Atualmente no Rede Sustentabilidade, partido para onde se mudou antes do naufrágio eleitoral do PT nas eleições municipais de 2016, o presidente da Câmara de Campos, vereador Marcão Gomes, é hoje considerado pelo PPS como uma das duas pré-candidaturas em que o partido pretende apostar para eleger dois deputados federais pelo Estado do Rio. O obstáculo seria a aliança antiga do edil com o deputado federal Chico D’Ângelo, ainda no PT e irmão do professor Luciano D’Ângelo, petista histórico de Campos.
Certeza e dúvida
Na edição desta coluna do último dia 4, Marcão confirmou (aqui) que, por ter sido o vereador mais votado de Campos em 2016, sua candidatura legislativa em 2018 seria “natural”. Mas não definiu se viria como deputado federal ou estadual. Na ocasião, ressalvou que o momento não era de se falar em pré-candidaturas, mas “de tentar achar soluções ao quadro caótico em que o governo (Rosinha Garotinho) passado deixou as finanças do município. Em todas as conversas que mantenho com lideranças políticas e comunitárias, digo que a hora é de nos unirmos para tentar ajudar o prefeito e a cidade”.
Elemento Rafael (I)
Ao ser abordado ontem mais uma vez sobre o assunto, mais especificamente do interesse do PPS em apostar em seu nome para conquistar uma vaga na Câmara Federal, Marcão repetiu o discurso da prioridade municipal. Todavia, como o PPS é o partido do prefeito Rafael Diniz (PPS), isso pode ser um indicativo — a depender, lógico, do que for aprovado na reforma política em Brasília. Como reforço dessa linha de pensamento, em relação ao seu compromisso com Chico D’Ângelo, o presidente do legislativo goitacá disse que isso hoje é secundário diante ao projeto eleitoral traçado para 2018 pelo grupo político do prefeito de Campos.
Elemento Rafael (II)
A coluna também teve a informação de que o deputado estadual Gil Vianna (PSB) estaria projetando sua reeleição como candidato da parte do grupo de Rafael que não apoia Marcão — caso este decida concorrer à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Gil desmentiu categoricamente a versão: “Não ajudei Rafael a se eleger (foi vice do pedetista Caio Vianna na chapa derrotada à Prefeitura). Mas sou amigo pessoal de Rafael e Marcão. Jamais me colocaria como opção a Marcão. Isso é mentira! Se Rafael quiser que eu seja candidato do seu governo, vou gostar muito. Mas vou concorrer à reeleição mesmo se ele não me ajudar”.
Elemento Rafael (III)
Outro que também tem Rafael como elemento da sua equação para chegar à reeleição é o deputado estadual João Peixoto (PSDC): “Sempre me elegi com o prefeito de Campos contra mim. Posso não ser o candidato de Rafael, nem ter seu apoio, mas ele não vai me atrapalhar”. Peixoto também voltou a comentar a possibilidade do médico Diogo Neves, do grupo IMNE, se lançar candidato em 2018 pelo seu PSDC, como esta coluna revelou (aqui) no início do mês: “Ele não falou nada comigo. Nem aconteceu a minha conversa com seu pai, o empresário Herbert Sidney Neves, de quem gosto muito. Diogo tem que querer as coisas. Voto não cai do céu”.
Esforços por reforma
Rafael Diniz se reuniu, ontem, com representantes de todas as secretarias, superintendências, fundações e autarquias da Prefeitura, voltando a destacar a delicada situação financeira e a necessidade dos esforços de todos para uma reforma administrativa. Ele ressaltou que nos organogramas de ajuste, apresentados pelos secretários e superintendentes, há mostras de gestores que compreenderam bem a proposta. E que espera que todos apresentem um projeto final de reforma, dentro da atual realidade do município.
Emendas
Hoje, às 9h, a vice-prefeita de Campos, Conceição SantAnna, vai receber a deputada federal Cristiane Brasil, na Casa de Convivência do Parque Tamandaré (antigo Clube da Terceira Idade). Na ocasião, será assinado protocolo de intenção das emendas no valor de quase R$ 1 milhão, que serão destinadas a projetos do Conselho Municipal do Idoso, Fundação Municipal do Esporte, superintendência dos Direitos do Idoso e secretaria de Desenvolvimento Humano e Social.
Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves
Publicado hoje (25) na Folha da Manhã
Atualização às 8h57 de 26/04/16 para correção feita aqui pelo leitor Edimar Azevedo
Há sempre aquelas coisas que queríamos dizer há tempos. E é sempre bom quando topamos com quem tem o condão de dizer na nossa frente, talvez até melhor do que tivéssemos capacidade de fazer. Afinal, além de constatar que não estamos pensando sozinhos, poupa trabalho.
Dominada nos últimos 28 anos pelo garotismo, na política de Campos é bem conhecido o discurso de defesa, diante de qualquer denúncia de malfeito: “se roubei, onde estão os sinais da minha riqueza?”. O que sempre levanta a complexa questão moral: é (menos) pior roubar para si, ou para um projeto de poder?
Com o assalto aos cofres públicos brasileiros eviscerado pelas delações da Odebrecht e a mais recente, de Léo Pinheiro, presidente da OAS, imposível não ver como a corrupção da prática política brasileira se prestou aos dois fins, muitas vezes ao mesmo tempo.
Entre uma e outra motivação da mesma prosmicuidade delinquente entre público e privado, esclarecedor o texto publicado ontem pelo Ricardo Rangel, diretor de produção da Conspiração Filmes e lanterna para quem busca vida inteligente na democracia irrefreáel das redes socias.
Após seis dias no escuro e de portas fechadas, Villa Maria teve energia elétrica restabelecida agora há pouco (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Como anunciado aqui, no artigo de ontem (23) da Folha, a Villa Maria recebeu hoje uma visita de técnicos da Enel e da Uenf, que acabaram de restabelecer a energia elétrica da Casa de Cultura da universidade. A iniciativa se deu cinco dias após a coluna “Ponto Final” denunciar aqui o fechamento da Villa Maria, na última terça (18), por falta de luz, água e internet.
