia, e a relação emotiva que existe entre ambos. Quando se trazem argumentos estatísticos, a coisa não melhora. Para muitos brasileiros, Pelé tem números bem melhores aos de Maradona, o que lhe confere superioridade. Mas esses mesmos brasileiros consideram, com razão, que Ayrton Senna foi o melhor piloto de todos os tempos, sendo que quem venceu mais campeonatos de Fórmula 1 foi o Schumacher. Não estou fugindo da pergunta, apenas preparo o terreno para dizer que para os argentinos, e aqui me incluo, Maradona é o melhor, e para os brasileiros, foi Pelé. Acho que ambos grupos estão certos. Por sua vez, Messi é um craque, mas ainda está longe do patamar místico dos outros dois.
Com Neymar no banco para apoar os colegas, mas sem condições de jogo, o Brasil terá Maxwell na lateral esquerda, daqui a pouco, para disputar o terceiro lugar, às 17h, daqui a pouco, no Mané Garrincha, contra a Holanda. Além de ter falhado em alguns gols dos sete feitos pela Alemanha na semifinal de terça (08/07), sobretudo no lance que originou o primeiro, o ex-titular Marcelo sempre teve na defesa seu ponto fraco. E hoje, para marcar o craque holandês Arjen Robben, e com a obrigação brasileira de não dar outro vexame, as preocupações defensivas se redobram.
Assim, Maxwell é outra mudança em relação ao time que desmoronou diante da Alemanha, além das entradas já esperadas (e anunciadas aqui) de Paulinho, Ramires, William e Jô nos lugares, respectivamente, de Fernandinho, Hulk, Bernard (Neymar) e Fred — este último, já vaiado pela torcida de Brasília, assim que seu nome foi anunciado, mesmo entre os reservas. O Brasil entra em campo com: Júlio César, Maicon, Thiago Silva, David Luiz e Maxwell; Luiz Gustavo, Paulinho, Ramires e Oscar; William e Jô.
Atualizado às 16h22
Um dos principais destaques e cérebro da seleção da Holanda, o meia Wesley Sneijder sentiu uma fisgada na parte anterior da coxa direita, enquanto chutava uma bola no aquecimento, já dentro do gramado do Mané Garrincha, e não vai enfrentar o Brasil.
Velocista improvável aos 30 anos e dono de um drible de canhota tão mortal quanto o de Messi, Arjen Robben foi o craque da Copa até as semifinais. Louis van Gaal pode ser um baú de papelão sem alça em dia de chuva, mas é também um tático brilhante, capaz de alterar esquemas de acordo com os adversários e de mudar placares com substituições durante o jogo. A bem da verdade, de todas as quatro seleções que ainda estão no Mundial, ou das 28 que já voltaram para casa, a Holanda é o time mai difícil de ser derrotado. Tem uma defesa sólida e um contra-ataque letal, conjunto que garantiu uma campanha invicta, desclassificada pela Argentina apenas na loteria dos pênaltis.
Mesmo que contasse com Neymar em forma e não tivesse sofrido a maior humilhação da história das Copas, diante do mundo e dentro da sua própria casa, nos 7 a 0 impostos pela Alemanha, seria uma parada indigesta para o Brasil, na decisão do terceiro lugar de logo mais, a partir das 17h, no estádio Mané Garrincha, em Brasília. Na escalação mais compacta, com Paulinho em substituição a Fernandinho e, sobretudo, com Ramires no lugar de Hulk, além da volta de Thiago Silva à zaga, o Brasil, pelo menos em tese, estará mais seguro na defesa. Bem verdade que a insistência em jogar com centroavante fixo, com Fred cedendo vez a Jô, para poupar o primeiro das vaias das quais foi vítima no vexame do Mineirão, demonstram que Felipão está mesmo superado para o futebol hoje praticado no resto do mundo.
