Defesa da Uenf se une da política à academia

 

(Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa, Daniela Abreu e Marcus Pinheiro

 

“É difícil saber até quando conseguiremos manter a Uenf funcionando nestas condições. A rigor, já estamos nos descontos da prorrogação”. A afirmação do reitor Luis Passoni dá bem a dimensão da crise, maior dos seus 24 anos de história, que hoje se abate sobre a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Desde outubro de 2015 sem receber verbas de custeio e manutenção, estimada em R$ 2 milhões/mês, e sem pagar o 13º de 2016 e março de 2017 aos seus 950 funcionários (310 professores e 640 servidores técnicos e administrativos), a universidade que hoje abriga 6,2 mil alunos, segundo seu reitor, hoje só permanece funcionando “única e exclusivamente por mérito do seu funcionalismo e de empresas parceiras, que vão muito além das obrigações contratuais para continuarem a fornecer produtos e serviços indispensáveis ao nosso funcionamento”.

À Folha, Passoni esclareceu que “em reunião realizada neste mês de abril, o Conselho Universitário, órgão máximo deliberativo da Uenf, decretou o ‘estado de calamidade’, devido à situação altamente precária em que se encontram a universidade e seus servidores. Estamos encerrando o primeiro quadrimestre, um terço do ano já se passou, mas ainda não temos uma sinalização clara de qualquer perspectiva de melhoria”. E não há nada nas duas páginas anteriores, dedicadas à entrevista exclusiva com o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), que indique uma resolução em curto prazo para a mais importante instituição de ensino superior de Campos e região.

Motivada pela crise financeira sem precedentes do Estado do Rio, que o secretário estadual de Fazenda Gustavo Barbosa classificou de “situação falimentar”, o quadro de desmonte da Uenf, mesmo negado por Pezão, tem gerado reações. Não só do reitor, professores e alunos da universidade, como das lideranças políticas do Norte Fluminense. Prefeito de Campos, Rafael Diniz (PPS) pregou:

— A Uenf é um patrimônio não só de Campos, mas de toda a nossa região. Nesses primeiros meses de governo, mesmo com a Prefeitura passando por dificuldade financeira, nos colocamos à disposição, entendendo que o caminho para tornar a cidade menos dependente dos royalties passa pela valorização da Uenf. Como já havíamos prometido durante a campanha, preparamos um programa de bolsas de iniciação científica, extensão, empreendedorismo e inovação, e a Uenf faz parte desse nosso trabalho. Inclusive, em abril do ano passado, durante o mandato como vereador, publiquei artigo na Folha sobre a importância da universidade. Abraçar a Uenf neste momento é um dever de toda a sociedade. Até porque, para pensar em uma Campos para além dos royalties, é preciso valorizar a universidade que foi sonhada por Darcy Ribeiro.

O discurso do prefeito foi ecoado pelo presidente da Câmara Municipal goitacá, vereador Marcão Gomes (Rede), que ressaltou a importância da Uenf a partir da sua história de luta:

— A Uenf foi conquistada por meio da iniciativa popular, que conseguiu incluir na Constituição do Estado do Rio a previsão de sua criação. Mas foi a sociedade civil, entidades, associações e lideranças políticas locais que se mobilizaram para tirar a Uenf do papel e torná-la real. Em 1990, a lei estadual 1.740 foi sancionada pelo então governador Moreira Franco (PMDB). Passados todos esses anos, a Uenf conquistou respeito e admiração perante a comunidade acadêmica, desenvolvendo pesquisas científicas, formação e qualificação profissional. O sucesso da Uenf significa o sucesso da cidade de Campos dos Goytacazes e de toda região Norte Fluminense. Por isso, todos os esforços necessários devem ser envidados para ajudar a universidade neste momento, haja vista a grave crise econômica que afeta o Estado do Rio de Janeiro. Com muita luta a Uenf foi criada e essa força deverá mantê-la viva.

Além de Campos, a importância da Uenf foi ressaltada por chefes executivos de outros municípios, que também se beneficiam das ações regionais da universidade. A prefeita de São João da Barra, Carla Machado (PP), que também é professora, comprou a briga:

— A Uenf é uma referência e um orgulho para nossa região e a sobrevivência dessa importante instituição é uma causa que todos devemos abraçar. Mais do que nos solidarizar com profissionais e estudantes, precisamos unir forças para que seja encontrada uma solução para o problema. Sabemos da crítica realidade econômica do Estado, mas a Educação deve ser prioridade. Nesse contexto, não podemos  deixar fechar as portas de uma universidade da dimensão da Uenf, com vasta atuação no campo tecnológico e de pesquisa. Como gestora vivo a experiência de administrar um município em uma grave crise financeira, e sei que enxugar gastos, trabalhar com austeridade, lutar por recursos são caminhos a serem seguidos. Espero sinceramente que o governador Pezão, sabedor da importância da Educação como alicerce da sociedade, haverá de encontrar uma solução. A sobrevivência da Uenf é muito importante para todos nós, e como prefeita, educadora e cidadã estarei junto nessa luta!

E não foi diferente em outro município vizinho, onde também se espraiam as ações da Uenf. Para a prefeita de Quissamã, Fátima Pacheco (PTN):

— A Uenf é uma intuição de grande importância que sempre contribuiu para o fortalecimento e qualificação da nossa região. É com muita tristeza que presenciamos a atual situação da instituição que sempre foi referência em pesquisa e formação. Torcemos para que o governo do Estado se sensibilize e concentre todos os esforços no sentido de garantir melhores condições de trabalho aos funcionários e de estudo aos alunos e pesquisadores.

Único deputado federal da região, Paulo Feijó (PR) falou da sua atuação em Brasília, onde se votou a favor do projeto de recuperação fiscal do governador Pezão e dispôs a ajudar a Uenf:

— Eu votei em favor do projeto de lei complementar que prevê a recuperação fiscal dos Estados em crise financeira. Votei a favor tanto no mérito, como em outros destaques em relação ao socorro aos Estados. Mas votei “não” contra o destaque que prevê o aumento da contribuição previdenciária dos servidores ativos, inativos, aposentados e pensionistas, elevando a alíquota 11% para 14%. No caso da Uenf, reconheço a importância da universidade para a nossa região e o Brasil, tendo recebido uma das melhores avaliações do MEC até bem pouco tempo. Uma lástima o que deixaram acontecer com a universidade. Através do meu mandato, me coloco à disposição da direção da Uenf para ajudá-la na esfera federal. Estou à disposição para, a partir de setembro, apresentar uma emenda parlamentar de valor significativo à universidade, em projetos apontados pela reitoria.

Ainda que a ajuda na Câmara Federal seja bem vinda, é na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro que os destinos da Uenf serão decididos. Neste sentido, se comprometeu o deputado estadual Bruno Dauaire (PR):

— No nosso mandato não há trégua na luta em favor da Uenf. Conseguimos tirar do silêncio o abandono pelo qual a instituição está passando e o sofrimento de seus servidores. Chamamos a atenção dos governantes na capital para o problema que enfrentamos, fui diretamente ao governador e trouxe o secretário de Ciência e Tecnologia para ver de perto a situação da nossa Uenf.  Presido a Comissão Parlamentar de Apoio à Uenf e foi por meio dela que conseguimos a liberação de R$ 1,5 milhão do Fundo Especial da Alerj, que ajudou a suprir parte das dificuldades. A garantia dos direitos dos funcionários da Fenorte foi outra conquista importante. Os gestores precisam entender que não existe  futuro  para a sociedade  e, principalmente,  para os jovens, se sacrificarmos o produto mais valorizado no mundo atual, que é a pesquisa e extensão, o conhecimento e o ensino de excelência.

O discurso teve eco com outros deputados estaduais de Campos. Para Geraldo Pudim, do mesmo PMDB do governador e do presidente da Alerj, Jorge Picciani:

— É importante deixar claro que uma coisa é o Poder Legislativo e outra é o Executivo, e infelizmente muitas vezes como deputado sou cobrado por algo que não me cabe como parlamentar. Tenho feito o possível para atender as demandas que nos são encaminhadas, participando dos debates ao longo desses anos e sendo braço junto ao Executivo. A batalha por esse patrimônio que é a Uenf é de todos nós. Por indicação legislativa, apresentei um anteprojeto para conferir independência financeira à Uenf. Em 2016, encaminhei todas as minhas emendas ao orçamento à Uenf. Foram R$ 10 milhões de reais que necessitavam ser executados pelo governo estadual, nessa crise que assola todas as áreas. Agora, para 2017 fiz da mesma forma, encaminhei 100% das minhas emendas para à Uenf. Junto ao secretário de Ciência e Tecnologia, o Pedro Fernandes, temos buscando saídas, na expectativa de, dentro de mais alguns meses, com a recuperação financeira do estado, darmos a Uenf a prioridade que ela merece.

