TRE cassa Rosinha e Chicão da Prefeitura e os torna inelegíveis ate 2020

TRE RJO plenário no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) acabou de cassar o mandato da prefeita Rosinha Garotinho (PR), por quatro votos a três. Sem maiores detalhes, a informação foi noticiada primeiro aqui, no blog do jornalista Lauro Jardim, de O Globo. A assessoria do TRE também informou que, a partir da sua cassação, Rosinha e Chicão estão ainda inelegíveis por oito anos, a contar de 2012 — portanto até 2020.

A Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije) que gerou o afastamento da prefeita e seu vice foi movida pelo Ministério Público Eleitoral (MPE),  ainda por conta da eleição municipal de 2012, na qual Rosinha e Chicão se reelegeram.  As denúncias que geraram a condenação foram por abuso de poder econômico e político, uso indevido de meio de comunicação social, crime eleitoral por propaganda política.

Foi por uso indevido dos meios de comunicação que a prefeita Rosinha foi cassada pela Justiça Eleitoral em 2010, ficando quase sete meses fora do governo. Ela retornou ao cargo em dezembro daquele ano por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).

À decisão de hoje do TRE, cabe recurso do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mas assim que for publicada em Diário Oficial (DO), a prefeita e seu vice terão que sair dos cargos, a não ser que consigam uma decisão liminar em contrário do TSE. A previsão da publicação das cassações de Rosinha e Chicão no DO é de uma semana.

Abaixo, a reprodução da reportagem dos jornalistas Suzy Monteiro e Alexandre Bastos, publicada (aqui) na Folha em 24 de agosto deste ano, tratando do andamento no TRE da mesma Aije que hoje gerou a condenação de Rosinha e Chicão:

 

 

Página 5 da edição da Folha de 24/10/16 (reprodução)
Página 5 da edição da Folha de 24/10/16 (reprodução)

 

 

Leia a cobertura completa do caso na edição de amanhã (25) da Folha da Manhã

 

Atualização às 18h49: Aqui, no mesmo momento deste “Opiniões”, o Blog do Bastos também noticiou a decisão do TRE.

 

Atualização às 20h55: Buscada por telefone, logo depois da postagem inicial da cassação ter sido feita e publicada no blog, a secretaria municipal de Comunicação (Secom) acabou de informar que não vai gerar nenhuma nota sobre o caso.

 

Atualização às 21h25: Há alguns minutos, após ser informada que não seria aceita a terceirização da comunicação social da Prefeitura de Campos num blog de qualquer secretário de qualquer outro pasta, e com “Opiniões” revelando acima que a Secom decidira não emitir nenhuma linha sobre a cassação de Rosinha e Chicão pelo TRE, a secretaria voltou novamente atrás e ligou ao blogueiro para informar que geraria a nota republicada abaixo, na qual assume e ecoa a terceirização da sua função. Em meio a tantas contradições, confira em nome do contraditório:

“O secretário de Governo (…) informa que ‘da decisão, que ainda vai ser publicada, cabe recurso e temos confiança que essa decisão será revertida’, citando que a prefeita Rosinha foi eleita em 2012 com mais de 170 mil votos, com 70 mil votos a mais do que a soma dos outros cinco candidatos, e que a acusação de matérias não institucionais no site da prefeitura não procede e que não teria o condão de influenciar o resultado das urnas.”

 

Atualização às 21h37: Confira aqui, no blog “Na curva do rio”, da jornalista Suzy Monteiro, a nota oficial da assessoria do TRE sobre a condenação de Rosinha e Chicão.

 

0

Pra quem não passou a ler o Gaspari ontem, quando começou o desmonte do RJ

 

A figura com a qual Gaspari representa seu personagem: Eremildo, o idiota
A figura com a qual Gaspari representa seu personagem: Eremildo, o idiota

 

 

Aqui, em seu blog, o secretário de Governo de Campos reproduziu somente hoje a nota principal da coluna do jornalista Elio Gaspari, intitulada “O anel de Cabral e o teleférico”. Publicado (aqui) desde ontem em O Globo, esse aproveitamento seletivo só daquilo que interessa no jornal dos irmãos Marinho, pintado pelo secretário como diário do Anticristo em todo o resto, é prática evidente até para Eremildo, o idiota — persoangem criado por Gaspari.

Na sua nota, o decano jornalista usa o anel de R$ 800 mil, comprado no Principado de Mônaco pelo empreiteiro Fernando Cavendish como “mimo” à esposa do então governador Sérgio Cabral (PMDB), para explicar como e porque veio à falência o Estado do Rio símbolo internacional da parceria do PMDB fluminense com o governo federal Lula (PT). Essa união, na visão de Gaspari, teria condenado o Estado a partir de cinco pragas.

Como Lula governou o Brasil entre 2003 e 2010, e Cabral ao Rio, de 2007 a 2014, para quem não virou leitor do Gaspari apenas ontem, mas o acompanha há muito mais tempo, talvez seja relevante ler abaixo o que o jornalista pensava do Estado do Rio sob comando do casal Garotinho, bem como suas relações com o PT mesmo antes de Lula se tornar presidente a primeira vez.

Na sua interpretação sobre a nota de ontem do Gaspari, o líder rosáceo finalizou hoje em seu blog: “Chegamos ao fundo do poço”.  Para quem quiser saber quando este começou a ser cavado, o blog lembra de outra nota de Gaspari, publicada (aqui) em junho de 2003, na qual o jornalista ecoava seu lamento: “O que o casal Garotinho, com suas idéias folgadas e roupas apertadas, está fazendo ao Rio de Janeiro é uma tristeza”.

Abaixo, sem seleção, a íntegra da nota de quem acompanha o Gaspari e a situação do Estado do Rio há muito tempo, antes que tivéssemos acordardos todos em Kubanacan, republiqueta de bananas fictícia que batizou uma popular novela de Carlos Lombardi, exibida às 19h na Globo, entre 2003 e 2004:

 

 

Kubanacan
(Clique na imgem para ver a abertura da novela)

 

 

 

Jornalista e escritor Elio Gaspari
Jornalista e escritor Elio Gaspari

Dorme-se no Rio, acorda-se em Kubanacan (*)

Por Elio Gaspari

 

A gente finge que não está percebendo, mas a ordem constitucional brasileira arrisca-se a sofrer o tranco da necessidade de uma intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro. Pode-se ter votado em Rosinha Garotinho, pode-se até torcer pelo seu êxito. O que não se pode é ir dormir cedo, depois de assistir à novela “Kubanacan”, para se acordar no dia seguinte com o general Camacho na Secretaria de Segurança (Humberto Martins na novela, Anthony Garotinho na vida real).