Mas quer saber, e daí? Os 11 que entrarem em campo o farão já exorcizados da pressão eleitoral de uma “pátria de chuteiras” cuja presidente-candidata descartou todos os 23 na manhã seguinte à derrota, como “pior dos pesadelos” e com direito a confissões de ex-guerrilheira marxista diante à câmera yankee da CNN. Da mesma maneira, jogarão de grilhões rompidos com uma obrigação de vitória imposta pela arrogância dos comandantes que teriam de proteger-lhes fora de campo, mas que de lá trouxeram para dentro o dilema entre glória ou maldição, sob a expiação de uma pátria que só se lembra de sê-la de quatro em quatro anos.
Se, como pregou ontem seu capitão na coletiva (aqui), quem hoje jogar realmente buscar no campo a restituição de sua honra representando um país, será capaz de fazê-lo, independente do placar. Como sua metáfora, talvez não haja esporte mais fiel à vida do que o futebol. Com a única certeza do apito final em ambas, que a Seleção Brasileira consiga hoje encarnar o estoicismo de Marco Aurélio (121 d.C./ 180 d.C.), imperador e filósofo romano: “Levanto-me para retomar a minha obra de homem”.
Como tudo começou, em 2007, com os então presidentes da CBF e da República, Ricardo Teixeira e Lula, e o presidente da Fifa até hoje, Joseph Blatter, entrelaçando mãos e interesses para a definição do Brasil como a “pátria de chuteiras” de sete anos depois
Independente do jogo entre Brasil e Holanda de logo mais, no Mané Garrincha, em Brasília, pela disputa pelo terceiro lugar da Copa do Mundo, alguém ainda duvida que ainda vivemos há algum tempo na deturpação da expressão “pátria em chuteiras”, criada pelo jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912/80)? Bem, se incerteza há, escute abaixo a vinheta gravada desde o ano passado, antes mesmo da Copa das Confederações vencida pelo Brasil, na campanha do governo Dilma Rousseff (PT) para a Copa do Mundo em ano de eleição, custeada pelo dinheiro público e batizada de… “Pátria de Chuteiras”:
Infelizmente, pelo menos para quem torcia apenas pelo futebol da Seleção Brasileira, não por sua utilização num projeto político de perpetuação no poder, tinha uma Alemanha no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma Alemanha. E numa tarde do Mineirão deu-se o vexame dos vexames na Copa das Copas.
Entre Carlos Alberto Parreira, José Maria Marin, Marco Polo Del Nero e Luiz Felipe Scolari, Dilma agora quer ameaça fazer uma intervenção, mas só após da humilhação mundial do Brasil, no futebol do qual já foi grande parceira e recebia camisa personalizada para o netinho Gabriel
Como nunca antes na história deste país, nem de nenhum outro, uma seleção campeã do mundo de futebol e semifinalista de uma Copa foi tão humilhado, por todos os ângulos e em tempo real, diante dos olhos de todo o planeta. Depois de gastar mais de R$ 9 bilhões na reforma e construção de estádios pelo país, 95% deles bancados com dinheiro público, mais que o somatório do custo das duas Copas anteriores na África do Sul (2010) e na mesma Alemanha (2006), além de resolver a mobilidade urbana brasileira na base dos feriados em dias de jogos, desafogando o trânsito, mas também o trabalho e a produção, num prejuízo estimado em R$ 60 bilhões, o que fazer antes de entregar o ouro esculpido em taça na mão do outro, na final de domingo no Maracanã?
Bem, já no dia seguinte (o9/07) ao vexame da goleada de 7 a 1 imposta com facilidade pela Alemanha, na semifinal de terça (08), a primeira a se mexer foi própria presidente Dilma Rousseff (PT), que buscou a rede estadunidense de TV CNN para tentar se justificar diante do mundo pela humilhação do Brasil na Copa que sedia (confira aqui a íntegra da entrevista). Ato contínuo, na manhã seguinte (quinta, dia 10), foi a vez do ministro dos Esportes Aldo Rebelo (PC do B), em pleno briefing promovido pela Fifa, ameaçar uma intervenção estatal no futebol brasileiro (relembre aqui).