Deputado estadual mais experiente de Campos, em seu quinto mandato na Alerj, João Peixoto (PSDC), também entrou na briga:

— A Uenf é uma instituição de ensino público de grande relevância, sendo por várias vezes, apontada como uma das 15 melhores Universidades do Brasil. Sediada em Campos dos Goytacazes, a instituição é motivo de orgulho para os seus universitários e todos nós residentes na região. Nos últimos anos, sei que esse estabelecimento de ensino vem passando por várias dificuldades, agravadas pela situação crítica que passa o Estado do Rio de Janeiro. Os problemas vão de falta de verbas de custeio, salários atrasados, falta de segurança, greves, o que acarreta inúmeros prejuízos aos estudantes. Sei de minha responsabilidade como parlamentar, junto aos meus pares e ao Governo do Estado, para que as gerações presentes e futuras possam ter a oportunidade de trilhar o caminho do conhecimento.

Deputado estadual em exercício mais recente, Gil Vianna (PSB) ecoou o mesmo compromisso:

— Estamos há apenas dois meses na Alerj, mas não aceitamos que a Uenf pare. A educação é o caminho para a melhoria do nosso país. Essa universidade tem mais de 20 anos de importantes pesquisas e não podemos jogar isso ralo abaixo. Vamos procurar o governo estadual para cobrarmos respostas quanto às demandas apresentadas pelos estudantes, funcionários e reitoria da Uenf.  A questão é urgente. Sabemos que tanto Alerj quanto o Governo do Estado estão empenhados em resolver essa situação. Neste momento, os repasses à universidade estão sendo feitos de acordo com a disponibilidade de recursos em caixa, com a crise em todo país. Tenho esperança de dias melhores e farei o que estiver ao meu alcance para ajudar.

Da política à academia, a defesa da universidade concebida pelo antropólogo Darcy Ribeiro (1922/97) se reforça. Como a professora Luciane Silva, professora e presidente da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf), escreveu (aqui) como colaboradora do blog “Opiniões”, hospedado na Folha Online:

— Manter a Uenf aberta é uma forma de resistência e acima de tudo uma aposta de que o futuro de Campos pode ser muito mais luminoso. Mais humano e justo. E essa defesa deve acontecer em nossa prática cotidiana, na ampliação da luta por uma educação feita de curiosidade, emancipação, crítica. Esta foi a universidade sonhada por Darcy e abraçada pelo Norte Fluminense.

Outros acadêmicos e colaboradores da Folha também se manifestaram. Para o cientista político Sergio de Azevedo, professor da Uenf:

— A Uenf foi uma grande invenção de Darcy Ribeiro ao incorporar nela novidades decorrentes de suas experiências anteriores tanto no Brasil como no exterior. Pessoalmente, sem negar a importância de outras iniciativas, considero duas as mais importantes inovações de Darcy: a primeira foi iniciar a universidade onde todos os professores eram doutores. Em um primeiro momento, as pessoas de Campos que esperavam poder ingressar imediatamente na universidade.  Como não possuíam doutorado, ficaram ressentidas com essa prioridade aos “estrangeiros”. A segunda novidade de Darcy foi deixar de lado os tradicionais departamentos, até hoje majoritários nas universidades brasileiras, para colocar em seu lugar os “laboratórios”, onde professores com diferentes formações passaram a trabalhar de forma agregada. Nesse momento de crise financeira e de forte corrupção do Estado cabe a todos, especialmente aos que vivemos, trabalhamos ou estudamos nessa cidade, criarmos forças para evitar um retrocesso que possa prejudicar às futuras gerações.

Outro professor da Uenf e colaborador da Folha, Sérgio Arruda também analisou o momento difícil da universidade:

— Trabalho na Uenf há 22 anos, mas não nos enganemos, a crise não é apenas aqui, nela. É geral e compromete não apenas esse valioso patrimônio, mas toda a geração presente e o que ela poderia gerar para as próximas décadas. Não se trata apenas de deixar uma hidrelétrica com produção de energia em suspenso, ou uma indústria qualquer com sua produção paralisada. Trata-se de extirpar o pensamento; pior, fazê-lo minguar até a morte por asfixia. A crise na Uenf é o desenlace de um triste fado anunciado há algum tempo, quando as ideologias foram dizimadas pelo lucro eleitoreiro. A esperança está na reação a tudo isso.

Pelos estudantes da universidade, maiores afetados por sua crise, quem também marcou posição foi o presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Uenf, Gilberto Gomes:

— O sucateamento chegou a um nível muito preocupante, capaz de atingir não somente aos estudantes, mas toda a estrutura da universidade. A Uenf está sem segurança, contando apenas com o auxílio da Guarda Civil Municipal. É uma situação bastante difícil para os estudantes, que tem resultado na crescente evasão de alunos. Dentre os principais anseios dos estudantes da Uenf está a reabertura do restaurante universitário, nos próximos 20 dias, tendo em vista que na última quarta-feira (26), aconteceu o pregão para o novo licitante do setor. Aguardamos também que seja mantida alguma sequência nos pagamentos das bolsas. A de fevereiro foi paga agora, em abril. Esperamos que em maio aconteça o pagamento referente a março, já com reajuste das bolsas no valor de R$ 450.

Colaborador mais antigo da Folha, desde a fundação do jornal, em 1978, professor universitário aposentado e um dos pensadores mais respeitados de Campos, Aristides Soffiati também opinou:

— O Centro Norte Fluminense para Conservação da Natureza, ONG que presidi por 12 anos, assinou uma petição, juntamente com duas outras instituições, pleiteado uma universidade estadual para o norte fluminense. Darcy Ribeiro já estava pensando no assunto e, graças à sua luta, a Uenf foi criada. Portanto, conheço a universidade antes do seu nascimento. Darcy pretendia que ela se tornasse um centro de excelência internacional. Se ela não alcançou esse patamar, foi sem dúvida em centro de referência nacional em ensino, pesquisa e extensão. Portanto, é doloroso ver a Uenf no atual estado por conta de uma crise econômica provocada por governantes. Estive no campus recentemente e fiquei muito triste com o seu aspecto de abandono.

 

Página 5 da edição de hoje (30) da Folha

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

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Todos que construíram a Uenf dependem só de você, leitor

 

Charge do José Renato publicada hoje (30) na capa da Folha da Manhã

 

 

 

 

Construção do sonho

Amigo pessoal de Moreira Franco (PMDB), foi o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa (1936/2012) quem articulou nos bastidores com o então governador do Rio para que este assinasse, no auditório do Auxiliadora, o ato de criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Era 8 de novembro de 1990. Mas a implantação da universidade só se viria em 1993, no governo estadual seguinte, de Leonel Brizola (1922/2004), depois que o antropólogo Darcy Ribeiro (1922/97) tomou para si o projeto.

 

Defesa do sonho

Nos últimos 24 anos, do sonho encampado desde os anos 1960, quando Finazinha Queiroz (1887/1970) doou a Villa Maria em testamento à instalação futura de uma universidade pública em Campos, muitas foram as contribuições para que a Uenf se tornasse uma realidade. Nesta edição, passando pelo governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), a prefeitos, presidente de Câmara Municipal, deputados, professores e alunos, a Folha deixa claro a você, leitor, que não se defende os sonhos de uma cidade e uma região sem luta. E esta só será exitosa com a sua participação.

 

Avaliação do governo Rafael

Os primeiros meses do governo Rafael Diniz (PPS) foram bem avaliados pela população campista, segundo pesquisa DSPC, realizada entre 22 e 24 de março, revelada (aqui) na edição de ontem da Folha. Mais que o momento do governo, a percepção da população sobre o atual gestor é muito positiva e ainda maior é a expectativa sobre um bom trabalho ao fim dos quatro anos da administração. Números que podem até encher o ego do político, mas que lhe impõe um fardo de responsabilidade ainda maior perante a população.

 

Muito bom, bom, regular

Somados os índices muito bom (4,63%), bom (36,17%) e regular (41,22%) acerca do governo Rafael Diniz, a avaliação positiva chega a 82%. Considerar a avaliação de governo “regular” como parte dos índices de aprovação costuma ser questionável por especialistas em pesquisas. No entanto, a leitura ampliada da pesquisa um apoio popular relativamente independente do próprio governo. Permeiam entre os que consideram a gestão regular aqueles que avaliam positivamente a imagem do prefeito em diversos aspectos.

 

Grau de confiança

No disco “grau de confiança no prefeito”, por exemplo, apenas 9,15% dos entrevistados, um universo de 1.000 moradores de Campos, disseram não confiar. Número distante daqueles que disseram confiar muito (24,19%), dos que dizem confiar razoavelmente (44,96%) e até dos que confiam pouco (17,03%). Não é difícil a leitura que o prefeito possui um apoio popular que, relativamente, independe do governo.

 

Aposta alta

Segundo a pesquisa, a aposta no governo Rafael Diniz é alta. A cada quatro moradores de Campos, três acreditam que ao término dos quatro anos da atual gestão a avaliação será muito boa (21,03%) ou boa (53,94%). Não chega a 5% os que acreditam que a gestão terá um desfecho ruim (2,63%) ou péssimo (2,21%). Nessa projeção, 16,93% apostam que será regular.

 

Avaliação pessoal

O prefeito Rafael Diniz foi bem avaliado na pesquisa DPSC em todos os aspectos da pesquisa: modernidade, tomada de decisões, trabalho sinceridade e honestidade. Em todos os casos, o prefeito ficou acima dos 60% e em alguns bateu os 70%. Isso é traduzido claramente em um índice não revelado pela edição de ontem da Folha: 83,18% dos entrevistados apostam que a tendência do governo Rafael é melhorar, ante apenas 8,10% que dizem que pode piorar.