Há Estados onde os bandidos fogem dos quartéis pela porta da frente. Também há Estados onde os presídios de segurança máxima recebem pizza-delivery e um secretário de Estado visita delinquentes. Talvez haja Estados onde a Secretaria da Fazenda tenha um propinoduto que começa na Suíça, e a patuléia, por muito esperta, faz que não sabe onde termina. O que não há, nunca houve, é um Estado onde todas essas coisas acontecessem ao mesmo tempo, numa só administração.

O que o casal Garotinho, com suas idéias folgadas e roupas apertadas, está fazendo ao Rio de Janeiro é uma tristeza. O Rio já foi governado por empreendedores como Carlos Lacerda, democratas como Negrão de Lima, homens probos como o almirante Faria Lima. Se hoje a sua política não é a mesma, a culpa não é só dos Garotinho. Infelizmente, são deles o último ato e a conta.

Vale lembrar que o PT-Federal antecipou sua opção preferencial pelo poder em 1997, quando, no interesse de Benedita da Silva, impôs a candidatura de Garotinho à sua militância. Um dia alguém pesquisará o tamanho dessa transigência, na qual Lula jogou seu prestígio e defenestrou Vladimir Palmeira em benefício do casal. (Os adversários dos Garotinho eram chamados de “radicais”.) Garotinho não estava de todo errado em 1999, quando chamou o PT de “partido da boquinha”. O comissário José Dirceu certamente há de recordar o que lhe disse dona Rosinha na reunião em que se afastaram.

Rompidos, o PT-Federal e o casal Garotinho impõem à população do Rio de Janeiro a potencialização de seus defeitos. O casal tem um prazer quase sádico de repetir que o problema do tráfico é federal. O PT-Federal tem um prazer teatral em fazer de conta que não ouve. Trata a governadora do Rio de Janeiro com a deferência que o rei da Inglaterra dava à rainha de Tonga.

Ambos são espertos o suficiente para saber que não estão fazendo o outro de bobo. Enganam a escumalha, que lhes paga os salários.

O Estado do Rio de Janeiro caminha para a intervenção federal porque suas instituições estão se esfarelando. Se dona Rosinha fosse apenas uma governadora incapaz de distinguir cobrança de ICMS no destino de destino de ICMS cobrado, um bom secretariado teria sido solução. Desdenhou esse caminho. Deu a Secretaria de Segurança ao marido, que se julga no direito de lecionar ignorância informando que houve homicídio até no Jardim do Éden.

A intervenção federal — mecanismo previsto na Constituição — seria uma batata quente para Lula. Um governo que não sabe o que fazer com o professor Cristovam Buarque dificilmente saberá o que fazer com o Rio. À primeira vista, é melhor deixar a situação piorar muito nas mãos de um adversário do que melhorar um pouco nas mãos de um aliado. Esse caminho seria funcional se a eleição fosse no ano que vem. Pena, quem acaba logo é “Kubanacan”. O Rio terá mais três anos e meio de Rosinha Garotinho.

 

(*) Publicado em 18/06/03

 

0

Fabio Bottrel — Reflexões de um Extraterrestre

 

Sugestão para escutar após a leitura: Tom Waits – No VisitorsAfterMidnight

 

 

 

 

Bottrel 22-10-16

 

 

Paris, Londres, Atenas… dentre tantos lugares Japelão foi se perder em Macaé, fruto de um erro do GPS da sua nave. Estava em uma missão de pesquisa sobre a Terra e os humanos, comandada pelo alto escalão de seu planeta. Diante da grandiosidade da tarefa fora designado quando ainda não havia nascido, passou a vida estudando e de tanto analisar já pensava como um ser humano, na teoria. Graças ao seu preparo conseguia discernir sua localização pelo desenho do continente, sabia estar em um país não selecionado como parâmetro de pesquisa.

Enquanto rondava a orla de Macaé tentando reprogramar suas máquinas a fim de acertar a rota, logo foi descoberto pela população e espantou-se com o destaque das notícias em jornais e revistas. Não demoroupara a cidade encher de ufanistas procurando Japelão incansavelmente dia e noite. Armaram barraca na praia, acenderam incenso com cheiro de E.T, meditavam nas vozes dos anjos, à noite acendiam luzes verdes e gritavam: “Vem E.T! Vem E.T! Vem E.T!”. Japelão preocupado com a repercussão de sua estada decidiu partir o quanto antes. Colocou a velocidade de sua nave no máximo, tão rápida quanto a luz, nem ele mesmo podia acompanhar, era guiada por um piloto automático, pois a rapidez só era acompanhada por uma inteligência artificial. Não se precaveu quanto ao destino que seguiria, queria sair dali o quanto antes. Devido à estrutura de sua nave estar avariada, no calor do momento não lhe ocorreu que o piloto automático poderia não funcionar perfeitamente, e foi o que aconteceu. A nave bateu em 16 árvores antes de quebrar por completoe cair numa estrada de Campos dos Goytacazes.

Quando Japelão acordou saiu da nave ainda cambaleante pelo acidente, percebeu sua nave faltando peças, nenhuma das rodas estavam ali e se assustou, sem as peças não conseguiria consertá-la para voltar ao seu planeta. Estava num abismo, e quando olhou para a ribanceira tapando os olhos da claridade forte do sol, viu as rodas indo embora na caçamba de uma caminhonete. Logo em frente ao acidente, lá na ribanceira, havia um homem encostado na cerca analisando a cena. Caminhou até o humano com dificuldade, pois seu corpo não era apropriado para enfrentar o mato seco e nem os carrapatos. Antes mesmo de Japelão se aproximar o homem já gritava com os olhos fixos na nave:

— É sua essa coisa aí?!

— Binadamu, kunisaidiakwameliyangu.

— Oi?!

— Kunisaidiakwameliyangu.

— Que que cêtá falando, cabrunco?!

Japelão percebeu que houvera um erro de planejamento da sua missão, passou a vida inteira estudando suaíle como língua universal da Terra e o homem não conseguia entender uma palavra. Usou a mímica, outro dos artifícios estudados, apontando a caminhonete que levara suas peças e imitando a forma das rodas enquanto olhava para a nave.

— Ah, aqui é assim mesmo, se cair um carro e não tiver ninguém por perto levam tudo. Se der mole, leva até ocê que tá dentro.

O homem analisa Japelão com estranheza, a gravidade no planeta de onde veio é diferente e fez com que o corpo se deformasse para baixo em relação ao humano, não havia pelos no corpo e era feio de dar dó. Logo chegou a polícia e enquanto enfiavam a criatura feia de dar dó no carro ela resmungava em suaíle, mas ninguém entendia.

