Dossiê Ocupa TB — De onde veio, para onde foi e vai a cultura de Campos?

 

Teatro de Bolso na noite da sua ocupação (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Ontem se completou (aqui) um ano do início do Ocupa TB. Foi em 9 de maio de 2016 que os artistas de Campos ocuparam (aqui) o Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira. Posteriormente, sem ter o atendimento da sua pauta de reivindicações, nem o cumprimento promessa da reabertura do teatro (aqui) por parte do governo Rosinha Garotinho (PR) — que o mantinha fechado desde o final de 2014 —, a ocupação terminou em 6 de junho do ano passado. O TB só seria reaberto (aqui) em 27 de março de 2017, pelo governo Rafael Diniz (PPS).

Entre ontem e hoje, o blog buscou alguns dos ex-ocupantes do Teatro de Bolso, muitos deles jovens. Não só para registrar seus testemunhos daqueles 28 dias de sonho, em que os artistas de Campos assumiram o controle do seu mais tradicional palco de Campos, como para colher suas impressões das consequências daquele ato de ousadia, um ano atrás, na realidade presente.

Entre elogios e esperança da classe quanto à nova gestão municipal, como sugestões e algumas cobranças, quem também deu jurisprudência ao episódio foi um sociólogo que não participou do movimento, mas recentemente concluiu (aqui) seu doutorado na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) com a tese: “Palco e resistência: a geração do Teatro de Bolso”.

Seja para conhecer melhor e não deixar se apagar o que houve há um ano — ou há 34, quando outro grupo de jovens, liderados pelo então ator Anthony Garotinho, também ousou ocupar o TB — leia com atenção os depoimentos abaixo:

 

 

Michelle Belcanto

 

“O que eu vejo hoje com relação ao teatro, nessa nova gestão, e especialmente com relação ao teatro, um ano depois da ocupação, é que o nosso tão querido TB já se encontra a pleno vapor. Ou pelo menos, já vejo dentro das possibilidades reais, o teatro voltando a ser gradativamente dos artistas e da comunidade. Vejo também que, com relação à cultura de uma maneira geral, já existem iniciativas interessantes e diálogo com as universidades, como Uenf e UFF por exemplo. E creio que os resultados dessa parceria serão benéficos a todos. É cedo para avaliar uma gestão que iniciou há poucos meses e com tanta defasagem, mas vejo algumas mudanças positivas no âmbito artístico-cultural de nossa cidade. Mas, claro, sempre há o que avançar e melhorar. E acredito que já que estão surgindo parcerias com as universidades, seria muito bom iniciar esse dialogo com o IFF, que possui hoje as licenciaturas em Teatro e Música. A cultura e a arte na cidade com certeza terão muito a ganhar realizando parcerias com a academia, num processo de pensar juntos novas formas de intervir artisticamente no bojo da nossa sociedade. A arte é uma ferramenta essencial no trabalhos de inclusão, socialização e re-socialização. Por exemplo, como utilizá-la de modo descentralizado com o intuito de atingir o máximo de pessoas? E essa foi uma questão muito discutida nos dias de ocupação. Um ano passou e hoje nos encontramos com uma gestão limitada financeiramente, mas que pelo menos na parte artística e cultural, se mostra interessante e interessada pela demanda dos artistas locais”.

Michelle Belcanto, atriz, dançarina, professora e ocupante do TB

 

 

Alexandre Ferram

 

“Toda e qualquer manifestação artística e cultural é válida.  Artista é cheio de fome, é cheio de sede, de inquietações e com um turbilhão de coisas pra propor e realizar. Com o Ocupa TB não foi diferente, tínhamos um bando artistas de várias vertentes que estavam reivindicando a reabertura de um espaço público, um espaço que estimula a produção artística local, que gera renda, que forma plateia, que deixa uma cidade mais alerta. Foram dias de muito aprendizado e companheirismo, dias que tentamos entender ou desvendar o que restava da classe artística de Campos, que parecia ter sido hipnotizada por anos e que está aos poucos revivendo através de novos soldados que estão surgindo.

Levantamos muitas pautas com a finalidade do reavivamento das políticas públicas culturais, pautas ‘gordas’ como chamávamos, para que pudéssemos enxugá-las de acordo com as prioridades. Porém, nenhuma delas foram atendidas até hoje, com exceção da reabertura do Teatro de Bolso, que reabre sem o efetivo conserto do ar condicionado e sem que o nosso desejo de gestão compartilhada fosse atendido — ainda. De certo que este modelo  deve ser pensado e repensado diante da estrutura de muitos grupos que temos.

A sensação é: saímos perdedores, após 28 dias de tanta luta sem que pelo menos um desejo fosse atendido e ainda enganados com a promessa de reabertura no prazo de 60 dias (primeiro de 45 dias, depois estendido e igualmente não cumprido). Mas nos sentimos vencedores, de ter ao menos podido chamar a atenção da sociedade para um fato que se agrava na cultura de nossa cidade que era o fim dos equipamentos culturais. Mas a luta ainda nem chegou ao fim e como costumávamos dizer, durante a ocupação: ‘não paramos ainda’.

Hoje, tenho um panorama mais positivo no que tange à gestão pública cultural da cidade. A vontade é muita, no que vejo de meus amigos que estão elencando o grupo de gestores. Precisamos pensar a cultura que fazemos como um plano pro futuro, sem esmolas, sem pires, sem favoritismos. Esperamos que essa vontade realize grande feitos para cultura dessa cidade e desejo que não parem nunca, porque nós, do lado cá, não vamos parar de cobrar jamais. Haverá sempre um ‘vagabundo’ para ocupar com suas artes espaços frustrados”.

Alexandre Ferram, ator e ocupante do TB

 

 

Lua Monteiro

 

“Confesso que foi extremamente triste ter visto o TB naquele estado, um ano atrás. Estou feliz que tenha sido reaberto, mesmo que algumas de nossas pautas ainda não tenham sido atendidas. Vejo que a situação da cultura ainda se encontra caótica. É um imenso desperdício que o Palácio da Cultura ainda esteja parado! Entendo que seria utópico querer que todas as ‘casas culturais’ fossem reabertas de uma só vez. Porém já passou da hora de arrumar algumas coisas por aqui”.

Lua Monteiro, atriz, fotógrafa e ocupante do TB

 

 

Johnatan França de Assis

 

“Já se passou um ano desde o dia que nos reunimos debaixo da ponte Leonel Brizola e partimos pra ocupação do Teatro de Bolso Procópio Ferreira, o nosso querido TB.

Ocupação essa que duraria três semanas, mas sem que de lá saíssemos os mesmos. Abrimos a porta por baixo, não precisamos de pé-de-cabra, entramos confusos, mas entrar seria o mais fácil.

Penso que estar do palco muda muita coisa, tanto de perspectiva, quanto de empatia. Opinião e sentimento, tudo aflora e vem a aflorar desse lugar de sujeito que é o palco.

E eis aí a arte, produto pouco consumido por esses tempos na planície goytacá. E um representante desse deplorável cenário era o TB, (então) fechado há mais dois anos, com obras paralisadas e nenhuma perspectiva de nada. Motivos pr’uma ocupação mais do que sobravam. Mas mesmo assim ouvimos um tanto de críticas, desde ‘invadiram o espaço e não têm esse direito’, até de que ‘isso tudo não dará em nada’. E, sim, desmerecer nossa luta e chamá-la de vã era o que mais doía, ou pretendiam que doesse. Mas a resposta está dada.

Na verdade, penso que a resposta já fora dada desde aquela época. Respondemos quando enfrentamos um cerco romano promovido pela Guarda Municipal. Enquanto impedia a entrada de água e comida ao TB, esquecia que o teatro já quebrou a quarta parede. Respondemos quando limpamos e reorganizamos em mutirões todo o teatro. Respondemos quando reabrimos o TB para todos e demos oficinas, cursos, exibimos peças, apresentações musicais, circenses, sarais, yoga e o que mais se quisesse fazer. Respondemos quando resistimos! Respondemos quando o TB (re)existiu!

Fomos ponta de lança de um movimento que não era anti-garotinho nem anti-nada — ou não só isso. Éramos, e somos, um movimento pela arte; pela arte como direito!

E só a arte se permite a antropofagia, e o teatro talvez seja o que melhor encarna esse ideário. E na planície só uma arte crítica e antropofágica pode honrar os goytacá!

Ocupa tudo! Viva a arte!”

Johnatan França de Assis, poeta, estudante de psicologia e ocupante do TB

 

 

Saullo Oliveira

 

“Estávamos em um intervalo entre aulas no IFF Campus Centro, primeira turma do curso de Licenciatura em Teatro, quando sentamos para ouvir uma amiga de turma e militância que pareceu dar a luz a uma ideia que vinha sendo gerada no nosso inconsciente coletivo. Nascia assim o movimento #Ocupa Teatro de Bolso. Fizemos posteriormente algumas reuniões com um número ainda restrito de artistas, para que pensássemos estratégias de mobilização da classe. O que aconteceu naturalmente, pois esta classe, assim como toda a comunidade, comungavam do mesmo sentimento de indignação para com a antiga gestão do Teatro de Bolso, que estava visivelmente sucateado. Tendo em vista esta conjuntura, com a adesão popular ao movimento, ele foi crescendo vertiginosamente. Marcamos em seguida uma manifestação pacífica que ironicamente sairia em caminhada da vulga Ponte da Rosinha até o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, que no passado havia sido ocupado por aquela que dá nome a ponte. Esse encontro tinha algo de mágico, que é bem peculiar da atmosfera teatral. Foi assim que marchamos para consumar aquela ocupação, que se deu de forma pacífica, mas não menos tensa por isso. Enfrentamos face à face a pressão do antigo governo.

A ocupação do Teatro de Bolso foi legítima e deu visibilidade nacional àquela causa. Dentre outras coisas, ela exigia a necessária reforma do teatro, o compartilhamento de sua gestão com a classe artística e maior participação da comunidade na construção das políticas culturais da cidade. No curto prazo foi importante, pois a comunidade enfim teve acessibilidade àquela casa que, por anos, se encontrava de portas fechadas. Durante a ocupação foram realizadas oficinas, apresentações, festivais, recitais e cultos. Os passarinhos estavam soltos, mas sabiam onde era seu ninho!  Tinha sempre o suficiente para comer e dormíamos em um templo da arte”.

Saullo Oliveira, ator, estudante de Teatro, músico e ocupante do TB

 

 

Átalo Willan Sirius

 

“Começo salientando que não fiz parte do planejamento da Ocupação, porém a abracei e convivi no Teatro de Bolso quase todos os dias em que este esteve ocupado. O Ocupa Teatro de Bolso foi um movimento que teve como característica mais importante demonstrar na prática a vontade dos artistas de moverem a cultura municipal. Enquanto estávamos ocupados, organizamos e participamos de oficinas, shows, aulas, inclusive organizamos o espaço para uma peça,‘Pontal’, reabrindo o palco do Teatro de Bolso, que de conhecimento público, estava fechado há mais de dois anos. O local estava em situação de descaso, com paredes sujas, mofo, materiais de infra-estrutura caros se desgastando com o tempo e com a falta de manutenção. Dentre suas consequências, destaco a característica principal da ocupação, em minha opinião particular: demonstrar a seriedade que os artistas campistas têm com seus trabalhos, abrir discussões sobre a importância do teatro e da cultura na cidade, onde somos invisíveis e equivocadamente vistos como “vagabundos” e “desnecessários” para grande parte da população, fato demonstrado em muitos comentários sobre o Ocupa TB nas redes sociais, onde fomos julgados de forma agressiva e preconceituosa. Provamos que os artistas campistas existem, são trabalhadores sérios, dignos , dedicados e seus projetos são essenciais para a sociedade, em um espaço físico bem estruturado. Para nós o acesso da população à arte e à cultura é um direito completamente necessário, que não deve ser gravemente agredido, como estava sendo com o Teatro de Bolso desrespeitado e sofrendo sérios descasos do poder público, que praticamente o deixou em situação de abandono”.

Átalo Willian Sirius, ator, estudante de Teatro, carnavalesco e ocupante do TB

 

 

Lívia Amorim

 

“Acho que o movimento é vitorioso, o teatro está aberto e acessível aos grupos e produtores. E acho que a ocupação do teatro foi um ato civil que estimulou a virada do pleito político na cidade. Provou que era possível mudar. Mas, política cultural não é apenas um equipamento cultural aberto e funcionando. Tem todo um somatório de fatores que fazem essa coisa toda funcionar. Reparar os demais espaços, criar novos, deixar que os agentes culturais atuem em parceria com os gestores de forma harmônica e construtiva e renovar as mentalidades. Acho que é um processo que não deve ter amarras, deve ser libertário e permanente. Devemos nos manter em constate estado de ocupação”.