 

Avaliação setorial

A pesquisa DSPC também traz a análise da população em diversos setores da administração: saúde, educação, transporte público, infraestrutura de trânsito, limpeza pública, segurança e programas sociais. Os números das avaliações setoriais serão revelados pela Folha nas próximas edições.

 

Com a colaboração do jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

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Vanessa Henriques — É preciso salvar a Uenf

 

“Eu e alguns dos meus colegas do curso de Ciências Sociais da UENF. Foto tirada em março de 2015”

 

 

Começar a escrever este texto não foi fácil. Frequentei cotidianamente a Uenf nos últimos quatro anos. Nela, vivi a maior parte do começo de minha vida adulta. À medida que subi e desci as rampas acinzentadas do Centro de Ciências do Homem, muita coisa em mim nasceu e morreu. Mesmo que, para alguns, o contrário pareça mais óbvio, sinto que é muito difícil opinar de forma coerente e justa sobre um objeto quando o mesmo encontra-se entranhado dentro de nós. Porque pensar o que é a Uenf, inevitavelmente, é pensar também no meu próprio crescimento pessoal levado a cabo nos últimos anos.

A universidade pública possui, como potencialidade, o poder de reforçar ou de reverter trajetórias biográficas individuais marcadas por uma educação precária adquirida no ensino fundamental e médio. Ela pode apenas quase que reproduzir as desigualdades existentes entre os alunos ingressos, em termos de competências intelectuais previamente adquiridas, ou ela pode operar de forma a tentar nivelar o material humano que lhe chega ávido por novas experiências e conhecimentos, todos os anos. À universidade, pois, é imputada esta grande responsabilidade de corrigir, em grande medida, os déficits educacionais dos alunos que pretende formar. Dela, também espera-se uma certa educação para a vida em civilização, uma espécie de “educação moral” que seja capaz de fazer de meninas e meninos, não apenas bacharéis ou licenciados, mas também mulheres e homens, respectivamente, no momento em que recebem o diploma. Em outras palavras, espera-se que a universidade prepare não apenas profissionais que irão atuar no mercado de trabalho, mas também cidadãos que empregarão seus conhecimentos de forma virtuosa, ajudando a alavancar e desenvolver a comunidade na qual esta instituição está inserida. Portanto, espera-se da universidade pública que esta seja capaz de transformar positivamente o seu entorno social.

Nas últimas semanas, uma tese defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Uenf procurou demonstrar como o Instituto Federal Fluminense (IFF), situado em nossa cidade, possui uma grande capacidade de gerar mobilidade social aos seus alunos egressos. Fiquei curiosa para saber se existe alguma pesquisa semelhante sobre a Uenf (se alguém souber, por favor, me avise). Mas um fato que pode ser atestado mediante uma simples observação é que muitos dos atuais professores doutores que lecionam na universidade cursaram a graduação, o mestrado e o doutorado na instituição. Inclusive, muitos dos meus professores mais brilhantes são “filhos da Uenf”. A Uenf, e isto é fato inegável, atuou positivamente na transformação de nossa comunidade. Mas, é claro, sempre é possível aprimorar esta tarefa a que se propõe desde o momento de sua concepção. Para isso, no entanto, é preciso que haja suficiente investimento financeiro na instituição, tal como o governo federal tem feito com os IFF’s (e torno a evocá-los como exemplo), nos últimos anos. Sabemos que dinheiro sozinho não é sinônimo de gestão eficaz e criativa e a cidade de Campos é um caso exemplar dessa máxima. No entanto, dinheiro não deixa de ser um aspecto fundamental para o sucesso dos programas e projetos desenvolvidos por qualquer instituição.

É difícil encontrar quem concorde com o sucateamento que a Uenf vem vivenciando paulatinamente nos últimos tempos (apesar de não ser impossível encontrar um ou outro comentário infeliz pelas redes). É difícil que alguém discorde da importância que devemos conferir à educação pública de qualidade como fator fundamental para a transformação de um país ou de uma cidade. A reivindicação política por uma educação qualificada é uma pauta relativamente fácil de ser defendida, inclusive, e encontrada em diferentes nichos do espectro político. Quando a sociedade nega a um indivíduo o acesso aos saberes e competências adquiridos por meio da escola, ela está praticamente lhe decretando um “destino” de exclusão da maior parte das esferas da vida social às quais uma pessoa pode ter acesso. Mais que isso, está lhe negando a condição mesma de “pessoa”, a possibilidade de ser visto como “gente de valor”, impossibilitando-o de atuar de forma qualificada na esfera da economia, da política e até mesmo das relações pessoais. Parecemos não divergir muito quanto à opinião de que sim, a escola e a Universidade devem funcionar corretamente, devem formar nossas crianças e nossos jovens para atuar no mercado de trabalho e na vida comunitária. O que me parece ser alvo de maior discordância é o modo como isso deve acontecer.

Nos últimos tempos, é possível observar uma maior aproximação da Uenf com relação à sociedade. Dois projetos desenvolvidos no CCH realizaram um excelente trabalho, neste sentido: o “Pescarte” e o “Territórios do Petróleo”. O primeiro teve como objetivo implementar ações de mobilização das comunidades de pesca artesanal afetadas pelas ações de exploração e produção de petróleo e gás na Bacia de Campos; o segundo, promover uma discussão pública sobre os processos de distribuição e aplicação dos recursos financeiros provenientes das participações governamentais (royalties e participações especiais) nas políticas públicas. Estes são apenas alguns exemplos de projetos que são desenvolvidos pela instituição e que possibilitam a elevação de sua relevância no cenário local. Muitos podem argumentar que existe ainda um grande afastamento e um grande desconhecimento, por parte da população campista, acerca do que acontece no interior dos espaços “uenfianos”. Creio que de fato ainda há este desconhecimento, em medida considerável, e que cabe à gestão universitária estreitar essa relação com a sociedade e desenvolver estratégias unificadas de inserção nos debates públicos, na formulação de políticas públicas e na vida cotidiana dos vários segmentos que compõem a nossa população. É nessa direção que devemos continuar caminhando.

De forma geral, grande parte da população brasileira está afastada da universidade. Portanto, esta discussão sobre a relação entre a universidade e a comunidade não é característica peculiar do caso da Uenf. Sabemos que a maior parte da população brasileira nunca chegará a se graduar numa universidade pública. Fato também inegável é que este “fosso” que separa Universidade e sociedade foi estreitado nos últimos anos. Cabe a todos nós tentar impedir que estes avanços se percam e que essa distância se acentue, ao invés de diminuir.

 

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“Choro na Villa” hoje: Casa de Cultura da Uenf busca seu caminho

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Após passar seis dias de portas fechadas (aqui) por falta de energia, a Casa de Cultura Villa Maria reabriu no último dia 24 e hoje recebe em seus jardins o “Choro na Villa”. O evento mensal é um dos programados pela diretora da Casa, a professora Simonne Teixeira, que busca na sensibilização da comunidade a maneira para tentar contornar os muitos problemas financeiros do Estado do Rio, que ameaçam a sobrevivência da própria Uenf.

 

À frente da Casa de Cultura Villa Maria, sua diretora, a historiadora e arqueóloga Simonne Teixeira (Reprodução)

 

 

Folha Dois – Qual foi a sensação de ter a Villa Maria fechada por seis dias?

Simonne Teixeira – Uma sensação de desolação, principalmente. A CCVM (Casa de Cultura Villa Maria) é um lugar de cultura. Enquanto tal, um lugar de movimento e dinamismo. Vê-la com as portas fechadas é muito triste. Mas também é um sinal dos tempos:  governantes que desprezam o valor da cultura e sua importância na formação cidadã.

 

Folha – O problema foi só técnico, na subestação de energia? Corre o risco de se repetir? Quanto a Casa de Cultura da Uenf deve hoje a Enel?

Simonne – O problema foi ocasionado pelo rompimento de um fio, externo à Casa. O reestabelecimento foi demorado por diversas razões, entre elas uma divergência sobre a responsabilidade que somente foi dirimida depois que a prefeitura da Uenf se dispôs a colaborar e, juntamente  com seu corpo técnico, tratar do assunto junto a Enel. Por outro lado, temos equipamentos obsoletos em nossa subestação que podem ter problemas a qualquer momento. Não posso dizer com certeza, mas a dívida deve girar em torno de R$ 50 mil.

 

Folha – Além dos problemas de energia, o solar da Villa sofre hoje com infiltrações. Seu patrimônio arquitetônico e histórico está em risco?

Simonne – Bom, temos muitos problemas que a longo prazo implicam em riscos significativos. Alguns destes problemas podem ser facilmente resolvidos, como uma infiltração na casa principal, ocasionado por algum vazamento na tubulação que recolhe as águas do ar condicionado do segundo piso. O maior de nossos problemas é que como não se toma providências rapidamente, o dano vai ficando maior. No ano passado tivemos um reparo emergencial no telhado da casa principal. Foi possível pela doação de dois professores do CCTA (Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias), e de um empreiteiro local, que se sensibilizaram com as numerosas goteiras no interior da Casa em dias de chuva. A CCVM pertence a Uenf é um patrimônio da universidade, mas principalmente é um patrimônio da cidade de Campos dos Goytacazes. Nas condições atuais, a parceria entre a Uenf e a comunidade é fundamental para sua preservação.