Ao contrário do que havia imaginado fora muito bem recebido pelas autoridades da cidade, construíram uma casa para ele, onde receberia tratamento e treinamento adequado para se inserir socialmente e trocar conhecimentos com os terráqueos. Todas as mordomias foram providenciadas para o extraterrestre, mas tudo o que ele queria era encontrar as rodas da sua nave para voltar à sua casa. Japelão tentava um diálogo, dizia: “Suaíle”, para comunicar qual o idioma falava, mas ninguém ali tinha conhecimento que era um idioma. Logo o governo federal criou um material didático para o E.T aprender a se tornar um cidadão, mas os políticos locais decidiram gastar milhões para fazer outro material e Japelão não entendeu.Contrataram um professor de português para ensinar as idiossincrasias regionais e a se comunicar nessa sociedade, mas surgiam mais dúvidas em vez de diminuir em cada correção que o professor fazia:

— ‘Mais pequena’ não pode, tem de ser ‘menor’.

— Por quê?

— Porque alguém escreveu isso aqui na gramática… — Disse o professor com o livro aberto.

— Mas se eu quiser usar, não pode?

— Não pode.

— Por quê?

— Porque tá escrito aqui na gramática…

O E.T se encantou com a capacidade limitada de raciocinar daquele povo, era como os cachorros do seu planeta. Diante da docilidade e aparente ingenuidade do extraterrestre logo surgiram programas para ajudá-lo a reerguer a máquina e voltar para casa. Japelão era uma espécie de antropólogo do seu planeta e não entendia muito bem a tecnologia, mas um grupo de cientistas terráqueos fora designado para projetar o conserto da nave com as devidas instruções. O projeto foi avaliado em cinquenta mil reais para ser entregue em três meses, mas já se passaram anos e o valor ultrapassou a casa dos milhões, Japelão não entendeu.Sem a perspectiva de ficar pronto, começou a perder as esperanças de voltar para o seu planeta.Fecharam um contrato de valor exorbitante com uma empresa que faria água para E.T beber, mas Japelão não entendeu, ele nem mesmo bebia água. Enquanto ele espera inventaram a construção de um bairro “E.T Alegre” para abrigar mais extraterrestres, por mais que alertasse que ninguém viria, foram construídas centenas de casas incompletas e gastos milhões, Japelão não entendeu, só queria as rodas da sua nave de volta para ligar a máquina e voltar pra casa. Enquanto caminhava pela cidade para conhecer mais sobre a cultura humana, Japelão viu pessoas morrendo em hospitais carentes de cuidados, pessoas em estado precário tentando ganhar seu pão e enquanto isso gastavammilhões para pintar o chão da rua e asfaltar sem parâmetro. O E.T viu que não conseguia entender aquele povo e ao perguntar por que isso? Ninguém respondeu.

Diante de tantas dúvidas, o E.T começou a estudar filosofia para entender melhor a vida, Nietzsche, Hegel, Spinoza, Platão, Rousseau… mas não entendia, as dúvidas só aumentavam cada vez mais. Anos se passaram, bilhões foram gastoscom sua estada na Terra, o extraterrestre se tornou safo, sabia que não consertariam sua nave e não iria mais embora, Japelão deixou a barba descer, a barriga crescer, comprou charutos e virou filósofo.

 

0

Gina Inojosa — De asas e nuvens, em surdina

 

Gina Inojosa
Gina Inojosa

Para Georgina, uma canção

Por Carlos Drummond de Andrade e Aluysio Abreu Barbosa

 

Conheci Gina Inojosa desde sempre. A partir da relação profissional entre repórter e fonte, nossos pais se tornaram grandes amigos pessoais, gerando o convívio entre as famílias.

Era um tempo da transição aquele final dos anos 70 do século passado. A agroindústria sucroalcooleira, pilar da economia goitacá desde o extermínio destes com a chegada dos portugueses, cederia vez à exploração de petróleo na Bacia de Campos.

A descoberta do primeiro campo petrolífero, de Garoupa, em 1977, seria noticiada num furo de reportagem pelo jornalista Aluysio Barbosa (1936/2012), meu pai. Primeiro no Jornal do Brasil, maior do Rio à época, do qual ele era correspondente.  E daí, pela Associeted Press, ao mundo pré-internet de então.

Partiu das conversas entre Aluysio e o usineiro Evaldo Inojosa (1927/2007), pai de Gina e presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA, em cujo prédio, ao lado da Catedral, hoje funcionam a Justiça e o Ministério Público Federais), a necessidade de se reverter dividendos daquela nova e milionária atividade a Campos.

Nesse sentido, as conversas passariam a incluir o senador Nelson Carneiro (1910/96), que criou em 1985 a primeira lei dos royalties. Na compensação pela extração do petróleo, os recursos inicialmente bem menores seriam aplicados apenas em obras de infraestrutura. Mas o princípio seria corrompido com o aumento (e desperdício) substancial das verbas.

Desse convívio entre os interesses da cidade e da região, ainda que eu e Gina fôssemos então alheios a eles, nasceu a amizade que se aprofundou, sobretudo, no verão de 1986. Com apenas 14 anos, tinha feito um curso de mergulho com Tito e Assis, irmãos de Gina, todos adultos.

Eles e Dr. Evaldo me chamaram para conhecer a casa da família, em Ipioca, Maceió (AL). E nela, passamos quase todos os meses de janeiro e fevereiro dedicados à caça submarina, enquanto houvesse luz do sol.

Para um adolescente em seus ritos de passagem naturais, difícil mesmo hoje dimensionar o que foi cumprir parte deles na espreita e captura de peixes com tiros de arpão sob o mar, só com o ar do pulmão, na condição de igual inundada de silêncio e beleza em meio a adultos.

Nos intervalos em terra, lembro nitidamente de Pedro, hoje médico e à época pouco mais que um bebê, filho mais velho de Gina, dormindo à tarde sobre a barriga do pai, José Carlos Pereira Pinto, numa rede de varanda da bucólica praia nordestina, com o mar e os coqueiros ao fundo.

Isso foi antes de nascer a segunda filha de Gina, Ângela, hoje mulher feita, batizada em homenagem a avó materna, Dona Maria Ângela.

Desfeito o primeiro casamento e fechada a usina, Gina seguiu sua vida, educando os filhos e dando sequência à carreira independente de empresária, apesar da formação acadêmica como jornalista. Até que conheceu e se casou com o cirurgião plástico Emilson Ancelmé, de quem se tornou parceira em todos os sentidos.