O texto inicial viralizou na democracia irrefreável das redes sociais, alcançando até o presente momento 930 likes e 125 compartilhamentos. Sua consequência prática de hoje é um sólido indicativo de que só com a mobilização da população de Campos e região será possível salvar a Uenf do atual processo de desmonte que ameaça sua sobrevivência.
Leia mais sobre a crise da Uenf aqui e aqui, nos artigos, respectivamente, da professora e presidente da Aduenf, Luciane Silva, e do tradutor Marcelo Amoy, colaboradores do blog
Confira a cobertura completa do restabelecimento de energia na Villa Maria na edição de amanhã (25) da Folha
Zuleima de Oliveira Faria com a medalha Darcy Ribeiro
Não é de hoje que nossa cidade tem sido reconhecida como um polo universitário de grande importância regional — importância que precedeu a criação da Uenf. Desde antes de eu nascer e avançando décadas em minha vida, de vez em quando se falava na (importância ou necessidade de) criação de uma universidade aqui por nossas bandas — sonho que sempre era frustrado por motivos variados. Na impossibilidade do sonho completo, partes dele foram sendo construídas por alguns valentes que simplesmente não desistiam. Assim, em 07 de março de 1960 aconteceu a primeira aula na Faculdade de Direito (refundada depois de décadas — já tivemos outra antes, que fechou); em 06 de abril de 1961 foi fundada a Faculdade de Filosofia; em 14 de outubro de 1967 inaugura-se a Faculdade de Medicina; e em 19 de janeiro de 1972 junta-se ao grupo a Faculdade de Odontologia — todas “de Campos”, embora a serviço de toda a região. Por muitos anos, a oferta de cursos foi limitada aos oferecidos por essas quatro grandes instituições e mesmo a vinda da Faculdade Candido Mendes não mudou o fato de que não tínhamos uma universidade. [Só mais recentemente Campos recebeu várias outras instituições de ensino superior, que passaram a oferecer os incontáveis cursos de que a cidade dispõe hoje.]
A crise econômica do final dos anos 80 agravou a já (constantemente) periclitante situação financeira das quatro faculdades locais e eu me lembro bem que essa dificuldade fez com que elas se unissem para pleitear uma participação pública em sua manutenção. O plano original era que elas fossem encampadas pelo Estado, que passaria a geri-las, oferecendo mais cursos e fazendo com que surgisse uma “Universidade de Campos”. Sou testemunha ocular da imensa dedicação e do gigantesco trabalho empreendido nesse sentido pelos dirigentes de nossas quatro faculdades naquela época. Ainda que eu peça desculpas por não citar todos, não posso deixar de mencionar alguns nomes envolvidos naquele processo – lembrados pelo meu afeto pessoal e proximidade: os drs. Geraldo Venâncio e Osvaldo Cardoso de Melo; as estimadas professoras Maria Thereza Venâncio, Cacaia Martins e Ruth Maria Martins; a inteligentíssima educadora e poeta Véra Passos e a inestimável educadora, professora e dr. Zuleima de Oliveira Faria (minha saudosa tia e “mãe-drinha”). No entanto, os planos mudaram.
A ambição do governo do Estado do Rio de Janeiro foi maior do que a nossa, daqui de Campos. Numa reviravolta, algo por definição inesperado e surpreendente, o Estado nos propôs ir bem além do que estávamos pleiteando. Se, por um lado, as quatro instituições locais seguiriam tendo que administrar seus problemas financeiros por sua própria conta, sem a ajuda estatal, por outro a cidade seria presenteada com um projeto moderno de universidade que nem sequer tinha sido sonhado — pelo menos não daquele jeito que Darcy Ribeiro nos propunha. O grupo de trabalho original se desfez, então, e uma nova equipe foi designada pelo governador do Estado — equipe na qual, se não me falha a memória, do grupo original só a professora Zuleima Faria continuou. Pude seguir acompanhando, então, muitos dos bastidores da criação da Uenf e chego a ter orgulho das vezes em que transportei documentos importantes daqui para o Rio e vice-versa — em busca de assinaturas urgentes e zelando pelo sigilo demandado. Mesmo não sendo mais que um mensageiro, naquelas viagens me sentia um sacerdote.
O primeiro reitor da Uenf, Dr. Wanderley de Souza, escreveu em janeiro de 2013 que a Uenf foi imaginada como “uma instituição inovadora,comprometida com a existência de um corpo docente constituído exclusivamente por pesquisadores com doutorado motivados a desenvolverem projetos em áreas estratégicas para o desenvolvimento do país e a formarem recursos humanos de alto nível”. Na mesma ocasião, ele também escreveu: “Cabe ainda registrar o fato de que a Uenf não é apenas uma bela experiência acadêmica que uniu Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer e centenas de professores, alunos e servidores. É uma experiência que deu certo. Hoje oferece dezessete cursos de graduação para 4 mil alunos e 14 cursos de pós-graduação para cerca de mil alunos. Já graduou, ao logo de seus dezenove anos de existência, mil e oitocentos alunos e deu origem a cerca de 2 mil e quatrocentos teses de mestrado e doutorado.” Eis aí o panorama do que estamos arriscados a perder.
Não quis o destino (até hoje, pelo menos) que eu estudasse ou trabalhasse na Uenf, mas a universidade me é próxima por empréstimo aos anos e ao amor que minha madrinha Zuleima dedicou às suas instalação, fundação e consolidação – é que depois de funcionando, tia Zuleima foi a coordenadora acadêmica da Universidade por 14 anos, até 2007. Assim, desde o começo dos anos 90, por praticamente duas décadas a Uenf esteve dentro da minha casa, fazendo parte da minha família. É como membro da família que a vejo agonizar em praça pública e me sinto impotente para socorrê-la. O que posso fazer frente um Estado destruído por irresponsabilidade, má gestão e corrupção? Não é por implicância que falta dinheiro para a Educação – falta para tudo, inclusive para o básico: o salário do funcionalismo. O que podemos sacrificar para salvar a Educação – e, no panorama estrito: o que podemos sacrificar para salvar a Uenf? É preciso que façamos algo, mas… o quê?