 

Folha – Pelo valor simbólico da Villa Maria, prédio histórico de Campos doado em testamento por Finazinha Queiroz à futura universidade pública instalada no município, servindo antes como sede da Prefeitura a quatro governos, acredita que seu fechamento foi o alerta que faltava para o campista reagir à crise da Uenf?

Simonne – No ano passado, exatamente no dia 02 de maio, a Ampla cortou o fornecimento de energia para a Villa Maria por falta do pagamento que deveria ser realizado com o orçamento da Uenf e que o Estado não repassa desde outubro de 2015. Neste mesmo dia, foi organizada uma “velada”, que reuniu muitos professores, servidores, estudantes das diferentes IES (Instituto de Ensino Superior) e o público em geral que imediatamente aderiram ao nosso chamado para manifestar apoio à CCVM. Foi impressionante a rápida resposta de todos em defesa da Villa, que possui uma simbologia muito forte enquanto espaço de cultura no município. O problema foi rapidamente resolvido por via jurídica. O problema que tivemos nestas ultimas semanas imediatamente trouxe de volta aquele impacto experimentado há uma ano atrás de ver a CCVM de luzes apagadas. Creio que coincide com os primeiros movimentos mais organizados em defesa da Uenf e como tivemos um ano em que as coisas realmente não melhoraram e as ameaças à instituição continuaram, o problema que tivemos recentemente parece ter lembrado a todos da necessidade de continuar na luta em defesa da Uenf. Evidentemente, depois de 24 anos, a Uenf está totalmente inserida na vida do município. As pessoas sabem de sua importância na formação de quadros e em vários outros setores. A Uenf é também um patrimônio da cidade.

 

Folha – Ao assumir a Villa em janeiro de 2016, você foi sua primeira diretora após oito anos. Como foi encarar a missão no momento de maior crise da Uenf? Por outro lado, o fato da Casa de Cultura ter ficado tanto tempo sem diretor não indica pouco caso da universidade?

Simonne – Ser indicada pela reitoria para assumir a CCVM foi animador, embora já tivesse contato com os problemas acumulados. Isso porque no processo de transição, do qual participei, realizamos um levantamento exaustivo de todos os setores, a CCVM inclusive. A Villa tem poucos funcionários e neste período anterior, sem a presença de um diretor, os projetos foram acabando, e os setores foram encolhendo em suas atividades. Assim que pudemos aprofundar o conhecimento sobre a Casa e suas competências, nos dedicamos a escrever projetos em busca de recursos financeiros e humanos. Apesar de ter projetos aprovados, estes não estão sendo pagos. Mas temos tido sucesso com os recursos humanos, com a presença de bolsistas que têm desenvolvido suas pesquisas ali e professores, muitos da UFF (Universidade Federal Fluminense), que têm colaborado de diversas maneiras. Concordo que as duas últimas gestões não deram muita atenção à CCVM, deixando que os projetos acabassem e não promovendo novos, que tornassem a Casa mais presente na Uenf. A Villa Maria dos anos 1990 já não é possível por diversos fatores. A Uenf mudou, se tornou uma das mais importantes universidades do Brasil. Também a o modo como tratar cultura mudou. Hoje a cultura é um campo importante de conhecimento e a CCVM deve assumir este lugar na Uenf. Estamos, sempre em parceira, promovendo alguns eventos de perfil solidário, porque entendemos que ali também é um espaço para acolher eventos. Mas, como parte de uma importante instituição de prestígio no campo da ciência, a Villa deve encontrar seu caminho no campo da cultura. É o lugar privilegiado para isso.

 

Folha – Algumas salas da Casa de Cultura hoje são usadas como depósito para entulho cujo descarte é difícil, por se tratar de patrimônio público. Como desocupá-las e abrir seus espaços novamente à população?

Simonne – Ao longo destes 24 anos não tivemos na Uenf uma política muito clara de descarte de equipamentos, mobiliário e outros. O processo de recolhimento do material fora de uso começou mais recentemente. Com isso a instituição tem hoje seu galpão abarrotado de material usado. Como são bens patrimoniados, não se pode simplesmente descartar, há todo um processo. Atualmente a Uenf está empenhada em resolver este problema, mas sua resolução é bem lenta. No caso específico da Villa Maria, parece que não houve nestes anos todos nenhum recolhimento dos equipamentos obsoletos e demais objetos em desuso. Assim que temos diversas salas ocupadas com este entulho, aguardando uma oportunidade para transferir para o galpão da Uenf. Quando isso acontecer, teremos liberado espaços importantes para a realização de diversas atividades na Casa, podendo acolher trabalhos de professores da Uenf e da comunidade. Ansiamos por este momento, pois temos diversos projetos que precisam de espaço para serem realizados. Temos muita expectativa de ter estes espaços liberados para o centenário da CCVM que será no próximo ano.

 

Folha – Neste sábado, dia 29, os jardins da Villa sediarão um evento de choro, que começa às 16h, quando se apresentarão o violonista e estudante da Uenf Felipe Ábido, acompanhado da flautista carioca Gigi Mascarenhas e do sanfoneiro baiano Marcone Cruz. O “Choro na Villa” será mensal?

Simonne – Sim. O “Choro na Villa” é um projeto da CCVM, com o Felipe Ábido como produtor e mais alguns parceiros que apoiam a sua realização. Esta parceria é fundamental para que seja possível realizar o evento, levando em consideração a crise financeira da Uenf. A ideia é promovermos um evento por mês. O projeto ainda está em desenvolvimento, mas o mais importante a destacar é que é um projeto que se pretende institucional, pretende se consolidar como um projeto da Uenf em estreita colaboração com seus parceiros.

 

Folha – Já no sábado seguinte, 6 de maio, será a vez dos jardins da Casa de Cultura receberem o Rock Goitacá. Esses eventos serão mantidos e ampliados? Eles são a solução para manter a Villa viva, como nos tempos de Finazinha?

Simonne – Sim. Vamos manter todos os eventos. O Rock Goitacá aconteceu o ano passado na Villa e volta a acontecer este ano. Este evento é também fruto de uma parceria que tem se mostrado profícua. E pode anotar aí: nos dias 07, 08 e 09 de julho, teremos a 4ª edição do Bazar do Villa.

 

Folha – Como historiadora e arqueóloga, além de professora da Uenf, qual a sua visão da crise que atravessa a universidade como um todo? Qual seria a solução?

Simonne – Estou na Uenf desde princípio de 1996. Quando cheguei com meus filhos pequenos, vim para morar. Minha carreira está totalmente vinculada a esta instituição e a esta cidade. Para mim são coisas absolutamente indissociáveis. Neste período pude vivenciar outras crises, mas nunca uma como esta. Aliás, acreditava que nossas instituições públicas universitárias estariam a salvo destes ataque que temos visto nos últimos. Não é só a Uenf. São as três universidades do Estado. As consequências do desmonte destas instituições afetará  toda população do Estado, que terá menos oportunidade de estudar em uma instituição pública, gratuita e de qualidade. Afetará o desenvolvimento de pesquisas que podem resultar em melhoria da qualidade de vida da população, em remédios, em soluções de baixo custo para diferentes produtos, etc. A falta de recursos e investimentos em Ciência & Tecnologia, torna nosso Estado e, em última instancia, o país, dependentes de outros países. No âmbito cultural empobrece o sentimento de pertencimento e tolhe a criatividade. Não sou capaz de apontar uma solução. Mas sei que precisamos de todo o apoio da comunidade de Campos dos Goytacazes e região para assegurar que a Uenf vai continuar. A palavra de ordem é Uenf resiste! Somos todos Uenf!

 

 

Capa da edição de hoje (29) da Folha Dois

 

 

Publicado hoje (29) na Folha da Manhã

 

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Reitor da Uenf: “É difícil saber até quando continuaremos funcionando”

 

(Foto: Assessoria da Uenf)

 

 

“É difícil saber até quando conseguiremos manter a Uenf funcionando nestas condições. A rigor, já estamos nos descontos da prorrogação”.

A declaração feita à Folha pelo reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), professor Luiz Passoni, dimensiona o quadro que hoje enfrenta a principal instituição de ensino superior da região. Com 950 funcionários (310 professores e 640 servidores técnicos e administrativos) com salários atrasados e 6,2 mil alunos, a Uenf não recebe verba de manutenção e custeio, estimada em R$ 2 milhões/mês, desde outubro de 2015.

Ciente da importância da universidade ao desenvolvimento de Campos e região, na qual a Folha esteve presente desde seu ato de fundação em 1990, assinado no governo estadual Moreira Franco, bem na sua fundação três anos depois, num sonho do antropólogo Darcy Ribeiro concretizado na gestão Leonel Brizola, o jornal estará trazendo neste domingo (30/04) uma edição especial. Nela, falarão sobre a crise da Uenf seu reitor, professores e alunos, prefeitos e todos os deputados da região, além do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Concretizado há 24 anos, a Uenf foi um sonho de Campos e do Norte Fluminense. A um jornal que tem sido porta voz de ambos há 38 anos, não caberia outro papel: ouvir, cobrar, mobilizar, tentar apontar soluções e afirmar, a despeito de qualquer diferença, a disposição de luta pelo sonho comum.