Após as eleições de 2 de outubro, fui ao Rio para um breve período de descanso, onde soube da doença de Gina e liguei para ter maiores detalhes com seu irmão Assis. Chegado a Campos na madrugada do último sábado (15), dormi um pouco, antes de ir visitá-la no Hospital da Unimed.

Ao lado do filho Pedro, pude também constatar toda a dedicação devotada a Gina por Emilson, de causar admiração ao observador que sempre se considerou carinhoso na lida com suas próprias companheiras, ao longo da vida. E daquela mulher que sempre julguei bela e ativa, me despedi com um beijo na testa e outro na mão entrelaçada à minha.

Dos três irmãos, a mais próxima ao pai em físico e temperamento, me despeço novamente de Gina, com os versos “de asas e nuvens, em surdina” que lhe dedicou de próprio punho, mais um desenho, um outro poeta, amigo pessoal de Dr. Evaldo:

 

 

Gina - Drummond

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

0

Guilherme Carvalhal — A mulher vestida de noiva

Carvalhal 20-10-16

 

 

Passou ali, linda com seu véu amarronzado de terra, encantadora com a bainha do vestido rasgada, charmosa com o buquê despetalado em mãos, restando somentes os talos. A maquiagem se perdeu frente chuva e vento, mas ainda assim assegurava uma beleza irredutível, que persistia mesmo quando o sal da maresia e o sol castigavam sua tez.

— Mãe, por que aquela moça está vestida de noiva? — Quis saber uma criança curiosa.

A dúvida pairava em todo povoado pelo qual ela passava, mas a resposta acompanhava no rastro. Andava à procura de um marido, proclamavam os boatos pulando de boca em boca. A essa informação estática agregavam-se versões sortidas. Seria ela uma mulher abandonada ao altar que partiu louca e sem destino por ver suas esperanças afundadas na espera pelo noivo que não chegava, ou seria uma fugida do hospício que atacou uma recém-casada, levou o vestido e agora esfaqueava homens a esmo.

Essa mistura de ficções tentando explicar a ação desarrazoada da mulher criaram um folclore regional por trás dela. A fama se espalhou e onde chegava os moradores já conheciam e achavam graça quando perguntava se encontraria um homem decente com quem se casar.

Muitos se prontificavam de maneira jocosa e ela logo identificava suas intenções e virava as costas. Outros se manifestavam com sinceridade, atraídos pelo negro de sua epiderme e pelas curvas bem constituídas de seu rosto. A largura das anáguas impossibilitava que captassem as feições do corpo, mas isso ajuda a fomentar a expectativa. A esses, ela lançava perguntas diversas e intermináveis, forçando o interessado em um jogo sem saída, no qual indubitavelmente terminaria revelando uma falha sua e assim sendo descartado.

Foram meses a fio nessa jornada. Seu vestido se tornava mais roto e ao longo do tempo se desfaria em andrajos pendurados deixando-a semi-nua em público. A beleza se mantinha, mas alterava-se pela magreza da alimentação menos farta. Catava frutas pelas matas onde caminhava e recebia piedade de senhoras, todas essas lembrando-se das agruras do próprio casamento, sustentando um senso de entendimento na busca daquela mulher por algo próximo à felicidade.

Seu itinerário logo se converteu em círculos. Visitou a mesma cidade mais de uma vez e constataram que seguia um caminho exato, e muitos cogitaram que reavaliava as propostas anteriores. Quem a propôs em casamento a procurava quando retornava em busca de uma resposta positiva, mas diante de sua interpelação recebia nova recusa, nessa ocasião acompanhada de novos argumentos. As mulheres que a alimentavam então concluíram que ela viajava atrás de uma perfeição que jamais obteria e, portanto, morreria nessa caminhada.

Contrariando sua previsão, um desvio de caminho a fez estacar. Remetida a uma cidade diferente, encarou quem a fizesse colocar um ponto final em sua busca. Não um quem, mas um que. Na praça principal, encarou a estátua do fundador, um homem de vestes nobres e cartola encarando o horizonte, e nela localizou o grande amor que buscava. Sua mente vislumbrou uma miríade de encantos proporcionados por aquele homem plúmbeo.

Assim, caminhou até ele com os passos de quem entra na igreja. Ladeou-se e jurou amor até a morte, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza. Selou seu compromisso com um beijo em seus lábios gelados e atrelou-se em um forte abraço ao seu novo marido.

Todos estranharem e quando chegaram os boatos, acharam graça em seu gesto. Tornou-se uma atração local, ela ali imóvel aproveitando cada segundo ao lado de sua grande paixão. Passaram semanas e nada de se mexer, apenas deixando escorrer pelas pernas os fluídos da sua excreção.

Quando alguém ousou romper o círculo de zombaria para convencê-la a sair dali, notou o tom arroxeado da sua pele e o mal odor próximo. Tocou-lhe e a constatou rígida, já endurecida pela morte. Faleceu aos braços de seu amado e quando a removeram constataram um sorriso de felicidade que levaria para o túmulo. Viveu seu casamento até que a morte os separasse.

 

0

Carol Poesia — O que é um livro?

Carol 18-10-16 (1)

 

 

 

No dia 15 de outubro, dia do professor, Amadeus recebeu por e-mail o requerimento de uma aluna:

 

“Solicito, mais uma vez, a troca do livro que tenho que ler para o programa de leitura, por motivos religiosos. Alexandra.”

 

O programa de leitura, ao qual a aluna se refere, era um artifício de incentivo à leitura, criado pela instituição em que trabalhava. Todo semestre alguns títulos eram pré-selecionados pelos professores e os alunos votavam naquele em que gostariam de ler.

Não era a primeira vez que Amadeus recebia aquele tipo de requerimento. Certa vez, foi eleito o livro Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva, livro premiadíssimo no Brasil e sugerido pelo MEC para alunos do Ensino Básico. Pois bem. O livro foi adotado para alunos do Ensino Médio, e, mesmo assim, Amadeus foi ameaçado de processo pela mãe de uma aluna que não “se conformava” com as “passagens de sexo”. Ora, o protagonista do livro é um jovem de vinte e um anos que fica paraplégico, é claro que, em meio a suas reflexões e memórias ele iria ponderar a questão sexual.

Esses embates lembram a Amadeus que o óbvio nunca pode ser dispensado.

Reunião de pais, esclarecimentos, debates… Se os reclamantes se propusessem a ler de verdade, veriam que a pertinência do romance vai além dessas passagens, trata da resiliência e de outros aprendizados importantes. Além disso, se se propusessem a um encontro estético honesto com a obra, veriam que o lirismo com o qual o autor consegue tecer uma história tão trágica, que vem a ser, inclusive, a sua história, faz valer a pena cada linha do livro, inclusive os parágrafos que narram seus namoros.