Em 2011, a Uenf homenageou sua ex-servidora Zuleima com a mais alta comenda da instituição, a medalha Darcy Ribeiro. Na ocasião, ela relembrou vários fatos da história da universidade e de sua fala pincei o seguinte trecho: “Depois de quatro anos afastada, volto à Uenf e fico assustada. Novos prédios, esse magnífico Centro de Convenções, a expansão dos cursos para outras regiões do Estado do Rio e principalmente pelo seu compromisso social, que está se fazendo notar.” Bom que a surpresa dela na época era positiva e se evidenciava pelo avanço da Uenf como uma instituição transformadora de toda a nossa região. Como ela ficaria assustada, decepcionada e arrasada se tivesse vivido pra ver o estado em que a Uenf se encontra hoje… No seu falecimento, em julho de 2013, a coroa de flores enviada pela Uenf trazia a mais linda das mensagens para quem dedicou a vida inteira ao desenvolvimento do ensino superior em nossa cidade: “Descanse em paz, Zuleima, levando a certeza de que sua obra continuará.”
Não sabemos hoje se essa obra continuará – e se continuar: a que duras penas? Semana passada, a Casa de Cultura Villa Maria foi fechada por falta de energia – sem prazo para reabertura. Antes, a falta de verba já impedia a renovação de contrato de segurança dos campi – oportunidade infelizmente aproveitada por ladrões e vândalos. Falta de tudo na universidade, menos vontade de vencer as dificuldades e prosseguir. Confesso que eu gostaria de ter uma sugestão inteligente pra alardear e salvar a Uenf como num passe de mágica ou invocar um “deus ex machina” e… pronto: tudo resolvido. Mas o espanto é tanto que até agora só fui capaz de sentir e demonstrar um choque profundo pelo estado das coisas. Estagnação.
Não sei se devo me desculpar por nem tentar separar as camadas de sentimentos (até) contraditórios que este texto evidencia. Amor e morte; orgulho e perda; sucesso e fracasso; urgência e paralisia. Contudo sei que não quero (nem poderia) separar minha relação com a Uenf da que tive com minha madrinha: por isso a foto dela lá em cima, orgulhosa de sua obra, com a medalha Darcy Ribeiro no peito e um sorriso de alma inteira e de dever cumprido. Lamento se considerarem este texto mais pessoal do que o adequado; mas garanto que meu lamento é por todos (ainda que eu o sinta como ninguém mais). Sei que precisamos colocar um sorriso desses em nossos rostos também – todos nós, cidadãos campistas – e nos unirmos em defesa de nossa universidade. Porque ela é NOSSA.
Não sei o que fazer, mas farei junto com quem souber.
Apesar da infância frequentando as missas de domingo no Convento, onde minha mãe fazia escambo das presença dos dois filhos pela pipoca com queijinho frito na saída, não me tornei católico. Mas fui batizado e fiz a primeira comunhão — se não me falha a memória, a primeira e última vez em que me confessei a um padre.
Especificamente em relação a Maria, admito interpretá-la, enquanto figura religiosa, com teologia próxima dos evangélicos. Ainda que sem nenhuma simpatia especial por estes, sempre fui incapaz de ver na mãe de Cristo nada além isso — nem menos, nem mais.
Mas admito ter sentido uma energia diferente quanto visitei a casa na qual ela teria vivido e morrido, uma habitação humilde de pedra, com dois cômodos, próximo às ruínas da cidade Éfeso, na atual Turquia. Ela teria sido levado para lá por José de Arimatéia, para fugir da perseguição romana após a crucificação do seu filho.
Já em relação à multiplicação da figura de Maria, personalizada à fé particular dos vários lugares do mundo onde é adorada, reconheço no fenômeno a reedição do que aconteceu na Antiguidade, por exemplo, com a deusa pagã Atena, cujo culto foi sincretizado com várias outras divindades do Mediterrâneo, chegando a ser adorada até na Índia.
Razão à parte, sou neto de uma Maria da Penha, filho de uma devota da santa e convivo há décadas em Atafona. Ao londo dos anos, fui permeado pela fé das mulheres da minha família, a mesma dos pescadores, que sempre admirei, em sua protetora. Por ela, os homens do ofício de Simão realizaram na tarde de hoje (aqui) mais uma procissão fluvial com a imagem de Nossa Senhora da Penha, onde o Paraíba do Sul deságua no Atlântico, numa tradição de 160 anos.
Abaixo, alguns registros pessoais dessa fé viva e feminina, como as águas de um rio em seu encontro com o mar:
Multidão reunida entre a Igreja da Penha, o Mercado de Peixe e o Restaurante do Ricardinho (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Confraternização entre os participantes da tradicional disputa de natação em busca dos patos soltos no Paraíba (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Meninos em seu brinquedo de bolhas de sabão (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Devotas observam o movimento enquanto aguardam a chegada da santa pelo rio (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Idade não subtrai a vaidade das sandálias douradas, unhas pintadas e corrente de outo no tornozelo para receber a Penha (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Três prinicpais varcos da procissão fluvial, trazendo, por ordem, as imagens do Cristo, de Saõ Jorge e de Nossa Senhora da Penha (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Com o mangue ao fundo, imagem do Cristo é a primeira a ser descida no cais (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
No andor sobre os ombros dos fiéis, Cristo levita entre as copas das amendoeiras do Ricardinho (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Depois de Cristo, São Jorge desfila suas armas diante à multidão de fiéis (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Com o menino Jesus ao colo, Nossa Senhora da Penha, dona da festa, é a última a chegar (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
No Brasil polarizado desde as eleições presidenciais de 2014, divisão recrudescida a partir do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016, com o debate diariamente esgarçado pela esquizofrenia a puxar as pontas opostas da mesma corda, difícil achar uma causa comum. Pelo menos para Campos, Norte e Noroeste Fluminense, a defesa da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) surge como raro exemplo daquilo que ainda é capaz de unir. Afinal, a despeito de quaisquer outras diferenças, não há dúvida de que o desenvolvimento enquanto sociedade passa, prioritariamente, pela oferta da educação pública de qualidade.