 

Antes do domingo chegar, quem quiser saber mais sobre a crise da Uenf, pode conferir nos links abaixo:

 

Fecharam a Villa Maria — Campos precisa reagir ao desmonte da Uenf

 

Luciane Silva — Há uma universidade no meio do caminho

 

Desmonte da Uenf — Qual será a sua opção?

 

Marcelo Amoy — Uenf: a conquista de um sonho

 

Após denúncia da Folha, religaram a luz da Villa Maria

 

Ocinei Trindade — Grandes mentiras e uma verdade

 

Ricardo André Vasconcelos — Uenf: a hora de um novo grito

 

Beleza da carne, da arquitetura e do sonho da Uenf na foto

 

Manuela Cordeiro — Luto é verbo

 

Abandono: roubo de bombas deixa Casa Ecológica da Uenf sem água

 

Rogério Siqueira — Uenf: o carisma enquanto saber científico

 

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Rogério Siqueira — Uenf: o carisma enquanto saber científico

 

 

 

A Uenf é tudo. Um templo do saber onde soluções para problemas complexos se dão através de arranjos de conhecimentos e técnicas tão complexas quanto o problema a ser solucionado. É um lugar onde a ciência, em suas diversas manifestações, é a arte suprema. É um espaço cultural e de convivência. É onde contemplamos a  beleza da transformação dos saberes empíricos em métodos científicos, o desenvolvimento de indicadores, a transformação do intangível em algo mensurável. O conhecimento, por si só, é excitante. E o espaço físico no qual ele acontece, um oásis para as mentes inquietas.

No entanto, uma crise profunda se abateu sobre a universidade. Crise essa, provocado pelo própria natureza da Uenf na estrutura do Governo do Estado, na qual sua independência financeira e orçamentária não lhe é garantida, deixando a universidade prisioneira da política econômica do executivo estadual. Um modelo conservador, que não permite que a Uenf estimule ao máximo a dinâmica necessária ao moroso processo científico.

A crise está posta. Se sairemos dela vitoriosos ou derrotados ainda não sabemos. Mas, de certo, tal coisa nos força a pensar novas soluções, novos métodos, novas perspectivas. E nesse caso, este exercício seria de bom tom para a Uenf, pois, na iminência até do fechamento da universidade como foi alardeado por muitas vezes, não se viu uma comoção geral da sociedade campista, tampouco das populações dos municípios vizinhos.

Tal fato sempre me causou espanto. E ficava a pergunta: porque uma​ universidade com tantos títulos e posições soberbas em rankings de avaliação nacionais e internacionais não conseguiu arregimentar uma grande parcela da sociedade à sua causa? Ou melhor: como grande parte da sociedade não foi às ruas defender um patrimônio tão importante para o município, para o estado e para o país? Por que tanta indiferença?

Talvez, ao longo dos anos, a Uenf tenha se focado tanto, com justa razão, em desenvolver conhecimento, trazer novas soluções, que esqueceu de compartilhar isso com seu principal cliente: os​ cidadãos campistas e do Norte Fluminense como todo. “Oi, estamos aqui. Somos de vocês e vocês são nossos. Somos um na causa do desenvolvimento da nossa sociedade. Disponha sempre que precisar”, poderia ter dito.

A Uenf é uma lutadora, sua natureza é de luta e superação. E neste momento, mais do que nunca, é preciso arregimentar mais pessoas a mesma causa. E fazer mais pessoas entenderem que a causa da Uenf é um causa de todos. Em momentos assim, se comunicar passa a ser a estratégia derradeira, pois, por mais justa que uma causa seja, é bom que a maioria do conjunto de uma sociedade possa entendê-la. É preciso montar uma estratégia firme de comunicação, além de identificar cientistas-carismáticos que possam traduzir, ao limite do espectro social, toda a beleza e relevância dessa instituição.

Se pudesse sugerir diria aos aos alunos, professores e profissionais para se organizarem em células e começar a circular por todas as escolas do ensino médio falando da Uenf,  chamando os alunos não só para se prepararem para o ingresso, mas para defenderem o seu direito legítimo de brigar por uma vaga em uma universidade que esteja situada em sua cidade. Conclamaria as universidade e instituições de ensino superior e organizaria um ato com os companheiros de diretórios acadêmicos, coordenações de cursos e demais funcionários, para estarem engajados na mesma causa, pois, uma instituição conceituada de ensino, precisa se organizar para cativar, acima de tudo, os que mais precisam de uma instituição de ensino.  

É hora de botar todo mundo dentro da Uenf e abaixar o muro que separa este templo do conhecimento do resto do conjunto espacial que habita. A Uenf não pode ser só o sonho de Darcy, ou dos que nela habitam. A Uenf tem que ser o sonho de toda uma sociedade.

Vida longa a Uenf e aos que fazem a Uenf ser o que é!

 

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Abandono: roubo de bombas deixa Casa Ecológica da Uenf sem água

 

(Reprodução)

 

(Reprodução)

 

(Reprodução)

 

 

Se alguém ainda duvida que a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) é hoje o retrato do abandono, a madrugada de ontem para hoje raiou o dia sobre qualquer dúvida. Duas motobombas, no valor de R$ 8 mil foram roubadas dentro do campus Leonel de Moura Brizola. Elas serviam à Casa Ecológica, no Prédio nº 5 (P5) da universidade, atrás da agência do Bradesco, que agora está sem água em meio ao ano letivo. A segurança deveria ser feita pela Polícia Militar (PM) e a Guarda Civil Municipal (GCM) de Campos.

Os ladrões entraram pela av. São João da Barra, que fica atrás do campus, entre as comunidades do Matadouro e do Risca Faca. Segundo informou o coordenador do Núcleo de Energias Alternativas da Uenf, o engenheiro agrônomo José Carlos Mendonça, as duas motobombas roubadas eram utilizadas na explotação, filtragem e tratamento da água, com qualidade, para os cerca de 3 mil visitantes anuais da Casa Ecológica:

—  Agora não temos água. Estamos em meio ao semestre letivo e o espaço da casa, que conta com um auditório de 50 lugares, onde eventos institucionais e defesas de teses e reuniões sãos periódicas. Tudo fica comprometido, por não termos água.

O coordenador explicou ainda que, no local onde funcionavam as bombas, a Uenf tinha um sistema de captação e tratamento de água inovador, que é objeto de patente em curso. “Só que não temos mais as motobombas, nem tratamento, nem água de qualidade para nossos visitantes”, lamentou.

Se o próprio secretário estadual de Fazenda, Gustavo Barbosa, já admitiu que “a situação do Estado do Rio é falimentar”, a Uenf parece ser a vítima preferencial. Desde outubro de 2015, a universidade na qual estudam 6,2 mil alunos, e considerada fundamental ao desenvolvimento de Campos e região, não conta com repasses de custo e manutenção, de cerca de R$ 2 milhões mensais, previstas no Orçamento. A situação levou o reitor da Uenf, professor Luis Passoni, a admitir:

— Se ainda estamos funcionando é única e exclusivamente por mérito dos servidores e de empresas parceiras, que vão muito além das obrigações contratuais para continuarem a fornecer produtos e serviços indispensáveis ao nosso funcionamento.

Sem verba de manutenção há um ano e meio, a Uenf funciona com servidores que ainda não receberam o 13º de 2016, nem os salários de março, correndo o risco do mesmo acontecer em abril. Já os bolsistas estão há dois meses sem receber.

 

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Manuela Cordeiro — Luto é verbo

 

 

 

Muitas são as lembranças quando mencionam a Universidade Estadual do Norte Fluminense. Tem aquela advinda da formação acadêmica e o início do aprendizado político, a importância da mesma para o contexto do Norte Fluminense (e do Brasil), além das lembranças afetivas de quem foi graduada em ciências sociais pela mesma. E agora me proponho a escrever um texto sem advérbios de modo. Quando muito, para indicar o tempo, mas não para me desculpar hoje ao leitor.

Sobre a formação acadêmica, conheci a Uenf em tempo de recursos com fluxo normal no início dos anos 2000. Estudei ciências sociais no Centro de Ciências do Homem, praticamente todos os meus colegas tinham alguma bolsa de apoio acadêmico, o que garantia as condições materiais de existência — aluguel para aqueles que vinham de outras cidades, comida e xerox. Esse apoio acadêmico poderia significar o desenvolvimento de uma atividade, seja como bolsista da Casa de Cultura Villa Maria catalogando livros, ou extensão acadêmica assistindo aos direitos da população da área rural, ou mesmo realizando uma pesquisa com base na leitura de cânones das ciências sociais brasileiras.

Nota: Isso era possível em um curso com poucos recursos no âmbito da universidade, marcado pelo rótulo de ser eminentemente “de esquerda” e outros tantos juízos de valor que não vale a pena mencionar.