Mas não. A sociedade, de uma forma geral, é tão “afetada” com sexo, e tão “protegida” contra o prazer que até mesmo uma única palavra no título é capaz de gerar uma recusa preconceituosa e bloquear a leitura. Inclusive no Ensino Superior! Foi assim com O julgamento de LÚCIFER (Adriano Moura), livro que trata das barbáries da humanidade. Foi assim com Memória de minhas PUTAS tristes (Gabriel García Márquez), autor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura.

Fadigado, Amadeus deixa de lado o cansaço, e, mais uma vez, acredita na educação:

 

“Prezada Alexandra,

Boa tarde!

Venho, por meio deste e-mail, fornecer-lhe alguns esclarecimentos a respeito do seu  requerimento.

O livro escolhido pelos alunos, para esse semestre, Memórias de minhas putas tristes, é uma obra de ficção. O que isso significa? Significa que, como qualquer obra de ficção, ele não tem a obrigação de se submeter ao que o senso comum nomeia como “verdade absoluta”, nem tampouco a verdades individuais. Trata-se de uma obra de arte, tal como uma novela, um filme, uma música, uma peça de teatro, ou seja, não carrega em si a obrigatoriedade de uma intenção moralizante, embora possa trazer muitos aprendizados à humanidade.

Temos que ter a clareza, Alexandra, da intenção de uma obra de arte. Qual seja: a arte existe para ‘desautomatizar’ o indivíduo, para promover um encontro estético, para suscitar questões e discussões de diversas ordens. Não existe arte sem problematização, o que não quer dizer que o leitor tenha que concordar com o ponto de vista do narrador ou do eu-lírico, que pode, por sua vez, nem vir a ser o ponto de vista do autor em si.

O que isso quer dizer? Quer dizer que no Brasil, país de NÃO leitores, é comum a equivocada equivalência feita entre ‘falar sobre’ e ‘concordar com algo’. Falar sobre um assunto, problematizar um tema NÃO significa concordar ou discordar de algum posicionamento! Ou, num vocabulário mais místico, NÃO significa compactuar com alguma ideologia. Se você for leitora do livro, entenderá isso na prática.

Como eu já li a obra várias vezes, entendo seu valor literário e sua pertinência temática, que serão bem explorados durantes os debates. Se você se dispuser a lê-lo, entenderá a sua importância e beleza. Não por acaso, Gabriel García Márquez ganhou o maior prêmio de literatura mundial — o prêmio Nobel, reservado aos autores mais importantes do mundo.

Não posso garantir que você vá gostar do livro, mas posso garantir, como leitor, escritor, professor e mestre em Teoria da Literatura, que essa obra fará diferença na sua bagagem literária e cultural. E a minha responsabilidade, como seu professor, é garantir a leitura de livros que acrescentem ao seu intelecto, afinal o intelecto é substância a ser trabalhada pelo meio acadêmico. Outras substâncias, como a espiritualidade, não obstante sua importância social e humana, fica a encargo das instituições religiosas, não sendo, portanto, uma premissa para o nosso trabalho.

Vale a pena acrescentar, a título de esclarecimento, que as universidades NÃO se opõem às instituições religiosas, trata-se apenas de campos do saber distintos. Campos esses, de que nós podemos usufruir livremente, uma vez que temos sabedoria para distinguí-los.

Nesse sentido, deferir sua solicitação seria permitir que um aluno ignorasse os benefícios intelectuais de uma obra tão criteriosamente seleciona, tão analisada pelos estudos literários e mundialmente reconhecida pelo seu valor, e perpetuasse assim um olhar equivocado, fruto de um preconceito que, ao que tudo indica, nem é religioso em si, mas decorre, possivelmente, da falta de esclarecimentos básicos no que diz respeito ao estudo de linguagens, muito comum à realidade educacional brasileira.

Agradeço, sinceramente, a possibilidade dessa discussão, que muito me interessa. Será um prazer imenso tê-la nos debates sobre o livro, para que você possa fazer suas colocações e, inclusive, contestar-me.

Não é uma preocupação para mim que você ou qualquer outro aluno, colega, leitor, concorde com o MEU ponto de vista. A minha obrigação, como professor, é que você ou qualquer outro aluno tenha conteúdo e capacidade para tecer uma boa argumentação a favor do SEU ponto de vista. E capacidade para argumentar a gente só consegue lendo, caso contrário, nossos debates ficariam reduzidos a “achismos”, o que não condiz com a qualidade pretendida pela instituição e por mim.

Atenciosamente,

Professor Amadeus”

 

 

Alexandra rapidamente respondeu ao e-mail de Amadeus:

 

“Ok. Mas eu gostaria de saber se minha solicitação para troca de livro será deferida, porque senão eu não vou fazer a prova.

Alexandra”

 

 

Amadeus, professor:

 

“Prezada Alexandra,

Entendo o exercício de sua liberdade.

Infelizmente não será possível a troca; além de tudo que o que já lhe expliquei, ela abriria precedentes e fragilizaria o processo democrático através do qual o título foi coletivamente eleito.

Atenciosamente e sempre à disposição,

Professor Amadeus”

 

 

Após a resposta de Amadeus, Alexandra procurou uma instância superior. E Amadeus se perguntou, como tantas vezes já havia feito, como tantos professores devem fazer todos os dias, se não seria mais simples deferir a bendita solicitação. Para ele seria, sim, mais simples, mais cômodo, menos cansativo, menos polêmico, mas não seria honesto. Alexandra podia ter desistido de aprender, por um equívoco conceitual bobo que ela associou a questões religiosas. Mas Amadeus não se sentia no direito de deixar de ensinar. E sabia que toda vez que ensinava, aprendia.

Respirou fundo, tomou um café quente e ligou a TV:

 

Notícia 1: “classe artística reage ao fechamento do ministério da cultura”.

Notícia 2: “dentre as propostas do movimento Escola sem Partido está a punição para professores que derem  opinião em sala de aula”.

Notícia 3: “de acordo com a nova proposta, as disciplinas de artes, sociologia, filosofia e educação física deixam de ser obrigatórias nas escolas”.

 

Respirou fundo, tomou mais um café, fez as contas de quantos anos faltam para a sua aposentadoria e foi dar aula.

 

 

[Dedico esse texto aos meus colegas professores, sobretudo aos meus pais — professores incansáveis —, e aos amigos que com sua postura contribuem decisivamente para a minha formação — Analice Martins, Adriano Moura, Douglas Lemos, Wendel Sampaio, Alcimere Maria e Lúcia Bastos.]