Quer se tenha ou não votado em Luiz Fernando Pezão (PMDB) em 2016, é impossível não se revoltar diante ao desmonte da Uenf promovido pelo governo eleito naquele pleito. Especificamente em relação ao povo de Campos, talvez fosse bom ressaltar que, no segundo turno da eleição a governador, Pezão ganhou em nada menos do que cinco das sete Zonas Eleitorais do município — a despeito do seu adversário, Marcelo Crivella (PRB), ter recebido o apoio incondicional do campista Anthony Garotinho (PR).
Muito além dos votos dados a Pezão, ou a qualquer outro político, a defesa da Uenf tem que ser assumida pelos méritos da própria universidade. Como seu reitor, Luís Passoni, destacou em artigo nesta mesma página de opinião da Folha da Manhã, publicado em 28 de março último: “Apesar das dificuldades, apesar de estarmos há 18 meses sem repasses de verbas de manutenção, apesar dos salários atrasados, mais uma vez a Uenf desponta entre as melhores do Brasil, segunda melhor no Estado do Rio de Janeiro, décima terceira em todo Brasil. Já fomos a melhor do Estado e 11ª do Brasil”. O ranking mencionado é o Índice Geral de Cursos (IGC) do ministério da Educação (MEC).
As ressalvas de Passoni talvez sejam até sutis para se dimensionar o quadro dantesco que se abateu sobre a Uenf, com a explosão da crise financeira do Estado do Rio. Após quase duas décadas sob a gestão do mesmo grupo político — que chegou ao poder com Garotinho, em 1999, e se fragmentou após a ascensão do seu então aliado Sérgio Cabral, em 2007 — o saldo é que Pezão, ex-colaborador de ambos, hoje deve o pagamento de 13º, salários de março e, daqui a alguns dias, de abril, aos 950 funcionários da Uenf (310 professores e 640 servidores técnicos e administrativos). Isso sem contar o atraso de dois meses aos alunos bolsistas, mais um ano e meio sem repasse de verbas de manutenção e custeio, no valor de R$ 2 milhões/mês, às instalações que abrigam 6,2 mil universitários.
Como reflexo direto dessa crise talvez sem precedentes em território fluminense, e seus reflexos diretos sobre a Uenf, a primeira vítima foi justamente sua batedora de vanguarda. No último dia 18, sem energia elétrica, água ou internet, a Villa Maria, Casa de Cultura da universidade, fechou suas portas.
No dia seguinte, a coluna “Ponto Final” contou (aqui) um pouco da história da Villa. Palacete construído em 1919, pelo arquiteto italiano José Benevento, foi um presente do engenheiro e usineiro Atilano Chrysóstomo de Oliveira à sua esposa, Dona Maria Queiroz de Oliveira. Mais conhecida como Finazinha, por ter nascido no Dia de Finados, e pela promoção de atividades culturais, ela doou a própria residência, em testamento, para ser a sede da futura universidade que viesse a ser instalada no Norte Fluminense. Como a Uenf só seria inaugarada em 1993, foi desejo antecipado à realidade em quase um quarto de século.
Abandonada com a morte de Finazinha, em 1970, o suntuoso prédio da rua da Baronesa da Lagoa Dourada seria reformado nove anos depois, no governo municipal do arquiteto Raul Linhares, passando a ser a sede da Prefeitura de Campos também nas gestões seguintes de Wilson Paes, Zezé Barbosa e Anthony Garotinho. Após a instalação da Uenf, num projeto pessoal do antropólogo Darcy Ribeiro concebido no governo estadual Leonel Brizola, a Villa Maria passaria a abrigar a Casa de Cultura da universidade.
Como sede da Prefeitura ou Casa de Cultura da Uenf, o fato é que, entre 1979 e 2017, foram quase 40 anos da Villa Maria aberta diariamente, antes de fecharem suas portas na última terça. Amanhã (24), há a perspectiva de que técnicos da universidade e da Enel estejam no local, tentando viabilizar uma solução. Entretanto, a dívida da Villa com a concessionária de energia elétrica gira em torno dos R$ 50 mil. Da Planície ao Planalto, há também a expectativa de que a ajuda federal ao Estado do Rio, no valor de R$ 1,5 bilhão, cujos destaques foram votados a aprovados na Câmara Federal no último dia 19, sejam apreciados o quanto antes no Senado.
Na sexta (22), em artigo publicado (aqui) no blog “Opiniões”, hospedado na Folha Online, a presidente da Aduenf, professora Luciane Silva, escreveu: “Manter a Uenf aberta é uma forma de resistência e acima de tudo uma aposta de que o futuro de Campos pode ser muito mais luminoso. Mais humano e justo. E essa defesa deve acontecer em nossa prática cotidiana, na ampliação da luta por uma educação feita de curiosidade, emancipação, crítica. Esta foi a universidade sonhada por Darcy e abraçada pelo Norte Fluminense”.
Nas duas semanas seguintes, a partir de amanhã (23), outros colaboradores do “Opiniões” estarão emitindo as suas diariamente, sobre o mesmo tema capital a Campos e região. Afinal, quem vivendo por aqui, mesmo sem nunca passar pelas salas de aula da Uenf, já não testemunhou o crescimento pessoal de um parente, amigo ou colega de trabalho depois de fazê-lo?
Emérito aforista, é de Darcy o dito: “Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”.
O homem cria a arte, a arte recria o homem, dentre tantas recriações essa semana encontrei uma magnífica: Fernando Leite. É revigorante saber que não importa o tempo de estada Campos sempre surpreenderá com novos pontos de vista, parece que nem o tempo do mundo seria suficiente para conhecer todas as histórias que essa cidade contém em si, todas as pessoas que valem a pena ouvir. Nessa planície de características tão marcante percebi que o homem nasce pela arte, cresce pela política e a morte não é um mero padecer de corpo, mas o medo da vida. Lembro, ainda encantado com os novos cenários à minha vista e as novas vistas à minha mente, do primeiro texto publicado em 26 de março de 2016 nesse espaço, contando o diálogo de um jovem recém chegado com um descendente dos Goytacazes, e um autor cheio de ansiedade para as próximas publicações: O Anfitrião Goitacá.