O meu primeiro trabalho de pesquisa na graduação em ciências sociais na Uenf foi na área de sociologia quantitativa. Com tudo o que tem direito, desde questionário de 12 páginas a me entender com SPSS (Statistical Package for Social Sciences — Pacote Estatístico para as Ciências Sociais). Pensando no que o sociólogo Howard Becker propõe de maneira bastante didática sobre o estudo da realidade social: “[Esta] pode ser descrita de muitas maneiras, já que as descrições podem ser respostas para qualquer uma entre as diversas perguntas. Podemos concordar em princípio que nossos procedimentos devem nos deixar obter a mesma resposta para a mesma pergunta, mas de fato só fazemos a mesma pergunta quando as circunstâncias de interação social e organização produziram consenso em relação ao que constitui uma ‘boa pergunta’”. Sinto que vivemos uma “enxurrada” de muitos números na mídia – desde a impressa até as redes sociais. Todos os índices, a polarização do governo, o (des) caminho do Estado do Rio Janeiro geram uma larga massa de dados a serem consultados. Pensemos em outras “perguntas boas para pensar”.

Falo de outro lugar, com um posicionamento engajado. E esse lugar de fala me trouxe hoje aqui a Universidade Federal de Roraima. No extremo norte do país, mas com problemas tão comuns. As dificuldades de repasse de recursos para a pesquisa (ensino e extensão); as intempéries relacionadas a permanência do aluno na universidade, como transporte público de qualidade, acesso a um restaurante universitário condizente com as necessidades nutricionais e sanitárias; bem com a sobrecarga de funcionários e docentes com as inúmeras tarefas de gestão. São somente alguns exemplos de necessidades dentre as várias para se ter acesso ao conhecimento. Público, gratuito e de qualidade. Compreendido na sala de aula, nos laboratórios de pesquisa e durante a primeira etnografia no trabalho de campo no mercado municipal.

Parecem que todos os meus textos são em primeira pessoa. Alguém diria que é um vício de antropóloga. Sim, trata-se de algo “de dentro”. Aprendi com as ciências sociais e, sobretudo na Uenf, que o nosso referencial de pesquisa é a interação humana. Essa interação humana é posicionada, no entanto, nunca neutra. São os “imponderáveis da vida real”, como diria o polonês Bronislaw Malinowski, reverenciado como fundador do trabalho de campo na antropologia, ou mesmo os “aspectos românticos da disciplina”, para citar o célebre antropólogo brasileiro Roberto DaMatta, que nos informam.

Esse desmonte político orquestrado das universidades, no âmbito do Estado do Rio de Janeiro, nas quais estão incluídas a Uenf, além da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), bem como a UEZO (Fundação Centro Universitário Estadual da Zona Oeste), é covarde. Muitos discentes e docentes que acreditam no potencial transformador da educação pública, gratuita e de qualidade hoje se revezam entre resistir e padecer de agonia.

Agonia pública e também privada. Daqueles que viveram a Uenf e da impossibilidade eminente de tantos outros e outras poderem ter acesso à educação.

Quando estava na graduação, sempre tive a atitude comedida de não me expor politicamente, porque julgava não ter voz. Essa qualidade atribuía à falta de reverberação política, e não maniqueísta, de qualquer opinião que pudesse emitir. Mas hoje, depois de ter cumprido parte do rito acadêmico, e sentindo na pele o trabalho visível (e muito também do invisível) que é ser docente, servidora de uma universidade pública, galguei alguns passos na direção almejada. Mesmo diante de todas as incertezas políticas do momento e do futuro desse projeto de educação pública, queria expressar minha indignação pela covarde falta de investimento em um patrimônio, pago com dinheiro de todos, tendo como principal objetivo a transmissão da educação.

Mas ainda não perdemos a luta. Peço desculpas ao leitor se não consegui revisar o texto as várias vezes necessárias, porque com certeza faltaram muitos elementos que gostaria de trazer à tona. Mas o tic-tac do relógio está me deixando aflita para repassar a aula de hoje, a preparação da atividade de paralisação à noite, além da aula da pós-graduação de amanhã que tanto lutamos para conquistar. Isso tudo porque, em teoria e prática procuro resistir e, citando Darcy Ribeiro, eu detestaria estar do lado de quem (por ora) me venceu.

 

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Beleza da carne, da arquitetura e do sonho da Uenf na foto

 

Ainda sem saber do projeto Nurbe, do fotógrafo Kelvin Klein, o blog publicou aqui, no último dia 12, um registro dele que havia viralizado anônimo nas democracia irrefreável das redes sociais locais. Posteriormente, a partir do toque da Beatriz Silva, amiga comum, foi possível chegar não só o autor da foto, como ao projeto que  pode ser conferido aqui e descrito na transcrição abaixo:

— O Projeto Nurbe consiste em fotografias de nu artístico e nu no cenário urbano, com uma exploração generalizada. A conexão do Nu com a Urbe, linhas e curvas. Por que Nurbe? Nurbe é a união da palavra Nu com Urbe um misto de natural, orgânico e o arquitetado e construído.

Confirmada a origem da foto, o crédito devido à foto foi feito numa atualização da postagem, no dia 16. Dois dias depois, a colaboradora do blog, professora, escritora e atriz Carol Poesia dedicou seu espaço quinzenal no “Opiniões” para também falar aqui do Nurbe. A partir da polêmica gerada pela foto nas redes sociais, do qual ela chegou a ser retirada, Carol questionou:

— A estética das fotos também merece destaque, Kelvin criou uma linguagem, estabeleceu um diálogo pertinente entre as linhas do corpo e a linha do trem, entre as curvas da mulher e silhuetas de concreto, até entre o modelo fotografado e grafite ao seu lado pintado. Está tudo ligado! E poderia ser bem explorado, se machismo e tabu não reduzissem os olhares à seguinte questão: de quem é essa bunda?

Por acaso, no mesmo dia 18 em que o blog publicou o texto da Carol, a Casa de Cultura Villa Maria teve as portas fechadas, por falta de luz, água e internet. O fato foi noticiado aqui, no dia seguinte (19), na coluna “Ponto Final”, da Folha da Manhã, como vanguarda do processo de desmonte da Uenf, em virtude da crise financeira sem precendentes do Estado do Rio. E o alerta sensibilizou a população, também viralizando nas redes sociais.

O acaso se dá porque algumas das fotos do projeto Nurbe têm como cenário justamente a Villa Maria, cuja energia seria religada (aqui) no dia 24, seis após a denúncia da Folha. Como a beleza da carne, da arquitetura e do sonho de uma universidade pública de excelência não podem ser negadas, confira abaixo a confluência de todas na foto do Kelvin:

 

 

(Foto: Kelvin Klein – Projeto Nurbe)

 

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Ricardo André Vasconcelos — Uenf: a hora de um novo grito

 

Dois momentos na história da Uenf: Brizola e Niemeyer ouvem explanação de Darcy sobre uma maquete da universidade e no ainda no terreno da futura universidade, Darcy, Niemeyer com Gilca e Wanderley de Souza

 

 

Sonho de várias gerações, a Universidade Estadual do Norte Fluminense é fruto do encontro da mobilização popular com a utopia de Darcy Ribeiro. Já nos anos 60 do século passado a universidade era realidade tão palpável que a usineira Maria Queiroz de Oliveira, a “Finazinha Queiroz”, também conhecida como “rainha da bondade”, deixara em testamento o seu casarão no alto da Rua Baronesa da Lagoa Dourada (Villa Maria), para sediar a futura instituição de ensino superior. Duas décadas depois, por ocasião da elaboração da Constituição Estadual, em 1989, uma emenda de iniciativa popular liderada pelo professor Mário Lopes Machado reacendeu a campanha pela universidade. O governador da época, Wellington Moreira Franco, inclusive sancionou lei, nomeou reitor… Mas a intenção morreu no papel.

Posta na letra fria da lei a instituição só ganharia viabilidade política poucos anos depois, na esteira da ascensão do jovem promissor Anthony Garotinho, então prefeito de Campos, que em busca de projeção estadual inseriu a reivindicação como uma das principais do movimento batizado de “grito do interior”. Por duas ou três vezes, milhares de pessoas levadas em dezenas de ônibus fretados pelas prefeituras da região invadiram a capital do Estado para mostrar que do lado de cá ponte Rio-Niterói tinha mais Estado do Rio de Janeiro.

No último dos protestos, uma comissão encabeçada por Garotinho e composta de lideranças regionais foi recebida no Palácio das Laranjeiras pelo então governador Leonel Brizola. Houve outros marcos iniciais de criação da Uenf, mas creio que este foi o primeiro passo efetivo para criação da universidade . O segundo, e talvez mais importante, foi quando a tarefa sobre entregue ao educador Darcy Ribeiro. Mineiro de Montes Claros, Darcy já tinha criado a Universidade de Brasília nos anos 60 e, “plantado universidades pelo mundo”, como gostava de dizer, durante seu exílio imposto pelo regime militar.

A primeira reunião de trabalho da nascente Universidade Estadual do Norte Fluminense ocorreu num feriado — não sei se de Corpus Christi ou Páscoa — no auditório do Palácio da Cultura, quando conhecemos os que iriam efetivamente implantar a Uenf, ou seja, o próprio Darcy Ribeiro, o professor Wanderley de Souza (que seria o primeiro reitor) e a professora Gilca Weinstein, principal executiva e que presidiria a Fundação Estadual do Norte Fluminense (Fenorte). A comissão contava ainda com alguns campistas, sendo o destaque para a professora Ana Lúcia Boynard, que fazia a ligação entre a Prefeitura e os organismos do governo do Estado e teve papel gigantesco em todo o processo.

