Desde maio de 2009 na relação entre Garotinhos e Odebrecht

 

 

 

 

 

“Ponto Final” à frente

Escrito na noite de terça, o “Ponto Final” de ontem (aqui) foi feito sem conhecimento do teor da delação da Odebrecht contra o casal Garotinho. Sabia-se apenas que os dois estavam citados na temida “delação do fim do mundo”, que envolve vários políticos brasileiros. Ainda assim a coluna adiantou que Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade Azevedo, executivos da empreiteira, estavam por trás das denúncias contra os ex-prefeitos de Campos. Afinal, os dois assinaram o contrato do “Morar Feliz”, no valor total de quase R$ 1 bilhão dos cofres públicos do município, maior contrato dos seus 182 anos de história.

 

Desde maio de 2009

A bem da verdade, o “Ponto Final” adiantou desde 29 de maio de 2009, ainda no primeiro dos oito anos de governo Rosinha Garotinho (PR), que a Odebrecht venceria a primeira licitação do “Morar Feliz”. O resultado, confirmando a coluna, foi publicado em Diário Oficial (DO) em 23 de setembro de 2009, enquanto o contrato foi celebrado com pompa e circunstância em 1º de outubro daquele mesmo ano. Na ocasião, Rosinha não se importou em posar às câmeras ao assinar, ao lado de Leandro Andrade de Azevedo, o contrato que já vinha sido previamente assinado também por Benedicto Barbosa da Silva Júnior.

 

Com o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa ainda à frente da coluna, o “Ponto Final” adiantou em quase quatro meses que a Odebrecht venceria a licitação do “Morar Feliz” (Reprodução)

 

Dinheiro aos Garotinho

Pois ontem, enquanto a coluna recontava toda a história, foi revelado o que os mesmos Leandro e Benedicto delataram (aqui) ter sido a contrapartida para que a Odebrecht levasse exatos R$ 996.434.912,43 do dinheiro do campista, destinadas à construção inacabada de 6,5 mil casas, com qualidade, planejamento e preços bastante questionáveis: repasses da empreiteira às campanhas de prefeita de Rosinha, em 2008 e 2012, e de Garotinho (PR) a governador em 2014, quando não foi nem ao segundo turno. Sem a divulgação dos valores, forma de pagamento e origem do dinheiro, a informação foi divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

 

Deu no JN

Ontem, Jornal Nacional, da Globo, reforçou o que esta coluna e reportagens deste jornal vêm mostrando desde março do ano passado.  Com as delações revelando dinheiro da Odebrecht nas campanhas de Rosinha e Garotinho, o JN também destacou que os valores não foram contabilizados nas prestações de contas declaradas ao TSE. Se antes as informações das planilhas que apontam o clã Garotinho eram consideradas extraoficiais, agora constam em documentos oficiais e podem virar alvo de inquéritos a qualquer momento, por mais que os citados tentem transparecer tranquilidade.

 

Gravações

A expectativa é que com a revelação das gravações feitas com os delatores a pressão aumente ainda mais sobre o casal Garotinho, como já começou acontecer, desde ontem, com o teor revelado principalmente sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Boa parte das declarações já está sendo disponibilizadas pela mídia nacional e o que foi dito por Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade Azevedo pode fazer a casa cair de vez para os Garotinho. A assessoria do casal salienta que “qualquer acusação tem que ser baseada em provas”. No entanto, não dá detalhes sobre a não declaração dos repasses.

 

Convocação

E se desde que assumiu a presidência da Câmara de Campos, Marcão Gomes (Rede) já tinha garantido que nenhuma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) iria se sobrepor à da Lava Jato, com as novas revelações é mais do que certo as investigações, inclusive com a convocação dos delatores da Obebrecht (aqui) que assinaram com Rosinha o “Morar Feliz”.  Quando foi proposta na legislatura passada, a CPI da Lava Jato em Campos acabou indo para o fim da fila, ficando atrás de outras que também nunca deram quaisquer resultados.

 

Cerco se fecha

A previsão é que dentro de nove dias, a contar de hoje, comecem os trabalhos não só da CPI da Lava Lato, mas também a CPI das Rosas, ambas propostas por Marcão, sendo a última relativa aos contratos do governo Rosinha Garotinho (PR) com a Emec Obras e Serviços Ltda, que mesmo em período de crise financeira recebeu R$ 76 milhões dos cofres públicos de Campos. A mesma Emec doou à campanha de Garotinho. As duas CPIs serão iniciadas tão logo recebam as análises da comissão de Obras, feita em conjunto com a Procuradoria da Câmara. A comissão é composta pelos vereadores Fred Machado (PPS), José Carlos (PSDC) e Genásio (PTC), todos governistas.

 

Com a colaboração dos jornalistas Rodrigo Gonçalves e Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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CPI da Lava Jato e das Rosas em 10 dias, com delatores da Odebrecht

 

Executivo e delator da Odebrecht Leandro Andrade Azevedo no ato da assinatura da primeira etapa do “Morar Feliz”, com a prefeita Rosinha, em 1º de outubro de 2009 (Foto: Ricardo Avelino – Folha da Manhã)

 

 

Dentro de 10 dias, a contar de hoje, começarão os trabalhos da CPI das Rosas, relativas (aqui) aos contratos do governo Rosinha Garotinho (PR) com a Emec, e da CPI da Lava Jato. Nesta, serão convocados à Câmara de Campos os executivos da Odebrecht Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade Azevedo. Foram eles que assinaram o contrato do “Morar Feliz” entre a construtora e a então prefeita Rosinha, no valor total de quase R$ 1 bilhão, maior da história do município, como o “Ponto Final” adiantou (aqui) em sua edição de hoje.

Benedicto e Leandro são parte integrante da “delação do fim do mundo”, feita (aqui) por 77 executivos da Odebrecht contra vários políticos brasileiros. Especificamente sobre Rosinha e Garotinho, segundo consta no Diário Oficial da Justiça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), como o blog do Arnaldo Neto adiantou (aqui), os dois delatores  “relatam o pagamento em favor de Rosângela Barros Assed Matheus de Oliveira [Rosinha Garotinho, PR], nos anos de 2008 e 2012 de vantagens não contabilizadas, quando da campanha eleitoral para a Prefeitura Municipal de Campos”. “No mesmo contexto, narra-se o repasse de recursos também em favor de Anthony William Matheus de Oliveira [Garotinho, PR], para fins da campanha eleitoral do ano de 2014, quando candidato ao governo do Estado do Rio de Janeiro”.