“— Campos é uma cidade em busca da juventude perdida como uma criança que não teve infância, meu jovem, se tem projetos de vida, veio ao lugar certo. – Disse o homem de pele marcada, virando uma dose de cachaça assim que eu me ajeitei no balcão.
—Não se escuta isso de quem viveu 50 anos tomando o mesmo café, usando o mesmo açúcar, espreitando da janela a cana velha que nessa terra não nasce mais.
Por arrancarem meus olhos com foice enferrujada não enxerguei o futuro, me afundei no passado. Hoje o que me resta é o reflexo no fundo desse copo de cachaça com tabaco, em cada dose as palavras que me faltaram, os sorrisos que desconheci.
Escute bem, meu rapaz, afofei essa terra com cuspe e sangue quente, aqui plantarás sua semente e dela colherás frutos somente se enraizar na sua mente. Sou descendente dos Goytacazes, não me dizimará mãos de capatazes, honre a minha memória e faça dela a glória. Quantos oceanos há de atravessar para encontrar o seu lugar?
— Meu senhor, nasci de um aborto, meu dente é rente, é tilintar pro teu sangue quente, se Campos me deu lugar, aqui, vou ficar. Não se engane, quando a guerra acaba sou o soldado no campo de batalha, defendo a minha pátria nem que seja com navalha. Afaste de mim essa enxada, cheguei até aqui com as palavras colhidas das flores, nelas vou pra onde a minha vista não alcança e levo junto o teu nome pra longe dessa manada.
— Rapaz, tire do seu peito esse ranço, veja na minha pele que a vida não me fez manso, não deixe que ela faça o mesmo com você. O dia já está se deitando pra noite aconchegar, deveria procurar um lugar ou alguém que faça o teu sorriso se abrir.
— Senhor, vejo tuas marcas, bem sabes que a ferida maior está onde não se pode ver. A verdade é que poucos desamados sabem ser altruístas, tempos mortos para o meu coração não se transformam em virtudes, aguçam a pobreza da minha essência. Meu senhor, devolverei teus olhos, facão nenhum cortará a tua gana, nessas palavras está o meu sangue e dele você há de beber. – Terminei a dose de um só gole e bati o copo no balcão, limpei a boca com o dorso da mão.
— Não tenha pressa garoto, seria melhor se não deixássemos esse bar, já sabemos o que nos espera lá fora. Pegue uma cadeira, sente-se, agora temos todas as semanas, nesse mesmo dia, para te contar o que vivi…”
Texto que tal como esse, tantos outros, pelos caminhos da vida, me fazem refletir e retornar sempre a um dos meus poemas prediletos, exasperados pelas canetas e vozes do poeta espanhol Antonio Machado: Cantares.
“(…)
Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar
Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar
(…)”
Ou talvez seja uma benesse própria ter a chama nunca apagada de quando criança ao se encantar com as coisas do mundo vistas pela primeira vez. Talvez o sentido da vida esteja aí, ao lado do amor, saber enxergar a beleza que traz uma brisa calma permeada de perfume d’outros tempos, saber ouvir as palavras doces que saem de bocas às vezes tão amargas, enxergar nos olhos da pessoa amada o reflexo da própria alma, o abraço da poesia. Quanto ao tempo, juiz soberano das vidas que passarão antes de serem vividas, fica o conto de cenários campistas, publicado nesse espaço que me honra, em setembro de outrora:
Um Piscar de Olhos
“Quando Eugênio deu o primeiro grito nesse mundo o céu estava imundo de poeira, fumaça e pedaços de sonhos destruídos. Num quarto da Beneficência Portuguesa uma lágrima escorria de sua mãe ao ver a face do filho pela primeira vez, o chão frio e cinza era palco dos passos calmos do médico enquanto dava tapinhas em seu corpo para circular o sangue recém-nascido.
Quando Eugênio abriu os olhos tinha 5 anos, estava deitado num banco do Jardim São Benedito e media a abertura das pálpebras com a luz do sol rente ao seu rosto. Tinha dentro de si as bilhões de estrelas do céu, que saíam do seu peito para preencher a noite. Os seus lábios desenhavam os sorrisos de quem vê em tudo a novidade, sentia o cheiro doce das árvores, o calor do sol na pele, as cores vivas das folhas caindo com o balanço do vento, tudo como se fosse a primeira vez, cada dia de vida era o mundo se mostrando, se iluminando em cantos e sabores. Fechou os olhos para sentir o pulmão se encher com o ar puro da árvore que em silêncio lhe sombreava o rosto.
Quando Eugênio abriu os olhos tinha 25 anos, estava sentado numa carteira do IFF procurando novidade nas mesmas palavras ditas pela professora a sua frente, nas mesmas escritas na lousa que tantas vezes apagara as mesmas letras, há 4 anos respondendo as mesmas perguntas feitas a todos da sua turma como se fossem uma só pessoa, desanimando da vida como desanima alguém que não é livre para escolher o próprio destino, perdendo o sabor da vida a cada estalar de dedos para lhe aprisionar a atenção. Odiava cada dia que chegava à sala de aula e as vozes de seus professores lhes causavam náuseas, batia a caneta firme na madeira da carteira como se expurgasse seus anseios e se lamentava que deveria ter feito tudo diferente quando ainda não houvera feito 20 anos, devia ter estudado para outro curso, agora, depois de tantos anos sem fazer vestibular e quase se formando não podia mudar, tinha que continuar. Queria ter criado a coragem de realizar o seu sonho, ter largado tudo e viajado o mundo tocando violão na esquina, lavando prato na cantina e sorrindo porque a vida importaria mais que essa conta ridícula na sua escrivaninha. Fechou os olhos para respirar fundo e se acalmar, em sua cabeça era só um momento a que tinha de passar…
Quando Eugênio abriu os olhos tinha 50 anos, levantava-se toda segunda-feira esperando a sexta-feira, escovava os dentes para sujá-los mais tarde com comida fast-food num canto da solidão, perdendo de si a própria razão de ser. Gostava de quando chegava o fim do dia, não fazia o que queria, mas não tinha de se torturar em trabalho de vida finda. Havia seguido os conselhos dos falecidos pais e família, escolheu um trabalho sem sentido para fazer depois o que valia, mas já não tinha ânimo para fazer do tempo passado um presente, gastava maior parte do tempo desperdiçando a vida em desejo de gente morta e reclamando que deveria ter mudado quando era tempo, quando ainda tinha 25 anos. Sentado no sofá com um hambúrguer como jantar e uma amiga mosca a sussurrar com as asas frenéticas perto dos seus ouvidos, Eugênio fecha os olhos para a noite passar levando consigo os pensamentos combalidos…
Quando Eugênio abriu os olhos tinha 70 anos, estava aposentado de uma vida inteira indesejada, sentado na sua cadeira de balanço balançava os pensamentos e lembrava os dias em que colocara em sua cabeça: era só um momento a que tinha de passar… Queria ter mudado tudo aos 50 anos, mas os momentos passaram e com eles a vida também passou, ele amou, mas não se entregou, sofreu, mas não chorou. Nas aulas da faculdade que ele torcia para acabar, nos dias no trabalho que ele torcia para passar, mal imaginava: torcia para a vida acabar.