Na sociologia da “pátria em chuteiras”, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, o candidato tucano Aécio Neves, o presidente da CBF, José Maria Marin, e o presidente eleito da entidade, Marco Polo Del Nero
Pois ontem, a oposição também resolveu entrar no jogo. Provando que vai fazer uso da democracia irrefreável das redes sociais em sua campanha, o candidato tucano à presidência, Aécio Neves, entrou de sola contra a iniciativa federal, que chamou de “Futebras”. Confira abaixo a reprodução da nota postada aqui, no perfil do Facebook do político mineiro:
— O futebol brasileiro precisa, é claro, de uma profunda reformulação. Mas não é hora de oportunismo. Principalmente daqueles que estão no governo há 12 anos e nada fizeram para melhorá-lo. E nada pode ser pior do que a intervenção estatal. O país não precisa da criação de uma “Futebras”. Precisa de profissionalismo, gestão, de uma Lei de Responsabilidade do Esporte. Com foco nos atletas, nos clubes e nos torcedores.
Eduardo Campos entre José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, recebendo camisa autografada da Seleção Brasileira, sonho de muitos eleitores
Por sua vez, o candidato do PSB a presidente da República, Eduardo Campos, também entrou jogo. Cumprindo agenda de campanha ontem em Natal (RN), ele ironizou os dois adversários, dizendo que Dilma e Aécio parecem estar querendo se candidatar a presidência da CBF:
— O debate de conteúdo é que precisa ser feito, um debate do bom senso. Pelo visto estão querendo se candidatar a presidente da CBF a Dilma ou o Aécio. Precisa do envolvimento e escuta da sociedade sobre uma lei de responsabilidade nos esportes de uma maneira geral, precisa fazer isso sem estar contaminado pelo ambiente eleitoral, tem que fazer com responsabilidade.
Ministro de Dilma, o comunista Aldo Rebelo comungou da mesma mesa com a cartolagem da CBF que agora ameaça de intervenção, depois de retirar artigos do projeto de um deputado tucano para moralizar o futebol, como denunciou publicamente Romário, aliado do petista Lindberg
Enquanto a bola é dividida pelos três como numa pelada, um ex-gênio dos gramados, deputado federal do partido de Eduardo Campos e candidato a senador na chapa do petista Lindberg Farias ao governo do Rio, também faz uso da democracia irrefreável das redes sociais para cobrar publicamente ao ministro Rebelo e à presidente Dilma. Romário pressiona ambos pelo apoio a um projeto de deputado federal tucano Otávio Leite (RJ), no sentido de sanear o futebol brasileiro, que teve vários artigos retirados com apoio do governo federal. Segundo o Baixinho denunciou aqui:
“Os artigos 36, 37, 39, 40 e 41 foram os retirados da proposta, em resumo, eles propunham o seguinte:
“Constituíam a Seleção Brasileira de Futebol e o Futebol Brasileiro como Patrimônio Cultural Imaterial; obrigavam a CBF a contribuir com alíquota de 5% sobre as receitas de comercialização de produtos e serviços proveniente da atividade de Representação do Futebol Brasileiro nos âmbitos nacional e internacional. O tributo também incidiria sobre patrocínio, venda de direitos de transmissão de imagens dos jogos da seleção brasileira, vendas de apresentação em amistosos ou torneios para terceiros, bilheterias das partidas amistosas e royalties sobre produtos licenciados. O valor seria destinado a um fundo de iniciação esportiva para crianças e jovens. A CBF também ficaria sujeita a auditoria do Tribunal de Contas da União.
“Ministro, curiosamente, tanto o Sr. como o presidente da Câmara dos Deputados pediram a retirada destes artigos, alegando que com eles a proposta não seria aprovada. Fica a pergunta, o ministério vai apoiar estas propostas? Aguardo a resposta.
“Incrível o que uma porrada de 7×1 não faz!”