Lívia Amorim, estilista, produtora do coletivo cultural Casinha e ocupante do TB

 

 

Glauber Matias

 

“Quando Fernando Rossi, em entrevista concedida à minha pesquisa de tese em Sociologia Política pela UENF, caracterizou a sua produção teatral e de sua “geração” dos anos de 1980 como aquela que atuou na “trincheira da resistência”, o jovem ator e diretor campista, naqueles idos, aludia a sua experiência artística e de seus colegas de teatro amador como uma tarefa mobilizada pelo sentimento e prática de “luta” em favor da causa do Teatro de Bolso, inaugurado por meio do engajamento dos artistas campistas ainda na década de 1960.

Este histórico espaço teatral campista, que esteve recorrentemente fechado pelo Poder Público Municipal durante os anos de 1980 sob a justificativa de realização de reformas em seu prédio, simbolizava já a partir daquele tempo, para os grupos campistas de teatro amador, a materialização de uma “estrutura de sentimentos”, categoria cara ao crítico galês Raymond Williams. Isto significa dizer que a luta pela reabertura do Teatro de Bolso, expressa no ato de ocupação deste espaço realizada pelos jovens artistas em meados de 1983, para além da busca por garantia das condições materiais de suas produções teatrais também simbolizou um processo de afirmação de suas identidades artísticas e de seus engajamentos políticos a partir de uma experiência afetiva de luta em nome do teatro.

Depois de mais de três décadas após a histórica ocupação de 1983, jovens artistas de teatro, estudantes secundaristas e ativistas da cultura iniciaram um novo processo de ocupação do Teatro de Bolso em maio de 2016. Em suas pautas, a luta pela reabertura daquele espaço teatral significou também o anseio pela construção, democrática e coletiva, de uma política pública de cultura para a cidade de Campos. A contribuição política verificada com o processo de ocupação do teatro pelos artistas no ano passado, dialogou, de modo fundamental, com o histórico de luta em favor do Teatro de Bolso: o sentimento de luta em nome da questão cultural pelos artistas identificou o Teatro de Bolso como lócus privilegiado para a ativação de um cenário de reconstrução da esfera artístico-cultural local.

Reaberto pela Prefeitura Municipal oficialmente em março deste ano, o Teatro de Bolso, sob a gestão de Fernando Rossi, personagem oriundo das fileiras da geração dos artistas dos anos de 1980 (a qual, não por acaso, caracterizo como “Geração do Teatro de Bolso”) experimenta a reconstrução gradual de sua rotina de produções artísticas como parte do horizonte de formulação de uma política, efetivamente pública e democrática, para a cultura de Campos. O desafio posto para o Teatro de Bolso, neste sentido, é o de ser cotidiamente construído e reconstruído pelos artistas que o reconhecem enquanto uma casa histórica para a vida artística campista, tendo sido criada e recriada por meio das lutas político-culturais que forneceram sentido à sua história”.

Glauber Matias, professor e doutor em sociologia política na Uenf com a tese “Palco e resistência: a geração do Teatro de Bolso”

 

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Compromisso com a Uenf, deserções garotistas e um ano do Ocupa TB

 

Na primeira noite de ocupação do TB, há um ano, os artistas de Campos não se intimidaram com a pressão da Guarda Civil, que impediu a entrada de água e alimentos para quem estava dentro do teatro (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

 

 

Uenf: do discurso à ação

Depois das duas últimas edições dominicais da Folha dedicadas à crise na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro, o prefeito Rafael Diniz (PPS) ontem mostrou que discurso tem que ser confirmado por ação. Ao assinar (aqui) um convênio entre Prefeitura e a mais importante instituição de ensino superior da região, o jovem governante marcou pontos não só com a comunidade acadêmica, mas com toda a população de Campos, sensibilizada em apoio à Uenf, desde que seu reitor Luis Passoni admitiu (aqui) à Folha: “É difícil saber até quando manteremos a universidade funcionando nestas condições”.

 

Responsabilidade assumida

Na mesma edição do jornal de 30 de abril, que trouxe o alerta do reitor pelos efeitos da crise financeira sem precedentes do Estado do Rio, Rafael havia afirmado (aqui): “Abraçar a Uenf neste momento é um dever de toda a sociedade”. E ontem, nove dias depois, ao assinar “o primeiro convênio, de tantos outros que virão”, o prefeito assumiu a luta pela universidade como sua: “A Uenf é sim uma responsabilidade da Prefeitura de Campos”. Emblematicamente, disse isso na frente do seu secretário de Educação, o sociólogo Brand Arenari, “cria” da universidade, como tantos outros quadros da cidade e região.

 

Contabilidades

Enquanto há quem registre pontos a favor, há aqueles que os contabilizem negativos antes mesmo do resultado. Ontem, num site de apoio ao ex-governador Anthony Garotinho (PR), assim como ao ex-candidato a prefeito Caio Vianna (PDT), foi anunciado que dos seis vereadores garotistas não diplomados e eleitos no “escandaloso esquema” da troca de Cheque Cidadão por voto, quatro já estariam de malas prontas para a bancada governista. Isso, lógico, caso o plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) venha a seguir o voto da relatora Luciana Lóssio, no último ato desta na instância máxima da Justiça Eleitoral.

 

Façam suas apostas!

Bem conhecida dos campistas pelas decisões contrárias à Justiça Eleitoral de Campos e ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), mas favoráveis aos condenados nas duas instâncias pela operação Chequinho, Lóssio votou pela diplomação de Linda Mara (PTC), Kellinho (PR), Miguelito (PSL), Ozéias (PSDB), Thiago Virgílio (PTC) e Jorge Rangel (PTB). A dar valor ao anúncio da deserção prévia de quatro destes, antes mesmo de qualquer um conseguir assento na Câmara de Campos, quem seriam? Há alguém capaz de imaginar, por exemplo, Linda Mara saindo da prisão domiciliar para integrar a bancada de Rafael? Façam suas apostas!

 

Um ano do Ocupa TB

Ontem se completou um ano da ocupação do Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira. Foi em 9 de maio de 2016 que os artistas de Campos resolveram ocupar (aqui) seu espaço mais tradicional na cidade. Ele estava fechado desde 2014, a título de uma reforma inexistente, enquanto tinha suas dependências ocupadas eventualmente para uso de alguns poucos “amigos do rei”. Ou da rainha, afinal era o governo de Rosinha Garotinho (PR), que tinha sua amiga Patrícia Cordeiro como presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL). Ex-dançarina de axé, ela também era conhecida no governo por ser, como a prefeita, muito ligada a Linda Mara.

 

Ironias

Então secretário de Governo — muito embora, na sua posterior prisão, tenha sido acusado pela Justiça de Campos de ser “o prefeito de fato” —, Garotinho chegou a visitar a ocupação, na noite de 12 de maio, para prometer aos artistas (aqui) a reabertura do teatro em 45 dias. Ex-ator daquele mesmo palco, ironicamente ele havia liderado uma outra ocupação do TB pelos artistas, em 1982, para dali se lançar à política. Mais de três décadas depois, a promessa de reabrir o espaço só seria cumprida (aqui) pelo governo Rafael, no último dia 28 de março, aniversário de Campos e dia mundial do Teatro, pelas mãos de alguém da classe: o diretor Fernando Rossi.

 

Saldo e fatura aberta

Foi Rossi quem abriu (aqui) em 11 de maio o Teatro de Bolso ao recebimento das pautas dos grupos locais que quiserem apresentar projetos para compor a programação de 2017. Ontem, ele celebrou (aqui) a ocupação do teatro pelos artistas, que se encerrou em 6 de junho do ano passado, e comemorou os 120 alunos hoje abrigados no curso livre de teatro. Inegáveis os avanços, mesmo com o pouco tempo e todos os problemas e dívidas herdados pela nova administração. Mas enquanto permanecerem fechados outros espaços vitais ao setor, como o Palácio da Cultura, mais uma vítima do desastroso segundo governo Rosinha, haverá inquietação na classe.

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

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Ricardo André Vasconcelos — Rio: um Estado à beira do caos

 

Ônibus queimados no Rio. Insegurança e descontrole do Estado deixam 1 milhão de fluminenses sob as leis do tráfico e das milícias (Foto: Márcio Alves – Agência O Globo)

 

 

Dias atrás me perguntaram em quem votaria para governador do Estado do Rio de Janeiro em 2018. De pronto devolvi a indagação: E ainda haverá Estado do Rio até lá? Pode parecer exagero mas pelo chacoalhar da carroça não está de todo desprovido de razão quem vê o abismo se aproximar à medida em que o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) perde o pouco que lhe resta de condição política para permanecer no comando do Estado. Cofres vazios, dívidas acumulando, sem recursos para pagar sequer os vencimentos dos servidores e proventos dos inativos. Instituições como o Tribunal de Contas em completo descrédito, assim como os poderes Legislativo e Judiciário. O Estado do Rio vê ruir, também, o seu frágil sistema de Segurança Pública sem condições de fazer frente ao poder do tráfico e da milícia.

Causa calafrios pensar na possibilidade — cada dia mais iminente — de repetir-se aqui o que ocorreu no início deste ano no Espírito Santo. A linha que separa a segurança do caos é tão tênue, que basta muitas vezes um boato, uma palavra mal colocada num contexto dúbio para deflagrar um estado de beligerância latente. Não dá para mais para fingir que Rio de Janeiro não é um nervo exposto, uma bomba-relógio com cronômetro enguiçado, um rastilho de pólvora à espera de uma mísera faísca.

Na semana passada, ninguém menos que o ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse em entrevista à Rádio Bandeirantes de SP, que cerca de 800 comunidades, onde residem um milhão de pessoas no Grande Rio, são controladas pelo tráfico ou milícias. Desceu a detalhes e deu os nomes das facções que estão em guerra para defender os seus ou invadir territórios de grupos rivais. Todo mundo sabia disso, mas ouvir o relato do ministro da Defesa, tecnicamente o comandante das Forças Armadas e responsável pela segurança interna e externa do país é a constatação de que estamos no meio de uma guerra. O projeto de pacificação, as UPPs, se estilhaçou como uma vitrine atingida por uma pedra e justamente porque não passava de uma vitrine para entreter a plateia enquanto Sérgio Cabral assaltava o Estado com sua quadrilha de amigos e empresários.

Além do rombo deixado por Cabral, o Rio é vítima ainda da crise econômica genérica que atinge o país e, em particular a indústria do petróleo, base da economia estadual. A soma desses fatores já era concretizada na falência de serviços públicos nas áreas de Saúde e Educação e na dificuldade de pagar servidores, aposentados e pensionistas. Já ameaça fechar universidades como a Uerj e a nossa Uenf. Perder o pouco controle que ainda resta sobre a Segurança Pública, pode ser próximo passo de um caminho sem volta para uma saída política drástica como a substituição do governador Pezão, seja via impeachment seguida de nova eleição, ou intervenção federal.

A sensação é de que não há mais governo no Palácio Guanabara. Para remendar os cofres arrombados, o governador se rende à sanha privatista do trio Temer-Moreira-Padilha e se compromete a entregar a última das empresas estaduais, a Cedae. A Cerj, a Companhia de Transportes Coletivos (CTC), o Banerj, as Barcas, o BD-Rio, o Metrô e a Companhia de Trens Urbanos já foram vendidas pelos antecessores. Antes que só restem o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor, o Rio precisa reagir, mas a tragédia é tão grande não tem nem lideranças políticas para uma reação à altura dos gigantescos desafios que precisa enfrentar.

 

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Um ano da ocupação do Teatro de Bolso pelos artistas de Campos

 

Momento em que os artistas entraram no Teatro de Bolso, em 09/05/16, para ocupá-lo (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Na primeira noite de ocupação, os artistas não se intimidaram com a pressão da Guarda Civil, que impediu a entrada de água e alimentos para quem estava dentro do TB (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Artistas de revezaram dormindo dentro do TB, para manter a ocupação (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Logo no dia seguinte à ocupação, os artistas tiveram que limpar o teatro, que estava fechado desde 2014 (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Na manhã seguinte à ocupação, em 10/05/16, os vereadores Dayvison Miranda, Marcão Gomes e Rafael Diniz, além do presidente da OAB-Campos, Humberto Nobre, foram ao TB em apoio aos artistas (Foto: Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

Entre a noite do dia 12 à madrugada do dia 13/05/16, Garotinho ocupou o palco central do TB e fez a promessa de reabertra do espaço em 45 dias, descumprida até o finl do governo Rosinha (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Carro chefe da democracia irrefreável das redes socias, uma das melhores coisas do Facebook são as lembranças de postagens que fizemos naquela mesma data, em anos passados. Daí veio a lembrança de que há exatamente um ano o Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira foi ocupado (aqui) pelos artistas de Campos, nos extertores do governo Rosinha Garotinho (PR), depois de estar fechado desde 2014.

Então secretário municipal de governo, Anthony Garotinho (PR) visitou a ocupação na noite de 12 de maio de 2016 e tentou negociar com os artistas. Numa reunião que es estendeu pela madrugada do dia 13, ele fez (aqui) a promessa de reabrir o TB em 45 dias. A ocupação se encerrou em 6 de junho, mas o TB só seria reaberto (aqui) pelo governo Rafael Diniz (PPS) em 27 de março deste ano, dia mundial do Teatro.