Quando Eugênio fechou os olhos para imaginar a vida que deixara passar estava no mesmo lugar quando a vida houvera começado, deitado no banco do Jardim São Benedito, medindo a abertura das pálpebras com a luz do sol. Via crianças brincando em torno da Academia Campista de Letras, e imaginava se uma delas conseguiria ser livre, dona do própria destino, acima das imposições sociais e ter a liberdade de ser diferente, quem sabe, até mesmo feliz. Eugênio tentava manter os olhos abertos, mas o corpo secular cansa com coisas tão mansas…
Quando Eugênio fechou os olhos tinha 90 anos, estava na sua varanda, com sua mão em trança, a cadeira que balança seu corpo também balança seus pensamentos, no mesmo lugar d’onde enxergou o primeiro dia de vida aos 70 anos. E pensava nas coisas que podia ter vivido quando se-tenta, mas deixou se levar pelas reclamações do corpo, mais uma vez a vida passou e ele nada pode fazer para tornar o passado presente, o tempo é algo mesmo complicado. Eugênio tentava manter os olhos abertos enquanto o vento gostoso lhe acaricia o rosto, olhava as crianças lá embaixo e imaginava se uma delas seria sábia o suficiente para respeitar a vida e não afastá-la resmungando como uma criança mimada… Um raio de sol começa a surgir pelas rugas em sua orelha, deslizando pelo seu rosto até chegar aos olhos lacrimejantes. Eugênio lembrou do começo da vida enquanto media a abertura das pálpebras com a luz do sol.
Quando Eugênio fechou os olhos eles não mais se abriram, não havia mais brilho, e num piscar de olhos a vida havia partido. Ainda estava um sol quente quando o sepultamento no cemitério Campo da Paz terminou, a terra quente banhada em lágrimas escondia o corpo de Eugênio embaixo dos pés dos familiares e amigos. O vento levava o mesmo cheiro doce das árvores quando todos foram embora, ainda havia sol e um corpo frio, como tantos outros que passaram a vida tentando fazer sentido. Quando o vento parou, da mesma forma que a árvore – Eugênio – silenciou.”
Ao completar minha terceira contribuição para o Opiniões, resolvi refletir sobre a pesquisa e a produção de conhecimento no Brasil. As últimas semanas, as últimas listas, os últimos cortes e prisões… tudo faísca e a República respira delações. Atmosfera pesada que nos exige “nervos de aço”.
Como educadora, passei o domingo imaginando um texto no qual contasse a historia do primeiro pescador que entrevistei em Campos, na praça São Salvador. Lembro-me bem daquele dia. Um ato em favor dos royalties do petróleo, em uma praça esvaziada. Todos os entrevistados, fora um vendedor de picolé e um homem que corria para o barbeiro, prestavam algum serviço à Prefeitura.
De lá para cá já se passaram anos suficientes para acessar uma camada mais profunda da cidade e compreender um pouco mais de sua composição e de suas memórias. Naqueles tempos, Eike Batista ainda não tinha sido preso e pensava em transformar São João da Barra na “Veneza brasileira”. E para cá se dirigiam levas de trabalhadores, técnicos, comerciantes e até mesmo funcionários públicos. Todos inebriados pela imagem do grande empreendedor brasileiro que rodava seu imposto de renda em São Paulo. O Rio de Janeiro não tinha os zeros necessários para o tamanho de sua contribuição.
Nas últimas semanas, muitas confissões colaboram na construção de um quadro tragicômico. Mas se aos inocentes é dado o direito ao choro, o que dizer da juventude de Campos, de Pádua, de Macaé, de Rio das Ostras? Que teve seu futuro subtraído com o rombo criado nas contas do Estado. O que dizer aos filhos de pedreiros ou pequenos agricultores, que viram na possibilidade de qualificação, a saída para a falta de recursos em suas cidades?
Posso testemunhar, em tom confessional, que nada parte mais o coração do que vivenciar a frustração de uma criança ou de um jovem diante da impossibilidade de permanecer na escola. Creio que todos irão identificar essa experiência. Se existe algum consenso em nossa fragmentada sociedade, é quanto ao valor da educação.
Se esse acordo está posto, o que temos feito para assegurar a continuidade destes projetos? E o que eles significam concretamente? Não creio que seja útil para o argumento central deste texto, uma defesa genérica da educação. E por quê? Porque não vivemos condições de igualdade nas quais a meritocracia possa ser a variável de construção do acesso à educação. Sabemos que a formação de um médico ou de um arquiteto tem um custo altíssimo. E que a formação de um médico e um arquiteto com potencialidade crítica, dificilmente pode acontecer fora da universidade pública.