Aprovada na Câmara de Campos na legislatura passada, a CPI da Lava Jato foi posta para o fim da fila, numa manobra bastante criticada do ex-presidente da Casa, Edson Batista (PTB), visando impedir as investigações. Agora, o atual presidente, vereador Marcão Gomes (Rede) informou ao blog que tanto a CPI da Lava Jato, quanto a CPI das Rosas, ambas propostas por ele, serão iniciadas tão logo receba as análises da comissão de Obras, feita em conjunto com a Procuradoria da Câmara. A comissão é composta pelos vereadores Fred Machado (PPS), José Carlos (PSDC) e Genásio (PTC), todos governistas.

Marcão anunciou que, no caso da delação da Odebrecht contra Garotinho e Rosinha, todas as informações serão requisitadas formalmente pela Câmara de Campos ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à Justiça Federal do Estado do Rio, para onde o caso foi remetido, já que o casal de ex-governadores e ex-prefeitos não goza mais de foro privilegiado.

 

 

Delatores da Odebrecht que denunciaram que Rosinha teria recebido dinheiro da empreiteira para as eleições de 2008 e 2012 à Prefeitura, assim como Garotinho, na eleição a governador perdida de 2014, Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade Azevedo assinaram o contrato do “Morar Feliz”, no total de quase R$ 1 bilhão dos cofres públicos de Campos (Reprodução com destaques)

 

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Flagrante de lâmpada queimada no Boulevard

 

Na foto do Boulevard que anda rodando a democracia irreferável das redes sociais locais, será que alguém já notou que a lâmpada do poste à direita está queimada?

Ah! Essa superintendência de Iluminação Pública…

 

(Foto: Kelvin Klein – Projeto Nurbe)

 

Atualização às 15h08: Aqui, o sempre atento jornalista e blogueiro Saulo Pessanha já tinha publicado a foto

 

Atualização às 16h21 de 16/04/17 para dar o crédito devido ao autor da foto

 

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Ricardo André Vasconcelos — Cem dias entre a ruptura e a velha política

 

Eleito no primeiro turno, Diniz comemora a vitória, mas ainda não derrotou o garotismo na medida em que, por omissão, anistia os malfeitos do governo Rosinha (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Cem dias é um período curto para avaliar uma administração, mas é tempo suficiente para constatar que, como na vida, os governos também trilham um caminho tênue entre a virtude e o pecado, entre a ruptura e o continuísmo. Enquanto não escolhe sobrevive a esperança, mesmo que outros sinais indiquem que a velha política anda rondando as novas cabeças coroadas.

Ao prefeito Rafael Diniz (PPS) é justo que se empenhe um crédito de confiança ou até mesmo certa condescendência. Afinal, assumiu uma prefeitura falida, desorganizada, cheia de arapucas e sem nenhuma informação oficial, porque, como sabemos, a ex-prefeita Rosinha Garotinho negou-se a qualquer ato de transição. Talvez por isso, durante esses primeiros três meses a impressão é que o governo inteiro trabalha apenas para dentro. Estão conhecendo a máquina, contornando as armadilhas, enxugando gastos para garantir a folha de pagamentos, que já bateu no limite de 54% da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Sei que isso não é pouco, principalmente num cenário de crise nacional aliada a uma queda de receita em torno de R$ 1 bilhão, algo cerca de 1/3 a menos que a antecessora teve ano passado.

O quadro é gravíssimo, mas alguém tem que dialogar com a sociedade que comprou a ideia de um “governo diferente”. Enquanto os jovens e aparentemente competentes, auxiliares do governo acertam as engrenagens da máquina, o prefeito deveria, se me permitir a sugestão, manter atualizado o discurso da diferença, enquanto sua equipe elabora o que será diferente na prática. O papel do líder político é manter acesa a chama que desbordou na mudança e a sintonia com as aspirações da população. Se a demanda reprimida não pode ser atendida, é preciso que se leve ao conhecimento da população os motivos, as dificuldades e as soluções viáveis. É preciso reconectar o cidadão que cobra soluções ao eleitor que apostou na mudança.

Até aqui, talvez pelo imenso desafio que ocupa toda a equipe, parece mais um governo de continuísmo que de ruptura. “Mais do mesmo”. Pode ser falha de comunicação, poder ser. Mas há sinais que começaram antes mesmo da posse, como o acordo com a então bancada governista que deu ao prefeito 50% de suplementação automática no orçamento em troca da aprovação das contas da prefeita referentes a 2015 e, de quebra, garantiu a eleição da Mesa Diretora fiel ao novo governo. É ela, a volta política rondando e tentando se (re) estabelecer com seus cantos e encantos.

Na primeira semana de governo, dois novos — e maus — sinais: um do Executivo e outro do Legislativo: o engenheiro que seria uma das principais peças da área de obras do governo anterior e o maior foco de críticas da então oposição à administração finda foi nomeado secretário de Infraestrutura e Mobilidade Urbana (portaria 038/2017). Não conheço o engenheiro, mas simbolicamente sua nomeação é uma espécie de anistia aos desmandos da gastadeira Rosinha. E, antes de completar uma semana na cadeira de presidente da Câmara, o vereador Marcão Gomes (Rede), em 06/01/2017, prorrogou, por R$ 1,2 milhão, um contrato de publicidade que já tinha sido prorrogado quatro vezes na gestão Edson Batista. Em plena crise, por que e para que gastar R$ 1,2 milhão em publicidade? Fiz as críticas de forma pública: a primeira em entrevista à Folha e a segunda em meu blog, ambas ignoradas.

Ignorar críticas, mesmo as mais construtivas é outro sinal da velha política. A mesma que opta pela maioria confortável no Legislativo em troca do apoio fisiológico venha de onde vier. Mas nada é mais representativo da velha política do que o carreirismo usar o poder como trampolim para guindar os amigos a postos mais altos. E as eleições para Assembleia Legislativa e Câmara Federal, no ano quem vem, podem descortinar se o governo municipal vai usar sua máquina em favor dos seus aliados, como os antecessores fizeram, ou vai ser diferente.

Em cem dias leem-se sinais de uma nau entre a ruptura e o “mais do mesmo”. Entender que o eleitor, ao derrotar o garotismo queria algo de novo pode ser fundamental para o sucesso ou fracasso do novo governo. O eleitor, ao dar a vitória a Rafael Diniz no primeiro turno e nas sete Zonas Eleitorais, verbalizou, de forma cristalina, que queria ruptura e isso exige mais do pôr a burocracia em ordem e recuperar as finanças. É preciso que se conheça o que foi apurado nas auditorias e trazer à luz os malfeitos de um governo que foi escorraçado nas urnas justamente porque sobre ele pairavam todas as suspeitas. E se nada vem à tona, anistiam-se todos os dias um governo que acabou em caso de polícia.

Há tempo pois de escolher um rumo que esteja em sintonia com as urnas.