Na ocasião, o atual prefeito disse estar cumprindo uma promessa pessoal que fizera ao teatrólogo e poeta Anthonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi, falecido em abril de 2015: “Devolver o Teatro de Bolso aos seus verdadeiros donos: os artistas de Campos”. Ainda como vereador de oposição, Rafael visitou a ocupação (aqui) no dia seguinte, em 10 de maio de 2016, para levar seu apoio aos artistas.

Em 11 de abril deste ano, o TB finalmente abriu (aqui) o recebimento das pautas dos grupos locais que quiserem apresentar projetos para compor a programação de 2017. No que mudou no mais tradicional espaço dos artistas de Campos desde sua corajosa ocupação há um ano, o blog ouviu seu diretor Fernando Rossi:

 

— Hoje completa um ano da ocupação dos artistas campistas no Teatro de Bolso, uma data emblemática, considerando que hoje o teatro encontra-se com suas portas abertas acolhendo 120 pessoas no curso livre de teatro com duas turmas de 60 alunos de diferentes faixas etárias. Turmas com iniciantes e iniciados. Emocionante ver todo aquele movimento com aulas de corpo e voz. O Teatro sendo um espaço para que todas aquelas possam buscar sua melhor expressão através da arte. Fez lembrar o poeta Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”. Vale destacar que quase toda pauta do Teatro está completa até final de 2017 com uma programação toda com artistas locaisAo ver esse numero expressivo de pessoas. Eu me pergunto. Porque não fizeram isso antes? A ocupação foi um movimento legítimo, onde unidos hoje os artistas podem colher o fruto de sua luta. A resposta está aí!

 

 

Vídeo da ocupação do Ocupa TB em 09/05/16:

 

 

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Ocinei Trindade — O homicídio e o suicídio esfregados na nossa cara

 

 

 

Você conheceu alguém próximo, um parente ou amigo, que morreu assassinado no Brasil nos últimos anos? Cinquenta milhões de brasileiros disseram sim, segundo o Instituto Datafolha, em pesquisa encomendada para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Dados dessa pesquisa foram revelados no último dia 5 de maio, mas até agora não repercutiu na grande mídia. A impressão que me dá é a seguinte: para muita gente, a morte banalizou e nos habituamos à violência, apesar das queixas.

Nenhum instituto de pesquisa me perguntou sobre relatos pessoais acerca de mortes violentas, mas puxando pela memória, em alguns segundos, fiz uma lista considerável de gente que conheci e que morreu assassinada. Em 1985, meu pai morreu baleado. Suspeita: assalto (caso nunca esclarecido pela polícia que sequer investigou). Em 1990, um amigo taxista morreu torturado e baleado. Suspeita: assalto ou vingança. Em 1997, um outro amigo vereador morreu golpeado na cabeça e depois teve o corpo carbonizado dentro do carro. Motivo: crime político cometido pelo suplente. O assassino foi julgado, condenado, cumpriu pena e está solto.

Já em 1998, um primo caminhoneiro foi assassinado na região metropolitana do Rio durante assalto. No início dos anos 2000, um policial militar e vizinho morreu numa troca de tiros com traficantes em uma favela carioca próximo à Avenida Brasil. Em 2016, um adolescente filho de uma amiga morreu com vários tiros por conta de tráfico de drogas. Em 2017, um amigo de infância foi brutalmente assassinado. Suspeitas: latrocínio e homofobia.

Perdi a conta de quantas reportagens fiz desde que comecei a trabalhar como jornalista em 1990. Em um dos últimos cálculos, eram quase doze mil textos com outras milhares de entrevistas. Destas atividades, também não consigo precisar quantos crimes de homicídios reportei para os noticiários de televisão. Não foram poucos. Um dos mais violentos que verifiquei foi em um canavial na região de Tocos, Baixada Campista, em 2009. A polícia encontrou dois corpos de homens decapitados. As cabeças nunca foram encontradas. E eu ali olhando aqueles buracos imensos entre os ombros das vítimas, anotando tudo rapidamente para correr para a emissora, dar a notícia, bater o cartão de ponto, encerrar expediente, para finalmente almoçar e descansar de um dia árduo de trabalho. Fiquei frio e indiferente por pura sobrevivência?

Esta suposta indiferença pode ser um mecanismo de defesa meu e de muitos brasileiros.  Em 1988, se não me engano, eu e um grupo de amigos participávamos de uma vigília de oração pela madrugada em uma igreja batista de Guarus. Percebemos um carro suspeito rondando o templo e nos fechamos no prédio. O veículo estacionou na esquina. Eu e um amigo nos posicionamos em uma janela do terceiro andar do edifício, e nos pusemos, escondidos, a olhar pelas frestas o que acontecia do lado de fora. Um homem morreria vítima de um brutal assassinato logo depois.

No carro havia dois homens. Um deles desceu e se encontrou com um outro homem cabisbaixo  (a vítima) que parecia dar explicações não convincentes. Era cobrança de alguma dívida, provavelmente. Depois de uma certa insistência, não havia mais nada a ser dito. O algoz saca da cintura um revólver e atira várias vezes contra o peito, a barriga, as pernas, os braços e a cabeça da vítima. O homem já caído e vencido, sangra e agoniza. O assassino não se contenta, tira o cinto da calça que vestia e surra com violentos golpes de couro e fivela o corpo do pobre diabo que não reage mais. O bandido entra no carro com o comparsa e desaparecem para nunca mais. No dia seguinte, a imprensa deu a notícia do crime Supostamente um envolvimento com traficantes de drogas. Caso arquivado e sem testemunhas. Eu já havia aprendido como funcionava a lei do silêncio ainda adolescente. Aliás, eu nem sei se era realmente eu que viu tudo aquilo. Parecia um delírio…

No último fim de semana, um site de notícias de Campos divulgou o suposto suicídio de uma professora da cidade. O fato repercutiu em redes sociais. Fiquei incomodado com a falta de sensibilidade dos divulgadores e do veículo irresponsável. Sou de um tempo em que falar de suicídio na imprensa era a última coisa a ser feita. A não ser quando se tratasse de uma autoridade ou pessoa pública, e mesmo assim, de um modo discreto, sem sensacionalismo. A quem, de fato, pode interessar a informação de que alguém se matou? No entanto, a quem interessa saber se alguém matou outro alguém?  O que aprendemos com a morte de uma pessoa? Valorizamos mais a vida?

Há décadas, os filmes de ação e de western abordam mortes como algo divertido, bem antes dos videogames de guerras e matanças generalizadas chegarem às salas de nossas casas, aos computadores e telefones celulares pessoais. Muitos telejornais incorporaram parte dessas linguagens e noticiam crimes e assassinatos com narrações e trilhas sonoras dramáticas, antes ou depois das novelas, antes ou depois de um anúncio de margarinas, perfumes, alimentos, cervejas e presentes para o dia das mães. É a espetacularização da barbárie e da desumanidade.

Se um quarto da população brasileira ao longo de sua existência conheceu alguém que morreu violentamente, a grosso modo, isso equivaleria a 50 milhões de pessoas mortas nas últimas décadas? Não sei responder com exatidão. Porém, uma coisa é fato: sobrevivemos por sorte em um país que é violento não só por conta de homicídios, tráfico de drogas ou acidentes de trânsito. A violência faz parte de uma cultura generalizada que passa também pelos governos e parlamentos, além de diversas instituições como família, escola, universidade e igreja que não conseguem inibir a sanha de matar ou de eliminar pessoas que nos incomodam e que não se ajustariam ao convívio social, político ou religioso. Se você chegou vivo ao final da leitura deste texto, parabéns, saiba que é uma pessoa de sorte. Qualquer um pode ser a próxima vítima e morrer, para logo em seguida, ser esquecido.

 

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Marcelo Amoy — A União faz a Força

 

 

 

Ontem, 07 de maio, foi o dia do segundo turno das eleições presidenciais francesas. Eu já devo saber do resultado neste instante em que você me lê, ainda que não vá comentá-lo aqui como fato consumado porque estou fora do Brasil desde o final do mês passado e este texto foi deixado pronto antes de minha viagem. Embora as facilidades de comunicação via internet hoje em dia me facultassem escrevê-lo ontem mesmo, não escolhi essa alternativa até porque não é do resultado da eleição francesa que mais quero tratar, mas do que certos movimentos significam. No caso, a relação dos países (nacionalidades) com a Europa unificada e o projeto de união que ela representa.

Em sua monumental obra, Hobsbawn atribui a origem das grandes guerras mundiais do século XX a dois fatores principais: o capitalismo e o nacionalismo. Atrevo-me a discordar (em boa parte) – até porque, mesmo não tendo as décadas de estudo e leitura que ele tinha, não sou marxista e posso imaginar que exista bem mais no mundo do que essa “lente” consiga enxergar. No entanto, um certo grau de reconhecimento de que o nacionalismo foi um dos fatores geradores das tensões que levaram aos conflitos que marcaram o século XX com suas duas terríveis guerras está na gênese do projeto de uma Europa unificada – unida por sua cultura cristã, pela escolha por democracia, pelo livre mercado e por suas tradições humanitárias (apesar dos arranhões). Acho que esse é um projeto que vale a pena ser preservado.

Os britânicos, por pequena maioria, acharam que não e deram início ao Brexit. Isso me lembra aquela piada em que, durante uma terrível tempestade, toda a comunicação entre a Grã-Bretanha e o restante da Europa foi cortada. Ao saber disso, um inglês teria dito: “Pobre Europa, está isolada.” O futuro dirá se o Reino Unido terá feito uma boa coisa. O argumento a favor da saída foi o nacionalismo, resumido na frase: “Não queremos que Bruxelas nos diga o que fazer”. A eleição de Trump nos EUA foi um pouco do mesmo em essência: querer seu país grande de novo não quer dizer, apenas, um desejo de recuperar uma grandeza (real e/ou imaginária) passada, mas o de separar “isto daquilo”. Eu não sou contra que se tenha claro onde um país começa e outro termina, mas sou de centro o suficiente politicamente para desconfiar sempre de posicionamentos que reputo radicais.

A Europa passa por um dilema crucial em relação à imigração. Mesmo sem ser europeu, é algo que me preocupa especialmente agora que o Brasil está por sancionar uma lei de imigração que eu considero absurdamente frouxa. Na Europa, o “Espaço Schengen” trouxe uma mobilidade inédita de pessoas que levam suas mentes com suas forças de trabalho, formações acadêmicas e potencial para inovações livremente para todos os lugares, gerando mais desenvolvimento, realização individual e benefício social. Sim, bandidos também podem circular livremente – terroristas idem. Então, para evitar que os  terroristas venham, vamos fechar as fronteiras correndo e cercear a liberdade das pessoas e o progresso da sociedade? É esse o projeto político que andam defendendo por aí? É isso que os terroristas querem; devemos ajudá-los a conseguir? Imaginem, grosseiramente, que alguém machuque a mão e, para evitar que o corpo sofra com uma infecção, corra a decepá-la. Esqueceu que há antibióticos… cortou a mão fora e nunca mais vai viver como antes – ainda que sem (aquela) infecção. Haverá de seguir cortando partes nas próximas ameaças?

Pra mim, os discursos isolacionistas têm todos cheiro de populismo (quando não de algo mais podre). Falam direto às camadas “mais pobres” (“menos antenadas”) do mundo rico: aquelas que se acham as vítimas do enriquecimento dos países periféricos graças à globalização como se o capitalismo não gerasse riqueza e fosse tudo um jogo de soma zero, em que é preciso tirar daqui pra colocar ali. Não é! É possível e desejável que cresçamos juntos. Se a fábrica fechou em Detroit, lamento… bora buscar um curso de atualização e um novo emprego no setor de serviços, por exemplo, ou num outro ramo vocacionalmente mais afim? Bruxelas regulamentou o tamanho das cenouras e as suas aí de Essex não se adaptam? Plante tomates ou repolhos! Xi… olha a guilhotina se aproximando do meu pescoço por eu dizer a grande novidade de que as coisas não ficarão para sempre como eram e que só não muda o que já morreu… [É comum chamarem de insensibilidade o que não passa de realismo.]

O mercado de capitais europeu ficou eufórico com a vitória de Macron no primeiro turno francês porque ele é pró-Europa (portanto, menos isolacionista). Pessoalmente, mesmo que muitas críticas tenham fundamento, eu também apoio a União Europeia. Porque não aprimorá-la, resolvendo os atritos, ao invés de simplesmente cortar a mão fora? A grandeza de certas construções institucionais humanas está exatamente no fato de que elas podem mudar dentro de si mesmas, sem precisarem ser destruídas e substituídas por outra ordem. Assim são a democracia, o capitalismo e tantos organismos multilaterais como a UE: eles estão sempre se recriando e evoluindo junto com a sociedade; poder reformar-se sem se destruir é parte de sua dinâmica. O problema humanitário da imigração é sério e sensível. Eu não acho que esteja certo simplesmente abrir as fronteiras e encher a Europa de gente que pode estar disposta a detonar exatamente o que a UE mais quer preservar: seus valores culturais. Tem que haver algum tipo de triagem eficiente – eu não sei como fazer. Mas simplesmente fechar os olhos para o desespero de milhões de pessoas seria negar os valores humanitários europeus – cristãos, em primeiro lugar. Querem deixar clara a “inferioridade humanística” da cultura muçulmana? Então não se igualem.