Ponto fundamental entre a utopia de Darcy — que já nesta época discorria com a eloquência habitual sobre os cientistas do mundo inteiro que atrairia para a “sua” universidade, que já batizara de “Terceiro Milênio” — foi a decisão do então prefeito Sérgio Mendes de desapropriar o terreno de 50 mil metros quadrados localizado na Avenida Alberto Lamego e doá-lo para a implantação da Uenf. O gesto garantiu o caminho sem volta naquele delicado momento em que se debatia a viabilidade do projeto.

Entre a iniciativa do professor Mário Lopes, o “Grito do Interior” e a aula inaugural proferida pelo jurista e então chefe do Gabinete Civil do governo Brizola, Carlos Roberto Siqueira Castro, em 16/08/1993, passou-se um tempo surpreendentemente pequeno para a grandeza e reconhecimento que a universidade ganhou no Brasil e no mundo. Mas o que surpreende de verdade é que, tão pouco tempo depois a mais importante conquista da região em todo o século XX esteja em real risco de desaparecer como consequência do desmantelamento geral da máquina pública do Estado do Rio de Janeiro.

Está na hora de um novo grito. É hora de garantir a conquista no grito, por meio de uma ampla mobilização de toda a comunidade regional para que a Uenf, conquistada na manifestação popular, seja também salva e mantida pela legítima aspiração do povo dos municípios do Norte e Noroeste Fluminense.

 

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Clássico de Scorsese e De Niro nesta quarta no Cineclube Goitacá

 

(Arte: Gustavo Alejandro Oviedo)

 

 

Na entrevista que será publicada amanhã (26) na capa da Folha Dois, sobre a sessão do Cineclube Goitacá desta quarta, às 19h30, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio, o repórter Jhonattan Reis fez a primeira pergunta: “Por que você escolheu apresentar ‘Taxi Driver’?” Ao que respondi de pronto: “A pergunta deveria ser: como é que ainda não exibimos ‘Taxi Driver’?”

Difícil explicar a um jovem de hoje, como o repórter, dado à luz na era digital da informação em tempo real, o que foi ter nascido poucas décadas antes. Em maio de 1982, um mês antes da Seleção Brasileira de Zico, Falcão, Sócrates e cia. encantar o mundo com seu futebol de sonhos, mas perder a Copa, a crueza do mundo real já dera as caras num vazamento de resíduos tóxicos da Paraibuna Metais, em Minas Gerais, no rio Paraíba do Sul.

Interrompida a captação d’água no rio, todas as escolas de Campos fecharam as portas por duas semanas. Como aquelas crianças evadidas das grandes cidades inglesas para evitar os bombardeios alemães na II Guerra Mundial (1939/45), eu e meu irmão fomos para casa de parentes fora da planície. Não lembro onde Christiano ficou, mas eu, refugiado de 9 anos, fui acolhido na casa do meu tio Luiz Edmundo Barbosa, irmão caçula do meu pai, que residia em Itaipu, Niterói.

Se era maio, o Natal veio com alguns meses de antecedência, quando descobri que não só teria um quarto só para mim, como tio Luiz ainda fez a gentileza de me disponibilizar nele uma TV particular. Para quem dividia o quarto com o irmão, num apartamento de uma única TV coletiva, na sala, a novidade se tornou ainda melhor pelas férias forçadas. Sem aulas de manhã, não tinha que acordar cedo, podendo varar as madrugadas assistindo às sessões do Corujão, na quais a censura da Ditadura Militar (1964/85) ainda vigente liberava os filmes com cenas de violência e conteúdo erótico.

De Niro em “Taxi Driver” na charge de Sebastian Kruger

Foi então que assisti pela primeira vez a “Taxi Driver”. O filme era de 1976, mas naquela época as novidades do mundo demoravam bem mais para chegar ao Brasil. E nunca vou esquecer do impacto que foi travar contato pela primeira vez com a história do veterano da Guerra do Vietnã (1955/1975), conservador e paranóico Travis Bickle. Motorista de táxi na violenta Nova York dos anos 1970, ele se revolta com a “escória” que observa pelas janelas do carro entre uma corrida e outra, numa composição antológica de Robert De Niro, capaz de se igualar a qualquer outra na história do cinema.

O “You talking to me? You talking to me?” (“Você está falando comigo?”) repetido por Bickle no seu pequeno apartamento, ecoado diante ao menino exilado num quarto da casa de seu tio, jamais saiu da minha cabeça. E foi a partir dali que, ainda aos 9 anos, ela se abriu à possibilidade do cinema ser muito mais que mero entretenimento. Depois daquela obra prima de Martin Scorsese, a quem passaria a considerar um dos grandes diretores do cinema falado, certamente o maior ainda em atividade, eu nunca mais veria um filme da mesma maneira.

A história do motorista de táxi encarnada visceralmente por De Niro é sobre solidão, mesmo numa megalópole como Nova York. Como só, distante da sua cidade, pais, irmão, amigos e colegas de escola, estava a criança que a assistiu pela primeira vez. Além da identificação inevitável, pude constatar com o tempo que “Taxi Driver”, como qualquer outra obra da filmografia do ex-seminarista católico Scorsese, trata de apogeu, queda e redenção.

Habilitação de De Niro como motorista de táxi em Nova York, parte do laboratório para sua interpretação antológica

O apogeu é apenas roçado por Bickle na tentativa de conquistar Betsy, assessora do senador Palantine (Leonard Harris) em campanha à presidência dos EUA. Ela é interpretada por Cybill Shepperd, no auge da beleza, que ficaria mais conhecida no Brasil dos anos 1980 pela popular série de TV “A Gata e o Rato”, responsável pelo lançamento de Bruce Willis ao estrelato. Mas, desastrado como conquistador, Bickle leva Betsy, no primeiro encontro, para assistir a um filme pornô, do qual ela sai absolutamente constrangida.

Quedado por sua incapacidade psicológica de levar uma vida normal, ele parte para atitudes mais extremas, mas sem perder Betsy como referência. Após adquirir um arsenal, planeja matar o senador para qual ela trabalha. Desastrado também como terrorista, a nova falha conduz o atormentado motorista de táxi, Hamlet sem brilho, à busca de redenção da única maneira que lhe restou: tentando resgatar uma adolescente da prostituição, a Iris vivida por uma Jodie Foster de apenas 12 anos e até então mais conhecida pelos filmes da Disney. Como alvo da sua ira do mundo, Bickle troca o senador Palantine pelo cafetão Sport, encarnado por Harvey Keitel, figurinha carimbada dos primeiros filmes de Scorsese.

Apesar de levar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, “Taxi Driver” não ganhou nenhum Oscar nas quatro categorias em que concorreu: filme, ator (De Niro), atriz coadjuvante (Jodie Foster) e trilha sonora, finalizada por Bernard Herrmann poucas horas antes de morrer. A despeito da tremenda injustiça de Hollywood com aquela obra que a revolucionou, é considerado pela crítica do mundo como um dos grandes filmes já feitos.

Se você, leitor, já assistiu ao filme, revê-lo e poder debatê-lo é sempre uma grande oportunidade. E se ainda não viu, não deixe de conferir essa obra necessária, sabendo que tenho uma inveja danada de você, como do menino que fui um dia.

 

Antes da sessão, assista ao trailer:

 

https://www.youtube.com/watch?v=ikq-PlAuaLA

 

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Ocinei Trindade — Grandes mentiras e uma verdade

 

 

 

Na última semana, a rede social Facebook foi tomada por confissões de seus usuários em um jogo de verdades e mentiras. A proposta era que os seguidores de cada perfil adivinhassem o que era verdadeiro ou falso nas declarações postadas. Li algumas dessas listas, achei divertido (e cansativo), ensaiei fazer a minha lista, mas desisti rapidamente. Não sou um bom mentiroso ou não tenho tanto talento para a mentira. É verdade, acreditem ou não (apesar da desonestidade estar em alta no Brasil, especialmente no falido estado do Rio de Janeiro governado por políticos inescrupulosos nas últimas décadas).

Ao ler as confissões das pessoas, lembrei-me de um texto que escrevi há seis anos em meu blog, cujo título é A maior mentira do mundo. O conteúdo daquela crônica se refere à uma piada machista muito comum em rodas de conversas sobre práticas sexuais (homo ou hétero), quando se utiliza da proposta de coito superficial feita por sedutores com um pé na cafajestagem, e outro pé na mentirinha pseudo-inocente. Os seduzidos também se entregam à mentira em jogos de fingimentos.

A piadinha infame parece até a relação entre políticos e eleitores. Quando aqueles dizem que não vai doer nada, estes creem e cedem sofrendo todo tipo de consequência ou violência depois do voto-coito. Sigmund Freud explicaria.Darcy Ribeiro também discorreria desses joguinhos promíscuos brasileiros. Somos tão mal-educados que nem o sexo escapa de nosso mal-estar (in)civilizatório. Já faz algum tempo, há um “estupro coletivo” e “roubo generalizado” por parte das autoridades fluminenses e do governo do país com a população (além de alguns megaempreiteiros, como bem sabemos).