 

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Casal Garotinho entre delação da Odebrecht e CPI das Rosas

 

Charge de José Renato publicada hoje (12) na Folha

 

 

 

 

Garotinhos do Planalto à Planície

Do Planalto à Planície o dia ontem não foi bom ao casal Garotinho. Em Brasília, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), divulgou a “lista do fim do mundo”, com os pedidos de inquérito da Procuradoria Geral da República (PGR) a partir das 77 delações de executivos da Odebrecht. Nela, entre políticos de vários partidos e regiões do país, estão Rosinha e Anthony Garotinho (PR). No mesmo dia, na Câmara de Campos, seu presidente, vereador Marcão (Rede), propôs (aqui) a CPI das Rosas para investigar o contrato do governo municipal Rosinha com a Emec, entre 2011 e 2016, no valor total de R$ 76,1 milhões.

 

Despejo do “Morar Feliz”

Sem maiores dados sobre os motivos do envolvimento do casal Garotinho nas investigações da Lava Jato, que só serão conhecidos na próxima semana, dado o generoso recesso de Páscoa do Poder Judiciário, se supõe se tratar das obras do “Morar Feliz”. Entre suas duas etapas e vários aditivos para a construção de 6,5 mil casas, durante os oito anos de governo Rosinha, a Odebrecht recebeu R$ 996.434. 912,43 (quase R$ 1 bilhão) dos cofres públicos de Campos. Foi o maior contrato da história do município, abandonado sem a conclusão das obras, quando a fonte dos royalties começou a secar com a queda do preço do barril de petróleo.

 

Coincidências?

A publicação em Diário Oficial da primeira licitação vencida pela Odebrecht no “Morar Feliz”, no valor de R$ 357,4 milhões, se deu em 23 de setembro de 2009. O resultado foi antecipado quase quatro meses por esta mesma coluna, em 29 de maio daquele ano. A etapa inicial do “Morar Feliz” seria assinada em 1º de outubro de 2009, entre Rosinha e dois executivos da empreiteira: Benedicto Barbosa da Silva Júnior e Leandro Andrade Azevedo. Ambos estão entre os 77 delatores da Odebrecht na “lista do fim do mundo”. Nela também constam o prefeito de Macaé, Dr. Aluízio (PMDB), o ex Riverton Mussi (PDT) e o ex de Rio das Ostras Alcebíades Sabino (PSDB).

 

CPI das Rosas

Atualmente sem foro privilegiado, as denúncias da Odebrecht contra Garotinho e Rosinha serão encaminhadas à Justiça Federal do Estado do Rio. Já em foro legislativo municipal, o dia também não foi bom aos ex-prefeitos de Campos na Câmara da cidade que dominaram por tantos anos. Foi lá que o presidente Marcão propôs a CPI das Rosas, para investigar o governo municipal passado por suspeitas em outro contrato milionário: com a Emec Obras e Serviços Ltda, entre 2011 e 2016, no valor total de R$ 76.150.706,73, para manutenção civil e paisagística de canteiros, parques, praças, jardins e afins.

 

Destino governista

Segundo Marcão, ele encaminhou ofício à secretaria municipal de Controle, que teria encontrado fortes indícios de dois ilícitos: 1) da prática de preços que não correspondem aos valores exigidos e fixados pelo Tribunal de Contas e 2) da combinação e formação de cartel dentro da licitação. “Estes são os fatos determinados para a abertura da CPI”. Sem ser posta em votação, os documentos para embasarem a CPI foram encaminhados à Comissão de Obras e Serviços Públicos, que tem o vereador Fred Machado (PPS) como presidente e membros, José Carlos (PSDC) e Genásio (PSC), todos governistas.

 

Passado capixaba

A Câmara de Campos também vai solicitar à Justiça Federal do Espírito Santo a cópia do inquérito que investiga a Emec por denúncias de irregularidade no município capixaba de Presidente Kennedy. Lá, em 2012, a operação “Lee Oswald”, da Polícia Federal (PF) chegou a prender Fábio Saad Junger, da Emec. “Por que o silêncio do governo passado a respeito disso? Em 2014, a revista Veja trouxe reportagem sobre políticos que receberam doações de empresas. Entre eles, o senhor Anthony Garotinho que recebeu nada menos que R$ 350 mil. Doados pela empresa que tinha contrato com a Prefeitura de Campos”, alfinetou Marcão.

 

Fantasias?

Segundo o presidente do legislativo, a licitação inicial entre o governo Rosinha e a Emec foi feita em 2011, sofrendo vários aditivos. O valor médio foi de R$ 15 milhões anuais, até um pregão feito em 2016, no valor de R$ 11,45 milhões, em novo contrato de oito meses. Depois, em 7 de dezembro, quando o governo Rosinha já tinha perdido a Prefeitura nas urnas, outro pregão de cerca de R$ 2,5 milhões foi realizado. Líder do PR, o vereador Thiago Ferrugem disse não se opor à investigação, mas queria que fosse pelo Ministério Público ou PF: “Não se pode admitir que se crie fantasias para encobrir a insatisfação com o atual governo”, acusou.

 

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

 

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Artistas de Campos chamados para ocupar o TB em 2017

 

 

 

No cumprimento da promessa de devolver o Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira aos seus verdadeiros donos — os artistas de Campos —, o diretor da casa Fernando Rossi informou ao blog que está aberto o recebimento das pautas dos grupos locais que quiserem apresentar projetos para compor a programação de 2017.

Rossi explicou que o TB cobrará 10% da bilheteria aos grupos, quando a praxe é 20%, deixando 90% à produção dos espetáculos. Já em locação para eventos, a taxa cobrada será de um salário mínimo.

Fechado nos últimos três anos do governo Rosinha Garotinho (PR), o TB foi alvo de uma ocupação dos artistas (relembre aqui), entre 9 de maio e 6 de junho de 2016, para denunciar o descaso da municipalidade com o espaço. Então secretário de Governo, Anthony Garotinho (PR), visitou o teatro ocupado e prometeu (aqui) sua reabertura em 45 dias, o que só seria cumprido (aqui) pelo governo Rafael Diniz (PPS). Ainda vereador de oposição, o hoje prefeito visitou (aqui) o TB durante a ocupação, para dar apoio aos artistas.

Ironicamente, no início dos anos 1980, quando os dois eram artistas de teatro amador, Garotinho e Rosinha se lançaram na política após liderarem uma ocupação do TB.