A razão é simples: educar para atuação na promoção de uma sociedade mais justa exige muito mais do que um currículo, ferramentas de ponta, ou professores com pós-doutorado em Berlim. Educar para formação de um aluno pesquisador, de alunas pesquisadoras, exige um ambiente, ou seja, um nicho ecológico no qual possam perceber a fantástica experiência da construção do conhecimento. Exige a dosagem entre o pragmatismo necessário ao avanço de disciplinas e o aprendizado nos laboratórios, nos saraus, nas assembleias estudantis, nas formaturas, nos prêmios recebidos, nos estágios em Guarus ou nos trabalhos de campo no hospital João Vianna.
Essa estranha forma comunitária produz um certo “espírito”. É esta disposição para conhecer que nos une a Universidade de Al-Azhar no Cairo, à Universidade de Modena, na Itália, Lérida na Espanha, Cracóvia, na Polónia e centenas de universidades mundo afora. No dia 22 de abril, será realizada em todo mundo a Marcha pela Ciência. No Brasil, mais de 15 cidades realizarão a Marcha. Belo Horizonte, Diamantina, Natal, Petrolina, Rio de Janeiro, São Paulo, Petrópolis e Porto Alegre marcharão junto com outras cidades para demonstrar a importância da ciência como bem comum de toda humanidade. O conhecimento não pode ser comprado e não deve ser privilégio de alguns grupos, como já o foi no passado.
Que a educação muda a vida, repete-se aos quatros ventos nos canais de televisão e propagandas políticas. Mas a educação que muda a vida só pode acontecer aliada à produção científica. Desde o ensino fundamental é necessário que se explique às crianças como as cores são formadas, porque a maioria dos morcegos dorme de cabeça para baixo, porque o corpo muda intensamente a partir de certa idade. E isto pode ser feito com experimentos muito simples. A curiosidade é intensa nas crianças. O que encantou a plateia mirim que lotou o Centro de Convenções de Uenf em março, foram os experimentos e a possibilidade de ver a ciência “acontecendo”
Sim, as universidades são espaços privilegiados de formação cidadã e temos na cidade de Campos, uma universidade de excelência reconhecida nacionalmente. Em meu primeiro dia nas aulas para professoras do ensino fundamental, vejo expressões acanhadas e o medo de “estar na Uenf”. Mas quando mostramos que suas biografias são material bruto para pensar educação e que sua sala de aula é o principal lócus de aplicação do conhecimento, percebemos como a transformação acontece. Antes tímidas, passam a fazer uso da palavra, a criar verdadeiro interesse sobre países, fatos, sobre o lugar da mulher em nossa sociedade. Passam a questionar a divisão das tarefas domésticas e a não aceitar a política de compadrio existente em suas escolas.
Ver a primeira formatura do curso de alunas do Parfor (Plano Nacional de Formação de professores da Educação Básica) foi certamente marcante. Eu havia orientado uma aluna que defendeu uma bela monografia sobre educação no campo. E sabia dos desafios para sua permanência no curso. O mesmo se dá com alunos tímidos em um primeiro semestre de biologia ou ciências sociais que hoje estão desenvolvendo projetos de pesquisa junto a Prefeitura, colaborando na construção da memória em estágios no Arquivo Municipal ou pesquisando para melhoria da produção de alimentos.
Essa é a universidade viva, atuante, que recebeu como apoio durante sua greve mais de 14 mil assinaturas — em sua maioria, de moradores da cidade de Campos dos Goytacazes. Foram encontros com uma população que literalmente vestiu a camiseta de Darcy nas esquinas da Pelinca ou em frente a Caixa Econômica. O artigo 205 da Constituição Federal de 88 define que “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”
Manter a Uenf aberta é uma forma de resistência e acima de tudo uma aposta de que o futuro de Campos pode ser muito mais luminoso. Mais humano e justo. E essa defesa deve acontecer em nossa prática cotidiana, na ampliação da luta por uma educação feita de curiosidade, emancipação, crítica. Esta foi a universidade sonhada por Darcy e abraçada pelo Norte Fluminense.
Diagnóstico: câncer nos testículos. Precisaria removê-los antes que se espalhasse para o resto do corpo. Calma, doutor, preciso pensar bem para autorizar. Sim, pense, mas não demore, quanto maior o atraso, pior.
Um sujeito sem suas bolas consistia em homem pela metade, disso sabia. Sem sexo, eunuco de agora em diante. Mas, o incomodava principalmente não poder realizar seu sonho de ser pai.
Augusto nem havia chegado aos trinta anos. Perambulava de emprego em emprego, morando num quarto e sala claustrofóbico, ganhando coisa de salário e meio ao mês. Confuso com o próprio estado de saúde, recorreu à mãe e essa o convidou a voltar para casa enquanto se tratasse, não deveria haver preocupações, pois ela daria todo suporte.
Difícil foi a conversa com Janaína. Com ela tentaria resolver a mais crucial das incertezas, a dela engravidar antes dele operar. Consultou um banco de sêmen e não conseguiria pagar o valor do armazenamento até um futuro em que pretendessem ter filhos. A solução prática era conceberam a criança de uma vez.
Ela não soube responder, pediu um prazo. Não havia tempo, precisava logo de uma definição. Ela teimou: não se decidiria assim, de supetão. Uma semana ao menos.
Janaína perambulou pensativa pelas ruas. A alameda arborizada pela qual crianças atravessavam de bicicleta e patinete aproximou-se, sugada abruptamente para uma nova realidade em que comprava chupetas e algodão-doce. Diante daquele espetáculo de gritos infantis ela ponderou se estava pronta para aceitar a maternidade.
Vinte e dois anos. Admitida há pouco como embaladora de pegue e pague, salário mínimo acrescido de cesta básica e vale-transporte, dividindo o aluguel do apartamento com uma colega, saindo às pressas após bater o cartão para chegar no curso de auxiliar administrativo. Caberia um bebê nessa rotina?
Sabia o quanto uma decisão desesperada dessas afetaria sua vida. Augusto em tratamento, seu corpo debilitado por causa de tantos efeitos colaterais, sem condições de ampará-la. Concomitantemente sua barriga cresceria, viriam enjoos, dificuldades, e recairia sobre si, é só sobre si, o peso da responsabilidade.