Mesmo depois ter colocado o retrato de Dilma na parede como sua fiel sucessora, Lula ainda recebia os afagos dos cartolas da CBF Del Nero e Marin, também com direito à camisa personalizada com o número do PT e da sorte que o Brasil teria na Copa das Copas, na “porrada de 7 a 1” referida por Romário
Holanda — Não é mais o primeiro lugar que está em disputa, mas sim a nossa honra, a nossa dignidade. E eu acho que aquando você é atleta de Seleção Brasileira, você veste essa camisa com cinco estrelas, você tem que respeitá-la acima de tudo. Então eu acho que a motivação em vesti-la, está acima de qualquer coisa. Independente da situação, se a gente vem de uma derrota teoricamente dura, da forma que foi a última, eu acho que a gente tem tudo agora para virar a página e… é vida que segue! É um outro adversário, de muita qualidade também, mas a gente está muito motivado para esse jogo. É um adversário muito qualificado, que não chegou a decisão, acredito, por falhas nas penalidades. É coisa que acontece no futebol, mas teria totais condições de estar na final com a Alemanha. Então tem todo nosso respeito, todo nosso respaldo, e a gente vai tentar fazer um grande jogo (interrompido por Felipão, que lembra a eliminação do Brasil, com Thiago, pela Holanda, nas quartas de final de 2010). É basicamente o mesmo time que nos eliminou em 2010. E naquela ocasião, eu saí muito triste. E não vai ser dessa vez que eu vou querer sair triste novamente. Tentar virar essa coisa aí, tentar amenizar pelo menos um pouquinho a última partida.
Felipão continua? — Não é porque ele (Felipão) está do meu lado, mas eu já falei para ele, na frente do grupo e pessoalmente também, o quanto nós confiamos nele, e o quanto nós acrescentamos e crescemos de um ano e meio para cá. É claro que tudo começou com o Mano Menezes lá atrás,formando o grupo, e depois teve a saída. Eu acho que a saída é sempre um pouco difícil você tentar assimilar. E eu acho que o momento não é de você crucificá-lo, por um erro, por acerto, enfim, por qualquer razão. E a gente está junto, porque um grupo, quando um erra, erra todo mundo. Ele falou na última coletiva (da quarta, dia 9, seguinte ao jogo com a Alemanha) que ele teve a parcela dele de erro; como nós temos a nossa. Eu acho que quando a gente consegue dividir o erro em partes, fica leve, não fica pesado para todo mundo. Então, a derrota não é culpar o Felipão, porque quem estava dentro de campo fomos nós jogadores. Por mais que eu não estivesse em campos, eu faço parte daquele jogo também; eu me incluo, porque como capitão eu tenho que fazer esse papel. Infelizmente, aconteceu. E só vai acontecer agora daqui a 100 anos. Não é uma coisa que acontece regularmente. Foi um momento de seis minutos de pane que resultou num resultado final trágico pra gente.
Brasil sem Maracanã — É claro que fica frustrante pelo simples fato de você criar a expectativa em função de um jogo final, possível hexacampeonato, que era visível e todo mundo tinha essa consciência de que era possível também. E é frustrante, sim, porque eu passei muitas noites sem dormir, pensando nessa Copa do Mundo, nessa possível final. Infelizmente, não vai acontecer mas em nenhum momento eu acho que deixei de ter determinação para jogar futebol. Eu acho que a gente, quando é apaixonado por aquilo que faz, independente da situação, a gente tem que demonstrar e crescer com os erros. E eu acho que esse erro do jogo passado, com certeza faz a a gente muito mais forte.
Thiago Silva (zagueiro e capitão da Seleção Brasileira, na entrevista coletiva que ocorre neste momento, em Brasília)
Para qualquer brasileiro louco por futebol, era como estar em Nova York no 11 de Setembro, com o espetáculo de horror e grandiosidade da História diante dos nossos olhos, em tempo real. Apesar de tudo, foi um privilégio testemunhar o melhor do pior, sem mortos nem feridos: só humilhados.
Em qualquer clube-empresa, uma derrota dessas derrubaria toda a diretoria e até a presidência, por pressão dos acionistas. Mas os que escolheram a comissão técnica, os arquitetos do fracasso, como o presidente da CBF, José Maria Marin, dizem que o nosso futebol precisa de grandes mudanças, fingindo que não sabem que são eles a raiz dos problemas que nos levaram a essa humilhação histórica. Só falta culparem a imprensa golpista… rsrs.