Fora isso, vamos a um exercício mental? O Reino Unido já saiu da UE. Se a França sair… o pilar restante será a Alemanha. Quanto tempo vai levar pra que alguém comece a gritar que o que o Kaiser Wilhelm não conseguiu na I Guerra nem Hitler na II será obtido por Merkel no século seguinte: a dominação da Europa por uma Alemanha forte e hegemônica? Loucura, loucura – mas de médico e louco cada um tem um pouco, não é? Melhor é não rasgar dinheiro nem decepar a mão! Recomendo poupar em euros e tomar antibióticos – tem uns de última geração que são excelentes! E se for preciso, manda um rivotril também. 😉

Interessante notar, contudo – e esse tem sido um desejo meu faz tempo! – que a visão democrática e liberal de mundo parece estar virando a mesa da esquerda. Mesmo que um tanto exagerada aqui e ali (nada que não possa ser redimensionado, espero), a tendência tem sido a aposentadoria de ideias que adoram se chamar de progressistas, mas que deixaram a desejar no quesito… progresso (mormente o econômico). Isso não significa que eu ache tudo o que a esquerda apresentou como dispensável. Muito pelo contrário: acho que estão abertas as portas para aproveitarmos o que presta do que já foi proposto de todo os lados e construirmos uma síntese aproveitável. Pra mim, o ideal seria o cenário em que as liberdades individuais fossem as mais abrangentes possível, numa economia de práticas conservadoras. Como disse antes, ainda não sei se o Macron ganhou na França, mas se ganhar resumirá bem essa minha percepção: a de que a maioria das pessoas ainda acredita que se pode garantir progresso econômico e liberdade individual num mundo cooperativo, sem isolacionismo e/ou nacionalismo obtusos, sem belicismo desnecessário (mas também sem ingenuidades) e sem perder as características culturais de cada rincão mesmo com a abolição de fronteiras geográficas, políticas, econômicas, laborais, etc. O argumento de que o “globalismo” acabará por destruir a essência do que prezamos não me parece acertado; melhor dizendo: não vejo o futuro acontecendo assim, porque não vejo incompatibilidade entre a cooperação internacional, mesmo com o ônus da perda de parte da soberania regulatória, e a manutenção da cultura local/nacional. Há coisas que acrescentam; não apenas substituem.

Pra mim, chega de assassinatos em Sarajevo a honras a serem vingadas pela força (ou pelo nojo). A superioridade do Ocidente reside exatamente na combinação de progresso material com valores humanitários. A expansão muçulmana para o Ocidente se deteve nas muralhas de Viena em 1529 e se hoje parece (querer) ir além… cabe a Europa, UNIDA, estabelecer os limites e dizer: “Alto lá, Allah!”. Contraditoriamente, quase 400 anos depois, foi uma ordem de Viena que desencadeou a I Guerra: sinal de que um mesmo lugar pode ser eficiente para se defender do que vem de fora enquanto cria o germe de sua destruição por dentro – espero que a Europa tenha aprendido a lição e não a desperdice recriando nacionalismos (que podem até se manifestar de forma diferente do passado, sem expansionismos desta vez, mas que me cheiram igualmente ultrapassados). Nesse meio tempo, Viena foi o lugar que abrigou a genialidade de Bethoven, Mozart, Haydn e Strauss e que sediou alguns dos eventos mais importantes da História, como aquele Congresso, em 1814/1815, em que, unidas, as potências de então determinaram a reorganização da Europa pós-Napoleão – com reflexos aqui no Brasil nas ordens das Cortes Portuguesas determinando o retorno da família real para Portugal. Vejam só: uma decisão europeia afetando o futuro de nossa vida, aqui, em nosso país… Terá esta lição sido esquecida?

Obviamente, outras pessoas podem achar diferente, mas pra mim, mesmo dois séculos depois, já de longe terminada a era do colonialismo europeu, a influência deste continente ainda é real e grande porque a Europa ainda é um farol para todo o mundo – que dirá pra mim… Quero vê-la unida e forte. É pra Europa que sempre olho, pra onde prefiro ir e onde me encanto a cada esquina ou paisagem – como nesses últimos dias, em que caminho às margens do Danúbio na outrora capital imperial dos Habsburgo.

Vive l’union européenne!

Lebendig die Europäische Union!

 

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Poema do domingo — Pardais a rodar o mais que jazia

 

(Foto: divulgação)

 

 

pardais

(p/ rafaela)

 

o batismo do pardal nos vitrais em pia

por santos na chuva pálida dos mortos

tingia luto em vida negra, marrom e cinza

 

ao topo da escada, só e diante à capela

no contra-plongée velado por bergman

tremia com penas molhadas uma menina

 

tratei sua dor do mundo como se minha

transfusão por entre a casca da cicatriz

pardais de cima a rodar o mais que jazia

 

campos, 05/05/17

 

 

 

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Artigo do domingo — Uenf de Pessoa a Whitman

 

 

Fernando Pessoa e Walt Whitman (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Em um dos seus poemas mais angustiantes, aos seus leitores mundo afora, como deve ter sido para quem o escreveu, o português Fernando Pessoa (1888/1935) sentenciou a espécie pela pena do seu heterônimo Álvaro de Campos:

 

“És tudo para ti, porque para ti és o universo”

 

E depois reforçou três versos abaixo, na mesma estrofe:

 

“És importante para ti porque só tu és importante para ti”

 

À parte o estímulo debochado ao suicídio, do mais debochado e metafísico dos heterônimos de Pessoa, os versos pinçados do poema “Se te queres matar” são um retrato talvez cruel, mas nítido, da nossa real importância para fora de nós mesmos: pouca ou nenhuma. Por mais que, “sombra fútil chamada gente”, estejamos quase sempre a pensar o contrário.

Afinal, não somos todos os “gênios-para-si-mesmos sonhando” que Pessoa/Campos versejaria em outro poema, “Tabacaria”, seu mais famoso?

O fato é que a dose de humildade que o poeta nos impõe, seria de muito bom proveito num Brasil tão fragmentado por opiniões tão distintas sobre tudo, que não raro conduzem a nada.

Neste contexto de polarização nacional, muitas vezes à beira da esquizofrenia, encontrar algo que nos una é remédio poderoso. Pode não curar as diferenças — nem deve! Mas diagnostica como, à parte elas, temos um caminho a percorrer juntos enquanto sociedade.

Nesse sentido, a população de Campos e da região, ainda que não se distinga do resto do Brasil, deu um exemplo recente e inconteste, na mobilização pela manutenção da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro.

Desde o fechamento da Casa de Cultura Villa Maria, por falta de energia elétrica, denunciado (aqui) na coluna “Ponto Final” como vanguarda do desmonte da Uenf, a reação da população foi imediata. Fechada no último dia 18, a Villa seria reaberta (aqui) no dia 24, para receber (aqui) no evento “Choro na Villa”, no dia 29, seu maior público — como testemunhou a diretora da Casa, a diligente professora Simonne Teixeira.

E o sucesso se repetiu (aqui) ontem (05), no Dia do Rock Goitacá. Mudou o estilo da música, não a simpatia popular pela Villa. Doada em testamento por sua antiga dona, Finazinha Queiroz (1887/1970), como sede de uma futura universidade pública de Campos, o solar histórico foi a vanguarda da Uenf mais de duas décadas antes da sua criação, em 1993.

E como provam os eventos dos dois últimos sábados, tem sido também a vanguarda da resistência contra a possibilidade de fechamento da Uenf.

Bem verdade que, cobrado sobre a situação da universidade numa entrevista (aqui) de duas páginas, na edição da Folha do último domingo (30), o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) daria a melhor resposta (aqui) cinco dias depois. Em reunião na última sexta (05) com os reitores das instituições estaduais de ensino superior, subordinadas à Ciência e Tecnologia, seus servidores e alunos se uniram na mesma promessa feita à Educação: a partir de abril, salários e bolsas em dia.

Quanto aos atrasados, o governador estimou a quitação no final de junho, quando deve ser aprovada no Congresso Nacional a ajuda da União aos Estados. Nela, a expectativa fluminense é receber a injeção de R$ 3 bilhões.

Nas páginas 5, 6 e 7 (aqui e aqui) desta edição, falam sobre a crise da Uenf diversas lideranças do meio acadêmico e da sociedade civil organizada, além do reitor da universidade, professor Luis Passoni. Na entrevista feita na quinta (04), ele viu o gato da Uenf subir no telhado, mas entre a queda e sua possibilidade, depois da reunião com Pezão, na sexta, classificou o que ouviu como “boa notícia”.

Certo que, nessa luta coletiva, cada indivíduo, como nos versos de Pessoa, tenda a achar sua participação mais importante do que de fato foi. E é humano que assim seja. Na dúvida, a certeza que se não fosse o compromisso dos campistas com o que une, sobre aquilo que separa, o sonho de Darcy Ribeiro (1922/97) e de tantos outros ao longo do último quarto de século, correria o risco de se transformar em pesadelo.

Pelo sim, pelo não, até que a situação esteja de fato normalizada, aconselha-se a dormir com um olho aberto.

Grande influência de Pessoa e assumidamente a maior do seu heterônimo Álvaro de Campos, é o poeta estadunidense Walt Whitman (1819/92), pai de tudo aquilo que depois se chamaria modernismo, quem dita a senha:

 

“Você, leitor, que pulsa

de vida e orgulho e amor,

assim como eu:

para você, por isso,

os cantos que aqui seguem!”

 

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Diversidade da sociedade se une em defesa da Uenf

 

Humberto Nobre, Jefferson Mahães de Azevedo, Fernando José Coutinho Aguiar, Marcos Breda, Frederico Paes, Hernán Mamani, Elizabeth Landim, Inês Ururahy de Souza, Joilson Barcelos, Ronaldo Nascimento, Gustavo Chagas, Heitor Antonio da Silva, Gisele Teixeira de Almeida, José Luiz Lobo Escocard, Tito Inojosa, Vitor Menezes, Edilbert Pellegreni, Rafanele Alves e João Waked

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa e Daniela Abreu

 

Num país fragmentado desde a campanha das eleições presidenciais de 2014, passando pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), pelas reformas trabalhista e previdenciária do governo Michel Temer (PMDB) no Congresso Nacional, e pelas entranhas do Brasil ainda vivo expostas diariamente na operação Lava Jato, difícil encontrar algo que ainda una, sobre aquilo que separa — muitas vezes passionalmente. Se os campistas não são exceção, uma causa comum e recente pareceu caminhar contra essa turbulenta corrente de polarização: a luta pela sobrevivência da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), sem verba de manutenção, de R$ 2 milhões/mês, desde outubro de 2015.

Vítima da crise financeira sem precedentes do Estado do Rio de Janeiro, a defesa da principal instituição de ensino superior de Campos e região tem unido classes, ideologias e interesses antagônicos. E essa mobilização parece estar dando resultados. Depois de ser cobrado sobre a situação da Uenf em entrevista (aqui) de duas páginas na Folha do último domingo (30), cinco dias depois, na sexta (05), o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) prometeu (aqui) regularizar de abril em diante o pagamento dos servidores e estudantes bolsistas das universidades estaduais. E se comprometeu a pagar os atrasados assim que for aprovada no Congresso a ajuda da União aos Estados.

Longe do ideal, é um avanço em relação a todas as posições anteriores do governo fluminense. Mas as lideranças de Campos, dos mais distintos setores, estão atentas para cobrar as promessas e além delas:

— Ainda que vivamos um momento crítico da história de nosso país, que moremos num dos Estados mais afetados pela atual crise, é ainda assim assustador que a primeira vítima seja a Educação.  A Uenf representa uma incomensurável conquista do Norte e Noroeste Fluminense no caminho da construção dessa sociedade que queremos e já deu prova disso, em especial, mas não só, pela formação de nossos jovens. Dante Alighieri disse que “no inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. É por isso que a luta pela Uenf é um dever que cabe a todo cidadão — convocou o presidente da OAB-Campos, Humberto Nobre.

Reitor de outra instituição de ensino público considerada fundamental para Campos e região, o do Instituto Federal Fluminense (IFF), Jefferson Manhães de Azevedo, se solidarizou com a luta das universidades estaduais fluminenses:

— Estamos vivendo um momento muito delicado no nosso país, especialmente no Estado. É muito preocupante quando nós temos ameaçadas instituições tão prestigiosas como a Uerj, A Uezo e a Uenf, instituições comprometidas com a pesquisa, com a extensão, com a formação de lideranças, e que têm profissionais qualificados para ajudar a superarmos a crise. O futuro do Estado, com certeza, passa pela Educação, pela Ciência e pela Tecnologia, vindas dessas instituições. Nos colocamos solidários à luta da Uenf, que também é a nossa luta, por uma Educação pública, de qualidade e acessível a todas as pessoas.