 

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Bacellar projeta voltar à Câmara na semana que vem

 

Bacellar nos tempos de outros mandatos

 

Enquanto a sessão da Câmara pega fogo com a expectativa da proposta da CPI das Rosas (leia aqui) pelo presidente Marcão Gomes (Rede), um dos vereadores mais combativos da história recente de Campos cumpriu hoje mais uma etapa para assumir uma das 25 cadeiras da Casa. O comunicado do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) já chegou à 76ª Zona Eleitoral de Campos, mandando dar posse a Marcos Bacellar (PDT), cujos votos foram validados por uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Cumprido o rito burocrático da Justiça Eleitoral, com os dias úteis encurtados pelo feriado da Paixão, Morte e ressureição de Cristo, a expectativa de Bacellar é assumir seu mandato na próxima semana. Quanto aos pedetistas locais que fingem comemorar a volta do combativo edil, enquanto se agarram à aliança atrapalhada e mal confessa com o ex-governador Anthony Garotinho (PR), o jeito é esperar cantando: “Coelinho da Páscoa que trazes pra mim?”…

 

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Marcão propôs CPI das Rosas na sessão da Câmara

 

 

 

Na sessão de hoje (12) da Câmara de Campos, seu presidente, vereador Marcão Gomes (Rede), propôs a sessão a CPI das Rosas, como batizou a investigação parlamentar do contrato do governo Rosinha Garotinho (PR), entre 2011 e 2016, com a Emec Obras e Serviços Ltda, no valor toral de R$ 76.150.706,73, para manutenção civil e paisagística de canteiros, parques, praças, jardins e afins.

— Encaminhei ofício à secretaria municipal de Controle, que encontrou fortes indícios de dois ilícitos: 1) da prática de preços que não correspondem aos valores exigidos e fixados pelo Tribunal de Contas e 2) da combinação e formação de cartel dentro da licitação. Este são os fatos determinados para a abertura da CPI. Além dela, a Prefeitura vai fazer uma Tomada de Contas Especial, que é de sua responsabilidade, para apurar o prejuízo gerado ao erário municipal e solicitar judicialmente o devido ressarcimento — explicou o parlamentar.

Segundo Marcão, a licitação inicial foi feita em 2011, sofrendo vários aditivos ao longo dos anos. O valor médio teria sido de R$ 15 milhões/ano, até um pregão feito em 2016, no valor de R$ 11,45 milhões, num novo contrato de oito meses. Depois, em 7 de dezembro último, quando o governo Rosinha já sabia que havia perdido a Prefeitura nas urnas, foi realizado mais pregão, no valor de cerca de R$ 2,5 milhões.

— A coisa fica ainda mais suspeita, ao saber que tudo isso foi feito mesmo depois que a Polícia Federal (PF) chegou a prender o dono da Emec, Fábio Saad Junger, figura próxima aos Garotinho. O nome da operação federal foi Lee Oswald, já que foi motivada por irregularidades praticadas pelo mesmo grupo empresarial no município capixaba de Presidente Kennedy. Isso foi em 2012. E assim mesmo depois fizeram tudo isso em Campos — questinou o presidente da Câmara Municipal.

O nome operação da PF e do município do Espírito Santo, no qual o dono da Emec foi preso, fazem referência a uma tragédia da política estadunidense, até hoje envolta em muito mistério: em 22 de novembro de 1963, em Dallas, capital do Estado do Texas, Lee Harvey Oswald teria assassinado a tiros de fuzil John Fitzgerald Kennedy, 35º presidente dos EUA.

 

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Volta de Bacellar à Câmara tira mais espaço de Garotinho

 

Charge de José Renato publicada hoje (11) na Folha

 

 

 

 

Bacellar de volta ao jogo

“As galerias e os colegas da Câmara vão encontrar um vereador mais amadurecido, mas com a mesma disposição e garra. Mais até do que pela disposição de combate, minha carreira sempre foi marcada pela capacidade de agregar. Minha passagem pelo sindicato e pela Câmara são exemplos disso. O que sei fazer é agregar. É o que farei em defesa dos interesses da população de Campos”. Foi esse o tom usado por Marcos Bacellar (PDT), ao falar ontem à coluna sobre sua volta à Câmara de Campos, próxima de acontecer a partir da liminar concedida (aqui) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desde a última sexta, dia 7.

 

“Chucky”, o retorno

Tão logo o TSE comunique a decisão ao Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio de Janeiro (TRE-RJ), os votos dados ao pedetista serão validados. E, na recontagem, ele assumirá a vaga de Cecília Bainha (PT do B). Quando isso acontecer, o ex-governador Anthony Garotinho (PR) não só terá mais um(a) vereador(a) liberto(a) da sua gravidade cada vez menos densa, mas será obrigado a conviver com os “meteoros” lançados da tribuna por um dos seus críticos mais aguerridos. Para quem não se lembra, foi em seus tempos de presidente da Câmara que Bacellar apelidou o político da Lapa de “Chucky”, em referência à série de terror trash “Brinquedo assassino”.

 

Godoy, a revanche?

Embora tenha apoiado Caio Vianna (PDT) a prefeito, a quem tentou emprestar um pouco da sua experiência, consta que Bacellar e o grupo do prefeito Rafael Diniz (PPS), hoje com 18 dos 25 vereadores, têm mantido contatos. Por outro lado, como advogado do grupo de Garotinho, Thiago Godoy (PR) foi o principal adversário na volta do pedetista à ao legislativo. Como o vereador Jorge Magal (PR) teve condenação confirmada pelo TRE, caso perca a vaga, a cederá justamente a Godoy, também investigado na operação Chequinho. Numa dessas ironias da vida, seria interessante ver o jovem garotista sendo recebido por Bacellar na Câmara.

 

Carla e Pedro

Tão experiente e bem informado quanto Bacellar na política de Campos e região, mas dedicado a ela como jornalista, Saulo Pessanha noticiou ontem (aqui) em sua coluna “Painel Político”, na Folha da Manhã, e em seu blog, hospedado na Folha Online, que a prefeita de São João da Barra (SJB), Carla Machado (PP) negou que vá lançar seu filho, Pedro, nas eleições legislativas de 2018. “Isso nunca foi ventilado da minha parte e da parte de Pedro”, disse Carla a Saulo.

 

Na dúvida, certeza

Na verdade, após soprar ao nordeste de SJB e Campos, a possibilidade de Pedro vir a deputado estadual foi noticiada (aqui) nesta coluna em 31 de março. O plano seria a prefeita testar o filho para uma futura candidatura à sua própria sucessão. Se, 10 dias depois, a negativa foi porque realmente não se pensou na hipótese, ou porque foram fortes as reações contrárias, de outros potenciais pré-candidatos, nunca se saberá. A certeza é que, irmão de Carla e tio de Pedro, o vereador de Campos Fred Machado (PPS) deve ter ficado aliviado. Ele é aliado próximo de Marcão (Rede), presidente da Câmara goitacá e forte pré-candidato à Assembleia Legislativa.