Mas como se livrar do espírito pesaroso do namorado, do tom melancólico de quem realiza o último pedido precedente à cadeira elétrica? Como negar a única possibilidade de conquistar a sonhada paternidade, o sonho forçosamente antecipado? Seus comentários ao longo desses três anos de relação, os nomes cogitados, os planos de colocá-lo na aula de piano e na natação, não desprendiam-se de sua mente e a enredavam nessa grande confusão, do medo real pelas circunstâncias do momento e a vontade de agradar um homem prestes a ser amputado da capacidade de manter relações sexuais.
Encontraram-se ao fim dessa semana. De certa forma movida através de um surto inesperado, sem exatamente lidar com a situação, ou talvez por razões que a própria razão não ousaria explicar, deitou-se com ele, cientes ambos de seus dias férteis. Praticaram um sexo de baixo desejo, cumprindo uma meta estabelecida ao invés de darem vazão aos ímpetos corporais. Limitou-se ela a receber seus fluídos e contemplar seu rosto de satisfação, em sua crença de tê-la engravidado em um desses cinco dias de tentativas.
Em poucos dias ele entrou para a sala de cirurgia. Ela segurou na sua mão nesse instante, querendo se fazer presente, lhe passar uma forte segurança, um conte comigo. Ele sorriu, aceitando seu destino, aplacado por essa garantia de que seria pai, uma convicção plena de terem feito tudo certo e garantido a gravidez:
— Pelo menos poderei daqui a nove meses ter o nosso filho entre meus braços — ela o ouviu dizer nos minutos prévios à cirurgia, tentando ignorar aquele aperto no peito que a oprimia, a lembrança da cartela de anticoncepcional que tomou em meio a prantos e hesitações.
Em sua sempre interessante seção diária “Conte algo que eu não sei”, o jornal O Globo trouxe hoje uma entrevista (aqui) com o cientista político estadunidense Robert Rotberg. Formado em Princeton e Oxford, o professor aposentado do MIT (Instituto Tecnológico de Massachussets) se encontra no Brasil para falar sobre o fenômeno da corrupção, alvo da operação Lava Jato, que chocou o país após a “delação do fim do mundo” eviscerar o modus operandi do Estado brasileiro.
Na tentativa sempre arriscada de se historiografar a volução do poder público de um país estrangeiro, na pior das hióteses, o entrevistado ofertou saber aquilo que o poeta escocês Robert Burns (1759/96), referência da sua cultura anglo-saxã, quis dizer quando escreveu os versos:
“Oh, se algum Poder nos concedesse
Vermo-nos a nós como nos vêem!”
Para quem se coloca na defesa do “Brasil de Vargas”, contra qualquer alteração, por exemplo, da sua CLT (uma adaptação em português da Carta Del Lavoro do ditador italiano Benito Mussolini, pai do fascismo), vale a pena observar o nosso reflexo na retina alheia. Neste sentido, segue abaixo o trecho da entrevista feita pela jornalista Luiza Barros, que batiza a entrevista initulada “A burocracia alimenta a corrupção”:
Cientista político Robert Rotberg (Foto: Fernando Lemos)
“Todas as pessoas no mundo querem se livrar da corrupção porque ela dificulta o progresso e o desenvolvimento econômico. Não acho, por exemplo, que o período colonial tenha qualquer relação com a corrupção no Brasil. Mas acredito que, politicamente, Getúlio Vargas foi muito corrupto. Mesmo que tenha se assumido como pai dos pobres, ele foi também o pai da corrupção (…) Ele institucionalizou a natureza da classe política. Não tenho como saber se, pessoalmente, ele foi corrupto, mas permitiu que as pessoas ganhassem favores a partir de um Estado regulatório. A partir de Vargas, o Brasil se tornou uma uma nação excessivamente burocrática. Com tantas regulações, vem a corrupção. A burocracia alimenta a corrupção. Uma coisa está ligada a outra”.
Entretanto, endossado pelos responsáveis pelas operações Calicute, que prendeu o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) no Rio, ou da Chequinho em Campos, que já chegou a prender o ex-governador Anthony Garotinho (PR), Rotberg vê o Brasil de hoje com esperanças reais:
“Sérgio Moro mostrou que é possível não ser tolerante com a corrupção e já é popular na sociedade civil. A partir de Moro, começa a haver uma mudança nas atitudes públicas e políticas: mais pessoas passam a querer ser como ele. Isso cria um efeito bola de neve”.
Quem viver, verá ao final da avalanche do que ainda está por vir…
“Quando perguntado sobre além da própria campanha e a de Rosinha, se Garotinho fazia campanha de outros candidatos o delator Benedito Júnior responde que no seu entender, Garotinho fazia a própria campanha, a de Rosinha, da filha e de ‘um deputado chamado Geraldo Pudim’, ressaltando que enquanto presidente do PR, Garotinho era o coordenador destas campanhas e de outras que ele não se lembra.
Quanto à citação do meu nome, feita pelo senhor Benedito Júnior, trata-se de uma vingança anunciada, já que em fevereiro de 2013 eu entrei na Procuradoria da República com uma Notícia Crime, denunciando o esquema de lavagem de dinheiro do então secretário de Saúde Sérgio Côrtes, esquema que abriu as investigações e o levaram a prisão, e que envolve sua esposa e a do delator Benedito Júnior. Na denúncia informei que as duas senhoras eram sócias na joalheria Blume, em Ipanema, criada para lavagem de dinheiro. Em anexo, encaminho a Notícia Crime protocolada no ano de 2013”.
___________________________________
Segue a via digitalizada do protocolo do Ofício GDGP nº 67/2013, datado em 26/02/2013, Notícia Crime cumulada com Representação por Atos de Improbidade Administrativa em face do Sérgio Côrtes. Trata-se da primeira parte composta por 06 páginas; o anexo que a compõe pode ser extraído da denúncia completa em word.
Da assessoria do deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB)
Aqui e aqui, o jornalista e blogueiro Saulo Pessanha já havia tratado do assunto