O setor produtivo também está na luta pela manutenção da Uenf. Neste sentido, quem se posicionou foi o presidente da Federação das Indústrias do Estado Rio de Janeiro (Firjan) no Norte Fluminense (NF), Fernando José Coutinho Aguiar:

— A Uenf nasceu comprometida com o desenvolvimento regional e é dispensável reafirmar sua importância. A atual situação das universidades estaduais reflete a queda de arrecadação do Rio, cujo esvaziamento econômico tem provocado um forte desequilíbrio fiscal. Precisamos reativar a atividade econômica para que as empresas passem a gerar mais recursos para manutenção das universidades e custeio do Estado. Temos de resolver as questões na esfera jurídica e avançar nas políticas de desenvolvimento do Rio de Janeiro. E a Uenf é parte importante disso.

De empregadores a empregados, a luta de classes faz pausa quando o assunto é Uenf. Representando os trabalhadores do setor economicamente mais importante da região, o coordenador do Sindipetro no NF, Marcos Breda, pregou a mobilização:

— A Uenf é um daqueles exemplos do que de melhor o poder público pode fazer: investimento sério em setor estratégico, essencial para a soberania de um povo, em Ciência, Educação e Tecnologia. Nós, petroleiros e petroleiras, que também lutamos para preservar outro patrimônio nacional, a Petrobras, somos solidários à luta dessa universidade que é motivo de orgulho para o País. Nascida das manifestações regionais e concretizada pelas mãos de humanistas como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a Uenf pode contar conosco para contribuir na mobilização da sociedade em sua defesa.

Substituída pela extração do petróleo como principal atividade econômica da região, a indústria do açúcar e o álcool também se colocou na linha de defesa. Para o presidente do sindicato da Indústria Sucroenergética do Estado do Rio de Janeiro (Siserj), Frederico Paes:

— A Uenf é um patrimônio que está sendo destruído por quem deveria zelar pelo seu desenvolvimento. Chegou estar entre as melhores universidades do país vive o completo abandono. A instituição que nas últimas duas décadas formou milhares de profissionais, desenvolveu pesquisas que contribuíram para avanços em diversas áreas, foi um sonho de Darcy Ribeiro e dos campistas, hoje está à própria sorte. Laboratórios abandonados, falta de segurança, não pagamento dos profissionais entre outras mazelas. Lamentável saber que toda uma história sonhada e construída está virando um pesadelo. Temos que acordar!

Diretor de outra importante instituição de ensino público superior de Campos, o diretor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Hernán Armando Mamani analisou:

— A crise da Uenf é mesma que nos afeta a todos. É uma crise econômica, política e moral.  Não é uma crise da instituição universitária, enquanto instância livre e democrática produtora difusora de conhecimento, nem é propriamente resultado de agruras econômicas. O abandono da Universidade à sua própria sorte, das políticas de financiamento e o ataque aos profissionais experientes em política científica é um aspecto de algo mais amplo e mais grave. É  o ataque à própria noção de público como instância coletiva e superior às conveniências e interesses parciais. A  crise política é uma moral, dado que não sabemos mais com estar juntos.

Das universidades públicas às privadas, quem também fechou posição foi a vice diretora do Isecena, Elizabeth Landim:

— Pensamos que qualquer diminuição da ciência, educação e conhecimento é um malefício enorme à sociedade. Afinal, são ferramentas que precisamos multiplicar. A Uenf cumpre este papel com êxito, fazendo da pesquisa e do ensino uma extensão para a comunidade. Nós, como representantes de instituição de ensino, vemos com muita tristeza e pesar essa falta de valorização, de aporte financeiro e de estrutura por parte do Governo do Estado. Precisamos estar unidos nesta luta em prol da sobrevivência da Uenf, de forma que a instituição possa garantir seu lugar de destaque na sociedade.

A posição se assemelha ao protesto e a conclamação por reação, propostos por Inês Ururahy, reitora do Centro Universitário Fluminense (Uniflu):

— Embora saibamos das graves dificuldades financeiras do Estado do Rio, decorrentes de má gestão e desvio do dinheiro público, o Uniflu repudia seus efeitos sobre a Uenf, que é imprescindível a Campos e região. Estamos solidários aos professores, pesquisadores, funcionários e alunos da Uenf e colocamo-nos de pé, em veemente protesto. Conclamamos uma imediata, amplíssima, profunda mobilização articulada de toda a sociedade, e não apenas do meio universitário, para que esse descalabro tenha um fim e que seja feito um pacto imediato entre todos os poderes públicos e sociedade civil envolvidos.

E não vem só do meio universitário a disposição de lutar pela manutenção da Uenf. Presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Campos, Joilson Barcelos chamou à luta:

— Desde de que se acentuou a crise na Uenf, temos colocado esse problema no topo da pauta na CDL. Recebemos o reitor em uma de nossas reuniões de diretoria e nos colocamos à disposição, nos comprometendo com a luta para salvar a universidade. Não pode haver um retrocesso. Se Campos perder a Uenf perde com certeza o que ela tem de mais importante. Não vamos deixar isso acontecer. Esse é um compromisso de toda a atividade econômica da região, não só do comércio, mas da indústria, pecuária, agricultura e tudo mais. A luta é de todos!

Em outra prova da suplantação dos interesses de classe pela causa comum, a defesa da Uenf não foi muito diferente da assumida pelo presidente do sindicato dos Empregados do Comércio, Ronaldo Nascimento:

— O Sindicato dos Empregados no Comércio de Campos, através de sua diretoria e associados, está solidário com o justo movimento em defesa da Uenf. É lamentável que a universidade construída no sonho de Darcy Ribeiro esteja praticamente abandonada. Aliás, de modo geral, a Educação não tem recebido o devido apoio das autoridades. A classe comerciária de Campos faz coro com todos que pedem providências urgentes para o estado de pré-falência desse importante estabelecimento de ensino.

Prova viva da importância da Uenf na formação dos quadros da região, o diretor do Isepam, Gustavo Chagas, testemunhou:

— A chegada da Uenf à cidade foi a realização de um sonho de muitos jovens da região. Eu sou ex-aluno, e tenho uma forte ligação com a esta importante instituição, reconhecida nacionalmente como um das melhores do país. É lamentável a situação da Uenf e demais instituições de ensino superior do Estado, com seus servidores com os salários atrasados e sem estrutura mínima para funcionar. É necessário que todos que acreditam no papel da Uenf no desenvolvimento regional lutem para sua continuidade. O projeto de inovação da Uenf, que me encantou há alguns anos, não pode terminar!

Mas não é preciso ter passado pelas salas de aulas da Uenf para reconhecer sua importância acadêmica. Nem para engrossar o discurso contra o Governo do RJ por conta do descaso com a instituição de ensino. Reitor da Uni-Redentor, Heitor Antonio da Silva foi duro:

— Não se trata de uma crise na Uenf, e sim no Governo do Estado do Rio. A universidade em questão teve, até recentemente, uma excelente gestão. Seu corpo docente é de qualidade significativa e seus cursos igualmente bem focados. O programa de pós-graduação, sobretudo os mestrados e doutorados são de suma importância ao desenvolvimento acadêmico e profissional da região, formador de professores para todas as outras IES (Instituições de Ensino Superior) da região e do país. O que temos é um grande grupo de vítimas dos desmandos, da corrupção, da roubalheira e da falta de escrúpulos dos mandatários deste Estado.

Independente do diagnóstico, a convocação a entrar no ringue pela Uenf parece ser a mesma no meio universitário goitacá. Para Giselle Teixeira de Almeida, diretora da Universidade Salgado de Oliveira (Universo):

— A perspectiva de encerramento das atividades da Uenf representa um retrocesso generalizado para o Estado do Rio, com perdas lastimáveis para toda sociedade, comprometendo seriamente o futuro da nossa cidade e de toda região. Todos nós educadores e todos aqueles que tiveram suas vidas transformadas pela educação temos a obrigação moral de nos solidarizarmos e não permitir que isso de fato se concretize. Não defender e lutar por esta causa é perder por WO.

Do setor acadêmico ao produtivo, a disposição de buscar alternativas à sobrevivência da Uenf é a mesma. Na visão do presidente da Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic), José Luiz Lobo Escocard:

— A Uenf vive uma situação atípica, pois jamais vi algo parecido nos últimos anos. Entretanto cabe salientar que por mais que seus corpos docente e discente queiram fazer manifestações em prol da universidade, a sociedade sozinha não tem condições de arcar com os custos e a da sua manutenção. É preciso que a sociedade civil organizada e a comunida-

de procurem alternativas junto aos poderes legalmente constituídos para diminuir esse problema e fazer com que a Uenf volte a funcionar de forma ple-

na, para o bem do desenvolvimento regional, papel que sempre cumpriu de forma eficaz.

Do comércio e indústria ao campo, a importância da Uenf é salientada. De acordo com o presidente da Associação Fluminense dos Plantadores de Cana (Aflucan), Tito Inojosa:

— Somos uma região com vocação agrícola e a Uenf muito contribuiu com pesquisas para o setor. Lamentamos a falta de investimentos na universidade, na formação de pesquisadores e desenvolvimento dos trabalhos que vinham sendo realizados nas últimas duas décadas. O descaso não é apenas com a Educação, mas também com toda a equipe de pesquisadores, bolsistas, alunos e funcionários que atuam no campus e não recebem seus salários.

Ciente do papel que sociedade e imprensa locais tiveram no nascimento da Uenf, como demonstram agora na luta por sua sobrevivência, quem também opinou foi o presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC), Vitor Menezes:

— A Uenf é resultado de décadas de lutas da sociedade pela sua implantação, com papel destacado de instituições como a antiga Faculdade de Filosofia de Campos, atual Uniflu, e da imprensa campista. Agora, quando a negligência com a gestão dos recursos públicos no Estado a coloca sob sério risco de desativação, novamente o Norte Fluminense se ergue em sua defesa. A Associação de Imprensa Campista é testemunha desta história e se soma às vozes que bradam pela continuidade dos excelentes serviços prestados pela nossa universidade.

Recém eleito como diretor da Faculdade de Medicina de Campos (FMC), Edilbert Pellegrini também deu seu diagnóstico sobre a importância da Uenf:

— A FMC está sensibilizada com a situação atualmente enfrentada pela Uenf e toda a sua comunidade acadêmica. Desde sua fundação, ela é parceira da nossa Instituição de Ensino Superior (IES), no campo das pesquisas que objetivam melhorias da nossa comunidade. Manifestamos nosso desejo que os gestores estaduais se empenhem para a normalização da situação financeira da instituição para garantir a manutenção dos financiamentos em curso e futuros. O brilho acadêmico conquistado pela Uenf não pode ser ofuscado no cenário nacional e internacional.

Categoria bastante ativa em Campos, como no resto do Brasil, na luta por seus direitos, os bancários compraram a briga da Uenf como sua. Foi o que garantiu o presidente eleito do sindicato dos Bancários de Campos e região, Rafanele Alves:

— Defender a Uenf é preservar a capacidade de produção de conhecimento do nosso Estado. Mesmo em situação de total precariedade, seus estudantes, corpo técnico, docentes e o seu reitor não desistem. Precisamos apoiá-los. Precisamos apoiar a nossa região. A Uenf lançou o Norte Fluminense no cenário nacional e internacional de excelência em ensino, pesquisa e extensão, promovendo com as comunidades uma integração de grandes resultados. Nossa Uenf é nossa identidade. Não podemos permitir que essa identidade se perca.

Representante de uma das áreas de comércio mais tradicionais de Campos, o presidente da Associação dos Comerciantes e Amigos da Rua João Pessoa (Carjopa), João Waked Filho também entrou na luta para a manutenção da Uenf como uma conquista da cidade:

— O quadro terrível que apresenta administrativa e economicamente o Estado, tem reflexos alarmantes na Uenf. Sabemos quão necessária é a reforma administrativa do nosso Estado, mas preservar a Uenf é crucial à região, principalmente quando sabemos que quando a crise passar, precisaremos mais que nunca da mão de obra que a universidade produz; qualificada e de alto nível. Manter uma formação profissional do nível da Uenf é garantir o futuro de novas gerações. E para isso a sociedade campista tem que lutar! Não podemos passar à frente o estigma da “cidade que já teve”.

 

Página 5 da edição de hoje (07) da Folha

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Promessas de Pezão descem o gato da Uenf do telhado?