 

Luta pela Uenf

A Campanha Somos Todos Uenf será lançada, hoje, às 17h30, no Centro de Convenções. A ideia é sensibilizar a população para o momento mais difícil da história da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro, desde a sua fundação em agosto de 1993. Até o Conselho Universitário decretou estado de calamidade pública na instituição. No sábado passado já houve um Dia de Ação financiado por jovens empresários, que promoveu algumas melhorias, como limpeza e reparos. Com a campanha, projeta-se reviver os anos de luta de toda a região para a criação da Uenf.

 

Sob protesto

A situação crítica trouxe ontem o secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Pedro Fernandes, à Uenf. Apesar da iniciativa louvável do deputado estadual Bruno Dauaire (PR) em trazer o secretário, este nada pode fazer de imediato a não ser lamentar também com os servidores e alunos que o receberam com protesto. O secretário disse que sentia vergonha de ver a Uenf como está, mas não deu prazo para o socorro. Com todo o respeito, não é de lamentação que se alimentam os funcionários. A melhor forma de negociar é pagar a quem deve.

 

Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (11) na Folha da Manhã

 

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Ocinei Trindade — Rafael, o leão, o lavrador e a morte

 

 

 

Quase fim de dezembro, numa noite curiosamente fria, em Atafona, encontrei Rafael Diniz.  Era confraternização entre poetas e artistas da cidade na casa de nosso amigo em comum. Eu nunca estivera, nem falara com o prefeito eleito antes desse encontro. Quando fomos apresentados, ele disse meu nome. Surpreendeu-me (devia ser conhecido do jornalismo, pensei). Eu o parabenizei pela vitória, chamei-o de prefeito e pelo pronome“senhor”. Ele pediu para que o tratasse como Rafael e “você”. Eu lhe respondi ter dificuldade de falar com autoridade assim, informalmente. Prometi que, quando ele não fosse mais prefeito, passaria a tratá-lo como uma pessoa comum. Ele riu.

Durante conversa em grupo, falamos de seu avô, o ex-prefeito Zezé Barbosa. Contei-lhe uma história sobre meu primeiro emprego aos treze anos de idade, o qual devia a Zezé (mesmo que indiretamente) a oportunidade de começar a trabalhar (um dia conto essa história em detalhes). O prefeito eleito demonstrou interesse pelas minhas memórias em que o avô aparecia de modo grato e lírico. Zezé Barbosa sempre foi um nome emblemático da política campista, considerado pelos mais jovens à época de seu governo, como uma figura conservadora e opressora. Outros tempos. Embora, seu sucessor, oponente e desafeto, Anthony Garotinho, tenha se mostrado tanto ou mais conservador e opressor em diversos momentos na política regional e nacional. Viramos a página?  E agora, Rafael? Outros tempos.

Meu voto em Rafael Diniz não foi por convicção, mas por desespero. O poder deve ser alternado sempre: é democrático, é saudável. Os quase 30 anos de garotismo (com dublagens de Mendes, Arnaldo, Pudim, Campista, Mocaiber, Nahim e Rosinha) para Campos, podem ter alcançado frutos em algum momento, mas o governo e as instituições municipais nesse período se tornaram praticamente “propriedade particular”. Alguns grupos se apoderaram do dinheiro público e de royalties bilionários do petróleo (ou seja, patrimôniode todo o cidadão que mora neste munícipio) “investidos” em obras, gastanças, ações duvidosas e questionáveis. E como tudo na política é mesmo questionável e transitório, acredito, é a vez de a sociedade trazer o novo prefeito de Campos para o olho do furacão e para arder em fogueiras. Nas redes sociais vemos uma ciberinquisição, e pelas ruas, uma neo-inquisição surgindo. Descontentes a fim de desconstruir, de algum jeito, a imagem do novo governo. Nas mídias digitais são frequentes.

No único encontro com o prefeito Rafael, tivemos alguns minutos de conversa somente eu e ele. Foi então que perguntei sobre sua vida pessoal, se era casado, se tinha filhos, sua formação profissional; citei alguns amigos nossos em comum que sempre me falaram bem dele como pessoa. E fiz uma pergunta incômoda ao prefeito:  se quando passassem os 100 primeiros dias de seu governo, se ele estaria preparado para o fim da lua de mel com os eleitores e apoiadores de sua campanha vitoriosa. Ele foi rápido e objetivo na resposta. Disse que tinha plena convicção dos desafios e rupturas que estariam por vir; das críticas e condenações que poderia receber; dos riscos inerentes à política e à governabilidade. Gostei dele. Nunca mais vi, nem falei com o prefeito. Saí do encontro otimista quanto ao futuro de Campos. Hoje é o centésimo primeiro dia da administração Rafael Diniz. Se mudei de opinião? Ainda não.

Gosto de brincar com os números, os astros e as coisas ocultas. Por exemplo, o número 23 do PPS (Partido Progressista Socialista), sigla à qual pertence Diniz, no tarô, é a carta do Lavrador. Um sinal? Campos dos Goytacazes, terra de ascensão e queda da cultura da cana de açúcar, parece que necessita voltar urgentemente para sua antiga vocação econômica, e ampliar a lavragem em todos os aspectos sociopolíticos e agrícolas (embora parte da população ainda prefira soluções rápidas, fáceis e miraculosas que nunca existiram em gestões passadas, e que assim, infelizmente, permanecerão). Acho que somos incompetentes quando delegamos todo o poder aos políticos. Hesito ao especular quem é mais incompetente: se o povo que elege mal ou,se o mau político eleito. Campos é um município tão vasto e complexo. Mudá-lo para melhor, desafiador. Já o Brasil, desafio eterno…

Rafael Diniz é do signo de leão, nasceu em 13 de agosto de 1983. Foi em um 13 de agosto que também nasceu Fidel Castro, o líder da revolução cubana. O primeiro, eleito. O segundo, tomou o poder e perpetuou-se nele por mais de meio século até sua morte recente. Consultando um site de astrologia, fico sabendo sobre os que nasceram nesse dia 13 de agosto serem regidos pelo número 4 (aliás, são quatro os anos de mandato) e por Urano, que com frequência indica comportamento errático e pouco convencional em pessoas que tendem a ser difíceis; são argumentadores que têm uma visão própria, bem diferente da dos outros. O número “4” tradicionalmente representa revolta, crenças idiossincráticas e desejo de mudar as regras. O número “13” considerado de azar por muitos, é, ao contrário, um número poderoso, que carrega consigo a responsabilidade de usar o poder com sabedoria ou atrair autodestruição. Segundo a astrologia, os nascidos neste dia têm uma certa atração pelo perigo, em vencer grandes desvantagens. Alcançar o impossível é o que querem, e mesmo os tímidos, em geral, rejeitam uma vida sem desafios onde a segurança está garantida. No tarô, 13 é a carta da Morte. Seu significado raramente é literal, mas representa largar o passado para superar limitações. Confesso que gostei muito de brincar de mapa astral com essa leitura sobre o pré-destino ou destino de Rafael Diniz, escrito nas estrelas do ciberespaço.