Quanta mentira o Brasil vive! O Rio de Janeiro experimenta os resultados de muitas mentiras praticadas em atos de corrupção dos últimos governos (diversas prefeituras fluminenses também podem ser incluídas nestas listas de muitas mentiras e poucas verdades em se tratando de verbas públicas desviadas ou mal-empregadas) que arruinaram as finanças do segundo estado mais importante da federação.  A situação que já não era boa na segurança, nos hospitais públicos e escolas estaduais, fez com que as universidades Uerj, Uezo e Uenf também amargassem caos e incertezas.

Fomos tomados pela indignação, mas também por um estranho silenciamento que até pode ser rompido em postagens de redes sociais. Para mim, não basta (mas fazer exatamente o quê em curtíssimo prazo se temos urgências?). Sei que protestos e enfrentamentos também carecem de estrutura, financiamento e dinheiro (coisas que muitos servidores sem salários ou mal-pagos não têm, além de haver milhões de desempregados em toda a parte). Reféns e cansados de esperar soluções de políticos desmoralizados, os cidadãos fluminenses reagem como boa parte dos brasileiros diante da opressão de um Estado calhorda e ineficiente: deixa o barco correr, a ver até onde se chega, sem muito a fazer. Será o fim? Haverá como cavar ainda mais o fundo do poço no Rio de Janeiro e no Brasil com seus dramas sociopolíticos?

Espera-se por milagre ou pela morte (esta é verdadeiramente certa de acontecer). Eu sinto raiva dos políticos, mas também da sociedade que não reage. Não posso esquecer que faço parte desta sociedade que abriga esses políticos ruins. Somos todos tão ruins assim?  Há muitos interesses em jogo. E, brasileiramente, “falamos” em defesa do coletivo, mas não esqueçamos que nossa vontade pessoal tende a ser mais valorizada. O jeitinho brasileiro é uma sacanagem generalizada em busca de vantagens.

Repito a frase de Maria Bethânia: “estou morrendo de pena do Brasil”. Eu também estou morrendo de pena do Rio de Janeiro e da Universidade Estadual do Norte Fluminense. País polarizado e dividido? Sempre foi: milhões de pobres explorados e pouquíssimos ricos poderosos. Nessa casta elitizada e privilegiada verificamos representantes dos grandes partidos políticos brasileiros (todos os partidos estão desmoralizados, nenhum escapa).

Desde que a lista do ministro Luiz Edson Fachin finalmente veio ao conhecimento público (esperava-se por isto antes do ministro Teori Zavascki morrer em um acidente aéreo suspeito) com o teor das delações de executivos da construtora Odebrecht sobre as operações de caixa dois e propinas nos últimos governos estaduais e federal; vemos de um lado, políticos serem desmascarados com detalhes, e do outro lado, políticos negando tudo e afirmando que as delações são invenções mentirosas, e que seus autores não possuem provas do que dizem. Alguém duvida sobre essas verdades e mentiras? Pois é, alguns fanáticos e criminosos só enxergam a verdade que lhes convém.

Há pessoas que mentem com tanta frequência e convicção que a mentira passa a ser confundida com a verdade ou se transforma em verdade. Isto ocorre com a ficção quando vemos filmes e lemos romances em demasia; quando jogamos determinados games esquisitos em ambiente virtual (a tal baleia azul anda ajudando a matar gente que sofre de depressão, por exemplo); quando passamos a viver conectados em rede, mas sem saber dirigir a palavra ou ouvir uma pessoa ao lado.

Assim, entre ilusões e omissões, construímos realidades falsas ou verdadeiras mentiras. Infelizmente, a educação brasileira está inserida nesse contexto. Quando enfim produzimos conhecimento científico e pesquisas nas universidades, alcançamos êxito ou reconhecimento de uma comunidade acadêmica, vem o golpe dos governos com corte de orçamentos e verbas, além de sequestro de dinheiro público para favorecer empresários e empreiteiras suspeitas (o pior é que sempre soubemos e nunca provamos).

No país dos mentirosos, apesar de tantos escândalos financeiros e roubos de dinheiro público por parte de políticos e empresários gananciosos, o que nos restará? Não sei se a população quer, de fato, encarar verdades e se livrar das mentiras que nossos opressores nos impõem, pois nenhum de nós, acredito, tem sido honesto e verdadeiro o bastante. No entanto, diante de tantos crimes contra a nação, vemos o Brasil falir, hospitais agonizando, escolas depredadas, servidores públicos sem salários, avanço da criminalidade, escalada da violência nas cidades e no campo, população cada vez mais insegura: o dinheiro público que deveria ser aplicado nessas áreas tem sido roubado para abastecer uma lista enorme de políticos mentirosos que ajudamos a eleger.

E qual o papel dos juízes e promotores públicos de justiça diante dessa bandalheira toda? Sinceramente, tenho dúvidas. No Brasil, dizem, a justiça não funciona para pobres e pretos (a imensa maioria). Para condenar ricos e poderosos, o tempo se arrasta em recursos e manobras de advogados caros, até prescrever o crime, praticamente. O debate é amplo e espinhoso, eu sei.

Temos sido escravizados e usurpados por mentiras há várias décadas no Brasil. Desde que a democracia foi retomada no país, em 1985, não paramos de errar e de afundar em um oceano de lama podre. Os discursos dos partidos políticos não servem para mais nada; simpatizantes pelo extremismo começam a ganhar espaço com acenos para a volta do regime militar ou a eleição de radicais e ditadores. Quando Cazuza compôs “Brasil” e pedia para que o país mostrasse sua cara e revelasse o nome do seu sócio, a Odebrecht já existia e já aprontava todas com o dinheiro público, muito semelhantemente com esta era. Mais de trinta anos depois, o cenário não mudou quase nada, mas piorou em matéria de roubalheira e descaso.

O evangelista João afirma em seu texto que quem conhece a verdade é libertado por ela. Hesito quanto às mentiras que parecem verdades e que nos confundem. Há verdades que pessoas não querem acreditar. Se há solução para o Brasil? Isto vai depender verdadeiramente de profundas mudanças, mas não sei até quando e onde conseguiremos suportá-las. Viver em um mundo de ilusões e de mentiras também tem seu preço. E como temos visto nesta operação Lava-Jato, verdades e mentiras custam muito caro a todos os brasileiros. Estamos em uma guerra de nervos. Sobreviremos? Espero que sim.

 

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Já contei neste espaço do meu encontro com Darcy Ribeiro nas primeiras reuniões para a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense: foi uma honra. Depois que me tornei jornalista, perdi a conta de quantas reportagens realizei na instituição. Em 2014, fui aluno especial no programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem no Centro de Ciência do Homem. Em 2015, fui aprovado como aluno regular, e nesta semana, enfim, defenderei minha dissertação para receber o título de mestre. Uma grande conquista pessoal auxiliada pelos professores e servidores da universidade. Caminhar pela Uenf, passear por entre os prédios projetados por Oscar Niemeyer é uma inspiração para mim. Estudar é privilégio e um caro investimento.

Tenho muito orgulho de estar na Uenf, de aprender com a comunidade acadêmica, de pensar soluções para nossa sociedade, para Campos, o Rio e o Brasil. Os campistas precisam e devem se orgulhar dessa universidade (muitos estrangeiros e imigrantes sentem esse orgulho). É preciso promover e estreitar laços das pessoas que vivem na cidade e região com os responsáveis pelo ensino (e vice-versa).

A Uenf não é e não deve ser uma instituição para uma determinada “elite”. Ela pertence à população. É um desafio enorme batalhar por um país justo e democrático em qualquer lugar. Por acreditar na educação, só vejo saída evolutiva e desenvolvimentista passando pela família e pela escola fundamental e cidadã, por uma universidade (que deveria se chamar diversidade ou multidiversidade) capaz de dialogar com todas as pessoas e segmentossociais e econômicos (inclusive com o setor privado que também pode contribuir em parcerias com o poder público).

O futuro da Uenf está em jogo. A ameaça ao Rio de Janeiro é enorme, pois há um colapso em andamento. A solução só acontecerá quando a população fluminense realmente decidir solucionar. Como fazer? Não sei exatamente. Alguns cogitam até uma divisão da federação, a independência do estado do Rio, já que a União (com pouca credibilidade), ao que parece, não demonstra muito interesse em resolver nossos problemas sociais, econômicos e políticos (que são muito graves e que nos pertencem, sim). Não defendo divisionismos. O Brasil carece de unir forças contra a corrupção e necessita fazer uma série de autocríticas: é preciso decidir a Campos, o Rio de Janeiro e o Brasil que queremos. É necessário rever a Uenf que precisamos e podemos ser. O tempo é de lutas diárias. Para vencer tantas adversidades e mentiras, vamos precisar de todo o mundo.

A foto do praticante de slackline que ilustra este texto fiz há alguns meses durante minhas caminhadas pelo lindo campus da Uenf (há bosques magníficos que muita gente da cidade desconhece, pois nunca entrou ali). A imagem serve para refletirmos sobre o equilíbrio que necessitamos para lidarmos com os problemas do Rio de Janeiro e da universidade. Repensemos e atravessemos sem cair.

 

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