 

Por Aluysio Abreu Barbosa e Matheus Berriel

 

Na piada sobre a morte do gato da avó que viajou, para prepará-la homeopaticamente à realidade fatal, o neto começa contando na primeira ligação: “Olha, vovó, o gato subiu no telhado”. É a analogia usada pelo reitor Luis Passoni para falar da realidade da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Sem verbas de manutenção desde outubro de 2015, com atraso nos salários dos servidores e bolsas dos estudantes, a maior instituição de ensino superior de Campos e região hoje passeia pelo telhado. Nesta entrevista, feita na quinta (04), ele detalhou a crise na universidade e falou de parcerias com a comunidade e a iniciativa privada. Na sexta (05), após reunião com o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), Passoni considerou “boa notícia” a promessa de regularizar os salários e bolsas de abril em diante e acertar os atrasados após a aprovação no Congresso da ajuda da União aos Estados. Se bastará para o gato descer do telhado, só saberemos nas ligações seguintes.

 

 

Luis Passoni (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Folha da Manhã – Na matéria publicada na Folha no último domingo, você disse (aqui): “É difícil saber até quando conseguiremos manter a Uenf funcionando nestas condições. A rigor, já estamos nos descontos da prorrogação”. Quando acaba a prorrogação?

Luis Passoni – O que eu quis dizer com essa expressão é que, a rigor, a gente já deveria ter fechado. Nós estamos sem condições plenas de funcionamento já há muito tempo, e a situação vem piorando. Iniciamos a nossa gestão em janeiro de 2016. A gente tinha três meses de atraso em todas as contas.

 

Folha – As verbas de manutenção estão atrasadas desde outubro de 2015.

Passoni – Sim, mas os salários estavam em dia. Desde outubro de 2015 não há nenhuma disponibilização de verba de manutenção. Quando você se fala em custeio, inclui alguns auxílios em folha e a bolsa do cotista. Esses recursos a gente está recebendo. A parte de manutenção, destinada aos contratos dos terceirizados, a pagar contas, comprar papel, tinta, caneta, enfim, esse recurso é que não vem nada desde outubro de 2015. O total é de R$ 3 milhões ao mês para custeio. Destes R$ 3 milhões, R$ 2 milhões (para manutenção) não têm aparecido. A gente tem conversado insistentemente com o Governo do Estado. Mesmo que ele não consiga honrar com os R$ 2 milhões por mês, o que ele conseguir mandar, já dá um alívio. Mas não tem sido enviado nada. Nessa situação, eu não sei te dizer. Na condição de funcionamento, a gente reduziu a ter um mínimo de vigilância e de limpeza. Já estamos sem vigilância desde setembro do ano passado. Estamos com colaboração da Polícia Militar e da Guarda Civil Municipal. Tem sido suficiente meio por milagre.

 

Folha – Não tem sido, porque na madrugada do último dia 27 foi registrado outro roubo (aqui), de duas motobombas no valor de R$ 8 mil, no P-5 do campus, que deixou a Casa Ecológica sem água em pleno ano letivo.

Passoni – Essa questão da segurança não está bem resolvida, mas com a presença da Guarda e da PM, os únicos problemas têm sido de furtos. A gente não está tendo nenhuma ação agressiva, como tivemos problema de vandalismo no final do ano, quando depredaram alguns veículos. Temos constantemente problema de invasão da nossa piscina. Em cada evento desse, a gente tenta, insiste com a PM e a Guarda Municipal, que intensifica as rondas, o problema se acalma. Aí eles diminuem as rondas, o problema volta, a gente volta a conversar. Estamos tratando o funcionamento na base do dia a dia. Aparece um problema, a gente resolve.

 

Folha – E até quando dá para aguentar assim? Há um deadline?

Passoni – O dia que tiver um assalto violento aqui no campus e alguém sair ferido, nesse dia eu não consigo mais convencer o pessoal a continuar trabalhando. Quanto ao deadline financeiro, já passou. A empresa que faz a limpeza aqui não recebe há 18 meses.

 

Folha – Qual é o passivo atual dessa empresa?

Passoni – O cálculo muda muito. Na atualização do começo de março, era de R$ 16 milhões, no total de dívidas da universidade com fornecedores terceirizados. Só com a Ferthymar, é em torno de R$ 6 milhões. Essa empresa de limpeza não recebe desde outubro de 2015. A gente recebeu uma doação da Alerj de R$ 1,5 milhão no ano passado, pagamos alguma coisa a eles. No começo desse ano, dos R$ 6 milhões que a gente tinha, o Estado conseguiu pagar R$ 300 mil. A paciência dessa empresa se esgota todo mês. Aí temos que fazer um trabalho de diálogo, de convencimento. Quando a gente recebeu R$ 1,5 milhão da Alerj, R$ 1,2 milhão a gente gastou com os terceirizados, a Ferthymar e a K9, que era a de vigilância. A K9 não aguentou e rompeu o contrato em setembro. A Ferthymar ainda segurou a onda. Em fevereiro, conseguimos mais um pagamento de R$ 300 mil. Eles esperavam um novo pagamento em abril, mas não saiu. Fui com eles conversar e temos um novo deadline para 11 de maio em relação à Ferthymar. O dia que ela parar de trabalhar, em uma semana a gente já não tem mais condições de funcionar.

 

Folha – Falamos dos fornecedores. E até onde vai a paciência do servidor?

Passoni – A paciência do servidor esteve por um fio. No dia 17 de abril, véspera da Páscoa, recebemos o salário integral de fevereiro. Nesse momento, a gente desarmou uma bomba relógio, renovando um pouco com o servidor, que já estava no limite. Então, com esse novo atraso, chegando em 11 de maio, dependendo de como for o calendário do pagamento do salário de março… A data do pagamento deveria ser no 10º dia útil do mês subsequente. Deveríamos ter recebido março na primeira quinzena de abril, e já estamos em maio. Esse é um agravante. Eu também estou sem receber, assim como todo mundo.

 

Folha – Há ameaça de greve?

Passoni – Sim. A adesão à greve geral do dia 28 foi total. Foi um fenômeno nacional, mas o estado de ânimo interno ajudou muito. Mesmo quando há uma greve na universidade, ela nunca é total. Alguns setores funcionam durante as greves. No dia 28, você não encontrava uma viva alma aqui. Isso sugere o estado de ânimo do pessoal. Há uma perspectiva assombrando a gente de greve na universidade, em função do atraso do pagamento do salário.

 

Folha – Na matéria da Folha você também disse que, “em reunião realizada em abril, o Conselho Universitário, órgão máximo deliberativo da Uenf, decretou o ‘estado de calamidade’, devido à situação altamente precária em que se encontram a universidade e seus servidores”. Já estamos em maio. O que mudou?

Passoni – Não mudou nada, só piorou. A cada mês que passa, a situação só piora. O estado de calamidade do Conselho Universitário veio em função dessa navalha que estamos caminhando. Estamos num fio de navalha, a qualquer momento cai tudo. Então, o estado de calamidade decretado no Conselho Universitário veio em função dessa situação complicada que estamos enfrentando. É uma tentativa de fazer uma denúncia e dar respaldo ao discurso que a reitoria vem fazendo. A reitoria tem um discurso avisando que o gato subiu no telhado. Com o Conselho Universitário decretando o estado de calamidade, é uma forma de toda a comunidade universitária dizer para prestarem atenção, porque o gato subiu no telhado.

 

Folha – A Uenf subiu no telhado?

Passoni – A Uenf subiu no telhado e a qualquer momento ela vai cair. Se no dia 11 pagarem o salário de todo mundo, beleza, a gente consegue um pouco mais de fôlego. Se a Ferthymar não observar nenhum pagamento esse mês, nós vamos ter dificuldade de convencê-la a continuar trabalhando, e, se ela sair, em uma semana estamos sem condições de trabalhar. O gato subiu no telhado porque estamos tendo problemas constantes de furtos na universidade, problemas de segurança. O dia que tiver algum ferido, a gente também vai ficar sem condição de funcionar. São vários fatores em que estamos na corda bamba, tentando equilibrar. Se alguma coisa dessas der errado, o gato cai do telhado.

 

Folha– Na mesma edição de domingo da Folha, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) disse e repetiu em entrevista (aqui): “Reconheço a importância da Uenf”. Mas ressalvou que sua prioridade é o pagamento de todos os servidores estaduais. Se isso acontecer, já que os da Uenf estão sem receber o 13º de 2016 e mais março de 2017, aliviaria o suficiente para esperar pelo resto?

Passoni – Alivia muita coisa, mas alivia a parte do servidor da universidade. O pessoal terceirizado continua muito no limite. Diminui um fator de pressão, mas a questão do terceirizado também é urgente.

 

Folha – Pezão também afirmou à Folha que seu plano de recuperação fiscal, além da ajuda da União, são as únicas alternativas à crise financeira do Estado. O governo federal condiciona sua ajuda à aprovação do plano de Pezão, que tem vários itens contrários aos interesses do servidor, como aumento da alíquota previdenciária de 11% para 14% e congelamento de reajuste salarial. Como conciliar o problema com a proposta de solução?

Passoni – Na Câmara (Federal), já caiu esse negócio, por exemplo, de 11% para 14% da contribuição previdenciária do servidor…

 

Folha – Mas Pezão afirmou que vai continuar brigando para aprovar isso na Alerj.

Passoni – Beleza. A questão do congelamento já está em efetivo. Nosso último reajuste salarial foi em 2015. Em 2016 não houve, e agora acabei de receber um comunicado devolvendo pra gente processos de enquadramento, progressão de carreira. Não é exatamente um reajuste, mas a classificação da pessoa no plano de cargos e vencimentos. A mobilidade no plano de cargos, que representava R$ 200, alguma coisa assim a mais no salário, também foi congelada.

 

Folha – Ainda na entrevista à Folha, Pezão disse ser equivocada a visão de que o fechamento da Casa de Cultura Villa Maria (aqui e aqui), por falta de energia elétrica, entre 18 e 24 de abril, seja a vanguarda de desmonte da Uenf. E você, o que acha?

Passoni – Ele talvez não tenha entendido o que a gente quis dizer com essa questão do fechamento da Villa Maria. É importante a gente ter clareza de que, se houvesse a manutenção correta da estrutura elétrica, da subestação, esse problema não aconteceria, ou não seria dessa magnitude. Foi um evento externo, que afetou a rede na rua e teve reflexos na Villa Maria. Se houvesse a manutenção correta, esse evento não teria assumido a dimensão que assumiu. É nesse sentido que falamos. Voltando à questão do deadline… Um evento inesperado antecipa isso.

 

Folha – Depois de oito anos com a Villa Maria sem um diretor, você foi o primeiro reitor a indicar alguém ao cargo: a professora da Uenf Simonne Teixeira. Qual foi sua intenção com esse resgate?

Passoni – Primeiro que uma universidade pura não existe. A universidade tem que ser universal, a cultura tem que permear as ações. A universidade não é só um local de fazer pesquisa, desenvolver o conhecimento técnico e formar mão de obra. Ela é um espaço de pensar a sociedade, pensar o ser humano, e a cultura é um aspecto muito importante para a gente se entender enquanto ser humano. É um dos aspectos que nos diferencia de outro animal. A Casa da Villa Maria tem essa importância por ser a Casa de Cultura. Além disso, é uma interface com a cidade muito importante, pelo significado que a casa tem para a sociedade de Campos, pela localização.

 

Folha – Sim, pelo seu simbolismo de prédio histórico de um dos mais belos entornos arquitetônicos da área central da cidade, que já serviu de sede à Prefeitura de Campos em quatro governos, a questão da Villa sensibilizou o campista. Tanto que, após sua reabertura, o evento “Choro na Villa”, no dia 29, registrou grande quantidade de público. Como continuar a sensibilizar?

Passoni – A população está sensibilizada, está apoiando e torcendo pela gente. Precisamos sensibilizar é o Governo do Estado. A Villa Maria tem um papel muito importante nessa aproximação da universidade com a cidade, com a sociedade. A tendência é a gente continuar desenvolvendo essas atividades, com essa intenção da aproximação.

 

Folha – Lançada em 11 de abril, na sua presença, o que a campanha “Somos todos Uenf” já promoveu de lá para cá? O que pretende ainda fazer?

Passoni – A campanha “Somos Todos Uenf” é uma campanha de propaganda da universidade, de sensibilização das autoridades. Tivemos o dia de ação em abril, agora estamos com as vinhetas no rádio e na televisão, nas redes sociais, chamando a atenção para a universidade. A função da campanha é demonstrar o carinho, o apoio, que a Uenf tem em Campos e na região.

 

Folha – No blog “Opiniões”, hospedado na Folha Online, uma série de colaboradores passou a tratar sobre a crise na Uenf. A primeira (aqui) foi a professora da universidade e presidente da Aduenf, Luciane Silva, que pregou: “Manter a Uenf aberta é uma forma de resistência e acima de tudo uma aposta de que o futuro de Campos pode ser muito mais luminoso. Mais humano e justo”. É isso?

Passoni – Sim. A universidade foi pensada como um fator de desenvolvimento da região. Quando o Darcy Ribeiro descreveu o projeto da Uenf, fez referência à Unicamp. A partir dela, Campinas e aquela região do interior de São Paulo alavancou um desenvolvimento fantástico. A Uenf veio para cá com a mesma intenção e, de certa maneira, vem cumprindo esse papel. Campos é hoje, no Estado do Rio, o maior polo universitário fora da capital. E todas essas universidades têm egressos da Uenf no seu quadro de docentes. O foco da Uenf na questão da pesquisa, da pós-graduação, foi muito importante.