Crenças e lendas à parte, uma coisa presumo afirmar: nossas vidas estão em jogo, assim como o recém-nascido governo Rafael Dinizque assumiu uma estrutura de poder cheia de vícios e minas detonáveis que podem explodir a todo instante, e levar-nos todos nós pelos ares, mutilando-nos ou matando-nos de um jeito ou de outro. É o risco que se corre, seja na política, seja em qualquer circunstância de vida. Dizem que todo o político mente, contra ou a favor de qualquer coisa. O eleitor, ao meu ver, também mente. Mente para si mesmo, inclusive. Algumas mentiras são por pura sobrevivência neste mundo-cão. Se tem perdão? Hum, talvez. Poder com mentira vai de Trump a Pezão; de Merkel a Temer; de Lula a FHC… a lista é extensa. Ser honesto na política, dizem, é possível. Só não sei por quanto tempo.

A população brasileira ainda não sabe lidar com o poder que tem, com a democracia que tantos defendem na ponta da língua, mas que na prática é penosa, e às vezes, apenas uma expressão desgastada. Elegemos políticos que nos dilapidam e nos afundam, não convertem os altos impostos que pagamos em benefícios básicos de saúde, educação e segurança (só para citar alguns exemplos simples). Elegemos a nós mesmos quase sempre.

Campos é o Brasil cheio de mazelas, jeitinhos, mediocridades, intrigas, fofocas, traições e vantagens pessoais priorizadas. Até quando? Bem, particularmente, acredito que os resultados do novo governo Rafael Diniz só começarão a aparecer após o primeiro ano ou depois do segundo ano de mandato. Parece muito? E o que são 100 dias? “O tempo é muito longo para os que lamentam”, segundo Shakespeare. Vencer Rosinha em um turno de eleição apenas demonstrou o nível de insatisfação da população com a gestão da ex-governadora e ex-prefeita. Ela ficou no poder por oito anos, Rafael está há menos de quatro meses. O futuro de Campos desconheço, mas o passado está aí para ser recuperado. Melhor não esquecer as coisas ruins.

Sabemos que velhas e novas raposas políticas estão em torno do prefeito Rafael Diniz. Alguns que se dizem desapontados ou escandalizados com demissões e nomeações (ou a falta delas) de pessoas para atuarem na gestão municipal em cargos de confiança com bons salários, é bom lembrar: nada dura para sempre. Nem cargos, nem governos. Pensar e agir pela coletividade, pelo bem de todos ainda parece soar estranho e incômodo para muita gente nesta cidade e neste país. Lamentável, pois temos tantas possibilidades de vida melhor impedidas por nossas corrupções. Até quando?

Se o prefeito ouve ou não os conselhos de políticos e gestores experientes, não cabe a mim julgá-lo ou condená-lo agora.O tempo nos sentencia. Pelo menos, a astrologia via Google dá o seguinte toque aos nascidos no dia 13 de agosto como Rafael Diniz e Fidel Castro:

“Faça o melhor com o que tem e nunca permita que o mundo o decepcione. Encontre outras pessoas com mesmo gosto e mentalidade. Cuidado com a raiva e as tendências tirânicas. Procure manter-se aberto e confiante; não se refugie demais em seu mundo particular”.

 

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George Gomes Coutinho — Governo Diniz

 

No sentido de equilibrar, entre teoria acadêmica e prática política, a análise dos 100 primeiros dias do governo Rafael Diniz (PPS), foi pedido que falasse pela primeira o George Gomes Coutinho, sociólogo, cientista político e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). Na matéria publicada (aqui) na edição de ontem da Folha, entre os ex-prefeitos de Campos e ex-candidatos a prefeito que disputaram a eleição vencida por Rafael, foram também ouvidos Rockfeller de Lima, Geraldo Pudim, Nelson Nahim, Rogério Matoso, Roberto Henriques, Nildo Cardoso e Sérgio Mendes.

Como referência de tamanho, foi estabelecido a cada uma das fontes um depoimento entre oito a 10 linhas de word. Entre todos, o que mais passou disso foi justamente o George, que teve trechos da sua análise pinçados na abertura e fechamento da matéria, inciada na teoria, engordada na prática, antes de ser finalizada no retorno ao campo teórico. Ainda assim, boa parte do que disse o professor da UFF acabou fora da reportagem.

Não por outro motivo, segue abaixo a você, leitor, a íntegra do que disse o George sobre os 100 primeiros dias do novo governo de Campos dos Goytacazes:

 

Página 5 da edição de ontem (09) da Folha

 

Governo Diniz

 

O marco de 100 dias de governo é dotado de relevância simbólica. Contudo, justamente pelo mandato ser de 04 anos, ou 1460 dias aproximadamente, qualquer pretensão de análise definitiva é simplesmente um exercício de arrogância analítica. Nada mais do que isso.

Feita esta advertência, em 100 dias do governo Diniz irei me propor a discutir de maneira quase ensaística a partir de dois elementos: 1) a carta de intenções do Governo, o documento base do “Programa de Governo” que funcionou como diretriz para as promessas de campanha da então chapa em disputa; 2) o ainda modesto conjunto de ações concretas adotadas, o que inclui a composição do staff e medidas efetivas.

O documento “Programa de Governo”, composto de 26 páginas na versão que tive acesso, é audacioso. O mesmo é dividido em 15 áreas temáticas, onde há um breve diagnóstico sobre cada uma delas, o que inclui educação, saúde e cultura por exemplo. Destes diagnósticos apresentam-se propostas de medidas específicas para cadaárea temática em particular. Contudo, nota-se no documento que quase não aparecem dados concretos que possam conferir maior solidez aos diagnósticos em praticamente nenhuma das áreas temáticas destacadas pelo documento. Decerto não é pecado mortal. Falamos de um texto base. Mas, dada a fartura de dados disponíveis de diversas agências e órgãos, trabalhar sem dados na formulação e implementação de políticas públicas seria arriscado e voluntarista, algo que não vislumbro acontecer nestes 100 dias de governo “pra valer”. Igualmente torço para que não ocorra nos próximos anos, para o bem da própria cidade.