 

0

Fabio Bottrel — Quando te conheci, Atafona

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Gregory Alan Isakov – ThatSea, theGambler

 

 

 

 

Atafona, 19/12/15 (Foto de Diomarcelo Pessanha)
Atafona, 19/12/15 (Foto de Diomarcelo Pessanha)

 

 

Sobre o dia em que conheci Atafona, em um sarau na casa de Aluysio Abreu Barbosa, entre os maiores poetas dessa terra.

 

“No meio da poesia, desnudei-te, Atafona, logo no primeiro dia.

Entre seus amantes descobri suas glórias e suas mazelas, teus sorrisos e tuas lágrimas.

 

— Escute com atenção, meu rapaz, quem bebe da minha água jamais se esquecerá.

Preste bem atenção, meu rapaz, quem pisa na minha areia não se calará.

Viu, rapaz, o silêncio para escutar Rudá?

 

Quando a bebida acaba, o corpo perdido na sala.

Quando a guerra acaba, o soldado perdido no campo de batalha.

 

— Perceba, meu jovem, na minha areia só deita os feitos de poesia.

Veja o que a vida te reserva nos sorrisos de peitos nus.

Aprume, rapaz, o silêncio já vem de novo…”

 

0

Paula Vigneron — Espelho

Atafona, 31/07/14 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, 31/07/14 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

O sol atingia indiscriminadamente as bancas do mercado. Frutas, legumes e verduras, espalhados por balcões, pareciam frescos. “Foi tudo colhido ontem e hoje, dona moça. Pode ficar despreocupada”, informou o feirante ao perceber os olhares de Paula. A mulher sorriu em agradecimento e selecionou o que precisaria.

Sábado era dia de cozinhar para Jorge. O marido gostava de saladas criativas, segundo suas próprias palavras. E ela se sentia disposta para satisfazer os desejos do homem. Moravam juntos há 15 anos. Optaram pela não assinatura de papéis e festas para iniciar a nova fase. As comemorações foram a dois, com viagens, jantares e presentes. Viviam em um apartamento próximo ao rio que cortava a cidade. Ali, eram felizes.

Ambos atuavam no ramo da hotelaria, mas estavam de férias. Este era o primeiro dia de descanso. Paula se dedicava a fazer as vontades do homem. Cuidava dos detalhes para que os dias corressem conforme os planos dele. Sentia ser essa a sua missão de esposa. E gostava de assumir o papel com dedicação e carinho. A mãe costumava lhe dizer que, sim, ela poderia trabalhar fora de casa, mas sua verdadeira função era ser mulher.

Após selecionar os produtos que queria comprar, foi ao caixa e pagou a mercadoria. O final da manhã correra exatamente como planejado. No caminho para casa, sorria e cumprimentava os vizinhos. Todos a olhavam com expressões respeitosas e comovidas. A mulher não entendia o porquê. Abriu o portão e foi recebida por Nina, a cadela adotada há 10 anos. Mesmo cansada, sempre ia para a escada acompanhar os donos.

Acariciou a cabeça de Nina e entrou. O cheiro de limpeza indicava que Flávia havia chegado. Ela trabalhava na casa do casal desde os primeiros meses. Era uma grande amiga com quem Paula dividia segredos e histórias. Cuidadosa, passava a maior parte do dia com o casal.

“Oi, Paula.”

“Oi, Flávia. Como estão as coisas?”

“Tudo ótimo. E você? Precisa de ajuda por aí?”

“Não. Está tudo certo. Vamos cozinhar juntas?”

“Claro. Quero companhia para conversar. Vou fazer a salada que Jorge gosta. O que acha? Ele vai ficar feliz”, disse, sorrindo, enquanto se dirigia à cozinha. Flávia seguiu-a, observando seus passos. Às vezes, pensava em qual poderia ser a melhor saída.

No cômodo, a mulher já organizava o material que usaria. Por não terem feito festas e tradicionais chás para a montagem da casa, o casal comprou tudo. Poucos amigos colaboraram. Apesar do tempo, quase todos os objetos estavam bem conservados. Os dois eram caprichosos e se orgulhavam disso.

“Quando estivermos velhinhos e nada mais nos servir, vamos guardar todas as lembranças. Cada uma delas é parte de nossa história”, disse Jorge, em uma noite de jantar. E sorriu. O marido tinha um jeito peculiar de sorrir. Malandro e terno. Ela ainda se encantava com esse traço.

“O que acha de fazer aquele molho adocicado, Flávia? Ele adora!”

“Ele adora, eu sei. Adora tudo que vem de você. Mas e você, Paula?”

A mulher retornou aos afazeres, cortando os ingredientes. Acendeu o fogo e levou as panelas. Sentia-se plena. Cada detalhe exigia atenção máxima para não desandar. Embora Jorge não cobrasse, ela tentava ser impecável no que fazia para o marido. Esticou a mão e alcançou o rádio, que ecoava canções brasileiras. Suas preferidas.

As duas dividiam as tarefas. O almoço estava quase pronto quando Paula foi arrumar a mesa. Três pratos, três garfos e facas e três copos. Ajeitou papéis, canetas e contas espalhadas pelo vidro. Colocou a toalha e distribuiu os objetos. Sorria. A foto dos dois estava a poucos metros dela. Andou, segurou o retrato. A emoção que ainda sentia por ter o marido era incomum. Parecia uma adolescente apaixonada. Olhou-se no espelho, que estava posicionado próximo à mesa. Nem as rugas faziam diferença na expressão de menina que conservava ao se lembrar de Jorge.

A amiga trouxe a salada e o molho. Paula ajudou-a, reorganizando o espaço.

“Ficou ótimo. Bonito e atraente. O que achou, Jorge?”

Flávia olhou para a mulher, que sorria.

“Que bom que gostou, querido. Sente-se ao meu lado. Não. Você está ótimo. Verifique no espelho. Ficarei aqui, em direção a ele.”

E se posicionou na cadeira ao lado da de Jorge. Os três comeram enquanto Paula comentava sobre o dia. Acordara mais cedo do que o previsto para ir à feira. Flávia ouvia as palavras, mas não erguia a cabeça. Sua voz também não era ouvida.

“Então, nosso almoço está aprovado, meu amor? Isso me deixa satisfeita. E que seja apenas um feliz começo das nossas esperadas férias.”

Inclinou-se para beijar o marido. O espelho refletiu a imagem de Paula.