 

 

Luis Passoni (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Folha – Em outro artigo na Folha (aqui) sobre o mesmo tema, o professor José Luiz Vianna da Cruz ponderou em comentário (aqui) nas redes sociais: “Com todo o respeito ao Darcy, no início, a Uenf, por ter começado pelo doutorado e pela pesquisa laboratorial, não tinha conexões com a realidade regional e provocou até uma certa rejeição, porque os acadêmicos de então ‘não se misturavam’ e viviam mais fora de Campos”. Mas depois completou que, com o tempo, a Uenf se tornou “vanguarda acadêmica, social e política” de Campos e região. Quando e como se deu essa transição?

Passoni – Ele começa dizendo que a Uenf chegou aqui como um corpo estranho. Eu acho que o pessoal tinha uma expectativa um pouco diferente quando pediu a criação de uma universidade. A gente tinha uma visão no Brasil de que as universidades são criadas com a junção de faculdades existentes. Tenho a visão de que existia essa expectativa, como foi com o Uniflu, e em casos da UFRJ, da USP e outras. Havia essa expectativa por parte da intelectualidade. Quando foi decidido promover diferente, isso foi um choque. Em 1993, a estrutura aqui na cidade de Campos era muito ruim. O pessoal que veio sentiu um pouco esse impacto. Havia muito disso do pessoal não viver a cidade. Ficava aqui durante a semana e na sexta-feira se mandava. Isso dificultou um pouco, no início, essa integração. Mas, na medida que a universidade foi aumentando, com a entrada de docentes da cidade, isso foi mudando. Agora o pessoal está ficando aqui, morando aqui. Isso tem facilitado a integração. De parte a parte, o tempo dirimiu uma má impressão inicial e possibilitou essa aproximação.

 

Folha – Jornalista e diretor adjunto da superintendência municipal de Igualdade Racial, o Rogério Siqueira propôs em outro artigo (aqui) que a Uenf partisse para uma mobilização maior, junto às demais instituições de ensino superior, além do ensino médio de Campos. E essa estratégia de comunicação sofreu críticas de pessoas diretamente ligadas à Uenf. Isso não revela certo defensivismo?

Passoni – Não. A universidade é um espaço muito plural. Essa é uma grande característica, até difícil de compreender. Ela não tem um pensamento único. Cada indivíduo aqui tem um pensamento diferente. Qualquer iniciativa vai sofrer crítica, de um lado ou de outro. A crítica faz parte da universidade e não pode ser vista como um defensivismo, mas como a essência da universidade. Esta nossa entrevista, quando for publicada, vai sofrer críticas. Não sei o que, mas alguma coisa que eu falei aqui, vai gerar críticas, quem sabe até severas, por parte da própria comunidade interna. Não vai ser unânime.

 

Folha – Engenheiro e ex-candidato a prefeito de Campos, na eleição de 2012, José Geraldo Chaves tem proposto (aqui) a criação de uma comissão paritária que envolvesse setores da sociedade civil e representantes políticos de todos os municípios onde atua a universidade, além de seus ex-reitores e o atual, você. Qual a sua opinião?

Passoni – A gente já conversou alguma coisa parecida com isso. Numa conversa aqui com setores da sociedade civil, não vou me lembrar exatamente quem estava presente, a gente discutiu a possibilidade de criar alguma coisa que, mesmo não estando dentro da estrutura administrativa da universidade, funcionasse como um órgão consultor, uma referência, para a gente juntar esses atores para pensar um pouco a universidade e sugerir caminhos que possam ser trilhados, para sairmos dessa situação em que a gente se encontra. Essa sugestão já houve. Estamos simpáticos à ideia, mas ainda não conseguimos tomar nenhuma ação concreta no sentido. Teve um primeiro momento, na própria campanha “Somos todos Uenf”, quando convidamos para o lançamento um conjunto de personalidades e entidades que podem ser a base para esse conselhão. Não seria deliberativo, mas uma comissão de ajudar a pensar. É uma ideia boa, que a gente pretende colocar em prática.

 

Folha – Outro texto sobre a situação da Uenf que gerou polêmica foi escrito pelo advogado e publicitário Gustavo Alejandro Oviedo, no qual ele propôs (aqui) que a universidade buscasse mais parcerias com a iniciativa privada. Entre pessoas ligadas à Uenf, algumas pareceram aprovar, mesmo destacando iniciativas já feitas neste sentido, enquanto outras opuseram questionamentos. O que você pensa?

Passoni – Penso que vai ser muito difícil a gente substituir o papel do Estado no financiamento. Conseguir R$ 2 milhões por mês não é trivial. Isso sem contar os salários, só para a manutenção. Não é uma coisa trivial. A Uenf tem, de fato, interações com a iniciativa privada, principalmente com a Petrobras.

 

Folha – Que é uma estatal, com a situação financeira bastante complicada pela corrupção.

Passoni – Mas temos uma interação há bastante tempo com a Águas do Paraíba também…

 

Folha – Que é uma concessionária de serviços públicos.

Passoni – Procuramos o pessoal do Porto do Açu, o pessoal da Corbion Purac (antiga Purac Sínteses). A gente tem procurado.

 

Folha – Você falou antes, com razão, que a iniciativa privada não teria como assumir o papel do Estado. Mas não poderia ajudar, sobretudo num momento de crise?

Passoni – A gente precisa dessa ajuda, porque a ajuda não está vindo. Mesmo a Petrobras, que é o principal parceiro, desenvolve vários projetos de pesquisa na universidade, ela financia o projeto de pesquisa de interesse da empresa. Os recursos vão para esses projetos. Mas a questão de pagar luz, água, esse tipo de coisas não entra no projeto. Então, a gente precisa aprimorar esse mecanismo, para que essas colaborações, que já existem e a gente pretende ampliar, revertam recursos para a manutenção da universidade. Hoje é muito pouco o revertido para isso.

 

Folha – Num debate nas redes sociais, o jornalista Ocinei Trindade, que recentemente concluiu seu mestrado de Cognição e Linguagem na Uenf, testemunhou (aqui) que, num seminário da universidade, ele sugeriu a possibilidade de ajuda da iniciativa privada em pesquisas e patrocínios, mas ouviu de uma professora do CCH: “prefiro morrer a lidar com capitalistas”. O setor privado deve ser encarado como inimigo “mortal” de uma educação superior pública, gratuita e de qualidade?

Passoni – De novo: todo assunto dentro da universidade é polêmico. Você vai encontrar gente que é muito crítica à participação da iniciativa privada. Por outro lado, também vai encontrar gente que busca essa interação com a iniciativa privada. Hoje, a nossa principal carência é o maior interesse da iniciativa privada em colaborar com a universidade, que tem um grande potencial, um grande número de pessoas que estão dispostas a essa colaboração. Citei dois casos emblemáticos de empresas que, embora sejam uma concessionária e uma empresa estatal, são empresas, funcionam dentro de uma lógica de mercado, e que têm encontrado, dentro da universidade, parceiros para desenvolverem ações de seu interesse. A gente tem setores dentro da universidade que estão abertos a essa colaboração. É mais o pessoal da área de tecnologia, não o do CCH. O pessoal da área de humanas tem alguma dificuldade na interação, porque o tipo de pesquisa que eles fazem não é o tipo que interessa muito ao setor produtivo.

 

Folha – A iniciativa da parceria deveria partir, então, do setor privado, não da universidade?

Passoni – A iniciativa privada é quem tem que colocar para a gente as suas demandas, para que a gente possa entender.

 

Folha – Por qual canal?

Passoni – Temos, por exemplo, a agência de inovação, que faz essa interface. Já fomos procurar o pessoal do Porto, o pessoal da Corbion. A gente tem uma interação muito boa com a Firjan, com a Acic, com a CDL… Estamos de portas abertas, com um potencial muito grande de ter ações de interesse que possam reverter algum recurso para a manutenção da universidade. Agora, quem tem o dinheiro é a iniciativa privada. Ela tem que mostrar também a disposição de investir na universidade.

 

Folha – Voltando à Villa Maria, além do “Choro na Villa”, que terá edição mensal, ontem foi organizado (aqui) nos jardins da Casa de Cultura o “Dia do Rock Goitacá”, Isso sem contar o “Bazar da Villa”, agendado para 7, 8 e 9 de julho. Todas as iniciativas são frutos de parcerias. Em entrevista à Folha, Simonne Teixeira afirmou (aqui): “a parceria entre a Uenf e a comunidade é fundamental”. Concorda?

Passoni – Concordo plenamente, e estamos nessa trajetória de ampliação. A Villa Maria passou pelo menos oito anos sem direção, fechada no sentido de que não acontecia nada lá. E nada iria acontecer se dependesse só da universidade. A universidade está sem condição de bancar qualquer iniciativa. É com a colaboração e a participação que esses eventos têm acontecido, muito em função da dinâmica da professora Simonne. Está aí um exemplo de como a universidade está aberta, buscando interações com a iniciativa privada. Buscamos essa interação com atores externos e ampliar isso, mas esbarramos também na nossa capacidade. Quantos eventos a gente conseguiria fazer na Villa Maria? Acho que estamos chegando no limite do número razoável de eventos que a gente consegue fazer durante o ano. Aqui dentro da universidade, na questão dos laboratórios, da pesquisa, de interesse da iniciativa privada, a gente ainda tem muito potencial para crescer. E aí percebo pouco interesse da iniciativa privada em desenvolver pesquisas.

 

Folha – Há possibilidade de sobrevivência à Uenf se ela não for abraçada pelas comunidades na qual está instalada? Em contrapartida, há futuro promissor para Campos e região sem a Uenf?

Passoni – A resposta é não para tudo. Acho que está claro que a gente precisa inclusive até de um apoio mais veemente. A gente precisa colocar, de maneira muito mais clara, a importância da Uenf para Campos e região ao Governo do Estado, que ainda não está sensibilizado com a situação da universidade. A universidade ainda não é prioridade dentro de todas as carências do Estado. A gente só vai conseguir isso com toda a sociedade solicitando essa prioridade, essa valorização. E a questão do futuro da região, eu acho que depende muito dessa nossa capacidade também de conseguir traduzir em coisas práticas o conteúdo, a excelência da nossa pesquisa. A gente tem conseguido, com muito sucesso, na questão de formação de pessoal, de pessoas qualificadas. As universidades usam professores formados na Uenf, as empresas usam profissionais formados aqui. Agora, precisamos que se tenha mais inserção dos resultados da pesquisa na produção local. Cito, por exemplo, a introdução da uva, a questão do mamão. A gente tem, por exemplo, o milho. Temos a semente, mas não temos ainda o mecanismo para que essa semente chegue ao produtor e ele consiga produzir. Temos vários programas de extensão na área rural, auxiliando os pequenos produtores, que precisam ser integrados, e ficar clara a contribuição que eles dão hoje na produção campista e da região.

 

Folha – O que representa para a Uenf a PEC apresentada pela Comissão de Educação da Alerj, para que o repasse do orçamento das universidades aconteça em duodécimos, ou seja, dividido em 12 meses?

Passoni – Existem alguns mecanismos que, aplicados hoje, ajudariam a universidade a superar esse momento. Um desses mecanismos é o seguinte: A Constituição do Estado do Rio de Janeiro fala em 6% da arrecadação para as universidades. Isso não é cumprido. Todo ano, a Comissão de Educação apresenta uma emenda do orçamento para que seja cumprido o mecanismo dos 6%, e todo ano a base do governo consegue rejeitar. Hoje, não estamos recebendo nada. A questão do duodécimo vai no mesmo sentido. É pegar o orçamento, que não está sendo cumprido, e repassar todo mês a parte que nos cabe, em recurso financeiro, em papel moeda. Com isso, a gente conseguiria se organizar. Hoje, a gente tem orçamento, mas não tem dinheiro. Se o Governo do Estado começar a acertar a partir daqui, tendo a garantia de algum aporte mensal, eu consigo conversar, renegociar e resolver a questão. O problema é que eu não tenho nenhuma garantia de aporte mensal. A questão do duodécimo é, de novo, uma garantia do aporte em dinheiro, de um recurso mensal para a universidade, que vai poder exercer autonomia, eleger prioridades e começar a sair desse buraco. É um mecanismo muito importante, similar ao do financiamento  das universidades paulistas, que são consideradas as melhores do Brasil em qualquer avaliação. Muito desse sucesso tem a ver com a forma de financiamento, que é um percentual de arrecadação repassado em duodécimos. O Estado do Rio de Janeiro tem se recusado a usar esse modelo.

 

Folha – Em reunião na última sexta, o governador Pezão prometeu (aqui) pagar em dia servidores e bolsistas das universidades estaduais, de abril para frente. E estimou acertar os atrasados para trás até o final de junho, quando deve ter sido aprovada no Congresso Nacional a ajuda da União aos Estados. Com isso o gato começa a descer do telhado?