Para além das 15 áreas temáticas citadas no “Programa”, noto que há uma grande meta da então chapa Rafael Diniz/ Conceição Santana a enfeixar todas elas: nada menos que implementar um “novo modo de governar”, o que não é pouca coisa se pensarmos na prolongada forma de gerir a máquina pública desde Anthony Garotinho e continuadores. Como práticas centrais o documento defende medidas de ampliação da transparência, responsabilização dos gestores da máquina pública municipal e a ampliação da participação social.

No âmbito “participação social” o Programa reconhece, de maneira acertada, a importância estratégica dos Conselhos Municipais como instâncias deliberativas fundamentais se o objetivo é ter uma gestão efetivamente participativa. Também defende o Orçamento Participativo como prática a ser efetivamente adotada no município, o que pode redundar, em essência, no necessário aprendizado do “empoderamento” das populações onde esta forma de governar é implementada. Em outro campo, especialmente o da Educação, o documento defende as eleições diretas para a direção das escolas municipais. Esta medida, em minha perspectiva, não deve ser considerada “menor” ante um Programa de Governo que tem a ambição de ser participativo. Afinal, aprendizados democráticos precisam acontecer em todas as escalas para se tornarem consolidadas.

Portanto, para além do discurso “moralizante” que angariou a adesão do eleitorado, algo que ocorreu não somente em Campos mas em muitas das grandes cidades brasileiras, o Governo Diniz apresentou uma carta de intenções ambiciosa e com tonalidades progressistas. Todavia, nestes 100 dias o real e o imaginado, como quase sempre ocorre, entraram em conflito. Não se trata de um conflito fatal para um Governo em fase inicial que ainda carece de consolidação. Contudo, acende pelo menos um alerta amarelo para todos e todas que reconhecem os desafios históricos de uma cidade como Campos dos Goytacazes.

Diante do exposto, cabe observarmos a estrutura deixada como legado por Rosinha Garotinho. Não tenho dados neste tocante, apenas ouço apontamentos generalistas que indicariam um orçamento combalido e problemas administrativos severos. Nesta direção inclusive o prefeito veio a público apresentar esta dificuldade inicial que sugere semanas de “arrumação de casa” como diria o jargão. Também compreendi que está sendo feito um levantamento meticuloso da situação financeira e administrativa do poder municipal. Mas, já há algum detalhamento substantivo dos possíveis problemas e prejuízos? Serão apresentados ao público? De que maneira? Todas estas perguntas ajudariam a dissipar certa opacidade inicial nestes 100 dias que incomodam parcela da população neste momento. Cabe lembrarmos que o atual governo foi o vencedor da disputa eleitoral em primeiro turno, um cenário improvável para muitos analistas profissionais ou não. Em virtude deste resultado a hipertrofia de expectativas pode redundar na impaciência de um eleitorado ávido por mudanças de curtíssimo prazo.

Para além disso, como costumo frisar, governos não são de Marte e a sociedade civil não é de Vênus. Classe política e cidadãos, quer os últimos gostem ou não, são provenientes de uma mesma Campos e a Câmara de Vereadores e o staff administrativo, o que contempla todos os escalões de governo, irão representar de forma mais ou menos fiel a própria sociedade. Neste sentido o governo Diniz não consegue escapar das contradições campistas em sua composição social. De um lado há a novidade do ingresso de quadros de alta qualificação no alto escalão do governo, algo que reflete de forma cabal o maior pólo universitário do interior fluminense. Por outro lado no mesmo alto escalão, inclusive pela pressão da política cotidiana e varejista, há egressos da “velha política” que transcendem até mesmo os Garotinho. Velhos e novos mundos em uma mesma constelação.

Não nos cabe aqui discutir os problemas cotidianos causados pela “pequena política”, esta que necessita da barganha como prática. Mas, a presença de quadros da “velha política” campista ocasiona constrangimentos a um projeto que pretende implementar um “novo modo de governar” certamente.

Prosseguindo, noto que há iniciativas e esboços, pelo que pude observar de maneira assistemática no próprio website da prefeitura, que indicam a tentativa de aproximação das intenções progressistas do “Programa de Governo” com ações práticas. Especialmente me parece promissor o tratamento para a questão étnico-racial até o presente momento. Igualmente o saneamento de programas sociais em uma sociedade desigual como Campos é uma medida fundamental, desde que não redunde na satanização deste tipo de política e tampouco na paralisia dos programas.

Finalizando, recordo um adágio utilizado por ninguém menos que Sérgio Diniz em várias ocasiões ao discutir a política local. Diniz, o pai, dizia dos quadros locais: “tudo vinagre da mesma pipa”. Até o momento não me parece que Rafael, seu filho, o seja. De todo modo, terá aí mais ou menos 1300 dias para mostrar que não é. O caminho para tal envolve o enfrentamento corajoso e decisivo das contradições, lógicas e práticas da própria sociedade que o elegeu.

 

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Marcelo Amoy: Cem dias — e avante!

 

 

 

Um capricho do acaso fez com que o centésimo dia da administração Rafael Diniz caísse hoje, “meu dia” de escrever algo aqui sobre sua administração até agora. Depois de ter sido antecedido por tantas análises/opiniões bacanas/relevantes para uma avaliação/compreensão não só do período de governo, mas da própria cidade e alguns de seus anseios, me indago o que talvez me reste a acrescentar…

Em primeiro lugar, partilhei da esperança de renovação que se podia notar pela cidade desde antes da campanha. Havia uma sensação de que não dava mais para seguirmos com um certo e velho estilo de política e, pelo que senti e observei: quem personificou essa esperança de novidade foi o então candidato Rafael Diniz (embora houvesse outros jovens candidatos na disputa). Sua vitória em primeiro turno me surpreendeu: eu só a esperava no segundo. A fase de transição, porém, foi marcada por percalços e dificuldades em poder tomar ciência da real situação administrativa do município, de forma que, ao que me consta, seu governo só teve como se inteirar de fato das finanças e compromissos municipais depois que assumiu, agorinha… em 01 de janeiro – há exatos 100 dias.

Mesmo a melhor das luas de mel pode conter expectativas exageradas e frustrações eventuais (as últimas até, tantas vezes, em decorrência das primeiras). Acho que temos que equacionar as coisas na seguinte perspectiva: esperamos por muito tempo que a administração municipal tomasse um rumo que nós julgássemos apropriado. Isso nos deixou com altos níveis de ansiedade pelo atendimento de muitas demandas – ainda reprimidas. Esperamos que o governo Diniz as atenda, mas ficamos impacientes que ainda não pareça que tudo já começou a deslanchar. Sei que há necessidades urgentíssimas, que não podiam esperar nem um dia, quanto mais cem ou mais, mas… até que ponto estamos cobrando o impossível dado o “pouco” tempo até agora transcorrido? Por outro lado: você tem certeza que não dá pro governo acelerar um pouco o ritmo e demonstrar que já sabe o que pode e vai fazer – e de que forma? Espero que o governo Diniz compreenda a dor e a delícia de ser o que é e se aceite como tal.