 

0

Ocinei Trindade — Campos não pode parar, mas Rosinha e Garotinho…

(Foto: Gerson Gomes - site Campos 24 horas)
(Foto: Gerson Gomes – site Campos 24 horas)

 

 

Não tem jeito. Nas próximas semanas, talvez meses, ou até nos próximos dois anos, a derrota de Anthony Garotinho nas eleições municipais em Campos dos Goytacazes estará em rodas de conversas, postagens nas redes sociais, nas análises políticas dos especialistas e acadêmicos. Enfim, prato cheio para quem é defensor ou opositor ao ex-governador. Creio que os políticos, sobretudo os piores deles, são contantes fontes de inspiração para jornalista, cronista, roteirista, humorista e queixosos em geral. Quase sempre adoramos criticar políticos. Nisto, Garotinho é “muso”. Onde ele errou, afinal? Especulações não faltam. Do boteco às universidades, dos terreiros de umbanda aos templos evangélicos, da Pelinca ao Custodópolis, todos têm algum palpite.

Na véspera da eleição, assisti a um vídeo de um dos integrantes do governo municipal no Facebook, onde o homem se dirigia aos cristãos evangélicos e católicos para que, naquele domingo de votação, as pessoas de bem não votassem no candidato do PPS, não votassem no número 23, pois este partido político era defensor do aborto e da homossexualidade, coisas que a família cristã não concorda e não aprova, seguindo os preceitos bíblicos. O pedido me causou surpresa e espanto, confesso, pelo conteúdo do discurso e pelo assessor governista estar dentro da sala da casa da família Garotinho, ambiente conhecido e utilizado pelo próprio secretário de governo em postagens na rede. Não resisti e acabei comentando na referida postagem o seguinte argumento:

“O pedido não deveria ser para votar no Dr.Chicão em vez de pedir para não votar em outro candidato (que aliás são seis)? Os gays e mulheres que abortam não devem votar no Dr. Chicão, é isso? O direito ao aborto garantido por lei em casos específicos é bem anterior à existência do PPS, e a união civil homoafetiva é garantida por lei, e já foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal. Que força tem o PPS nessa decisão? O Brasil sendo um país laico deve envolver igreja em assuntos políticos e eleitorais? E as outras crenças e os não cristãos devem votar em qual candidato? Quem não é cristão ou ateu não deve votar em Dr.Chicão? Sinceramente, são muitas questões que não cabem em urnas eletrônicas. Estou a meditar em ‘Ezequiel 7’, seria oportuno refletirmos todos o nosso papel na sociedade. Boa eleição a todos. Vale lembrar que Deus não vota em ninguém, mas elege benfeitores”.

Não me responderam até hoje. Frustrante. Aliás, a derrota nas urnas também frustrou 81 mil pessoas que votaram em Chicão Oliveira, apoiado por Rosinha e Garotinho, cujo slogan de campanha foi “Campos não pode parar”.  Só que Campos parou. A cidade parou para comemorar a vitória de Rafael Diniz.  Dos 359 mil eleitores, 292 mil compareceram às urnas. Destes, 151 mil  elegeram Diniz com quase 55% de preferência na disputa. Chicão recebeu 29% dos votos válidos; Caio Vianna, 11%; Nildo, quase 2%; e Pudim e Rogério, menos de 1% dos votos cada um. Campos parou para pensar e a maioria decidiu que o clã Garotinho se retirasse do poder. Dizem que será para sempre seu banimento local, mas o cantor Oswaldo Montenegro, em sua linda canção´”Sempre não é todo dia”, é mais cauteloso. Um dos versos diz: “Eu hoje acordei tão só, mais só do que eu merecia, eu acho que será pra sempre, mas pra sempre não é todo dia”. Não sei se Garotinho canta e concorda.

Costumo brincar com os números das cartas do tarô em meus textos quando me refiro aos candidatos nas eleições brasileiras. A carta 22, número do PR, partido de Garotinho e Rosinha, é a carta do Louco. Cá entre nós, tremenda loucura escolher Dr.Chicão para ser prefeito de Campos, não? Quem em sã consciência pode acreditar que ele governaria e teria autonomia no cargo? Talvez, 81 mil pessoas com alguns problemas de cognição, interpretação de textos e fatos, além de interesses pessoais que ficaram ameaçados, pois cargos e benefícios tendem a ser extintos pela nova gestão que prometeu auditoria e cobrança de prestação de contas do governo nos últimos oito anos. A carta 23, número do PPS, partido de Rafael Diniz, é a carta do Lavrador.  Em resumo, na terra de tradições agrícolas e canavieiras, o Lavrador derrotou o Louco.

E é assim mesmo, jogo é jogo. Outras disputas virão. Creio que o eleitor está mais maduro e consciente, inclusive, para punir nas urnas candidatos que se comportam mal. Pena que a gente ainda não aprendeu a votar direito para vereador. Mas está em tempo, espero, pois a Câmara de Vereadores de Campos precisa de novos e bons políticos também. Na véspera do Dia das Crianças, Garotinho não foi um bom menino, e este ano e no ano que vem, vai ficar sem presente. Aguardemos por 2018, o ano que o Brasil espera por uma redenção para livrar-se de crises, inflação, desemprego, desesperança, de Luiz Fernando Pezão e de Michel Temer, entre outros. Adivinha o que Garotinho vai querer ganhar em 2018?

Até lá, alguns acreditam, a Operação Lava-Jato poderá redesenhar o perfil dos políticos brasileiros, punindo e prendendo os que roubam e enganam a população. As listas de empreiteiras campistas e nacionais como a Odebrecht, por exemplo, estão aí para auxiliar nas investigações de policiais, juízes e promotores honestos. Como livrar-se de Garotinho nos próximos anos ou para sempre? O candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, também quer saber. Semana passada, o blogueiro Lauro Jardim do jornal O Globo, revelou a impaciência de Crivella que não atendeu aos telefonemas insistentes de Garotinho, e desabafou para quem estava perto: “Não sei como me livrar dele”. Bem, quanto a isto, a população de Campos já sabe como fazer.

 

0

Pausa no “Opiniões”

pausa

 

 

Por motivos de ordem pessoal e após muito trabalho, na cobertura das eleições municipais deste ano da Graça de 2016, este “Opiniões” vai ficar as duas próximas semanas sem atualizações, a não ser dos seus colaboradores às terças, quintas e sábados.

Se Deus quiser, leitor, nos reencontramos no próximo dia 24. Inté!!!…

 

0

Após nocaute das urnas de Campos, onde está Michael Spinks?

 

Onde está Michael Spinks?

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Tyson vs Spinks 1Era 27 de junho de 1988, poucos meses antes do garotismo chegar ao poder em Campos pela primeira vez. Foi quando um jovem de então, com apenas 28 anos, derrotou nas urnas a velha liderança do ex-prefeito Zezé Barbosa (1930/2011). Já em Atlantic City, alguém ainda mais jovem deveria enfrentar seu grande teste.