Passoni – O governador disse que sem aprovação no congresso da ajuda aos estados, ele não tem como prever ainda quando e como poderá pagar os salários de março. Disse que vai tratar as universidades como educação (as instituições estaduais de ensino superior são ligadas à secretaria de Ciência e Tecnologia, não de Educação), que vamos receber junto com o pessoal da educação a partir do mês que vem. E que saindo pacote de ajuda no fim até o final de junho ele coloca em dia os atrasados. O pacote de ajuda já foi aprovado no primeiro momento faltam os destaques Então eu acho que é uma boa notícia: a gente pode esperar para breve que seja acertado a questão do salário.

 

Folha – Pezão também disse que só depois que acertar o pagamento dos servidores, vai saldar o atrasado com os fornecedores, mantendo pagamento mínimo até lá, do qual a Uenf ficou de receber entre R$ 100 mil e R$ 200 mil nos próximos dias. Com essa perspectiva, consegue negociar e se manter funcionando?

Passoni – Com relação aos fornecedores, é isso mesmo. Vai ser feito algum pagamento esse mês e, a partir de quando o salário for posto em dia, vai começar a ser feito acerto com os fornecedores também.

 

Página 6 da edição de hoje (07) da Folha

 

 

Página 7 da edição de hoje (07) da Folha

 

 

Pubicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Fabio Bottrel — As lágrimas da Uenf: educação não é privilégio

 

Problema Social – Seu Jorge:

 

 

 

 

Abaporu (1928), óleo sobre tela de Tarsila do Amaral

 

 

Como disse Jorge Amado: “Mestre inconteste no que se refere à educação, Anísio Teixeira foi um brasileiro raro”, o qual esse texto leva título homônimo a uma de suas obras, a expressar em outrora o pensamento que ricochetearia no presente, à parte dos números:

“Sou contra a educação como processo exclusivo de formação de uma elite, mantendo a grande maioria da população em estado de analfabetismo e ignorância. (…) Choca-me ver o desbarato dos recursos públicos para educação, dispensados em subvenções de toda natureza a atividades educacionais, sem nexo nem ordem, puramente paternalistas ou francamente eleitoreiras.” — Anísio Teixeira.

Homem admirado por Darcy Ribeiro, o qual levou a frente suas ideias e a criação da Uenf, me veio à mente ao ler tal frase, que pensa um político ante uma sociedade que não passe antes pelo crivo da educação de qualidade? Certamente a construção de um grande cabresto abstrato, transformando projetos sociais não como paliativos para um objetivo — necessários numa sociedade extremamente desequilibrada como a nossa — mas o objetivo para um voto, fazendo da política, como o pensamento de Nietzsche, um “eterno retorno”, perpetuando o devir da resistência ao desenvolvimento humano.

Além, vejo a cobrança das anuidades em faculdades públicas se encaixar na frase de Anísio Teixeira, “sou contra a educação como processo exclusivo de formação de uma elite” se gratuita, maior parte da comunidade que contorna a Uenf não caminha sobre suas gramas, e sabemos que o motivo vai muito além dessa questão. Como essa universidade fora pensada por Darcy Ribeiro, um local de dissolução das classes, resta-nos a pergunta, mediante a aparente impermeabilidade da sociedade acadêmica, agrega ou desagrega? Excetuando deste argumento o projeto de lei do senado nº 782, de 2015, que previa o pagamento de anuidades apenas a estudante que aferissem renda familiar acima de 30 salários mínimos, imagino que as medidas seriam impostas como um parâmetro de renda, mas foge à realidade brasileira. Ainda além, vejo tal opção de alternativa à crise como perigosa, pois se torna um hábito cultural, e sabe-se lá após a porta aberta, daqui a alguns anos, em qual altura estará essa questão com o passo já dado para a privatização do ensino público. Já não basta pagarmos uma das maiores cargas tributárias do mundo, devemos aumentar o pagamento ou mudar os administradores e reformar esse sistema político?

Diante de questão tão delicada como a crise na Uenf, e a dimensão de sua importância para o desenvolvimento regional, fechá-la é como cortar o pescoço de Campos, o corpo trabalha enquanto a mente vaga, vaga — para o declínio do próprio corpo. Para me inteirar mais sobre o assunto encontrei uma amiga de infância, a quem não ouvia a voz desde então, lembranças boas que esse texto já me proporcionou antes mesmo de ser escrito. Thaís Rigueti tem toda a sua vida jovem e adulta formada pela Uenf, fruto das vozes intelectuais que ecoam seus ambientes acadêmicos, cresceu sobre os ombros gigantes da Universidade Estadual Norte Fluminense e se tornou uma mulher de sucesso, terminando seu doutorado, como já predizia seus impávidos traços na infância. Ao perguntar a quem sente na pele as consequências da crise, Thaís se propôs a falar em palavras escritas, a angústia de ver quem a criou profissionalmente sucumbir à incompetência e má-fé de nossos políticos:

“Ingressei na Uenf em 2006, movida pelo interesse profissional e por querer ter ensino de qualidade sem pagar por isso. Esta era a realidade projetada nas mídias e que condizia com o papel desempenhado pela universidade em nossa região, idealizado por Darcy Ribeiro. Mesmo sem estar envolvida com a situação política vivida pela universidade neste período e sem saber quais eram as necessidades do corpo docente e discente, encontrei o que procurava: universidade com boa infraestrutura, salas de aula lotadas, professores preparados e motivados. No mesmo ano me candidatei a uma bolsa de apoio acadêmico oferecida pela universidade, a qual complementava minha renda e me ajudava na adaptação em minha nova cidade. As bolsas de apoio, iniciação científica, dentre outras eram/são ofertadas através de processo seletivo e muitos dos meus colegas da universidade eram contemplados.

No mesmo ano, em Julho, participei da inauguração do Hospital veterinário (o maior da América Latina), projetado por Oscar Niemeyer. Não havia dúvidas de que era um momento de ascensão da Universidade no âmbito tanto regional, quanto nacional. Nesta mesma época comecei a me interessar pela situação política vivida pela universidade e as necessidades do corpo discente.

No decorrer do meu curso de graduação em Ciências Biológicas, participei de manifestações promovidas pelo DCE (Diretório Central de Estudantes), e dentre as reivindicações estavam a criação de um refeitório (bandejão), oferecimento de auxílio moradia/alojamento e reajuste no valor das bolsas ofertadas. Apesar da luta por mais direitos, não havia dúvidas de que a universidade caminhava bem. A Uenf era uma das instituições pioneiras na oferta de cursos de graduação a distância, em 2008 recebeu o Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos e em 2009 recebia pela segunda vez, o Prêmio Destaque do Ano na Iniciação Científica conferido pela CNPq.

Em 2010 colei grau e me tornava bacharel em ciências biológicas, sem dúvidas o sentimento era de gratidão. Gratidão por ter a oportunidade de viver a Uenf e ser parte dela, por ter ensino de qualidade e crescer com ela. A partir de 2010 (Até o presente), comecei a trabalhar com pesquisa e fiz/faço parte do programa de Pós-Graduação em Biociências e Biotecnologia e neste atual contexto posso vivenciar a realidade política da Universidade com um novo olhar (acho, inclusive, menos romantizado).

A aproximação com o corpo docente e técnico administrativo, além do discente (no qual faço parte), promoveu uma visão mais crítica sobre as políticas de gestão desenvolvidas pela universidade e as políticas públicas adotadas pelo governo do nosso estado e país.  Em 2010 vivenciei a primeira greve (desde de que havia entrado na universidade), organizada pelos servidores, a reivindicação era pela reposição salarial. Os sucessivos governos que passaram pelo nosso estado e pelos diversos municípios fluminenses nas duas últimas décadas haviam destruído as condições para o exercício de uma educação pública de qualidade. Toda a comunidade aderiu a greve, “Uenf na rua, Cabral a culpa é sua” (gritei bastante esta frase na época do governo Cabral). Neste governo a insatisfação da comunidade acadêmica crescia, e foram muitas greves (não me recordo exatamente quantas foram).

Hoje, trabalhando com pesquisa e sendo bolsista de doutorado pela Faperj sinto na pele as consequências da crise. Bolsas atrasadas e sem reajuste; falta de recursos (reagentes, materiais) e infraestrutura para o desenvolvimento de pesquisa; calendário acadêmico atrasado devido às greves; refeitório fechado por falta de recursos; insegurança por não haver vigias; professores e técnicos desmotivados por atraso de salários (que já estão defasados).

A atual situação da Uenf é um reflexo de má gestão pública e isso me entristece profundamente. Como Universidade, ela desempenha um papel fundamental em nossa região, ela agrega pesquisa, ensino e extensão ou seja: ela gera conhecimento, possui ensino de qualidade e torna isso acessível para toda população. A pesquisa desenvolvida nos laboratórios por discentes e renomados docentes (100% doutores) produzem resultados que promovem desenvolvimento regional e contribuem para o conhecimento cientifico a nível nacional e internacional. De acordo com os Indicadores de Qualidade da Educação Superior 2015, divulgados em março deste ano, a Uenf é a 13ª melhor universidade do Brasil e a segunda do Estado do Rio.

Assim como uma célula do ponto de vista biológico, a universidade precisa sobreviver. É necessário que todos os compartimentos estejam funcionando bem para que sejam realizadas suas funções. A energia para produzir vem dos investimentos públicos que precisam ser bem administrados. Na situação atual, estamos criando energia por reciclagem, mas isso não consegue se manter por muito tempo sem que a célula/universidade morra.

Para sair da crise, precisamos de mais apoio. Precisamos que toda a população abrace a causa e entenda a importância da universidade para a nossa região. Precisamos entender o complexo contexto político em que esta situação está inserida e a partir daí buscar soluções. Como o próprio Darcy Ribeiro dizia: só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. Então sem dúvida, frente a esta situação, precisamos nos indignar” — Thaís Rigueti

 

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Pressão funciona: Pezão promete pagar servidores e bolsistas da Uenf

 

Capa da Folha da Manhã do último domingo (30)

 

Parece que funcionou a pressão de Campos e do Norte Fluminense em apoio à Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro, cujo funcionamento chegou a estar ameaçado (aqui) pela grave crise financeira do Estado do Rio. Cobrado em entrevista publicada na Folha (aqui) no último domingo, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) se comprometeu a regularizar os pagamentos futuros dos servidores e alunos bolsistas das universidades estaduais a partir do 14º dia útil de cada mês, a contar de maio. Foi o que ele disse em reunião encerrada agora há pouco, no Rio de Janeiro, com seu secretariado e os reitores da Uenf, Luis Passoni, da Uerj e Uezo.

A forma de pagamento aos servidores e bolsistas das universidades estaduais será o mesmo de todos os ligados à secretaria estadual de Educação (Seduc). Quanto aos atrasados, o governador estimou que poderá saldar as dívidas até final de junho, quando já devem ter sido votados na Câmara Federal todos os destaques, além do Senado, o pacote de ajuda da União aos Estados. Caso isso se confirme, o Estado do Rio espera receber algo em torno de R$ 3 bilhões.

Quanto aos fornecedores, Pezão disse que pretende acertar todas as dívidas após regularizar o pagamento dos servidores. Até lá, pagaria um mínimo para tentar garantir a manutenção dos serviços. Dentro dessa previsão, ele pretende repassar à Uenf, nos próximos dias, entre R$ 100 mil a R$ 200 mil. A universidade não recebe verba de manutenção, em torno de R$ 2 milhões/mês, desde outubro de 2015. Seus servidores estão com o 13º de 2016 e abril de 2017 atrasados, enquanto seus bolsistas estão há dois meses sem receber.

 

Atualização às 18h50 para publicação abaixo da nota oficial abaixo:

 

Nota oficial

O secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Social, Pedro Fernandes, e representantes de todas as instituições vinculadas à secretaria: Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (Uezo),  Fundação Centro de Ciências e Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cecierj),  Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) e  Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), se reuniram, nesta sexta-feira (05/05), com o governador Luiz Fernando Pezão.

Este foi o segundo encontro para discutir, conjuntamente, as propostas que foram apresentadas para solucionar a crise que atinge as instituições, tais como a isonomia entre a SECTDS e a secretaria de Educação e o pagamento das bolsas dos cotistas e demais bolsistas. O governador se comprometeu, até o final de junho, priorizar a SECTDS e colocar em dia todas as fohas de pagamento, desde que a haja a aprovação do plano de recuperação fiscal que tramita no Congresso. Os vencimentos a partir de junho, portanto, serão pagos na mesma data-base da secretaria de Estado de Educação.

Outro ponto discutido e acordado foi que o recebimento dos bolsistas será feito junto com o pagamento dos demais funcionários do Estado. Caso seja feito o parcelamento dos vencimentos dos servidores o mesmo acontecerá com as bolsas.  Em relação ao pagamento de fornecedores, a secretaria se comprometeu a continuar as negociações com a secretaria de Estado de Fazenda para garantir os serviços essenciais.

 

Leia a cobertura completa das promessas de Pezão à Uenf na edição de amanhã (06) da Folha da Manhã

 

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