Desconfio de governos de esquerda por vários motivos. Um deles é que eles geralmente escolhem um de dois extremos: ou optam por uma solução simplista e insuficiente, e nela insistem jurando que um dia a coisa vai, ou percebem que a coisa não é simples: aí nomeiam dezenas de comitês que fazem centenas de reuniões em que problematizam tudo e não resolvem nada. O PPS, partido de Rafael Diniz, é um dos raros partidos de esquerda que, pra mim, são capazes de escapar dessas armadilhas ideológicas quando querem. Mais do que uma cartilha a seguir, é preciso descobrir, sem âncoras no pensamento, de que forma melhor serão atingidos os objetivos ordenados pela administração em função do prometido na campanha e aprovado pela população nas urnas – sempre se lembrando que existe uma coisa chamada realidade e outra: responsabilidade. Os brasileiros sabem que, embora isso seja lógico, nem sempre é assim que os políticos fazem. Espero que o governo Diniz se marque pela diferença a favor.

Segundo o IBGE, o PIB de Campos era o sétimo maior do Brasil em 2013. Não sei como o município se posiciona hoje, mas dada a derrocada econômica do país como um todo – agradeçam à irresponsabilidade, à inépcia e à corrupção do governo federal, no geral, e às do governo estadual em particular –, talvez se mantenha na mesma proporção, visto que nossa cidade não afundou sozinha. Sabemos, contudo, que a arrecadação do município é fortemente influenciada pelos preços internacionais do petróleo – o que se reflete aqui no que a prefeitura é capaz de fazer com o rapasse dos royalties. Na época das vacas gordas, administrações passadas, de diferentes partidos, expandiram os gastos públicos tão insanamente que parecia terem descoberto a caverna de Ali Babá. Vai ver descobriram… Mas o tesouro era finito tanto quanto o mandato e o petróleo será daqui a algum tempo. Mesmo assim, ao invés de empenharem todos os seus esforços na construção de uma economia capaz de seguir crescendo e se desenvolvendo depois que o petróleo acabar (e mesmo desde antes disso acontecer, afinal: a idade da pedra não acabou por falta de pedra!), preferiram distribuir “benefícios” ao invés de fortalecer a economia local e criar empregos – esses, sim: os maiores de todos os programas sociais. Mesmo que se descubra (às vezes, a duras penas presentes e/ou futuras) que nem sempre é tão fácil ganhar eleições assim, na base do “me ajuda que eu te ajudo”, não deixa de ser uma tentação irresistível que, por uma vantagem amanhã, se sacrifique a semana que vem – essa tem sido a infame regra. Espero que o governo Diniz rompa com isso e se mostre capaz de fazer melhor.

É impossível agradar a todos – mesmo a todos que o elegeram: isso Rafael Diniz está careca de saber (embora não esteja – o careca aqui sou eu). Então, que não tenha medo de tomar as medidas que julgar necessárias para organizar os compromissos da cidade. Vão chiar? Claro que vão – mas vão de qualquer jeito, seja lá o que for feito ou não. Precisamos de tudo um tanto em todas as áreas, difícil até saber o que priorizar – mas quem concorre a um cargo executivo tem que saber e tem que agir. Apoio na Câmara é bom – mais que bom, fundamental. Por mais digamos… fluido que seja o posicionamento digamos… ideológico dos vereadores, o cacife eleitoral da surpreendente vitória em primeiro turno dá a Diniz uma força que os cem primeiros dias não tiraram – ainda e apesar de erros pontuais que ele tenha cometido aqui e ali. Espero que a Câmara seja pragmática e se lembre dos votos dados ao novo prefeito; que se recorde de porque esses votos foram dados a ele; e que Rafael Diniz não se acanhe de usar o carisma e o cacife que tem – permanecendo do lado certo da Força, é claro.

Pelo que observo, a cidade ainda transpira expectativa: viemos pra festa, mas cadê o garçom? Não sei até quando a expectativa dos grandes feitos suplantará a decepção de uma até agora insistente mesmice. Claro que as dificuldades herdadas são imensas, a cidade sabe disso. De minha parte, mais do que, no futuro, apontar o que foi feito, eu gostaria de poder apontar que vi diferença na maneira com que foi feito. Ainda além: eu gostaria de poder apontar que tudo foi feito de maneira diferente porque o prefeito compreende que nunca obterá resultados diferentes fazendo as mesmas coisas de sempre. Meu desejo é por uma visão diferente que seja moderna como a juventude de Rafael Diniz me inspira esperar. O velho assistencialismo da mão estendida e dos favores a retribuir tem que morrer nesta cidade – assim como no país inteiro. Ou ele morre ou mata a cidade: não há mais possibilidade de sequer se pensar em meio termo. Passagem a R$ 1,00 é ótimo, né? – mas de onde sai o dobro disso que a prefeitura tem que desembolsar por cada viagem de cada pessoa a cada instante? Acreditem: dinheiro não cai do céu. Juro! Espero que Diniz tenha claro em sua mente que pode passar à História do município como o prefeito que mudou paradigmas e abriu a cidade pra um futuro promissor por ser capaz de ver além do assistencialismo puro e irresponsavelmente simples (que agrada tanto a quem precisa esticar o orçamento cotidiano quanto a quem faz o diabo na ambição de se reeleger). A alternativa é ser mais do mesmo.

Finalizando: o lema de nossa cidade é de uma época em que era extremo e soava excepcional dizer que “Aqui, até as mulheres lutam pelo Direito” (“Ipsae matronae hic pro jure pugnant”) – numa provável alusão ao impacto causado por Benta Pereira armada lutando a cavalo, com mais de 70 anos de idade, contra a política dos viscondes de Asseca, nos idos de 1757 – praticamente 80 anos antes de Campos virar cidade. Ainda que distintos, os conceitos de Direito e Justiça são próximos, sendo comum que se confundam. Assim, espero que o governo Diniz busque ser justo e aja sempre do lado do Direito – nunca contra ele ou às suas margens. Espero também que ele saiba que fazer Justiça é mais que só ajudar a distribuir a colheita: é priorizar o replantio da lavoura. Os tempos não são fáceis, mas o apoio e a torcida são grandes. Cabe ao bom político saber canalizar tudo isso em Colaboração. Sempre vai ter quem torça contra, mas a maioria está disposta a colaborar – basta o rumo estar certo.

Boa sorte, Campos!

 

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