Se essa sucessão de arrogâncias, negociatas, cinismos e incompetências que resultaram nessa épica derrota do futebol brasileiro — não de um time, mas como um todo — não for motivo para uma CPI suprapartidária, o que seria? Se 70% dos brasileiros exigem mudanças na política e na economia, imaginem no futebol. Mas com a “bancada da bola” investigando, em vez de ser investigada, nem esse, que seria o maior legado da Copa, teremos.
Se, como filosofava Neném Prancha, “pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube”, a escolha do técnico da seleção brasileira deveria ser feita em eleições diretas por todos os brasileiros maiores de 14 anos. E não por um cartola eleito por outros cartolas que dominam federações estaduais como políticos dominam currais e que vivem de vampirizar a paixão popular. Agora o sangue ferveu.
Mas Deus teve compaixão por Neymar e Thiago Silva, poupando-os de sofrer o vexame de corpo presente. E também por Lula, que não foi ao estádio para não ser vaiado e escapou do pior: ser acusado de pé-frio. E por nós, que escapamos de levar uma “zapatada” da Argentina na final no Maracanã. Deus é mesmo brasileiro.
Como sabem os grandes artistas, políticos, empresários e atletas vitoriosos, o sucesso não ensina nada, só infla o ego e subestima os limites, é nos fracassos que se aprendem as lições que levam a conquistas maiores.
Como diz o famoso comercial do vídeo acima: “Ai, mamita querida!”. Não bastasse a humilhação do Brasil diante do mundo, nos 7 a 1 impostos pela Alemanha, que até presidente Dilma Rousseff (PT) disse aqui à CNN — tentando limpar sua barra ao melhor estilo Felipão e Parreira — que não habitava nem nos seus piores pesadelos, na noite de ontem foi o próprio Maradona quem apareceu no IBC (Centro Internacional de Imprensa da Copa do Mundo), na Zona Oeste do Rio de janeiro, para reger os jornalistas argentinos no cântico que tem atormentado os brasileiros.
Criado na rivalidade entre os torcedores do Boca Juniors e o River Plate (conheça aqui suas origens), o canto “Brasil, decime que se siente” (“Brasil, me diga o que sente”), dizendo que Maradona é melhor do que Pelé (“Maradona és mas grande que Pelé”), foi cantado em conjunto e a plenos pulmões pelo primeiro e seus conterrâneos da imprensa, mas com uma pequena adaptação. Após a semifinal vencida pela Alemanha na terça (09/07), o título e primeiro verso da música, com uma pequena alteração, ficaram “Brasil, decime que se siete” (“Brasil, me diga o que são sete”). A adaptação ainda mais provocativa foi feita ainda no mesmo dia da tragédia brasileira, pelo sempre provocativo diário esportivo argentino Olé.
Até o domingo no Maraca, não tem jeito. Afinal, Messi, Mascherano, Romero, Di María e cia. fizeram por merecer. Mas se a profecia da última parte do seu cântico, “A Messi vocês vão ver/ A Copa ela vai nos trazer” (“A Messi lo vas a ver/ La Copa nos va a trazer”), seu eco provavelmente vai assombrar os brasileiros por tanto tempo ou mais do que o fantasma do Maracanazzo de 1950, quando perdemos com muito mais dignidade uma outra Copa dentro do Brasil, na virada de 2 a 1 do Uruguai.
Na dúvida, confira o vídeo abaixo da orquestra e seu maestro, antes dos campos, agora do canto:
Abaixo, para quem quiser conferir mais uma vez, as letras do hit argentino no original e em sua tradução portuguesa:
“Brasil decime que se siente
Tener en casa a tu papá
Te juro que aunque passen los años
Nunca nos vamos a olvidar
Que el Diego te gambeteó
Que Cani te vacunó
Que está llorando desde Itália hasta hoy
A Messi lo vas a ver
La Copa nos va a trazer
Maradona es más grande que Pelé”
“Brasil, me diga o que sente
Ter em casa seu papai
Te juro que mesmo que passem os anos
Nunca vamos nos esquecer
Que Diego (Maradona) os driblou
Que Caniggia os espetou (autor do gol argentino que eliminou o Brasil na Copa de 1990, na Itália)