“Iron” Mike Tyson já tinha impressionado o mundo, ao ser o campeão de boxe peso pesado mais jovem da história. Tinha apenas 20 anos, quando derrotou o campeão Trevor Berbick (1954/2006) em 22 de novembro de 1986, em Las Vegas. A agressividade do estilo de Tyson fez com que o Berbick tivesse quatro quedas consecutivas no mesmo nocaute final, caindo e tentando se levantar para cair de novo, bêbado pela potência destruidora de uma força da natureza.

Conquistado o cinturão do Conselho Mundial de Boxe, Tyson trabalharia no ano seguinte para unificar o título da categoria mais importante do boxe profissional. Em 7 de março de 1987, contra James “Quebra Ossos” Smith, e em 1º de agosto do mesmo ano, contra Tony Tucker, o jovem campeão se tornou dono também dos cinturões da Associação Mundial de Boxe e da Federação Internacional de Boxe.

Mas, nos dois combates, o “baixinho” Tyson (1,78m) teve sua temida fúria em parte contida pela envergadura maior dos oponentes. Ganhou de Smith (1,93m) e Tucker (1,96m) por pontos, na decisão dos jurados, não com os nocautes brutais pelos quais se notabilizara.

Não por outro motivo, com apenas 21 anos, Tyson começou a ser questionado por parte do público e da mídia especializada. Ambos iniciaram uma campanha para lembrar ao jovem fenômeno que ainda havia outro campeão na categoria, igualmente invicto: Michael “Jinx” Spinks.

Campeão olímpico em Montreal-1976, na verdade Michael Spinks não só nunca havia perdido uma luta em sua carreira profissional, como sequer tinha sofrido uma queda, até seus 31 anos. Pugilista técnico, veio da categoria dos meio pesados. Era considerado o irmão “ajuizado” do errático Leon Spinks, que por sua vez ganhara e perdera o cinturão dos pesos pesados em 1978, em dois combates decididos por pontos, contra o legendário campeão Muhammad Ali (1942/2016), maior lutador de todos os tempos.

Por conta do seu respeitável cartel de 31 lutas, 31 vitórias e 21 nocautes, Michael Spinks se tornou um mantra na boca dos detratores de Mike Tyson. Até entrar no ringue naquela noite de junho de 1988, para defender seu cinturão, Tyson teve que ouvir durante todo o ano anterior a advertência, transformada em campanha para provocá-lo: “Mas tem o Michael Spinks! Mas tem o Michael Spinks!”.

No Trump Plaza Cassino, com a presença do proprietário Donald Trump, hoje candidato republicano a presidente dos EUA, espécie de “Bolsonaro” acima do Equador, o clima era de tensão e expectativa. E, soado o gongo inicial, a luta durou exatamente 91 segundos.

Após aguardar um ano por aquele combate, transmitido ao vivo pela TV para todo o mundo, o desavisado saiu da sala para pegar uma cerveja na geladeira da cozinha. E se surpreendeu quando voltou para constatar, incrédulo, um Spinks humilhantemente atirado fora das cordas do ringue, com as órbitas perdidas dos olhos em direções opostas ao mesmo nada.

Após encerrar a luta com um gancho de direita devastador contra a testa do desafiante, ainda na metade do primeiro assalto, Tyson abriu os dois braços e repetiu ao mundo sua indagação: “Where’s Michael Spinks? Where’s Michael Spinks?” (“Onde está Michael Spinks? Onde está Michael Spinks?”).

Depois do resultado das urnas de Campos no último domingo, com uma vitória avassaladora de Rafael Diniz (PPS) nas sete Zonas Eleitorais do município, ainda no primeiro turno, na qual o jovem neto de Zezé Barbosa derrotou 28 anos depois o envelhecido algoz do seu avô, tem muita gente até agora perguntando a mesma coisa.

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

Confira no vídeo abaixo o massacre de Tyson sobre Spinks:

 

 

 

0

Fabio Bottrel — Cidades e Pessoas

 

Música: Joan Manuel Serrat- Cantares

 

 

 

 

Bottrel 08-10-16

 

 

Sempre tive adoração pelas mulheres que fizeram da minha vida poesia, como se o meu amor fosse recordações da infância perdida, nunca entendi o prazer do mulherengo ao se completar de vazios. Assim também fui com as cidades que fizeram parte da minha vida, amei todas como se não existissem outras e mesmo que o relacionamento esteja distante, a gratidão é eterna.

Caminhando sobre o mar de pedras brancas da Praça do Liceu iluminada pelo sol que acabara de acordar, fiquei a imaginar a semelhança do destino da cidade quanto ao de uma pessoa enquanto me vinha à cabeça o poema Cantares de Antonio Machado, tudo passa e tudo fica, porém o nosso é passar, descobrimos quem somos ao ver os entes que ficam e os que deixamos pelo caminho.

Campos, ao andar se faz caminho, e ao voltar a vista atrás, se vê a senda que nunca se há de voltar a pisar. Em sua beleza vi essência desse poema e como um cônjuge sofrido como nunca merecestes ser, enfim tomastes a coragem de seguir em frente, e seus filhos esperançosos que volte a sorrir.Como “manancial de nova vida onde jamais bebi, água, vens tu até mim, bem sei que à noite “enquanto tu dormias, sonhei, bendita ilusão! Que era Deus que trazia dentro do coração.”

 

Tudo passa e tudo fica

porém o nosso é passar,

passar fazendo caminhos

caminhos sobre o mar

 

Nunca persegui a glória

nem deixar na memória

dos homens minha canção

eu amo os mundos sutis

leves e gentis,

como bolhas de sabão

 

Gosto de ver-los pintar-se

de sol e grená, voar

abaixo o céu azul, tremer

subitamente e quebrar-se…

 

Nunca persegui a glória

 

Caminhante, são tuas pegadas

o caminho e nada mais;

caminhante, não há caminho,

se faz caminho ao andar

 

Ao andar se faz caminho

e ao voltar a vista atrás

se vê a senda que nunca

se há de voltar a pisar

 

Caminhante não há caminho

senão há marcas no mar…

 

Faz algum tempo neste lugar

onde hoje os bosques se vestem de espinhos

se ouviu a voz de um poeta gritar

“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar”…

 

Golpe a golpe, verso a verso…

 

Morreu o poeta longe do lar

cobre-lhe o pó de um país vizinho.

Ao afastar-se lhe viram chorar

“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar…”

 

Golpe a golpe, verso a verso…

 

Quando o pintassilgo não pode cantar.

Quando o poeta é um peregrino.

Quando de nada nos serve rezar.

“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar…”

 

Golpe a golpe, verso a verso.

 

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

 

 

0